O PRONATEC: perspectivas e riscos sob a luz dos objetivos e interesses de estado e mercado.
Sérgio Inácio da Rosa Inês Ferreira de Souza Bragança Wânia Regina Coutinho Gonzalez
RESUMO
O presente artigo examina o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), criado pelo Governo Federal em 2011 para ampliar a oferta de cursos de educação profissional e tecnológica (EPT), cuja meta é ampliar a oferta de EPT à população brasileira para inserção no mundo do trabalho. Sob a dimensão das políticas públicas do país, o objetivo do trabalho é então, apresentar à luz do panorama das principais influências nas políticas direcionadas à gestão da educação profissional e tecnológica dos últimos anos, riscos e perspectivas do programa, examinando sua implantação e seus desdobramentos no cenário nacional, oferecendo ainda, elementos para futuras análises similares. Para tanto, o papel do estado e a convergência utilitarista dos interesses do mercado nesse programa para expansão da formação profissional assumem a posição central do artigo. Até que ponto os objetivos e interesses de mercado e estado se convertem em forças antagônicas neste programa? Concluindo que sendo atualmente o Sistema S o grande detentor dos recursos oriundos das verbas públicas destinadas ao Pronatec, os interesses mercadológicos tendem a prevalecer nas ações do PRONATEC.
ABSTRACT
This article examines the recent National Program for Access to Technical and Employment ( Pronatec ) Education , created by the Federal Government in 2011 to expand the supply of vocational and technical education, whose goal is to expand the supply of the EPT population Brazilian for insertion into the world of work . Under the dimension of public policy of the country , the objective is then made in the light of the overview of the main influences on targeted management of vocational and technological education in recent years , risks and prospects of the program policies , critically analyzing its implementation and its developments on the national scene , still offering elements for future similar analyzes . Thus, the role of the state and utilitarian convergence of market interests in this bold program for the expansion of vocational training have a central position in the article, taking the inevitable questioning : To what extent the goals and interests of market and state they become antagonistic forces this program? Concluding that the S System currently being keeper of the great resources coming from public funds for the Pronatec the market interests tend to prevail in the actions of PRONATEC.
INTRODUÇÃO
Este artigo tem como objetivo examinar o PRONATEC – Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego, programa lançado em 2011 pelo Governo Federal para ampliar a oferta de cursos de educação profissional e tecnológica (EPT) à população brasileira visando inserção no mundo do trabalho.
O programa, em sua essência, visa atender a oito milhões de brasileiros a partir da criação de novos institutos federais de educação profissional e tecnológica com investimento de um bilhão de reais.
Sua estrutura legal permite ainda possibilidade de relações com o sistema privado de formação profissional para o atendimento de suas principais metas.
Sob a dimensão das políticas públicas do Brasil, o objetivo do artigo é então, apresentar à luz do panorama histórico das principais políticas direcionadas à gestão da educação profissional e tecnológica dos últimos anos, riscos e perspectivas do programa, examinando sua implantação e seus desdobramentos no cenário nacional atual.
Cabe ressaltar que o papel do estado e a convergência quase sempre utilitarista dos interesses do mercado assumem a posição central deste trabalho, tendo em vista que o PRONATEC, visando dar mais celeridade ao acordo firmado no governo anterior com o Sistema S (Sesi, Senai, Sesc e Senac), prevê uma parceria, segundo a qual essas entidades devem aplicar recursos advindos do imposto sobre a folha de pagamentos do trabalhador na oferta de cursos gratuitos, alcançando grande parte do financiamento oriundo do PRONATEC.
A problematização arbitrada então diante do exposto é: Até que ponto os objetivos e interesses de mercado e estado se convertem em forças antagônicas neste programa?
A metodologia utilizada neste artigo baseou-se fundamentalmente em pesquisa de fontes primárias, documentos legais publicados que permitem sua execução em âmbito nacional e revisão bibliográfica sobre assuntos relacionados à EPT, como também embasamento teórico relativo à discussão provocada, visando promover suporte para futuras análises sobre a questão levantada.
O texto se encontra organizado da seguinte forma: apresentação de um breve histórico das principais influências políticas de gestão da Educação Profissional e Tecnológica no Brasil, principalmente a partir dos anos 90, objetivando o
aprofundamento nas questões das políticas públicas voltadas a educação profissional. Considerando principalmente as implicações do difundido “apagão” da mão-de-obra capacitada no país e sua relação contraditória com o processo de desenvolvimento econômico.
Em seguida, são dispostos os principais aspectos estruturantes e legais do PRONATEC, com base nas leis que o estabeleceram, bem como de suas parcerias, a fim de apresentar os principais objetivos e metas propostos no programa.
Na sequencia, a seção final aborda o panorama atual do PRONATEC, no que diz respeito às estatísticas publicadas sobre o programa, e também apresenta questões relativas a participação das entidades do sistema S, enfatizando SENAI e SENAC, por serem os principais agentes representantes na contribuição formativa, considerada representação privada dentro do programa.
A partir dos subsídios apresentados, desdobram-se então os elementos que vão nortear a discussão acerca da questão, onde diante dos conteúdos textuais analisados, documentos legais e proposições dos autores sobre o tema discutido, almeja-se obter considerações importantes que possam servir de suporte para pesquisas futuras sobre o assunto.
A expectativa deste artigo é buscar elementos que possam analisar criticamente as perspectivas e riscos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego, com o propósito de contribuir para a composição de pesquisas e análises futuras mais aprofundadas sobre o importante tema, em busca da democratização da educação profissional de qualidade em nosso país.
Portanto, o eixo central do artigo é pautado na análise do PRONATEC sobre a perspectiva da parceria público privada, debruçando-se sobre as interações entre o sistema s, SENAI e SENAC e o programa, avaliando os desdobramentos atuais e os possíveis impactos no futuro, frutos dessa parceria. Assim sendo, torna-se imperativo considerar a importância dos elementos que participam da preparação da mão de obra para o trabalho no Brasil, entendendo essa formação como instrumento capaz de superar a mera atividade manual técnica mecanicista. Na obra “Perspectivas da Educação Profissional Técnica de Nível Médio”, o professor Eliezer Pacheco (2012) pauta-se em Ciavatta quando aponta que “buscamos enfocar o trabalho como princípio educativo, no sentido de superar a dicotomia trabalho manual/trabalho intelectual, de incorporar a dimensão intelectual ao trabalho produtivo, de formar trabalhadores capazes de atuar como dirigentes e cidadãos”.
1 - Influências nas políticas de gestão da Educação Profissional no Brasil contemporâneo.
A teoria do capital humano, muito disseminada na década de 70, aliada a globalização no viés da abertura econômica, contribuíram fortemente para conceber a educação como fator determinante no desfecho da contemporaneidade. Com isso, a formulação de propostas para as atividades educativas, em especial de cunho profissional, intensificada pelo neoliberalismo, obtiveram a partir dos anos 90, forte influência nas práticas pedagógicas voltadas a formação profissional: “disseminou-se a ideia de que para ‘sobreviver’ à concorrência do mercado, para con“disseminou-seguir ou manter um emprego, para ser cidadão do século XXI, seria preciso dominar os códigos da modernidade” (SHIROMA; MORAES; EVANGELISTA, 2001, p. 47).
Os ditos “códigos da modernidade” perpassam pelo conhecimento no uso das tecnologias (informática, telecomunicações, automação, mecânica entre outras.), adaptação às constantes mudanças e exigências mercadológicas e flexibilidade profissional, onde a capacitação para o trabalho deve ser obrigatoriamente contínua e atrelada às demandas dos interesses do mercado, dentro dessa lógica globalizante.
Sob essa lógica, é válido ressaltar que as recomendações da CEPAL para uma educação de qualidade, em documento publicado no ano de 1992, cujo eixo norteador da proposta seria a ideia de “equidade social”, tinha como objetivos principais a cidadania e competitividade. Esse documento foi reiterado ao longo da década por outros organismos multilaterais, empresários e intelectuais que segundo SHIROMA; MORAES; EVANGELISTA (2001, p.48), atuaram como os arautos da reforma que se efetivou no país no final daquele século.
Também a UNESCO, com sua atuação marcante e decisiva no campo educacional, apresentou na década de 90, a educação para o século XXI. Foram convocados especialistas de todo o mundo para compor a Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. O documento elaborado pela UNESCO faz um diagnóstico do contexto e da situação da Educação na relação com o processo de “planetarização” do mundo, da globalização e de novas exigências de um mundo cada vez mais complexo. O documento identifica a necessidade de uma educação
capaz de formar pessoas aptas a se tornarem “cidadãos do mundo” numa relação estreita com a comunidade local e com a cultura global.
Neste contexto, em junho 1992, na universidade de São Paulo (USP), acontece o Fórum Capital-Trabalho, reunindo representantes de empresários, centrais sindicais, governo, universidade e centros de pesquisa. No evento foi lançada com aprovação dos participantes uma ‘Carta Educação’, que apresentava um diagnóstico do sistema educacional brasileiro. Tal diagnóstico aponta que no Brasil faltam condições para enfrentar a competição internacional pela inadequação de seu sistema produtivo, e que a superação dessa condição dependeria, sobretudo, de uma mudança na política educacional. SHIROMA; MORAES; EVANGELISTA (2001, p.64)
A disseminação dessas ideias se deu no início do governo Itamar Franco, no lançamento do Plano Decenal de Educação para Todos, no entanto, o governo de Fernando Henrique Cardoso materializou as reformas propostas pelos ‘arautos’, onde as determinantes encaminhavam a educação profissional no rumo da formação de ‘trabalhadores adaptáveis’, aptos a absorver conhecimentos diversificados sem objeções, atendendo plenamente à demanda da economia em consonância com os interesses crescentes e velozes do mercado dito “capital humano”.
Tal realidade remete ao conceito conhecido como “quase mercado”, pautada pela hegemonia do pensamento neoliberal nas últimas décadas que generaliza a visão de mundo para todas as esferas da atividade humana.
Surge assim, a noção de “quase-mercado” que, tanto do ponto de vista operativo, quanto conceitual, diferencia-se da alternativa de mercado propriamente dita, podendo, portanto, ser implantada no setor público sob a suposição de induzir melhorias.
Tal noção, fruto dos efeitos do neoliberalismo na organização escolar, difundem a adoção de políticas de quase-mercado pelos sistemas educacionais públicos, impactando diretamente as ações educativas no âmbito da educação profissional. Essa perspectiva admite subordinar a política educacional voltada a formação profissional às determinações do mercado, que em síntese se reduz aos treinamentos simples para preenchimento de postos de trabalho transitórios, reduzindo a formação profissional a cursos relâmpagos, presentes atualmente em
grande quantidade no PRONATEC e prestados principalmente pelo sistema s, por meio do SENAI e SENAC.
Essas ações revelam possíveis fragilidades que os documentos legais que fundamentam o PRONATEC permitem germinar dentro das atividades formativas do projeto em análise, permitindo, se não contestado, possíveis brechas na condução dos seus mais nobres objetivos dispostos em sua base legal.
Em suma, refletir a execução do programa, no que tange a administração dos conteúdos que formarão os profissionais atendidos, pode ser um fator primordial na contribuição para o questionamento sobre as práticas educativas desenvolvidas no PRONATEC, buscando minorar a tradição tecnicista e objetivista, presente quase sempre nos cursos profissionalizantes de curta duração.
Neste sentido, podemos analisar a formação profissional, quando concebida na categoria de mercadoria, por questões puramente mercadológicas, essa tende a ser debelada a certas características intrínsecas ao processo do modelo capitalista, sobretudo, no que diz respeito à aceleração do tempo socialmente necessário para formação humana do trabalhador, e não apenas sua concisa qualificação profissional.
Sob esta ótica, a professora Luciene Pires enfatiza que:
O que norteia a educação profissional e tecnológica não é, na verdade, a preocupação com a formação humana: há outros interesses, dentre os quais as exigências dos setores produtivos. Assim, a formação do trabalhador em instituições notadamente tecnológicas atende a lógica do capital e “forma” indivíduos tecnicamente capazes de manterem a ordem estabelecida e não de compreenderem as nuanças do processo produtivo. PIRES, p.214.
Destarte, o que se busca sinalizar aspectos que possam inferir que os rumos do PRONATEC possam seguir os caminhos apontados pela professora Luciene Pires, que apresenta como expediente a superação do vínculo imediatista com o setor produtivo, compreendendo que a formação humana não pode se ater apenas à qualificação do trabalhador nem a interesses práticos, imediatos. (PIRES, 2011). Por conseguinte, sem fugir ao escopo deste trabalho, analisaremos a seguir o PRONATEC no que concerne a sua estrutura legal, a lei que o instituiu, seus objetivos, suas finalidades e as iniciativas legais que o sustentam.
Cabe antes salientar que o objetivo desta análise é dispor de informações capazes de contribuir para diagnósticos que facilitem a compreensão das ações
incongruentes do PRONATEC, em busca de contrapartidas suficientemente adequadas para proporcionar possíveis soluções nas contradições reveladas.
2 – O que é o PRONATEC?
Em 26 de outubro de 2011, a presidenta DILMA ROUSSEFF aprova o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC), instituindo a lei nº 12.513, a ser executada pela União, com a finalidade de ampliar a oferta de educação profissional e tecnológica, por meio de programas, projetos e ações de assistência técnica e financeira, cujos objetivos, são assim descritos:
I - expandir, interiorizar e democratizar a oferta de cursos de educação profissional técnica de nível médio presencial e a distância e de cursos e programas de formação inicial e continuada ou qualificação profissional;
II - fomentar e apoiar a expansão da rede física de atendimento da educação profissional e tecnológica;
III - contribuir para a melhoria da qualidade do ensino médio público, por meio da articulação com a educação profissional;
IV - ampliar as oportunidades educacionais dos trabalhadores, por meio do incremento da formação e qualificação profissional;
V - estimular a difusão de recursos pedagógicos para apoiar a oferta de cursos de educação profissional e tecnológica.
VI - estimular a articulação entre a política de educação profissional e tecnológica e as políticas de geração de trabalho, emprego e renda. (Incluído pela Lei nº 12.816, de 2013).
Nota-se claramente que o propósito do programa é o de fomentar a formação profissional no país, atendendo prioritariamente, de acordo com o Art. 2º da lei, uma determinada fração do universo educacional do país, são eles:
I - estudantes do ensino médio da rede pública, inclusive da educação de jovens e adultos;
II - trabalhadores;
III - beneficiários dos programas federais de transferência de renda; e
IV - estudante que tenha cursado o ensino médio completo em escola da rede pública ou em instituições privadas na condição de bolsista integral, nos termos do regulamento.
Para tanto, o programa estabelece em seu texto legal que: O Pronatec cumprirá suas finalidades e objetivos em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, com a participação voluntária dos serviços nacionais de aprendizagem, de instituições privadas e públicas de ensino superior, de instituições de educação profissional e tecnológica e de fundações públicas de direito privado precipuamente dedicadas à educação profissional e tecnológica, habilitadas nos termos desta Lei.
Objetivando a realização dessas ações, o Pronatec estabelece as seguintes iniciativas: (i) Expansão da Rede Federal de EPT; (ii) Bolsa-Formação Estudante e Trabalhador, esta última nas modalidades Seguro-Desemprego e Inclusão Produtiva; (iii) FIES Técnico Estudante e Empresa; (iv) E-TEC Brasil; (v) Brasil Profissionalizado; (vi) Continuidade do Acordo de Gratuidade Sistema S; e (vii) Ampliação da Capacidade do Sistema S.
Outra iniciativa do PRONATEC é o FIES Técnico, que vincula repasse de recursos do programa para instituições privadas. Consiste no provimento de linha de crédito para estudantes, trabalhadores empregados e setor empresarial para o custeio de cursos da EPT no Sistema S e em instituições privadas habilitadas pelo Ministério da Educação (MEC).
Também relacionada com o Sistema S o Acordo de Gratuidade é outra iniciativa que prevê ampliar progressivamente a aplicação em matrículas gratuitas de cursos técnicos e FIC dos recursos recebidos através da Contribuição Compulsória (fundos públicos) até a meta de 66,67% das matrículas, em 2014.
Neste cenário, é válido destacar ainda que a ampliação da capacidade do Sistema S é também uma iniciativa do PRONATEC. O intuito é readequar a infraestrutura e os equipamentos dos Serviços Nacionais de Aprendizagem, visando atender o aumento da demanda provocado pelo atendimento ao PRONATEC.
O financiamento desta iniciativa, dentro do PROANATEC, tem como fonte o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que, em 2012, já repassou 1,5 bilhão ao programa SENAI como amparo a competitividade industrial para investimento em obras de infraestrutura (construção, modernização e ampliação de unidades), além da aquisição de máquinas e equipamentos destinados ao aparelhamento das unidades.
Cabe ainda destacar que a mudança ocorrida no enquadramento institucional do Sistema S que, de acordo com o artigo 20 da Lei 12.513, passa a integrar o sistema
federal de ensino, mantendo contudo, “autonomia para a criação e oferta de cursos e programas de educação profissional e tecnológica, mediante autorização do órgão colegiado superior do respectivo departamento regional da entidade, resguardada a competência de supervisão e avaliação da União”.
A realidade exposta demonstra que o sistema s, através do SENAI e SENAC, é um dos maiores participantes na execução dos objetivos propostos pelo programa, e consequentemente um dos maiores detentores do repasse de verbas.
Dentro desta perspectiva, veremos na próxima seção alguns dados que tratam especificamente das relações entre o PRONATEC e as entidades participantes do sistema s, com intuito de comprovar essa participação acentuada.
Também mostraremos informações sobre cursos oferecidos e executados pelas ações do programa até o momento, reunindo elementos supostamente suficientes para discutir então a problematização proposta no artigo.
3 – PRONATEC: Dados e informações relevantes.
Os dados disponíveis sobre o PRONATEC, desde sua implantação, são ainda escassos e talvez insuficientes para análises e estudos mais aprofundados sobre resultados das ações realizadas pelo programa em âmbito nacional.
Entretanto, considerando o escopo básico deste artigo, apresentaremos a seguir, dados estatísticos e informações acerca dos desdobramentos do programa, disponibilizados pelos órgãos competentes.
Em primeira análise, os dados a seguir, oriundos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), apresenta oferta de cursos técnicos subsequentes1 oferecidos de 2007 a 2012 por instituições privadas de ensino e escolas técnicas de nível médio, perfazendo um total de 7.625.457 alunos matriculados entre 18 e 24 anos.
Podemos observar um crescimento contínuo na oferta de cursos técnicos profissionalizantes de 2007 a 2012.
Considerando que a lei do PRONATEC entrou em vigência a partir de 2011, percebe-se também a manutenção linear deste crescimento sem alterações significativas.
A tabela seguinte apresenta em números, as metas do programa até 2014, contabilizando cursos técnicos e cursos FIC (Formação Inicial e Continuada). Destacamos, para fins de análise, a participação do sistema s nessas modalidades de formação profissional.
Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP)/PRONATEC.
Os índices expressos pelas metas demonstram que a participação do sistema s na realização de cursos FIC de pequena e média duração é significativamente maior do que nos cursos técnicos2.
Vale ressaltar que os cursos FIC, são cursos ofertados de acordo com a demanda da cidade ou região, geralmente de curta duração, e visam capacitar inicialmente, atualizar, aperfeiçoar e/ou especializar profissionais, independentemente do nível de escolaridade.
2 Estes cursos referem-se a um nível ou subsistema de ensino enquadrado no nível médio dos sistemas educativos, referindo-se normalmente a uma educação realizada em escolas secundárias ou outras instituições que conferem diplomas profissionais credenciados e autorizados pelo MEC. Obedecem a um catálogo publicado pelo Ministério da Educação e possuem critérios de carga horária mínima pré-estabelecidos.
Lançados pelo MEC, os 140 cursos FIC/PRONATEC, em sua 3ª edição (2013), totalizam 644 opções diferentes, distribuídos em 13 eixos tecnológicos. Alguns exemplos são mostrados na tabela abaixo:
Fonte: Elaboração própria, baseado em dados do MEC - Ministério da Educação (2013).
De acordo com o MEC, o guia Pronatec de cursos FIC foi elaborado para direcionar a oferta dos cursos do Pronatec. São atualizados periodicamente, com o intuito de consolidar as políticas públicas que objetivam aproximar o mundo do trabalho ao universo da educação.
Como pode ser visto, os cursos FIC/PRONATEC variam sua carga horária de duração de 160 a 400 horas no máximo, e visam atender demandas específicas de mercado.
Para efeito de comparação, os cursos técnicos de nível médio possuem exigência de carga horária mínima de 800 horas, sem contar a carga horária prevista para estágios profissionais supervisionados.
Essa comparação demonstra abissal diferença de conteúdo programático quando confrontamos cargas horárias oferecidas nas duas modalidades do PRONATEC.
O pesquisador do financiamento da educação profissional, Gabriel Grabowski, diretor do Instituto de Ciências Humanas, Letras e Artes do Centro Universitário Feevale, afirma que o protagonismo do Sistema S na operação do Pronatec é questionável. Das 2,5 milhões de matrículas criadas em 2011 e 2012, 1,309 milhão estão na conta das entidades empresariais, que recebem transferências por cada matrícula. O Sistema S acaba virando um braço de gestão privada do Estado.
Grabowski pondera sobre a formação dos cursos FIC/PRONATEC: “me preocupa a concepção de formação de curta duração dos cursos e a questão pedagógica secundarizada. Poderemos ter surpresas na avaliação final do programa quanto à real efetividade pedagógica e social”. GRABOWSKI (2013).
Nesse contexto, o economista Naercio Menezes Filho, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (INSPER), também coloca em questão o excesso de cursos com baixa carga horária no PRONATEC. O professor Menezes enfatiza que:
Cerca de 70% das matrículas do Pronatec são de cursos de formação inicial e continuada (FIC), com carga horária mínima de 160 horas e baixa exigência de escolaridade. O restante das vagas é dos programas com carga horária mínima de 800 horas, sendo residuais as inscrições em cursos técnicos integrados ao ensino médio, cuja carga horária supera 2 mil horas - três a quatro anos de duração. O mercado de trabalho valoriza o profissional especializado, logo, quanto melhor é o currículo do curso técnico maior o retorno em termos de remuneração. MENEZES FILHO, (2013)
Com efeito, observam-se incongruências nos objetivos do PRONATEC e a real aplicação de seus respeitáveis recursos financeiros. Sobre esse assunto, o professor Nicholas Davis (2010), revela que:
Para atenuar estes e outros problemas do financiamento da educação, uma solução seria a priorização das políticas ditas sociais... Outra medida seria uma reforma tributária em favor das regiões... Por fim, seria fundamental o controle social (entendendo por isso o controle exercido por entidades que representam a maioria da população) sobre as verbas vinculadas à educação, uma vez que, sem este controle, as verbas, mesmo aumentadas, podem ser dilapidadas pelo desperdício, corrupção e tantos outros males da gestão da coisa pública. DAVIS, p.244.
Davis assinala a importância da participação efetiva por parte das entidades representativas da população nas questões do financiamento da educação.
Do mesmo modo, tratando-se do PRONATEC, observa-se precário envolvimento entre os cursos ofertados e a participação democrática e transparente por parte da sociedade civil na escolha destes, bem como, na aplicação de seus recursos financeiros.
Finalizando esta seção, o quadro abaixo ilustra a atual posição dos resultados do PRONATEC expressos quantitativamente.
Fonte: INEP – Censo da educação Básica, Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Mec e RAIS. PRONATEC. (2013).
Em análise, destacamos a maciça diferença de investimentos em cursos FIC (1.748 mil), em detrimento aos 811 mil destinados a cursos técnicos.
Igualmente expressivo, são os investimentos dentro do PRONATEC para o ano de 2014, que salta de 3,6 bilhões (2013) para 5,2 bilhões (2014).
O destaque final fica para análise do ínfimo crescimento da educação profissional de 2011 (implantação do PRONATEC) até o ano 2012.
4- Conclusões preliminares.
A direção investigativa que exploramos neste artigo, pretende contribuir para pesquisas futuras de caráter mais abrangente sobre assunto. Portanto longe de esgotar a questão proposta, o que se quer é ampliar o debate acerca das questões sobre o PRONATEC, principalmente no que tange a suas ações, investimentos e resultados, visando auxiliar possíveis intervenções futuras. Portanto, as conclusões a seguir são frutos de análises preliminares, que tem por objetivo colaborar para a materialização de direitos e igualdade social relativas à formação profissional em nosso país, onde a participação efetiva da sociedade civil ocorra democrática e concretamente.
Sob essa ótica, a professora Vera Peroni adverte sobre qual é o significado dessa democracia de participação. Questiona sobre a concepção dessa participação, quando a sociedade civil é chamada mais a executar tarefas do que participar das decisões e do controle social. PERONI, p.220. 2009.
Nesse sentido, Stephen Ball também sinaliza que as politicas normalmente não dizem o que fazer; elas criam circunstâncias nas quais o espectro de opções disponíveis sobre o que fazer é reduzido ou modificado ou em que metas particulares ou efeitos são estabelecidos. BALL, p.46. 2011.
Deste modo, sendo o sistema s um agente essencial do programa, agraciado diretamente por recursos públicos em diversas modalidades, ponderáramos a lei 12.513 que institui o PRONATEC, quando assinala uma visão de educação profissional atrelada à demanda do mercado. Isso fica claro quando observamos a exposição de motivos interministerial n° 19, de 28.04.2011, um dos documentos legais do programa, que afirma ser o objetivo principal do PRONATEC a oferta de “oportunidade de formação profissional aos trabalhadores e jovens estudantes brasileiros, criando condições favoráveis para sua inserção no mercado de trabalho”. Talvez, esse seja o início da compreensão do sistema s ser o principal agente favorecido pelo programa, já que a partir de seus participantes (SENAI e SENAC) tem por objetivos precípuos, elevar a competitividade da indústria brasileira e estar alinhado com as necessidades do setor do comércio de bens, serviços e turismo. Entretanto, contraditoriamente o Secretário de Educação Profissional e Tecnológica do período de lançamento do programa, Eliezer Pacheco, declara que: “uma formação profissional mais abrangente e flexível, com menos ênfase na formação
para ofícios e mais na compreensão do mundo do trabalho e em uma participação qualitativamente superior nele”. PACHECO, p.15. 2011.
A intenção do programa, que preocupava-se em sua essência a formar um trabalhador autônomo e cônscio de suas potencialidades, transforma-se no mero treinamento de mão-de-obra voltado a acatar as demandas do mercado de trabalho. A professora Luciene Pires adverte que: se o mercado é tão emergente e exige trabalhadores polivalentes capazes de atuar em diferentes setores, áreas, empresas, não é uma formação aligeirada, pragmática, que vai assegurar esta atuação. Pires acredita que é justamente o contrário: só uma formação sólida seria capaz de assegurar esta possibilidade. PIRES, p.215.
Diante disso, importante seria disponibilizar ações dentro do programa, que garantissem itinerários formativos capazes de oportunizar aos trabalhadores atendidos condições de progresso contínuo em seus estudos, viabilizando sua participação efetiva nas carreiras ofertadas.
Promover uma aliança entre governo, empresários e trabalhadores, onde, igualmente os interesses fossem apontados na direção da formação de mão de obra profissional, também seria um fator preponderante nos desdobramentos do PRONATEC.
Ademais, uma transparência e fiscalização mais eficiente nas atividades de repasse de verbas às entidades participantes, seriam também fatores imprescindíveis para execução de uma política mais democrática.
Deste modo, em conclusão preliminar entende-se que sendo o Sistema S grande detentor dos recursos oriundos das receitas públicas destinadas ao financiamento do programa, os interesses mercadológicos tendem a prevalecer nas ações do PRONATEC.
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