UNIVERSIDADE
CATÓLICA DE
BRASÍLIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
STRICTO SENSU
EM EDUCAÇÃO
Mestrado
EDUCAÇÃO SUPERIOR E PROJETO DE VIDA NA
PERCEPÇÃO DOS LONGEVOS
Autora: Natsuko Cinagava Sato
Orientadora: Prof.
aDra. Jacira da Silva Câmara
NATSUKO CINAGAVA SATO
EDUCAÇÃO SUPERIOR E PROJETO DE VIDA NA PERCEPÇÃO DOS LONGEVOS
Projeto de Dissertação apresentado ao Programa de Pós-Graduação “Stricto Sensu” em Educação da Universidade Católica de Brasília, para obtenção do grau de Mestre em Educação.
Orientadora: Prof.ª Dra. Jacira da Silva Câmara
Ficha elaborada pela Coordenação de Processamento do Acervo do SIBI – UCB
S253e Sato, Natsuko Cinagava.
Educação superior e projeto de vida na percepção dos longevos / Natsuko Cinagava Sato. – 2008.
158 f. : il. ; 30 cm.
Dissertação (mestrado) – Universidade Católica de Brasília, 2008. Orientação: Jacira da Silva Câmara.
1. Idosos – Ensino superior. 2. Idosos – Aposentadoria. 3. Idosos – Projetos. 4. Trabalho. 5. Longevidade. I. Câmara, Jacira da Silva, orient. II. Título.
AGRADECIMENTOS
A Deus, Amado Pai Celestial, pela infinita bondade, pela proteção e pela permissão para chegar e prosseguir o caminho da sempre Vitória!
À minha querida orientadora, Professora Drª. Jacira da Silva Câmara, pela sábia orientação, pela paciência que teve com meu aprendizado e pelo crescimento intelectual que me proporcionou.
À Professora Drª. Clélia de Freitas Capanema, pelas preciosas anotações que muito enriqueceram o trabalho e por fazer parte da comissão examinadora.
À Professora Drª. Vera Maria Nigro de Souza Placco, pelas valiosas sugestões e por ter aceito o convite para compor a comissão examinadora.
Ao Professor Dr. Cândido Alberto da Costa Gomes, sou-lhe muito grata pelas orientações que fizeram emergir os trechos do projeto de dissertação. Meu carinho e meu reconhecimento.
Aos professores Dr. Afonso Galvão, Drª. Beatrice Laura Carnielli, Dr. José Florêncio Rodrigues Júnior e Dr. Luis Síveres que, com seus ensinamentos, me ajudaram no processo do meu amadurecimento.
Aos professores Leão e Cândida, pelo pronto atendimento ao abrir as portas para a pesquisa no campo.
Ao amigo João Batista, pelas experientes e sábias contribuições, orientando-me na construção e estruturação lógica do trabalho.
Ao Alair e à Ana França, pela amizade e pelas correções gramaticais e textuais no projeto ainda embrião.
Às amigas, amigos e colegas do mestrado Eliana Sarreta, Eliana Pessoa, Eliana Melo, Ive, Severino e Ana, Soninha, Tarcilena, Fernanda, Cida, Kátia, Eny, Emília, Paulinha, Zélia e outros tantos que compartilharam os saberes nas aulas do mestrado e nos trabalhos acadêmicos. À amiga Eunice, também pela sua colaboração.
À Sheila e aos funcionários da UCB que me atenderam durante o Mestrado. Aos longevos entrevistados, pela confiança ao revelarem os fatos da vida e preciosidades singulares e pelo entusiasmo com que me apoiaram no estudo. Agradeço também aos professores e colegas dos longevos que concederam as entrevistas. Sem vocês, não seria possível elaborar esta dissertação.
“Os critérios da avaliação da idade, da juventude ou da velhice, não podem ser os do calendário. Ninguém é velho só porque nasceu há muito tempo ou jovem porque nasceu há pouco. Somos velhos ou moços muito mais em função de como pensamos o mundo, da disponibilidade com que nos damos curiosos ao saber, cuja procura jamais nos cansa e cujo achado jamais nos deixa imovelmente satisfeitos. Somos moços ou velhos muito mais em função da vivacidade, da esperança com que estamos sempre prontos a começar tudo de novo e se o que fizemos continua a encarnar sonho nosso, sonho eticamente válido e politicamente necessário”.
RESUMO
SATO, Natsuko Cinagava. Educação superior e projeto de vida na percepção
dos longevos. 2008. 158 f. Dissertação (Mestrado em Educação)–Universidade
Católica de Brasília, Brasília, 2008.
Atualmente, o tema longevidade encontra-se em evidência pressionado pela nova configuração populacional, em razão do crescimento progressivo de expectativa de vida que, aliado à queda na natalidade e na mortalidade, vem trazendo desafios para a sociedade em geral e, particularmente, para a educação. Esse fato enseja pesquisas e estudos mais acurados para ressignificação dos conceitos que envolvem o tema. Assim, este trabalho teve como objetivo geral analisar a busca dos longevos pelos cursos de graduação em Instituições de Ensino Superior. Especificamente, o trabalho buscou identificar as características dos longevos, a relação entre trabalho e o projeto de vida pessoal e profissional; investigar as relações estabelecidas no ambiente escolar; e identificar as estratégias metodológicas utilizadas pelo professor. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de caráter exploratório, cujo método utilizado se apoiou na técnica da entrevista semiestruturada e na observação. Foram entrevistados 13 alunos longevos matriculados nos cursos de graduação de uma instituição de ensino superior do Distrito Federal; 6 alunos de outra faixa etária, colegas dos longevos e 5 professores dos longevos. Os resultados evidenciaram não haver limite de idade para retornar ou continuar os estudos; superar deficiências; enfrentar desafios; e realizar sonhos. Estudar tem valor inquestionável para os longevos entrevistados. Ficou evidente que as universidades não estão preparadas para lidar com a heterogeneidade sociocultural e etária dos alunos. A pesquisa apresentou pontos relevantes para aprimoramento no processo educativo junto aos longevos. Os longevos desejam ser reconhecidos como cidadãos incluídos, valorizados e atuantes em prol de uma existência saudável, autônoma e feliz.
ABSTRACT
SATO, Natsuko Cinagava. Higher education and life project in the perception of
the old-aged ones. 2008. 158 f. Dissertação (Mestrado em Educação)–
Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2008.
Nowadays, the subject longevity is in evidence pressed by the new populational configuration, on account of the progressive growth of life expectancy that, allied to the fall at birth rate and mortality, has brought challenges to society in general and, particularly, to education. This fact provides with an opportunity to more accurate inquiries and studies for the resignification of the concepts that are implied in the subject. Thus, this work had as general objective analyzing the search of the old-aged ones for the graduation courses at Higher Educational Institutions. Specifically, the work tried to identify the characteristics of the old-aged ones, the relation between work and personal and professional life project; to investigate the relations established at the school environment; and to identify the methodological strategies used by the teacher. It is an exploratory qualitative research whose used method was based upon the semi-structured interview and the observation techniques. Thirteen old-aged students enrolled at graduation courses of a higher educational institution of Distrito Federal were interviewed; 6 students of another age group; colleagues of the old-aged ones; and 5 teachers of the old-aged ones. The results showed up that there is no age limit to return or continue the studies; to overcome deficiencies; to face challenges; and to fulfill dreams. Studying has unquestionable value to the interviewed old-aged ones. It was clear that the universities are not prepared to deal with the sociocultural and age heterogeneity the students. The research presented relevant points to improvement at the educative process with the old-aged ones. The old-aged ones want to be recognized as included citizens, valorized and active on behalf of a healthy, autonomous and happy existence.
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - As oito idades do ser humano segundo a teoria de Erikson ... 28
Quadro 2 - O conceito de educação permanente ... 38
Quadro 3 - Diferenças entre análise de discurso e análise de conteúdo ... 65
Quadro 4 - Características dos alunos longevos ... 73
Quadro 5 - Categorias de análise e aspectos identificados ... 129
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Pirâmide etária brasileira em 2025 ... 19
Figura 2 - Sequência de alterações no formato da pirâmide populacional no Brasil . 21
Figura 3 - Mapa Conceitual de Categorização ... 68
Figura 4 - Aspectos identificados – 2ª Categoria - “Relação entre trabalho e vida” .. 75
Figura 5 - Mapa de práticas discursivas - 2ª Categoria - “Relação entre trabalho e vida” (1-Trabalho) ... 76
Figura 6 - Mapa de práticas discursivas - 2ª Categoria - “Relação entre trabalho e vida” (2-Trabalho) ... 78
Figura 7 - Elementos do aspecto “Trabalho” ... 80
Figura 8 - Mapa de práticas discursivas - 2ª Categoria - “Relação entre trabalho e vida” (1-Aposentadoria) ... 82
Figura 9 - Mapa de práticas discursivas - 2ª Categoria - “Relação entre trabalho e vida” (2-Aposentadoria) ... 84
Figura 10 - Elementos do aspecto “Aposentadoria” ... 86
Figura 11 - Mapa de práticas discursivas - 2ª Categoria - “Relação entre trabalho e vida” (1-Educação permanente) ... 87
Figura 12 - Mapa de práticas discursivas – 2ª Categoria - “Relação entre trabalho e vida” (2-Educação permanente) ... 88
Figura 13 - Elementos do aspecto “educação permanente” ... 90
Figura 14 - Aspectos identificados – 3ª Categoria - “Projeto de vida pessoal e
profissional dos longevos” ... 91
Figura 15 - Mapa de práticas discursivas - 3ª Categoria - “Projeto de vida pessoal e profissional dos longevos” (1-Longevidade) ... 93
Figura 16 - Mapa de práticas discursivas - 3ª Categoria - “Projeto de vida pessoal e profissional dos longevos” (2-Longevidade) ... 94
Figura 17 - Mapa de práticas discursivas - 3ª Categoria - “Projeto de vida pessoal e profissional dos longevos” ... 96
Figura 18 - Elementos do aspecto “Projeto de vida pessoal e profissional dos
longevos” ... 97
Figura 19 - Mapa de práticas discursivas - 3ª Categoria - “Projeto de vida pessoal e profissional dos longevos” ... 99
Figura 20 - Elementos do aspecto “Motivação para estudo” ... 102
Figura 21 - Mapa de práticas discursivas - 3ª Categoria - “Projeto de vida pessoal e profissional dos longevos” (1-Expectativa e planos de vida) ... 103
Figura 23 - Elementos do aspecto “Expectativa e planos de vida pessoal e
profissional” ... 106
Figura 24 - Aspectos identificados na categoria “Relacionamento (longevos),
professores e colegas)” ... 107
Figura 25 - Mapa de práticas discursivas - 4ª Categoria - “Relacionamento (longevos, professores e colegas)” (1-Discriminação na escola) ... 108
Figura 26 - Mapa de práticas discursivas - 4ª Categoria - “Relacionamento (longevos, professores e colegas)” (2-Discriminação na escola) ... 109
Figura 27 - Mapa de práticas discursivas - 4ª Categoria - “Relacionamento (longevos, professores e colegas)” ... 110
Figura 28 - Elementos do aspecto “Discriminação na escola” ... 111
Figura 29 - Mapa de práticas discursivas - 4ª Categoria - “Relacionamento (longevos, professores e colegas)” (Discriminação fora da escola) ... 112
Figura 30 - Elementos do aspecto “Discriminação fora da escola” ... 113
Figura 31 - Mapa de práticas discursivas - 4ª Categoria – “Relacionamento com colegas de outra faixa etária” (Percepção dos longevos) ... 116
Figura 32 - Mapa de práticas discursivas 4ª Categoria - “Percepção dos longevos: relacionamento com os professores” 117
Figura 33 - Mapa de práticas discursivas - 4ª Categoria - “Relacionamento com os longevos” (Percepção dos colegas de outra faixa etária ... 119
Figura 34 - Mapa de práticas discursivas 4ª Categoria - “Relacionamento com os longevos” (Percepção dos professores) ... 121
Figura 35 - Resumo do resultado da análise do aspecto “Relacionamento (longevos, colegas e professores)” ... 123
Figura 36 - Aspectos identificados - 5ª Categoria - “Estratégias metodológicas:
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ...14
JUSTIFICATIVA... ... 16
CAPÍTULO 1 - REVISÃO DA LITERATURA ... 18
1.1 LONGEVIDADE EM CENA ... 18
1.1.1 O envelhecimento e seu significado ... 23
1.1.2 A velhice: da antiguidade à contemporaneidade ... 26
1.2 SENTIDO DO TRABALHO E DA APOSENTADORIA ... 32
1.3 EDUCAÇÃO PERMANENTE E CONTINUADA NA LONGEVIDADE ... 36
1.4 MODALIDADES DE EDUCAÇÃO PARA LONGEVOS NAS UNIVERSIDADES ... 40
CAPÍTULO 2 - A PESQUISA E SEUS COMPONENTES ... 47
2.1 FORMULAÇÃO E DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA DA PESQUISA ... 47
2.2 OBJETIVOS ... 49
2.2.1 Geral ... 49
2.2.2 Específicos ... 49
2.3 REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO ... 50
2.3.1 Método de pesquisa e produção científica ... 50
2.3.2 Definição e descrição do tipo de pesquisa ... 52
2.3.3 Técnicas utilizadas na pesquisa ... 54
2.3.3.1 Entrevista semiestruturada ... 54
2.3.3.2 Observação na abordagem qualitativa ... 56
2.3.4 Campo de pesquisa e pessoal participante ... 57
2.3.5 Análise do discurso: produção de sentidos e práticas discursivas ... 58
2.3.6 Análise de discurso versus análise de conteúdo ... 60
CAPÍTULO 3 - ANÁLISE E DISCUSSÃO DO CORPUS DA PESQUISA ... 66
3.1 ANÁLISE DAS ENTREVISTAS (CORPUS DA PESQUISA) ... 66
3.2 CATEGORIAS DE ANÁLISE ... 67
3.2.1 Primeira categoria - características dos alunos longevos ... 69
3.2.2 Segunda categoria - relação entre trabalho e vida ... 74
3.2.2.1 Trabalho ... 75
3.2.2.2 Aposentadoria... 81
3.2.3 Terceira categoria - projeto de vida pessoal e profissional dos
longevos ... 91
3.2.3.1 Longevidade ... 92
3.2.3.2 Motivação para o estudo ... 98
3.2.3.3 Expectativa e planos de vida pessoal e profissional ... 102
3.2.4 Quarta categoria - relacionamento (longevos, professores e colegas) ... 107
3.2.4.1 Discriminação na escola ... 108
3.2.4.2 Discriminação fora da escola ... 112
3.2.4.3 Relacionamento (longevos, professores e colegas) ... 114
3.2.5 Quinta categoria - estratégias metodológicas: atualização pessoal / profissional e inclusão na sociedade ... 123
CAPÍTULO 4 - CONCLUSÕES, CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES ... 131
REFERÊNCIAS... ... 137
APÊNDICE A – Roteiro de entrevista semi-estruturada – alunos longevos ... 147
APÊNDICE B – Roteiro de entrevista semiestruturada – alunos de outra faixa etária ... 149
APÊNDICE C – Roteiro de entrevista semiestruturada – professores ... 150
APÊNDICE D – Roteiro de observação no campo ... 152
APÊNDICE E - Carta para instituição de ensino, solicitando informar A quantidade de longevos acima de 55 anos matriculados na graduação presencial ... 154
APÊNDICE F – Tabela de quantidade de alunos acima de 55 anos matriculados nos cursos de graduação presenciaL ... 156
APÊNDICE G – Quadro com características de colegas de outra faixa etária que foram entrevistados ... 157
INTRODUÇÃO
“Viver não é meramente respirar, mas sim agir; é fazer uso de nossos órgãos, sentidos e faculdades, de todas as partes de nós mesmos que nos dão a sensação de existência.”
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)
A presente dissertação aborda a educação dos longevos que continuam se
atualizando e se aperfeiçoando nos cursos de educação superior em uma instituição
de ensino do Distrito Federal, com o intuito de verificar o que ocorre com eles e
quais são seus sentimentos e seus projetos de vida. No contexto atual, o longevo
tornou-se ator no cenário político e social, frente ao Estado e a sociedade que não
podem mais ignorá-lo. Percebe-se atualmente que o tema longevidade encontra-se
em evidência, pois o crescimento progressivo de expectativa de vida, aliado à
diminuição da natalidade, traz grandes desafios para a sociedade em geral e,
particularmente, para a educação. Desde a década passada, as Nações Unidas vêm
advertindo que o envelhecimento representará um grande desafio para a sociedade
contemporânea (CÂMARA, 2006; FRANÇA; STEPANSKY, 2005).
Em termos mundiais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) (BRASIL; IBGE, 2002), o crescimento da população de longevos vem
acelerando em vários países. As estatísticas mostram que, em 1998, a população de
idosos no mundo era em torno de 579 milhões e, em 2050 será de 1.900 milhões de
pessoas. Atualmente, os números comprovam que uma em cada dez pessoas tem
60 anos de idade ou mais. Para 2050, estima-se que essa relação será de uma para
cinco em todo o mundo e, de uma para três, nos países desenvolvidos. No Brasil, os
longevos representam hoje quase 15 milhões de pessoas, 8,6% da população total
do País. Nessa perspectiva, a população de longevos cresce e continua oferecendo
seu cabedal de experiências nada desprezível. Além disso, o tema “longevidade
populacional” se insere no âmbito das forças sociais, resultado das mudanças e
inovações que ocorrem na sociedade e se transformam em pressões (CÂMARA,
2006).
Os diferentes estudos sobre envelhecimento encontrados na literatura
menor consideração (BEAUVOIR, 1990). De acordo com Kachar (2001), nesta
sociedade pós-moderna e capitalista, que idolatra os novos e despreza a
experiência dos mais velhos, estes não têm espaço para provar que as suas vidas
não se reduzem a uma soma de idades e de acontecimentos. Falar sobre
envelhecimento envolve múltiplos fatores e dimensões como o biológico, psicológico,
existencial, cultural, social, econômico e político (PAZ, 2001; NERI, 2005) e, com
certeza, os idosos têm muito a dizer e a sociedade tem muito a aprender com eles.
Sendo a educação dos longevos o foco desta pesquisa, é importante
compreender o que os leva à educação superior. Assim, investigar quem são os
longevos que continuam se atualizando e se aperfeiçoando nos cursos de
graduação, revela-se uma necessidade de pesquisa na medida em que o
contingente de estudantes longevos que buscam a educação superior tende a
aumentar. O presente trabalho insere-se nesse contexto, ao identificar esse grupo
de pessoas, investigar seus sentimentos e indagar sobre seus projetos de vida.
Dessa forma, a pesquisa poderá tornar mais explícito o sentimento dos
longevos quanto ao desejo de estarem integrados na sociedade educativa,
buscando o conhecimento e o desenvolvimento de suas competências profissionais
e pessoais. Além disso, poderá levar o leitor à reinterpretação das experiências de
vida dos longevos, rever crenças e reconhecer o potencial humano na longevidade.
A presente dissertação é composta por quatro capítulos. O primeiro capítulo
apresenta uma breve introdução e justificativa do trabalho, além do referencial
teórico, abordando as questões sobre longevidade; aposentadoria e trabalho;
educação permanente e continuada; e modalidades de educação para longevos nas
universidades. Ou seja, revisão da literatura sobre os temas para formular a base
teórica da pesquisa.
O segundo capítulo revela a forma como este trabalho foi pensado, expõe
seus objetivos, a relevância do tema e a metodologia que foi trilhada. Apresenta
também o referencial metodológico explicando sobre os métodos, as técnicas, os
instrumentos utilizados no percurso da pesquisa e os procedimentos adotados para
se chegar à análise dos dados coletados.
O terceiro capítulo é constituído pela análise e discussão dos resultados dos
dados da pesquisa.
No quarto e último capítulo são apresentadas as conclusões da pesquisa,
JUSTIFICATIVA
Diante do aumento da expectativa de vida dos longevos, o estudo sobre
educação e longevidade assume a sua relevância tanto nos países desenvolvidos
como, de modo crescente, no terceiro mundo. Percebe-se uma esperançosa
mudança na visão de mundo com relação ao envelhecimento, mas o assunto ainda
suscita muitos questionamentos.
A realidade das mudanças no mundo atual é muito diferente das épocas
anteriores, particularmente no Brasil, onde o crescimento do número de longevos
está ocorrendo de forma bastante acelerada e num espaço de tempo bastante curto.
Educar o longevo para que ele desenvolva o seu talento, enfrente os
preconceitos sociais, conheça sua capacidade e acredite nela para que o seu
potencial seja aflorado surge como uma necessidade perante os desafios exigidos
na sociedade contemporânea. Dessa forma, é importante que o fenômeno seja
analisado em suas múltiplas dimensões, visto que o envelhecimento envolve
aspectos biológicos, psicológicos e sociais (BEAUVOIR, 1990; MORAGAS, 1997;
PAZ, 2001; OSORIO, 2003; ALVES JUNIOR, 2004; NERI, 2005). Se a velhice for
considerada somente como uma questão biológica e como um processo natural que
acontece com todos os seres vivos, não revelará os seus múltiplos conceitos.
Conforme Osorio (2003), nem sempre os longevos buscam a educação formal
para obter certificados acadêmicos ou preparar-se para uma atividade profissional,
mas muitos buscam o acesso a curso superior para continuar a aprender. Para
Valente (2001), a necessidade de continuar a aprender, mesmo depois de formado,
é a tônica do mercado produtivo, pois, em qualquer tipo de serviço, as pessoas
precisam estar se aprimorando continuamente para vencer os desafios do mundo
contemporâneo. Por outro lado, Kachar (2001) revela que, de acordo com a tradição
do pensamento ocidental, há um mito construído de que as pessoas que ingressam
nesta etapa de vida não aprendem, não mudam e são conservadores.
A educação, por ter intrínsecas características de oportunizar a transformação
social, pode colaborar para que as mudanças aconteçam de forma mais acelerada à
frente do ritmo de crescimento da população idosa, mostrando à sociedade e
aprende até a morte e, tal qual um aprendiz em qualquer idade, pode utilizar e
desenvolver o raciocínio cognitivo e não apenas repetir, brincar e dançar.
O especial interesse para o tema-problema está amparado na Legislação:
a) Constituição de 1988, que definiu a Política Nacional do Idoso e
alinhou os direitos dos longevos;
b) Lei n° 8.842, de 04/01/1994, que dispõe sobre a Política Nacional do
Idoso;
c) Decreto n° 1.948, de 03/07/1996, que regulamenta a Lei 8.842, de
04/01/1994, versando sobre a Política Nacional do Idoso e outras
providências; e
d) Lei n° 10.741, de 01/10/2003, que instituiu o Estatuto do Idoso.
Além disso, Câmara (2006) ressalta a importância de se debater e
estabelecer políticas públicas, criando espaço para o estudo do tema longevidade e
educação no planejamento curricular. A autora aponta a necessidade de sensibilizar
os educadores para as questões ligadas ao envelhecimento populacional,
desenvolvendo pesquisas e estudos na área. Seguindo o mesmo pensamento,
Kachar (2003) afirma que cabe aos educadores a responsabilidade de pesquisar e
criar espaços de ensino e aprendizagem para que os longevos possam participar da
dinâmica da sociedade e aprender continuamente por toda a vida. Dessa forma,
conhecer os motivos, suas percepções e com que finalidade os alunos longevos
frequentam os cursos de graduação, se torna relevante.
A presente pesquisa poderá auxiliar na compreensão das necessidades e
demandas requeridas pelos longevos que optam por retornar ao curso superior e,
também, poderá contribuir na promoção da saúde física, mental e social do longevo,
melhorando a sua qualidade de vida. Poderá, ainda, oferecer informações às
instituições de educação superior que concordam com a permanência do longevo
como membros do seu corpo docente e são também favoráveis à sua inclusão como
alunos nos cursos de graduação. Considera-se, portanto, importante o papel da
Educação na superação dos estereótipos e preconceitos que ainda existem com
relação à velhice.
Não se pretende neste trabalho discutir a formação de docentes e nem
CAPÍTULO 1 - REVISÃO DA LITERATURA
“Às rugas e ao corpo gasto pelos anos, soma-se o desafio da vida que pulsa e se nega a calar. Dar vozes às falas e dar espaço aos corpos
são próprios de um trabalho educativo.”
Stano, R. C. M. T. (2001)
Este capítulo discute o tema longevidade e suas implicações no cenário
mundial abordando quatro eixos: o tema longevidade, suas implicações no cenário
demográfico mundial, os significados do envelhecimento e sua evolução histórica.
A aposentadoria e o trabalho foram considerados assuntos relacionados ao
tema e, desta forma, foram incluídos na discussão.
A educação permanente e continuada é discutida tendo em vista a sua
importância junto aos longevos nos últimos anos, dando realce aos novos desafios e
oportunidades trazidas para esse contingente populacional no mundo
contemporâneo.
Finalizando, as modalidades educativas ofertadas aos longevos pelas
universidades e outras instituições de ensino são também discutidas.
1.1 LONGEVIDADE EM CENA
A Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou que no período de 1975 a
2025, designado de “Era do Envelhecimento”, ocorrerá uma grande expansão e
crescimento demográfico, provocado pelo aumento da expectativa de vida do
homem e pela queda da taxa de natalidade. As estatísticas confirmam que em 2002
o número de pessoas no mundo com 60 anos ou mais era cerca de 600 milhões e,
para o ano 2050, a população de longevos atingirá a casa de dois bilhões. Segundo
Goldstein (1999); França e Stepansky (2005) será a primeira vez na História que o
número de idosos irá superar o de crianças menores de 14 anos.
Diante desse fenômeno, em 1982, a ONU promoveu em Viena, na Áustria, o
evento “Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento”, com representantes de
diversos países para estudar, discutir, conhecer e estabelecer critérios sobre vários
aspectos ligados à longevidade (COSTA, 1998). Segundo Kachar (2003), em 2050,
os idosos serão um quinto da população mundial.
No Brasil, considerado até há pouco tempo um país de jovens, há uma
significativa parcela da população que está envelhecendo. Nos próximos 20 anos, a
população idosa poderá ultrapassar a casa de 30 milhões de pessoas e deverá
representar quase 13% da população ao final deste período. Segundo os dados do
IBGE, há duas décadas, havia 16 idosos para cada cem crianças (população de até
14 anos), dez anos depois eram 21 idosos para cem e, atualmente, já são 29 para
cem crianças. Nessa perspectiva, representada pelo gráfico da figura 1, em 2025,
com um universo de 32 milhões de longevos, 12,6% da população, o Brasil será o
sexto país do mundo em número de longevos (ARAÚJO; ALVES, 2000; CAMARGO,
1995; PAZ, 2001, BARBOSA, 2003; BRASIL; IBGE, 2000).
Figura 1 - Pirâmide etária brasileira em 2025
Fonte: U.S. Census Bureau, International Data Base (2008).
Segundo Barbosa (2003), a cada ano, no Brasil, há um acréscimo de 650 mil
novos idosos à população. Dessa forma, o país passa por um processo de
envelhecimento populacional rápido e intenso e o mito de que o Brasil é um país de
De acordo com os dados do IBGE (BRASIL; IBGE, 2002), em 1940, a vida do
brasileiro mal atingia os 50 anos de idade (45,5 anos). Em 2003, esse número subiu
para 71,3 anos. Essa situação é preocupante, alertam França e Stepansky (2005),
pois o país envelhece no mesmo compasso do aumento da pobreza, das
desigualdades e da limitação de acesso aos bens coletivos.
Nesse contexto, o fenômeno da longevidade representa um grande desafio
para o Brasil, aumentando demandas por políticas públicas e desafios aos Estados,
à sociedade e à família. Siqueira, Botelho e Coelho (2002) argumentam que,
historicamente, a questão da saúde na realidade brasileira atende de forma
insuficiente à população geral e alertam para a grande incidência de quadros
patológicos que necessitam de intervenções complexas e mais caras. Os autores
chamam a atenção para a questão do envelhecimento populacional como um
problema de Estado.
Para Camarano (2004), o crescimento da população brasileira resultou do
reflexo do desenvolvimento de novas tecnologias, aumento da escolarização,
mudança nas relações da família, acesso à seguridade social, progresso da
medicina e melhoria nos níveis de saúde da população em geral. A combinação
desses processos trouxe significativa melhora na condição de vida dos longevos.
Chaimowicz (1998) explica que o contexto econômico do país na década de 60, a
divulgação dos métodos contraceptivos e o ingresso da mulher no mercado de
trabalho provocaram a queda da taxa de natalidade no Brasil, fenômeno que
também afetou o índice populacional brasileiro.
A sequência dos gráficos da pirâmide populacional, apresentada na figura 2
adiante, indica que as projeções da população mais idosa aumentam em relação ao
número de jovens. A faixa etária acima de 60 anos é a que mais cresce em termos
proporcionais, evidenciando transformações na estrutura etária brasileira.
Percebe-se que essa população, com o passar dos anos, está invertendo a “pirâmide da
idade”, isto é, nos gráficos gerados pelos dados estatísticos de 1980 a 2050, a base
da pirâmide se estreita gradativamente e assume o formato de “balão”. Na base
estão representados os grupos das faixas etárias mais baixas e ela diminui
1980
-10 -8 -6 -4 -2 0 2 4 6 8 10
0-4 10-14 20-24 30-34 40-44 50-54 60-64 70-7480+ Homens Mulheres 2000
-10 -8 -6 -4 -2 0 2 4 6 8 10
0-4 10-14 20-24 30-34 40-44 50-54 60-64 70-7480+ Homens Mulheres 2020
-10 -8 -6 -4 -2 0 2 4 6 8 10
0-4 10-14 20-24 30-34 40-44 50-54 60-64 70-7480+ Homens Mulheres 2050
-10 -8 -6 -4 -2 0 2 4 6 8 10
0-4 10-14 20-24 30-34 40-44 50-54 60-64 70-7480+ Homens Mulheres
Figura 2 - Sequência de alterações no formato da pirâmide populacional no Brasil Fonte: Brasil (2000).
Ainda, confirmando os dados apresentados, os números do IBGE (BRASIL;
IBGE, 2002) demonstram que a proporção de idosos vem crescendo mais
rapidamente do que a proporção de crianças. Entre 1970 e 1998, houve queda da
taxa de fecundidade de 5,1% para 2,2% e, na virada do milênio, foi previsto que
haverá um idoso para cada vinte brasileiros. Como se pode observar na figura
acima, a redução do número de nascimentos provoca, na estrutura da população
etária, uma diminuição progressiva dos grupos mais jovens e, consequentemente,
um aumento do grupo de idosos. Assim, de um lado, a queda da taxa de
fecundidade é a principal responsável pela redução do número de crianças, e do
outro, a longevidade vem contribuindo progressivamente para o aumento de idosos
na população.
Camarano (2004) comenta que as mulheres representam a maioria com
55,1% da população de idosos e vivem, em média, oito anos a mais do que os
homens. Vários fatores podem influenciar esse fenômeno. Esse fato foi comentado
pela mesma autora em 2001, quando explicou que a taxa da mortalidade beneficia
as mulheres desde a infância, resultando em maior número de mulheres em todas
apesar de terem maior sobrevida que os homens, as mulheres são mais suscetíveis
a doenças físicas e mentais. Uma das conclusões da pesquisa apresentada pelo
IBGE (BRASIL; IBGE, 2002) mostra que residir na cidade pode beneficiar a idosa,
particularmente àquela que é viúva, por causa da proximidade com seus filhos e dos
serviços especializados de saúde, além de outros facilitadores do cotidiano.
O aumento da expectativa de vida e a consequente queda da mortalidade
humana são conquistas mundiais, tendo por base os avanços da ciência, da
tecnologia e, principalmente, da medicina que tem contribuído para a saúde dos
longevos (BARBOSA, 2003; NERI, 2005).
Contudo, essas conquistas levam ao crescimento demográfico trazendo
preocupações e múltiplos desafios a serem enfrentados pela humanidade. Entre
essas preocupações e desafios, para garantir a qualidade de vida aos longevos, são
apontadas por autores como Zimerman (2000) a necessidade de uma nova
configuração adaptada à realidade atual em termos de reestruturação social política
e econômica. Por outro lado, Albuquerque (2003) enfatiza a importância de se
considerar os aspectos emocionais diante de novas situações de adaptação como,
por exemplo, tornar dependente, abdicar papéis, enfrentar perdas, além de outros
fatores que afetam o bem-estar dos longevos.
O contexto da desigualdade social brasileira mostra que, de um lado, o país é
altamente industrializado e rico, e do outro, desesperadamente pobre. A distância
que separa os dois é imensa e a conquista da longevidade pode acarretar em
conflitos de interesses, ônus econômico e carências de todo o tipo entre os cidadãos
e instituições (NERI, 2005). Além disso, Paz (2001) comenta que a questão da
velhice no Brasil não é debatida e externalizada, sendo tratada de forma restrita e
linear numa visão positivista e naturalista da existência humana (nascer, crescer,
reproduzir, envelhecer e morrer). Neri (1991) já criticava que as pesquisas neste
país eram importadas, pois não se produzia conhecimento sobre velhice no Brasil.
Por sua vez, Peixoto (1997) acrescenta que deve se atentar para a realidade
heterogênea dos longevos brasileiros. Segundo o autor, considerar uniforme a sua
estrutura social, econômica e demográfica, constituirá um erro metodológico e de
graves consequências. Nesse contexto, é necessário que as políticas públicas sejam
mobilizadas e, por meio da análise nas singularidades locais, os investimentos civis
e coletivos sejam reordenados, visando o bem-estar e qualidade de vida dos
Considerando a pressão da sociedade civil, alguns passos foram dados pelo
Estado brasileiro no campo educacional, como por exemplo, o incentivo e o apoio
nos investimentos da área de Ciência e Tecnologia, além de cursos para a terceira
idade conduzidos por algumas instituições de ensino.
1.1.1 O envelhecimento e seu significado
O envelhecimento biológico é um fenômeno inegável, pois o corpo muda e as
células não se repõem tão rapidamente, os ossos podem se fragilizar e os sentidos
podem perder a acuidade. Com o passar da idade, é na velhice que essas
mudanças se tornam mais evidentes, num processo natural a todos os seres vivos
(GUIMARÃES, 1996). Entretanto, envelhecer não é apenas um processo biológico.
Barbosa (2003) enfatiza que a atitude diante da vida e de si mesmo determinam a
idade da velhice de cada um e que, ser velho, é mais do que perder a flexibilidade
física. Para esse autor, ser velho significa perder a flexibilidade mental e emocional,
perder a capacidade de ousar e se entregar.
Uma das pioneiras a escrever sobre o tema, Beauvoir (1990), explica que o
envelhecimento modifica a relação do indivíduo com o mundo e com a própria
história de vida do longevo, tendo, portanto, uma dimensão existencial. Esclarece,
também, que o envelhecimento envolve conceitos biológicos, psicológicos,
existenciais e culturais. Concordando com essa ideia, Moragas (1997) afirma que o
envelhecimento pressupõe um conjunto de mudanças físicas, psicológicas, afetivas
e sociais que estão sujeitas ao tempo vivido.
Para Azpitarte (1995), essas mudanças não são surpreendentes, nem
inesperadas, mas existe uma espécie de conspiração silenciosa em torno do
assunto para ocultar a realidade que ainda incomoda a maior parte das pessoas. A
esse respeito, Kachar (2003) critica que o impacto do envelhecimento na cultura
ocidental não é discutido e que a imagem construída do idoso ressalta os aspectos
pejorativos, associado aos problemas, ônus, inutilidade, doença, dependência e
perda.
Com relação à velhice, Beauvoir (1990) explica que ela surgia aos olhos da
pessoas evitavam discutir sobre o assunto, tornando-a misteriosa. Both (2000)
comenta que existe um silêncio e uma ausência de iniciativa quando se trata de
realização humana abordando a questão da longevidade. Assim, os autores
denunciam que os idosos eram considerados como uma espécie estranha e
inspiravam certa repugnância biológica que a maioria preferia manter distância.
Contudo, em muitos povos, a velhice significava valores de autoridade,
respeito, experiência e sabedoria que eram passadas às novas gerações
(CARVALHO, 2006). Por exemplo, na China antiga, a velhice nunca foi considerada
um flagelo. Loureiro (2000) e Neri (2006a) comentam que, na sociedade judaica, a
velhice era símbolo de respeito e recompensa máxima da virtude e, além disso, o
ancião tinha o papel de transmitir a cultura e as crenças da sua comunidade às
gerações futuras. No Japão, o respeito público pelo idoso e as exortações ao
cuidado filial são fortemente enfatizados até hoje.
Na visão de Barbosa (2003), as crianças são criadas em ambientes sem a
aceitação positiva da idade avançada. Crescem em sociedades que as ensinam a
temer e a abominar o envelhecimento. Essa discriminação etária é aprendida por
meio de modelos fornecidos no dia-a-dia pelos adultos, como, por exemplo, as
histórias infantis contadas às crianças; o espaço físico nada saudável que os idosos
ocupam nas casas onde vivem; a demonstração de atitudes de menosprezo perante
os longevos; o desamparo e desinteresse das autoridades competentes; e as
notícias de desrespeito ao idoso, divulgadas pela mídia.
A atitude dos adultos para com os idosos recebe a crítica de Beauvoir (1990)
que considera uma espécie de manobra por ser uma maneira dissimulada de tratar o
idoso: cuidados exagerados que o paralisam, ao tratá-lo com uma benevolência
irônica e ao lhe falar em linguagem infantil. Grossi e Santos (2003) esclarecem que,
ao tratá-los como crianças, considerar o idoso frágil e débil reforça a sua fragilidade
e impotência, além de ferir a sua capacidade de autonomia e tomada de decisões.
Além disso, Beauvoir (1990) comenta que a obsolescência do trabalhador
idoso pode ser consequência de conflito intergeracional: o idoso percebe que não há
respeito e consideração pela sua experiência, e se sente velho à frente da nova
geração de trabalhadores que começam a questionar a sua atitude ultrapassada.
Esse movimento externo e recorrente contribui para uma velhice autoimposta.
qual pertence, destinando-lhe o seu lugar e seu papel. O cidadão é velho não
apenas por condições biológicas, mas, sobretudo, porque assim é decretado.
Para Neri (1991), o próprio fenômeno da velhice possui múltiplos significados,
dependendo do contexto individual, interindividual, grupal e sociocultural. O próprio
significado de “velho” é “socialmente construído” e, por forças sociais que detêm o
poder, são gerados vários tipos de discurso, na maioria das vezes, de forma
negativa (GROSSI; SANTOS, 2003). A velhice significa o tempo existencial, a
memória, a história, o registro das experiências vividas do sujeito que envelhece em
suas relações com a vida (PAZ, 2001).
Em suma, o envelhecimento é considerado um tema muito complexo e difícil
de ser encarado, visto como praga, doença e um mal, seja pelos jovens, seja pelos
que estão começando a envelhecer ou até mesmo para aqueles que já se
encontram na própria senescência (COSTA, 1998).
Como as atitudes das pessoas são socialmente aprendidas, Cachioni (2003)
ressalta a importância da educação, responsável pelas transformações sociais, para
se pensar positivamente sobre os idosos e a velhice. Para Lima (2001), o acesso ao
saber, a volta aos bancos escolares e o desenvolvimento dos seus potenciais
permitem ao longevo transformar-se em cidadão ativo e participante das questões
sociais, aprender e enfrentar obstáculos que antes pareciam intransponíveis.
Reforçará, também, a convivência intergeracional em contato com os jovens no
espaço favorável da educação para desmistificar a imagem negativa da velhice.
Dessa maneira, a educação desempenhará o seu papel para que as novas
concepções sobre longevidade sejam apreendidas, fazendo com que valha a pena
viver mais anos.
Na visão de Câmara (2006, p. 62), “[...] envelhecimento é um conceito
complexo e abrangente que exerce fortes repercussões no processo de
desenvolvimento e na qualidade de vida de uma população”. A autora comenta que
para proporcionar melhores condições de vida, devem ser desenvolvidas ações de
responsabilidade administrativa mais simples, como adequações do espaço físico
para os longevos, até as medidas mais complexas, como, por exemplo, a construção
de novas concepções e princípios que levam à mudança de postura para melhor
compreender o fenômeno da velhice.
Assim, vários estudos vêm desenvolvendo estudos sobre o tema. As áreas de
contribuições valiosas à compreensão dos fenômenos históricos, econômicos,
etnográficos, culturais e sociais sobre a longevidade dos indivíduos.
1.1.2 A velhice: da antiguidade à contemporaneidade
O Pai da Medicina ocidental, Hipócrates (460-377 a.C.) foi o primeiro
pensador da antiguidade a tratar das etapas da vida e considerava a velhice como
uma ruptura do equilíbrio humano que, naquela época, teria início aos 56 anos,
quando surgiam as dificuldades respiratórias, catarros e tosses. Na antiga Roma,
nota-se que a experiência dos velhos senadores era valorizada. De acordo com a
visão do influente político, jurista e filósofo romano, Cícero, destacou quatro razões
para aqueles que concebiam a velhice como algo detestável: afastamento da vida
ativa, enfraquecimento do corpo e privação de alguns dos melhores prazeres e a
aproximação da morte. A velhice foi abordada na obra literária De Senectude, de
Cícero, escrita há aproximadamente 2.000 anos atrás. Segundo ele, era necessário
resistir à velhice, conservar a saúde e praticar exercícios apropriados, comer e beber
para recompor as forças (BEAUVOIR, 1990; GOLDSTEIN, 1999; CÍCERO, 2008).
De acordo com Costa (1998), os filósofos pré-socráticos já faziam referência à
velhice como Demóstenes de Abdera que considerou a velhice uma mutilação total,
que tem tudo, mas de tudo é carente. No século II, por volta do ano 146 d.C., o
médico grego Galeno, considerou a velhice como estágio intermediário entre a
doença e a saúde e suas teorias eram impregnadas de religiosidade. Daí, os
patronos da Igreja daquela época adotaram os ensinamentos de Galeno. Como
consequência, essa teoria perdurou durante toda a Idade Média e a medicina não
teve desenvolvimento significativo, sendo a velhice desconhecida. Já Bacon, no
século XII, equiparou a velhice à doença e redigiu o primeiro tratado de higienização
sobre a velhice. No início do século XIX, a medicina começou a se beneficiar do
progresso da fisiologia e das ciências experimentais, surgindo, assim, as
publicações sobre os primeiros tratados sobre a doença dos idosos (BEAUVOIR,
1990; COUTO, 2003).
Na transição do século XVIII para XX, sob a influência do discurso
e a geriatria, com o objetivo de tratar a velhice de maneira sistemática e científica
(BARBOSA, 2003). Segundo Guimarães (1996), até o século XX, o tempo de vida
das pessoas era de até 30 a 40 anos e, com o progresso social, tecnológico e
cultural, a expectativa de vida aumentou consideravelmente.
Piaget foi um dos primeiros autores a reconhecer os diferentes modos de
pensar ao longo das etapas evolutivas do ser humano. A essas etapas evolutivas,
Piaget denominou de “estágios”, porém sua análise não foi além da adolescência
(OSORIO, 2003).
Segundo Neri (2006b, p. 13), na década de 50, o psicanalista alemão Erik
Homburger Erikson refletiu com profundidade sobre a manifestação da maturidade
na vida adulta e elaborou estudos sobre o desenvolvimento do indivíduo,
introduzindo o termo “ciclo de vida” na psicologia. Para Erikson, o ciclo de vida tem a
ver com a “epigenética” que, etimologicamente, significa “algo que se revela ou
desdobra sucessivamente, sendo que os estágios mais avançados estão contidos
nos anteriores”.
A mesma autora comenta que o estudo de Erikson registrou dois avanços
importantes às teorias clássicas do desenvolvimento humano: o primeiro foi a
consideração da vida humana em toda a sua extensão e, a segunda, proposição de
que as influências socioculturais contextualizam a manifestação e a resolução de
crises, projetando o indivíduo para nova fase evolutiva do ciclo da vida.
Prosseguindo com o pensamento de Erikson, a evolução cultural da humanidade
obedecia aos princípios de Darwin: o desenvolvimento do homem rememorava o
desenvolvimento da espécie, isto é, a ontogênese repetia a filogênese.
Para o psicanalista, o indivíduo cresce a partir das exigências internas de seu
ego, somadas às exigências do meio em que vive, influenciado pelo meio cultural e
pela sociedade onde vive. Em cada estágio, o ego passa por uma determinada crise
que poderá ter um desfecho positivo, surgindo um ego mais rico e forte e, no
desfecho negativo, o ego fica mais fragilizado. Assim, a personalidade vai se
reestruturando de acordo com as experiências vividas e o ego vai se adaptando aos
sucessos e fracassos, dando significado à vida.
Neri e Freire (2003) explicam que Erikson considerava a velhice uma etapa da
vida em que ocorre o conflito entre a integridade e o desespero, podendo resultar na
sentimento de ter passado por tudo e ter valido a pena além da capacidade de
autoaceitação da velhice e das suas modificações físicas.
O ser humano vai se transformando qualitativamente ao longo do seu
amadurecimento: ao se deparar com a crise, criam-se focos de tensão e buscam-se
soluções para os conflitos. Essa tensão é adaptativa e promotora do
desenvolvimento. No momento em que se vencem os conflitos evolutivos, o ego vai
ganhando novas qualidades, tais como cuidado na vida adulta, generatividade na
meia-idade e sabedoria na velhice. Essas qualidades representam as virtudes que
garantem a continuidade da espécie em termos biológicos e culturais. A teoria de
Erikson de que a integridade é uma necessidade para se envelhecer bem é
corroborada também nos estudos de Blazer (1998), Both (2000) e Osorio (2003).
A ideia de Erikson encontra apoio também em Neri quando opina, trazendo
para discussão a frase da sabedoria popular - “o homem realizado é aquele que teve
um filho, plantou uma árvore e escreveu um livro”- isto é, aquele que garantiu a sua
espécie, cuidou da natureza, contribuiu para o bem-estar das futuras gerações e
garantiu a continuidade do legado espiritual para além da morte física (NERI, 2003).
Segundo Osorio (2003), a teoria de desenvolvimento humano de Erikson é
importante para mostrar que a velhice é também o momento da vida em que o
indivíduo continua a construir a sua personalidade. O quadro 1 resume a teoria de
desenvolvimento de Erikson, considerando as relações entre o ciclo de vida
individual e sociocultural:
Idade Conflito do ego Valor emergente
Infância (0-1 ano) Confiança básica X desconfiança Esperança
Primeira infância inicial (1-6anos) Autonomia X timidez e dúvida Domínio
Idade do jogo (6-10 anos) Iniciativa X culpa Propósito
Idade escolar (10-14 anos) Positividade X inferioridade Competência
Adolescência (14-20 anos) Identidade X confusão de papéis Fidelidade
Adulto jovem (20-35 anos) Intimidade X isolamento Amor
Maturidade (35-65 anos) Generatividade X estagnação Cuidado
Velhice (65anos +) Integridade X desespero Sabedoria
Conforme Osorio (2003), na maturidade média, o indivíduo atinge os anos
centrais da fase madura, chegando à generatividade, isto é, o sentido de que na sua
vida beneficiou outras pessoas ao prestar serviços com o que se faz. Essa
generatividade pode ter duas dimensões: a de satisfação e sentido de vida do
dia-a-dia ou a de estagnação, isto é, se retrair por sentir que sua vida tem pouco sentido
ou o que construiu não valeu a pena, já que não tem como dar prosseguimento.
Na maturidade superior, o longevo tende a rever o que foi feito na vida. Sente
ter alcançado o sentido da integridade do ego e de contentamento pela existência
com significado e não teme a morte ou não tem sentimentos de desespero. Por outro
lado, há casos em que, por não ter esperança, o idoso sente depressão e terror com
a morte iminente. São pessoas que vivem em eterna nostalgia e tristeza por sua
velhice.
Hoje, as pessoas chegam facilmente à longevidade com 70, 80, 90 anos de
idade. Frente a essa situação, os gerontólogos e antropólogos têm levantado
questões importantes em seus estudos, refutando certas concepções errôneas e
estereotipadas sobre o envelhecimento (COUTO, 2003).
De acordo com Alves Jr. (2004), o envelhecimento acabou se tornando um
problema social, particularmente para as sociedades que exacerbaram a valorização
do que é relacionado à jovialidade, desprezando-se de forma direta ou velada os
velhos e a velhice.
Na sociedade moderna, a industrialização e o desenvolvimento da tecnocracia
disseminam a idolatria e o vigor da juventude e transformam o jovem como alvo de
atenções, num desejo voraz do capitalismo que visa o lucro pela produção e
consumo. O vigor da juventude é a imagem construída pela sociedade de consumo
capitalista, como se fosse possível aumentar a longevidade sem chegar à velhice.
Nesse sentido, os idosos que não produzem mais, são pessoas gastas, sem uso, um
estorvo para a família, ônus para a sociedade e seres dissonantes e inativos,
transformados em massa anônima e invisível, vagando no tempo da modernidade. É
a imagem da civilização capitalista, globalizada, moderna, neoliberal e descartável
que potencializa o novo e o renovável, o produtivo e consumista e que despreza a
memória, a história e o passado (PAZ, 2001; KACHAR, 2003). Assim, na visão de
alguns autores, o corpo envelhecido numa cultura dominada pelo padrão de beleza
Por sua vez, Sant’Anna (2000) esclarece que o longevo, como sujeito social,
vem atraindo a atenção não só das autoridades governamentais e das instituições
sociais, mas também do meio acadêmico, que procura investigá-lo, descobrir todas
as suas particularidades e desfazer os estereótipos sacramentados pela
gerontologia e geriatria da metade do século XX.
Além disso, o longevo tem despertado interesse no meio empresarial e
torna-se um sujeito interessante da mídia para lançamentos de produtos e torna-serviços no
mercado de consumo. Abrem-se os espaços para ofertar ao grupo de longevos
melhores opções de turismo, lazer, salões de dança, academias de ginástica,
previdência privada, planos de saúde, cosméticos e outros produtos ou serviços que
possam ser atraentes ao público idoso.
Ao discutir sobre a construção de uma nova gestão social para os idosos,
contrariando a ideia clássica de velhice como doença, Both (2000) comenta que o
contexto da pós-modernidade suscita que a longevidade possa tornar-se um espaço
humano tão confortável como o da juventude e da vida adulta. Dessa forma,
vislumbram-se oportunidades dos longevos possuírem sua política social e
encontrarem formas de explicitar o seu desenvolvimento. Esse espaço pode ser
revitalizado por meio da educação que, aliada às outras áreas de conhecimento,
pode auxiliar na formulação de uma identidade sociocultural para os longevos.
Por outro lado, levando-se em conta o aspecto da aprendizagem, os longevos
devem contribuir ativamente para o seu próprio desenvolvimento. Cachioni (2003)
explica que eles devem adotar uma postura ativa e crítica durante o processo
educacional em vez do acúmulo estático de conhecimento. A necessidade de
aprender é inerente ao processo de desenvolvimento. Porém, em cada estágio de
aprendizagem, existe um significado próprio que se expressa de forma singular e por
meio da busca de novos objetivos na vida. Portanto, a educação de longevos deve
considerá-los como pessoas que têm uma história particular e possuidora de
bagagem de conhecimentos acumulados ao longo da vida, a qual não deve ser
preterida em favor de conteúdos formatados pela universidade, mas aproveitada e
potencializada por ela.
Observando as estatísticas apresentadas pelo IBGE (BRASIL; IBGE, 2002), o
número de longevos com curso superior ou com ensino médio completo aumenta a
cada ano que passa. Essa população é dotada de experiência e constituída de
tornam-se cada vez mais exigentes e críticos que, mesmo com idade superior a 60
anos, retornam às salas de aula para prosseguir os estudos acadêmicos na
educação superior, buscando o processo contínuo e permanente de construção do
conhecimento. No pensamento contemporâneo, a velhice é considerada como um
estágio importante para o desenvolvimento humano, ao contrário do que era visto
anteriormente como fase terminal da vida.
Neri (2001) esclarece que os fatores biológicos determinam o limite final para
a longevidade, entre eles o declínio normal de algumas capacidades cognitivas e o
desenvolvimento de outras. Com o envelhecimento, as capacidades cognitivas,
“inteligência fluida” ou “hardware da cognição”, ligadas ao processamento da
informação, memória e aprendizagem podem diminuir, por causa das alterações
sensoriais e neurológicas. Entretanto, desde que as condições físicas e a atividade
intelectual sejam estimuladas, a “inteligência cristalizada” ou “software da cognição”
podem ser mantidos. O seu aperfeiçoamento depende de influências culturais e
podem, não só conservar-se, como também, desenvolver-se.
De acordo com o conceito de Sternberg (2000, p. 433), inteligência fluida é
“[...] orientada pelo processo, exigindo rápida compreensão de relações inéditas” e
inteligência cristalizada significa “[...] conhecimento e expertise acumulados ao curso
de uma vida de experiências”.
Com o aumento da expectativa de vida dos longevos, Alves Jr. (2004)
comenta que o número de pessoas aposentadas cresce em relação ao dos mais
jovens. Paradoxalmente, os novos aposentados querem se livrar do estigma de
velhos e velhice. Criam-se novas denominações e novas formas de vida como
“terceira idade”, “melhor idade”, “feliz idade”, “idade do ouro”, entre outras. Muitos
estigmas do significado de “ser velho” têm origem na valorização dada ao trabalho.
O mesmo autor comenta que, depois da metade do século XX, o descanso, o
recolhimento e a inatividade que antes eram recomendados aos aposentados, estão
surgindo novos valores para manter o corpo e a mente em atividade. Dessa forma,
acabam caracterizando o que é bom ou mau para envelhecimento. Não importa se
atividade física ou intelectual, a proposta ativista encontrou espaço ideal para a
associação de idosos, clubes ou universidades que oferecem atividades para o
exercício de envelhecimento saudável do ponto de vista biológico, psicológico e
Nessa perspectiva, atualmente, os longevos e aposentados foram
transformados em categorias boas de se investir. Vez ou outra acenam na mídia,
oportunidades de viagem, lazer, investimento e voluntariado. Os novos aposentados
passaram a ser grandes geradores de negócios e, para tanto, é necessário
mantê-los independentes e consumidores ativos o maior tempo possível.
Finalmente, envelhecimento e velhice são temas “complexos” (BEAUVOIR,
1990; KACHAR, 2003) e não há uma resposta simplificada nem tampouco um
conceito chave que consiga analisar as situações psíquicas, existenciais, sociais,
econômicas e políticas do envelhecimento.
1.2 SENTIDO DO TRABALHO E DA APOSENTADORIA
Outra situação que tem a ver com o tema é a aposentadoria. Para Guidi
(1996), as atividades socioprofissionais influenciam profundamente a vida das
pessoas e, na maioria das vezes, elas se tornam fatores determinantes no
relacionamento social das pessoas. O lugar e a função que a pessoa ocupa no
sistema de produção refletem sua posição no sistema social, interferindo em sua
identidade. Assim, se essa pessoa estiver completamente envolvida com o trabalho,
torna-se difícil a sua preparação para aceitar a aposentadoria.
Da mesma forma, França e Stepansky (2005) ressaltam a necessidade de os
trabalhadores mais velhos continuarem na atividade por mais tempo, principalmente
aqueles que mantêm uma boa relação com a atividade profissional e para os que
desejarem um novo tipo de trabalho pós-aposentadoria. Essa autora lembra que, em
estudos realizados, os longevos aposentados que retornam ao trabalho são mais
felizes do que aqueles que não têm atividades remuneradas. Além disso, pesquisas
recentes evidenciaram que cresce o número de longevos aposentados que buscam
uma nova profissão a partir dos 60 anos.
Muitas vezes, ao se aposentar, os companheiros de trabalho ignoram os
antigos colegas e, em consequência, o aposentado idoso enfrenta o estigma de sua
desvalorização. Essa situação é comum na sociedade industrial que rejeita o
longevo por considerar que ele não se encontra mais apto para estar atuando nos
precisa ser excluído (PAZ, 2001, p. 38). A ideologia mecanicista da sociedade
industrial teve origem no século XVII, em que o lado humano, as emoções e
relacionamentos foram ignorados e influenciou o mundo do trabalho.
De acordo com Both (2004), diferentes significados foram conferidos ao
trabalho, dependendo da gama de fatores políticos e sociais ocorrida no decorrer da
história. A autora comenta que o contexto religioso também influenciou nas
concepções de sentido do trabalho, como, por exemplo, no catolicismo foi concebido
como castigo pelo fato de o homem ter cometido pecado original. Na religião
protestante, o trabalho foi entendido como o mais alto valor moral. Seus dogmas são
voltados para as práticas terrenas e manter-se no trabalho é um modo de servir a
Deus. No catolicismo, as práticas terrenas não traziam dignidade e, por esse motivo,
o trabalho era apenas um meio de expiação dos pecados. Dessa forma é que Max
Weber explica o princípio organizador do sistema capitalista.
O trabalho, segundo Morin (2001), representa para a sociedade um lugar
importante em que se oferece aos trabalhadores a possibilidade de realizar algo que
tenha sentido, praticar e desenvolver suas competências, exercer seus julgamentos
e seu livre arbítrio, conhecer a evolução de seu desempenho e se ajustar ao
ambiente em que estão inseridos. Para Monteiro (2002), o trabalho representa a
autorealização e a construção existencial do sujeito que, por meio dele, constrói uma
trama de relações, trocas e sentido de vida. Significa que o trabalho representa um
valor importante e exerce uma influência direta na motivação e satisfação das
pessoas.
Conforme pesquisa feita por Morin (2001), ao fazer a pergunta: “Se você
tivesse bastante dinheiro para viver o resto da sua vida confortavelmente sem
trabalhar, o que você faria com relação ao seu trabalho?”, mais de 80% dos
respondentes disseram que trabalhariam assim mesmo. Os motivos relatados pelos
pesquisados foram: possibilidade de relacionar-se com outras pessoas, ter o
sentimento de vinculação, ter algo que fazer para evitar o tédio e ter um objetivo na
vida. No mesmo sentido, Beauvoir (1990) ressalta a importância de o longevo estar
em atividade para se sentir útil e não ser dominado pela apatia.
Segundo Camarano (2001), é comum entre economistas e demógrafos
atribuir aos longevos a característica de dependentes por não participarem da
produção de bens e serviços no mundo econômico. A ideia de dependência na
o indivíduo dependente é aquele incapaz de prover, por seus próprios recursos,
suas necessidades de consumo ou de exercer atividades produtivas.
Hackman e Odham (citado por MORIN, 2001), defendem três características
que contribuem para dar sentido ao trabalho: (1) capacidade de trabalho com tarefas
que exijam variedade de competências; (2) capacidade de trabalho com
possibilidade de realização de algum projeto, do começo ao fim, com resultado
tangível e identificável; e (3) capacidade de trabalho com impacto significativo sobre
o bem-estar ou sobre o trabalho de outras pessoas na organização ou no ambiente
social.
Prosseguindo, citando os estudos de Emery e Trist, o autor defende que o
trabalho deve proporcionar: (1) variedade e desafio para evidenciar a competência
da pessoa ao resolver os problemas; (2) aprendizagem contínua para estimular a
necessidade de crescimento pessoal; (3) margem de autonomia e manobra para o
exercício da capacidade de decisão da pessoa; (4) reconhecimento e apoio dos
colegas; (5) contribuição social que faz sentido e (6) futuro desejável com
aperfeiçoamento e orientação profissional.
Tanto os modelos de Harckman e Odham, quanto os de Emery e Trist,
apresentam pontos em comum e confirmam o sentido do trabalho: realizar algo que
tenha sentido e seja útil, desenvolver as competências, exercer autonomia, conhecer
a evolução de seus desempenhos e efetuar ajustes às mudanças (MORIN, 2001).
Por sua vez, França (2006) menciona que as atividades, remuneradas ou não,
são relacionadas aos interesses e projetos pessoais e questiona se, durante a vida,
as pessoas tomam consciência de seus próprios desejos, interesses, motivações e
papéis que desempenham. Para Morin (2001), um trabalho que tem sentido é o que
mantém ocupado, garante segurança e autonomia, proporciona uma estrutura de
defesa contra a ansiedade da morte e do vazio.
Dessa forma, é preciso que haja uma preparação para a aposentadoria e
cada qual planejar o seu futuro para não ficar ocioso. O fim de um ciclo de trabalho
profissional leva o aposentado a um momento muito difícil, o momento de adaptação
para novos sentidos da existência.
Segundo França (2002), as perdas, por exemplo, de status, do prazer de
exercer a função desempenhada e do convívio com os colegas de trabalho, podem
levar a pessoa a retirar-se não só das atividades produtivas, mas de todo o contexto
sua identidade vinculada apenas ao trabalho e são elas próprias que, sem querer,
contribuem para uma aposentadoria difícil.
Muitos associam a aposentadoria com o envelhecimento, o que leva a uma
série de preconceitos. A inatividade e a falta de perspectivas na aposentadoria
podem levar à depressão e ao comprometimento da saúde do indivíduo. Para
outros, segundo Grossi e Santos (2003), o rito de passagem para a aposentadoria é
um rito excludente, pois representa a entrada oficial no mundo da velhice e a
desagregação social. Geralmente, as normas sociais impõem às pessoas
aposentadas modelos de condutas de senilidade, ainda que se trate de pessoas
com plena capacidade.
Conforme o argumento de França (2002), a perda do emprego por causa da
aposentadoria representa a maior perda da vida das pessoas, principalmente para
aquelas que não substituem as rotinas por outros papéis na sociedade. É necessário
que o longevo se atualize em função da realidade crescente da tecnologia e
informática que acaba distanciando os trabalhadores mais velhos dos novos
conceitos e práticas de trabalho. Quanto ao trabalho pós-aposentadoria, deveria ser
estabelecida uma jornada com carga horária reduzida, uma vez que parte dos
trabalhadores idosos já deu a sua contribuição para a sociedade. Assim,
proporcionaria equilíbrio vida/trabalho, garantindo o tempo livre para fazer frente a
outras atividades além do trabalho.
Para Monteiro (2002), quando a psiquê humana enfrenta mudanças, novas
energias surgem na consciência e abrem novas perspectivas. Nesse sentido,
considera a aposentadoria uma situação de estímulo à consciência do
envelhecimento. As mudanças ocorridas, com a perda de capacidade de produzir,
criar e de se relacionar poderão significar um encerramento existencial, sem sonhos
nem realizações. Por outro lado, se depender da estrutura, podem surgir outras
realizações, pois aposentar-se não significa sair da arena dos direitos da vida, do
cidadão e dos próprios desejos.
Dessa forma, a aposentadoria pode significar a grande chance de se libertar
de amarras. Sentindo-se mais livres os longevos podem desenvolver a
aprendizagem com mais prazer e significado. O ato de aprender poderá ser
realizado em função da vida, de atender objetivos pontuais relacionados com a
Nesse sentido, a aprendizagem passa a ser algo prazeroso, voltado para
superar desafios e satisfazer desejos que as responsabilidades sociais e familiares
não permitiam (KACHAR, 2003).
1.3 EDUCAÇÃO PERMANENTE E CONTINUADA NA LONGEVIDADE
Antes do século XIX, os estudos sobre educação e desenvolvimento estavam
muito centrados nos primeiros anos de vida do homem. A partir do conceito de que o
homem é um “ser inacabado”, as iniciativas de estudos e pesquisas que envolvem a
educação de adultos, inclusive idosos, avançaram de forma intensa nos finais do
século XIX e na primeira metade do século XX, reforçados pelas ações sociais da
Unesco (OSORIO, 2003).
Legrand (1970) afirma que o verdadeiro significado da educação é o
desenvolvimento contínuo do ser humano. Para ele, uma educação que visa
simplesmente compor uma bagagem intelectual ou uma técnica suficiente para a
totalidade da existência do homem, não faz sentido. O progresso dos indivíduos
ocorre em todas as idades, incluindo adultos e pessoas idosas. Dessa forma, a
educação permanente torna-se uma nova exigência para a autonomia dinâmica dos
indivíduos (CACHIONI; NERI, 2005).
A educação permanente coexiste com a vida e constitui o próprio
desenvolvimento humano (CORTELLETI; CASARA, 2006), durante todo o tempo e
em todas as dimensões da existência humana. Assim, cai por terra o conceito de
que o desenvolvimento do potencial humano encerra na velhice.
O termo educação permanente (lifelong education) surgiu em 1919, quando o
chanceler Lloyd George apresentou um relatório sobre educação de adultos ao
Ministério da Reconstrução da Inglaterra. Nesse relatório, afirmava-se que a
educação não deveria ser considerada um luxo voltado somente para um seleto
número de pessoas e nem por determinado período, mas como uma necessidade
permanente, isto é, durar a vida toda. Em 1955, H. Kempfer, em sua obra Adult Education, conceituou o termo educação permanente, mas não teve aceitação. Em
1960, aconteceu a Conferência Mundial de Montreal, que situa a educação de