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EDUCAÇÃO PERMANENTE E CONTINUADA NA LONGEVIDADE 36

CAPÍTULO 1 REVISÃO DA LITERATURA 18

1.3   EDUCAÇÃO PERMANENTE E CONTINUADA NA LONGEVIDADE 36

Antes do século XIX, os estudos sobre educação e desenvolvimento estavam muito centrados nos primeiros anos de vida do homem. A partir do conceito de que o homem é um “ser inacabado”, as iniciativas de estudos e pesquisas que envolvem a educação de adultos, inclusive idosos, avançaram de forma intensa nos finais do século XIX e na primeira metade do século XX, reforçados pelas ações sociais da Unesco (OSORIO, 2003).

Legrand (1970) afirma que o verdadeiro significado da educação é o desenvolvimento contínuo do ser humano. Para ele, uma educação que visa simplesmente compor uma bagagem intelectual ou uma técnica suficiente para a totalidade da existência do homem, não faz sentido. O progresso dos indivíduos ocorre em todas as idades, incluindo adultos e pessoas idosas. Dessa forma, a educação permanente torna-se uma nova exigência para a autonomia dinâmica dos indivíduos (CACHIONI; NERI, 2005).

A educação permanente coexiste com a vida e constitui o próprio desenvolvimento humano (CORTELLETI; CASARA, 2006), durante todo o tempo e em todas as dimensões da existência humana. Assim, cai por terra o conceito de que o desenvolvimento do potencial humano encerra na velhice.

O termo educação permanente (lifelong education) surgiu em 1919, quando o chanceler Lloyd George apresentou um relatório sobre educação de adultos ao Ministério da Reconstrução da Inglaterra. Nesse relatório, afirmava-se que a educação não deveria ser considerada um luxo voltado somente para um seleto número de pessoas e nem por determinado período, mas como uma necessidade permanente, isto é, durar a vida toda. Em 1955, H. Kempfer, em sua obra Adult

Education, conceituou o termo educação permanente, mas não teve aceitação. Em

1960, aconteceu a Conferência Mundial de Montreal, que situa a educação de adultos num contexto mais global, ganhando maior visibilidade (OSORIO, 2003).

Em seguida, Legrand (1970) levanta questionamentos sobre a educação de adultos e expõe o fato de o adulto se desinteressar da sua formação e optar por outros caminhos profissionais. A criança, queira ou não, é obrigada pela lei e pelos pais a deixar as suas brincadeiras e ir à escola. A mudança de atitude do adulto em fazer a sua própria escolha poderia significar que ele não tenha se encontrado nas formas que eram propostas ou impostas, ou que correspondiam a seus desejos e esperanças. Uma vez desaparecendo a obrigação frente à possibilidade de se fazer a escolha com liberdade, pode retomar seus estudos e realizar os seus desejos profissionais. Com isso, o autor considera que, em regra geral, o adulto só deixa os seus ócios para participar de atividades educativas que sejam de seu próprio interesse. Se isso não existir ou perceber que as atividades propostas não têm ligação com as suas aspirações, desiste depressa.

Em 1970, com o advento do Seminário Mundial sobre Educação Permanente na Argentina, houve um esclarecimento maior sobre o conceito de educação permanente: aperfeiçoamento integral e contínuo da pessoa humana, desde o seu nascimento até a sua morte. Ela implica em atitude que cada pessoa deve assumir diante da necessidade de se aperfeiçoar continuamente com o objetivo de compreender e atuar no ambiente social, cultural e histórico de tal forma que possa se situar e participar da construção do seu sujeito, numa atitude responsável e criadora. Nessa perspectiva, entende-se que não é possível a institucionalização da educação permanente. O que se deve institucionalizar são os instrumentos e meios que permitam as pessoas realizarem seu aperfeiçoamento contínuo, segundo o campo das suas necessidades (LUDOJOSKI, 1972).

Ao analisar as diversas definições de educação permanente de diversos autores, entre os quais Ibáñez e Olavide (2005), estes esclarecem que a educação permanente não é sinônimo de educação de adultos. A educação permanente estimula o adulto a continuar a aprender mesmo após a idade escolar e, por outro lado, as práticas inovadoras da educação permanente impulsionam a educação de adultos. Também não pode ser confundida com a educação continuada já que esta se centra no aperfeiçoamento profissional dos trabalhadores.

A educação permanente deve ter o sentido de construção contínua do ser humano, de seu saber e de suas aptidões, bem como de sua faculdade de julgar e agir. O relatório produzido por Delors (1998), na Comissão Internacional sobre o Desenvolvimento da Educação, em 1972, dentre outros conceitos, descreve a

educação e o ensino fundamentados nas quatro aprendizagens essenciais para o século XXI. Compreendem-se em “aprender a conhecer”, “aprender a fazer”, “aprender a conviver” e “aprender a ser”. Para o relator, o conceito de educação permanente é uma estratégia fundamental e as aprendizagens extraescolares ganham a mesma importância das atividades formais de educação. Além disso, a educação permanente deve constituir uma construção contínua do ser humano, de seu saber e de suas aptidões, bem como de sua faculdade de julgar e agir.

Portanto, a educação permanente não é simplesmente um prolongamento da educação tradicional. Ela significa a existência de cada um, na qual o homem desenha seus projetos, traça seus desafios, busca o aperfeiçoamento contínuo e crescimento pessoal.

De acordo com Osorio (2003), os aspectos mais importantes da educação permanente e suas consequências se resumem em:

Educação permanente Consequências

1. Significa projeto de vida. Não é um sistema fechado.

2. É global. Não está segmentada.

3. Implica reestruturação do sistema educativo e do desenvolvimento de todas as possibilidades de formação fora do sistema educativo.

Vai além do sistema educativo e,

consequentemente, além das possibilidades de um ministério de educação.

4. O homem é o sujeito de sua própria educação, por meio da interação permanente das suas ações e reflexão.

É participativo, descentralizado e aceito pelas exigências sociais.

5. Não se limita somente ao período da escolaridade.

É transescolar.

6. Abrange todas as dimensões da vida, todos os ramos do saber e todos os conhecimentos práticos adquiridos por todos os meios.

É integral. Abrange todos os campos de formação, corresponsabilizando todas as instituições implicadas além dos grupos sociais.

7. Deve contribuir para todas as formas de desenvolvimento da personalidade.

Vinculação dos projetos de formação com os projetos de desenvolvimento em todos os âmbitos.

8. Considera os processos educativos como um todo em que as crianças, os jovens e os adultos seguem ao longo da vida, independentemente da sua forma.

Vinculação de todos os processos educativos entre si.

Quadro 2 - O conceito de educação permanente

Segundo Osorio (2003), em 1976, durante a conferência de Nairóbi, a educação de adultos (incluindo os longevos) foi reconhecida como um aspecto específico, permanente e indispensável para a formação da cidadania e, consequentemente, deve durar a vida toda. Dessa forma, a educação permanente e a educação de adultos, abrangendo os longevos, implicam-se mutuamente. Atualmente, a educação de adultos deixou de ter o caráter compensatório e está inserida no modelo de educação permanente.

Ainda, Osorio (2003) explica a distinção entre educação continuada e educação permanente: a primeira é o prolongamento da educação escolar na idade adulta e a segunda, formação e aperfeiçoamento da pessoa ao longo de sua existência. Confirmando o significado amplo da educação permanente, o autor reforça que não pretende criar um sistema paralelo ao sistema escolar ou universitário, mas resgatar o sentido de voltar a aprender, de atualizar conhecimentos englobando todas as formas de educação, toda a população e todas as idades da vida. A educação permanente nasce como uma educação coextensiva à vida, no sentido de “voltar a aprender”, de “rever os conceitos” e compreende “totalidade do ser”. Significa muito mais do que educação intelectual e supõe educação integral com aspectos afetivos, estéticos e em harmonia com a natureza.

Legrand (1970) argumenta que a educação permanente não é um simples prolongamento da educação tradicional, mas uma série de análises da própria existência e do sentido dessa existência. A educação permanente foi concebida numa perspectiva de coerência e continuidade.

Na visão de Osorio (2003) e Freire (1997; 2002), a ideia de formação permanente é resultado do conceito da condição de inacabamento do ser humano e, diante da consciência desse inacabamento, o homem inventa e reinventa-se buscando interferir no mundo. A educação é permanente não por causa da linha ideológica, posição política ou econômica. Ela é permanente pela finitude do ser humano e da consciência que ele tem dessa finitude. E vivem numa realidade inacabada, contraditória e dinâmica. Assim, Osorio (2003) reforça que o objetivo básico da educação permanente parte da pessoa com base na visão sócio- humanista e emancipadora, e não diretamente das necessidades de produção.

Nessa abordagem da educação permanente, ressalta-se a importância do papel da educação na formação do sujeito idoso para que ele seja capaz de ler a realidade criticamente e nela intervir (DEMO, 1995). No pensamento de Beauvoir

(1990), quanto mais elevado é o nível intelectual de um indivíduo, mais as suas atividades permanecem ricas e variadas; e quanto mais elevado o nível de vida, mais intensa é a participação dos indivíduos numa vida social. Assim, a importância de estar em atividade é ratificada pela autora, quando critica que a inatividade no idoso traz apatia e mata o desejo de atividade.

Considerando que a população de longevos no Brasil, segundo França (2005), dobrará em duas décadas e poderá resultar em grandes dificuldades na manutenção da estrutura social para pagamento de pensões e aposentadoria. A autora sugere que haja um esforço de todos os setores da sociedade para assegurar o mínimo de dignidade à população de longevos. Uma das alternativas é a criação de centros de educação permanente para melhorar e manter o conhecimento e a empregabilidade dos trabalhadores longevos.

Do ponto de vista econômico atual, exige-se que muitos retornem ao trabalho para complementar a renda tão diminuída pelo sistema previdenciário. Porém, depara-se com dificuldades para esse retorno pelo preconceito, pela falta de oportunidades de atualização e treinamento, principalmente, com relação às novas tecnologias e práticas de trabalho.

Nessa perspectiva, entende-se que a educação permanente não deve se estender apenas aos aposentados, mas também a trabalhadores mais velhos que não conseguem emprego formal no mercado de trabalho.