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Arq. Bras. Oftalmol. vol.64 número1

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Academic year: 2018

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Arq Bras Oftalmol 2001;64:5

E D I T O R I A L

A informação é um dos elementos mais importantes na base de uma civilização orientando, praticamente, toda a ativi-dade humana. Um antigo adágio popular já propalava que “quem tem boca vai a Roma”, para significar a necessidade de inquirir por informação (e, pressupostamente, de recebê-la adequada). Mas tem sido nos tempos mais recentes que se exacerbou a noção de que “informação é tudo”, alimentada por uma enorme facilitação de suas trocas. Já vivemos, aliás, em plena revolução de atitudes e costumes, a “midiática” (dos meios de comunicação), atulhados com um já farto, mas ainda crescente, número de publicações impressas (jornais, revis-tas, livros), submetidos à influência da anulação instantânea de distâncias (rádio, telefonia, televisão) e, agora, interligados pela rede mundial de computadores, tornando vertiginosa a capacidade de trocas de experiências.

Mas a propagação de uma novidade não a torna, logo, compreensível; conflitos com outras mais emergem e desequi-libram conceitos. Sobretudo, além de nem toda informação possuir a garantia de boa qualidade, haverá ___ mesmo entre aquelas que poderiam ser consideradas convenientes ___ o perigo de saturação de quem as recebe. A própria incapa-cidade de absorção de tudo que nos chega é ansiogênica, neurotizante. Enfim, já se sabe que o excesso de informação é nocivo, confunde. Pois, na verdade, só depois de filtrada e assumida a informação chega a se tornar conhecimento.

“Vários caminhos levam a Roma”, um outro adágio, agora para sustentar a possibilidade de soluções alternativas, para confirmar que informações diferentes podem ser verdadeiras, para consolar em eventuais desacertos e acenar com a esperança de correção de rumos. O conhecimento é a infor-mação em que se confia; é a faculdade de poder aplicá-la. Assim, por exemplo, quando os Arquivos Brasileiros de Oftal-mologia transmitem informações, embora o universo dos que as recebem possa ser muito amplo, observar-se-á restrita a quantidade dos que chegariam a transformá-las em conheci-mentos e usá-las. Enfim, é fácil concluir que o “know how”, a instrução assimilada e elaborada, tem primazia sobre a infor-mação, matéria prima.

Contudo, ainda mais importante do que chegar a Roma é, certamente, saber a razão de para lá ir. Entra aí a sabedoria, o discernimento, não apenas do significado do conhecimento, mas de seu uso e a consciência de sua limitação. Atribui-se ao

Informação, conhecimento, sabedoria e o exercício da

Medicina

Harley E. A. Bicas

sábio dizer “sei que não sei”, pois tanto quanto um se apro-funda no conhecimento das coisas, mais humilde se torna diante da extensão de sua ignorância, cuja amplitude se mani-festa no próprio processo de tentar extinguí-la. Ou, por outro lado, cada dúvida solucionada, cada conhecimento consoli-dado, traz mais de um novo problema a ser resolvido, como se a ciência fosse condenada a um trabalho de Sísifo, um eterno recomeçar. Aliás, não só na tradição religiosa judaico-cristã, mas também em outras, a natureza da sabedoria encontra inter-pretações transcendentes, sendo ela identificada a ema-nações do próprio Deus, o criador de todas as coisas.

Vou me referir a um colega, certamente suscitando lem-branças de experiências semelhantes vividas por outras pessoas, para ilustrar a inutilidade de conhecimentos e habili-dades quando destituidas da compreensão (ainda que hu-mana) de para que elas servem. Era ele muito bem informado sobre técnicas e procedimentos, profundo conhecedor de diagnósticos e tratamentos, mas arrogante no trato, distante e zombeteiro das queixas dos que o procuravam, prepotente em suas condutas; e por isso considerado um péssimo médico por seus pacientes que, aos poucos, o abandonaram. Quem, também, não conhece o caso oposto? O de um profissional que, suprindo deficiências de estudo com atenções e carinho, reconhecendo e confessando suas limitações, mas procu-rando compreender o sofrimento e suas necessidades, torna-se respeitado e benquisto.

Obviamente, o exercício da Medicina não dispensa a obri-gatoriedade de que quem o pratique tenha informações sempre atualizadas; e cujos conhecimentos sejam tão altos e melhores quanto a própria Medicina, com suas inseguranças e incertezas, permita. Informações e conhecimentos podem ser obtidos de livros e em aulas; pelos estudos e pela experiência. Mas isso não basta. Os tão sonhados resultados da Medicina baseada em evidências e a torrente de informações da era da informática são necessários, sim, mas insuficientes. Porque muito acima da competência, o exercício da Medicina requer compreensão e ternura, compaixão (sofrimento solidário) e consolo, conforto e alívio.

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