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Saúde: uma questão política

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Academic year: 2022

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Por MAriAnA MoreirA | Fotosde rAFAel FrAnçA

Ministro da Saúde durante o governo Lula e atual diretor executivo do Instituto Sul- Americano de Governo em Saúde (Isags), José Gomes Temporão, em entrevista exclusiva à Revista DOC, faz uma análise do sistema de saúde brasileiro. “O país está na vanguarda, mas apesar de ter uma Constituição que preconiza a valorização da saúde pública, investe muito na iniciativa privada”, afirma

O

ano de 2013 está sendo crucial para a carreira médica, quando polêmicas discussões vêm sendo levan- tadas a respeito de medidas aprovadas pelo governo brasileiro. Por um lado, há médicos que dizem lutar por maior valorização do seu trabalho, assumindo

Saúde: uma questão política

que nãO SAI de pAuTA

uma postura contrária a leis e projetos aprovados. Por outro, há quem seja fa- vorável, argumentando que as determi- nações trarão benefícios à saúde pública.

Para falar sobre esse cenário do ponto de vista político e fomentar ainda mais a reflexão sobre os temas em debate na

área da Saúde, a Revista DOC convidou José Gomes Temporão, médico sanita- rista e diretor executivo do Instituto Sul- Americano de Governo em Saúde (Isags).

Ex-ministro da Saúde no governo Lula, ele fala sobre seu atual trabalho e opina sobre os desafios da Saúde no Brasil.

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“Os senadores, por exemplo, têm direito ilimitado de ter reembolso dos seus gastos na assistência médica. Foi criada uma casta de brasileiros diferentes de outros brasileiros comuns. na verdade, eles deveriam utilizar o SuS, assim como os deputados”

DOC – Uma das filosofias do insti- tuto sul-Americano de Governo em saúde (isags), no qual você é diretor executivo, é a cooperação entre os países do continente sul-americano para a gestão da saúde pública em âmbito continental. Quais são os principais projetos desenvolvidos pelo instituto?

José Gomes temporão - O institu- to é um órgão da União dos Países da América do Sul (Unasul), um projeto de integração política do continente sul- americano, ao contrário do Mercosul, por exemplo, que é um projeto estrita- mente econômico. O instituto funciona há pouco mais de um ano e foram os próprios ministros da Saúde dos 12 paí- ses sul-americanos que tomaram a deci- são de criar uma fundação que tratasse de questões da Saúde. A ideia do Isags é que ele seja o centro do pensamento crítico, de formulação, de publicações, de seminários, de cursos, de eventos e também de apoio técnico e de informa- ção de quadros para os ministérios da Saúde do continente, sendo importante chamar a atenção para o fato de que ele é uma entidade pública intergoverna- mental. Assim, através da Saúde, busca- mos, também, aproximar as nações do continente, compartilhar experiências e trocar informações.

DOC – Você poderia dar um exemplo de caso bem-sucedido da coopera- ção entre esses países?

JGt - Entre os projetos desenvolvidos, publicamos recentemente um livro que apresenta os sistemas de saúde de todos os países da América do Sul. De forma homogênea, ele expressa a visão dos go- vernos e permite fazer uma comparação entre os sistemas de saúde dessas nações.

Ainda está para ser lançado o primeiro

livro sobre vigilância sanitária epide- miológica, também referente aos 12 países do continente sul-americano.

DOC – Como você compara a Medi- cina brasileira com a dos outros paí- ses sul-americanos?

JGt - O Brasil com certeza está em uma posição de vanguarda e constitui uma referência para o continente. Eu diria, inclusive, que o Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, é uma referência importante não só para a América do Sul, mas para o mundo.

Quanto aos outros países, considero que o Uruguai, o Brasil, a Argentina, o Chile e a Colômbia, talvez, sejam os países que têm os sistemas de saúde mais estruturados e mais organizados.

Porém, nesse momento, a Bolívia, o Equador e o Peru estão promovendo mudanças em seus sistemas de saúde.

Ou seja, há um grande movimento de melhorias. Isso acontece porque a questão social na América do Sul, nas últimas décadas, ganhou relevância e a saúde, nesse contexto, é um dos pon- tos mais importantes. Portanto, cada vez mais, ela é uma preocupação da sociedade e dos governos e, com isso, podem ser percebidos movimentos de aperfeiçoamento na estruturação e de mudanças nos sistemas de saúde.

DOC – Como você avalia o panorama atual da saúde no Brasil?

JGt - Começarei a resposta com base em uma pesquisa que foi divulgada re- centemente e apresenta o ranking dos índices de desenvolvimento humano dos municípios brasileiros. O estudo, do Programa das Nações Unidas do Desenvolvimento (Pnud), mostra que o Brasil, nos últimos 20 anos, teve uma melhoria incrivelmente importante.

E nota-se, em todas as análises, que a

Saúde, quando comparada com a Edu- cação, tem resultados mais expressivos.

Assim, quando um indivíduo avalia o panorama da Saúde brasileiro, há duas perspectivas possíveis de análise: uma, sob a ótica da saúde pública, ou seja, da importância das políticas de saúde para as melhorias gerais das condições de vida. Entre as medidas já realizadas, eu poderia citar: a redução da mortalidade infantil, a redução da mortalidade geral, a redução da taxa de infertilidade das mulheres, a redução de mortalidade por doenças crônicas, que, inclusive, caiu de maneira importante, a erradicação e o controle de doenças infectocontagiosas, os programas de transplante e os de Aids e o programa nacional de imunizações.

O Brasil é o país que tem a maior expe- riência do mundo em saúde da família e atenção primária, através do nosso pro- grama Saúde da Família, que cobre 100 milhões de brasileiros, e o impacto dessas políticas sobre as condições de vida e so- bre as taxas de mortalidade e de morbi- dade, por exemplo, é muito importante.

No entanto, quando se analisa o sistema de saúde sob a perspectiva do acesso do cidadão à rede de assistência e da qua- lidade dessa assistência, é outra questão e, nesse ponto, temos muitos proble- mas importantes a resolver. É por essa dimensão que a população expressa sua insatisfação, porque a percepção do re- sultado das políticas de saúde pública é mais vaga. Sob o ponto de vista da aten- ção e da relação direta do cidadão com o sistema de saúde, com os médicos, com os hospitais, com os ambulatórios e com a emergência, a avaliação é muito heterogênea, já que ela pode ser melhor em um município e pior em outro. Em todo o caso, há uma avaliação geral pela qual a população diz ser a Saúde o prin- cipal problema do país hoje.

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DOC – e quais seriam as causas para esses problemas de acesso à saúde e com a qualidade da assistência?

JGt - As razões são múltiplas, mas eu destacaria algumas questões. Primeiro, o financiamento. Nós temos um problema sério e crônico, que já dura duas décadas:

o subfinanciamento do SUS, o que pode ser percebido quando se analisa o gasto per capita e o percentual do PIB na saúde publica. Outro dado importante é a parti- cipação dos gastos públicos no gasto total.

A Inglaterra, por exemplo, tem um siste- ma de saúde de recorte universal como o nosso, em que 80% a 85% dos gastos são públicos. No Brasil, só 40% dos gastos são públicos e 60% são privados. Além disso, vivemos uma contradição, pois te- mos uma Constituição em que a saúde é um direito de todos e dever do Estado, mas possuímos, ao longo dos anos, uma política que induz, através de subsídios fiscais e renúncia fiscal, o fortalecimento da iniciativa privada no mercado. Então, hoje, aproximadamente 33% da popula- ção brasileira já tem algum tipo de plano ou de seguro de saúde. Há quatro anos esse percentual era de 25%. É claro que grande parte das pessoas que têm planos e seguros é ligada ao trabalho e possui

do sistema diretamente. Quem vai refe- rir o paciente aos especialistas é o clíni- co. A ideia é que esse profissional tenha o acompanhamento da sua saúde e a da sua família. É importante que haja um vínculo. O quarto ponto é a questão da formação de recursos humanos. O novo perfil epidemiológico aponta para um fu- turo com doenças crônicas, chamando a atenção para um dado importante: vamos precisar de mais cuidadores, fisioterapeu- tas, enfermeiros, psicólogos, médicos etc.

E isso significa que, se a saúde é produzi- da por pessoas, estas têm que ser cuidadas também. Há aí, então, toda a política de formação de recursos humanos, da qua- lidade desses recursos e das condições de exercício profissional, que são necessários para que os profissionais da Saúde garan- tam uma assistência e um atendimento de qualidade.

DOC – e como superar esses pro- blemas?

JGt - A superação configura um pro- cesso político. Quem aprova as leis que podem viabilizar o financiamento do sis- tema público é o Congresso Nacional e, infelizmente, nas últimas décadas, nós não conseguimos uma equação econômico- financeira que permitisse ao SUS ter sua sustentabilidade nesse sentido. Essa ques- tão é complexa, porque os senadores, por exemplo, têm direito ilimitado de ter re- embolso dos seus gastos na assistência mé- dica. Foi criada uma casta de brasileiros di- ferentes de outros brasileiros comuns. Na verdade, eles deveriam utilizar o SUS, as- sim como os deputados. Ainda vou além:

o funcionário público poderia optar por utilizar o sistema público de saúde ou pa- gar do próprio bolso um plano individual e não ter parte do seu plano pago pelo Es- tado. Nesse ponto, aliás, entram questões político-ideológicas: disseminou-se na so- ciedade uma visão de que a saúde privada seria melhor do que a saúde pública, o que não é verdade. Há hospitais públicos e privados no mesmo nível de excelência.

Além disso, não se trata de propor a es- tatização do sistema de saúde, até porque os primeiros hospitais brasileiros foram as Santas Casas de Misericórdia. Ou seja, a Medicina privada sempre teve uma im- portância grande no sistema de saúde brasileiro. Trata-se, então, de uma questão

“não se trata de propor a estatização do sistema de saúde, até porque os primeiros hospitais brasileiros foram as Santas Casas de Misericórdia.

Ou seja, a Medicina privada sempre teve uma importância grande no sistema de saúde brasileiro. Trata-se, então, de uma questão de regulação, de relacionamento entre as redes e de como o estado organiza o sistema, que pode ser em parte privado e em parte público”

planos coletivos, sendo que o percentual de brasileiros que possuem plano indivi- dual está em torno de 15%. Na verda- de, o direito ao plano e ao seguro está vinculado ao contrato da família e do tra- balhador. O que acontece é que há uma série de autorizações legais para que as famílias e as empresas abatam do imposto de renda os gastos com saúde. Quando se somam a isso os gastos dos governos – da União, dos estados e dos municípios –, os subsídios aos funcionários públicos e os gastos dos Três Poderes, com as renúncias fiscais dos gastos das famílias e das empre- sas, o resultado dos custos é de cerca de R$16 bilhões por ano. Ou seja, deixa-se de arrecadar este montante, que poderia ir para o sistema público, mas, através desse conjunto de medidas legais e políticas, ele subsidia o mercado privado. A terceira ra- zão tem a ver com a organização. Há uma certa irracionalidade, porque temos um programa de saúde da família que preten- de ser a base do sistema, mas que só cobre metade da população e não possui uma porta de entrada única para a saúde. Na Inglaterra, no Canadá e em vários países, quando alguém precisa de um cuidado médico, ele obrigatoriamente tem que ir ao seu clínico. Dessa forma, o indivíduo não consegue acessar nenhum outro nível

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de regulação, de relacionamento entre as redes e de como o Estado organiza o sis- tema, que pode ser em parte privado e em parte público. Em todo o caso, creio que está faltando uma mudança na consciên- cia política da sociedade em perceber o SUS como um patrimônio do país. Isso é muito importante hoje e também para as gerações futuras. Mas nós não temos essa visão no Brasil ainda. Isso é muito disper- sivo e muito heterogêneo. Há muita críti- ca e o sistema público é malvisto.

DOC – em 11 de julho, o Ato Médico, lei que redefine o exercício da Me- dicina no país, foi sancionado pela presidente Dilma Rousseff com veto a alguns tópicos que geraram gran- des discussões. Qual é a sua opinião a respeito da lei e da decisão tomada pela presidente?

JGt – Eu acompanhei de perto essa ques- tão quando eu era ministro. O projeto de lei do Ato Médico está no Congresso Na- cional há mais de dez anos e, há cinco, tí- nhamos um projeto muito melhor do que esse que foi aprovado agora. Quanto aos vetos, concordo com a presidente Dilma.

É importante ter uma lei do ato médico.

Agora, ignorar que outros profissionais te- nham um papel fundamental na questão da assistência e não entender que mui- tos programas de saúde pública ficariam comprometidos, caso a lei fosse promul- gada sem vetos, não me parece razoável.

Há programas de saúde pública, como o próprio Saúde da Família, em que a en- fermeira e os auxiliares de Enfermagem têm um papel fundamental. Tuberculo- se, hanseníase, malária, Aids e uma série de outros problemas seriam gravemente afetados caso a presidente sancionasse o projeto na íntegra. Com isso, acredito que os vetos não são contrários à categoria mé- dica. Acho que isso é até um discurso pou- co honesto. Na verdade, foi uma decisão do governo de perceber que a lei do jeito que foi aprovada pelo Congresso Nacio- nal poderia afetar negativamente muitos programas de saúde pública. Acredito que estamos em uma situação em que seria muito bom e prudente que voltássemos ao Congresso, analisássemos esses vetos, chamássemos todas as profissões e ten- tássemos construir um grande consenso em relação a essa lei. Os médicos têm o

“O Brasil com certeza está em uma posição

de vanguarda e constitui uma referência

para o continente. Eu diria, inclusive, que o

Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo,

é uma referência importante não só para

América do Sul, mas para o mundo”

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direito de ter a sua lei, assim como as ou- tras profissões já têm. Mas, sem os vetos, infelizmente, ela comprometeria alguns programas de saúde pública importantes.

DOC – em relação ao programa Mais médicos, o governo reafirmou a im- portação de médicos estrangeiros e permitirá o trabalho de profissionais estrangeiros ou de brasileiros que se formaram no exterior sem a necessidade de revalidação do diploma. Você con- corda com estas medidas?

JGt - O programa Mais médicos tem dois problemas que estão sendo mui- to bem percebidos. Primeiro, o modelo de contratação que está sendo proposto configura um vínculo precário de três anos com bolsa. Por que o médico tem

que abrir mão da única garantia que todo trabalhador tem que é a de ter um con- trato CLT com fundo de garantia, férias e décimo terceiros? Não acho isso razoável.

Imagino que o governo tenha problemas legais para poder fazer isso, então opta- ram pela bolsa. O segundo problema é exatamente a questão da revalidação au- tomática, mesmo que o governo defenda que seria apenas para a atenção básica.

Em nenhum país do mundo você traz esse profissional tendo se formado no ex- terior sem ser submetido a um processo de avaliação. O que cabe discutir é se o Revalida de fato não aprova ninguém por ser muito rígido. Então vamos discutir o conteúdo do Revalida, se ele está ade- quadamente construído para fazer uma avaliação justa do perfil que a gente quer

do médico que queira vir trabalhar aqui.

Mas revalidação automática, sem passar por um processo de avaliação, não me parece razoável.

DOC – sobre o ensino da Medicina, você acha que há muitos problemas quanto à qualidade dos médicos que são lançados no mercado? nesse sentido, há algum tipo de discussão acontecendo nos conselhos de classe ou em entidades governamentais para evitar esse tipo de disparidade no ensino?

JGt - Com certeza. Existem faculdades em que realmente a qualidade do ensi- no deixa a desejar e isso é preocupante, porque esse cidadão, ao final do 6º ano, recebe o diploma e poderá registrar

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e exercer a profissão. Nesse sentido, há críticas de várias partes. Houve uma ex- pansão muito grande das faculdades pri- vadas, com mensalidades bem caras, sem muito controle. Existem faculdades com resultados muito ruins na avaliação feita pelo Ministério da Educação (MEC). Na verdade, elas deveriam ser fechadas e o próprio MEC tem uma comissão de es- pecialistas discutindo isso. Recentemente, ele restringiu, para algumas faculdades, a possibilidade de abertura de novas vagas.

Por outro lado, o Mais médicos levantou de novo essa questão, já que também in- clui a expansão do número de vagas de Medicina para os próximos anos. O que muita gente tem criticado, inclusive, é se não se está pensando em um número de vagas muito além do que o Brasil

necessitaria e, nesse caso, entramos em outra discussão: a de se o Brasil tem mé- dicos de mais ou de menos. O Brasil hoje tem em torno de dois médicos para cada mil habitantes. Isso significa que eu te- ria um médico para cada 500 habitantes.

Não é tão pouco. O problema é como ele se distribui. Eles estão todos nas regiões Sul e Sudeste e há pouquíssimos nas re- giões Norte e Nordeste, por exemplo. Há áreas do país que são mais pobres e de mais difícil acesso, onde, em princípio, o médico não deseja trabalhar. Então, cabe ao Estado criar mecanismos, instrumen- tos e estímulos para esses profissionais.

São medidas que podem mudar a ques- tão do padrão de distribuição dos médi- cos. Aí, há um ponto muito importante:

se imaginarmos que serão colocados mé- dicos em todos os municípios proporcio- nalmente, estejam os municípios onde estiverem, é pouco provável que isso vá funcionar. Porém, se não podemos fixar, pelo menos temos a possibilidade de ga- rantir que, permanentemente, haja mé- dicos nessas áreas. Uma coisa é a fixação, que é algo muito complicado, e outra é garantir a presença do profissional de for- ma permanente através de mecanismos, que podem ser o serviço civil obrigatório, estímulos e carreiras, por exemplo.

DOC – em algumas entrevistas con- cedidas anteriormente, você afirmou que sua maior conquista foi ter colo- cado a saúde pública em uma dimen- são política. Qual a importância dessa medida para o país?

JGt – Para termos o sistema de saúde que todos nós queremos, uma das medidas mais importantes é criar uma consciên- cia política na sociedade sobre a impor- tância da Saúde. Não só da saúde como corriqueiramente as pessoas pensam, mas a saúde em sua dimensão mais ampla:

política e social, o que nós chamamos de determinação social da saúde. Por exem- plo: as recentes movimentações de massa nas ruas começaram contra o aumento de R$0,20 das passagens de ônibus. Hoje, nas regiões metropolitanas, um aspecto que afeta profundamente a saúde das pessoas é a questão da mobilidade urbana, a exem- plo do trabalhador que mora longe do seu local de trabalho, gasta quatro horas por dia (duas para ir e duas para voltar) no

ônibus, em pé, estressado e, no verão, com muito calor. Tudo isso afeta a saúde men- tal e física dessa pessoa. A renda, a cultura, a educação, o saneamento, as condições de trabalho, de transporte e de moradia são pontos a serem levados em consideração.

Outra questão é a forma como o sistema de saúde deve ser organizado, levando em conta a humanização, tendo um profissio- nal que o indivíduo conheça e ao qual se refira a maior parte do tempo – ele e sua família. Quando as pessoas foram para a rua dizendo “quero hospital do padrão da Fifa”, elas estavam querendo dizer o se- guinte: “quero uma saúde de qualidade”.

Olha só que coisa interessante: a popula- ção não está pedindo mais saúde privada e nem pública. Ela quer saúde. A maneira como o governo vai organizar o sistema é um problema técnico. Agora, a pessoa quer qualidade e acesso; não quer esperar cinco meses por uma consulta. Quer ser bem atendido e ter condições de conforto.

Creio, então, que ter essa visão política é central para que o Brasil, no futuro, tenha um sistema de saúde que atenda aos dese- jos e anseios de todos.

DOC – Que dica você daria hoje para um médico ser um profissional de su- cesso?

JGt – Primeiro, seja modesto e tenha a consciência de que você terá que estudar a vida inteira. Sempre. Você aprenderá com a prática clínica, mas também ao partici- par de congressos, lendo muito, estudando muito, buscando informações e ouvindo os médicos mais velhos. Segundo, tenha sempre esse olhar social e a consciên- cia de que, quando o doente chega na sua frente, a doença que está instalada nele tem fatores sociais, psicológicos, familiares e ambientais que precisam ser analisados pelo próprio profissional da Saúde. Tercei- ro, eu diria que o médico tem que ter a vida dele. Ele precisa amar, ouvir boa mú- sica, ler bons livros, gostar de outras coisas, porque, senão, se pensar só na profissão, acabará sendo um profissional limitado.

Por fim, ele precisa cuidar da saúde dele.

É muito comum que os médicos cuidem pouco da sua saúde. E isso é muito impor- tante, porque ele não conseguirá dar conta de atender bem seus pacientes se ele não estiver bem consigo mesmo.

“Vivemos uma

contradição,

pois temos uma

Constituição em que

a saúde é um direito

de todos e dever do

Estado, mas possuímos,

ao longo dos anos,

uma política que induz,

através de subsídios

fiscais e renúncia fiscal,

o fortalecimento da

iniciativa privada no

mercado”

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