MOACYR DE MATTOS JUNIOR Cel Art

Texto

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MOACYR DE MATTOS JUNIOR – Cel Art

EM QUE CONDIÇÕES AS AÇÕES VIOLENTAS PRATICADAS POR TRAFICANTES NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO PODEM SER CARACTERIZADAS COMO ATOS TERRORISTAS?

Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia.

Orientador: Cel Américo Dinis Rabelo da Cunha Pereira

Rio de Janeiro 2018

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C2018 ESG

Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitida a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa.

Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG

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Assinatura do autor

Biblioteca General Cordeiro de Farias

De Mattos Junior, Moacyr.

Em que condições as ações violentas praticadas por traficantes na cidade do Rio de Janeiro podem ser caracterizadas como atos terroristas?/ Coronel Moacyr de Mattos Junior - Rio de Janeiro:

ESG,2018.

43 f.:il.

Orientador: Coronel Américo Dinis Rabelo da Cunha Pereira.

Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentadaao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), ano.

1. Narcotráfico. 2. Terrorismo. 3.Lei 13.260. I.Título.

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Moacyr e Autalina, minha eterna gratidão.

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AGRADECIMENTOS

Aos estagiários da melhor Turma do CAEPE, Turma Ética e Democracia, pelo convívio harmonioso de todas as horas.

Ao Corpo Permanente da ESG pelos ensinamentos e orientações que me fizeram refletir, cada vez mais, sobre a importância de se estudar o Brasil com responsabilidade.

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“O meu ideal político é a democracia, para que todo homem seja respeitado como indivíduo e nenhum seja venerado”

Albert Einstein

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RESUMO

Esta monografia aborda os temas narcotráfico e terrorismo, sua relações com a sociedade, poder público, com as leis nacionais, leis internacionais e entre si.O objetivo deste estudo é verificar se a lei 13.260/2016 – Lei Antiterroismo pode ser aplicada às organizações narcotraficantes da cidade do Rio de Janeiro a partir do diagnóstico da situação jurídica nacional e internacional. A metodologia adotada comportou uma pesquisa bibliográfica e documental, visando buscar referenciais teóricos. O campo de estudo delimitou-se a Lei 13.260/2016, a legislação internacional sobre terrorismo, ao Código Civil brasileiro e atividades dos narcotraficantes na cidade do Rio de Janeiro. Por último, analisa criticamente a situação atual, ressaltando pontos fortes e fracos da política de combate ao terrorismo e narcotráfico, ousando apontar soluções para o problema estudado.

Palavras chave: Narcotráfico. Terrorismo. Lei antiterrorismo. Lei 13.260/2016.

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ABSTRACT

This monograph deals with the issues of drug trafficking and terrorism, their relations with society, public power, with national laws, international laws and with each other. The objective of this study is to verify if law 13.260 / 2016 - Antiterrorism Law can be applied to drug trafficking organizations of the city of Rio de Janeiro from the diagnosis of the national and international legal situation. The methodology adopted included a bibliographical and documentary research, aiming to search for theoretical references. The field of study was defined as Law 13.260 / 2016, international legislation on terrorism, the Brazilian Civil Code and activities of drug traffickers in the city of Rio de Janeiro. Finally, it critically analyzes the current situation, highlighting the strengths and weaknesses of the policy to combat terrorism and drug trafficking, daring to point out solutions to the problem studied.

Keywords: Drug trafficking. Terrorism. Anti-terrorism law. Law 13.260 / 2016.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Ilustração 1: Mapa das áreas dominadas pelo narcotráfico...20

Ilustração 2: Distribuição das facções no Rio de Janeiro...20

Ilustração 3: Assassinato de Yoyes...27

Ilustração 4: Assassinato de Uê...27

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 Distribuição dos Comandos por favelas...20

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ADA Amigo dos Amigos

CV Comando Vermelho

PCC Primeiro Comando da Capital

TCP Terceiro Comando Puro

TCA Terceiro Comando dos Amigos

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...11

2 REVISÃO DA LITERATURA E DA LEGISLAÇÃO...13

2.1 TERRORISMO NO MUNDO, CONCEITOS E SUA LEGISLAÇÃO...13

2.2 TERRORISMO NO BRASIL E SUA LEGISLAÇÃO...16

2.3 NARCOTRÁFICO NO RIO DE JANEIRO...19

3 AS AÇÕES DO NARCOTRÁFICO NO RIO DE JANEIRO E O TERRORISMO INTERNACIONAL: COMPARAÇÕES...21

3.1 AÇÕES DO NARCOTRÁFICO NO RIO DE JANEIRO...21

3.2 AÇÕES TERRORISTAS NO MUNDO...23

3.3 SIMILARIDADES E DIFERENÇAS ENTRE AS AÇÕES DO NARCOTRÁFICO CARIOCA E TERRORISMO INTERNACIONAL...26

4 AS AÇÕES DO NARCOTRÁFICO NO RIO DE JANEIRO E A LEI ANTITERRORISMO BRASILEIRA...28

4.1 CONCEITO BRASILEIRO DE TERRORISMO...28

4.2 AVALIAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DAS AÇÕES DOS NARCOTRAFICANTES CARIOCAS DIANTE DA LEI ANTITERRORISMO...30

5 CONCLUSÃO ...32

REFERÊNCIAS...34

ANEXO A – LEI 13.260/2016...37

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11 1 INTRODUÇÃO

O terrorismo se tornou um dos grandes desafios a ser vencido pela comunidade internacional no século XXI. Instrumento usado por diferentes grupos e indivíduos durante a história humana, se caracteriza atualmente pelo emprego da violência indiscriminadamente, atingindo inocentes, com a intenção de divulgar uma mensagem.

David Rapoport classifica o terrorismo em ondas, de acordo com seus objetivos, influências, época e ideologia. Caracteriza cada uma delas detalhadamente, chamando atenção para o que mais as marca

Loretta Napoleoni, num olhar mais particular sobre o Estado Islâmico, estuda sua economia, propaganda e fundamentalismo religioso. Mostra como uma organização terrorista, pela primeira vez na história, conquista um vasto território e se organiza como um Estado formal.

Os dois descortinam o terrorismo facilitando o entendimento deste fenômeno.

No Brasil, a lei Nº 13.260/2016 conhecida como Lei Antiterrorismo é uma resposta do Estado às demandas impostas pelos grandes eventos, no caso específico, as Olimpíadas de 2016 na cidade do Rio de Janeiro. Regulamenta o disposto no inciso XLIII do Art 5º da Constituição Federal, disciplinando o terrorismo, tratando de disposições investigatórias e processuais, e reformulando o conceito de organização terrorista. Ainda carece de aperfeiçoamentos e apresenta falhas, como verificou o professor Jorge Mascarenhas Lasmar.

Assim como o terrorismo, outro grande desafio que se apresenta à humanidade é o combate ao narcotráfico. Os traficantes movimentam consideráveis quantidades de dinheiro numa atividade onde a violência é utilizada como instrumento para defender seus interesses, proteger territórios e dominar comunidades.

Apresentam estruturas complexas que tem sua cabeça dentro dos presídios e se ramificam até o asfalto, com seus “tenentes” e “soldados” guerreando entre si, pelo controle do comércio das drogas, e contra os órgãos de segurança pública.

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12 Os altos lucros envolvidos nas atividades do narcotráfico parecem compensar os riscos e justificam a crueldade e violência perpetradas por estas organizações. Áreas são controladas, comunidades seguem regras ditadas por facções onde a desobediência é punida de forma mais violenta possível. Onde a mensagem avisa quem manda por intermédio do medo.

Percebe-se que o ato de extrema violência é o que há em comum entre as organizações terroristas e o narcotráfico.

No Brasil, particularmente na cidade do Rio de Janeiro, o narcotráfico atua para manter seus interesses. Não raro também usa a violência indiscriminadamente.

Neste contexto, pretende-se investigar se as ações violentas do narcotráfico da cidade do Rio de Janeiro poderão classificar estas organizações criminosas como terrorista.

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13 2. REVISÃO DA LITERATURA E DA LEGISLAÇÃO

2.1 TERRORISMO NO MUNDO, CONCEITOS E SUA LEGISLAÇÃO.

Não é possível dizer que o terrorismo é um fenômeno recente. Na verdade, ele aparece na história humana há muito tempo. O primeiro ato documentado foi perpetrado por uma seita de cunho religioso, constituída por pessoas de classe menos favorecida, quando da revolta de Zealot, na atual Palestina. Seus ataques eram executados de forma inédita para a época, durante o dia, em grandes aglomerações, nos templos e contra os romanos. Tinha cunho nacionalista, qual seja libertar a Palestina. Segundo Carr (2002, p.11 ), o Império Romano também se utilizou do terrorismo contra os povos dominados com a finalidade de baixar o seu moral e enfraquecer a resistência das tropas inimigas. O autor destaca que a expressão utilizada na época era “Guerra Punitiva” ou “Guerra Destrutiva”. Por outro lado, estes atos acabaram por facilitar a aceitação da Pax Romana, oferecida aos povos dominados. Destaca-se ainda um grupo chamado de

“Assassinos”. Atuavam na antiga Pérsia matando dirigentes, reis e califas a fim de divulgar seus ideais políticos e religiosos de cunho messiânico no século XI.

O terrorismo tem várias motivações. É cometido por indivíduos isolados, por grupos organizados e até mesmo pelo Estado. Tal vocábulo foi usado pela primeira vez no Dictionnaire de l’Académie Française, que o nomeou como

“sistema de terror”, numa referência clara ao “Grande Terror” da Revolução Francesa. Seus conceitos podem ser simples como o da enciclopédia Larousse – um conjunto de atos de violência cometidos por grupos políticos ou criminosos para combater o poder estabelecido ou praticar atos ilegais – chegando a definição sofisticada do Dicionário do Pensamento Social do Século XX (OUTHWAIT e BOTTMORE, 1996), que classifica o terrorismo em dois tipos: no primeiro, onde o agente usa um método de ação para atingir objetivos precisos, aplicando de maneira pragmática a violência, com certo controle, podendo mudar sua estratégia. Um segundo, o terrorismo pode ser uma lógica de ação, onde os fins justificam os meios, e o agente apresenta uma ação sistemática e em cadeia, só interrompida pela repressão, sua prisão ou morte. Quando a ação terrorista é encarada como uma lógica de ação, os alvos são selecionados aleatoriamente.

Qualquer segmento social ou instituição adversária se torna um potencial alvo.

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14 Assim aconteceu em 11 de setembro de 2001, maior atentado terrorista da história dos Estados Unidos e um dos mais impactantes na história mundial. É interessante perceber que a Al Qeada atingiu alvos específicos: o Pentágono - poder militar e o World Trade Center - poder econômico. Porém, milhares de vítimas inocentes morreram, passando a impressão de ato indiscriminado, aumentando o seu impacto e repercussão. Ainda na tentativa de definir terrorismo, em 1937 a Convenção para Prevenção e Repressão do Terrorismo que ocorreu em Genebra deliberou o seguinte: “Art. 1º - Na presente convenção, a expressão

‘ato terrorista’ significa fatos criminosos dirigidos contra um Estado, cujo objetivo ou natureza é provocar terror em pessoas determinadas, em grupos de pessoas ou no público”. Já em 1998, um dos mais importantes regramentos internacionais (Estatuto de Roma), do Tribunal Penal Internacional, se quer faz referência a atos terroristas ao tratar do elenco e da tipificação dos crimes de sua competência.

Como percebemos são claras as divergências de conceito e entendimento.

Na falta de um consenso internacional, tanto para definir o que é terrorismo como para tipificá-lo, cada país inscreveu em seu sistema penal sua própria especificação jurídica. Passemos a alguns exemplos. Do Código Penal Italiano retiramos o seguinte:

“Art. 270 bis13 - Associações com o objetivo de terrorismo e de revisão da ordem democrática:

Qualquer pessoa que promova, constitua, organize ou dirija associações, se propondo qualquer tarefa violenta com o propósito de subversão da ordem democrática, é punida com a prisão de sete a quinze anos.

Quem participa de tais associações será punido com a reclusão de quatro a oito anos. Artigo adicionado pelo decreto de lei 15 de dezembro de 1979, n. 625.”

Na França, a tipificação de terrorismo é a seguinte:

"Do terrorismo 18. Capítulo 1:

Dos atos de terrorismo;

- Artigo 421-1

(Lei No. 96-647 de 22 de julho de 1996, Artigo 01, Jornal Oficial de 23 de Julho de 1996) (Lei No. 98-467 de 17 de Junho 1998, Artigo 84, Jornal Oficial de

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15 18 de Junho de 1998) (Lei de 2001 - 1062 de 15 de novembro de 2001, art. 33 Jornal Oficial de 16 de novembro de 2001)

Constituem atos de terrorismo, quando são intencionalmente cometidos em relação a uma ação individual ou coletiva cujo objetivo é alterar seriamente a ordem pública através de assédio moral ou terror, as seguintes infrações:

1º. Os ataques deliberados sobre a vida, os voluntários ataques a integridade da pessoa, rapto e seqüestro, bem como o seqüestro de aviões, navios ou quaisquer outros meios de transporte, como em definidos Livro II deste Código;

2º. Roubo, extorsão, destruição, dano e deterioração, bem como infrações em hardware de computador definidas no Livro II deste código;

3º. As infrações em material de grupos de combate e de movimentos dissolvidos definidas nos artigos 431-13 a 431-17 e as infrações definidas nos artigos 434-6 e 441-2 a 441-5;

4º. A fabricação ou o artigo 3º da lei de 19 de junho de 1871, que revoga o Decreto de 4 de setembro de 1870, sobre a fabricação de armas de guerra;”

Continuando na Europa, a Espanha trata o terrorismo judicialmente assim:

"Seção 2, 19.

Dos crimes de terrorismo;

Artigo 571:

Aqueles pertencentes a organizações ou grupos, atuando no serviço ou colaborando com bandos armados, cuja finalidade é subverter a ordem constitucional ou alterar seriamente a paz pública, cometer crimes de estragos ou incêndio tipificados nos artigos 346 e 351, respectivamente, eles serão punidos com prisão pena de quinze a vinte anos, sem prejuízo da pena que corresponda se ocorreu atentado à vida, integridade física ou a saúde das pessoas.

Artigo 572:

1. Os que pertencem, atuam no serviço ou colaboram com os grupos armados, organizações ou grupos terroristas descritos no artigo anterior, atentando contra pessoas, incorrerá:

1º. Em prisão de vinte a trinta anos, se causam a morte de uma pessoa.

2º. Na pena de prisão de quinze a vinte anos, se causarem lesões dos previstos nos artigos 149 e 150 ou seqüestrar uma pessoa.

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16 3º. No período de prisão de dez a quinze anos, se causarem outra lesão ou deterem, ameaçarem ou coagirem ilegalmente uma pessoa.”

Já na América do Sul, a Colômbia identifica judicialmente o terrorismo desta maneira:

“Artigo 34320: Terrorismo.

Aquele que provoca ou mantém no estado ansiedade ou terror a população ou um setor dela, através de atos que ponham em risco a vida, a integridade física ou a liberdade de pessoas ou edifícios ou mídia, transporte, processamento ou condução de combustíveis ou energia para veículos a motor, utilizando meios capazes de causar danos, incorrerão na prisão de dez (10) a quinze (15) anos e uma multa de mil (1.000) a dez mil (10.000) salários mínimos legais por mês em vigor, sem prejuízo da pena que lhe corresponde pelos demais crimes que sejam causados por esse comportamento. Se o estado de sofrimento ou terror é provocado por chamada telefone, fita, vídeo, cassete ou escrita anônima, a pena será de dois (2) a cinco (5) anos e multa de cem (100) a quinhentos (500) salários mínimos mensais em vigor.” Nesta transcrição foi respeitada a pontuação e apresentação dos artigos originais. Tradução livre.

A história de cada nação com o terrorismo determinou o modo como cada uma delas identifica o agente e o ato terrorista. Também é nítida a maneira distinta que cada sociedade determina a punição à aqueles que se envolvem nestes atos extremos.

2.2 TERRORISMO NO BRASIL E SUA LEGISLAÇÃO

O Brasil não faz parte do rol de países atingidos atualmente pelo terrorismo.

Em que pese encontrarmos vasta literatura que se refere aos atos cometidos pelos movimentos de guerrilha de esquerda durante as décadas de 1960 e 1970, o atual caso brasileiro é um interessante objeto de pesquisa para os estudos de terrorismo e violência política. A presença de ex-participantes de movimentos de esquerda que utilizaram da violência política no governo e parlamento, uma pesada estrutura jurídica e burocrática, uma grande fragilidade institucional, além da persistência de movimentos sociais e sérias questões ligadas ao crime organizado justificam uma discussão mais profunda sobre o terrorismo no Brasil.

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17 Atualmente a nação brasileira não é ameaçada por nenhum grupo terrorista internacional. Esta afirmação é pertinente se compararmos o dia a dia dos brasileiros com os dos nascidos nos Estados Unidos ou mesmo dos que vivem no Afeganistão e Nigéria. Assim, o Brasil se situa no índice mais baixo de impacto do terrorismo (Índice Global de Terrorismo) sem nenhum ataque de destaque nos últimos trinta anos. É o que afirma Jorge Mascarenhas Lasmar em seu artigo “A legislação brasileira de combate e prevenção do terrorismo quatorze anos após 11 de setembro: limites, falhas e reflexões para o futuro”, de 2014.

A literatura sobre o assunto costuma colocar um ataque terrorista dentro de um ciclo de fases que se inicia com o recrutamento, radicalização e difusão de idéias, financiamento, treinamento, logística, administração de recursos materiais, compartilhamento de conhecimento e materiais, planejamento, vigilância etc. Após o ataque o grupo terrorista se ocupa com a fuga e evasão dos extremistas sobreviventes, difusão e propaganda dos fatos e ideologias radicais do grupo ou indivíduo, exploração política e ideológica dos atentados etc. Mas a novidade trazida pelo Estado Islâmico, utilizando as mídias sociais como instrumento de recrutamento e radicalização não presencial, uma “educação a distância” do futuro terrorista, quase sempre um lobo solitário, armado com fuzis, pistolas ou até mesmo facas de cozinha e caminhões de coleta de lixo, desmontou este ciclo.

Diante de aspectos tão diversos, o Brasil promulgou em 2016 a lei nº 13.260, conhecida como lei Antiterrorismo. Surgiu da pressão exercida pela comunidade internacional quando das XXXI Olimpíadas de Verão do Rio de Janeiro que reuniu delegações de mais de duzentos países na Cidade Maravilhosa. Além disso, o Brasil é signatário da Convenção para Prevenir e Punir Atos Terroristas – 1973, ratificada em 1999, da Convenção Interamericana contra o Terrorismo – 2003, ratificada em 2005 e da Convenção Internacional para Supressão do Financiamento do Terrorismo – 2002, ratificada em 2005. Assim, a Lei 13.260/2016 fortaleceu a posição brasileira nestes protocolos.

Mas a Lei Antiterrorismo assinada pela presidente Dilma Roussef não foi a primeira norma a tratar do assunto no Brasil. Em 17 de janeiro de 1921 o presidente Epitácio Pessoa assinou o Decreto Nº 4.269 – Lei Adolfo Gordo, tratando do assunto. Era uma resposta as greves operárias orientadas por elementos

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18 anarquistas que praticavam atividades ilegais como fabricação e lançamento de bombas, além de depredações entre 1917 e 1920.

Com o fim da política de “café-com-leite”, a Revolução de 1930 levou ao poder Getúlio Vargas. A fim de controlar a oposição a seu governo revolucionário promulgou em 4 de abril de 1935 a lei Nº 38 tratando sobre os crimes “contra a ordem política, além de outros definidos em lei”. Em outubro de 1935 esta lei seria usada para julgar os integrantes da Intentona Comunista ou Revolta Vermelha de 35. Dois anos depois surge o Estado Novo em 10 de novembro de 1937, nacionalista, anticomunista e autoritário.

Em 31 de março de 1964, ao tentar instaurar um regime radical socialista o presidente João Goulart foi deposto. O movimento revolucionário que tomou o poder a partir de então teve que combater insurgentes que desde 1961 estavam se preparando para o apoio armado a Jango. Assaltos a banco, seqüestros, atentados a bomba eram julgados ainda sob a ótica da lei nº 38/1925. Apenas em 14 de dezembro de 1983, o presidente João Batista de Figueiredo assinou a Lei Nº 7.170 tratando dos atos terroristas. Mesmo assim, a “Lei de Segurança Nacional” como ficou conhecida, chama mais atenção pelas sanções políticas que trás em seu conteúdo.

A Constituição Federal de 1988 faz menção ao terrorismo em seu Art. 5º, XLIII:

“XLIII – a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática de tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitem.”

É dado o peso de crime hediondo ao terrorismo pelos constituintes brasileiros naquele momento. Desta forma,torna-se inafiançável e insuscetível de graça ou anistia. Como também é criminalizado, o que significa dizer que o legislador ordinário deve criar o crime de terrorismo, o que aconteceu em 16 de março de 2016.

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19 2.3 NARCOTRÁFICO NO RIO DE JANEIRO

O narcotráfico afeta todos os países de forma significativa e se projeta no território brasileiro levando os Estados a desenvolverem políticas em relações às quais tanto os segmentos sociais do Brasil, quanto seu governo teve que se posicionar. Em outra perspectiva, o tráfico de drogas se alimentou das mudanças e problemas sociais, como o enfraquecimento estatal e desemprego, que levou a diversificação da economia informal. Assim, a deterioração crescente da condição econômico-social de parte da população, a marginalização de segmentos sociais no processo de desenvolvimento e o acentuado crescimento dos centros urbanos fomentou o comércio da droga com aumento significativo da violência.

É possível apontar dois grandes segmentos do narcotráfico no Brasil: um que se dedica ao tráfico internacional, movimentando enormes quantidades de drogas e recursos financeiros, concentrando-se principalmente no Rio de Janeiro, São Paulo e Amazonas, por conta dos portos e aeroportos internacionais residentes nestes estados da federação. Noutro segmento estão aqueles dedicados à distribuição e venda de drogas no mercado doméstico, principalmente nas grandes e médias cidades. Segundo o Departamento de Narcóticos do Estado do Rio de Janeiro cerca de cem mil pessoas estão envolvidas nas atividades de distribuição e venda de drogas. São vinculados a organizações criminosas como o Terceiro Comando dos Amigos (união dos Amigos dos Amigos com Terceiro Comando Puro) e Comando Vermelho. Atualmente os órgãos de inteligência descobriram a associação entre o Terceiro Comando dos Amigos (TCA) com o Primeiro Comando da Capital (PCC) de São Paulo o que está sendo chamado de TCA1533, para combater o Comando Vermelho (CV).

O negócio tráfico de drogas, no Rio de Janeiro, movimenta cerca de R$ 15,5 bilhões por ano. São dados da Consultoria Legislativa da Câmara de Deputados que em 2106 estudou o movimento financeiro da atividade criminosa. A maconha participa com R$ 6,68 bilhões, a cocaína com R$ 4,69 bilhões, o crack com R$ 2,95 bilhões e o estacsy com R$ 1,189 bilhão neste mercado. Daí o interesse incomum das organizações criminosas no negócio de entorpecentes e a ferocidade na defesa de seus interesses, com o uso extremo de violência.

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Ilustração 1: Mapa das áreas dominadas pelo narcotráfico

Ilustração 2: Distribuição das facções no Rio de Janeiro

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21 3. AS AÇÕES DO NARCOTRÁFICO NO RIO DE JANEIRO E O TERRORISMO INTERNACIONAL: COMPARAÇÕES

3.1 AÇÕES DO NARCOTRÁFICO NO RIO DE JANEIRO

A imprensa brasileira costuma se referir aos conflitos entre traficantes da cidade do Rio de Janeiro como “A Guerra sem fim”. Os tiroteios constantes variam em intensidade e não raro vitimam inocentes, geralmente moradores das comunidades dominadas por estas facções. A fim de manter o controle, os narcotraficantes disciplinam seus membros e determinam regras de conduta para a sua organização e para a comunidade. Em que pese a intenção para a atuação violenta dos traficantes de drogas seja negar a ordem legal para aumentar seus lucros, seus inimigos são mutáveis e circunstanciais, assim como podemos considerar seus objetivos como políticos.

Assim, vejamos alguns exemplos de atos praticados por narcotraficantes no Rio de Janeiro que exemplifiquem as afirmações anteriores.

Na edição de 03 de maio de 2017 do Jornal Extra, o reporter Ricardo Rigel conta que traficantes do ainda Terceiro Comando Puro (TCP) que atuavam na favela Parada de Lucas assumiram o controle da venda de drogas na região, expulsando o Comando Vermelho (CV). Desde então, este grupo tenta reaver o controle da comunidade e no dia 02 de maio de 2017 45 criminosos foram presos. Em retaliação, foram queimados nove ônibus e dois caminhões que trafegavam na região num espaço de 24 horas.

Em 25 de janeiro de 2018 o Jornal do Brasil relatou que um ônibus foi incendiado na Avenida Niemeyer, no Vidigal, após a prisão de um homem que portava um fuzil e uma pistola. A ação foi realizada por um grupo de homens que fugiu do local.

No dia 13 de julho de 2016, o jornal O Globo noticiou a morte de Andressa Cristina Cândido. Segundo a reportagem, a jovem de 19 anos foi torturada, estuprada por oito homens, apedrejada e jogada em um rio. Morreu tão cruelmente por morar em Costa Barros, comunidade rival a Favela do Chaves onde foi parar ao pegar um ônibus errado.

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22 Numa outra reportagem publicada em 11 de fevereiro de 2017, o repórter Leslie Leitão entrevistou o traficante “Playboy” então chefe do complexo da Pedreira.

Nesta ocasião foram publicadas três informações importantes sobre o líder da comunidade: a primeira é que todas as normas do morro é ele quem dita. A segunda diz que o traficante distribui centenas de cestas básicas e botijões de gás, mensalmente na região. E a terceira que o mesmo é o mediador dos conflitos entre os moradores, atuando como juiz, e pune quem cometer assaltos na favela. Em uma faixa simples de tecido, se lê “Proibido carro roubado no complexo da Pedreira”.

Naturalmente a pena para a desobediência é a morte, da maneira mais cruel possível.

A seguir, uma relação das punições mais freqüentes e seus “delitos”:

Decapitação: esta punição é aplicada para aqueles que tentam desafiar o poder do tráfico. Seja por disputa de território ou até mesmo por dívida. Após a decapitação, as cabeças são exibidas na comunidade;

Tiro no rosto: praticado contra aqueles que tem dívidas com o tráfico. Depois do assassinato, o corpo e deixado na rua e não pode ser retirado até que seja autorizado pelo “tribunal”;

Esquartejamento:pena aplicada aos que de alguma forma, atrapalham o tráfico na comunidade. Ocorre também por dívida;

Amputação: são retiradas as mãos daqueles que roubaram o tráfico, seja retirando a droga ou dinheiro. A amputação pode ser seguida de morte.

Cremação: acontece, geralmente por vingança. Os “X9”, são normalmente mortos desta forma. O caso mais conhecido deste tipo de execução aconteceu em 02 de junho de 2002. O repórter Tim Lopes que estava disfarçado na Vila Cruzeiro, fazendo uma matéria sobre os bailes funk patrocinados pelos traficantes. Foi preso, torturado e morto ao atearem fogo ao seu corpo, no chamado “microondas”.

Não é só a violência contra a pessoa que é perpetrada pelos traficantes. No início da década de 1990 o traficante Ernaldo Pinto Medeiros, o Uê, mandou atacar os postos da Polícia Militar do Rio de Janeiro, bem como às delgacias de Polícia nos subúrbios cariocas.

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23 Réporteres de “O Globo” em 29 de julho de 1995, escrevem que o serviço reservado da Polícia Militar investigava o treinamento de guerrilha que traficantes estavam recebendo em acampamentos na floresta da tijuca. Entre 2000 e 2003 são descobertas ligações entre Fernandinho Beira-Mar, Leonardo Dias Mendonça e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o que garantia drogas para o Rio de Janeiro e armas para os terroristas. Surgem indícios de guerrilheiros colombianos nos morros do Cariocas. Com este apoio, Fernandinho Beira-Mar inicia o ataque explícito às instituições do Estado. Em fevereiro de 2002 ocorre o atentado contra o centro administrativo da Prefeitura do Rio de Janeiro. Foram efetuados tiros de fuzis e granadas foram arremessadas. O então prefeito César Maia pede que seja decretado Estado de Defesa na cidade. Em junho desse mesmo ano são assassinados seletivamente promotores de justiça do Estado carioca, com o simples intuito de intimidar. No mês de setembro de 2002, no dia trinta, Beira-Mar manda que as lojas de mais de quarenta bairros da Cidade Maravilhosa sejam fechadas.

Além delas indústrias são obrigadas a interromper suas atividades causando um prejuízo de R$130 milhões. Ao mesmo tempo, os criminosos inauguram sites na internet onde ensinam a fabricar bombas como também técnicas básicas de terrorismo. O Palácio da Guanabara e a Torre do Shopping Rio Sul são atacadas com tiros e granadas. A delegacia de Cidade Nova é atacada com granadas no dia seguinte.

3.2 AÇÕES TERRORISTAS NO MUNDO

Quando se fala em ação terrorista, logo surgem as imagens dos aviões se chocando com as torres gêmeas do “World Trade Center”. Mas o terrorismo não é um evento recente.

Os primeiros atentados terroristas modernos, já que se consideram terrorismo atos feitos desde a era bíblica, aconteceram um pouco antes da década de 1880 na Rússia. Anarquistas assassinavam oficiais das forças armadas, funcionários públicos e oponentes de movimentos nacionalistas. A onda anarquista foi a primeira experiencia internacional do terrorismo. A ela se seguiram as ondas anticolonial, da nova esquerda e religiosa, como intuiu David Rapoport.

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24 A passagem de uma onda para a outra do terrorismo leva em consideração alguns fatores. O alvo do ato, os meios de comunicação usados em cada época, a motivação etc. Na onda anarquista as notícias levavam um dia ou mais para chegar de um país até outro. Isso numa Europa com telégrafos e jornais periódicos com grande circulação. Os anarquistas tentavam por intermédio dos seus homicídios sensibilizar outros agitadores no mundo para levantar sua revolução em todo mundo. Estes indivíduos não se consideravam criminosos. Numa tentativa de realizar um atentado em 24 de janeiro de 1878, a anarquista Vera Zasulich foi cercada por policiais russos e ao ser presa, jogou sua arma no chão e disse ser uma “terrorista, não uma assassina”. Acabou sendo absolvida em seu julgamento com aplausos da multidão que assistia a audiência. O ato terrorista mais importante deste período foi o assassinato do arquiduque do Império Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, em 28 de junho de 1914. Ele foi assassinado junto com sua esposa Sofia em Sarajevo, pelo membro do grupo nacionalista bósnio Gravrilo Princip. Sua morte foi a gota d'água para a Primeira Guerra Mundial.

Nos anos de 1920 surge a segunda onda terrorista, a onda anticolonial. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Versailles obrigou a dissolução dos impérios coloniais dos vencidos e os vitoriosos introduziram o conceito de autodeterminação das nações. Estes países não perceberam que este conceito não sepultava apenas os impérios coloniais das nações européias do Eixo, derrotadas na “Guerra das Guerras”. Legitimava a insurreição em suas próprias colonias. A Segunda Grande Guerra também fragilizou os impérios restantes, reforçando a idéia de autodeterminação dos povos. Assim, durante este período, o terrorismo anticolonial ajudou no surgimento de países como Índia, Irlanda, Israel, Argélia, Ethiópia, Paquistão, e Egito. Um modelo de organização deste período são os Etzel. Dissidência do Hanagá, lutaram pela formação do estado de Israel entre 1931 e 1948. Em novembro de 1942 assassinaram o Lorde Moyne, Secretário do Estado Colonial Britânico. Já em 22 de julho de 1946, foram os responsáveis pela morte de 91 pessoas num ataque a bomba contra o King David.

No contexto da Guerra Fria emerge a terceira onda do terrorismo. Conhecida como “New Left”, Nova Esquerda em português, surgiu num contexto onde a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas começaram a financiar e patrocinar grupos

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25 com o intuito de desestabilizar governos pró estadunidenses. Assim sugiram grupos em todo o mundo como as Brigadas Vermelhas na Itália, Ação Direta Francesa, Exército Vermelho Japonês, Sandinistas na Nicarágua, entre tantos outros. Para ilustrar este momento do terrorismo, é citado o sequestro e morte do primeiro ministro italiano Aldo Moro. Capturado em 16 de março de 1978 por integrantes das Brigadas Vermelhas acabou sendo morto em 09 de maio do mesmo ano. Os brigadistas nunca iniciaram uma negociação, apesar de permitir que Moro escrevesse cartas endereçadas aos dirigentes do governo, de seu partido, Democracia Cristã e até mesmo ao Papa Paulo VI. Após a instauração de um

“tribunal revolucionário”, o político italiano foi sentenciado a morte. Seu corpo foi encontrado no porta-malas de um Renaut 4, de cor vermelha.

A Revolução Islâmica no Irã em 1979, é o marco inicial da quarta onda do terrorismo. Elementos religiosos sempre foram importantes no terrorismo moderno tendo em vista a superposição entre ética e religião. Os armênios, irlandeses, israelenses e palestinos, podem ilustrar este ponto de vista. Este tipo de terrorismo não é exclusivo de uma religião. Permeia cristãos, bomba em Oklahoma City em 1995; budistas, gás sarin no metrô de Tóquio também em 1995; islâmicos, aviões nas Torres Gêmemas em 11 de setembro de 2001. Atualmente, mobiliza a comunidade internacional o combate ao Estado Islâmico. É um grupo terrorista, dissidente da Al Qaeda, que perpetraram assassinatos violentos como a decapitação de James Foley, repórter norte-americano. A execução utilizou as mídias sociais para divulgação de sua mensagem contra a civilização ocidental, personalizada pelos Estados Unidos da América e seus aliados. São mortos todos que não se enquadrem em suas regras, baseadas numa interpretação radical da

“Sharia”, a lei islâmica. Praticantes de outras religiões são sumariamente mortos se não se converterem. Mesmo muçulmanos de outras seitas são eliminados. As mortes são espetáculos divulgados nas mídias sociais da “world wide web” num esforço de propaganda para conquistar simpatizantes e simplesmente aterrorizar inimigos e os submetidos a seu domínio. Homossexuais são arremessados do terraço de prédios. Ladrões são amputados. Mulheres que não se vestem apropriadamente são chicoteadas. Comerciantes desonestos são espancados em

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26 praça pública. Inimigos queimado em gaiolas. Terror para subjulgar e manter o controle do “califado”.

3.3 SIMILARIDADES E DIFERENÇAS ENTRE AS AÇÕES DO NARCOTRÁFICO CARIOCA E O TERRORISMO INTERNACIONAL

Violência. É a primeira característica comum entre os narcotraficantes do Rio de Janeiro e os terroristas. Tanto um quanto o outro se esforçam em passar mensagens em seus atos de selvageria. Em que pese que a mensagem seja um dos fins das ações violentas dos terroristas, ela também está presente nas ações dos narcotraficantes. James Foley, jornalista norte-americano, decapitado. Tim Lopes, jornalista brasileiro, queimado vivo. Mesmo ato, assassinato de repórteres.

Mensagens distintas. “Sou capaz de desafiar sua nação”, escuta-se no caso de Foley. “Não quero ninguém investigando meus interesses”, é visto no caso de Lopes.

O Comando Vermelho atira nas mãos dos que roubam em suas comunidades. O Estado Islâmico amputa aqueles que fazem o mesmo em seu território. Mesmo ato. Significado parecido. “Eu sou a lei aqui”.

Em 15 de setembro de 2017 uma bomba explodiu numa estação de metrô de Londres. Vinte e nove pessoas ficaram feridas num atentado reivindicado pelo Estado Islâmico, noticiou o Estado de São Paulo.

Em 03 de maio de 2017 oito ônibus e dois caminhões foram incendiados em vias expressas da cidade do Rio de Janeiro por ordem do Comando Vermelho, estampa o El País.

As duas ações, em Londres e no Rio de Janeiro, foram transmitidas em tempo real na internet. Desta vez era simplesmente a mensagem. Propaganda foi o objetivo a alcançar.

As estruturas das organizações terroristas são hierarquizadas e verticalizadas. Bin Laden como comandante da Al Qaeda e Martin McGuinness como chefe do “Irish Republican Army” ilustram a afirmação. Do lado do narcotráfico, seguem o mesmo padrão. Fernandinho Beira-Mar a frente do Comando Vermelho e Uê que comandava a facção Amigos dos Amigos interpretam o mesmo papel.

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27 As ordens devem ser seguidas a risca. A traição e deserção são pagas com a morte.

Dolores Gonzales Catarain, conhecida como “Yoyes”, dirigiu o Exército de Libertação Basco, o ETA. Famosa por ser a primeira mulher a comandar uma organização terrorista, resolveu abandonar as armas. Foi considerada traidora por seus antigos companheiros e assassinada em 10 de setembro de 1986. Lia-se

“Yoyes traidora” pixado nas paredes de Ordizia, cidade onde nasceu e morreu.

Da mesma forma, Enaldo Pinto de Medeiros, o Uê, foi morto no complexo presidiário de Gericinó. Em 13 de junho de 1994, Uê assassinou, numa emboscada, seu antigo chefe e amigo Orlando da Conceição, o Jogador. Assim assumiu o comando daquele grupo do Comando Vermelho. Mas seu ato acabou por expulsá- lo da facção criminosa, sendo sua cabeça colocada a prêmio.

Ilustração 4: Assassinato de Uê

Ilustração 3:

Assassinato de Yoyes

(29)

28 4. AS AÇÕES DO NARCOTRÁFICO NO RIO DE JANEIRO E A LEI ANTITERRORISMO BRASILEIRA

4.1 CONCEITO BRASILEIRO DE TERRORISMO (LEI Nº 13.260/2016)

A Lei Nº 13.260/2016 promulgada em 16 de março de 2016 pela presidente Dilma Rousseff. O cenário daquele momento exigia uma lei que garantisse a execução dos XXXI Jogos Olímpicos de Verão no Rio de Janeiro. A comunidade internacional pressionou o Estado brasileiro no sentido de garantir a segurança dos integrantes das delegações dos países participantes. Muitos destes ameaçados por organizações terroristas.

A Constituição Federal de 1988 faz menção ao terrorismo em seu art. 5º, XLIII: a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo od mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los se omitirem. Assim a Lei Antiterrorismo definiu e tipificou o crime trinta anos após sua menção na constituição. Ela define terrorismo como a prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos no art 2º, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor , etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública.

Desta forma foram estabelecidas as razões para o crime de terrorismo, quais sejam: a discriminação, xenofobia e preconceito de raça, cor , etnia e religião. Da mesma maneira suas finalidades foram listadas como sendo o terror social e o terror generalizado. Paulo Eduardo Bicalho de Carvalho argumenta que as condutas descritas como atos terroristas devem ter essas razões e essas finalidades, pois, segundo ele, do contrário, não haverá crime de terrorismo. Já Adib Abidouni diz que em tempos de explosão irrefreável da violência em nosso país, notabilizada por ações de grupos e facções do crime organizado no tráfico de drogas e de armas, atuando em rede, de forma transnacional e sem limites de fronteiras, ainda que não tenhamos uma definição mais fechada de terror, a Lei Nº13.260/2016 cumpre seu papel de repúdio ao terrorismo, competindo ao aplicador da lei penal bem aplicá-la ao caso concreto, sem prejuízo de que o texto

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29 venha a ser aperfeiçoado pelo legislador futuro. Existe aí uma indicação da utilização da lei em resposta ao narco terror.

Ainda discutindo os critérios para a aplicação da lei antiterrorismo, o professor Antônio Lopes Monteiro enumera alguns elementos que julga necessário.

O primeiro ele denomina de criação do terror. Consiste em criar na população um estado de medo contínuo por intermédio da prática reiterada de atos que isoladamente pouco significaria. O Segundo chama simplesmente de violência onde os estragos causados pelos meios utilizados são essenciais. No terceiro posto nomeia o fim político de agir, que diz está presente corriqueiramente na atividade terrorista. Na realidade o agente do terror dirige sua conduta contra uma ordem social vigente que pretende modificar.

Mas a lei Nº 13.260/16 tem em si uma controversa. No seu art. 5º diz que

“realizar atos preparatórios de terrorismo com o propósito inequívoco de consumar tal delito” tem pena estabelecida correspondente ao delito consumado, diminuído de uma quarto até a metade. Sabe-se que em regra não há punição para atos preparatórios de um crime. Sua punição incinde apenas nos casos de sua execução. No entanto, o legislador fez questão de deixar claro que haverá punição para os atos preparatórios no que se refere ao terrorismo, invocando a incidência do Direito Penal do Inimigo de Günter Jakobs, explica Paulo Eduardo Bicalho de Carvalho. Exemplifica dizendo que se um indivíduo está fabricando uma bomba para ser usada em ato terrorista, isto bastará para a configuração do crime. O mesmo se aplica a troca de mensagens visando a prática do terrorismo.

Uma outra definição importante estabelecida na lei antiterrorista brasileira é a de terrorismo nacional ou terrorismo interno. Considera que se não há pretensão de que os atos enquadrados na lei sejam espalhados para outros países ou que não ocorra treinamento ou viagem para outra nação distinta da nacionalidade daqueles que perpetram o crime. Esta conceituação é importante para enquadrar no espaço geográfico brasileiro o crime de terrorismo.

A Lei brasileira contra o terrorismo adota um conceito internacional para este delito. Assim, ela não é originada do desenvolvimento da experiência brasileira mas de demandas exteriores, principalmente àquelas originadas da ocorrência dos megaeventos no Brasil. Alguns juristas a consideram como uma lei de exceção,

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30 onde o terrorista como não pessoa, numa alusão ao direito penal do inimigo. De qualquer forma, ela é uma peça fundamental da ação do Estado que jamais será isento de dispositivos de exceção.

4.2 AVALIAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DAS AÇÕES DOS NARCOTRAFICANTES CARIOCAS DIANTE DA LEI ANTITERRORISMO

É importante entender que o ambiente de atuação do narcotráfico carioca, a favela ou comunidade, tem características especiais que facilitam sua dominação de sua população. Seus moradores reconhecem que a favela são um território privilegiado da violência. O terror perpetrado pelas facções criminosas é patente quando seus moradores se sentem seguros para falar. Em entrevista constantes da Revista Praia Vermelha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ao tratar do tema “Cidade e Segregação”, os moradores relatam que “os traficantes sabem de tudo que eu faço. Dentro e fora da favela.” Completam dizendo que os traficantes são bandidos e que estão a margem da sociedade, e só se pode esperar deles violência e medo. São proibido o uso de cores identificadas com facções inimigas (vermelho nas favelas dominadas pelo Terceiro Comando e branco naquelas dominadas pelo Comando Vermelho); falar o número três nas dominadas pelo CV.

Tudo isso sob o império do terror. Espancamentos e assassinatos violentam os indivíduos e lhes produz constrangimento diante do poder das organizações criminosas.

É possível enquadrar tais atitudes no art. 2º da lei em estudo, uma vez que se torna evidente a condição de terror que permanecem as comunidades subjugadas.

Outros atos impactam a sociedade carioca e seus cidadãos. Não raro, por ordem dos líderes do tráfego, ônibus são queimados. Geralmente isto ocorre a fim de retaliar a cidade diante da prisão ou morte de um ou mais membros de uma facção, ou simplesmente para atrapalhar a execução de uma operação de combate ao tráfico de drogas.

Mais uma vez o art. 2º se apresenta. O número IV, do § 1º diz que sabotar o funcionamento ou apoderar-se com violência de meio de comunicação e transporte é tipificado como terrorismo.

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31 Continuando a falar dos incêndios aos meios coletivo de transporte urbano, o fato de adquirir combustível ou fabricar explosivos constitui ato terrorista. São chamados atos preparatórios e aparecem na lei em questão em seu art.5º. Diz ser crime de terrorismo realizar atos preparatórios com o propósito inequívoco de consumá-lo.

Assim, todo recursos, ativos, bens, utilizados para a atividade ilícita, direta ou indiretamente, ou serviços de qualquer natureza estão tipificados como atividade terrorista como diz o art. 6º.

É perceptível a intenção do legislador em tipificar de maneira bastante peculiar o crime de terrorismo. Desta forma, as ações do narcotráfico na cidade do Rio de Janeiro podem ser avaliadas de várias formas. Desde de uma percepção subjetiva, onde a sensação de segurança expressada pela população é a mais importante variável até a utilização de indicadores de segurança pública apresentados pelas organizações internacionais, nacionais e estaduais (www.onu- brasil.org.br, www.mj.gov.br e www.rj.gov.br/web/seseg).

O mais expressivo indicador na área de segurança pública na é o do Escritório das Nações Unidas Contra Drogas e Crime (UNODC) que atua monitorando a corrupção, crime organizado, tráfico de seres humanos, contrabando de migrantes, tráfico de armas, lavagem de dinheiro e terrorismo. Nos dois relatórios apresentados por estes escritórios em 2001 e 2005, com dados recebidos do ministério da justiça brasileiro, o quesito terrorismo não aparece computado para o Brasil. Por outro lado é evidente a ação violenta do narcotráfico, contribuindo para a insegurança da sociedade e em particular, para a população das comunidades onde estas facções criminosas atuam.

Assim, podemos pensar que, mesmo com dados de 2001 e 2005, as lei Nº 13.260/2016, no que se refere a classificação da violência do narcotráfico, tem alguma aplicabilidade.

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32 5. CONCLUSÃO

A sociedade brasileira enfrenta o fenômeno da violência do narcotráfico, comum em várias outros países. Porém, a despeito de ser um crime qualificado no nosso código penal, suas ações violentas vem ultrapassando o conceito de crime comum e se aproximando do terrorismo.

O mundo acadêmico apresenta definições e conceitos para tal evento.

Utilizando os estudos de David Rapoport para a conceituação e classificação do terrorismo moderno, existe a dificuldade de enquadrar o narcotráfico brasileiro em uma das quatro ondas terrorista. Por outro lado, o Dictionnaire de l’Académie Française, diz que o terrorismo tem como características a coação e a ameaça para impor sua vontade. Nada muito diferente do que é visto nas comunidades cariocas dominadas pelos traficantes de drogas.

A legislação brasileira sobre terrorismo se inicia na década de 1920,diante da onda anarquista que assolava o mundo, principalmente a Europa, sendo o estopim da Primeira Guerra Mundial. Ela evoluiu com a nossa história, passando por Getúlio Vargas em seus dois governos e chegando a Lei de Segurança Nacional nos anos de 1980. Até a lei 13.260/2016, atual Lei Antiterrorismo, este foi o caminho trilhado por nossa legislação.

Apresenta-se então o fenômeno do narcotráfico, particularmente no Rio de Janeiro, cidade que apresenta uma divisão peculiar estabelecida pelas facções criminosas que dominam o tráfico de drogas. Comando Vermelho – CV, Amigos dos Amigos – ADA, Terceiro Comando Puro – TCP e a possível união do Primeiro Comando da Capital – PCC, vindo de São Paulo com o TCP e ADA fazendo surgir o Terceiro Comando dos Amigos 1533 – TCA1533.

Estes grupos atuam na Cidade Maravilhosa de forma violenta, a fim de manter sob controle o comércio da droga, sua fonte de lucro. As comunidades onde se instalam estas facções criminosas passam a sofrer com o ambiente dominado pelos criminosos que impõem o terror como forma de submissão. Descrever os todos os atos perpetrados por estas organizações contra suas comunidades fortalece a convicção que, de alguma forma, estas podem sim ser enquadradas nas Lei Antiterrorismo. Assassinatos, destruição de meios de transporte como retaliação, opressão por intermédio do medo, da população em sua área, subversão

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33 da ordem pública, entre outros aspectos, estão presentes nos artigos da Lei 13.260/2016, inclusive os “atos preparatórios”, podem sim ser utilizados nesta interpretação da lei.

O legislador ao pensar na Lei Antiterrorismo tentou tipificar da forma mais precisa possível o terrorismo. Apesar deste cuidado, grupos de pressão, principalmente movimentos sociais, viram na lei uma ameaça e se mobilizaram pelo seu veto. Mas a pressão internacional pela sua aprovação as vésperas das Olimpíadas de Verão no Rio de Janeiro, precipitaram sua assinatura.

Apoiando-se em comparações entre atos feitos pelo terrorismo internacional e aqueles executados pelos narcotraficantes, levando em consideração apenas o terror e a subversão da ordem social, é perceptível o possível enquadramento dos grupos de traficantes de drogas nos artigos da lei que trata sobre o terrorismo no Brasil.

A legislação específica, Lei 13.343 de 23 de agosto de 2006 que instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas – Sisnad, prescreve medidas para a prevenção do uso indevido de drogas, atenção e inserção social de usuários e dependentes e estabelece normas para a repressão à produção não autorizada e ao tráfico de drogas, sem contudo tratar efetivamente da violência dos traficantes.

Talvez uma mudança de postura ao responsabilizar os envolvidos com o tráfico de drogas sob as letras da lei 13.260/2016 possa conscientizar a sociedade para o problema da dominação exercida por estas organizações criminosas nas comunidades, fazendo com que os grupos de pressão possam seu papel junto ao poder público para a resolução do problema.

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(38)

37

ANEXO A

Presidência da República

Casa Civil

Subchefia para Assuntos Jurídicos

LEI Nº 13.260, DE 16 DE MARÇO DE 2016.

Mensagem de veto

Regulamenta o disposto no inciso XLIII do art.

5o

da Constituição Federal, disciplinando o terrorismo, tratando de disposições investigatórias e processuais e reformulando o conceito de organização terrorista; e altera as Leis nos

7.960, de 21 de dezembro de 1989, e 12.850, de 2 de agosto de 2013.

A PRESIDENTA DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o Esta Lei regulamenta o disposto no inciso XLIII do art. 5o da Constituição Federal, disciplinando o terrorismo, tratando de disposições investigatórias e processuais e reformulando o conceito de organização terrorista.

Art. 2o O terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública.

(39)

38

§ 1o São atos de terrorismo:

I - usar ou ameaçar usar, transportar, guardar, portar ou trazer consigo explosivos, gases tóxicos, venenos, conteúdos biológicos, químicos, nucleares ou outros meios capazes de causar danos ou promover destruição em massa;

II – (VETADO);

III - (VETADO);

IV - sabotar o funcionamento ou apoderar-se, com violência, grave ameaça a pessoa ou servindo-se de mecanismos cibernéticos, do controle total ou parcial, ainda que de modo temporário, de meio de comunicação ou de transporte, de portos, aeroportos, estações ferroviárias ou rodoviárias, hospitais, casas de saúde, escolas, estádios esportivos, instalações públicas ou locais onde funcionem serviços públicos essenciais, instalações de geração ou transmissão de energia, instalações militares, instalações de exploração, refino e processamento de petróleo e gás e instituições bancárias e sua rede de atendimento;

V - atentar contra a vida ou a integridade física de pessoa:

Pena - reclusão, de doze a trinta anos, além das sanções correspondentes à ameaça ou à violência.

§ 2o O disposto neste artigo não se aplica à conduta individual ou coletiva de pessoas em manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de categoria profissional, direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios, visando a contestar, criticar, protestar ou apoiar, com o objetivo de defender direitos, garantias e liberdades constitucionais, sem prejuízo da tipificação penal contida em lei.

Art. 3o Promover, constituir, integrar ou prestar auxílio, pessoalmente ou por interposta pessoa, a organização terrorista:

Pena - reclusão, de cinco a oito anos, e multa.

§ 1o (VETADO).

§ 2o (VETADO).

Art. 4o (VETADO).

Art. 5o Realizar atos preparatórios de terrorismo com o propósito inequívoco de consumar tal delito:

Pena - a correspondente ao delito consumado, diminuída de um quarto até a metade.

§ lo Incorre nas mesmas penas o agente que, com o propósito de praticar atos de terrorismo:

I - recrutar, organizar, transportar ou municiar indivíduos que viajem para país distinto daquele de sua residência ou nacionalidade; ou

(40)

39

II - fornecer ou receber treinamento em país distinto daquele de sua residência ou nacionalidade.

§ 2o Nas hipóteses do § 1o

, quando a conduta não envolver treinamento ou viagem para país distinto daquele de sua residência ou nacionalidade, a pena será a correspondente ao delito consumado, diminuída de metade a dois terços.

Art. 6o Receber, prover, oferecer, obter, guardar, manter em depósito, solicitar, investir, de qualquer modo, direta ou indiretamente, recursos, ativos, bens, direitos, valores ou serviços de qualquer natureza, para o planejamento, a preparação ou a execução dos crimes previstos nesta Lei:

Pena - reclusão, de quinze a trinta anos.

Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem oferecer ou receber, obtiver, guardar, mantiver em depósito, solicitar, investir ou de qualquer modo contribuir para a obtenção de ativo, bem ou recurso financeiro, com a finalidade de financiar, total ou parcialmente, pessoa, grupo de pessoas, associação, entidade, organização criminosa que tenha como atividade principal ou secundária, mesmo em caráter eventual, a prática dos crimes previstos nesta Lei.

Art. 7o Salvo quando for elementar da prática de qualquer crime previsto nesta Lei, se de algum deles resultar lesão corporal grave, aumenta-se a pena de um terço, se resultar morte, aumenta-se a pena da metade.

Art. 8o (VETADO).

Art. 9o (VETADO).

Art. 10. Mesmo antes de iniciada a execução do crime de terrorismo, na hipótese do art.

5o

desta Lei, aplicam-se as disposições do art. 15 do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal.

Art. 11. Para todos os efeitos legais, considera-se que os crimes previstos nesta Lei são praticados contra o interesse da União, cabendo à Polícia Federal a investigação criminal, em sede de inquérito policial, e à Justiça Federal o seu processamento e julgamento, nos termos do inciso IV do art. 109 da Constituição Federal.

Parágrafo único. (VETADO).

Art. 12. O juiz, de ofício, a requerimento do Ministério Público ou mediante representação do delegado de polícia, ouvido o Ministério Público em vinte e quatro horas, havendo indícios suficientes de crime previsto nesta Lei, poderá decretar, no curso da investigação ou da ação penal, medidas assecuratórias de bens, direitos ou valores do investigado ou acusado, ou existentes em nome de interpostas pessoas, que sejam instrumento, produto ou proveito dos crimes previstos nesta Lei.

§ 1o Proceder-se-á à alienação antecipada para preservação do valor dos bens sempre que estiverem sujeitos a qualquer grau de deterioração ou depreciação, ou quando houver dificuldade para sua manutenção.

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