Processo 132/2009-JP
Data do documento 1 de abril de 2022
Relator
Dulce Nascimento
JULGADOS DE PAZ | CÍVEL
Sentença
DESCRITORES
Contrato de adesão - responsabilidade civil - incapacidade temporária
SUMÁRIO
N.D.TEXTO INTEGRAL
SENTENÇAValor da Acção: 1.200€ (mil e duzentos euros).
I – IDENTIFICAÇÃO DAS PARTES Demandante: A
Mandatário: B Demandada: C Mandatário: D
II – OBJECTO DO LITÍGIO
O Demandante intentou a presente acção pedindo a condenação da Demandada a pagar a quantia de 1.200€ (mil e duzentos euros) referente a um período de incapacidade temporária absoluta para o trabalho na sequência de acidente que sofreu. Juntou aos autos três documentos e procuração forense.
Procedeu-se à citação da Demandada, que contestou dizendo que já havia cumprido com as suas obrigações contratuais uma vez que já cobriu os trinta dias de incapacidade temporária absoluta para o trabalho do Demandante. Juntou aos autos dois documentos e procuração forense.
O Demandante aderiu à Mediação tendo a Demandada faltado à sessão de Pré-Mediação agendada.
O Julgado de Paz é competente em razão da matéria, do objecto, do território e do valor. O processo não enferma de nulidades que o invalidem na totalidade. As partes gozam de personalidade e capacidade judiciárias e são legítimas.
Verificando-se os pressupostos processuais de regularidade e validade da instância, não existindo
excepções, nulidades ou quaisquer questões prévias de que cumpra conhecer, ou que obstem ao conhecimento do mérito da causa, cumpre apreciar e decidir:
III – FUNDAMENTAÇÃO
Da prova produzida (documental e testemunhal), com interesse para a decisão, ficou provado que:
Em 05.03.2008 as partes celebraram um contrato denominado “E”, identificado com a apólice n.º x (fls. 4 a 7).
De acordo com as coberturas conferidas ao abrigo da apólice, Secções A a C, a Demandada obrigou-se a efectuar o pagamento dos seguintes benefícios contratados, em caso de acidente:
Secção B: Incapacidade Temporária Absoluta (ITA) em consequência de acidente – se a pessoa segura em consequência de acidente sofrer lesões corporais das quais resulte nos 30 dias a seguir ao acidente, uma ITA a Demandada pagará um subsídio com início no primeiro dia da ITA e pelo tempo que a mesma durar, até um período máximo de seis meses. O valor mensal do subsídio é determinado em função do estipulado na Lista das Garantias, sob a secção B, e da opção escolhida expressamente na Proposta. O valor do subsídio diário resultará da divisão do valor mensal por 30. O prazo máximo de garantia é de 6 meses aprecia-se somando os vários períodos de ITA participados e pagos quando causados pelo mesmo acidente.
Secção C: Incapacidade Temporária Parcial (ITP) em consequência de acidente - se a pessoa segura em consequência de acidente sofrer lesões corporais das quais resulte imediatamente após um período de ITA pelo qual uma garantia seja devida ao abrigo da Secção B da apólice uma ITP da pessoa segura, então a Demandada pagará um subsídio diário de incapacidade parcial, até um período de um mês. O valor mensal do subsídio é determinado em função do estipulado na Lista das Garantias, sob a secção C, e da opção escolhida expressamente na Proposta. O valor do subsídio diário resultará da divisão do valor mensal por 30. O prazo máximo de garantia de 1 mês aprecia-se somando os vários períodos de ITP participados e pagos quando causados pelo mesmo acidente.
Da proposta contratada resulta a subscrição pelo Demandante da Unidade 6, que na lista de prémios e garantias para a secção B corresponde a 600€ por mês e para a secção C corresponde a 300€ por mês.
Em 16.06.2008 o Demandante participou à Demandada que, em 15.03.2009 teve uma entorse da tíbio- társica esquerda, tendo estado de 15.03.2008 a 15.04.2008 com incapacidade total e posteriormente de 16.04.2008 a 16.05.2008 com incapacidade parcial (fls. 23 a 25), tendo durante um período de sensivelmente dois meses se submetido a um tratamento de fisioterapia com vista à sua total recuperação, na expectativa de evitar uma intervenção cirúrgica.
Por carta datada de 11.12.2008 a Demandada pagou ao Demandante uma indemnização relativo a 31 dias de incapacidade temporária absoluta (ITA), desde 15.03.2008 a 15.04.2008, no montante de 620€, titulado pelo cheque x de 10.12.2008 (fls. 27) nos termos da Secção B das coberturas do seguro subscrito.
A Demandada não liquidou ao Demandante o valor correspondente ao período de Incapacidade Temporária Parcial (ITP), que se verificou imediatamente após o período de ITA, correspondente ao período máximo de um mês, nos termos do disposto na Secção C das coberturas do seguro subscrito, que se verificou de 16.04.2008 a 16.05.2008, correspondente à importância de 600€.
Em virtude da fisioterapia não ter sido suficiente para a reabilitação do Demandante, em 11.11.2008 o mesmo teve de se submeter a intervenção cirúrgica, tendo estado impossibilitado de trabalhar, e
consequentemente em situação de ITA entre 11.11.2008 e 16.02.2009 (fls. 8).
Por carta datada de 10.02.2009 a Demandada respondeu ao Demandante que não iria proceder a qualquer pagamento relativamente ao período de cerca de 60 dias de ITA, designadamente porque a considerou que a incapacidade do Demandante tinha uma causa pré-existente, considerando ali que uma das cláusulas do contrato de seguro é não existir à data da lesão qualquer condição de fragilidade pré-existente que possa de algum modo aumentar o risco do mesmo acidente, tendo a Demandada arquivado o processo (fls. 9).
Para fixação dos factos provados concorreram os factos admitidos, os depoimentos testemunhais e os documentos juntos aos autos. O depoimento da testemunha F, Gestor da Demandada esclareceu os autos que instruiu o processo, constando do mesmo a data de 15.03.2008 como data do acidente, em resultado do qual o Demandante esteve de 15.03.2008 a 15.04.2008 com ITA e de 16.04.2008 a 16.05.2008 com ITP, tendo em 11.11.2008 se submetido a intervenção cirúrgica. A testemunha esclareceu que a Demandada arquivou o processo em virtude de a ITA de 11.11.2008 a 16.02.2009 ter ocorrido após os 30 dias do acidente, ficando assim excluída do âmbito da apólice.
A fixação da matéria fáctica dada como não provada resultou da ausência de mobilização probatória credível, que permitisse ao Tribunal aferir da veracidade dos factos, após a análise dos documentos e da inquirição das testemunhas apresentadas. Designadamente, não resultou provado que o Demandante padecia de entorses de repetição do tornozelo esquerdo, nem que a cirurgia ocorreu em virtude de outro acidente, não tendo resultado provada a existência de qualquer condição de fragilidade pré-existente capaz de aumentar o risco do mesmo acidente.
IV - O DIREITO
Pretende-se nos presentes autos caracterizar juridicamente o contrato de seguro denominado de “E (C), celebrado entre as partes nos termos da apólice n.º x, e apurar sobre a existência de responsabilidade civil da Demandada, em virtude da ocorrência de sinistro participado do qual resultou incapacidade temporária absoluta (15.03.2008 a 15.04.2008), seguida de incapacidade temporária parcial (16.04.2008 a 16.05.2008), seguida de incapacidade temporária absoluta (11.11.2008 a 16.02.2009).
O contrato de seguro é formal e tendo em consideração que foi pré-elaborado, sendo o mesmo oferecido pela Demandada à generalidade dos seus clientes, e que foi apresentado ao Demandante como sendo inegociável, presume-se ter a natureza de um contrato de adesão.
Contratos de adesão são aqueles em que um dos contraentes se limita a aceitar o texto que o outro contraente oferece, aderindo ao modelo oferecido, sem prévia negociação individual, ou possibilidade de negociação, regendo-se pelo regime das Cláusulas Contratuais Gerais, previsto no DL 446/85 de 25 de Outubro, com as alterações que foram sendo introduzidas.
O Demandante, alegou e provou que assinou um contrato de adesão, e que o documento denominado G, não lhe foi aflorado, explicado ou esclarecido, de qualquer forma, violando assim os deveres pré- contratuais de comunicação e informação das cláusulas a inserir no negócio e de prestação dos esclarecimentos necessários a um exercício idóneo da autonomia privada, que já resultava do disposto no nº 1 do artigo 227º do Código Civil, e que veio a ser especificamente consignada nos artigos 5º e 6º do referido DL 446/95, como deveres de comunicação e de informação das ditas cláusulas contratuais gerais.
Contudo, resulta claro das coberturas conferidas ao Demandante, que se a pessoa segura sofrer lesões
corporais das quais resulte nos 30 dias a seguir ao acidente uma situação de Incapacidade Temporária Absoluta (ITA), em consequência de acidente, a Demandada confere um prazo máximo de garantia de 6 meses, sendo o mesmo apreciado somando os vários períodos de ITA participados e pagos quando causados pelo mesmo acidente.
Nos presentes autos resulta provada a existência e participação de um único acidente, ocorrido em 15.03.2009, em consequência do qual resultou para o Demandante uma ITA de 15.03.2008 a 15.04.2008, seguida de uma ITP de 16.04.2008 a 16.05.2008, e posteriormente de uma ITA de 11.11.2008 a 16.02.2009, períodos estes participados pelo Demandante à Demandada.
Resulta também claro das coberturas conferidas ao Demandante, que se a pessoa segura sofrer lesões corporais das quais resulte imediatamente após o período de Incapacidade Temporária Absoluta (ITA), uma Incapacidade Temporária Parcial (ITP), a Demandada confere um prazo máximo de garantia de 1 mês, sendo o mesmo apreciado somando os vários períodos de ITP participados e pagos quando causados pelo mesmo acidente.
Sucede que a Demandada apenas liquidou o primeiro período de ITA participado pelo Demandante (15.03.2008 a 15.04.2008), não tendo liquidado conforme contratualmente se encontrava obrigado a liquidar nem o período de ITP (16.04.2008 a 16.05.2008) que resultou imediatamente após o período de ITA, nem o segundo período de ITA (11.11.2008 a 16.02.2009).
Termos em que se conclui que a Demandada incumpriu quer com os seus deveres pré-contratuais de comunicação e informação das cláusulas a inserir no negócio e de prestação dos esclarecimentos necessários a um exercício idóneo da autonomia privada, quer com os deveres contratuais relativamente às coberturas conferidas pelo seguro contratado.
A lei é clara ao impor à Demandada o ónus da prova de que fez a comunicação (e explicação) das cláusulas contratuais gerais, não sendo legítimo extrair do facto de tais cláusulas constarem mencionadas de um documento da posse do Demandante, a conclusão de que a parte aderente delas teve o conhecimento (adequado e esclarecido). A exigência de comunicação contida no artigo 5° do DL 446/95 em apreço pressupõe, deste modo, a comunicação na íntegra aos aderentes que se limitem a subscreve-las ou aceitá- las, devendo a mesma ser feita de modo adequado e com a antecedência necessária ao conhecimento completo e efectivo do aderente, para que, tendo em conta a importância do contrato, bem como a extensão e complexidade das cláusulas, se torne possível o seu conhecimento completo e efectivo por quem use de comum diligência.
Trata-se de um aspecto essencial do contrato, pois só conhecendo as reais e efectivas coberturas conferidas e causas de exclusão se pode dizer que o Demandante celebrou o contrato de forma livre e esclarecida, como se impunha.
A relação contratual para ser perfeita pressupõe para além da prévia "comunicação" imposta pelo citado artigo 5º, impõe o "dever de informação" prescrito no artigo 6º do mesmo DL 446/85, com a consequente alegação e prova nos sobreditos termos. Estamos num domínio em que não valem as simples suposições, designadamente da validade do contrato. Tudo tem de ser claro, esclarecido, como é imposto pelo exercício efectivo e, portanto, eficaz da autonomia da vontade privada, a reclamar uma vontade bem formada e correctamente formulada dos aderentes, maxime um conhecimento exacto do clausulado.
Resultou provado que o Demandante esteve com ITA no período de 15.03.2008 a 15.04.2008, seguido de ITP no período de 16.04.2008 a 16.05.2008 e de nova ITA no período de 11.11.2008 a 16.02.2009, relativamente ao mesmo acidente. Nos termos supra referidos devem ser somados os referidos períodos de ITA participados, causados pelo mesmo acidente, até um período máximo de 6 meses, perfazendo no caso concreto um período de 93 dias a que corresponde um subsídio no valor de 1.860€. Considerando que a Demandada liquidou com cheque datado de 10.12.2008 o valor de 620€, correspondendo a diferença ao valor de 1.240€ a título de ITA, ao abrigo da apólice de seguro contratada.
Refira-se ainda que tendo resultado para o Demandante, imediatamente após um período de ITA (15.03.2008 a 15.04.2008), uma situação de ITP (16.04.2008 a 16.05.2008), causado pelo mesmo acidente, teria o mesmo direito até um período máximo de 1 mês, perfazendo no caso concreto um período de 30 dias a que corresponderia um subsídio no valor de 300€, ao abrigo da apólice de seguro contratada.
Na perspectiva do justo e do razoável deveria a Demandada assumir e liquidar o subsídio correspondente ao período de ITP, verificado imediatamente a seguir ao período de ITA, durante 30 dias, a que corresponderia um subsídio no valor de 300€. Bem como, também deveria assumir e liquidar o valor de 40€ não incluídos no peticionado pelo Demandante, uma vez que o período de 11.11.2008 a 16.02.2009 corresponde a 62 dias (1.240€) e o Demandante peticionou o valor correspondente a 60 dias (1.200€).
Nos termos do disposto no artigo 26º/2 da LJP o Juiz de Paz pode decidir segundo juízos de equidade, se as partes assim o acordarem, não ficando sujeito aos critérios de legalidade estrita, quando o valor da acção não exceda metade do valor da alçada do tribunal de 1ª instância. Sucede que apesar do valor da acção permitir a decisão por equidade, as partes não manifestaram semelhante vontade, termos em que terá de se aplicar a lei que vem ao caso, ficando o Juiz de Paz sujeito a critérios de legalidade estrita.
Termos em que, considerando o peticionado, que limita a decisão judicial nos termos do disposto no artigo 661º CPC, o Demandante tem direito nos termos da apólice supra referida, e de acordo com o peticionado, ao período de ITA de 11.11.2008 a 16.02.2008, ainda não liquidado pela Demandada, correspondente a um período de 62 dias, que peticionou na importância de 1.200€ (mil e duzentos euros).
Quanto ao pedido de pagamento de juros de mora, verificando-se um retardamento da prestação por causa imputável ao devedor, constitui-se este em mora e, consequentemente, na obrigação de reparar os danos causados ao credor, aqui Demandante (804º CC). Tratando-se de obrigações pecuniárias, a indemnização corresponderá aos juros a contar a partir do dia de constituição de mora (806º CC).
Considerando o peticionado, que limita a decisão judicial, nos termos do disposto no artigo 661º do Código de Processo Civil, o Demandante tem direito a juros de mora, à taxa civil fixada em 4% nos termos do artigo 559º do Código Civil e Portaria nº 291/03, de 8 de Abril, desde a citação da Demandada (06.07.2009 - fls. 15) até efectivo e integral pagamento da quantia em dívida.
V - DECISÃO
Em face do exposto, julgo a presente acção procedente, por provada, e consequentemente condeno a Demandada a pagar ao Demandante a quantia de 1.200€ (mil e duzentos euros), acrescida de juros de mora à taxa civil fixada em 4% nos termos do artigo 559º CC e Portaria nº 291/03, de 8 de Abril, desde a citação da Demandada (06.07.2009 - fls. 15) até efectivo e integral pagamento da quantia em dívida.
Nos termos da Portaria nº 1456/2001, de 28 de Dezembro, a Demandada é condenada na taxa única, que
ascende a 70€ (setenta euros), devendo proceder ao seu pagamento, no Julgado de Paz, no prazo de três dias úteis, a contar da data da notificação desta sentença, sob pena do pagamento de uma sobretaxa diária de 10€ (dez euros) por cada dia de atraso.
Cumpra-se o disposto no número 9 da mesma portaria, em relação ao Demandante.
A sentença processada em computador, foi revista e impressa pela signatária - artigo 18º da Lei nº 78/2001, de 13 de Julho.
Notifique e Registe.
Julgado de Paz de Santa Maria da Feira, em 20 de Novembro de 2009 A Juiz de Paz
(Dulce Nascimento)
Fonte: http://www.dgsi.pt