BRUNO BENNDORF MANGOLINI
PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE EM
COOPERATIVAS: ENSAIOS DE POTÊNCIA
Trabalho de conclusão de
curso
como
exigência
parcial para graduação no
curso de psicologia, sob
orientação do Prof. Dr.
Fábio de Oliveira
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
FACULDADE DE PSICOLOGIA
SÃO PAULO
BRUNO BENNDORF MANGOLINI
PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADE EM
COOPERATIVAS: ENSAIOS DE POTÊNCIA
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
FACULDADE DE PSICOLOGIA
SÃO PAULO
SUMÁRIO
1. Introdução... 4
2.1 Produção de Subjetividade... 11
2.2 Poder... 16
2.3 Trabalho... 23
2.4 Economia Solidária... 26
3. Objetivo... 30
4. Método... 31
5. Resultados e Discussão... 32
6. Conclusão ………... 56
1. INTRODUÇÃO
Este trabalho nasce de uma inquietação com o cenário atual da vida. Vida que se submete, vida que não é vivida, que se mantém medíocre. Vida que se fez subalterna, que aprendeu a fazer sempre o que os outros querem, vida repleta de obstáculos invisíveis. Vida cheia de ganchos, enlaces, capturas: vida que se parece com corredeira desenfreada, mas caberia dizer “sem controle”? Vida que subtrai sua vitalidade, vida que não é vivida, vida refém.
Como trazer e trabalhar esse incômodo neste trabalho? Como pensar em algum foco diante dessa diversidade de fenômenos? Para dar conta de tantas questões, podemos começar a pensar em algo que atravesse todo o tecido social, aquilo que, de alguma forma, une todos nós.
Nessa vida, somos levados a não questionar nossos próprios desejos, nossas ações e nossos medos. Não questionamos os outros nem a nós mesmos. De modo geral, não questionamos aquilo que nos acontece. Somos obrigados a aceitar uma porção de adversidades por elas se imporem com tanta força que a possibilidade de se opor ao que acontece não é tida como viável. Acabamos por nos conformar que, em muitos casos, não podemos dizer não – é uma questão de sobrevivência. A ética, no Brasil, há muito ficou em segundo plano. Freqüentemente, não sabemos se nossa ação incomoda ou não o outro, pois já não conversamos com esse outro. A comunicação foi cortada, fomos enclausurados em nossa própria liberdade individual.
O que estaria por trás dessa tendência individualista, que age silenciosamente sobre mentes e corpos e que altera profundamente a maneira de nos relacionar com o mundo? O que é que nos faz submeter a todo tipo de dominação e absurdos, anestesiando nossas capacidades de transformação, que são contidas em nossa correria imobilista do dia-a-dia? Como é que somos infiltrados por forças que nos separam do outro, que nos separam de nós mesmos? O que é necessário para produzir essas forças?
Certamente, essas não são perguntas fáceis de responder e exigem que se considere a complexidade do cenário em questão. Se nos debruçamos sobre a questão do trabalho é justamente para reaver as afetações econômicas e políticas que incidem sobre a vida. Partimos de uma perspectiva, a do capitalismo. Sim, pensamos que, a princípio, esse modo de funcionamento e de produção opera os mais distintos processos, essa rede composta pelos mais diversos fluxos (econômicos, políticos, sociais, culturais, sexuais, etc.), impõe sua lógica e produz efeitos que passam a se reproduzir em cadeia. Cadeia que é conectada por elementos capitalísticos, que já não têm começo nem fim, mas que investe ou desinveste de acordo com seus interesses do momento. O poder de alcance dessa cadeia é infinito, podendo chegar aos mais longínquos povos e territórios, desde que haja recursos para tal empreitada (o limite é o próprio capital). Mas aqui, para nosso interesse, trata-se de situar a questão com um enfoque específico: o do trabalhador.
Como se configura e se aplica a lógica capitalista a um trabalhador e, principalmente, que efeitos esse processo produz? Qual o “preço” que se paga, em nome do lucro, para manter milhões de pessoas trabalhando cada vez mais? O que será que está por trás de tal processo, aparentemente tão tranqüilo, como um acordo entre duas partes, uma que oferece sua mão-de-obra e outra que paga pelos serviços? Sabemos que nada funciona de modo tão simples assim. Não restam muitas opções aos trabalhadores, senão a de aceitar os trabalhos que são ofertados – e, realmente, são
de trabalho que, além de impor as condições do que está sendo
,
obriga a concorrer com muitos outros que estão procurando a mesma oportunidade. Submeter-se a um emprego com condições precárias não é algo novo para quem passou a vida inteira “acostumando-se” a aceitar condições adversas. O dinheiro é necessário e é isso que faz com que se crie a mentalidade “topa tudo por dinheiro”1; é aí que a ética perde sua força, sucumbindo frente à necessidade.No entanto, a submissão ainda está em sua porta de entrada (assim que o
trabalhador o emprego, ele fará de tudo para não perdê-lo) afinal, uma das
1
dimensões inquestionáveis de nossa sociedade é que o trabalho é necessário para garantir a sobrevivência. E assim, o trabalhador fará de tudo para agradar a seus superiores. O que move tal atitude é o risco de ser demitido ou a sedução por uma promoção, na melhor das hipóteses.
Para pensarmos um pouco nas operações que o capitalismo faz para produzir o atual modo de vida, podemos utilizar alguns conceitos, seguindo os passos de Deleuze e Guattari (2004), como o de código. Para os autores, código é um conjunto de referências que pautam nossos modos de sentir, pensar e agir, ou seja, nossos modos de receber e utilizar um fluxo. Um código corta e seleciona algum aspecto de uma multiplicidade e atribui um significado a ele. Em outras palavras, todo fluxo pode ser codificado, gerando um significado, passando, assim, a exercer influência sobre os outros códigos, que vão concorrer para produzir uma subjetivação. Esses códigos, em sua mistura, configuram pontos de subjetivação, o que dá sentido e determina nossas ações, que expressam um modo de existência e produzem um território existencial. O capitalismo, segundo esses autores, opera basicamente num duplo movimento: descodifica todos os fluxos (de entretenimento, econômico, sexual, revolucionário, etc.), passa por cima dos códigos vigentes em tal ou qual sociedade, desterritorializando-a, ou seja, eliminando seu território existencial. Simultaneamente, impõe outros códigos, recodifica: modelos pré-fabricados de inserção, posições abstratas a serem alcançadas, condições de destaque. Ao injetar desejo em imagens, reinvestir um fluxo e capturar o desejo das pessoas, acaba por fazer isso já com elementos de propulsão capitalística: porque o poder que distribui torna a pessoa refém - é o crédito que esconde a dívida. O aumento de poder só é possível quando se entra no sistema de distribuição de valor, regulado pelo capital, que promove o reinvestimento no próprio sistema (ex: “vou chegar ainda mais cedo agora que fui promovido!”).
subordinação): prática amplamente realizada por todos nós e cujos efeitos não sabemos o alcance. Qual a duração das conseqüências de um encontro subalterno? Até quando produz efeitos? Como esses encontros vão sendo registrados, encadeados, formando um complexo, uma postura, uma estética de submissão? O que se passa no cotidiano de trabalho que reafirma as posições hierárquicas, que produzem discursos e “verdades”, que fabrica corpos e subjetividades?
Trabalho e subjetividade. Se esses elementos se encontram tão implicados, não é apenas pela repetição e pela construção de rotinas. É pelo trabalho que se inscrevem registros dos mais diversos âmbitos, funcionando como um dos principais agenciadores da subjetividade; é o trabalho elemento central na estrutura de organização social e econômica, desempenhando semelhante papel quanto à construção material e psíquica do sujeito (Nardi, 2007). As práticas que se dão no plano profissional e as relações de trabalho podem ser consideradas como de grande importância, já que são elas que conferem valor e estabelecem as posições de cada pessoa dentro de um sistema hierárquico. Esse, por sua vez, opera discriminações, segregações, colocando tudo sob uma ótica empresarial, em que se justificam todos os valores e ações a partir do organograma, naturalizando e desresponsabilizando a posição das pessoas, que atribuem à estrutura organizacional a responsabilidade dos acontecimentos cotidianos. Muito interessante é notar que hoje já não existe um patrão, um titular do poder soberano, que apenas explora as camadas inferiores. Apesar de os chefes não se submeterem da mesma maneira e proporção que os empregados, suas decisões também passam por um crivo (em última instância, o mercado e o capital). Sendo assim, qualquer ação é regulada por essas referências – é um efeito da disseminação e difusão do controle.
enriquecer - e o inverso também é verdadeiro. Em outras palavras: “o de cima sobe e o de baixo desce”.
O que vemos hoje pode ser chamado como a extração de mais valia social2, que é
exatamente o oportunismo de alguns em tirar vantagem das condições sociais precárias que uma classe apresenta. Diante da necessidade de se gerar renda, a submissão às más condições de trabalho é a única alternativa que os trabalhadores têm. É a necessidade que cria as condições de exploração. Mas será que tratar nossa questão em termos de exploração é suficiente para elucidarmos o buraco em que estamos enfiados? Como bem diz Foucault (2006), “foi preciso esperar o séc. XIX para saber o que era exploração, mas talvez ainda não se saiba o que é o poder”. Sim, desconhecemos seus mecanismos e efeitos. Mas mesmo na dimensão da exploração, há forte relevância do poder. Relevância por excesso de um lado e relevância por ausência de outro lado. Enfatizando a extremidade mais fraca dessa corda, aqueles que são explorados vêem-se reféns de uma estrutura de organização que não permite que eles sejam os responsáveis por aquilo que lhes acontece, tirando deles o poder de decisão sobre o que será feito, tendo que se submeter às condições impostas por instâncias superiores. Novamente perguntamos: qual o efeito desses acontecimentos em longo prazo? Podemos pensar em uma cristalização de certo modo de proceder que se caracteriza pela passividade e aceitação das condições de vida?
De outro modo, podemos pensar nas diferentes formas de resistência que podem ocorrer no cotidiano de trabalho. Muitas vezes, não é necessário grande alvoroço para se ir contra a exploração a que se é submetido, possibilitando que modos sutis de anti-produção sejam desempenhados no interior de uma empresa ou fábrica, como a não participação em atividades propostas pelo patrão, faltas, lentidão, greves, sabotagem, etc. Essas resistências muitas vezes são focos isolados, ações fragmentadas, realizados individualmente pelo trabalhador. No entanto, se dirige a alvos concretos, é uma resposta
2 Termo utilizado por Luigi Verado, técnico da ANTEAG (Associação Nacional de Trabalhadores de
real frente à exploração e o desrespeito. São ações potencialmente subversivas, que recolocam o trabalhador como autor e como criador, capaz de decidir sobre suas ações.
Qual será a importância de tomar decisões referentes àquilo que é seu – em última
instância, o seu corpo? Importância no sentido de qual a que isto traz consigo. Como
será que ficam os trabalhadores que não participam das decisões relativas a sua vida? Como será que é para o trabalhador se perceber enquanto mais um na força de trabalho, que deve ser aproveitada até a última gota, e que não deve se expressar – porque falar aqui é coisa para poucos. Quais pensamentos e sentidos podem ser concebidos numa relação como essa?
A Psicologia do Trabalho, entre outras contribuições, aponta para a divisão entre gestão e execução do trabalho como causadora de sofrimento psíquico, ou seja, quanto mais rígida for essa divisão, mais sofrimento será produzido (Dejours, 1988). Aqueles que não participam das discussões e decisões, tendo apenas que executar o que foi decidido, são os que mais sofrem. O que será que se passa nesse processo para resultar em sofrimento psíquico? Talvez a desapropriação, o não pertencimento, a mensagem indireta de que “você não deve, você não pode tomar essa decisão” ou mais, de que “você não é uma pessoa para isso, você não é igual aos demais, a você cabe executar enquanto os outros pensam.” ?
O que interessa aqui é saber o que se passa subjetivamente com os trabalhadores que são levados a acatar as ordens sem questioná-las. O que eles têm a nos dizer sobre o trabalho? Será que podemos afirmar que há uma produção de subjetividade padrão, que contém elementos políticos, econômicos e sociais incrustados em seus moldes?
podemos também, todos, experimentar afetos que nos desloquem para outras zonas, fazendo nos alimentar de outras potências. Tudo depende do que conseguimos extrair de nossos encontros. Dessa maneira, outros pontos de subjetivação podem ser ativados, levando-nos a uma transmutação, capaz de nos conectar a outras possibilidades, a outras potências.
É dentro dessa perspectiva que as cooperativas entram em cena. Por fazerem parte de outra concepção de trabalho e produção, que não objetiva o acúmulo de capital, o cooperativismo tem realizado importantes tentativas na busca de conferir dignidade aos trabalhadores. A recusa em aceitar o trabalho como mera força de produção para outrem é característica do cooperativismo, o que abre um leque de sentidos que podem ser atribuídos ao trabalho. Atualmente, parece ser no âmbito da economia solidária que se encontram os modos mais eficazes de se contrapor à lógica capitalista, oferecendo uma brecha, ainda que incipiente, para que outros valores possam ser produzidos, livrando-nos da miséria do capital.
2. Fundamentos teóricos da Pesquisa
Este Capítulo apresenta os fundamentos teóricos que nortearam esta Pesquisa.
2.1 Produção de subjetividade
A subjetividade pode ser considerada como um dos principais campos da Psicologia, já que se pode pensar que é por ela que nos relacionamos com o mundo, como uma membrana permeável onde ocorrem trocas. Durante muito tempo, a subjetividade foi tratada quase que exclusivamente pelo campo “psi”, o que conduziu a uma consolidação de concepções hegemônicas que lhe conferiram características individuais, universais, racionais e estruturais. Nas décadas de 60 e 70, novos questionamentos ocorreram na área da Psicologia Social, e aproximaram sujeito e sociedade, sujeito e cultura. Apontavam que as condições sócio-históricas não deveriam ser negadas, o que nos mostra outro discurso referente ao tema, já lhe atribuindo maior ênfase à conexão com os processos sociais. A partir da década de setenta, algumas idéias vindas principalmente por estudos de Foucault, Deleuze e Guattari promoveram impactos nas leituras que se faziam acerca da subjetividade, conferindo-lhe uma categoria processual, “inscrita no plano da sua produção em função dos agenciamentos de instâncias de subjetivação dispostas no registro do social” (Leite & Dimenstein, 2002, pg.10). De certa maneira, pode-se dizer que um modo de pensamento inspirado por esses autores possibilitou a expansão das fronteiras do tema, liberando outras concepções.
que transborda à disciplina e ao controle. Na Esquizoanálise, a noção de produção de subjetividade é a que toma esse excesso e estabelece linhas de fuga, possibilidades de inventar, devires, criações que atravessem o poder e alterem o instituído. Mas, acima de tudo, a “subjetividade constitui matéria prima de toda e qualquer produção” (Guattari & Rolnik, 1986, pg.36) – é a “argamassa”, como a chama Rolnik. Matéria-prima que não coincide com um sujeito psíquico, não sendo apenas discursiva, mental ou simbólica, mas, sim, algo que engloba as práticas psicossociais, corpos e intensidades (intensidade aqui entendida como forças, como graus de forças, fluxos de energia, que não podem ser traduzidos por representações, não pode ser convertido em moeda, não passa pelos códigos da lei, etc. - é o que está por trás dos códigos). Como diz Fernandez (2006), a subjetividade “se produz no com os outros e é, portanto, um misto de múltiplas inscrições desejantes, históricas, políticas, econômicas, simbólicas, psíquicas, sexuais etc.” (pg. 9). Aqui já podemos ter claro que a noção de produção de subjetividade se
contrapõe à idéia de que há algo central em seu núcleo, estabelecendo uma
hierarquia universal de elementos necessários.
Compreender esse processo implica em abandonarmos certos modos binários de pensamento: objetivo-subjetivo, indivíduo-coletivo, interior-exterior. Tudo está intimamente relacionado e a mudança em um plano afeta diretamente o outro.
Se a subjetividade vinha se aproximando dos processos sociais, Deleuze e Guattari (2004) não a diferenciam de Homem, Natureza, Cultura e Indústria, pensando-a
como algo que se passa esses processos, como algo
processo, que está
sendo afetada a todo instante por maiores ou menores intensidades (forças), que realiza trocas que reconfiguram o esquema, o mapa subjetivo. No encontro que se dá, a subjetividade pode incorporar alguma diferença que estava disposta no plano do acontecimento. Nessa operação, pode-se dizer que ocorre uma dobra da subjetividade. As forças múltiplas que nos atravessam fazem com que haja um movimento na subjetividade. A dobra é resultado do encontro entre a percepção de uma ação sobre mim e da afecção dessa ação (aumentou ou diminuiu minha potência), ou seja, a dobra é fruto da força que lhe atravessou e do que lhe foi possível perceber dessa força. A subjetividade pode ser entendida como essa membrana permeável que se movimenta inserida em seu meio a partir dos agenciamentos que a colocam em conexão com uma multiplicidade de elementos (políticos, sociais, sexuais, artísticos, econômicos, etc.).
Para Fonseca (1995), os modos de subjetivação referem-se ao “modo como o sujeito deve relacionar-se com a regra a qual se vê obrigado a cumprir e também a forma como deve se reconhecer ligado a esta obrigação” (p. 101). Já o processo de subjetivação é a maneira com que cada indivíduo relaciona-se com o regime de verdades próprio de cada período, ou seja, a maneira como o conjunto de regras que define cada sociedade é experienciado em cada trajetória de vida (Nardi, 2006). Sendo assim, nessa visão temos a subjetividade imbricada com a maneira com que cada pessoa se relaciona com as regras e com as “verdades” próprias de cada período. A diferença entre modos de subjetivação e processo de subjetivação é que, no primeiro, faz-se referência ao modo predominante de se relacionar com o regime de regras e verdades, enquanto que, no segundo, é a maneira como cada indivíduo se relaciona com esse conjunto de valores (regras e “verdades”), e não o modo predominante, mas sim a singularidade desta ou daquela pessoa frente ao regime de regras.
A produção de subjetividade advém da realidade e produz realidade, ou seja, está entre a realidade. No entanto, essa produção pode ter, grosso modo, duas direções: a de reproduzir os modelos sociais padronizados ou a de reinventar os modos de produção. Pelloso e Ferraz (2005) desenvolvem paralelos entre a reprodução dos modelos sociais com a moralidade e da reinvenção com a ética. Ou seja, a moralidade seria o conjunto de valores que serve de base para se investir em ações reprodutoras do status quo, enquanto que a ética seria o equivalente a um modo de agir que não possui as referências atreladas a um consenso de valores e sentidos, liberando o sujeito para a reinvenção dos modelos sociais. Ao discutir a moralidade, que reproduziria territórios (papéis sociais, produção de sentidos) já existentes, eles atribuem um “sentido edipiano de obediência a um lugar de interdição dos movimentos subversores do estado das coisas” (p. 2) a essa produção de subjetividade, enquanto que conferem à ética uma ação desterritorializante dos modelos padronizados, ou seja, uma maneira de subvertê-los. De certa maneira, pode-se estabelecer outro paralelo, entre o que Guattari e Rolnik (2005) chamam de subjetividade capitalística, sendo que a moralidade seria o referencial principal para um coletivo que não questiona o estado atual das coisas. Para se contrapor à subjetividade produtora de singularidades, que se embasaria na ética como instância última reguladora de suas ações.
“A produção da subjetividade pelo CMI (capitalismo mundialmente integrado) é serializada, normalizada, centralizada em torno de uma imagem, de um consenso subjetivo referido e sobrecodificado por uma lei transcendental. Esse esquadrinhamento da subjetividade é o que permite que ela se propague em nível da produção e do consumo das relações sociais, em todos os meios (intelectual, agrário, fabril etc.) e em todos os pontos do planeta” (Rolnik, 2005, p.48)
produzir? Diversos. E todos, atualmente, de alguma maneira, passam por ela – ou melhor, são atravessados por ela. Alguns podem sentir que há uma chance de transformação e se engajar, sendo ativos nesse processo. Outros podem apenas escolher seus votos e não discutir mais a política; outros podem mesmo dedicar-se à luta contra a democracia. Não existe uma resposta a priori, depende do uso que se faz dessa e de qualquer outra coisa.
De acordo com essa concepção de subjetividade, não dependemos de nenhuma estrutura que se coloque como condição para subjetivação, tudo depende das forças que a atravessarem e se conectarem a ela. Graças a nossa constante exposição ao trabalho, podemos considerar o trabalho como um privilegiado agenciador de forças, capaz de realizar agenciamentos de subjetivação que engendram seus elementos à subjetividade. Mas que elementos são esses? E no caso de uma cooperativa, haveria diferenças?
2.2 Poder
“(...) a organização de poder é a maneira como o desejo já está no econômico, como a libido investe o econômico, assedia o econômico e alimenta as formas políticas de repressão”. (Gilles Deleuze)
O que podemos extrair das leituras de autores como Foucault e Deleuze quando tratam da questão do poder? Que mensagens parecem estar escritas nas entrelinhas, que nos fazem pensar de outra maneira que não a qual nos habituamos? Que força é essa que emerge quando conectamos as palavras e vemos formar um sentido, mesmo que obscuro, tocando e despertando uma faceta de nós (talvez uma de nossas faces revolucionárias), que já achávamos adormecida?
concentram poder, nas instâncias superiores – ele acontece em todas as relações, ao penetrar profundamente na trama social de maneira sutil. Cria uma rede conectiva, um tecido social, que é tecido com as linhas do poder, estabelecendo alcances e limites, criando acessos e restrições.
Talvez a característica mais enigmática do poder seja seu paradoxo quanto a sua concretude: é visível e invisível, presente e oculto, mostra sua cara em certas ocasiões, mas talvez seja invisivelmente que aja com mais vigor. Mas o que mais é característico do poder? Totalizar, centralizar, dominar, dirigir, administrar, hierarquizar e distribuir. É um campo de forças que tende a atuar em uma direção específica, no sentido de concentrá-las, acumulá-concentrá-las, podendo distribuí-concentrá-las, visando sempre o aumento de poder. No entanto, as manifestações de poder não se limitam às figuras e instâncias superiores, podendo seus braços ter longo alcance e atuar em territórios aparentemente neutros. Sua atuação é silenciosa e conexionista, tecendo uma verdadeira rede de controle (isso para não falar dos “pequenos poderes”, que não dependem de um acúmulo de poder muito grande, mas de certas condições, como a imediaticidade de sua prática, como um estupro, por exemplo).
Foucault (1996) distingue, em “Vigiar e punir”, quatro procedimentos das
sociedades disciplinares. A , em que um corpo é distribuído sobre um espaço
físico, sendo classificado e vigiado, podendo ser identificado e encontrado a qualquer
momento. O
,
que define a tarefa em termos de controle do tempo.Esse tempo disciplinar é o que garante a exatidão e a regularidade do gesto, da tarefa.
Em terceiro, Foucault diz da que seria o modo com que a disciplina
capitaliza o tempo, treinando as individualidades, segmentando o tempo e fazendo-o
tender para um fim. Em quarto lugar, há a
aqui
é a maneira como adisciplina combina seus elementos (corpos, objetos, tecnologia) e faz ajustes no tempo, combinando-o com o tempo do outros, de modo a montar um aparato eficaz. Esses seriam os quatro grandes procedimentos que a sociedade disciplinar se utilizaria para aumentar sua produção e ser mais eficaz economicamente.
Nas diversas pesquisas realizadas por Foucault, existe algo que se mantém em quase todos seus trabalhos: a questão do saber-poder. O saber-poder nos parece mais como uma máquina, um método de se sobrepor, de dominar. Remete à autoridade adquirida (poder) com a legitimação de um discurso (saber), mas poder aqui não deve ser entendido apenas como o poder constituído, e sim como aquele “elemento informal que passa entre as formas de saber, ou por baixo delas” (Deleuze, 1992, p. 122). Há um tipo de discurso que penetra em um domínio, que é validado e começa a produzir efeitos em seu interior, a afetar os outros de acordo com aquela “verdade”, podendo se expandir e/ou passar para outros domínios. Ainda no campo do poder, Foucault (1996) investigou quando certo grupo de pessoas perde o direito de falar por si próprio, quando esse grupo perde os direitos até então aparentemente garantidos para todos, quando acontece uma interdição, por exemplo. Ele analisa quais os mecanismos utilizados para dominar esse corpo, qual o discurso filosófico-jurídico e, sobretudo, o discurso histórico-político utilizado para tanto. Sim, porque, para Foucault, é necessário abandonar o modelo jurídico de soberania que pressupõe direitos naturais e primitivos, prerrogativas da concepção de Estado, que faz da lei manifestação última do poder. Seria necessário pensar não a relação mediada, institucionalizada, mas a própria relação, fruto de todas construções futuras. Ao invés de buscar uma fórmula única, de onde todas as relações de poder derivariam, Foucault (1997) nos diz para deixar o poder aparecer em sua multiplicidade, sua singularidade, seus entrecruzamentos, não colocar barreiras e deixar o poder se mostrar em um plano quase caótico, antes dele ser organizado e instituído. Dessa maneira, Foucault questiona se não seria mais interessante pensar a guerra como um analisador das relações de força, invertendo a formulação do filósofo da guerra Kar Von Clausewitiz, de que “a guerra é a política prolongada por outros meios”. Para ele, a política que é a guerra prolongada por outros meios. Sendo assim, antes e acima de tudo, há a guerra e é ela que é necessário encontrar e reativar, é ela que atua dentro dos mecanismos de poder, é ela quem divide inteiramente o corpo social, é ela que encontramos “sob os esquecimentos, as ilusões ou as mentiras que nos fazem crer nas necessidades de natureza ou nas exigências funcionais da ordem” (Foucault, 1997, p. 73).
pejorativo, concebendo-os como preguiçosos e sem disposição para trabalhar, numa dicotomia entre um corpo produtivo e um corpo de prazer. Após as classes trabalhadoras se organizarem e reivindicarem melhorias nas condições de trabalho, muito das rígidas normas se flexibilizaram, mostrando que tamanho controle era desnecessário, podendo prejudicar até mesmo a própria produção. É nesse ponto que há uma mudança: as tecnologias de controle produzem pessoas que não mais carecem de procedimentos rígidos de disciplina: o controle é internalizado, a subjetividade agora é autogovernada, nós mesmos nos controlamos, “andamos na linha”. No entanto, ainda existem muitas forças, efeito das estratégias corporativistas, que operam modulando comportamentos e sentimentos. Modulação que muitas vezes é feita por ausência, supressão de comportamento e desejo. Dessa forma, fica mais difícil ainda reconhecer os efeitos do controle e do poder. É necessário enxergar onde há um empobrecimento da vida, onde ela é reduzida pela condição subalterna.
Nesse ponto, entramos em um terreno delicado, sob o ponto de vista ético, já que seria necessário compreendermos o que é uma vida “rica”, potente, saudável. Uma vida potente é aquela que pode criar suas próprias condições de existência. E quais elementos podem nos dizer que está se produzindo um movimento em direção de uma vida potente, uma afirmação da vida? O instrumento que aqui dispomos é o discurso das próprias pessoas envolvidas. Elas é que nos dizem sobre os impactos do trabalho em suas vidas, se as vivências no trabalho eram boas ou ruins, sendo que o critério para estabelecer uma valoração do trabalho fica a cargo delas. Somente elas é que podem dizer sobre suas experiências de trabalho. Para tanto, é necessário ouvi-las e nos deixar afetar pelo que nos contam; é a legitimação de uma fala que diz por conta própria, contando como o processo de trabalho afetou e afeta sua vida. E o que podemos esperar do discurso de trabalhadores que se envolveram com trabalhos em fábricas, com rotinas e procedimentos rígidos, para depois experimentarem uma outra situação, um outro domínio, em que já não eram as mesmas regras que regiam o espaço, o tempo, as relações de trabalho? Essa é a questão desse trabalho.
estratégias de naturalização dos fenômenos, ora mecanismos de abrandamento de outros. Todos nós fazemos parte desse campo de forças que dita o que é e o que não é permitido, mas, talvez pela necessidade de não nos sentirmos tão controlados, criamos ilusões de que escolhemos, nos esquecendo de como nosso próprio pensamento já está arraigado no campo social, que é como um fluxo que corre em certa direção, uma correnteza em que mais fácil do que resistir é se deixar levar. Se não conhecemos o poder e seus efeitos, não podemos saber os efeitos que ele tem em nós, pois fazemos
parte desse campo. Como pensar seus efeitos efeito? Parece não haver outro
modo, e, sendo assim, cabe potencializar a mudança que vem de dentro, que só poderia vir de dentro. Ficar atento e sempre analisar o que se passa, seja com seu corpo, seja com outros, para levantar as possibilidades sobre o que pode produzir tal fenômeno (atitude, pensamento, ação). O que nos interessa aqui é como utilizar as ferramentas (subjetivas, corporais, afetivas) de que dispomos para poder produzir uma vida potente.
função de um utilitarismo econômico, que não cessa de buscar novas maneiras de sujeitá-la.
Rolnik (2005) é enfática ao dizer: “o lucro capitalista é, fundamentalmente, produção de poder subjetivo” (p. 41). Como entender essa frase? Qual será a relação entre lucro e poder, ou então, quais os efeitos subjetivos disso? Se o capitalista empodera-se subjetivamente ao produzir lucro, aqueles que estão submetidos a esse poder devem ter que tipo de vivência cotidiana? A desvalorização é inevitável, é o contraponto, é o outro lado da moeda. A submissão em um domínio é transposta a outros, desloca-se, desliza para outras esferas e é aí que podemos esboçar uma reflexão a respeito da implicação sócio-política do trabalho. Minimizar os efeitos produtivos do trabalho seria um erro. É nessa esfera em que se modela o corpo, que se produzem subjetividades. Há todo um modo de determinar quem ocupará os empregos, há todo um
que as pessoas fazem para se inserirem no mercado de trabalho, em que as pessoas se preparam e se adaptam. Elas se modelam e se enfileiram para o recrutamento e a seleção operar o corte. Essa é a tão conhecida lógica da exclusão, em que os que mais têm, mais chances têm de conseguirem mais e, inversamente, os que menos possuem, menos chances têm de se inserirem no mercado de trabalho e de aumentarem sua qualidade de vida.
Aqui cabe uma outra discussão:será que qualidade de vida e emprego andam de mãos dadas? Será que o esforço de pessoas que abrem mão de diversas coisas para ocupar um cargo está sendo recompensado? Não poderíamos correr o risco de reduzir a vida, sempre à espera de uma recompensa? E que recompensa é essa? Porque a recompensa que o capitalismo oferece é muito mais do que dinheiro: é imagem, status, representação e valor social, a partir de um padrão, que o mercado e todas as máquinas sociais determinam. Mas será que a vida que está disposta a ser criativa, a inventar o seu próprio modo de vida, tem nesse caminho (do trabalho) uma via de realização possível?
compreensão do presente trabalho. Partindo de uma concepção nietzschiana dos termos através de Deleuze (2006), podemos conceber o poder como uma rede móvel, que se expande e se consolida através de pontos, de ações e encontros que, ao se afirmarem em sua posição assimétrica perante o outro, dependem de valores estabelecidos, como um respaldo social ou econômico, por exemplo, uma ação que visa dominar, centralizar e totalizar seus benefícios. Diferentemente, potência designa a capacidade intrínseca de um corpo, de uma ação que se constitui em acontecimento, uma força que cria as condições necessárias para sua vida, que não depende das instâncias externas para aumentar sua capacidade de existir; não carece de reconhecimento para agir e não estabelece relações de dominação, mas se compõe com outras forças e corpos para se potencializar, aumentando assim sua capacidade de criar e doar.
2.3 Trabalho
“Do mais infeliz dos homens não se dirá que ele é alienado ou que trabalha para as potências, mas que ele é sacudido pelas forças” (Deleuze)
Podemos pensar que os agenciamentos que se dão com a subjetividade conectam-na a elementos embutidos no agenciamento e que são produtores de sentido e modulam nossos modos de sentir, pensar e agir. Dessa maneira, como poderíamos pensar os agenciamentos produzidos pelos dispositivos de trabalho na sociedade contemporânea?
Como bem diz Nardi, Tittoni e Bernardes (2002):
“pensar as conexões do trabalho com a subjetividade, é compreender os processos através dos quais as experiências de trabalho conformam modos de agir, pensar e sentir (...) que evocam a conexão entre diferentes elementos, valores, necessidades e projetos. Do mesmo modo, implica nas diferentes possibilidades de invenção e criação de outros modos de trabalhar, na forma de transgressões, ou mesmo, das resistências-potências na conexão dos diversos elementos e dos modos de produzir e trabalhar” (p. 304).
Como a grande maioria vende sua força de trabalho, é necessário pensar como o trabalho se articula na produção de subjetividade desses trabalhadores. De que maneira o trabalho pode ser concebido e realizado e que impactos se desdobram a partir daí?
acrescenta que faz parte dos novos dispositivos do trabalho retirar sua centralidade. O fato é que todos temos que trabalhar e essa é a atividade que mais nos toma tempo. Já surge como uma questão imperativa, que se coloca às pessoas logo tão cedo, considerado como uma condição para a conquista da autonomia. Paradoxalmente, para se conquistar a autonomia é necessário submeter-se às regras do jogo e às regras do mercado.
No livro “Ética, Trabalho e Subjetividade”, Nardi (2006) faz uma pesquisa envolvendo os modos de subjetivação em torno da questão do trabalho. A partir das entrevistas que realiza com trabalhadores de duas gerações diferentes, busca saber quais alterações ocorreram na maneira de se relacionar com o regime de verdades e questões éticas. As formas de se proceder, a relação com o outro trabalhador, as inseguranças, a família, os sonhos, todos esses são elementos que nos dizem da produção de subjetividade típica de cada época, em consonância com os ingredientes econômicos, políticos e sociais do momento histórico.
Os resultados apontam para uma transformação dos modos de subjetivação, o que é percebido a partir das diferenças no conjunto de referências de cada geração de trabalhador. O sindicato, por exemplo, que na década de setenta era capaz de ser uma referência para os trabalhadores na luta por melhores condições, mas que em 90 já não se apresenta como tal. A partir dos discursos e de sua análise, revelam-se distintos modos de se relacionar com o regime de verdades, que se traduzem em pensamentos que embasam ações. Com os trabalhadores da década de setenta havia uma solidariedade entre os operários, que se reconheciam enquanto classe e tinham orgulho da profissão; já quanto à reflexão ética, essa é pautada por princípios de igualdade e justiça.
atitude de sobrevivência pessoal. O não pertencimento a um grupo também marca esses trabalhadores, que se constituem num hiperindividualismo ou individualismo solitário que é favorecido quando o sindicato não mais oferece possibilidades de se constituir como instrumento de luta, o que leva a saídas individuais. Concluindo, Nardi afirma que a ética do trabalho é pensada como uma ética de sobrevivência individual, na qual o “hedonismo orientado para o presente atropela as virtudes e os parâmetros morais que antes revestiam o ato do trabalho” (p. 192).
O método de Nardi permite-nos obter um panorama, traçar certa cartografia dos processos de subjetivação de duas épocas diferentes, através do dispositivo do trabalho. Quando ele propõe uma definição entre trabalho e subjetividade, ele refere que a relação entre os dois termos se “remete à análise da maneira como os sujeitos vivenciam e dão sentido às suas experiências de trabalho” (2006, p. 21). Assim, ele delimita seu enfoque: pensar em como os processos de subjetivação que variam de acordo com os infinitos contextos alteram a maneira como os sujeitos vivenciam e atribuem sentidos ao trabalho. No entanto, neste trabalho não pensamos a subjetividade apenas como algo que atribui sentidos ao trabalho, mas tentamos pensá-la de forma ampla, sem remetê-la ao trabalho, mas sim buscando identificar as diferentes conexões existentes entre subjetividade e trabalho e como um afeta o outro sem cessar.
2.4 Economia Solidária
Histórico
Segundo Paul Singer (2002), um dos principais teóricos da área, a Economia Solidária teve seus primórdios na Europa, mais especificamente na Inglaterra, e é atribuída muitas vezes a um industrial têxtil chamado Robert Owen. No contexto da época, não havia nenhuma regulamentação legal que legislasse sobre o trabalho, o que chegava a ameaçar até a reprodução biológica dos trabalhadores. O industrial britânico passou a se preocupar com as condições de trabalho, chegando a lutar por leis que amparassem os trabalhadores (categoria que incluía também crianças de sete, oito anos, que chegavam a trabalhar mais de doze horas por dia). Com a Revolução Francesa e a depressão econômica que atingiu a Grã Bretanha com o fim da guerra, milhares de trabalhadores ficaram sem empregos. Em 1817, Robert Owen apresentou uma proposta ao governo britânico, que tinha a intenção de baratear o auxílio aos pobres. O seu plano era convencer o governo que seria mais barato caso o investimento para dar conta da situação fosse aplicado na compra de terras e construção de Aldeias Cooperativas, com cerca de 1.200 pessoas, para que os próprios trabalhadores produzissem sua subsistência. Estava plantada a semente do cooperativismo. Isso funcionou durante trinta anos. No entanto, na segunda metade do século XIX, o governo britânico se negou a continuar com o plano de Owen. Isso fez com que ele radicalizasse sua proposta, revelando que suas intenções eram mais do que econômicas: essa era apenas uma face de toda uma transformação no sistema social, que passava também pela abolição das
empresas capitalistas. Com a recusa dos governantes em implantar suas idéias, Owen foi
as cooperativas de consumo (1844) e de crédito (por volta de 1850, iniciando-se como uma espécie de “banco do povo”).
Todas as revoluções econômico-tecnológicas (da industrial até a informática) estiveram ligadas à maximização da produção e do trabalho. As sociedades disciplinares organizavam seu espaço e criavam estratégias para fazer com que seus funcionários produzissem mais e mais. Com a organização dos trabalhadores e a formação dos sindicatos, formou-se uma classe capaz de lutar por seus interesses, capaz de realizar negociações em busca de melhores condições de trabalho e remuneração. Novamente, temos um jogo de forças que atua para alterar a realidade. Importantes direitos foram conquistados, como a redução da jornada de trabalho, assistência médica, décimo terceiro salário, etc, mas a questão do trabalho está longe de se ter resolvida. Para não cair em concepções simplistas do trabalho e sua exploração devemos concebê-lo dentro de seus contextos sociais, históricos, políticos e econômicos, como estratégia tática de dominação e crescimento e não como condição do sistema capitalista.
Durante a década de 1980, com a Terceira Revolução Industrial promovida pela informática, novamente temos um grande número de trabalhadores desempregados. A necessidade de emprego faz com que esses trabalhadores tenham que se organizar na luta pela sobrevivência, fato este um dos propulsores na retomada do cooperativismo. Com o cenário econômico contemporâneo, diversas fábricas e empreendimentos foram levados à falência, abrindo a possibilidade desses empreendimentos se tornarem cooperativas. Desse tempo para cá, diversas maneiras de se garantir a autogestão, principal característica das cooperativas, foram inventadas e institucionalizadas, dando origem ao movimento que hoje é chamado de economia solidária.
posse e/ou controle coletivo dos meios de produção, distribuição, comercialização e crédito;
gestão democrática, transparente e participativa dos empreendimentos econômicos e/ou sociais;
distribuição igualitária dos resultados (positivos e negativos) econômicos dos empreendimentos.
Sendo assim, podemos dizer que a Economia Solidária caracteriza-se por ser um modo de produção, consumo e distribuição da riqueza. O que a distingue de outros modos de produção é que seus empreendimentos prezam pela distribuição igualitária das riquezas e das decisões, estabelecendo vínculos que não se limitam ao plano econômico. Seu objetivo não é o lucro, mas principalmente garantir dignidade e trabalho para as pessoas. Seu foco não é o acúmulo de riqueza, mas inversamente, a distribuição dos ganhos para tentar fazer frente à lógica de exclusão do capitalismo. Para tanto, seu principal método é a democratização do trabalho, das decisões e do lucro.
É uma alternativa ao modelo hegemônico capitalista da relação do homem com o trabalho e sua ênfase recai sobre a estrutura do modo de se pensar o funcionamento de um negócio, tradicionalmente, pensado na divisão entre patrão ou gestor e empregado ou funcionário. É importante ressaltar que é dessa relação que as fábricas vão se utilizar para aumentar o seu lucro, ao explorar os trabalhadores e gerar mais valia.
cooperados, realizar a chamada “retirada”). Assim, as decisões são tomadas coletivamente, através de assembléias. É a autogestão que estabelece, na estrutura de organização, a qualidade democrática das relações de gestão e trabalho. Nesse modelo, não existe diferença entre patrão e empregado, todos os trabalhadores são sócios e devem gerir o negócio do qual participam. Existe, teoricamente, uma horizontalidade de relações inerente a esse modelo, em que as decisões devem ser tomadas coletivamente.
Nos últimos anos, houve um grande aumento no número de empreendimentos solidários. Esse fenômeno parece acontecer devido às transformações econômicas e sociais que atravessamos. Segundo Oliveira (2007), o avanço do cooperativismo ocorre em razão de duas frentes distintas: como uma estratégia das empresas em terceirizar sua mão-de-obra, barateá-la e ainda garantir benefícios fiscais. Por outro lado, configura-se como iniciativa dos trabalhadores em garantir as condições de sobrevivência e trabalho, apropriando-se de empreendimentos falidos ou em crise. Podemos imaginar que as distintas razões que levam um grupo a criar uma cooperativa já é um indicador do tipo de prática que vai se estabelecer no interior do empreendimento. Isso porque existem hoje diversas cooperativas que apenas carregam o nome de cooperativas, mas que não realizam os princípios da Economia Solidária, servindo apenas como fachada para se beneficiarem dos incentivos fiscais que tais empreendimentos desfrutam. Dessa maneira, muitos empreendimentos acabam por funcionar como empresas ou fábricas tradicionais, capitalistas, que nada têm a ver com os processos que envolvem uma cooperativa legítima.
Nos últimos anos, muitos pesquisadores têm se interessado, por diversos motivos, pelo campo da Economia Solidária. A diversidade de contextos e manejos possíveis tem sido o desafio de muitas pessoas que acreditam nesse movimento como instrumento de transformação. Ao mesmo tempo, o cooperativismo tem sido alvo de muitas críticas, seja por práticas de gestores que não condizem com essa proposta (o que acaba por denegrir a imagem das cooperativas entre os trabalhadores), seja por capitalistas que combatem sua concorrência e disseminação e, também, pelas dificuldades encontradas pelas cooperativas em se organizar e conseguir concorrer no mercado.
O cenário atual das cooperativas no Brasil é amplo, com milhares delas espalhadas pelo país. Existem algumas entidades que prestam assessoria às cooperativas, como é o caso da ANTEAG (Associação Nacional dos Trabalhadores de Empresas Auto Geridas), a ITCP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares, na USP), e a UNISOL (União e Solidariedade das Cooperativas e Empreendimentos de Economia Social) que oferecem suporte a empreendimentos solidários, que muitas vezes é fundamental para o processo de formação e manutenção de uma cooperativa.
3.
Objetivos
4. Método
O método utilizado neste trabalho foi o de entrevistas semidirigidas, gravadas com duas cooperadas, de agora em diante chamadas informantes, no primeiro semestre de 2007. Os dados foram coletados no local de livre escolha das entrevistadas: uma, em seu local de trabalho, e outra, na faculdade onde estuda. A seleção dessas informantes foi feita por este pesquisador depois de alguns meses de aproximação com o universo do cooperativismo, o que me abriu algumas portas e possibilitou alguns contatos. A análise, portanto, foi qualitativa, o que é justificada pela necessidade de se analisar mais detidamente os movimentos singulares ao invés de buscar por padrões de comportamento.
Os cuidados éticos aqui tomados foram no sentido de garantir a integridade moral das informantes, preservando seus nomes e isentando-lhes de exposição a qualquer constrangimento, seja no momento da entrevista ou na publicação da pesquisa. O compromisso firmado foi de respeito para com as informantes, que se dispuseram a contar sobre suas vidas.
Durante as entrevistas, elas contaram sobre suas vivências cotidianas de trabalho, tanto em cooperativas, como no trabalho convencional. Para se analisar o discurso, abre-se mais um leque de possibilidades. O que de fato procuramos no discurso? Neste trabalho, a análise é a tentativa de se extrair movimentos, forças, conexões e potências. Uma análise que rastreou zonas intensivas e tensões, buscando por agenciamento de forças e feita a partir do que ressoou das entrevistas, na tentativa de liberar a vibração de uma voz, um encontro.
5
.
Resultados e Discussão
Como já dito aqui, as duas entrevistadas são mulheres. Uma chama-se3 Maria e a
outra Teresa. Maria tem trinta e oito anos, nasceu no Paraná, e veio para São Paulo com nove anos. Seus pais tiveram doze filhos, por isso, segundo ela, tiveram que trabalhar para ajudar a família. Com treze anos, já trabalhava como babá e teve que parar seus estudos diversas vezes por conta do trabalho. Ainda jovem, trabalhou como auxiliar de produção numa indústria de chocolates; depois, saiu da produção e foi trabalhar na área de conferência de documentos. Mesmo com seus pais desestimulando seus estudos, Maria nunca desistiu. No ano de noventa e nove chegou à cooperativa através de uma amiga, que sempre a convidava para entrar no negócio. A cooperativa que Maria trabalhou realizava serviços de limpeza, jardinagem e manutenção, e se situava na própria USP, fazendo parte da ITCP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares). Uma vez essa cooperativa saiu da USP, mas não conseguiu se manter, tendo que retornar para a universidade, onde não paga aluguel. Hoje Maria está se formando em pedagogia, e não está mais na cooperativa.
Teresa saiu do interior para a capital de São Paulo ainda bebê. De origem humilde, começou a trabalhar aos doze anos para ajudar a família. Seu primeiro emprego formal foi de balconista, depois começou a trabalhar em lanchonete. Seu sonho era ser jornalista, mas quando jovem não terminou o segundo grau. Hoje em dia Teresa quer retomar os estudos e trabalha em uma lanchonete na USP, que virou cooperativa após a empresa ter falido. Mesmo sem receber os salários, os funcionários se organizaram, foram auxiliados pela ITCP e deram início ao processo para tornar o empreendimento uma cooperativa.
A seguir temos a análise dos relatos, que se distribui em oito aspectos.
5.1
Condições no Trabalho Capitalista
”. Maria
Aqui fazemos um contraponto das condições encontradas nos diferentes modos de produção. O que se vê nos relatos sobre o trabalho capitalista, pode ser tratado em termos de cortes e ordens, operados por uma determinação extrínseca, transcendental - a atuação do poder e do controle. A ênfase dada nos relatos muitas vezes recai sobre o tempo – sua inflexibilidade, alta velocidade, exigência e cobrança. Simultaneamente ao acúmulo de tarefas dadas pelo capitalista, ocorre o corte, a supressão das outras potências. No entanto, não podemos nos limitar ao que o trabalho capitalista impede; há sua dimensão de produção; e de produção subjetiva. Podemos perceber em um dos relatos (sobre o trabalho em uma fábrica de chocolate), o medo de ser mandado embora é que mantém os trabalhadores produzindo mais e mais, sem olhar para o lado – é aí que a subjetividade se molda às exigências do capital, na captura do desejo (como potência de produção), que o vincula e o aprisiona - tudo em nome dos retornos financeiros e das pseudogarantias.
Talvez a palavra que dê conta de sintetizar a vivência no trabalho capitalista é a pressão. Pelo menos, essa foi a primeira resposta de uma das entrevistadas quando eu lhe solicitei algumas palavras sobre o trabalho na indústria: pressão, pressão total. É a combinação de diferentes táticas de controle: horários, hierarquia, produção, cobrança, chefe, remuneração e não pertencimento concreto (conforme Maria diz:
!
”.)
Para
pensarmos nos diferentes elementos presentes no trabalho capitalista, podemos começar pela configuração do espaço, tal como aparece no relato. A começarpor uma peça fundamental no esquema:
“
"
”.
Encarregado é oliteralmente o controle corporificado. A simples entrada dessa figura já redefine a cartografia, as rotas do desejo no espaço. Com o encarregado, a pressão parece aumentar, o que podemos notar pela quantidade de vezes que o verbo “ter” é empregado nesse contexto (oito vezes, no passado)
:
“
#
$
$
%
”. Desse trecho pode-se identificar, além da hierarquia, a determinação extrínseca contida nesse processo. Nesse contexto, há uma série de ordens, uma série de procedimentos a que o trabalhador deve se adequar. São condições que não são questionadas, regras gerais que servem para todos, numa cultura de funcionário padrão, propagando a massificação, a homogeneização e a submissão.
Durante seu trabalho na indústria, Maria executou a função de embaladeira de chocolate, serviço realizado na esteira. Ao descrever esse ambiente, ela o caracteriza
como sendo de muita pressão e insegurança; diz que muitos funcionários tinham
“
&
ou perder o emprego. Medo esse que setraduz no não relacionamento com os outros funcionários, mesmo quando perguntados
sobre algo:
“
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( ) *
”.
Esse clima predominante de insegurança é certamente constituinte da dimensão subjetiva que o trabalho imputa. Perde-se o contato, perde-se o outro, foca-se na produção. O medo, a insegurança, torna-se motor da produção, que faz o trabalhador perder a superfície do acontecimento para se prender na ordem que lhe foi dada, na função a ser executada. É o individualismo em acontecimento, sendo produzido, em processo. É a ponta no trabalho de toda lógica econômica e social, pautada em princípios como o lucro e o individualismo. Curiosamente, talvez o lucro esteja mais presente na dimensão social, e o individualismo no econômico. O investimento na imagem, o status, a aparência, a agregação de valor social, é cada vez mais acentuada, assim como, economicamente, os produtos são destinados a indivíduos, o consumo é “por cabeça”, as redes tornam-se núcleos, fragmentos particulares.
contexto industrial. Como embaladeira dos chocolates, há uma padronização do modo que a embalagem do chocolate deveria ficar. O papel laminado tinha um desenho, e
“
”.
Segundo ela, para ajustar opapel, perdia-se tempo. E a esteira ia andando, avançando com os chocolates para serem embrulhados. Havia algumas dificuldades que atrapalhavam seu trabalho:
“
+
,
-&
Para ajustar a embalagem à posição correta, Maria perdia tempo, o que geravauma reação em cadeia:“E aquele tempo que você perdeu gera um produto que você teria
feito, e vai perder outro tempo”. Maria diz que “eles” (os superiores) não queriam saber os motivos que fizeram com que tal erro acontecesse:
“(...)
.
( )
(
)
”.
Essa falta de diálogodos superiores, de compreensão sobre as razões que contribuíram para o erro acontecer - ao mesmo tempo em que cobra o funcionário por isso - é o que Maria avalia como sendo
“
( )
&
É a única função que ela tinha no serviço, então aculpa recaía toda sobre ela, que não tinha voz alguma para questionar o método de produção. Cobra-se por algo que o funcionário não pode dar conta. Não há possibilidade de diálogo, não é permitido dizer que certas condições do trabalho não estão possibilitando que o próprio trabalho aconteça. É um abismo, um gigante que se ergue na vertical, uma corrente que descarrega sempre de cima para baixo.
Durante a entrevista, solicitei a Maria que dissesse três palavras que melhor caracterizassem o trabalho na indústria. O que ela traz é: pressão total, falta de liberdade e (falta de) direito à fala. Quanto à fala e às reivindicações, ela diz que “/
+
+ & Aqui se pode visualizar a indústria operando um
suprimidas, em plena guerra do cotidiano, na micropolítica das relações de força, alguém que “não “mete” o nariz onde não é chamado”. Subjetividade que deve apenas se ocupar (ou ser ocupada?) para produzir o máximo possível, seguindo as condições pré-estabelecidas, o que garante o não combate às causas que a determinam, mantendo a ordem hegemônica. A falta de articulação é tanta, que chega a se reverter, conforme diz
Maria,
“
-
/
&
A lógica paranóica de produção, uma das principais responsáveis por agenciamentos autômatos, pode ser percebida através do seguinte esquema descrito
nesse trecho (já citado):
$
$
%
”.
É a exigência pela produção, a maximização dos esforços, asucção das capacidades. Em relação aos operários, a produção da indústria nunca pára, nunca volta. Como todo regime totalitário, a fábrica faz de tudo para controlar aquilo que pode lhe escapar: todas as forças criativas e produtivas são cooptadas por seu regime de forças. Com essa estratégia (de ter que sempre alcançar a maior produção), essa tática de produção da produção, o que pode acontecer com o desejo (enquanto força vital) do trabalhador? Que tipo de agenciamento podemos pensar estar se constituindo? Tudo
aponta para um agenciamento que suprime e esmaga as capacidades criativas da vida.
5.2
Temporalidade e Espacialidade
#0
$
”. Maria
relógio para entrar em seu funcionamento, aquilo que o faz funcionar. Se tempo é potência de produção e pensamento, resta saber o que fazer com ele.
Nos diferentes relatos, podemos perceber como os diferentes agenciamentos, que vão “montando” a subjetividade e virando a história-em-movimento da pessoa, são atravessados e atravessam o tempo; em outras palavras, como o fluxo-tempo afeta e é afetado pelos agenciamentos que vão se constituindo. A partir do que as entrevistadas dizem a respeito do trabalho capitalista, pode-se dizer que ora o tempo é escasso e seletivo (como no caso em que “não dava tempo para estudar”, almoçar, conversar), ora é concentrado e dirigido (quando distribui as atividades em muito pouco tempo); em ambos os casos é a lógica da maior eficácia econômica que rege o funcionamento, e acaba por suprimir outras atividades que são tidas como importantes para as entrevistadas. É um tempo já determinado e consumido.
Outro aspecto a se destacar nessa conexão do trabalho com o tempo diz respeito ao ritmo. Esse talvez seja, dentre os modos explícitos, um dos mais eficazes meios de se controlar alguém; inserido numa produção de alto ritmo, que exige uma resposta rápida e muito freqüente do trabalhador, esse ciclo instala-se incisivamente sobre a pessoa, que passa a “lembrar” dessa tarefa repetidas vezes, ocupando certo lugar no pensamento e no corpo deste trabalhador. É muitas vezes nessa etapa da produção que um elemento de caráter paranóico pode ser engendrado, é quando um elemento da paranóia de produção, que pertence ao patrão, desliza, atingindo os trabalhadores; esse elemento paranóico circula entre as diferentes conexões a que se está ligado.
Mas, para pensar os agenciamentos do trabalho que implicam na temporalidade, não é suficiente apenas analisar as diferenças de ritmo. Certamente os agenciamentos feitos têm conseqüências no tempo do qual dispomos e é capaz de alterar o tempo ainda por vir.
Num trecho do relato, Maria fala do tempo que seu trabalho consumia, fazendo-a não poder se dedicar a outras coisas que gostaria, como estudar. Ela diz das implicações que o trabalho traz em relação ao uso do tempo, de que a necessidade de trabalhar faz com que outras possibilidades e potencialidades fossem excluídas ou não desenvolvidas:
impactos desse trabalho em sua vida, Maria diz que desse ritmo de trabalho
“
&
Parece sentir que o período em que ficou nesse emprego foi um tempo perdido:'
&
.
Pensando ainda no contexto capitalista, podemos tentar pensar na ambiência (a maneira que o ambiente afeta as relações). Os procedimentos de “bater-cartão”, de horário exato de intervalo, comida, de entrada e saída, criam um certo modo de se estar no espaço, elegem alguns comportamentos e suprimem outros. No relato de Maria, a internalização do controle é o efeito de ser constantemente vigiado, como num panóptico,
mas que agora se internalizou
:
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A preponderância econômica da produção esmaga outraspráticas, caras à saúde mental: produz-se aqui um corpo empobrecido socialmente
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“
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”.
Cria-se uma atmosfera desfavorável àstrocas que são levadas a não se perpetuarem no tempo e no espaço: toda a conjuntura de controle exerce força para alterar a relação com o tempo. Mas, aqui não falamos de tempo nem espaço neutros, todo esse território foi codificado, pois é regido por certas regras, há uma jurisdição que o controla, configurando-se como um domínio, e quem pode alterá-lo é somente o patrão ou sua rede hierárquica (o poder concentrado).
Dessa forma, podemos aqui perceber como essas táticas de controle dão conta de “amarrar” os trabalhadores. É essa amarra (um encadeamento de regras) que dizem ser mais flexível quando experimentam a cooperativa. O fato de poderem “jogar” com o tempo, poder administrá-lo – e isso quer dizer poder decidir minimamente sobre o tempo deles – é algo que se mostrou importante nas entrevistas. É o peso da autonomia na temporalidade; é quando essas duas dimensões se conjugam de modo especial. Poder traçar seus planos, poder organizar a própria vida, de acordo com o que acha melhor, a par de suas necessidades, do ritmo próprio de cada um, é, por que não, um indicador de saúde, já que se pode escolher sobre a maneira mais adequada de se funcionar, relativa ao funcionamento humano.
No relato de Maria, ela nos conta do intervalo na fábrica onde trabalhava
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O tempo curto acelera a produção, até mesmo a produção de ingestão edigestão. Esse ritmo artificial e forçado se destaca nas entrevistas, seja pelo tempo escasso destinado à alimentação, seja pela importância de poder se alimentar. Quando Teresa nos fala que depois que a lanchonete virou cooperativa, ela pôde comer lá:
“
#
-
”. Uma coisa que pega muito. Aonde seráque pega? Ou então, onde será que essa coisa enrosca? O que elas nos dizem é da insatisfação de ter que se alimentar com pressa ou de não poder se alimentar, com os alimentos estando todos ali, sendo manuseados por quem quer comê-los, como era o caso de Teresa na lanchonete.
Com efeito, essas vivências nos remetem ao plano da dignidade: de poder se alimentar, de ter um tempo para tal, uma tranqüilidade mínima, sem ter que engolir a comida (ou será que nos esquecemos das lições da anátomo-fisiologia, que nos dizem que a digestão é de responsabilidade do sistema nervoso central parassimpático, ou seja, ele não pode estar sob estresse para desempenhar sua função com eficácia); ou, ainda anteriormente, de ver todos aqueles alimentos dispostos na sua frente, sem que se possa apreciá-los, porque você é funcionário e os produtos são para os clientes, são destinados a quem possa pagá-los.
Quando as duas entrevistadas nos trazem a alimentação como terreno em que recaem os diferentes modos de produzir (fábrica e cooperativa), podemos ter uma noção dos efeitos da subordinação, dos efeitos do poder sobre um corpo. Corpo que tem fome, que tem necessidade de se alimentar – o que é diferente de engolir apressadamente sua refeição para ter que voltar ao trabalho. Através da paranóia de produção, não se permite que outros sentidos sejam possíveis, que outras práticas sejam realizadas; é descartada a possibilidade de que um outro tempo seja vivido nas fábricas, em que não se sobreponha a economia de tempo sobre a (economia de) alimentação, ou que o ato de se alimentar não seja esmagado pela produção.
Retornando à temporalidade propriamente dita, um importante aspecto recorrente na fala das entrevistada é a questão do horário: sua rigidez ou sua flexibilidade. Sua vivência era a de que na cooperativa Maria podia combinar o horário em que chegaria
(com um certo bom senso), de modo a poder organizar sua vida, seu dia:
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imprevistos cotidianos poderiam se compor com sua atividade principal, seguindo uma lógica inclusiva, em que se pode articular as atividades que a vida nos coloca. De outro modo, ela nos fala da falta de maleabilidade dos horários em uma fábrica
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Pode-se dizer que não élevada em conta a realidade dos imprevistos, pois não se dá ao funcionário a possibilidade de manejar seus horários. Sem a preocupação de dar conta tanto dos imprevistos quanto das oportunidades da vida, estabelece-se um horário fixo, ao qual necessariamente é preciso se adequar.
Podemos pensar que o modelo “bate-cartão”, rígido com horários, pressupõe uma vida sem variâncias, homogênea, engessada, ordenada; e que todos os dias são passíveis de previsibilidade e planejamento dos acontecimentos: uma vida que se repete, que não varia; ou então, uma vida que é dedicada exclusivamente ao trabalho.
Inversamente, na cooperativa, a possibilidade de se ter horários flexíveis, acordados em consenso permite, além de poder responder com tranqüilidade às intercorrências (como ir ao médico, por exemplo), também permite articular o trabalho com outras potências, como por exemplo, os estudos). A flexibilidade do manejo do tempo num acordo mútuo abre possibilidades para os trabalhadores atuarem de modo mais próprio, de responderem a uma vida heterogênea que se modifica a cada instante, que não é de maneira alguma estática ou universal, no sentido de todos termos que lidar com as mesmas coisas.
Desse modo, a cooperativa talvez seja uma maneira mais interessante de se tentar dar conta do eterno diferenciar-se da vida, do devir que todo dia carrega.