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Rev. adm. empres. vol.41 número1

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Academic year: 2018

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90 v. 41 • n. 1 • Jan./Mar. 2001

C

ultura organizacional: identidade, sedução

e carisma? é um livro muito especial no

conjunto da produção da professora Maria Ester de Freitas. De fato, trata-se de um texto adap-tado da tese de doutorado da autora, apresentada na FGV/EAESP em 1997 com o título Cultura or-ganizacional: sedução & carisma?

Maria Ester, que também é professora do De-partamento de Administração Geral e Recursos Hu-manos da EAESP/FGV, é mestre e doutora em

ad-de Maria Ester ad-de Freitas Rio de Janeiro : Editora FGV, 1999. 180 p.

por Maria Irene Stocco Betiol, Doutora em Psicologia Social pela PUC-SP e Professora do Departamento de Fundamentos Sociais e

Jurídicos da Administração da FGV/EAESP. E-mail: [email protected]

ministração de empresas e tem pesquisado e publi-cado temas na área de Cultura Organizacional.

A autora propõe-se, nesse livro, a fazer uma análise “compreensiva” de caráter analítico-exploratório de um fenômeno social, o organiza-cional, pelo recorte e pela óptica do poder das organizações.

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v. 41 • n. 1 • Jan./Mar. 2001 91

Corrente crítica

quecimento das instituições tradicionais, a auto-ra utiliza-se de um referencial teórico interdis-ciplinar e faz uso de estudos sociológicos, or-ganiza cionais, psicológicos, psicanalíticos e psicossociológicos.

Maria Ester opta por uma forma de olhar o fenômeno organizacional e não oculta do leitor seus interesses e, como ela própria afirma, seus conflitos diante da escolha, não temendo, porém, deixar-se revelar pelas escolhas feitas. Mostra como se constrói um modelo de “racionalidade instrumental”, destituído de crítica, na formação do profissional cujo objetivo central é servir às organizações e fazê-las sobreviver. “E os seres humanos?”, pergunta a autora, e ela mesma res-ponde que estes não contam, pois têm obsoles-cência rápida.

Fundamenta seu argumento da crise de identi-dade das pessoas na socieidenti-dade atual, tecnológica, globalizada e acelerada que constrói um novo con-ceito de mudança cuja natureza é de violência e de desconstrução da identidade dos seres humanos.

Afirma que, à medida que os valores tradici-onais da sociedade que ancoravam a estrutura-ção da identidade foram sendo desconstruídos, a empresa moderna emergiu como o locus privile-giado e sedutor de suporte de identidade dos in-divíduos, colocando-se como a solução para os problemas existenciais e como objeto de identi-ficação.

Sendo “identidade” aqui entendida como um processo em constante transformação e resultante de múltiplas identificações, concordamos com a autora quando esta diz que a escolha de um único objeto de identificação – a empresa, como víncu-lo social exclusivo e principalmente idealizado – pode se transformar num risco, não só de nature-za econômica, mas, e principalmente, de naturenature-za psicopatológica, como bem exemplifica Aubert (1993) em seu estudo sobre a neurose profissio-nal.

A autora não deixa, porém, de apontar que pro-cessos psicológicos inconscientes do próprio in-divíduo são chamados a participar na construção de uma fantasia de onipotência e perenidade à se-melhança daquela que é veiculada pela cultura or-ganizacional.

Em vez de se utilizar do trabalho como uma possibilidade emancipatória, a identificação dos executivos “com a imagem grandiosa e sedutora da empresa” leva a um esvaziamento de

signifi-cados internos e, acrescentaríamos, cedo ou tarde descamba em um adoecimento psíquico, função da perda do objeto idealizado, resultando ou num processo depressivo ou numa atitude cínica, como podemos analisar no belo trabalho de Dejours (1999) sobre a banalização da injustiça social.

Para a autora, não só os sujeitos estão em crise de identidade, mas também as empresas, pela mi-opia estratégica adotada, fruto de decisões que ex-cluem o homem e que lhes oferecem um simula-cro de processo sublimatório.

A ambigüidade que nos assalta diante dos ar-gumentos expostos por Maria Ester é a de que, em relação às condições de pouca flexibilidade na questão do emprego em nossa sociedade, tal-vez devêssemos nos alegrar com a chance de po-dermos “ser seduzidos” pelas empresas.

No entanto, a autora afirma que ainda há espe-ranças: a crise pode ser, também, o caminho para a reconstrução de novas formas de aprendizagem de uma outra ética nas relações sociais, em que o ser humano e sua subjetividade poderão ser revalorizados.

O trabalho de Maria Ester é de indagação “do lugar do humano” em uma sociedade que tem in-vestido mais no econômico e no tecnológico; é crítico e atual, de leitura agradável e ao mesmo tempo denso em conteúdo. A autora consegue na-vegar pelos diferentes referenciais teóricos com extrema competência, premiando-nos com uma primorosa bibliografia de origem francesa.

Esse livro é aconselhável a executivos, geren-tes, professores e a todas as pessoas que tenham interesse em temas relacionados à Cultura Orga-nizacional. m

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUBERT, N. A neurose profissional. RAE –Revista de Administração de Empresas, v. 33, n. 1, p. 84-105, jan./fev. 1993.

DEJOURS, C. Abanalização da injustiça social. Rio de Janeiro :

Editora FGV, 1999.

Cultura organizacional: identidade, sedução e carisma?

Referências

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