O contributo da Agália no século XX (1985-2000)
Joel R. Gômez
APRESENTAÇOM
No número 1 da Agália, Ricardo Carvalho Calero
1apresentava esta
publicaçom da Associaçom Galega da Língua (AGAL), na saudaçom aos
leitores, como “umha revista de cultura, nom especializada, onde todos
os problemas que tenha postos o mundo em que Galiza está inserida,
mesmo aqueles que nom surjam da sua entranha, mas do seu entorno,
podem ser reflectidos. Como o contexto da nossa terra, na realidade
actual, é praticamente a totalidade do globo terráqueo –embora haja
umha evidente jerarquia de relaçom polo que di respeito às
circunstán-cias locais–, isso significa que, em princípio, nada humano nos é alheio,
bem que o nosso ponto de vista seja o da nossa situaçom geográfica e
his-tórica, e a sua expressom, conforme essas coordenadas, tenha de
realizar-se dentro do sistema lingüístico que nos é próprio e que entre nós tem as
suas raízes, ainda que hoje se manifeste, como de ámbito universal, em
pluralidade de normas e falas”.
E uns anos mais tarde, outro vulto principal do Reintegracionismo,
Jenaro Marinhas del Valle, precisamente num volume de homenagem
que a revista
2dedicou a Carvalho Calero, afirmava: “AGÁLIA é o canto
da arada que se deixa ouvir runfante nos eidos da cultura galega,
enquanto abre os sulcos bem seguidos e direitos em que à calor nutrícia
do humus materno o singelo dialecto rural de Rosalia germolará,
desa-brochando em idioma internacional que sonhou outrora o estro
ilumina-do e profético de Eduarilumina-do Pondal, o idioma reclamailumina-do polos novos
tem-pos de irremediável derrocada das fronteiras levantadas polas
monar-quias imperialistas e mantidas pola força das armas e conveniências de
(1) O texto, inserido nas páginas 1-2, está assinado polo “Conselho de Redacçom” da revista. No entanto, quem o redigiu foi em realidade Carvalho Calero, segundo assinala o Conselho da AGAL num texto introdutório ao ano 1996, incluído nas páginas 3-4 do número 45.Estados contra razom e contra natura”. E após analizar a situaçom do
conflito lingüístico galego e se referir aos aderentes do poder, concluía:
“Continuem os que assim o prefiram cantando em gaiola como grilos ou
ainda pior como aqueles desventurados ruissenhores aos que lhes
pin-chavam os olhos por entender que cegos cantariam melhor. Nós
conti-nuaremos cantando em liberdade”.
Estes dous parágrafos desses grandes mestres resumem os objectivos
da Agália entre 1985 e 2000, período focado no presente trabalho. A
revis-ta, apesar das dificuldades que enfrentou, económicas e de outro tipo,
apareceu no mercado conforme aos números exigidos pola sua
periodici-dade trimestral, mesmo com dous monográficos extraordinários a
maio-res. Foi, sem sombra de dúvida, um dos produtos do Reintegracionismo
de mais grande sucesso. Muitos dos produtores que assinárom trabalhos
som do mais grande relevo científico-literário, como Ernesto Guerra da
Cal, Eugénio Coseriu, Evanildo Bechara, Gladstone Chaves de Melo, Guy
Heraud, Jenaro Marinhas, Joan Coromines, Leodegário A. de Azevedo
Filho, Manuel Rodrigues Lapa, Ricardo Carvalho Calero, Sílvio Elia, por
citar alguns de entre os muitos que mereceriam destaque. Nos quase
nove milhares de páginas dos 66 números editados encontram-se desde
estudos e investigaçons do mais elevado interesse científico, que
merecê-rom citaçom de especialistas muito diversos em publicaçons galegas e do
exterior, até textos literários inéditos, documentos históricos, crónicas dos
principais acontecimentos organizados pola Associaçom Galega da
Língua e por outros grupos, reproduçom de acordos e iniciativas de
dife-rentes administraçons, testemunhos da receptividade atingida nos meios
de comunicaçom, denúncias da repressom das liberdades, reivindicaçom
de maiores usos para normalizar o idioma da Galiza...
Um contributo de enorme relevo muito em especial para a história das
duas últimas décadas da Galiza, para as quais esta revista é referencia
inexcusável. Umha Galiza vista como um todo, e para a qual se
deman-dou um novo meridiano que, como reclamou no seu dia outro dos
mem-bros de honra da AGAL, Ernesto Guerra da Cal
3, passasse por Lisboa e
polo Rio de Janeiro, em reconhecimento da reivindicaçom histórica para
o idioma da tradiçom Romanística e do Galeguismo.
O presente trabalho visa ser um índice do contributo da Agália nessa
etapa. Realizado com ánsias de exaustividade e de fácil manejo, evitando
repetiçons desnecessárias, nele encontram-se desde os trabalhos
científi-(3) Na “Nota do Autor” inserida no poemário Lua de Além-Mar.co-ensaístico-literários e cartas, até notícias, reproduçom de todo o tipo
de documentos, iconografia, informaçom sobre a direcçom da revista e as
suas características de paginaçom, capa e contracapa, etcétera.
A idea que guiou a sua elaboraçom foi a de que poda ser um
contri-buto de valor e utilidade quer para investigadores, quer para qualquer
leitor que anele inteirar-se dos conteúdos da revista e da trajectória dos
diferentes colaboradores, que fica bem nítida.
Parece este um tempo especialmente oportuno para a sua publicaçom,
sobretodo por duas circunstáncias: finaliza um século e, portanto, é um
modo de deixar constáncia do contributo da Agália nessa centúria; e
por-que a Associaçom Galega da Língua vive no último ano instantes de
reno-vaçom, que se reflectem igualmente na revista. Este novo ciclo inciou-se
no número 62, com nova direcçom e com mudanças de que também fica
constáncia neste Índice, no qual se espelha o imenso e ambicioso labor
realizado na inesquecível etapa da presidência da AGAL pola Professora
Doutora Maria do Carmo Henríquez Salido.
Só falta pedir desculpas desde este lugar polas ausências que poda
haver, sempre involuntárias, e polas informaçons que podam aparecem
erradas ou incompletas, pois só a mim corresponde essa
responsabilida-de. A complexidade de umha revista das características da Agália, com a
variedade dos materiais nela incluídos por causa da peculiar situaçom da
Galiza e do trabalho realizado desde a periferia a que os poderes
públi-cos contribuírom a situar o Reintegracionismo no período focado, faz
com que nom resultasse precisamente fácil o empreendimento e mesmo
o estabelecimento da metodologia a seguir, pola falta de modelos em que
amparar este trabalho, sempre aliciante e da máxima satisfaçom para
mim, pois foi muito o que aprendim com a sua realizaçom.
Compostela, em 25 de Março de 2002