Instituto de F´ısica
Bacharelado em F´ısica
Thiago de Souza Ferreira
Computa¸c˜
ao Quˆ
antica Baseada em Medidas
Niter´
oi – RJ
2020
i THIAGO DE SOUZA FERREIRA
COMPUTA ¸C ˜AO QU ˆANTICA BASEADA EM MEDIDAS
Trabalho de Conclus˜ao de Curso apresentado ao Curso de Gradua¸c˜ao em F´ısica, na modali-dade bacharelado, da Universimodali-dade Federal Flu-minense, como requisito parcial para obten¸c˜ao do Grau de Bacharel em F´ısica.
Orientador: Prof. Dr. Daniel Jonathan
Niter´oi – RJ 2020
Bibliotecário responsável: Mario Henrique de Oliveira Castro - CRB7/6155
F383c Ferreira, Thiago de Souza
Computação quântica baseada em medidas / Thiago de Souza Ferreira ; Daniel Jonathan, orientador. Niterói, 2020. 50 f. : il.
Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Física)-Universidade Federal Fluminense, Instituto de Física, Niterói, 2020.
1. Computação quântica. 2. Produção intelectual.I. Jonathan, Daniel, orientador. II. Universidade Federal Fluminense. Instituto de Física. III. Título.
-Resumo
A computa¸c˜ao quˆantica permite a realiza¸c˜ao de certas tarefas mais eficientemente do que um computador cl´assico. Esta monografia busca apresentar uma forma de compu-ta¸c˜ao quˆantica diferente da padr˜ao: a Computa¸c˜ao Quˆantica Baseada em Medidas, mais especificamente o modelo conhecido como One-Way Quantum Computation (1WQC), de-senvolvido por R. Raussendorf e H. Briegel. Para compreendˆe-lo, este trabalho parte do modelo de circuitos, a forma mais comum de se realizar computa¸c˜ao quˆantica, descrevendo as suas principais componentes. ´E feita ent˜ao a introdu¸c˜ao `a 1WQC, procurando-se apre-sentar de forma did´atica seu funcionamento. ´E apresentada uma forma de aplicar, atrav´es da 1WQC, opera¸c˜oes equivalentes a portas l´ogicas quˆanticas de um e de dois q-bits, ex-plicando assim como esse modelo possibilita a computa¸c˜ao universal. Como exemplo, ´e discutida a tradu¸c˜ao do algoritmo de Deutsch para este modelo. O resultado dessa opera¸c˜ao levanta, por´em, quest˜oes n˜ao resolvidas sobre a tradu¸c˜ao de algoritmos do tipo Or´aculo, como o de Deutsch, ao modelo 1WQC.
Palavras-chave: Computa¸c˜ao Quˆantica Baseada em Medidas; One-Way Quantum Computation; Algoritmo de Deutsch.
iii
Abstract
Quantum computing allows the realization of certain tasks more efficiently than its classical counterpart. This monograph seeks to present a type of quantum computation that is different from the standard form: Measurement-Based Quantum Computation, more specifically a model known as One-Way Quantum Computation (1WQC), develo-ped by R. Raussendorf and H. Briegel. To understand it, this work starts from the circuit model, the most common type of quantum computing, describing its main components. The 1WQC model is then introduced, with an attempt to didactically present its ope-ration. A way of applying one- and two-qubit quantum logic gates is also shown, thus explaining how universal quantum computing is possible in this model. As an example, the translation of Deutsch’s algorithm to this model is also discussed. The result of this operation raises, however, open questions concerning the translation of Oracle-type algo-rithms, such as Deutsch’s, to the 1WQC model.
Keywords: Measurement Based Quantum Computation; One-Way Quantum Com-putation; Deutsch’s Algorithm
Agradecimentos
`
A minha fam´ılia, sobretudo `a minha m˜ae, por todo o apoio n˜ao s´o ao longo da gradua¸c˜ao, mas de minha vida; e ao meu avˆo, por, desde sempre, me incentivar a aprender. Aos professores que tive ao longo da gradua¸c˜ao, principalmente `a professora Daisy Luz, por possibilitar que eu trabalhasse na Casa da Descoberta, propiciando uma experi-ˆencia fundamental para minha forma¸c˜ao como f´ısico e como pessoa; ao professor Daniel Jonathan, por me orientar, de forma atenciosa e paciente, ao longo da realiza¸c˜ao desse trabalho; e ao professor Ernesto Galv˜ao, por me iniciar nos caminhos da computa¸c˜ao quˆantica.
Aos meus colegas da Casa da Descoberta, sobretudo `a Verdinha, por tudo o que me ensinaram, mesmo sem perceber, e por tornarem as manh˜as de trabalho mais divertidas. Aos meus colegas da gradua¸c˜ao, pelas discuss˜oes ´uteis que contribu´ıram para minha forma¸c˜ao, mas tamb´em pelas in´uteis, que deixaram meus dias mais leves. Em especial, ao Trotte, pelas m´usicas da Disney e aberturas de animes que cantou comigo.
Por fim, ao Gustavo, por todas as d´uvidas que tirou desde que nos conhecemos, por todos os abra¸cos que me deu quando mais precisei e por estar ao meu lado quando eu sabia exatamente o que fazer, mas, em um sentido muito mais real, n˜ao tinha ideia do que fazer.
Sum´
ario
Resumo ii
Abstract iii
Agradecimentos iv
1 Introdu¸c˜ao 1
2 Computa¸c˜ao Quˆantica 3
2.1 O Q-Bit . . . 3
2.1.1 Estados de mais q-bits . . . 3
2.2 Portas L´ogicas Quˆanticas . . . 5
2.2.1 Portas l´ogicas de um q-bit . . . 6
2.2.2 Portas l´ogicas de mais de um q-bit . . . 8
2.3 Medidas . . . 10
2.3.1 Medidas na base computacional . . . 10
2.3.2 Medidas fora da base computacional . . . 11
2.4 Modelo de Circuitos . . . 11
2.4.1 Computa¸c˜ao Quˆantica Universal . . . 13
2.5 Algoritmo de Deutsch . . . 13
2.6 Teletransporte Quˆantico . . . 17
3 Computa¸c˜ao Quˆantica Baseada em Medidas 20 3.1 One-Way Quantum Computation . . . 20
3.2 Estados Clusters e Grafos . . . 20
3.3 Medidas em Z . . . 22
3.4 Universalidade da One-Way Quantum Computation . . . 24
3.5 Implementando a Porta CX . . . 29
3.6 Algoritmo de Deutsch . . . 32
4 Conclus˜ao 39
Cap´ıtulo 1
Introdu¸
c˜
ao
Desde o surgimento dos primeiros computadores eletrˆonicos, na primeira metade do s´eculo passado, a computa¸c˜ao passou por diversas melhorias. Os computadores de agora em nada se parecem com os trambolhos dos anos 40. Os atuais s˜ao mais r´apidos, menores, mais f´aceis de usar e, em geral, mais baratos.
Apesar das muitas mudan¸cas, o funcionamento do computador atual n˜ao ´e essen-cialmente diferente do de um computador do final da d´ecada de 60. Ele ainda se baseia em circuitos el´etricos integrados, mesmo que de forma cada vez mais otimizada. Mais do que isso, ele ainda se baseia na manipula¸c˜ao de bits.
A mecˆanica quˆantica, surgindo no final do s´eculo XIX e sendo aperfei¸coada ao longo do s´eculo XX, levou a uma melhor compreens˜ao de como funciona o mundo em escala atˆomica, trazendo a possibilidade de uma nova forma de se fazer computa¸c˜ao.
´
E v´alido lembrar que os computadores comuns, que ser˜ao aqui chamados de com-putadores cl´assicos, tamb´em envolvem a mecˆanica quˆantica em seu funcionamento. Eles dependem fortemente de circuitos eletrˆonicos e a mecˆanica quˆantica ´e necess´aria para entender o comportamento de el´etrons. A diferen¸ca entre os computadores cl´assicos e os quˆanticos ´e a forma como a informa¸c˜ao ´e armazenada. No caso da computa¸c˜ao quˆantica, o car´ater quˆantico do sistema f´ısico usado ´e fundamental para sua realiza¸c˜ao, enquanto na cl´assica ele n˜ao ´e relevante e nem, ao menos, necess´ario. Qualquer computa¸c˜ao que possa ser realizada por um computador cl´assico pode ser realizada, com eficiˆencia semelhante, por outro. Ou seja, os primeiros computadores cl´assicos e os atuais s˜ao capazes de resolver os mesmos problemas.
A computa¸c˜ao quˆantica, apesar de ainda estar no in´ıcio do seu desenvolvimento, j´a
se mostra promissora. Computadores quˆanticos podem ser mais eficientes na realiza¸c˜ao de algumas tarefas, as quais os computadores cl´assicos atuais n˜ao conseguem resolver em tempo h´abil.
Um exemplo de limita¸c˜ao conhecida do computador cl´assico ´e a dificuldade na fatora¸c˜ao em n´umeros primos. Mesmo os melhores algoritmos conhecidos tˆem um alto custo computacional, de forma que a fatora¸c˜ao de n´umeros muito grandes ´e extremamente demorada e, em muitos casos, imposs´ıvel, na pr´atica, para nossos computadores atuais. Essa dificuldade ´e a base de boa parte dos esquemas de criptografia utilizados atualmente. O algoritmo de Shor [8], criado em 1994, permitiria a computadores quˆanticos fazer a fatora¸c˜ao em primos de forma muito mais eficiente. Tamb´em existem algoritmos quˆanticos mais eficientes do que os algoritmos cl´assicos conhecidos para certos problemas de busca e de otimiza¸c˜ao [4]. Espera-se, tamb´em, que computadores quˆanticos se sobressaiam na simula¸c˜ao de sistemas quˆanticos.
A forma padr˜ao de se fazer computa¸c˜ao quˆantica ´e o Modelo de Circuitos, no qual a manipula¸c˜ao dos bits quˆanticos (q-bits) ´e realizada, sobretudo, atrav´es de portas l´ogicas. Nesse trabalho ser´a apresentada uma outra forma: a Computa¸c˜ao Quˆantica Baseada em Medidas (CQBM). Nela, como o nome sugere, a manipula¸c˜ao dos q-bits ´e realizada atrav´es de medidas. A CQBM traz `a tona uma nova forma de se pensar em computa¸c˜ao quˆantica j´a que, diferente do Modelo de Circuitos, ela n˜ao tem um an´alogo cl´assico conhecido. Al´em disso, ela traz novas possibilidades para sua realiza¸c˜ao experimental.
No segundo cap´ıtulo dessa monografia, fazemos uma introdu¸c˜ao ao Modelo de Cir-cuitos, expondo suas principais componentes, o conceito de computa¸c˜ao quˆantica universal e dois algoritmos simples: o de Teletransporte e o algoritmo de Deutsch. J´a no terceiro cap´ıtulo, tratamos do tema principal desse trabalho. Nele, apresentamos uma forma es-pec´ıfica de se fazer CQBM: a One-Way Quantum Computation (1WQC), explicando seus princ´ıpios b´asicos. Al´em disso, mostramos que ela ´e equivalente ao Modelo de Circuitos por meio da exibi¸c˜ao de uma forma eficiente de realizar portas l´ogicas de um conjunto universal atrav´es da 1WQC. Por fim, discutimos a realiza¸c˜ao do algoritmo de Deutsch nesse modelo.
Cap´ıtulo 2
Computa¸
c˜
ao Quˆ
antica
2.1
O Q-Bit
O bit quˆantico, ou q-bit, ´e a unidade de informa¸c˜ao fundamental da computa¸c˜ao quˆantica, generalizando o bit da computa¸c˜ao cl´assica. Ele representa um sistema quˆantico com dois estados distingu´ıveis. Um desses estados ser´a chamado de |0i e, o outro, de |1i. Diferente do bit cl´assico, que s´o pode estar no estado 0 ou no 1, um q-bit ainda pode estar em uma superposi¸c˜ao dos estados |0i e |1i, caracter´ıstica que vem do fato de o sistema ser quˆantico. Nesse caso, o estado do q-bit pode ser escrito como uma combina¸c˜ao linear de |0i e |1i, na forma:
|Ψi = α |0i + β |1i . (2.1)
Tamb´em seria poss´ıvel trabalhar, em vez de com q-bits, com sistemas com trˆes estados de base (q-trits), ou mais, mas n˜ao entraremos nessa quest˜ao nesse trabalho.
A representa¸c˜ao matricial dos estados de um q-bit, na base canˆonica, ´e:
|0i = 1 0 , |1i = 0 1 e |Ψi = α β .
2.1.1
Estados de mais q-bits
Para fazer computa¸c˜ao, s˜ao necess´arios v´arios q-bits. Assim, ´e importante conhecer a representa¸c˜ao de estados de mais de um q-bit. Se |Ψ1i = α1|0i + β1|1i ´e o estado no
qual se encontra o primeiro q-bit e |Ψ2i = α2|0i + β2|1i o estado no qual se encontra o
segundo, o estado do sistema formado por ambos ´e dado pelo produto tensorial de |Ψ1i
com |Ψ2i.
|Ψ1i ⊗ |Ψ2i = α1α2|0i ⊗ |0i + α1β2|0i ⊗ |1i + β1α2|1i ⊗ |0i + β1β2|1i ⊗ |1i .
Por praticidade, escreveremos esse estado conjunto como:
|Ψ12i = α1α2|00i + α1β2|01i + β1α2|10i + β1β2|11i . (2.2)
O estado de um sistema qualquer de dois q-bits pode ser escrito como uma combi-na¸c˜ao linear dos estados da base computacional de dois q-bits, sendo eles: |00i , |01i , |10i e |11i. A representa¸c˜ao matricial desses estados ´e:
|00i = 1 0 0 0 , |01i = 0 1 0 0 , |10i = 0 0 1 0 , |11i = 0 0 0 1 .
Analogamente, o estado de um sistema de n q-bits, cada um deles no estado |Ψii =
αi|0i + βi|1i, com i = 1, 2, ..., n ´e dado pelo produto tensorial entre os n estados. Al´em
disso, o estado de um sistema qualquer de n q-bits pode ser escrito como uma combina¸c˜ao linear dos estados da base de n q-bits.
Estados Emaranhados
Alguns estados de v´arios q-bit n˜ao podem ser escritos como o produto de estados de um q-bit como na equa¸c˜ao (2.2), ou seja, n˜ao s˜ao separ´aveis. Nesse caso, dizemos que o sistema se encontra em um estado emaranhado. Alguns exemplos de estados emaranhados s˜ao os estados de Bell, sendo eles:
5 |β00i = |00i + |11i √ 2 ; (2.3a) |β01i = |01i + |10i √ 2 ; (2.3b) |β10i = |00i − |11i √ 2 ; (2.3c) |β11i = |01i − |10i √ 2 . (2.3d)
Como exemplo, mostraremos que o estado |β00i ´e emaranhado. Caso ele fosse
separ´avel, poder´ıamos escrever: |β00i = |Ψ1i ⊗ |Ψ2i = (α1|0i + β1|1i)(α2|0i + β2|1i).
Assim, ter´ıamos a equa¸c˜ao: |00i + |11i
√
2 = α1α2|00i + α1β2|01i + β1α2|10i + β1β2|11i , (2.4) ou seja:
α1α2 = 1 ; (2.5a)
α1β2 = 0 ; (2.5b)
β1α2 = 0 ; (2.5c)
β1β2 = 1 . (2.5d)
Como o sistema de equa¸c˜oes acima n˜ao tem solu¸c˜ao, |β00i n˜ao ´e separ´avel.
O emaranhamento tem um papel fundamental na computa¸c˜ao quˆantica, o que ser´a exemplificado posteriormente nesse trabalho.
2.2
Portas L´
ogicas Quˆ
anticas
As portas l´ogicas s˜ao componentes fundamentais dos algoritmos para computa¸c˜ao quˆantica. Elas s˜ao operadores unit´arios (ou seja, se Q ´e uma porta l´ogica quˆantica, Q†Q = 1) e lineares.
A seguir, ser˜ao listadas algumas das portas l´ogicas quˆanticas e suas propriedades relevantes para esse trabalho.
2.2.1
Portas l´
ogicas de um q-bit
A porta IdentidadeAplicar a porta identidade (1) em um q-bit representa n˜ao realizar mudan¸ca alguma em seu estado. Sua representa¸c˜ao matricial ´e a matriz identidade.
As portas X, Y e Z
As portas X, Y e Z s˜ao representadas, na base computacional, pelas matrizes de Pauli. Assim: X = 0 1 1 0 , Y = 0 −i i 0 e Z = 1 0 0 −1 .
Sua atua¸c˜ao nos estados da base computacional est´a apresentada na tabela abaixo:
Input Porta Output
|0i X |1i |1i X |0i |0i Y i |1i |1i Y -i |0i |0i Z |0i |1i Z - |1i Tabela 2.1: Atua¸c˜ao de X, Y e Z
Esses operadores obedecem `a rela¸c˜ao: AB = iεABCC +δAB1, onde εABC´e o s´ımbolo
de Levi-Civita e δAB, o Delta de Kronecker.
A Porta U (θ)
A porta U (θ) = eiθZ2 tamb´em ser´a relevante nesse trabalho. Ser´a ´util conhecer a
forma matricial desse operador, escrita na base computacional.
U (θ) = eiθZ2 = ∞ X n=0 (iθZ/2)n n! . (2.6)
Considerando que Z2 = 1, temos:
U (θ) = P∞ n=0 (iθ/2)n n! 0 0 P∞ n=0 (−iθ/2)n n! = eiθ2 0 0 e−iθ2 . (2.7)
7 Por U (θ) ser diagonal na base computacional, j´a ´e clara sua atua¸c˜ao nos estados da base, mostrada na tabela 2.2:
Input Porta Output |0i U(θ) eiθ2 |0i
|1i U(θ) e−iθ2 |1i
Tabela 2.2: Atua¸c˜ao de U (θ)
A porta R(θ)
Outro operador importante ´e R(θ) = Xcos(θ) + Y sen(θ). Sua forma matricial, na base computacional, ´e: R(θ) = cos(θ) 0 1 1 0 + sen(θ) 0 −i i 0 = 0 e−iθ eiθ 0 . (2.8)
Sua atua¸c˜ao nos estados da base ´e mostrada na tabela 2.3. Input Porta Output
|0i R(θ) eiθ|1i
|1i R(θ) e−iθ|0i
Tabela 2.3: Atua¸c˜ao de R(θ)
Devemos notar que R(0) = X e R(π2) = Y . A Porta Hadamard
A porta Hadamard (H) ´e representada, na base computacional, pela matriz:
H = √1 2 1 1 1 −1 .
Sua atua¸c˜ao ´e mostrada na tabela 2.5:
Input Porta Output
|0i H |+i
|1i H |−i
Onde:
|+i = |0i + |1i√
2 e |−i =
|0i − |1i √
2 . (2.9)
Ou seja, a porta H leva estados da base computacional a uma superposi¸c˜ao deles. Como H†ZH = X, o operador H faz uma mudan¸ca da base dos autoestados de Z para a de X.
As portas Fase e π8
A porta Fase (S) e a porta π8 (T ) s˜ao representadas, na base computacional, pelas matrizes abaixo: S = 1 0 0 i e T = 1 0 0 eiπ4 .
Sua atua¸c˜ao se d´a acrescentando uma fase (i no caso de S e eiπ4 no caso de T ) ao
estado |1i e n˜ao modificando o estado |0i, como visto abaixo: Input Porta Output
|0i S |0i
|1i S i |1i
|0i T |0i
|1i T eiπ4 |1i
Tabela 2.5: Atua¸c˜ao de S e T
Das portas apresentadas, 1 , X , Z , Y , R(θ) e H s˜ao hermitianas (se Q ´e um operador hermitiano, Q† = Q). Portas que acrescentem uma fase a um estado da base, ou que os levem a uma superposi¸c˜ao de estados n˜ao s˜ao poss´ıveis na computa¸c˜ao cl´assica, porque bits s´o podem ser 0 ou 1, enquanto q-bits podem ser uma combina¸c˜ao linear de |0i e |1i. Assim, das portas citadas, apenas tem an´alogos cl´assicos: a Identidade e X, que ´e an´aloga `a porta NOT.
2.2.2
Portas l´
ogicas de mais de um q-bit
Todas as portas citadas acima atuam em um sistema de v´arios q-bits atrav´es da aplica¸c˜ao da porta em quest˜ao em um dos q-bits e da identidade nos outros. Por exemplo, para atuar a porta Q no segundo q-bit de um sistema de trˆes q-bits, fazemos 1 ⊗ Q ⊗
9 1. Indicaremos que uma porta l´ogica Q atua no n-´esimo q-bit escrevendo-a como Qn,
deixando impl´ıcita a atua¸c˜ao de 1 nos outros q-bits.
Portas Controladas
As portas controladas performam um determinado operador em um q-bit, enquanto outros q-bits funcionam como um controle. Nesse trabalho, ser˜ao relevantes as portas CX,
tamb´em chamada de CNOT, e CZ. Elas s˜ao portas controladas de dois q-bits que, quando
o q-bit de controle est´a no estado |0i, n˜ao modificam o q-bit alvo e, quando o q-bit de controle est´a no estado |1i, aplicam X ou Z no q-bit alvo, como mostrado nas tabelas abaixo:
Input Porta Output
|00i CX |00i
|01i CX |01i
|10i CX |11i
|11i CX |10i
Tabela 2.6: Atua¸c˜ao de CX
Input Porta Output
|00i CZ |00i
|01i CZ |01i
|10i CZ |10i
|11i CZ - |11i
Tabela 2.7: Atua¸c˜ao de CZ
Suas representa¸c˜oes matriciais, na base computacional, s˜ao:
CX = 1 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 1 0 0 1 0 e CZ = 1 0 0 0 0 1 0 0 0 0 1 0 0 0 0 −1 .
Aplicar CX 12 a um estado qualquer de dois q-bits equivale a aplicar H2CZH2, onde
o subscrito 12 representa que o primeiro q-bit ´e o controle, enquanto o segundo ´e o alvo.
Para ver essa rela¸c˜ao, compararemos a atua¸c˜ao de ambos os conjuntos de portas em um estado gen´erico |φi = α |00i + β |01i + γ |10i + δ |11i.
e
H2CZH2|φi = H2CZ
1 √
2[α |0i (|0i + |1i) + β |0i (|0i − |1i) + γ |1i (|0i + |1i) + δ |1i (|0i − |1i)] = H2
1 √
2[α |0i (|0i + |1i) + β |0i (|0i − |1i) + δ |1i (|0i + |1i) + γ |1i (|0i − |1i)] = α |00i + β |01i + δ |10i + γ |11i = CX 12|φi . (2.11)
As portas controladas s˜ao fundamentais para a cria¸c˜ao de estados emaranhados. Por exemplo, uma forma de gerar os estados de Bell a partir de estados da base compu-tacional de dois q-bits ´e:
|βxyi = CX 12H1|xyi , (2.12)
onde x e y podem assumir os valores 0 ou 1.
2.3
Medidas
As medidas s˜ao outras componentes fundamentais da computa¸c˜ao quˆantica. Quando uma medida ´e feita, o sistema colapsa para um autoestado do observ´avel medido. Para que um operador possa ser um observ´avel, ele deve ser hermitiano. Diferente das portas, as medidas s˜ao irrevers´ıveis.
2.3.1
Medidas na base computacional
A base computacional, como visto anteriormente, ´e formada por {|0i , |1i}. Ela tamb´em ´e a base dos autoestados da porta Z.
Quando um estado |Ψi = α |0i + β |1i ´e medido nessa base, o resultado da medida ser´a o bit cl´assico 0, com probabilidade |α|2, ou o bit cl´assico 1, com probabilidade |β|2.
Por isso, ´e necess´ario que |α|2 + |β|2 = 1, ou seja, que |Ψi esteja normalizado.
Como as portas l´ogicas s˜ao operadores unit´arios, aplic´a-las a um certo estado n˜ao altera sua norma.
11
2.3.2
Medidas fora da base computacional
Em outras bases ortonormais, a medida tamb´em resultar´a no bit cl´assico 0, quando o sistema tiver colapsado para o autoestado associado ao autovalor 1 do observ´avel medido, ou no bit cl´assico 1, quando o colapso for para o autoestado com autovalor −1. Para saber a probabilidade de cada resultado, basta escrever o estado a ser medido em termos da base em quest˜ao.
Por exemplo, para a base formada por {|+i , |−i}, que s˜ao os autoestados do operador X, temos: |+i = |0i+|1i√ 2 |−i = |0i−|1i√ 2 →|0i = |+i+|−i√ 2 |1i = |+i−|−i√ 2
→ |Ψi = α |+i + |−i√ 2 + β |+i − |−i√ 2 . Reorganizando: |Ψi = α + β√ 2 |+i + α − β √ 2 |−i . (2.13)
Ou seja, o resultado da medida ser´a 0, com probabilidade |α+β|2 2, ou 1, com proba-bilidade |α−β|2 2.
2.4
Modelo de Circuitos
No modelo de circuitos, a computa¸c˜ao ´e feita por uma sequˆencia de portas l´ogicas aplicadas a um estado inicial. Em geral, medidas s˜ao feitas ao final do processo para que se saiba o resultado da computa¸c˜ao.
A representa¸c˜ao de um circuito quˆantico ser´a explicada a seguir. O input ser´a escrito `a esquerda do circuito, enquanto o output ser´a escrito `a direita. Cada linha repre-senta o processo pelo qual passar´a um dos q-bits.
Fios: Os fios representam que o tempo passou sem que o q-bit sofresse alguma modifica¸c˜ao.
|Ψ1i |Ψ1i
|Ψ2i |Ψ2i
Qa e Qb no primeiro q-bit est´a exemplificada abaixo:
|Ψ1i Qa Qb QbQa|Ψ1i
|Ψ2i |Ψ2i
CX: Uma porta CX que atua no segundo q-bit, controlada pelo primeiro ´e escrita
como:
|Ψ1i • |Ψ1CXi
|Ψ2i |Ψ2CXi
O s´ımbolo ⊕ denota o alvo da porta, enquanto o s´ımbolo • indica o q-bit contro-lador. Isso n˜ao significa que a aplica¸c˜ao do CX do circuito mostrado s´o pode modificar o
segundo q-bit, mantendo o primeiro intacto. Por exemplo, se o estado inicial for |+−i, a aplica¸c˜ao da porta CX se dar´a da seguinte forma:
CX 12|+−i = CX 12
|00i − |01i + |10i − |11i 2
= |00i − |01i + |11i − |10i 2
= |−−i . (2.14) O subscrito12 foi usado para indicar que o q-bit 1 ´e o controlador e o q-bit dois, o
alvo.
CZ: Uma porta CZ entre os dois q-bits ´e escrita como:
|Ψ1i • |Ψ1CZi
|Ψ2i • |Ψ2CZi
Diferente do caso do CX, agora ambos os q-bits podem ser vistos como
controla-dores, j´a o ´unico estado da base que a porta modificar´a ´e |11i.
Medidas: Uma medida na base formada pelos autoestados do operador Q no primeiro q-bit ´e escrita como:
|Ψ1i Q
13 Portas controladas por medidas: Por fim, existem portas cuja aplica¸c˜ao est´a sujeita ao resultado de uma medida realizada anteriormente. Se o resultado for 0 a porta n˜ao ser´a aplicada e, se for 1, ser´a. Esse processo ´e chamado de feed-forward e ser´a fundamental para a computa¸c˜ao quˆantica baseada em medidas.
A aplica¸c˜ao da porta Q2 no segundo q-bit controlada pela medida na base dos
autoestados de Q1 do primeiro q-bit ´e escrita como:
|Ψ1i Q1
|Ψ2i Q2 |Ψ02i
2.4.1
Computa¸
c˜
ao Quˆ
antica Universal
Um conjunto de portas l´ogicas quˆanticas ´e dito universal se com um circuito for-mado apenas por essas portas ´e poss´ıvel realizar, com precis˜ao arbitr´aria, qualquer ope-ra¸c˜ao unit´aria. Todas as portas de um q-bit e a porta CX, por exemplo, formam um
conjunto universal. Tamb´em existem conjuntos discretos de portas universais, por exem-plo, o formado pelas portas H, S, T e CX [2].
Um outro conjunto universal ´e o formado por portas do tipo HU (θ) unidas a uma porta de dois q-bits, como CX ou CZ. Para mostrarmos isso, basta replicar as portas H,
S e T atrav´es de portas do tipo HU (θ). A porta H ´e simplesmente H1, ou seja, HU (0). J´a as outras duas, podem ser escritas, a menos de uma fase, na forma U (θ), ou seja, HU (0)HU (θ), visto que que HH = 1:
S = 1 0 0 i = ei π 4 e−iπ4 0 0 eiπ4 = ei π 4U (−π/2) ; (2.15) T = 1 0 0 eiπ4 = ei π 8 e−iπ8 0 0 eiπ8 = ei π 8U (−π/4) . (2.16)
2.5
Algoritmo de Deutsch
Com os circuitos quˆanticos j´a expostos, ´e v´alido exibir, tamb´em, um algoritmo simples. O algoritmo de Deutsch ser´a mostrado na forma como foi apresentado em [2].
Consideremos uma fun¸c˜ao f (x): {0, 1} → {0, 1}. Ela pode ser uma das quatro fun¸c˜oes a seguir: 1. f (0) = 0 e f (1) = 0 2. f (0) = 1 e f (1) = 1 3. f (0) = 0 e f (1) = 1 4. f (0) = 1 e f (1) = 0
Nos dois primeiros casos, diremos que a fun¸c˜ao ´e constante (f (0) = f (1)). J´a nos dois ´ultimos, diremos que ´e balanceada (f (0) 6= f (1)).
Suponhamos que algu´em monte um circuito quˆantico que aplique uma das fun¸c˜oes, sem que possamos, de in´ıcio, saber qual ´e. A aplica¸c˜ao da fun¸c˜ao ´e feita da seguinte forma:
|xi
Uf
|yi |y ⊕ f (x)i
onde o s´ımbolo ⊕ representa uma soma m´odulo 2.
No caso em que y = 0, o output no segundo q-bit ´e simplesmente |f (x)i de forma que, para saber o valor de f (x), basta medir o segundo q-bit na base computacional.
Como n˜ao sabemos, a priori, qual das fun¸c˜oes est´a sendo aplicada, o conte´udo da porta Uf ´e desconhecido. Por isso, dizemos que ela ´e uma caixa preta, ou um or´aculo.
Suponhamos, agora, que queiramos descobrir se a fun¸c˜ao aplicada ´e constante ou balance-ada. Para isso, classicamente, precisar´ıamos calcular f (0) e f (1), ou seja, seria necess´ario calcular o valor da fun¸c˜ao duas vezes, uma para cada estado da base. O algoritmo de Deutsch ´e a forma como, na computa¸c˜ao quˆantica, ´e poss´ıvel resolver o problema com um ´
unico uso do or´aculo.
Os circuitos que representam cada uma das fun¸c˜oes citadas anteriormente ser´a apresentado a seguir. Ser´a indicada, tamb´em, suas aplica¸c˜oes aos estados iniciais |00i e |10i.
Caso 1: f (0) = 0 e f (1) = 0 :
|xi
15
Input Output no segundo q-bit
|00i |0i |10i |0i Tabela 2.8: Caso 1 Caso 2: f (0) = 1 e f (1) = 1 : |xi |yi X |y ⊕ f (x)i
Input Output no segundo q-bit
|00i |1i |10i |1i Tabela 2.9: Caso 2 Caso 3: f (0) = 0 e f (1) = 1 : |xi • |yi |y ⊕ f (x)i
Input Output no segundo q-bit
|00i |0i
|10i |1i
Tabela 2.10: Caso 3
Caso 4: f (0) = 1 e f (1) = 0 :
|xi •
|yi X |y ⊕ f (x)i
Input Output no segundo q-bit
|00i |1i
|10i |0i
Tabela 2.11: Caso 4
O circuito que representa o algoritmo de Deutsch ser´a apresentado a seguir:
|0i H
Uf
H |Ψ1i
|1i H |Ψ2i
Primeiro, a atua¸c˜ao da porta H em ambos os q-bits leva o estado |01i no estado:
|+−i = |0i + |1i√ 2
|0i − |1i √
2
= (|00i − |01i + |10i − |11i)
2 .
Ap´os passar pela caixa preta, o novo estado ´e:
Uf|+−i =
|0i |f (0)i − |0i |(f (0) ⊕ 1)i + |1i |f (1)i − |1i |f (1) ⊕ 1i
2 . (2.17)
Se a fun¸c˜ao ´e constante (f (0) = f (1)), a equa¸c˜ao 2.17 pode ser escrita como:
Uf |+−i =
|+i (|f (0)i − |f (0) ⊕ 1i) √
2 . (2.18)
J´a se a fun¸c˜ao ´e balanceada (f (0) 6= f (1)), a equa¸c˜ao 2.17 se resume a:
Uf|+−i =
|−i (|f (0)i − |f (0) ⊕ 1i) √
2 . (2.19)
Ap´os aplicar a porta H1, o estado final ´e:
|Ψ1i |Ψ2i =
|0i(|f (0)i−|f (0)⊕1i)√
2 , sef (0) = f (1) |1i(|f (0)i−|f (0)⊕1i)√
2 , sef (0) 6= f (1)
17 Assim, basta medir o primeiro q-bit na base computacional. Se o resultado for 0, sabe-se que a fun¸c˜ao ´e constante e, se for 1, sabe-se que ´e balanceada.
N˜ao ´e poss´ıvel, fazendo uma aplica¸c˜ao do algoritmo de Deutsch, saber a qual dos quatro casos a caixa preta pertence. Ainda assim, o fato de ser poss´ıvel descobrir uma informa¸c˜ao sobre a atua¸c˜ao da fun¸c˜ao em ambos os estados da base a partir de uma ´unica aplica¸c˜ao j´a ´e uma conquista impressionante da computa¸c˜ao quˆantica.
2.6
Teletransporte Quˆ
antico
At´e o momento, a computa¸c˜ao quˆantica foi apresentada como uma sequˆencia de operadores unit´arios realizada em um estado inicial, seguida por medidas ao fim do pro-cesso, que serviam apenas para que se conhecesse o resultado final. O algoritmo de teletransporte, que ser´a apresentado a seguir, demonstra como as medidas podem ser integradas ao processo, tendo outras fun¸c˜oes al´em de apresentar o resultado final.
O teletransporte quˆantico, como mostrando em [2], consiste em transportar um estado |Ψi de um local para outro, sem que seja necess´ario algum tipo de intera¸c˜ao quˆantica direta entre o lugar de partida e o de chegada, e ainda sem que se precise conhecer o estado |Ψi.
Suponhamos que uma pesquisadora, que chamaremos de Alice, queira enviar o estado |Ψi, definido pela equa¸c˜ao (2.1), para seu colega, que chamaremos de Bob, que se encontra em um laborat´orio distante.
Para que o procedimento possa ser realizado eles devem, inicialmente, compartilhar de um estado de Bell, que pode ser gerado da forma mostrada na equa¸c˜ao 2.12 . No caso, ser´a o estado |β00i. Alice estar´a com o primeiro q-bit do par e Bob, com o segundo. O
circuito abaixo apresenta o restante do processo. O ´ultimo q-bit estar´a com Bob e os dois primeiros, com Alice.
|Ψi • H Z Z X Z |Ψi |β00i
Chamaremos o estado inicial formado pelos trˆes q-bits de |Ψai. |Ψai = α |0i1 |00i23+ |11i23 √ 2 + β |1i1 |00i23+ |11i23 √ 2 . (2.21)
Quando Alice decidir transportar o estado |Ψ1i, dever´a, primeiro, atuar a porta
CX 12 em |Ψai. Isso equivale a fazer um CX controlado pelo primeiro q-bit, tendo como
alvo o segundo, e n˜ao alterar o terceiro.
|Ψbi = CX 12|Ψai = α |0i1 |00i23+ |11i23 √ 2 + β |1i1 |10i23+ |01i23 √ 2 . (2.22)
Com a aplica¸c˜ao de H1, o novo estado ´e:
|Ψci = |0i1 α|00i23√+ |11i23 2 + β |10i23+ |01i23 √ 2 +|1i1 α|00i23√+ |11i23 2 − β |10i23+ |01i23 √ 2 . (2.23)
Alice deve, ent˜ao, medir os q-bits que se encontram com ela na base de Z. Como os q-bits est˜ao em um estado emaranhado, conhecendo o resultado da medida dos dois primeiros, j´a ´e poss´ıvel saber em qual estado se encontra o terceiro, como mostra a tabela 2.12, onde a primeira medida foi feita no q-bit 1 e a segunda, no 2.
Resultado da 1ª medida Resultado da 2ª medida Estado do 3.º q-bit
0 0 α |0i + β |1i
0 1 α |1i + β |0i
1 0 α |0i − β |1i
1 1 α |1i − β |0i
Tabela 2.12: Resultado das medidas do circuito de teletransporte
Alice dever´a dizer para Bob, atrav´es de um canal cl´assico de comunica¸c˜ao, quais foram os resultados de suas medidas, para que ele saiba que modifica¸c˜oes fazer no terceiro q-bit.
Assim, se o resultado de ambas as medidas for 0, o terceiro q-bit j´a estar´a no estado |Ψi e nenhuma modifica¸c˜ao ser´a necess´aria. Se o primeiro for 0 e o segundo 1, Bob dever´a aplicar a porta X em seu q-bit. Se o primeiro for 1 e o segundo for 0, Bob dever´a aplicar a porta Z. Por fim, se ambos os resultados forem 1, ele deve aplicar a porta X, seguida pela porta Z. Assim, mesmo que o resultado das medidas seja aleat´orio, a aplica¸c˜ao das portas controladas faz com que o q-bit que ele guarda sempre termine o processo no estado |Ψi. O teletransporte quˆantico, j´a realizado experimentalmente [9], ´e mais um dos feitos
19 impressionantes da computa¸c˜ao quˆantica. Uma outra forma de realizar o teletransporte servir´a de base para se fazer computa¸c˜ao quˆantica baseada em medidas, como veremos a seguir.
Cap´ıtulo 3
Computa¸
c˜
ao Quˆ
antica Baseada em
Medidas
3.1
One-Way Quantum Computation
Na Computa¸c˜ao Quˆantica Baseada em Medidas (CQBM), as altera¸c˜oes nos estados dos q-bits, antes feitas atrav´es de portas l´ogicas, ser˜ao feitas atrav´es de medidas. Isso per-mite tanto a gera¸c˜ao de novos conhecimentos te´oricos sobre como funciona a computa¸c˜ao quˆantica, como tamb´em novas possibilidades de realiz´a-la experimentalmente.
O modelo para CQBM que ser´a apresentado nesse trabalho foi desenvolvido por R. Raussendorf e H. Briegel [11] e ´e chamado de One-Way Quantum Computation (1WQC). Ele consiste na prepara¸c˜ao de um estado emaranhado de muitos q-bits, que ser´a chamado de estado cluster, seguida da realiza¸c˜ao de medidas locais, ou seja, feitas cada uma em um q-bit, nas bases dos autoestados de Z ({|0i , |1i}) ou de R(θ) ({|θ+i , |θ−i}), onde
|θ+i = {√12(|0i + eiθ|1i e |θ−i = √12(|0i − eiθ|1i). Essas medidas ser˜ao adaptativas, o que
significa que a base em que elas ser˜ao feitas depender´a do resultado de medidas anteriores. O nome One-Way Quantum Computation vem da ideia de que, conforme as me-didas, que s˜ao irrevers´ıveis, s˜ao realizadas, o estado emaranhado inicial ´e destru´ıdo.
3.2
Estados Clusters e Grafos
Os estados clusters, como mencionado anteriormente, s˜ao os estados emaranhados de muitos q-bits que funcionam como substrato para a 1WQC. Sua prepara¸c˜ao consiste
21 na atua¸c˜ao de portas CZ em q-bits no estado |+i. Como essas portas comutam entre
si, n˜ao faz diferen¸ca a ordem em que s˜ao aplicadas. A execu¸c˜ao dessas portas pode ser feita atrav´es de uma intera¸c˜ao de Ising entre primeiros vizinhos por um certo per´ıodo do tempo, a menos de uma corre¸c˜ao com operadores locais [11].
Para representar esses estados emaranhados de muitos q-bits, muitas vezes s˜ao usados grafos. Um grafo ´e um par de conjuntos G = (V, E), onde V ´e um conjunto de v´ertices e E o de arestas que ligam alguns desses v´ertices [3], como os das figuras 3.1 e 3.2. No caso, cada v´ertice representa um q-bit no estado |+i, enquanto cada aresta representa um CZ entre os pontos ligados por ela. Estados que podem ser representados dessa forma
s˜ao chamados de estados grafos.
Figura 3.1: Grafos referentes `as redes hexagonal, quadrada e triangular.
Figura 3.2: Grafo referente a um estado montado linearmente.
Nem todos os estados grafos possibilitam fazer computa¸c˜ao quˆantica universal. Estados montados linearmente, como o da figura 3.2, por exemplo, podem ser simulados eficientemente por um computador cl´assico [7] e, portanto, n˜ao s˜ao universais. Alguns dos estados grafos que s˜ao recursos para computa¸c˜ao quˆantica universal s˜ao os que formam a rede quadrada, a triangular e a hexagonal [1], como os da figura 3.1.
3.3
Medidas em Z
Enquanto as medidas em R(θ) s˜ao respons´aveis por fazer a computa¸c˜ao propria-mente dita, como mostraremos na pr´oxima se¸c˜ao, as medidas em Z servem para retirar um q-bit de um cluster. Na se¸c˜ao anterior, mostramos alguns dos estados grafos que podem ser recursos para uma 1WQC universal. Isso n˜ao significa que, para executar um algoritmo espec´ıfico, todos os q-bits do cluster s˜ao usados. Na verdade, muitos n˜ao o s˜ao, e as medidas em Z servem, justamente, para retirar do cluster os q-bits desnecess´arios para aquela tarefa.
Para entender o processo, faremos um exemplo. Consideremos o estado cluster |Φi criado da seguinte forma:
|+i •
|+i • •
|+i •
|Φi = CZ 12CZ 23|+ + +i =
1
2√2(|000i + |001i + |010i + |100i + |101i − |011i − |110i + |111i) . (3.1)
Caso o terceiro q-bit seja retirado, o novo estado ser´a dado por:
|+i •
|+i •
CZ|++i =
1
2(|00i + |01i + |10i − |11i) . (3.2)
Para chegar no resultado buscado, primeiro mediremos o terceiro q-bit na base dos autoestados de Z. Podemos escrever |Φi assim:
|Φi = 1
2√2[(|00i + |01i + |10i − |11i)12|0i3+ (|00i − |01i + |10i + |11i)12|1i3] . (3.3) Caso o resultado da medida do terceiro q-bit seja 0, os dois primeiros q-bits estar˜ao no estado
1
2(|00i + |01i + |10i − |11i) = CZ|++i .
J´a o se o resultado for 1, os dois primeiros q-bits estar˜ao no estado 1
23 que pode ser levado ao estado CZ|++i com a atua¸c˜ao da porta Z2 ou da porta X1.
Isso significa que fazer uma medida em Z e um determinado q-bit retira-o dretira-o cluster, intrretira-oduzindretira-o um errretira-o nretira-os retira-outrretira-os q-bits que pretira-ode ser cretira-orrigidretira-o com um operador X ou Z. Essa corre¸c˜ao deve ser inclu´ıda na base em que ser˜ao realizadas as medidas seguintes, como ser´a mostrado na se¸c˜ao posterior. Nessa monografia, podemos assumir que os estados grafos usados s˜ao universais, de forma que, a partir deles, possa-se chegar a qualquer outro atrav´es de medidas em Z. O cluster, ap´os preparado, s´o pode ser usado uma vez. A computa¸c˜ao, feita atrav´es de medidas, destruir´a o estado emaranhado ao longo de sua realiza¸c˜ao. Os q-bits colapsam para um autoestado do observ´avel medido e n˜ao mais guardam alguma informa¸c˜ao, de forma que esta passa para os q-bits que ainda n˜ao foram medidos, como indicado na imagem abaixo. Nela, simboliza as medidas em Z, as setas verticais simbolizam as medidas em X e as setas inclinadas indicam medidas em bases do tipo R(θ).
Figura 3.3: Destrui¸c˜ao do Cluster- Figura retirada de [11]
Quando a base em que certas medidas s˜ao realizadas n˜ao depende do resultado de outras, elas podem ser realizadas ao mesmo tempo. Assim, ao longo da computa¸c˜ao, existir˜ao conjuntos de medidas que podem ser realizadas ao mesmo tempo, de forma que a computa¸c˜ao seja feita a partir de ”camadas”de medidas.
3.4
Universalidade da One-Way Quantum
Compu-tation
At´e o momento, discutimos a cria¸c˜ao do substrato para a computa¸c˜ao, ou seja, do estado emaranhado inicial. Agora, entenderemos como realizar um conjunto universal de portas atrav´es da 1WQC. Para isso, traduziremos os elementos de um conjunto universal apresentado na se¸c˜ao 2.4.1 para esse modelo. Para motivar essa tradu¸c˜ao, partiremos de um circuito simples e o modificaremos aos poucos, at´e chegar a um algoritmo de 1WQC, como feito em [6]. Ou seja, queremos ter, no final, apenas um estado inicial, emaranhado atrav´es de portas CZ, e medidas nas bases Z e R(θ).
O circuito em quest˜ao est´a representado abaixo. Ele realiza um processo seme-lhante ao de teletransporte: leva um certo estado |Ψi de um q-bit para outro, sem que seja necess´ario conhecer esse estado. A principal diferen¸ca ´e que, enquanto no circuito de teletransporte apresentado anteriormente, n˜ao havia intera¸c˜ao direta entre o q-bit que inicialmente carregava o estado |Ψi e o q-bit para onde ele deveria ser transportado, neste circuito, h´a.
|Ψi • X
|0i Z |Ψi
O estado inicial ´e:
|Ψ1i = |Ψi |0i = α |00i + β |10i . (3.4)
O objetivo ´e fazer com que o segundo q-bit esteja no estado |Ψi. A aplica¸c˜ao da porta CX 12 levar´a a:
|Ψ2i = CX 12|Ψi |0i = α |00i + β |11i . (3.5)
Como a medida ser´a na base dos autoestados de X, escreveremos o estado acima nessa base: |Ψ2i = |+i α |0i + β |1i √ 2
+ |−i α |0i − β |1i√ 2
. (3.6)
25 α |0i + β |1i, que ´e justamente o estado |Ψi.
J´a se o resultado for 1, o segundo q-bit estar´a no estado α |0i − β |1i. Com a aplica¸c˜ao da porta Z2, o estado final ser´a α |0i + β |1i = |Ψi.
Aplicar CX 12 a um estado qualquer de dois q-bits, como mostrado anteriormente,
equivale a aplicar H2CZH2.
Portanto, esse circuito de teletransporte tamb´em pode ser escrito como:
|Ψi • X
|+i • H Z |Ψi
Onde a primeira porta H foi agregada ao estado inicial do segundo q-bit, levando-o de |0i para |+i.
Por sua vez, ZH pode ser substitu´ıdo por HX, o que se torna vis´ıvel quando comparamos a atua¸c˜ao de ambos os conjuntos de portas em um estado qualquer |Ψi.
ZH |Ψi = Z α √ 2(|0i + |1i) + β √ 2(|0i − |1i = √β 2(|0i + |1i) + α √ 2(|0i − |1i) (3.7) e
HX |Ψi = H(β |0i + α |1i) = √β
2(|0i + |1i) + α √
2(|0i − |1i) = ZH |Ψi . (3.8) Assim, podemos reescrever o circuito anterior como:
|Ψi • X
|+i • X H |Ψi
´
E poss´ıvel, tamb´em, aplicar uma porta l´ogica Q qualquer no estado |Ψi antes de realizar o teletransporte, como no circuito abaixo:
|Ψi Q • X
|+i • X H Q |Ψi
seja, queremos transportar o estado U (θ) |Ψi. Como U (θ)1 ´e uma matriz diagonal na base
computacional, comuta com CZ, que tamb´em ´e diagonal. Logo, o circuito que transporta
U (θ) |Ψi ´e:
|Ψi • U (θ) X
|+i • X H U (θ) |Ψi
Note agora que U (θ) |Ψi = αeiθ2 |0i + βe −iθ
2 |1i, a menos de uma fase global, ´e:
U (θ) |Ψi = α |0i + e−iθβ |1i . (3.9)
Como a medida ´e feita na base dos autovetores de X, ser´a ´util escrever U (θ) |Ψi em termos de |+i e |−i:
U (θ) |Ψi = α√1 2(|+i+|−i)+e −iθ β√1 2(|+i−|−i) = 1 √ 2[|+i (α+e −iθ
β)+|−i (α−e−iθβ)] . (3.10) O resultado da medida poder´a ser, ent˜ao, 0, com probabilidade 12|α + e−iθβ|2, ou
1, com probabilidade 12|α − e−iθβ|2.
Consideremos, por outro lado, o operador R(θ), definido na se¸c˜ao 2.2.1. Seus autoestados s˜ao: |θ+i = √12(|0i + eiθ|1i) e |θ−i = √12(|0i − eiθ|1i).
O estado |Ψi escrito em fun¸c˜ao de |θ+i e |θ−i ´e:
|Ψi = √1 2|θ+i (α + e −iθ β) + |θ−i (α − e−iθβ) . (3.11)
Assim, caso me¸ca-se |Ψi na base formada por {|θ+i , |θ−i}, pode-se obter 0, com
probabilidade 12|α + e−iθβ|2, ou 1, com probabilidade 1 2|α − e
−iθβ|2. Isso significa que
fazer uma medida na base dos autoestados de R(θ) ´e o mesmo que aplicar a porta U (θ) em um q-bit e ent˜ao medi-lo na base dos autoestados de X. Portanto, podemos reescrever o circuito acima na forma:
|Ψi • R(θ)
|+i • X HU (θ) |Ψi
Temos, assim, um circuito que aplica o operador HU (θ) a um estado arbitr´ario de um q-bit.
27 Inicialmente, temos o estado |Ψai = |Ψi1|+i2 = (α |0i1 + β |1i1)
|0i
2√+|1i2
2
. Com a aplica¸c˜ao de CZ, o novo estado ´e:
|Ψbi = CZ|Ψai = α |0i1
|0i2+ |1i2 √
2
+ β |1i1 |0i2√− |1i2 2 , (3.12) |Ψbi = 1 √ 2|θ+i1(α |+i2+ βe −iθ|−i 2) + |θ−i1(α |+i2− βe −iθ|−i 2) . (3.13)
Assim, caso o resultado da medida no primeiro q-bit seja 1, o segundo estar´a no estado α |+i + βe−iθ|−i = HU (θ) |Ψi. Caso seja 1, o estado do segundo q-bit ser´a α |+i − βe−iθ|−i que, com a aplica¸c˜ao da porta X, se torna HU (θ) |Ψi.
Se quisermos aplicar um segmento de duas portas da forma HU (θ2)HU (θ1),
pode-mos concatenar dois circuitos como o anterior.
|Ψi • R(θ1)
|+i • X • R(θ2)
|+i • X HU (θ2)HU (θ1) |Ψi
A segunda porta CZ pode ser aplicada antes da primeira medida se usarmos a
pro-priedade: CZX1 = X1Z2CZ. Veremos isso comparando a atua¸c˜ao de ambos os conjuntos
de portas no estado |φi = α |00i + β |01i + γ |10i + δ |11i.
CZX1|φi = CZ(γ |00i + δ |01i + α |10i + β |11i) (3.14)
= γ |00i + δ |01i + α |10i − β |11i (3.15)
e
X1Z2CZ|φi = X1Z2(α |00i + β |01i + γ |10i − δ |11i) (3.16)
= γ |00i + δ |01i + α |10i − β |11i = CZX1|φi . (3.17)
O circuito anterior pode ser escrito como:
|Ψi • R(θ1)
|+i • • X R(θ2)
Sabemos que X |Ψi = β |0i + α |1i. Na base formada por {|θ+, θ−i}, X |Ψi = √1 2|θ+i (β + e −iθα) + |θ −i (β − e−iθα) . (3.18)
Assim, caso um q-bit no estado acima seja medido na base dos autoestados de R(θ), o resultado pode ser 0, com probabilidade 12|β + e−iθα|2, ou 1, com probabilidade 1
2|β − e −iθα|2.
Agora, escreveremos |Ψi como combina¸c˜ao linear dos autovetores de R(−θ), sendo eles |−θ+i =
|0i+e−iθ|1i
√
2 e |−θ−i =
|0i−e−iθ|1i
√ 2 . |Ψi = √1 2|−θ+i (α + e iθβ) + |−θ −i (α − eiθβ) . (3.19)
Ent˜ao, a menos de uma fase global,
|Ψi = √1 2|−θ+i (β + e −iθ α) + |−θ−i (β − e−iθα) . (3.20)
Caso um q-bit no estado |Ψi seja medido da base dos autoestados de R(−θ), o resul-tado poder´a ser 0, com probabilidade 12|β + e−iθα|2, ou 1, com probabilidade 1
2|β − e −iθα|2.
Ou seja, aplicar a porta X a um q-bit e medi-lo na base dos autovetores de R(θ) ´e o mesmo que simplesmente medi-lo na base formada pelos autoestados de R(−θ). Portanto, podemos reescrever o circuito anterior como:
|Ψi • R(θ1) •
|+i • • R(±θ2) •
|+i • Z X HU (θ2)HU (θ1) |Ψi
Onde R(±θ2) indica que a medida ser´a feita na base R(θ2) se o resultado da
primeira medida for 0 e R(−θ2), se o resultado for 1. Uma outra forma de entender isso
´e dizer que a medida ser´a feita na base R[(−1)m1θ
2], onde m1 ´e o resultado da primeira
medida.
A computa¸c˜ao continuaria com uma medida no terceiro q-bit. Ela poderia ser feita na base formada pelos autoestados de R(θ3). Como mostrado anteriormente, aplicar a
porta X e ent˜ao medir o q-bit nessa base seria o mesmo que fazer a medida na base R(−θ3). Precisamos, agora, saber de que forma a porta Z altera a medida.Temos:
29
Z |Ψi = α |0i − β |1i = √1
2[|θ+i (α − βe
−iθ
) + |θ−i (α + βe−iθ)] . (3.21)
Ou seja, o resultado da medida pode ser 0, com probabilidade |α−βe−iθ|2, ou 1, com
probabilidade, |α+βe−iθ|2. Isso significa que atuar o operador Z em um q-bit e ent˜ao
medi-lo em R(θ) ´e o mesmo que medi-lo na base dos autoestados de −R(θ). Para entender isso, basta notar que |θ−i ´e o autovetor associado ao autovalor 1 de −R(θ)
e |θ+i ´e autovetor associado ao autovalor −1 desse operador. Como −R(θ) = R(π + θ),
uma medida nessa base mant´em a forma que buscamos.
Como mostrado na se¸c˜ao 2.4.1, o conjunto formado pelas portas CZ e HU (θ)
´e universal. Qualquer porta CZ que devesse ser aplicada ao longo do processo para a
computa¸c˜ao desejada pode ser levada para o in´ıcio, como feito na p´agina 27.
H´a uma outra fun¸c˜ao das medidas em Z que ainda n˜ao foi apresentada: sua apli-ca¸c˜ao ao fim do processo, resultando no outcome final da computa¸c˜ao. Essa medida n˜ao precisa ser adaptativa, visto que uma reinterpreta¸c˜ao do resultado ´e suficiente para corrigi-la. Por exemplo, suponhamos que as corre¸c˜oes que que devessem ser feitas no q-bit sejam Xm1Zm2, onde m
1 e m2 s˜ao resultados de medidas anteriores. A porta Z n˜ao
modificaria o resultado final, j´a que ela n˜ao altera a probabilidade de se obter 0 ou 1 para uma medida na base dos autoestados de Z. J´a a porta X equivaleria a fazer a opera¸c˜ao ⊕1 no resultado da medida final, onde o s´ımbolo ⊕ significa uma soma m´odulo 2. Ou seja, se o resultado da medida for mz, o valor que deve ser considerado ´e mz⊕ m1. Assim,
a medida que leva ao resultado final, por n˜ao ser adaptativa, pode ser feita inicialmente, antes mesmo do come¸co da computa¸c˜ao propriamente dita, bastando que se reinterprete o resultado com base nas medidas posteriores [5].
3.5
Implementando a Porta C
XPara exemplificar como implementar uma porta de dois q-bits atrav´es da 1WQC, mostraremos a execu¸c˜ao da porta CX. A porta ter´a como alvo um q-bit no estado |Ψ1i e
como controle um no estado |Ψ2i. Como CX 21 = H1CZ 21H1, o que buscamos reproduzir
´e:
|Ψ1i H • H
Primeiramente, aplica-se a porta H ao q-bit alvo. Isso equivale a fazer o processo apresentado no cap´ıtulo anterior para U (θ) = 1, ou seja, θ = 0. Para isso, precisaremos de um q-bit auxiliar, como mostrado abaixo:
|Ψ1i • X
|+i • X H |Ψ1i
|Ψ2i
O pr´oximo passo ´e aplicar CZ entre o segundo q-bit e terceiro, que ´e o controle
de CX. Essa porta pode ser levada para o come¸co do processo se for acrescentada uma
porta Z no terceiro q-bit, controlada pelo resultado da medida, como feito na p´agina 27. Assim, temos:
|Ψ1i • X
|+i • • X
|Ψ2i • Z
Por fim, deve-se novamente aplicar H ao alvo, usando outro q-bit auxiliar. Assim, enquanto a entrada do alvo ´e o primeiro q-bit, a sa´ıda ´e o terceiro.
|Ψ1i • X
|+i • • X • X
|+i • X
|Ψ2i • Z
A porta CZ entre o segundo e o terceiro q-bit pode ser levada para antes da primeira
medida, acrescentando uma porta Z no terceiro q-bit, controlada por essa medida. J´a a porta X do segundo q-bit pode ser inclu´ıda como uma corre¸c˜ao `a medida que ser´a realizada nele. Como essa medida j´a ´e feita na base dos autoestados de X, a corre¸c˜ao n˜ao a modificar´a. Assim, o circuito fica:
|Ψ1i • X
|+i • • • X
|+i • Z X
31 O esquema abaixo representa esse processo. Nele, os c´ırculos simbolizam os q-bits, as linhas, uma porta CZ entre os q-bits que elas ligam e as setas para cima indicam uma
medida na base dos autoestados de X.
Figura 3.4: Aplica¸c˜ao de CX- Figura retirada de [11].
Podemos testar se o processo descrito realmente aplica CX. Para isso, consideremos
|Ψ1i = α |0i + β |1i e |Ψ2i = γ |0i + δ |1i. A atua¸c˜ao da porta CX no primeiro q-bit,
controlada pelo segundo, ´e:
|Θi = CX 21= αγ |00i + βδ |01i + βγ |10i + αδ |11i . (3.22)
O primeiro q-bit recebe o estado |Ψ1i, que ser´a o alvo, enquanto o quarto q-bit
recebe o controle, |Ψ2i. O segundo e o terceiro q-bit, inicialmente, est˜ao no estado |+i.
Ao fim do processo, o terceiro e o quarto q-bit dever˜ao estar no estado |Θi. Como mostrado no esquema, o estado emaranhado inicial ser´a:
CZ 12CZ 23CZ 24(|Ψ1i |+i |+i |Ψ2i) =
1
2[ |+i1|+i2(αγ |00i + βδ |01i + βγ |10i + αδ |11i)34+ |+i1|−i2(αγ |10i + βδ |11i + βγ |00i + αδ |01i)34+
|−i1|+i2(αγ |00i − βδ |01i − βγ |10i + αδ |11i)34+
|−i1|−i2(αγ |10i − βδ |11i − βγ |00i + αδ |01i)34] . (3.23)
Os dois primeiros q-bits devem ser medidos na base dos autoestados de X. Se o resultado das duas medidas for 0, o terceiro e o quarto q-bits est˜ao no estado
αγ |00i + βδ |01i + βγ |10i + αδ |11i = |Θi .
est˜ao no estado
αγ |10i + βδ |11i + βγ |00i + αδ |01i , que pode ser levado a |Θi com a aplica¸c˜ao da porta X3.
Se o resultado da primeira medida for 1 e o da segunda for 0, o estado dos ´ultimos q-bits ´e
αγ |00i − βδ |01i − βγ |10i + αδ |11i , que pode ser levado a |Θi com a aplica¸c˜ao de Z3Z4.
Por fim, se ambos os resultados forem 1, o estado dos ´ultimos q-bits ´e
αγ |10i − βδ |11i − βγ |00i + αδ |01i ,
que pode ser levado a |Θi com a aplica¸c˜ao de X3, seguida por Z3Z4.
Em resumo, ap´os as medidas, a corre¸c˜ao a ser feita ´e (Z3Z4)m1X3m2, onde m1 e
m2 s˜ao os resultados das medidas do primeiro e do segundo q-bit, respectivamente. Essas
corre¸c˜oes devem ser inclu´ıdas nas medidas realizadas posteriormente.
3.6
Algoritmo de Deutsch
O algoritmo de Deutsch, em sua vers˜ao no modelo de circuitos foi apresentado na se¸c˜ao 2.5. Discutiremos, agora, sua aplica¸c˜ao em 1WQC.
Primeiro, veremos como calcular f (x) em 1WQC. Uma proposta inicial seria sim-plesmente adaptar os circuitos apresentados na se¸c˜ao 2.5 `a 1WQC usando as tradu¸c˜oes vistas acima. No caso 1 (f (0) = f (1) = 0), a porta aplicada ´e a Identidade. J´a no caso 3 (f (0) = 0 e f (1) = 1), a porta ´e CX, cuja forma em 1WQC foi mostrada na se¸c˜ao
3.5. Os casos 2 (f (0) = f (1) = 1) e 4 (f (0) = 1 e f (1) = 0) s˜ao semelhantes aos casos 1 e 3, respectivamente, com a diferen¸ca de que h´a a aplica¸c˜ao da porta X no primeiro q-bit. Os circuitos abaixo representam esses processos, mas ainda n˜ao se enquadram em 1WQC. Neles, o ´ultimo q-bit deve estar no estado |xi, que guarda o argumento da fun¸c˜ao, enquanto o primeiro tem como entrada |yi.
Caso 1:
|yi |y ⊕ f (x)i
33 Caso 2: |yi X |y ⊕ f (x)i |xi Caso 3: |yi • X |+i • • • X |+i • Z X |y ⊕ f (x)i |xi • Z Caso 4: |yi • X |+i • • • X |+i • Z X X |y ⊕ f (x)i |xi • Z
Como CX e X comutam, o caso 4 tamb´em pode ser escrito como:
|yi X • X
|+i • • • X
|+i • Z X |y ⊕ f (x)i
|xi • Z
Caso queiramos saber o valor de f (0) (ou de f (1)), devemos realizar o circuito que nos d´a a fun¸c˜ao em quest˜ao, com |xi = |0i (ou |xi = |1i). Fazendo |yi = |0i, o output ser´a simplesmente |f (x)i e basta medir o q-bit respons´avel por essa sa´ıda (o primeiro nos casos 1 e 2 e o terceiro nos casos 3 e 4) na base dos autoestados de Z para saber o valor de f (x). As portas de um q-bit dos circuitos acima podem ser inclu´ıdas nessas medidas em Z. A porta Z, por exemplo, n˜ao altera a medida, enquanto a porta X faz com que a medida seja na base −Z, o que equivale a uma medida em Z com uma reinterpreta¸c˜ao
do resultado: caso ele seja 0, o valor considerado deve ser 1, e vice-versa.
No segundo circuito apresentado para o caso 4 podemos, assim como na p´agina 27, passar a porta X do primeiro q-bit para depois do CZ. Com isso, aparecer´a uma porta
Z no segundo q-bit, que pode ser inclu´ıda na medida, como visto na p´agina 3.4, fazendo com que ela seja na base dos autoestados de −X. J´a a porta X no primeiro q-bit n˜ao altera a medida, tamb´em em X, que ´e feita nele e, por isso, pode ser ignorada. Al´em disso, como o quarto q-bit n˜ao precisa ser medido, tamb´em n˜ao ´e necess´ario aplicar nele a porta Z nos casos 3 e 4. Assim, para descobrir o valor de f (x), fazemos:
Caso 1: |0i Z |xi Caso 2: |0i −Z |xi Caso 3: |0i • X |+i • • • X |+i • ±Z |xi • Caso 4: |0i • X |+i • • • −X |+i • ±Z |xi • ´
E ´util, para nossos prop´ositos mais abaixo, fazer com que os quatro casos sejam implementados de formas mais semelhantes. Algumas das principais diferen¸cas s˜ao o n´ u-mero de q-bits e o fato de que, nos dois primeiros casos, o q-bit de entrada e de sa´ıda ´e o mesmo, enquanto, nos dois ´ultimos casos, isso n˜ao acontece. Para resolver isso, nos caso 1 e 2, podemos alterar a forma como ´e realizada a porta Identidade. Considerando que HH = 1, podemos aplicar a identidade atrav´es da aplica¸c˜ao consecutiva de duas portas
35 H. Faremos o processo descrito no circuito da 28, mas com U (θ1) = U (θ2) = 1, ou seja,
com as duas medidas feitas na base X. Na p´agina 28, vemos que a medida no segundo q-bit pode ser na base dos autoestados de R(θ) ou de R(−θ), dependendo do resultado da medida do primeiro. Aqui, isso n˜ao far´a diferen¸ca, pois X = R(0). No caso 2, ainda ter´a a porta X, que pode ser aplicada antes ou depois da identidade. Assim como fizemos no caso 4, agora, a porta X realizada antes do CZ pode ser levada para depois dele, de forma
com que a medida no segundo q-bit seja na base dos autoestados de −X. Assim, teremos:
Caso 1: |0i • X |+i • • X |+i • ±Z |xi Caso 2: |0i • X |+i • • −X |+i • ±Z |xi
Dessa forma, os q-bits de entrada e sa´ıda dos quatro casos s˜ao os mesmos. Para saber o valor de f (x), o processo ´e o mesmo descrito anteriormente, com a diferen¸ca de que, agora, para todos os casos, a medida final ´e feita no terceiro q-bit e sua interpreta¸c˜ao depende do resultado da medida do segundo.
Agora, veremos como saber se a fun¸c˜ao ´e constante ou balanceada, ou seja, discu-tiremos a realiza¸c˜ao do algoritmo de Deutsch. Na se¸c˜ao 2.5 vimos que, para realiz´a-lo, primeiro deve-se fazer |xi = |+i e |yi = |−i. Ap´os a atua¸c˜ao da caixa preta nos q-bits, na vers˜ao do modelo de circuitos, atua-se a porta H no q-bit que recebeu o estado |+i. Em seguida, deve-se medi-lo na base dos autoestados de Z. Se o resultado for 0, sabe-se que a fun¸c˜ao ´e constante e, se for 1, sabe-se que ´e balanceada. Devemos notar que aplicar H e ent˜ao medir em Z equivale a, simplesmente, medir na base formada pelos autoestados de X. Isso significa que, na vers˜ao em 1WQC do algoritmo de Deutsch, podemos medir
o quarto q-bit em X. Nos casos 3 e 4, h´a a atua¸c˜ao do operador Z, controlada pelo resultado da primeira medida, nesse q-bit. Como visto na p´agina 29, essa corre¸c˜ao pode ser inclu´ıda na medida no quarto q-bit, fazendo com que ela seja em −X se o resultado da medida do primeiro for 1. Assim, temos:
Caso 1: |−i • X |+i • • X |+i • ±Z |+i X Caso 2: |−i • X |+i • • −X |+i • ±Z |+i X Caso 3: |−i • X |+i • • • X |+i • ±Z |+i • ±X Caso 4: |−i • X |+i • • • −X |+i • ±Z |+i • ±X ´
E importante ressaltar que, aqui, o resultado final do algoritmo, i.e., a resposta `
37 Assim, a segunda e terceira medidas n˜ao s˜ao necess´arias para o algoritmo de Deutsch, embora sejam quando usamos o circuito para o c´alculo de f (x).
Ainda h´a uma pergunta a ser respondida: nesse caso, o que corresponde ao Or´aculo (caixa preta)? No modelo de circuitos, a caixa preta era composta por portas que n˜ao fossem comuns aos quatro casos e que, a priori, eram desconhecidas por quem recebesse a caixa. No caso de 1WQC, esperar´ıamos da mesma forma que o papel de caixa preta fosse exercido por um conjunto de medidas desconhecidas por quem recebe a caixa (somente o resultado delas poderiam eventualmente ser utilizados em feed-forward para a parte ”aberta”do circuito).
Por´em, vemos que as diferen¸cas entre os quatro casos s˜ao maiores do que isso. No caso: h´a diferen¸cas na base em que ´e medido o segundo q-bit, na presen¸ca ou n˜ao da porta CZ entre o segundo e o quarto q-bits e na medida neste ´ultimo, que ´e adaptativa
somente para os casos em que a fun¸c˜ao ´e balanceada. O fato do cluster ser diferente dependendo do caso n˜ao ´e o ideal, j´a que ele deveria estar sob o controle de quem recebe a caixa. Isso pode ser contornado se a caixa preta contiver, al´em das medidas mostradas anteriormente, medidas em Z que levem um cluster comum a todos os casos ao cluster espec´ıfico de cada caso, mas n˜ao ´e claro como fazer isso.
Al´em disso, como as medidas no segundo e quarto q-bits n˜ao s˜ao as mesmas nos quatro casos, ambas devem fazer parte da caixa. Ainda, o condicionamento da medida no quarto q-bit no resultado da medida do primeiro precisaria ser ignorado pela caixa nos casos 1 e 2.
Em resumo, apesar do conjunto de quatro circuitos acima implementar o algoritmo de Deutsch, essa implementa¸c˜ao n˜ao ´e de todo satisfat´oria, no sentido de que a separa¸c˜ao entre os elementos que devem ser considerados ”dentro”e ”fora”da caixa ser menos limpa do que t´ınhamos imaginado. Isso n˜ao quer dizer que n˜ao exista outra transcri¸c˜ao equiva-lente que tenha essa propriedade, mas n˜ao conseguimos encontr´a-la. Isso parece indicar um problema mais geral, a saber: uma transcri¸c˜ao do modelo de circuitos para o 1WQC n˜ao necessariamente mapeia, de forma autom´atica, circuitos usuais definidos a menos do conte´udo de uma ou mais portas para circuitos 1WQC definidos a menos do conte´udo de uma ou mais medidas. Essa exigˆencia adicional parece necess´aria para se fazer a transcri-¸c˜ao autom´atica de algoritmos do tipo Or´aculo de um modelo para o outro. Tamb´em n˜ao encontramos referˆencias que tenham examinado este problema, que possivelmente ´e uma
quest˜ao aberta.
Vale notar aqui que uma tentativa de implementar o algoritmo de Deutsch em 1WQC foi realizada experimentalmente em 2007 usando um estado emaranhado de qua-tro f´otons preparado linearmente, como no grafo da figura 3.2 [10]. As medidas usadas para a realiza¸c˜ao do algoritmo s˜ao diferentes das feitas acima. Examinando-as, notamos por´em que elas aparentemente contˆem uma falha: uma das medidas que eles afirmam n˜ao ser parte da caixa preta depende do conte´udo da caixa. Consequentemente, para saber que medida fazer para descobrir se a fun¸c˜ao ´e constante ou balanceada, seria preciso j´a conhecer o conte´udo da caixa e, portanto, j´a se saber de que tipo ´e a fun¸c˜ao.
Cap´ıtulo 4
Conclus˜
ao
Nesse trabalho, expomos algumas ideias b´asicas sobre um dos tipos de Computa¸c˜ao Quˆantica Baseada em Medidas: a One-Way Quantum Computation. Para isso, primeira-mente, apresentamos o modelo de circuitos, introduzindo o conceito de q-bits, de portas l´ogicas quˆanticas, de medidas e o de computa¸c˜ao universal. Apresentamos, tamb´em, o Teletransporte Quˆantico e o algoritmo de Deutsch.
Explicamos como se d´a a realiza¸c˜ao da 1WQC, partindo da apresenta¸c˜ao dos clus-ters: estados emaranhados de muitos q-bits, criados a partir da atua¸c˜ao de portas CZ
entre q-bits no estado |+i. Explicamos o uso de medidas na base dos autoestados de Z para retirar q-bits do cluster, deixando apenas os que forem necess´arios para a tarefa desejada. Em seguida, mostramos como realizar portas de um conjunto universal (HU (θ) e portas de dois q-bits) nesse modelo, mostrando assim que ele ´e equivalente ao usual.
Finalmente, tentamos usar essa tradu¸c˜ao do modelo de circuitos para 1WQC para criar uma vers˜ao do algoritmo de Deutsch completamente baseada em medidas. Perce-bemos que, enquanto ´e simples usar este modelo para implementar as portas que podem estar na caixa preta do algoritmo, sua realiza¸c˜ao n˜ao ´e trivial, pois n˜ao ´e claro como fazer com que s´o medidas fa¸cam parte da caixa.
Referˆ
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