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rancisca Verônica Cavalcante
1Introdução
Refletir sobre Patrimônio Cultural e Intolerância Religiosa quando o foco são os
espaços de religiões afro-brasileiras é um exercício de desnaturalização das ideias de
patrimônio e de religião que se encontram arraigadas em nosso imprint cultural. Como
antropóloga e pesquisadora de religiões, reiteradas vezes tenho experimentado o
desconforto, no limite a intolerância mesmo, quando por alguma razão, comunico à
representantes de instituições públicas ou não, inclusive, acadêmicas que o meu campo
empírico são terreiros, barracões de candomblé e umbanda. Por algumas ocasiões, tentei
alargar o discurso sobre religiões afro-brasileiras utilizando argumentos sobre a riqueza,
o legado cultural que elas possuem e que estão presentes em nosso país desde a chegada
dos africanos aqui, portanto, parte de nossa identidade cultural, do nosso patrimônio
cultural. Tais atitudes nem sempre foram exitosas, a inferência que faço é que aqui é um
espaço muito diferente do relatado e que esta situação me possibilita falar para ouvidos
atentos que parecem sentir algum prazer e certa necessidade em discutir tais questões.
Os três espaços religiosos afro-brasileiros de Teresina dos quais nos ocuparemos
aqui são os seguintes: o primeiro, denominado Terreiro Ylê Oyá Tade, é parte de uma
pesquisa que teve seu início no corrente ano e portanto, o seu desenvolvimento ainda é
bastante incipiente. Intitula-se “As religiões de matriz africana no Piauí: intolerância
religiosa e patrimônio cultural”. Os dois últimos espaços religiosos são: barracão Ilê Axé
Opossorofadacá e barracão da Associação Santuário Sagrado Pai João de Aruanda -
ASPAJA são parte do campo empírico da pesquisa intitulada “A Condição Juvenil em
Teresina” e marcadamente do subprojeto denominado “Religiosidade e Juventude em
Teresina”, realizada no período 2007 a 2009, financiada pelo CnPQ, FAPEPI e UFPI.
O objetivo principal da pesquisa intitulada “As religiões de matriz africana no
Piauí: intolerância religiosa e patrimônio cultural” é compreender como os adeptos de
religiões de matriz africana no Piauí atribuem aos espaços religiosos dos quais participam
o estatuto de patrimônio cultural piauiense. Os objetivos específicos são: mapear três dos
espaços mais antigos de religiões de matriz africana existentes em Teresina; conhecer
experiências de intolerância religiosa vivenciadas por adeptos desses espaços. O estudo
faz uso de métodos e técnicas das ciências sociais, dentre elas os recolhimentos de
entrevistas, imagens fotográficas, fílmicas, observação participante e construção de um
caderno de campo.
Os objetivos da pesquisa intitulada “A Condição Juvenil em Teresina” e
marcadamente do subprojeto denominado “Religiosidade e Juventude em Teresina”
foram construir referências de análise acerca dos jovens integrantes da população
teresinense no que concerne à religiosidade, aos modos de vida afetivo-sexual, aos
coletivos juvenis, ao trabalho, ao lazer e à educação, aos quais tiveram coordenadores e
equipes de pesquisadores diferentes constituindo-se ao todo em seis subprojetos
abordando as temáticas citadas. A pesquisa utilizou-se de diversas técnicas e
metodologias, partindo de abordagens quantitativas e qualitativas. Comum a todos os
subprojetos são as seguintes: aplicação de survey, construindo uma amostra probabilística
da população jovem de Teresina, por unidade de domicílio no perímetro urbano da cidade
e, no tocante a qualitativa, registrou-se diversas técnicas, obedecendo à demandas de cada
subprojeto. São elas: oficinas, observação direta e participante; recolhimento de imagens
fotográficas e fílmicas; recolhimento de entrevistas semiestruturadas, individuais e
grupais.
Terreiro Ylê Oyá Tade , Barracão Ilê Axé Opossorofadacá e Associação
Santuário Sagrado Pai João de Aruanda – ASPAJA
O Terreiro Ylê Oyá Tade , fundado em 1968, pelo Babalorixá Adilton de Iansã,
iniciado na umbanda por Pai Antônio Bispo de Miranda e iniciado no candomblé de
Nação Angola no terreiro do Babalorixá Miúdo do Tingongo, em Vasco da Gama,
Salvador, casa de umbanda e há dois anos passou a trabalhar com candomblé, cujo
objetivo é promover a caridade, a inclusão social, particularmente de jovens, a casa
desenvolve projetos sócio-culturais que objetivam a preservação da cultura africana no
Brasil, como o grupo de capoeira, dança e percussão denominado Cultural Magia das
Três Raças, o Café de São José, oferecido a pessoas que vivem nas ruas, distribuição de
cestas básicas, palestras educativas abordando vários temas como saúde, África, idosos,
candomblé e da umbanda, disponibiliza serviços de assistência jurídica aos adeptos e
comunidade em geral que por eles não pode pagar Com cerca de 150 adeptos, a maioria
deles presente no terreiro desde a sua fundação, conta também com um número
significativo de jovens recém ingressos no espaço religioso.
O Barracão Ilê Axé Opossorofadacá, casa de Oxalá, localizada no bairro Pirajá,
fundada em 1985 por Pai Oscar de Oxalá que esteve conosco enquanto liderança religiosa
desta casa até agosto de 2014, ocasião em foi morto. Filho da casa Branca Obatoni, uma
das mais tradicionais de Salvador com quem mantinha estreitos laços assim como com
outros filhos de santo baianos, trazendo para suas festas babalorixás, filhos e filhas de
santo, ogans e pesquisadores adeptos ao candomblé. Participavam desta casa até 2014,
um baiano que era o ogan, as irmãs e sobrinhas de Pai Oscar, dentre elas équedes e filhas
de santos.
A Associação Santuário Sagrado Pai João de Aruanda - ASPAJA. Localizada no
bairro Santa Maria da Codipi, fundada em 2004, por Pai Rondinele Santos, filho da casa
Axé Abassá de Ogum casa de religião afro-brasileira baiana que tem como liderança
religiosa a Yalorixá Jaciara Ribeiro. Casa de candomblé e umbanda, e a preservação das
tradições religiosas, uma ONG sem fins lucrativos que privilegia a juventude, a casa
assiste cerca de 350 jovens pertencentes a Teresina e outros municípios do Piauí. É
pioneira no trabalho de conscientização e pesquisa sobre as religiões afro-brasileiras e
tem como paradigma os terreiros de Salvador, estabelece muitas trocas com filhos de
santos da capital baiana e a Yalorixá Jaciara Ribeiro é figura presente em muitas das
atividades desenvolvidas pela casa. Tem desenvolvido campanhas sobre a prevenção de
hanseníase em parceria com a entidade MORAN; Pai Rondinele também é presidente da
rede Estadual de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde no Piauí, em parceria com a
Secretaria Estadual do Trabalho e Empreendedorismo (SETRE) tem efetivado projetos
que unem a valorização da cultura negra e a capacitação de jovens para o mercado de
trabalho como os cursos na área de gastronomia, dança e serigrafia, realizados
recentemente.
Patrimônio Cultural e Intolerância Religiosa, as casas de religiões
Afro-Brasileiras em Teresina
Transcorreu pouco mais de três décadas, precisamente em 1984, quando pela
primeira vez a tradição afro-brasileira obteve o reconhecimento oficial do Estado
Nacional posto que o primeiro terreiro de candomblé Casa Branca foi tombado em
Salvador, Bahia, um dos membros e relator do Conselho do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional neste processo foi o antropólogo Gilberto Velho que compartilhou esta
experiência em artigo (Ver. VELHO, Gilberto.2007) no qual reflete sobre a questão da
negociação e do conflito presente no processo de tombamento, mas sobretudo o
antropólogo chama a atenção para as transformações da categoria patrimônio cultural
daquele período aos dias de hoje. Lembramos que aquele período o estatuto do
tombamento era aplicado, basicamente, “a edificações religiosas, militares e civis da
tradição luso-brasileira” (VELHO, 2007, p. 249).
Como nos ressalta Gonçalves (2007) os chamados ‘patrimônios culturais’
sofreram uma “ilimitada expansão semântica expressa pela noção de patrimônios
intangíveis” (p.239). Trata-se de uma categoria antropológica que se “traduz num
instrumento de luta pelo reconhecimento público de grupos e de indivíduos” (Ibidem).
Pensar esses três espaços religiosos enquanto patrimônio cultural piauiense, brasileiro nos
parece algo muito distante, até utópico e o argumento que justifica essa impressão diz
respeito ao fato de que vivemos em uma cidade e em um estado que é segundo o Censo
de 2010 do IBGE o mais católico da nação e o senso comum, muitas pessoas
intelectualizadas habitantes da capital piauiense acreditam que aqui só existem adeptos
ao catolicismo e que o tombamento de um terreiro, um barracão como patrimônio cultural
em Teresina não se justifica.
Entretanto o mapeamento das comunidades de terreiros de Teresina realizado em
2008 pela Coordenadoria dos Direitos Humanos e Juventude e publicado pelo Núcleo de
Estudos Ifaradá (Lima, 2014) põe em questionamento os dados de autodeclarados
pertencentes à umbanda e ao candomblé em Teresina que se apresentam em número
menor do que o número de terreiros existentes segundo o referido mapeamento. Esse
ocultamento, essa invisibilidade das religiões afro-brasileiras na capital piauiense, além
das questões do preconceito com os seus fundadores (africanos escravizados), da dupla
pertença religiosa e do trânsito religioso, já pontuado por Reginaldo Prandi (2001)
pensando as religiões afro-brasileiras no Brasil como um todo, parece guardar uma
relação intrínseca, íntima com o racismo e a intolerância religiosa. Os adeptos das
religiões afro-brasileiras ao se autodeclararem católicos ou pertencentes a outras religiões
quando pesquisados através dos levantamentos do IBGE seriam levados a esta postura
por medo da intolerância religiosa e do racismo?
Como afirma Regina Abreu (2007, p.267) “A emergência da noção de Patrimônio
com o sentido de bem coletivo, legado ou herança artística e cultural por meio do qual
um grupo pode se reconhecer como tal - foi lenta e gradual”. Foi assim na França onde o
significado da noção de patrimônio é estendido para as obras de arte e monumentos
públicos num momento posterior a Revolução Francesa, quando a população na avidez
em destruir os vestígios do Antigo Regime chegava a propor a destruição de bibliotecas.
Em 1794, surge na França uma legitimação relativa ao patrimônio considerando a sua não
preservação ou destruição como crime contra o patrimônio. A França torna-se exemplo
para um movimento que se processaria por toda a moderna sociedade ocidental. Assim,
o significado da noção de patrimônio passaria a figurar intimamente ligado a formação
dos Estados nacionais.
No Brasil, durante o Estado Novo, em 1937 é criado o Serviço do Patrimônio
Artístico e Nacional que “instituía o tombamento, uma medida de proteção legal de bens
móveis e imóveis, capaz de conter as demolições de edifícios públicos, considerados
referências para a memória nacional” (ABREU, 2007, p. 270). A partir da criação deste
serviço pode-se afirmar que houve uma “disseminação do conceito de Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional não apenas para outras esferas do poder público como
também para outros domínios da sociedade civil” (Ibidem, p. 271). Isto é, os militantes
do patrimônio nesta primeira fase difundiram uma mentalidade patrimonialista que
segundo Abreu (2007) ficou fortemente associada as seguintes questões: a cultura
material, a valorização do passado e ao tema nacional.
Em 1947, com a criação da UNESCO, entidade internacional com sede em Paris,
cujo objetivo principal era a formulação de propostas e de recomendações com vistas a
difusão de ideais humanistas e antirracistas destacamos dentre as medidas a criação de
comissões nacionais de folclore e é neste contexto do pós-guerra e da criação da
UNESCO que em 1947 foi criada no Brasil a Campanha de defesa do Folclore Brasileiro
que teve um desempenho atuante até os anos de 1964, desenvolveu trabalhos sobre lendas,
costumes, mitos, rituais, festas, celebrações, saberes e modos de fazer artesanais,
culinária, arte e cultura popular.
Destacamos ainda outra medida da UNESCO relativa à convocação de
especialistas de Antropologia Cultural, da Biologia, da Antropologia Física para o estudo
das diferenças raciais cujo objetivo era pôr em evidência a não sustentação científica das
tão difundidas teorias racistas como a de Gobineau. Como um dos resultados destes
estudos tem-se a coletânea publicada na França e traduzida para o português com o título
“Raça e História”, de Claude Lèvi-Strauss, uma leitura imprescindível acerca da não
sustentação científica da noção de desigualdade racial e da necessidade de colaboração
das culturas, da importância da preservação da diversidade das culturas.
Na referida obra Levì-Strauss chama a atenção para a questão da tolerância: “A
tolerância não é uma posição contemplativa, dispensando as indulgências ao que foi ou
ao que é. É uma atitude dinâmica, que consiste em prever, em compreender e em
promover o que quer ser” (LÈVI-STRAUSS, 1960, p. 269). Tal afirmativa é instigante
para reflexões sobre a intolerância religiosa presente na experiência vivida por religiosos
candomblecistas e umbandistas teresinenses, sujeitos das pesquisas “A Condição Juvenil
em Teresina” e “As religiões de matriz africana no Piauí: intolerância religiosa e
patrimônio cultural”. Os pensamentos que nos ocorrem são voltados para a subjetividade
dos sujeitos pesquisados quando experimentam as situações de intolerância reiteradas
vezes presentes nos seus relatos e a nossa própria experiência como antropóloga alvo de
intolerância por ser uma pesquisadora, a intersubjetividade, essa fusão de horizontes nos
faz compreender a profunda invisibilidade das religiões afro-brasileiras em Teresina, dos
seus adeptos, da intolerância e do racismo velado, “não dito”, parafraseando Teresinha
Bernardo que caracteriza esta experiência não só no Piauí mas no Brasil como um todo.
De acordo com Abreu (2007), o então novo conceito antropológico de cultura é
trazido à tona e percebido em diferentes domínios do campo intelectual, como em cursos
universitários diversos, observa-se que é incorporado em instituições específicas como é
exemplo a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro atualmente denominado Centro
Nacional de Folclore e Cultura Popular. Um dos contextos sociais em que tal conceito é
difundido é o das artes plásticas, momento em que toda uma estética da chamada “arte
popular” é chamada a participar como uma manifestação cultural. No campo do
patrimônio o artista e designer Aluísio Magalhães, em 1979, assume a direção do IPHAN
e propõe “a associação do conceito antropológico de cultura às ações de uma política
pública para o patrimônio... com o ideal de abarcar a diversidade cultural , religiosa e
étnica do Brasil” (Abreu, 2007, p. 274).
A reflexão mais apurada sobre a ideia de tombamentos, do registro de danças,
cantos, do reconhecimento de comidas, indumentárias como bens e patrimônios culturais
dos terreiros e barracões aqui pesquisados nos faz pontuar a importância de diálogos com
uma literatura antropológica e políticas públicas sobre patrimônio cultural vigente em
nosso país há mais de três décadas e o nossa contribuição como antropóloga pesquisadora
desta temática que sem a pretensão de esgotar o assunto gostaria tão somente de abrir a
discussão lembrando que a própria noção de patrimônio foi absorvida por diversos
segmentos sociais e que a mentalidade de patrimônio cultural existente deve ser ampliada,
inclusive para pensar o lugar que os barracões e terreiros de religiões afro-brasileiras
ocupam em nossa cidade, a sua materialidade e a sua imaterialidade.
Abreu (2007) chama a atenção para o fato de que “... dos anos setenta para cá,
dentro e fora do IPHAN, firmou-se uma mentalidade em prol da defesa da diversidade
cultural” (p.275). Assim, a mentalidade patrimonialista contempla instituições do Estado,
agremiações da sociedade civil, escolas e universidades, dentro e fora do Brasil, em outros
países ocidentais. Novas formas de organização da sociedade civil, como as ONGs são
partes integrantes neste cenário de preservação patrimonial em que o Estado não atua
mais sozinho “na identificação, na seleção dos bens culturais a serem protegidos,
tombados ou valorizados”. (p.276)
Ainda é a autora que lembra que nos anos 2000, tem-se o Decreto Federal nº 3.551
outra iniciativa desencadeada pela UNESCO e que “institui dois mecanismos de
valorização dos chamados aspectos imateriais do patrimônio cultural: o inventário dos
bens culturais imateriais e o registro daqueles considerados merecedores de uma distinção
por parte do Estado. São considerados bens culturais imateriais as festas, celebrações,
narrativas orais, danças, músicas, modos de fazer artesanais, enfim, um conjunto de
expressões culturais que não estão representadas pelo chamado patrimônio tangíveis ou
de pedra e cal” (ABREU, 2007, p. 277).
Para a Antropologia, a categoria patrimônio não permitiria dicotomia entre o
material e o imaterial, contudo, tal dicotomia tem sido mantida e legitimada a partir dos
artigos 215 e 216 da Constituição Federal de 1988 em que está prevista a proteção aos
bens culturais de natureza imaterial. Os quatro livros de registros instituídos que se espera
tenha força legal de tombamento são: o “Livro dos Saberes”, o “Livro das Celebrações”,
o “Livro das Formas de Expressões” e o “Livro dos lugares”. O registro tem como
entidade responsável o IPHAN, com sua metodologia própria o INRC, o MinC, o Centro
Nacional de Folclore e Cultura Popular da Funarte.
Pensar a questão da intolerância religiosa nos leva a constatação do aumento das
reações fundamentalistas em diversos países como, por exemplo, o atentado terrorista
islâmico ocorrido em Paris, França na última sexta feira, 13 de novembro do corrente ano.
No campo religioso brasileiro há um crescimento acelerado das religiões evangélicas, das
campanhas católicas como a Renovação Católica Carismática, a presença do espiritismo
kardecista, da umbanda e do candomblé, as religiões orientais e o boom neo-esotérico que
faz com cientistas discutam, debatam e realizem análises sobre uma pluralidade e
efervescência religiosa que atropelam a tese de um processo irreversível de secularização
teorizado pelos clássicos das ciências sociais.
O crescimento do número de adeptos evangélicos e suas várias denominações a
partir dos anos de 1970 no Brasil fez surgir uma onda de religiosos com forte poder
midiático e político e também fez eclodir atos de intolerância religiosa praticadas contra
as religiões afro-brasileiras, principalmente por parte dos neopentecostais. Data da
fundação da Igreja Universal do Reino de Deus a declaração de seu bispo Edir Macedo,
de guerra aos “orixás, caboclos e guias” numa clara alusão aos elementos rituais do
candomblé, da umbanda e do espiritismo. Jornais, revistas e mídias em geral noticiam os
constantes ataques sofridos pelas religiões de matriz africana, como exemplo, o Chute da
santa- episódio ocorrido em 12 de outubro de 1995, transmitido pela rede de televisão
Record, durante programa religioso no qual o pastor da IURD chuta a imagem de Nossa
Senhora Aparecida. A relação da IURD com as outras religiões é vista como formas de
lidar com a diferença que pode levar como observa Ronaldo de Almeida (2007, p.187):
“as vias da intolerância dos ritos nas ideias e relações sociais face a face”.
Podemos observar que as manifestações de intolerância religiosa se expressam e
manifestam dentro e fora das religiões como, por exemplo, o racismo, a homofobia está
presente no cotidiano da nossa sociedade. Marcelo Natividade e Leandro Oliveira(2007)
analisam como diferentes religiões(pentecostalismo, catolicismo e afro-brasileiras)
reagem à práticas homossexuais de seus adeptos. “Os neopentecostais tem definido a
homossexualidade como um desvio de conduta que pode ser revestido com a conversão,
transformando-os em ex-homossexuais”. (p.262)
Hédio Silva Júnior chama a atenção para o caráter legal da intolerância, pontua a
presença do tema nas constituições federais, particularmente, na atual de 1988. O jurista
enfatiza a necessidade de recorrer a justiça sempre que alguém sinta o seu direito a
liberdade de crença violado. Em Teresina, a própria partida de uma das lideranças
religiosas afro-brasileiras mais respeitadas fez a mídia refletir sobre homofobia,
homoafetividade e intolerância religiosa dentre outras reflexões que ainda ressoam.
Em nosso artigo intitulado “Memória Afro-Brasileira, Juventude e Festa”
(CAVALCANTE, 2013), que trata dos resultados da pesquisa intitulada “A Condição
Juvenil em Teresina”, relativa especialmente ao subprojeto denominado “Religiosidades
e Juventudes em Teresina”, quando as duas lideranças religiosas abordam questões
relativas as edificações dos respectivos barracões Axé Opossorofadacá e da Associação
Santuário Sagrado Pai João de Aruanda – ASPAJA parece pôr em evidência a categoria
Patrimônio Cultural, embora ela não tenha sido mencionada de forma literal e nem tivesse
feito parte dos objetivos daquela pesquisa. Observa-se que os sujeitos ao se referirem as
suas edificações, as construções de “pedra e cal”, as “casas” enquanto espaços físicos que
vão alterando as suas paisagens e as do lugar onde estão edificadas, a medida que os
religiosos evocam suas memórias sobre fundação dos espaços religiosos, festas, rituais
construções estas são descritas com riquezas de detalhes em que reformas, ampliações
dos cômodos, apresentam-se como um testemunho do passar dos anos e parece que
acompanham, expressam e manifestam o crescimento e as mudanças que vivenciam os
próprios responsáveis pelos espaços religiosos e pelas religiões ali vivenciadas. Somos
tentadas a afirmar que os seus relatos estão repletos de representações, significados que
se apresentam como mais uma maneira de explicar que aqueles espaços são patrimônios
culturais, heranças culturais deixadas por ancestrais e nas quais os sujeitos de cada um
deles foram designados por determinadas entidades para realizar a construção, a fundação
e execução do projeto espiritual.
Podemos conferir no relato de Pai Rondinele Santos referindo-se ao espaço
religioso Associação Santuário Sagrado Pai João de Aruanda – ASPAJA por ocasião da
pesquisa intitulada “A Condição Juvenil em Teresina” apresentada no artigo denominado
“Memória Afro-Brasileira, Juventude e Festa” em que aborda a determinação da entidade
para a construção do barracão e a importância que o espaço religioso tem para os
religiosos Afro-Brasileiros conforme CAVALCANTE, 2013, p. 191:
O preto velho diz que vieram para firmar e reafirmar os ensinamentos, tudo foi eles quem criaram, essa é a mensagem que eles deixam para os jovens, essa casa tem muito jovem, ela funciona com cerca de 350 jovens. O Santuário ele nasceu também para buscar essa unificação dos terreiros, quando um noviço vai fazer ao santo, todos os terreiros devem se reunir. Nós temos que entender que quando chega na questão do Orixá nós temos que nos unir, deixar para lá a história de política, temos que pensar na qualidade de vida do nosso povo, questão socioeconômica e cultural.
Sobre intolerância religiosa Pai Oscar de Oxalá afirma no capítulo intitulado
“Religiosidades e Juventudes em Teresina” (2013, p.162):
Religião pra mim é o que todo mundo defende como sendo a sua fé. Nós no candomblé passamos por muitas discriminações, falta de apoio da mídia, falta solidariedade, respeito à cidadania. De todos os movimentos religiosos os que mais agridem a gente são os evangélicos. O lado social é muito pouco, entram muito na política. Nós quando entramos no candomblé nós assumimos. Então, há uma guerra nesse sentido. No candomblé existe sacrifício de animais, nada é de maldição, tudo é de bênção. Nós somos muito perseguidos.
Em entrevista realizada em outubro do corrente ano com um dos integrantes do
Terreiro Ylê Oyá Tade
sobre a edificação do espaço religioso o informante declara
:Aqui começou, era bem pequeno, o terreiro era de chão batido, o Pai Adilton conta que não tinha dinheiro para comprar a lavanda inglesa para perfumar a casa e ia buscar na mata as ervas e pisava em um pilão e o terreiro ficava perfumado porque nós cuidamos dessa casa com um bem de todos e se hoje ela está bem iluminada, grande, bonita, cheirosa é porque a gente faz por onde porque no candomblé e na umbanda é assim: recebe aquele que tem o merecimento. Nós quando recebemos as entidades da casa como a Preta Velha Mãe Joana nós oferecemos o que podemos de melhor para ela.
Na mesma entrevista referida no parágrafo anterior o informante do terreiro
Ylê
Oyá Tade quando indagado sobre o seu terreiro podendo ser entendido como patrimônio
comunidade que sofre com a intolerância religiosa por parte da maioria da população,
inclusive habitantes do próprio bairro onde está localizado o terreiro:
Nós temos essa casa como nosso patrimônio, nós cuidamos dela, nós fazemos o bem, nós prestamos assistência àquelas pessoas que não tem como ir ao médico, não tem como pagar um advogado porque as pessoas da nossa religião, que são pobre e negra sofre muito preconceito e necessita muito de ajuda.
Considerações Finais
Patrimônio Cultural e Intolerância Religiosa quando o enfoque são os espaços de
religiões afro-brasileiras parecem duas temáticas recorrentes nas discussões atuais no
campo da antropologia e trazem à tona uma pletora de preconceitos, de não-ditos como é
o racismo, preconceito de cor no Brasil (lembrando Oraci Nougueira, Roberto DaMatta e
Teresinha Bernardo) que explica a manifestação do racismo como hora a encobrir, ora a
revelar, tratando a questão das relações raciais ora fazendo o discurso que faz eclodir o
mito da democracia racial ora silenciando; a homofobia e a proposta de cura dos
homossexuais, por religiões neopentecostais, como se a homossexualidade fosse uma
doença. Por fim, lembramos Avatar Brah que nos brinda com a explicação dos três
marcadores indenitários da diferença: classe, raça e gênero.
Parece que pensar patrimônios culturais e terreiros, barracões de candomblé e
umbanda em Teresina remete ao não reconhecimento por grande parte da população deste
marcador indenitário religioso. A religião afro-brasileira está presente na capital desde a
suas primeiras edificações lembrando Pe. Cláudio de Mello e Monsenhor Chaves.
Portanto, há de se ampliar a mentalidade patrimonialista e estendê-la para além dos
monumentos de pedra e cal, notadamente, luso-brasileiras e fazer valer o legado cultural
afro-brasileiro teresinense contemplando a sua materialidade e imaterialidade.
Esta comunicação pretendeu ser uma provocação com o objetivo de instigar uma
política de tombamento de terreiros em Teresina direcionada a intelectuais acadêmicos e
não acadêmicos, religiosos e sociedade teresinense em geral.
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