GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM: A CONFIGURAÇÃO DO NOVO CURRÍCULO DA EEUSP.

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GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM: A CONFIGURAÇÃO DO

NOVO CURRÍCULO DA EEUSP

Cilene Aparecida Cosíardi Ide*

IDE, C.A.C. G r a d u a ç ã o em e n f e r m a g e m : a configuração do novo c u r r í c u l o da E E U S P .

Rev.Esc.Enf.USP, v.29, n.l, p.104-12 , abr. 1995.

O trabalho caracteriza a atual estrutura curricular da graduação, bem como os pressupostos que nortearam essa construção. Tendo a realidade da prática assistencial como substrato, os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde como referência e as perspectivas de aprimoramento do ensino superior como desa-fio, a Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo configurou uma nova estrutura de ensino apta a atender às diferentes demandas por aprimoramento do sistema formador em Enfermagem.

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d i s c e n t e . P r i n c í p i o c o e r e n t e e v á l i d o , p o r é m d i s s o n a n t e do e s q u e m a hegemônico, tanto no âmbito do 3a

grau quanto no contexto da formação bá-sica. Concomitantemente, toda u m a construção sociologicamente fundamen-tada de análise e de proposição de intervenções no contexto das práticas em saúde v i n h a se organizando, num movimento que, pelo teor, também gerou resistências. Ambos tiveram efeito e p l a n t a r a m raízes. Inviabilizado o retro-cesso, mantido o compromisso, aclarado os limites e as possibilidades do gru-po, convivendo, agora, com diferenças esplícitas porém não excludentes, avan-çamos. É provável que, nessa caminhada, t e n h a m o s minimizado a força dos mecanismos psíquicos de defesa, utilizados em reação a situações vivenciadas como estressantes e ameaçadoras, manifestas e percebidas de formas dife-rentes. Avançamos, desenvolvendo atividades p a u t a d a s nas seguintes pre-missas de atuação:

- a responsabilidade pela coordenação dos trabalhos como prerrogativa e res-p o n s a b i l i d a d e da comissão de g r a d u a ç ã o , com ares-poio a d m i n i s t r a t i v o e deliberativo da Diretoria da Unidade;

- a participação compartilhada na esfera decisoria pautada, porém, num es-quema de proposições elaboradas a priori, como substrato p a r a a análise e a validação conjuntas;

- o engajamento de docentes de disciplinas básicas e de r e p r e s e n t a n t e s da comunidade assistencial como elementos a subsidiarem os trabalhos, caben-do a prerrogativa e a responsabilidade pela elaboração pedagógica a quem de direito, ou seja, ao corpo docente;

- o reconhecimento dos limites como estratégia p a r a propor avanços reais e passíveis de consecução;

- a convivência compartilhada dos riscos inerentes às mudanças.

Nessa dinâmica cabe destacar a significativa atuação discente, bus-cando apreender e responder às propostas, bem como a qualificada atuação dos funcionários do Serviço de Graduação, e n q u a n t o infra-estrutura neces-sária ao desenvolvimento dos trabalhos cuja versão caracterizaremos a se-guir.

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2 A Configuração da Estrutura Curricular

Tendo como princípio norteador o compromisso de qualificar a forma-ção do enfermeiro frente aos princípios, diretrizes e práticas do Sistema de Saúde, elaboramos uma e s t r u t u r a curricular apta a atender também à de-m a n d a s prede-mentes pelo apride-morade-mento do processo de ensino, a p a r t i r de propostas dentre as quais merecem destaque:

- a redução da carga horária de 4.710 horas p a r a 4.200 horas;

- a inserção de conteúdos teóricos-práticos de Enfermagem a p a r t i r do le ano

do Curso, na tentativa de diminuir a distância e n t r e a etapa pré-profissional e o tronco profissional, viabilizando também u m a articulação e n t r e as dife-rentes áreas de saber que subsidiam a profissão;

- um r e a l i n h a m e n t o em termos de conteúdos e de carga horária das diferen-tes disciplinas constituindiferen-tes da E s t r u t u r a Curricular, visando a consolida-ção de quatro áreas temáticas;

- a redução inicial da carga horária de algumas disciplinas, com a devida complementação no decorrer do curso, a p a r t i r de demandas específicas para a fundamentação das áreas temáticas;

- a inclusão gradativa de conteúdos disciplinares relacionados à: Ética e Le-gislação, Metodologia de Pesquisa e Administração em Enfermagem; - a criação de novas disciplinas obrigatórias, optativas livres e optativas com-plementares.

As estratégias anteriormente referidas visam promover a flexibilidade da grade, oferecendo ao aluno a possibilidade e a responsabilidade de organi-zar a sua inserção num currículo a ser consolidado a p a r t i r de expectativas, necessidades e possibilidades peculiares. Nesse sentido, todos os alunos te-rão que cursar 4.200 horas de graduação. O inédito diz respeito à construção de uma trajetória auto dirigida a partir do 3S semestre letivo, agregando a

opção de entrada n u m a das quatro áreas temáticas, a serem sucessivamente cursadas; a complementação de conteúdos obtida a p a r t i r da escolha de disci-plinas optativas livres, dentre o elenco de possibilidades oferecidas, bem como a finalização da sua formação inserindo-se num dos quatro programas de estágio curricular a serem desenvolvidos no último semestre letivo (discipli-nas optativas complementares). Este será o período a ser utilizado para a realização de uma monografia, a ser desenvolvida em consonância com as diretrizes da programação do Estágio Curricular.

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ine-rentes ao processo de trabalho ou ao sistema formador). Assim, pela criação ou exclusão de disciplinas optativas, poderemos mais r a p i d a m e n t e elaborar possibilidades de atender à questões emergentes na esfera da utilização de recursos h u m a n o s . Objetiva, ainda, p r e p a r a r o aluno p a r a u m a inserção mais qualificada no seu contexto de atuação a p a r t i r do desenvolvimento articula-do, gradativo e crescente de conteúdos relacionados à pesquisa, ao exercício profissional (Ética e Legislação) e ao desempenho de atividades peculiares (Administração e Didática).

O novo currículo será composto por 46 disciplinas obrigatórias, 4 disci-plinas optativas complementares e 27 discidisci-plinas optativas livres.

A carga h o r á r i a de 4.200 horas necessária p a r a a conclusão do curso, que compreende um total de 262 créditos, acrescida de 30 horas de Prática Esportiva, deverá ser obtida através da aprovação em 225 créditos (85,93%) de disciplinas obrigatórias, 19 créditos (7,24%) em uma disciplina optativa complementar e 18 créditos (6,83%) em disciplinas optativas de livre escolha do aluno.

Cabe ressaltar que das 46 disciplinas obrigatórias, 8 são novas, 9 per-manecem com as mesmas características do currículo vigente e 29 tornar-se-ão g r a d a t i v a m e n t e equivalentes às disciplinas até enttornar-se-ão m i n i s t r a d a s p a r a permitir a inserção de alunos reprovados ingressantes até o ano de 1993.

Como já foi dito anteriormente, a nova E s t r u t u r a Curricular prevê a inserção do aluno à profissão desde o 1B ano do Curso, através do conjunto

composto pelas disciplinas ENC 101 Introdução à Enfermagem, ENO 100 -F u n d a m e n t o s da Ética e História da Enfermagem e ENS 110 - Introdução à Enfermagem em Saúde Coletiva. Este conjunto subsidiará o ingresso na fase seguinte, ou seja o p r o c e s s o d e c u i d a r e m e n f e r m a g e m , abrangendo con-teúdos metodológicos, técnicos, atividades e instrumentos inerentes ao tra-balho da Enfermagem e do enfermeiro, contemplando o conjunto composto pelas disciplinas ENC 120 - F u n d a m e n t a ç ã o do processo de cuidar e ENP

152 - Ações Interpessoais Básicas de Saúde Mental. Do 3a

ao 6B

semestre, 4 áreas temáticas obrigatórias serão oferecidas, todas com a duração de um semestre letivo e repetidas do 3a ao 6a semestre,

p a r a que o aluno tenha a oportunidade de organizar seu próprio currículo de acordo com suas expectativas, necessidades e possibilidades.

Cada área temática compreenderá inicialmente a matrícula de no má-ximo 20 alunos e estarão denominadas como segue:

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- Área Temática - ENFERMAGEM NA SAÚDE DO ADULTO II, compreen-dendo as disciplinas ENP 252 - Enfermagem na Saúde do Adulto II e ENS 318 - Enfermagem em Saúde Coletiva com enfoque nas doenças transmissíveis; - Área Temática - ENFERMAGEM NA SAÚDE DA CRIANÇA E DO ADO-LESCENTE, compreendendo as disciplinas ENP 363 - Enfermagem n a Saú-de da Criança e do Adolescente e ENS 310 - Enfermagem em SaúSaú-de Coletiva e a Saúde da Criança e do Adolescente;

- Área Temática - ENFERMAGEM NA SAÚDE DA MULHER, compreendendo as disciplinas ENP 373 Enfermagem na Saúde da Mulher e ENS 315 -Enfermagem na Saúde Coletiva e a Saúde da Mulher.

Concomitante às áreas temáticas, blocos comuns de disciplinas obriga-tórias e disciplinas optativas estarão sendo ministrados com períodos especí-ficos, ressaltando-se que d u r a n t e estes 4 semestres serão destinados tam-bém, períodos livres p a r a estudo.

No 7a semestre, serão ministradas 3 disciplinas obrigatórias,

destacan-do-se que dentre elas inclui-se a ENC 400 - Enfermagem em Terapia Intensi-va, criada a p a r t i r de necessidades explicitadas pelo corpo discente e que tem entre os seus objetivos a prestação de assistência de enfermagem sistemati-zada ao paciente internado na UTI.

O ú l t i m o s e m e s t r e do c u r s o d e s t i n a - s e a r e a l i z a ç ã o do E s t á g i o Curricular, onde o aluno poderá escolher uma das quatro disciplinas optativas complementares.

Esta modalidade compreenderá uma carga horária de 435 horas, sendo 135 p a r a o desenvolvimento de atividades teórico-práticas e supervisão e 300 p a r a o aprofundamento de experiência de coordenação do processo de cuidar e elaboração de monografia em um dos programas oferecidos.

3 Pressupostos norteadores do Currículo

A internalização da nova e s t r u t u r a pressupõe um processo de trans-formações complementares, estabelecendo novos elos de interação, devendo produzir formas fundamentalmente novas de i n t e r p r e t a r e reagir ao currí-culo, realinhando papéis e o próprio ambiente pedagógico.

Nesse sentido reconstruindo a origem e o curso dessa proposta, vale r e p o n t u a r os seus pressupostos norteadores, relatados a seguir.

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limitações tidas como insuperáveis. Nesse sentido, um bom aprendizado de-verá ser capaz de identificar e utilizar, tanto os ciclos de desenvolvimento cognitivo j á completados, como também aqueles em maturação, r e s u l t a n t e s da dependência do aluno em d e s e m p e n h a r determinadas atuações.

2) Identificar o aluno como adulto pressupõe estabelecer u m a relação pedagógica com u m a pessoa apta a dominar processos psicológicos superiores -pensamento, linguagem e comportamento volitivo. Um adulto apto a aprimo-r a aprimo-r capacidades especializadas p a aprimo-r a pensaaprimo-r sobaprimo-re váaprimo-rias coisas.

3) Esse aprimoramento cognitivo - simbólico - afetivo é primordialmente o d e s e n v o l v i m e n t o de um c o n j u n t o de a t i v i d a d e s e s p e c í f i c a s , que se complementarão na medida em que houver elementos comuns entre elas. Elementos elencados a p a r t i r de esquemas lógicos a serem sistematicamente explicitados. P a u t a d o nesse argumento, superamos o c a r á t e r propedêutico de áreas do cuidar sobre outras. Por isso, também, a confluência de conteú-dos complementares às áreas temáticas desde o primeiro ano de graduação, viabilizando o acesso aos códigos de conduta profissional bem como aos ins-t r u m e n ins-t o s de pesquisa em concomiins-tância com o domínio gradains-tivo de habili-dades específicas. A lógica do encadeamento dos conteúdos se pautou, por-tanto, no c a r á t e r complementar das disciplinas na medida em que todas incluem, igualmente, processos de dedução, compreensão, evolução de no-ções, interpretação de casualidade, domínio de práticas e de códigos de atua-ção peculiares.

4) À graduação caberia subsidiar uma etapa peculiar desse desenvolvimento, levando o aluno à resolução, de forma independente, de problemas cada vez mais avançados. Essa é a compreensão que temos de complexidade, indepen-dente da á r e a ou de conteúdos. Nesse sentido, o bom aprendizado será aque-le que conseguir se adiantar aos ciclos de desenvolvimento já compaque-letados por esse aluno. Será que ele apto a agilizar o nível potencial de desenvolvi-mento desse aluno, determinado pela dependência de atuações. Essa seria a categoria a definir estratégias específicas p a r a alunos específicos, culminan-do, ao final do 4a ano, porém, por caminhos peculiares, num p a t a m a r basal

para todos.

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p a r t i r da questão teórica central que configura e norteia o seu universo de investigação no âmbito do cuidar. Aqui, também, o espaço do aluno desenvol-ver sua atividade consciente, característica primordial do desenvolvimento cognitivo do adulto. Aqui, a oportunidade do aluno internalizar experiências vivenciadas em conjunto, assumidas por vontade, gerando um aprendizado pautado na experimentação e não na repetição esvaziada de sentido e de significados. Esse aprendizado seria produto da internalização do vivenciado, da s u a r e i n t e r p r e t a ç ã o , t r a n s f o r m a n d o a e x p e r i ê n c i a n u m p r o c e s s o intrapessoal, capaz de gerar novos sistemas e novas leis de atuação. Aqui, portanto, a identidade complementar do ser aluno e do ser docente de gradu-ação em compatibilidade com a e s t r u t u r a curricular proposta. P a r a dar-lhe vida temos como desafio a identificação e implementação de estratégias ap-tas a:

a) identificar demandas por desenvolvimento cognitivo afetivo dos alu-nos;

b) potencializar o desenvolvimento daquilo que intrinsicamente estiver faltando no aluno, ou seja, a zona de desenvolvimento proximal2;

c) promover a capacidade do aluno optar e buscar experiências compatí-v e i s com s u a s e x p e c t a t i compatí-v a s , n e c e s s i d a d e s e p o s s i b i l i d a d e s de momentos,construindo um caminho peculiar no esquema formal da graduação;

d) potencializar a adesão docente ao papel de pesquisador, mais do que uma necessidade, um dever inerente à sua permanência na universi-dade;

e) t r a b a l h a r n u m a reinserção no campo, a p a r t i r de um esquema lógico de atuação por ele estabelecido considerando tanto a sua atividade acadê-mica como também a realidade e a demanda desse campo. Nesse senti-do, estaríamos promovendo códigos de relacionamento pautados na complementariedade e no respeito à especificidade dos papéis. Estaría-mos, ainda potencializando a necessidade de sintonizar a produção aca-dêmica às etapas de validação na prática assistencial;

f) reconsiderar o interstício entre diferentes áreas, com ênfase nas rela-ções entre o cuidar individual e coletivo, entre a coodenação do cuidar e a administração de serviços;

g) elencar disciplinas a p a r t i r do cunho complementar de seus conteúdos, construindo núcleos temáticos efetivamente pautados em abordagens similares;

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IDE, C.A.C.. Nursing graduation: the up date EEUSP curriculum caracterization. Rev.Esc.Enf.USP, v.29, n.1, p.104 -12 , Apr. 1995.

The research shows the up date curriculum of nursing Graduation and the basis of this proposition.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Faculdade de Educação. Problemas e Perspectivas do ensino nos cursos de graduação da SP/Universidade de São Paulo. São Paulo, 1990 (Documentos especiais n.l).

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