Rodrigo da Rocha
Texto
(2) 2. Rodrigo da Rocha. O PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO DA LAVOURA DE ARROZ IRRIGADO, NA LOCALIDADE DE BOM RETIRO, MUNICÍPIO DE RESTINGA SÊCA RS, 19701985.. Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de História, Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de licenciado em História.. Orientador: Luis Augusto Ebling Farinatti. Santa Maria, RS 2008.
(3) 3 Rodrigo da Rocha. O PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO DA LAVOURA DE ARROZ IRRIGADO, NA LOCALIDADE DE BOM RETIRO, MUNICÍPIO DE RESTINGA SÊCA RS, 19701985.. Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de História – Área de Ciências Humanas, do Centro Universitário Franciscano, como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciado em História.. _____________________________________________ Luis Augusto Ebling Farinatti – Orientador (Unifra). __________________________________ Roselâine Casanova Corrêa (Unifra). __________________________ Valdemar Valente (Unifra). Aprovado em _____ dezembro de 2008..
(4) 4. AGRADECIMENTO. Agradeço à minha família pelo estímulo e compreensão, aos agricultores pelos depoimentos, ao meu orientador Luis Augusto Ebling Farinatti pela orientação, aos professores da banca Roselâine Casanova Corrêa e Valdemar Valente e aos colegas do Curso de História..
(5) 5. DEDICATÓRIA. Dedico este trabalho aos meus pais que sempre me apoiaram no que. fiz. e. aos. agricultores. entrevistados que contribuíram para a realização deste trabalho..
(6) 6 Resumo O principal objetivo deste trabalho foi compreender as transformações vivenciadas pelos agricultores que dedicavam-se ao plantio de arroz irrigado na localidade de Bom Retiro, interior do município de Restinga Sêca, no período compreendido nos quinze anos que se estenderam de 1970 e 1985. A metodologia utilizada foi a técnica de entrevistas estruturadas, a análise dos dados coletados e a abordagem qualitativa e quantitativa. Como resultado da investigação, percebeu-se que o processo de modernização em Restinga Sêca foi mais intenso na década que vai de 1970 até 1985. Ocorreu, nesse período, um aumento da utilização de insumos químicos e a aquisição de maquinário, proporcionando assim, um aumento na produção de arroz. Esse processo implicou em uma menor necessidade de mãode-obra, tendo em conta que a lavoura de arroz era uma das principais atividades produtivas desenvolvidas no município de Restinga Sêca. Pode-se afirmar que sua modernização foi um dos fatores responsáveis pela diminuição da população rural e aumento da população urbana do município no período estudado.. Palavras-chave: Arroz irrigado, incentivo governamental e modernização.. ABSTRACT This work main objective is to comprehend the transformations lived by the farmers who dedicated themselves to the irrigated rice sowing in the interior of Restinga Sêca, in the contained period of fifteen years that extends from 1970 to 1985. The used methodology was the structured interview technique, and, in the collected data analyzes, the qualitative and quantitative approach. As result of the investigation, it was noticed that the modernization process in Restinga Sêca was more intense in the decade from 1970 to 1985. In this period has occurred an increase in the use of chemical substances and machinery acquisition thus providing an increase in the rice production. This process implied in a lower necessity of labour. Considering that the rice farming was one of the main productive activities developed in the municipal district of Restinga Sêca, we can affirm that its modernization was one of the responsible factors for the country population decrease and the increase of the urban population in the studied period.. Key words: irrigated rice, governmental incentive and modernization..
(7) 7 SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 9. A lavoura de arroz irrigado no Rio Grande do Sul ............................................................11 A modernização da lavoura de arroz irrigado em Restinga Sêca: 1970 –1985.................25 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................. 39 BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................... 40. ANEXO A - Termo de consentimento para entrevista ....................................................... 46. ANEXO B - Questionário aplicado ....................................................................................... 48.
(8) 8 LISTA DE FIGURAS. FIGURA Nº1 – Mapa de localização do município de Restinga Sêca............................25 FIGURA Nº2 – Trator adquirido pela família Milanesi.................................................29.
(9) 9 INTRODUÇÃO. O presente trabalho de pesquisa busca estudar as implicações sócio-econômicas ocorridas em função das transformações técnico-estruturais na lavoura de arroz irrigado entre 1970 e 1985. O foco de abordagem recai sobre a localidade de Bom Retiro, município de Restinga Sêca (RS) e foi feito uso de fontes escritas e de entrevistas orais. No período proposto, ocorreram mudanças significativas no tipo de tecnologia empregada na agricultura no Rio Grande do Sul. Em tal processo, houve significativa participação do Estado através dos subsídios agrícolas, que proporcionou a aquisição de maquinários para o preparo do solo, incentivando também o uso de insumos químicos, fertilizantes e defensivos. Isso gerou um aumento desta produção e originou transformações no meio rural. A relevância científica do trabalho acontece em razão de uma lacuna existente na historiografia. A maioria dos trabalhos sobre história agrária no Rio Grande do Sul concentra seus estudos nos séculos XVIII e XIX (ZARTH, 1997, 2002; OSÓRIO, 2007; FARINATTI, 2007). Existem alguns trabalhos sobre história agrária no século XX (OSÓRIO, 1992; SOARES, 2007; DAVID, 1995), mas a maioria deles têm um enfoque mais generalizante. Por sua vez, a região de Restinga Sêca e as transformações decorrentes do processo de modernização da lavoura de arroz não foram alvo de nenhum trabalho específico de história agrária. Este processo acarretou mudanças em todo território gaúcho, sendo Restinga Seca de igual forma afetada, uma vez que a produção de arroz irrigado era a principal atividade agrícola da região nesse período. Ao mesmo tempo, os agricultores que trabalhavam com o plantio de arroz no período de 1970 a 1985 desenvolveram novos meios de preparo do solo, novas técnicas de produção, irrigação e armazenagem deste grão. Em especial, o manejo dessa lavoura ganhou uma nova atenção, com auxílio de técnicos especializados dando suporte aos produtores, possibilitando um melhor aproveitamento das novas tecnologias e aumentando a produção. As balizas teóricas vêm da história agrária de recorte regional. Os principais trabalhos dessa corrente no Brasil surgiram no Rio de Janeiro, ao longo das décadas de 1970 e 1980 (LINHARES, 1997; FARIA, 1998) e, mais recentemente, no Rio Grande do Sul (os já referidos trabalhos de ZARTH, 1997, 2002; OSÓRIO, 2007; FARINATTI, 2007; SOARES, 2007; DAVID, 1995). Essas obras usaram uma combinação de metodologia de análise quantitativa (estudo serializado) e qualitativa, inspirado na segunda fase da “Escola dos Annales” francesa (BURKE, 1992)..
(10) 10 No primeiro momento, buscou-se apresentar uma revisão bibliográfica da trajetória de organização da lavoura de arroz irrigado no Rio Grande do Sul. Nesse enfoque inclui-se o surgimento e organização da produção. No segundo momento, procurou-se identificar as transformações que ocorreram na produção de arroz nos anos de 1970 – 1985 na localidade de Bom Retiro, no interior do município de Restinga Seca. Reveste-se de importância neste trabalho a utilização dos censos agropecuários de 1970, 1975, 1980 e 1985, como também a realização de entrevistas com seis agricultores da localidade, que se dedicavam à produção de arroz irrigado e vivenciaram estas transformações. Com as entrevistas podemos perceber como era a lavoura de arroz anterior à década de 1970, e as mudanças ressaltadas pelos agricultores a partir da introdução da tecnologia..
(11) 11 SURGIMENTO DA PRODUÇÃO DE ARROZ IRRIGADO NO ESTADO A lavoura de arroz irrigado no Rio Grande do Sul. A produção de arroz no Rio Grande do Sul já ocorria, de maneira rudimentar, pelo menos, desde inícios do século XIX e possivelmente mesmo antes, como pode ser observado no seguinte relato do viajante francês Arsènne Isabelle:. O pouco cultivo que se faz nas chácaras, fazendas ou em torno das estâncias, consiste em plantar mandioca, semear milho, feijão, arroz e alguns que abastem as necessidades da família e não dêem muito trabalho. (Isabelle apud. CASSOL, 2007, p. 54). Tratava-se do arroz de sequeiro, o qual dispensava técnicas de irrigação em seu plantio, e diferente do qual será abordado no presente trabalho. Em geral, era uma produção restrita, servindo mais como um componente de subsistência familiar do que como uma produção francamente mercantil. Esse quadro modificou-se com a introdução da lavoura de arroz irrigado. Esta desenvolveu-se de maneira sustentável e nos moldes capitalistas a partir de 1928, primeiramente em dois pólos distintos no estado do Rio Grande do Sul, nas cidades de Pelotas e Cachoeira do Sul. As áreas preferidas para plantios foram as terras planas, baixas e úmidas conhecidas por várzeas, que muitas vezes pertenciam a pecuaristas. Essa lavoura irradiou-se pelo Estado, ocupando desde as terras que se estendiam às margens tanto das lagoas Mirim e Laguna dos Patos até as regiões dos rios Jacuí e Uruguai (Fraqueli & Breskow apud MERTZ; GRANDO, & TARGA, 2007). Essa atividade foi desenvolvida especialmente por colonos descendentes de imigrantes, que arrendavam terras dos pecuaristas para plantar. Essas modificações na produção agrária foram importantes. Porém, em um primeiro momento, não chegaram a abalar profundamente a estrutura social do espaço agrário riograndense. Segundo Mertz; Grando, & Targa, (2007), “os colonos arrozeiros arrendavam as terras, a produção de arroz não ameaçava a grande propriedade pecuária e, desse modo, a estrutura fundiária ficava intocada” (p. 217). Dentre as produções agrárias mais importantes dos anos finais da República Velha, destaca-se a “pecuária extensiva, a policultura colonial e a agricultura comercial de arroz” (MERTZ; GRANDO, & TARGA, 2007, p. 203). Compreende-se por pecuária extensiva a criação de gado que se desenvolve no Estado de forma extensiva, ou seja, aquela cuja ampliação se dá sem o incremento significativo de tecnologia, ocorrendo apenas com a.
(12) 12 incorporação de mais terras e mais força de trabalho. Já, a policultura colonial representa a pequena propriedade com o uso da mão-de-obra familiar, onde produziam-se alimentos para o próprio consumo e comercialização. Durante a República Velha (1889-1930), temos no governo do estado membros pertencentes ao Partido Republicano Riograndense (PPR), ocorre a predominância do ideário positivista, que dispondo de autonomia em relação à federação, segundo Herrlein Jr. (2000) “proporcionará a criação de um modelo gaúcho de desenvolvimento econômico” (p. 2). Esse governo percebia na lavoura de arroz irrigado um exemplo de bom aproveitamento e uso da terra, e o incentivo ocorreu de várias maneiras, dentre elas a isenção fiscal e taxação do arroz vindo de fora do Estado, tendo assim a participação do Estado teve papel fundamental para o crescimento e expansão da lavoura de arroz.. Números da produção: mercados e expansão (1920-1970) Na década de 1920, a produção de arroz experimentou um grande crescimento no Rio Grande do Sul, mas teve que enfrentar a sua primeira crise causada pela diminuição das exportações para a Argentina e Uruguai e pelo aumento da produção de arroz no Centro do País (DAVID, 1995). Em 1920, a lavoura de arroz no Rio Grande do Sul exportava cerca de 32 mil toneladas de produtos, o que em 1926 atinge 220 mil toneladas, mesmo concorrendo paralelamente a desvalorização do produto devido ao aumento da produção deste em outras áreas do território nacional. A partir da década de 1930, percebendo uma oportunidade de aumentar sua renda, os pecuaristas gaúchos também passam a se dedicar ao cultivo de arroz irrigado, que podia ser conjugada com a pecuária. Como já foi dito, a área usada para o plantio eram as várzeas, que após a colheita do arroz, ocorrida no verão, servia como reserva de alimento para o gado durante os meses de inverno, o qual ao mesmo tempo em que pastava o rebrote e adubava o solo com o esterco. Da mesma forma, sobre o cultivo do arroz, Fraquelli (1979) apud LEONARDI, A. et ali (2006, p.9), “afirmam que visto a partir da perspectiva do proprietário de terras, o arrendamento para o cultivo do arroz rapidamente passou a caracterizar-se como uma alternativa segura, isenta de riscos, para o aumento da receita”. A partir desse processo, o arroz acabou se tornando o principal produto agrícola da metade sul do Rio Grande do Sul, tendo-se disseminado por toda a região (LEONARDI, A. et ali 2006)..
(13) 13 Conforme Beskow (1984) apud Pereira (2006), “a cultura do arroz irrigado mecanicamente produziu uma articulação mais sólida entre agricultura, indústria e capitais comerciais na atividade de plantio, beneficiamento e comercialização da produção” (p. 6). De acordo com Herrlein Jr (2002), referente ao papel do arroz:. [...] era exportado para os mercados brasileiros e do Prata, mas apesar das participações crescentes nas exportações regionais, o consumo interno sempre predominou na absorção da produção, de modo que nos seis anos de 1925-30 as exportações representaram apenas 24% da produção. (p. 6).. A partir disso, entende-se que a produção de arroz no Estado durante o período de 1925 até 1930 tinha como um dos principais mercados consumidores os centros urbanos do próprio Rio Grande do Sul e do restante do Brasil. A grande quantidade de arroz disponível no mercado acabou gerando uma desvalorização do mesmo, ocasionando a diminuição do preço no momento da comercialização, afetando diretamente os agricultores. Entretanto, para tentar apaziguar a situação da lavoura no Estado, é criado o Sindicato dos Produtores de Arroz, que logo mostraria sua ineficiência e fraqueza, deixando de existir após a crise de 1929 (Mertz, M.; GRANDO, & TARGA, 2007, p. 221). Assim, apesar da estabilidade da produção arrozeira, que desde seu surgimento até 1938, aumentou a área e a produção, havia uma instabilidade de preços e mercado. Surge então a necessidade de um órgão com reconhecimento estadual com o objetivo de defender os interesse destes produtores que ocorre quando em 1940 temos a criação do Instituto Riograndense do Arroz (IRGA), uma entidade pública, com autarquia administrativa, subordinada ao Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por intermédio da Secretaria da Agricultura. De acordo com Pebayle (1974) apud (Mertz, M.; Grando, M. Z. & Targa, L. R. P. 2007):. [...] o IRGA retomou, por sua vez, as medidas de autodefesa do antigo sindicato e criou uma enorme infra-estrutura técnica, científica, econômica e social, criando, lado a lado com uma proposta realista de preços mínimos, uma frente comercial de defesa dos interesses dos arrozeiros, regulando o mercado através de um sistema apropriado de estocagem do produto; lançando novas sementes testadas em seus laboratórios e criando um corpo de engenheiros agrônomos que se distribuíam por diversas regiões rizicultoras do estado (p. 221).. Com o IRGA, surge uma estrutura técnica de pesquisa e assistência específica à lavoura de arroz. A assessoria dos técnicos para os arrozeiros representa uma inovação e.
(14) 14 oportunidade de melhorar a lavoura com as novas orientações sobre o manejo. Sendo também responsável por desenvolver novas variedades de sementes. Sobre o papel desempenhado pelo IRGA, Dias (1997) enfatiza que:. Na década de 1940, o município de Uruguaiana fora dividido e caracterizado em duas regiões, sendo que ao sul permaneceu a criação de bovino de corte e ovino tipo lã; ao norte, margeando o rio Uruguai, o Instituto Riograndense do Arroz, (IRGA), em 1949, executou um assentamento de 120 famílias de colonos Sem-Terras provenientes dos municípios aos arredores de Santa Maria e Cachoeira do Sul, em área pertencente ao estado. Cada família assentada recebeu um lote de 172 ha de terra. Originando, assim a segunda colônia orizícola do IRGA (p. 27).. Nesse sentido, compreende-se que as atividades desenvolvidas pelo IRGA foram além das áreas de atuação do antigo Sindicato de Produtores de Arroz, não se detendo somente na defesa dos interesses dos arrozeiros, mas envolvendo-se em questões como a promoção de assentamento de famílias, o que também demonstra seu respaldo e confiabilidade frente ao governo do estado. Conforme os dados dos gráficos 1 e 2, referentes à produção de arroz, percebe-se que, no período de 1920-1930 ocorreu um aumento da área plantada no estado, mas a produção de arroz por hectare não ultrapassa a média de 45 sacas, o que se repete na década seguinte de 1930-1940, em que continua ocorrendo o aumento da área plantada, mas a produção, com exceção da safra de 1937/38 chegando a produzir uma média de 55 sacas, não ultrapassa as 50 sacas. No período de 1940 até 1950, ocorre um grande aumento na área destinada ao cultivo de arroz, mas a produção desta lavoura permanece em torno de 50 sacas por hectare. Isso mostra que a expansão era, ainda, muito extensiva, dependendo mais do aumento da área plantada do que da melhoria técnica (que se refletia em um aumento das sacas p/ha). Do ponto de vista econômico, a partir de 1930 até 1961, Herrlein Jr (2000, p. 2), considera este período como sendo de transição, onde ocorre a desestruturação dos pressupostos políticos e econômico daquele modelo regional gaúcho de desenvolvimento, atuante no período da República Velha, resultando numa crise. Segundo o autor, após 1950, devido a novas exigências concorrenciais, houve uma mudança estrutural econômica e social, que impulsionou a retomada do crescimento e uma modernização produtiva, dando origem a uma nova economia gaúcha a partir dos anos 1970..
(15) 15 GRÁFICO 2:Produção de Arroz (Rio Grande do Sul,1921-1986). 120 100 80 60 40 20 0. Ano Fonte: Adaptado de IRGA.. 1985/86. 1977/78. 1969/70. 1961/62. 1953/54. 1945/46. 1937/38. 1929/30. Sc/ ha. 1921/22. Sacas. Sacas/ ha.
(16) 16. GRÁFICO 1:Área destinada ao plantio de arroz. (Rio Grande do Sul, 1921-1986). Área plantada 800.000 700.000 600.000 500.000 400.000 300.000 200.000 100.000 0 1 9 2 1 /2 2 1 9 2 9 /3 0 1 9 3 7 /3 8 1 9 4 5 /4 6 1 9 5 3 /5 4 1 9 6 1 /6 2 1 9 6 9 /7 0 1 9 7 7 /7 8 1 9 8 5 /8 6. Á re a (H a ). Área plantada. Fonte: Adaptado de IRGA..
(17) 17 Técnicas Em se tratando da lavoura de arroz irrigada, a garantia de um abastecimento seguro e suficiente de água era uma das necessidades técnicas mais importantes. Esse suprimento provinha de açudes, barragens ou rios. Os açudes e barragens nessa época eram construídos com carros de bois (gaiotas), que serviam para transportar terra e construir as taipas destes. Os açudes e as barragens se localizavam geralmente acima da área destinada ao plantio de arroz, ficando a um nível mais alto que a lavoura, fazendo com que a água descesse de forma natural. Já a utilização da água dos rios para a irrigação, em função de que os rios localizavam-se a um nível mais baixo do que as lavouras, fez com que se utilizasse uma bomba mecânica que sugasse e bombeasse a água do rio até a valeta da lavoura que distribuía a água. Esta bomba era tocada por uma máquina a vapor, que utilizava como combustível a madeira. Para levar a água do rio até o canal de irrigação, era preciso construir calhas de madeira, pois não existiam ainda canos de PVC. Estas calhas eram supervisionadas regularmente, pois qualquer vazamento acarretava no desperdício de água. A máquina a vapor que tocava a bomba sugadora funcionava através da combustão e precisava de um funcionário controlando seu funcionamento e abastecimento em tempo integral. Diferente da lavoura que usava a água através do nivelamento, as lavouras que utilizavam bombas sugadoras de água na irrigação necessitavam de uma grande oferta de mão-de-obra, tanto para a supervisão da máquina a vapor e das calhas, como também para obter a madeira que serviria de combustível, gerando assim um gasto a mais.. Trabalhadores e difusão do assalariamento (1920-1970) A utilização de um grande número de pessoas na atividade arrozeira ocorria desde a preparação do solo para o plantio até a estocagem. O plantio tinha como técnica mais utilizada até a década de 1970 a semeadura feita à mão. As poucas plantadeiras disponíveis antes de 1970 não possuíam muitas linhas. O plantio era lento, pois muitas destas plantadeiras utilizavam a tração animal. A irrigação também utilizava-se de um número significativo de mão-de-obra para a construção das taipas, que eram feitas com a pá de corte. E no período da colheita, o número de pessoas utilizadas nesta etapa da atividade tornava-se mais expressivo, pois o arroz era colhido com foices, empilhado, carregado, trilhado, ensacado, passando por várias etapas até o engenho de secagem. Seu transporte era em carros de bois os quais transportavam uma quantidade pequena de cada vez. Outro aspecto.
(18) 18 que marcou a lavoura de arroz como diferente das demais atividades rurais foi o predomínio do trabalho assalariado e temporário desde seu surgimento. Para Herrlein Jr (2000):. Ao final dos anos 1920, a economia gaúcha ganhara complexidade e diversidade, ampliando suas importações do exterior e do resto do Brasil. Durante todo esse período e até os anos de 1940, os setores em que era expressivo o trabalho assalariado na economia gaúcha foram a indústria, o comércio e os serviços, no meio urbano a pecuária e a lavoura de arroz no meio rural (p. 3).. Conforme Pereira (2006):. A lavoura do arroz no estado constitui-se na primeira empresa agrícola de caráter eminentemente capitalista e formou-se de forma parcialmente integrada a economia do charque. A produção em grande escala data de princípios do século XX com a disseminação da cultura irrigada. Essa atividade se caracterizou pela introdução do assalariamento do trabalho, pela separação entre arrendatário capitalista e proprietário rural, pela formação da renda fundiária capitalista, pela utilização de equipamentos e insumos industriais alguns dos quais produzidos no estado e pelo suprimento de demanda urbana (p. 6).. Podemos tomar como referência todas essas modificações presentes na citação acima trazidas pela lavoura irrigada de arroz. Porém, é preciso ressalvar que os processos apontados pelo autor ocorreram gradualmente ao longo do século XX. Como veremos, a utilização de equipamentos e insumos industriais foi mais tardia do que a expansão do arrendamento e do assalariamento na lavoura de arroz. Concomitante à lavoura de arroz irrigado, desenvolveram-se atividades industriais, tanto as que forneciam equipamentos para o preparo do solo como as que beneficiavam o produto, estocavam e distribuíam. Segundo Mertz, (2007):. Algumas das questões técnicas importantes foram resolvidas pelos descendentes dos colonos imigrantes não ibéricos. Eles conheciam os processos de descascamento do arroz, pois o arroz de sequeiro era produzido em pequena escala na zona colonial, e também abriram fábricas que produziam bombas sugadoras de água e máquinas a vapor em Cachoeira do Sul (p. 217).. Para Soares (2007), a lavoura de arroz irrigado, com sua expansão, foi responsável pela migração do tipo rural-rural dos descendentes de colonos de forma significativa, para o aumento populacional no caso do município de Cachoeira do Sul, entre as décadas de 1940 até 1950 (p. 298). O município de Cachoeira do Sul, ao qual pertencia a vila de Restinga Sêca nesse período, tornou-se um dos principais produtores de arroz, e as atividades relacionadas à.
(19) 19 lavoura de arroz nesse período ocupavam uma grande quantidade de mão-de-obra. As mais diversas tarefas eram desempenhadas sem o uso de maquinário, dispondo só de força humana e tração animal. E mesmo a tração animal requeria pessoas para domar, preparar, conduzir, alimentar os animais, fabricar e consertar cangas, carroças e carretas utilizadas no transporte de arroz.. Utilização de insumos e implementos Segundo Bacha (2004, p. 149), no que se refere à utilização de tratores na agropecuária brasileira, ocorre um aumento na utilização desse maquinário, o qual era importado devido a ainda não existir a produção nacional destes. Em 1965 ocorre a criação do Sistema Nacional de Crédito Rural (SRNC), o que proporcionará para David (1995):. O crescimento da utilização de tratores, arados e colheitadeiras é conseqüência do processo de adoção da mecanização que se efetuou a partir da década de 1950. Entretanto, é em fins da década de 1960 que esse processo se intensifica, devido ao crescimento da agricultura moderna em virtude do padrão econômico baseado na produção de bens duráveis e de exportação, pois, a agricultura com a função de gerar divisas passou a utilizar máquinas, equipamentos agrícolas e insumos industriais (p. 33).. Mesmo com a política do governo, na década de 1960 e até a metade da década de 1970, os tratores adquiridos foram a um preço que não estava acessível a todos os produtores, e eram máquinas que não dispunham de muitos recursos, desempenhando poucas funções na lavoura de arroz. Essas máquinas geralmente possuíam rodas de ferro e na lavoura de arroz irrigado a terra era úmida, o que dificultava o trabalho destes, que facilmente atolavam, não substituindo completamente a tração animal. Assim, essa substituição aconteceu de forma gradual e limitada, nesse momento, sendo que o mesmo ocorreu com as primeiras colheitadeiras empregadas na lavoura de arroz. Por sua vez, os insumos químicos não eram utilizados de forma geral por todos os produtores. A utilização destes requeria conhecimento e acompanhamento de um profissional da assistência técnica, o que não estava disponível a todos os produtores e necessitava também de investimentos financeiros para aquisição dos insumos. Esse fenômeno pode ser evidenciado no gráficos 1 e 2, que demonstram que, mesmo com o progressivo aumento na área plantada de arroz no Rio Grande do Sul (gráfico 1), não ocorre uma ampliação semelhante no aumento da produtividade (gráfico 2). A produção durante este período, apesar de no ano de 1953/54 alcançar a média no estado de 60 sacas.
(20) 20 por hectare, no período de 1950/60 a média fica em torno das 50 sacas. Isso demonstra que a limitação da difusão de maquinários impediu a intensificação da produção de arroz no Estado.. Crédito e apoio governamental: as décadas de 1970 e 1980 Em 1935, o Banco do Brasil criou a Carteira de Crédito Agrícola e Industrial. Esta somente começou a operar em 1937, mas os volumes significativos de crédito rural ocorreram a partir da metade da década de 1960 (BACHA 2004). Essa carta de crédito pode ter sido responsável pelo aumento da área plantada, e do pequeno aumento da produção em sacas por hectare a partir de 1937, o que pode ser evidenciada neste período conforme os gráficos 1 e 2. Conforme Bacha (2004):. O período de 1946 a 1964 caracteriza-se pelo predomínio de idéias cepalinas de que o desenvolvimento deve ser liderado pela industrialização e não pela agropecuária. Essas idéias fundamentaram o estabelecimento de planos econômicos visando incentivar as atividades industriais via a substituição de importações (p. 143).. Buscando incentivar a indústria nacional, o governo facilita as importações. Mesmo a agropecuária ficando de fora da proposta do governo nesse período, as baixas taxas de importação fazem com que ocorra a aquisição de máquinas na agricultura por agricultores que utilizavam recursos próprios para a aquisição destas. Referente a política agrícola do governo Bacha, (2004) aponta que:. No período de 1946 a 1964, poucas políticas foram adotadas de modo a estimular o crescimento da agropecuária. Entre elas se ressaltam: a ampliação da malha rodoviária, permitindo a expansão da fronteira agrícola; e a criação por parte de governos estaduais, a partir de final da década de 40, das associações de crédito e assistência técnica (ASCAR) e das companhias agrícolas visando à venda de insumos e equipamentos agropecuários. Estas últimas permitiam à agropecuária tornar-se um mercado para produtos industriais (p. 146).. Dentre as medidas adotadas a partir de 1960 o governo federal passa a desestimular as importações de maquinários, no sentido de incentivar a criação de um mercado consumidor interno para as indústrias que se instalassem no Brasil (OSÓRIO, p. 31). Para Osório (1992), a origem da modernização do setor agropecuário brasileiro, nos anos 1970, está ligada à década de 1960 e às mudanças políticas deste período, onde visualiza-se uma nova estratégia de política monetária..
(21) 21 Essa política governamental se intensifica com a ampliação do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR) a partir de 1970, quando passa a haver mais recursos disponíveis para a agricultura. (BACHA, p. 157). O SNCR tem papel fundamental no desenvolvimento do processo de modernização a partir do momento em que vai financiar o crédito rural, responsável por uma nova fase, que de acordo com Souza & Lima (2001) apud NICOLA, D. S.; PAZ, M. V. & FREITAS, C. A. (2006):. [...] obteve no crédito rural subsidiado um de seus principais indutores, esse processo (modernização) resultou em grandes alterações na forma de produzir e nas relações deste setor com os demais segmentos da economia, promovendo as transformações de base técnica, com o incremento do uso de diversas inovações tecnológicas, como a mecanização e o emprego de diversos insumos industrializados. (p. 2).. Portanto, o arroz, um dos principais alimentos consumidos nas grandes cidades brasileiras, passa a receber incentivo através dos subsídios, proporcionando assim a aquisição de maquinário, para Jansen: “a lavoura de arroz foi responsável pela primeira onda de mecanização da agricultura (2006, p. 4)”. De acordo com Jansen (2006), a situação da lavoura de arroz nesse período podia ser descrita da seguinte maneira: [...] no período de 1975 a 1980, o produto agrícola do Rio Grande do Sul deixa de se expandir em razão do esgotamento de terras que impossibilitou o crescimento das grandes lavouras de arroz, soja e trigo. A partir daí, a expansão da produção agrícola só seria possível através de aumento da produtividade. (p. 4).. Percebe-se que com a baixa produtividade antes de 1975, em razão de o produtor não repor os nutrientes fundamentais a rentabilidade do solo, e a pouca disposição de terras para aumentar a área de plantio, a alternativa que se tem é procurar desenvolver novas técnicas de plantio e manejo, a fim de se ter um aumento da produção utilizando a mesma área. Isso ocorre quando se passa a utilizar os insumos químicos e fertilizantes, já que estes teoricamente passam a fornecerem à planta os nutrientes essenciais para seu desenvolvimento. Segundo Marin S. R. & Waquil, (2002): A política cambial por administrar a taxa de conversão das diferentes moedas é muito importante para a agricultura gaúcha e mais especificamente para o setor de grãos. Fato comprovado pela representatividade das exportações gaúchas da década de 1970, favorecida pelas políticas econômicas nacionais, cujo principal produto exportado era a soja. Porém, mesmo na crise da economia brasileira nos.
(22) 22 anos oitenta, o setor de grãos gaúcho, mais especificamente as culturas de arroz, milho, soja e trigo, responderam por cerca de 80% da produção agrícola do Estado. Além disso, ocupavam, em termos de área colhida, mais de 90% da área utilizada pela lavoura no Rio Grande do Sul. Os dados reforçam a importância de se relacionar as diferentes formas da política cambial com o comportamento do setor de grãos (p. 2/3).. Em relação às novas tecnologias empregadas na agricultura, segundo Muller (1998) apud Jansen (2006) ressaltam que: De um modo geral, os ganhos de produtividade registrados entre 1970 e 1980 ocorreram muito mais em decorrência da aplicação de fertilizantes, defensivos e maquinários adquiridos através de políticas de crédito subsidiado do que de mudanças na estrutura fundiária, de melhorias no manejo do solo, de aprimoramento do produtor ou do desenvolvimento de variedades mais produtivas e robustas. (p. 4). Com a utilização de defensivos químicos, consegue-se eliminar ervas daninhas que prejudicavam o desenvolvimento da planta e que roubavam os nutrientes desta, sendo possível ter um grão com maior qualidade. Com a aplicação de defensivos químicos, podese aumentar a produtividade da lavoura sem precisar aumentar a área plantada, o que não interfere na forma de distribuição da terra no estado. Segundo Jansen (2006), “o arroz foi um dos poucos produtos agrícolas do estado cujos níveis de produtividade se mantiveram muito superiores à média nacional durante a década de 80”. (p. 5). Referente a década de 1970, Marin S. R. & Waquil, (2002) enfatizam que: A expansão da economia agrícola nesse período aproveitou as condições favoráveis das políticas econômicas brasileiras via estímulo às exportações e dos incentivos da demanda externa. Os efeitos diretos dessa combinação de fatores sobre o setor agrícola refletiram na produção, emprego e renda. A produtividade decorreu do acesso ao crédito farto e subsidiado que possibilitou o uso intensivo de fertilizantes, defensivos e máquinas. Não ocorreu incorporação de novas terras nas áreas já cultivadas, principalmente nas destinadas para o cultivo da soja (p. 8).. No período seguinte, que corresponde à metade da década de 1980, mesmo ocorrendo a diminuição, dos subsídios a produção no Estado ainda mantém um aumento significativo, o que segundo Marin S. R. & Waquil, P. D. (2002):. O período de 1980 a 1995 representou um verdadeiro paradoxo para a agricultura: na medida em que reduziam créditos e incentivos, aumentaram a produção e a produtividade com a redução da área plantada (p. 10)..
(23) 23 O período entre 1970 e 1985 No período de 1970 até 1985, devido aos incentivos governamentais, ocorre no estado um aumento tanto dá área plantada como da produção de arroz (ver gráficos 1 e 2), inclusive da substituição da área destinada ao plantio de soja, que se intensificou a partir de sua introdução no estado a partir das décadas de 1960 e 1970. Esse aumento conjugado da área e da produtividade aconteceu porque, com a utilização de maquinários modernos, insumos, fertilizantes e o desenvolvimento de novas técnicas de plantio, áreas que não eram utilizadas em função das condições e da baixa produtividade, passaram a ser exploradas. Os gráficos 1 e 2 nos mostram os dados referentes aos anos e as áreas destinadas ao plantio e à produção de arroz no estado, onde ocorre o aumento da produção deste, e o crescimento da área utilizada no plantio, entre os anos de 1970 até 1986. A utilização de novas variedades de sementes, tanto importadas como desenvolvidas no Estado pelo IRGA, introduzidas na lavoura de arroz ao longo do período de 1970-1985, também contribuiu de forma significativa no aumento da rentabilidade desta lavoura. Ao mesmo tempo em que permite uma melhor produção em uma escala de tempo menor, ocasionando assim um gasto menor de água na irrigação, o que requer também menos tempo de manejo. Cabe lembrar, que algumas variedades de arroz levavam em torno de seis messes do plantio até a colheita. E com as novas variedades este tempo cai para quatro meses. Com a utilização da água dois meses a menos, em média, foi possível ampliar a lavoura sem ter que aumentar os açudes ou barragens. Entre os anos de 1970-1985 a agricultura passa a dispor de fortes incentivos governamentais, fato este que permite a aquisição e utilização de insumos químicos e fertilizantes. Com a utilização de insumos químicos ocorre o fornecimento de nutrientes fundamentais para o desenvolvimento do arroz, ao contrário das décadas anteriores onde pouco se usava esses insumos. Tendo, a partir disto, uma melhora na produção, do mesmo modo, com a compra e aplicação de defensivos químicos (fungicidas e herbicidas), passa-se a ter um controle maior das ervas daninhas, as quais comprometiam tanto a qualidade do produto como também sua produção. Antes da utilização de herbicidas o controle das ervas daninhas era feito manualmente com capinadeiras de tração animal, o que levava tempo e requeria um número considerável de pessoas, ou com a utilização da enxada, o que também necessitava de um grande número de pessoas para realizar a atividade..
(24) 24 Conforme Cezar (2008), entretanto, considerando que a mecanização do campo aumentou a produção e que esse aumento fez cair o preço do arroz, tornou-se inviável que pequenos produtores continuassem plantando com baixa tecnologia e rendimento para obter um pequeno retorno (p. 19). Isso fez com que este processo fosse excludente aos pequenos proprietários, não sendo beneficiados pelo crédito para a compra de maquinários e uso de insumos e defensivos químicos. Somando-se a este processo de modernização da agricultura, com a introdução de maquinários, as atividades onde ocorria a utilização expressiva da mão-de-obra passam a ser substituídas pela máquina, diminuindo a população rural do Estado e consequentemente o aumento da população urbana. Para DAVID (1995), potanto, [...] a modernização do campo provocou, além da redução da força de trabalho familiar em favor da assalariada, a queda dos salários e da exigência cada vez maior de mão-de-obra especializada; o êxodo dos trabalhadores e pequenos produtores do campo, para as áreas urbanas ou para as zonas de expansão agrícola, cujas dificuldades de sobrevivência e trabalho são, na maioria das vezes, piores que nas áreas de origem (p. 36).. Conforme Valente, “a mecanização introduzida na agricultura brasileira visa, principalmente, substituir o trabalho humano, elevar a produtividade, vender produtos industriais aos agricultores e agrícolas às indústrias e acumular capitais pelos grandes grupos econômicos (p.26).” Na primeira metade da década de 1980, o processo de modernização da agropecuária continuou, porém, em uma escala mais lenta se comparada à década anterior, o que pode ser atribuído à diminuição da aquisição de maquinários, afinal, como já foi dito, algumas das máquinas possuem uma vida útil longa, necessitando somente da reposição de algumas peças..
(25) 25 A modernização da lavoura de arroz irrigado em Restinga Sêca (1970 – 1980). O território do atual município de Restinga Seca pertencia ao município de Cachoeira do Sul. A origem da ocupação luso-brasileira no local aconteceu a partir da distribuição de sesmarias, em fins do século XVIII. O impulso para formação do centro urbano se deu com a construção da ferrovia Porto Alegre-Uruguaiana em 1885. No local onde mais tarde se localizaria a cidade de Restinga Sêca existia apenas uma caixa d’água com a finalidade de abastecer as locomotivas, o que deu origem ao nome da localidade de Caixa D’Água, que em 1898, após a reivindicação dos moradores do local e comerciantes das localidades vizinhas, inauguram a estação com o nome de estação de Restinga Seca (OLIVEIRA, 1983).. FIGURA 1 – Mapa da localização do Município de Restinga Sêca no estado do Rio Grande do Sul..
(26) 26.
(27) 27 Em 1892, Restinga Sêca passa a ser o quarto distrito de Cachoeira do Sul, permanecendo assim até o final da década de 1950. Emancipou-se de Cachoeira do Sul em 25 de março de 1958. Mesmo com a emancipação do município de Restinga Sêca, a ligação entre os dois municípios manteve-se intensa em função da ferrovia Porto AlegreUruguaiana, que cortava o interior do Município, onde existiam estações de passageiros como Estiva e Jacuí. Era comum nesse período agricultores do interior de Restinga Sêca irem a Cachoeira do Sul buscar peças, combustíveis e fazer compras no comércio. Isso fez com que a maior parte da produção agrícola fosse vendida em Cachoeira do Sul, ocorrendo o mesmo em relação à produção de arroz. Cachoeira do Sul possuía nesse período uma atividade industrial voltada a atender a produção de arroz. A documentação das propriedades rurais do município de Restinga Seca estavam nos cartórios de Cachoeira do Sul (OLIVEIRA, 1983). O Município de Restinga Seca, está localizado na região central do Rio Grande do Sul, conforme a figura 1. Seu território é cortado pelos rios, Jacuí, Vacacaí e Vacacaí Mirim, ambos pertencentes à bacia hidrográfica do rio Jacuí, possuindo assim grandes extensões de terras de várzeas, e grande disponibilidade de água, propícias à formação de lavouras de arroz irrigado. Somando-se a isso, um relevo predominante na Depressão Central do Estado que permite a construção de açudes e barragens. A produção de arroz no município desenvolveu-se quando este pertencia a Cachoeira do Sul, tendo sido, como já foi dito, Cachoeira do Sul um dos dois primeiros pólos onde desenvolveu-se a produção de arroz no estado. Esta produção em Rêstinga Seca iniciou-se em alguns casos para atender a demanda famíliar ou como atividade secundária, servindo para aproveitar um espaço que era propício ao desenvolvimento desta ou fora do expediente de trabalho, como uma atividade que não necessitava de muito investimento e com a utilização da tração animal. Entretanto, no período da década de 1950, em algumas propriedades, esta lavoura ocupa grandes áreas de terras, sendo considerada a atividade principal de alguns estabelecimentos conhecidas como as “Empresas”. Nessa década, ao contrário do que aconteceria a partir de 1970, mesmo a baixa produção proporcionava renda, em um período pequeno de tempo, uma vez que a atividade ocorria nos meses de verão, o que servia de atrativo para alguns agricultores, ocorrendo a expansão mesmo que de forma lenta desta atividade. Segundo Zimer(2008), a lavoura de arroz antes da década de 1970 era considerada como uma atividade que não necessitava de muitos investimentos, pois para o.
(28) 28 desenvolvimento desta exigia poucos recursos. Assim, [...] não se usava veneno, não se usava adubo, era água e semente boa (ZIMER, 2008). Da mesma maneira que no Estado, no período de expansão, a lavoura de arroz em alguns casos desenvolvia-se junto à criação de gado. Dessa forma,. [...] já terminava a colheita e já começava a girar outra área, que era, que naquele tempo fazia rodízio de cultura lavrando, que era a agropecuária, então no caso lavrava a grama e deixava a resteva para o gado [...] (Milanesi,V. 2008).. Com a expansão da soja no Estado a partir de 1965, em Restinga Sêca também ocorre um aumento da produção desse grão, que passa a ser plantado nas várzeas em áreas com pouca disponibilidade de água, ocorrendo o rodízio de culturas no mesmo terreno, onde um ano se plantava soja no outro se plantava arroz. Com a mecanização em substituição à tração animal, pôde-se diminuir a criação de gado para plantar soja, então: [...] começou a época boa do plantio da soja e depois a soja começou a produzir menos e deu problema de estiagem aí nós paramos com o plantio da soja e permanecemos só no arroz aí aumentamos a área de arroz pra uns oitenta ou noventa hectare de arroz (MILENESI, J. 2008).. Para Valdir Milanesi, V.(2008), o que ocorreu a partir daí, foi:. [...] a dobradinha arroz e soja que foi a revolução na agricultura, que botou um monte de gente a correr do campo por causa da mecanização, no caso de colheitadeiras, tratores, financiamento que até aquela época pouco existia ou quase não existia.. Mesmo com o fato de a produção de sacas de soja por hectare ser menor que a de arroz, o alto valor da saca de soja tornava mais rentável a sua produção em relação ao arroz. Mesmo colhendo muito arroz, o preço era inferior ao da soja. Mas sendo a soja responsável por agregar à atividade agrícola o caráter modernizador, a partir da produção de soja desenvolveram-se melhor as técnicas de adubação e preparo do solo. Em 1975, ocorreu a diminuição do preço da soja, os agricultores já tinham adotado a mecanização e ampliado os açudes e barragens deixando assim de plantar soja nas várzeas, como anteriormente era feito no rodízio de culturas. Durante este período, que é anterior à década de 1970, a lavoura de arroz irrigado tem como característica a utilização de uma expressiva mão-de-obra nas diversas etapas da produção e principalmente na colheita, em função das atividades manuais e do predomínio da tração animal, pois:.
(29) 29 [...] na época da trilhadeira e da carreta de boi nós plantava (sic) em torno de quarenta e nove hectares, nós precisava (sic) assim para colher quarenta hectares, umas quarenta pessoas isso para colher em quinze, vinte, trinta dias dependendo do tempo depois para trilhar, aí envolvia mais cinco, seis carretas, mais carregadores envolvia mais umas trinta pessoas para trilhar mais ou menos isso, em vinte, trinta dias para fora (MILANESI, M. M. 2008).. Referindo-se à colheita com o uso da trilhadeira e a grande quantidade de pessoas envolvidas nesta atividade. Zimer descreve que. [...] na trilhadeira pra funcionar nós precisava de quatorze pessoas, com os que encostavam, os que embocavam e os que costuravam e os que tiravam a palha no fundo da trilhadeira a garfo. No de passar mais três, dois três anos aí veio a trilhadeira com exaustor que jogava a palha trinta, quarenta metros longe pro lado que queria giratória, e já se dispensou aquele homem do garfo1, (2008).. A partir do depoimento fica evidente que uma pequena inovação já eliminou uma atividade que era desempenhada por um funcionário.O maquinário utilizado no preparo da lavoura de arroz no período anterior à década de 1970 era de uso limitado e não desempenhava muitas funções. Segundo Zimer:. Começamos a planta ainda, a lavração era feita a boi ou pescoço de boi como diziam, e a discação já com trator a gasolina e querosene, [...], (2008).. Não ocorrendo em um primeiro momento a total substituição da tração animal, nas atividades relacionadas à lavoura de arroz. A figura 2 serve como ilustração de como era o maquinário adquirido nas décadas anteriores a 1970. Conforme os agricultores entrevistados, estes primeiros tratores adquiridos possuíam rodas de ferro e não possuíam braços hidráulicos sendo pouco usados porque o terreno era úmido e esse poderia atolar, além de não possuir uma boa dirigibilidade.. 1. Homem do garfo, era o funcionário responsável pela retirada da palha do arroz no fundo da trilhadeira durante o processo de trilharem o arroz..
(30) 30 FIGURA 2 – Trator que foi adquirido pela família Milanese antes de 1950.. Fonte:Acervo particular de Rodrigo da Rocha (2008).. Referente à aquisição e utilização de maquinário, o Sr. Marsílio P. Zimer conta que:. [...] no ano de sessenta e sete [1967] eu junto com meus sócios se animamos a comprar uma colheitadeira usada John Deere, a famosa John Deere que tem hoje, só que era importada. E começamos a trilhar, cortar com a colheitadeira, mas algumas partes onde não atolava muito, as outras era feita (sic) a boi, encostavam na trilhadeira, então a colheitadeira colheu pouco no primeiro ano[...] (2008).. A aquisição de maquinário no período anterior a década de 1970, ocorria conforme o relato de Altermann: “Era praticamente com recursos próprios, era difícil o acesso a bancos”(2008).. A partir da década de 1970, em especial depois de 1975, ano em que a maioria dos agricultores já não utilizava a tração animal no preparo da lavoura, a lavoura de arroz passa a disponibilizar de incentivos governamentais, subsídios agrícolas que possibilitaram a aquisição de maquinário para a lavoura, a compra de insumos, gerando assim, um aumento significativo na produção de arroz no período. Segundo Milanesi, V. isso ocorreu porque:.
(31) 31 [...] mais ou menos nos anos setenta que começou, que foi a revolução na agricultura, principalmente por incentivo começou a financiamento do Banco do Brasil, financiamento de máquina de implementos e outros insumos[...] (2008).. Esse aumento da produção ocorreu:. [...] a partir de setenta e dois, quando foi comprado maquinário né, aí foi aumentado. E nós também plantava (sic) pouco devido à água, não a gente não tinha água e os açude eram pequenos, então a gente plantava, plantava menos, depois foi aumentado os açudes e foi aumentado a área (MILANESI, A. A. 2008).. Junto com a utilização de incentivos governamentais, o aumento da produção de arroz ocorreu com a utilização de novas variedades de sementes. Referente ao aumento da produção, Milanese, J. aponta a inserção de novas variedades de sementes:. [...] eu acredito que tenha começado depois de mil novecentos e setenta, setenta e três, setenta e quatro com a entrada dessas variedades modernas (sementes) que foram importadas dos Estados Unidos veio o Blue Belle, o Dall e depois quando entrou que incrementou mesmo a produção foi quando entraram essas variedades do IRGA, essas variedades que o IRGA criou, 409 o 416[...] (2008).. A partir da disponibilidade de crédito para o preparo da lavoura, ocorreu um aumento no uso de fertilizantes e defensivos químicos no Estado e em Restinga Sêca. Tabela nº. 1- Uso de Fertilizantes e defensivos por estabelecimentos no Rio grande do Sul. Anos. Fertilizantes químicos. Adubos Orgânicos. Calcário. 1970. 141.826. 72.824. 28.318. -. 1975. 242. 019. 117.104. 66.833. 237.809. 1980. 307.972. 179.439. 78.028. 273.084. 1985. 309.798. 304.779. 76.601. 447.010. Fonte: FIBGE – CENSO AGROPECUÁRIOS DE 1975, 1980, 1985.. (T) - Tonelada. Defensivos agrícolas.
(32) 32 Tabela nº. 2- Uso de Fertilizantes e defensivos por estabelecimentos em Restinga Seca. Anos Fertilizantes Adubos Calcário Defensivos químicos Orgânicos agrícolas 1970. 514. 68. 95. -. 1975. 1.100. 101. 282. 1.419. 1980. 1.352. 375. 483. 1.729. 1985. 1.307. 1.435. 305. 1.679. Fonte: FIBGE – CENSO AGROPECUÁRIOS DE 1975, 1980, 1985.. Segundo a tabela 1, a partir de 1975 até 1985 ocorreu um crescimento da utilização de adubos e fertilizantes químicos no Estado o que conforme a tabela 2 também aconteceu em Restinga Sêca. A utilização de calcário apresentada nas tabelas 1 e 2, tem uma diminuição no período de 1980 a 1985 Isso pode ser atribuído ao fato de que a correção feita com calcário serve para corrigir a acidez do solo, não sendo necessário repetir o processo todo ano. Referente à utilização de insumos químicos Milanesi, J. relata que esta ocorreu. [...] a partir de setenta [1970], mas eu acho que foi a partir de setenta e seis [1976] que houveram os incentivos como incentivo para a compra de adubo, tinha subsídio do adubo (2008).. Conforme as entrevistas realizadas com os agricultores que plantavam arroz nos anos de 1970 até 1985, a aquisição de maquinários antes de 1970-75 ocorre, na maioria das vezes, com a utilização de recursos próprios, recursos estes que provinham tanto da agricultura quanto da pecuária e geralmente estes maquinários eram pagos à vista. Isto porque,. Antes de mil novecentos e setenta, era alguma coisa pelo ministério da agricultura e mais e com recursos próprios. Eu não vi falar em financiamentos de bancos para comprar colheitadeiras, tratores. Dos anos setenta pra cá que o governo começou a incentiva, a agricultura, a compra de tratores e colheitadeiras (ZIMER, 2008).. Tal assertiva é ressaltada com Milanesi, V., pois “era com recursos próprios e se usava pouco maquinário, o mais era braçal, era animal, tração animal e braçal”(2008)..
(33) 33 Tabela nº. 3- Máquinas e implementos agrícolas no Rio Grande do Sul. Anos Tratores Arados Maq. Plantio Maq. Colheita 1970. 39.993. 37.171. -. 18.619. 1975. 77.254. 81.599. -. 21.437. 1980. 120.070. 136.039. 70.793. 35.855. 1985. 138.540. 141.521. 86.254. 35.767. Fonte: FIBGE – CENSO AGROPECUÁRIOS DE 1975, 1980, 1985. - Dados inexistentes.. Tabela nº. 4-Máquinas e implementos agrícolas em Restinga Seca. Anos Tratores Arados Maq. Plantio. Maq. Colheita. 1970. 413. 213. -. 126. 1975. 758. 666. -. 137. 1980. 980. 976. 499. 167. 1985. 1057. 1005. 636. 248. Fonte: FIBGE – CENSO AGROPECUÁRIOS DE 1975, 1980, 1985. - Dados inexistentes.. Conforme Milanesi, V. a aquisição de maquinários através do incentivo governamental ocorreu [...] mais ou menos nos anos setenta [...] que foi a revolução na agricultura2, principalmente por incentivo começou o financiamento do Banco do Brasil, financiamento de máquina de implementos e outros insumos [...] (2008).. Vale dizer que em 11 de novembro de 1976, o Banco do Brasil inaugurou uma agência bancária no município de Restinga Seca. Como se pode notar nas tabelas 3 e 4, a partir de 1970 ocorreu uma crescente utilização de maquinários tanto no Estado como em Restinga Sêca. Com a observação das tabelas percebe-se que as máquinas para a colheita são em menor número do que os demais maquinários, o que pode ser atribuído ao fato de que estas, durante o período observado, receberam melhoramentos que possibilitaram colher uma maior quantidade de grãos em menor tempo, e o valor de uma colheitadeira geralmente é superior aos outros implementos. 2. A revolução que o agricultor se refere é a modernização da agricultura na década de 1970..
(34) 34 A aquisição de maquinário foi significativa para a organização da lavoura de arroz, na medida em que possibilitou ao produtor inovar nas técnicas de plantio, onde ocorreu gradualmente a substituição da tração animal no preparo do solo. A tração animal conforme a figura 3, era desempenhada pelas juntas de bois e fazia-se necessário um número significativo de animais e pessoas para o manejo destes, devido a estes animais terem uma jornada de trabalho limitada, tornando-se necessário ter à disposição várias juntas de bois, para irem revezando no trabalho. À medida que os animais iam cansando, eram trocados por outros. FIGURA 3 – Preparo do solo com tração animal.. Fonte: IRGA. Utilizando o trator, em especial os que possuem braços hidráulicos e comando hidráulico, permitindo o trabalho com caçambas, possibilitando o transporte de terra, podendo-se construir novos açudes e barragens, como também aumentar os que já haviam. Ocorre, assim, um aumento da capacidade de captação de água, o que permite ampliar a área destinada ao plantio de arroz. Nesse sentido, a utilização do trator permitiu ampliar a jornada de trabalho e diminuiu a necessidade de trabalhadores. As colheitadeiras iam se aprimorando com o passar do tempo, sendo que as primeiras colhiam o grão e este era ensacado por um funcionário que também costurava a saca de arroz e descarregava na lavoura. Esta saca de.
(35) 35 arroz era recolhida por outro grupo de funcionários, que em geral eram três, e colocadas no reboque do trator, o qual era depois descarregado na secadeira, ou na entrada da lavoura, até o recolhimento deste por um caminhão que o levaria até o silo secador. Com a adaptação de graneleiro nas colheitadeiras, estas além de colher armazenavam o grão. Quando enchia o graneleiro, o arroz era despejado em uma carreta graneleira ou em reboques puxados pelo trator, mas não necessitou-se mais do ensacamento do grão para o transporte. As colheitadeiras, no decorrer do tempo, tiveram sua plataforma e tamanho aumentado. Essa passou a contar com esteiras de ferro e tração nas quatro rodas, motores mais potentes, o que impedia que esta atolasse com facilidade, aumentando a capacidade de armazenamento de grão colhido. Peneiras e rotores mais eficazes também evitavam os desperdícios, permitiam colher em uma velocidade maior, o que economizava tempo. Proporcionando ao agricultor maior tranqüilidade na colheita, já que esta ocorre nos meses entre o final do verão e durante o outono, período em que os dias chuvosos são mais freqüentes e que uma chuva forte pode derrubar o grão, causando prejuízos ao produtor. Porém, à medida que os avanços tecnológicos aumentavam, crescia também o valor de mercado desses maquinários. E passou-se a ter uma despesa com combustíveis, lubrificantes, peças, entre outros produtos utilizados na manutenção desses maquinários. Com a utilização de tecnologia, permite-se diversificar o modo de plantio e inovar as técnicas de irrigação, permitindo ao agricultor utilizar menos água na irrigação do arroz. Isso ocorreu com a adoção dos patamares, quadros de terras que tem o mesmo nível em todas as extremidades, que foram emparelhados por tratores utilizando implementos movedores de terras. Estes são cercados por uma taipa alta, que impede que a água saia, permitindo usar uma quantidade menor de água em relação ao modo de plantio tradicional com taipas. Os patamares, além de possuírem o mesmo nível nas extremidades, podem reter a água das chuvas com maior eficácia, gerando uma economia desta que é tão necessária na irrigação do arroz. No caso da lavoura de taipas, esta requer um cuidado maior. Quando chove, se as chuvas forem em grande quantidade acabam rebentando as taipas e provocando alguns estragos. Cabe salientar que para fazer patamares, precisa-se de certo capital para ser investido, pois estes envolvem um gasto com combustível e o desgaste de equipamento, além da necessidade de dispor de condições climáticas favoráveis para o desenvolvimento do trabalho..
(36) 36 Modernização agrícola e despovoamento do campo em Restinga Sêca (1970-1985) Tabela nº. 5-Produção de arroz no Rio Grande do Sul Anos Arroz(T) Área (HA) 1970. 1383.516. 451.261. 1975. 1876.215. 543.480. 1980. 2249.425. 622.162. 1985. 3537.302. 798.709. Fonte: FIBGE – CENSO AGROPECUÁRIOS DE 1975, 1980, 1985. (T) - Tonelada (HA) – Hectares. Tabela nº. 6-Produção de arroz no Restinga Sêca. Anos Arroz(T) Área (HA) 1970. 23.679. 7.929. 1975. 28.315. 8.491. 1980. 28.635. 7.846. 1985. 45.483. 10.134. Fonte: FIBGE – CENSO AGROPECUÁRIOS DE 1975, 1980, 1985. (T) - Tonelada (HA) – Hectares. Milanesi, M. M. refere-se que o aumento da produção de arroz. [...] lá por volta de setenta e cinco (1975), por aí não tenho bem recordação que entrou aqueles arroz (sic) americanos entrou o agulhinha e aí aumentou um pouco a produtividade e mais o adubo que começamos a colocar e fertilizante, aí melhorou aumentou não digo dobro (sic), mais aumentou uns trinta por cento a mais tranquilamente (2008).. Não é possível afirmar que o processo de modernização da lavoura de arroz irrigado foi a única causa da diminuição da população rural, em contraste com o aumento da população urbana, verificados em Restinga Sêca, nas décadas de 1970 e 1980, mas certamente foi um dos fatores que concorreram para tanto. E foi um fator importante. Como foi possível perceber, a partir dos depoimentos dos agricultores entrevistados, a introdução de maquinários modernos diminuiu grandemente a necessidade de trabalhadores para a lavoura de arroz, que era a principal produção rural do município. Ao mesmo tempo,.
(37) 37 ocorreu a diminuição da população rural e aumento da população urbana. Esse processo é evidenciado nas tabelas 7 e 8.. Tabela nº. 7 -População Residente, por situação do domicílio e por sexo no Estado1970 – 1980 Total. Anos. Homens 1970 46.331.343 1980 59.123.361 1991 72.485.122. Urbana. Mulheres Homens 46.807.694 25.227.825 59.879.345 39.228.040 74.340.353 53.854.256. Mulheres 26.857.159 41.208.369 57.136.734. Rural Homens 21.103.518 19.895.321 18.630.866. Mulheres 19.950.535 18.670.976 17.203.619. Fonte: IBGE, Censos demográficos 1970, 1980, 1991.. Tabela nº. 8-População Residente, por situação do domicílio e por sexo no município de Restinga Seca- 1970 – 1980. Total. Anos 1970 1980 1991. Homens 8.041 7.303 7.635. Mulheres 7.754 7.132 7.607. Urbana Homens 1.035 2.257 3.275. Mulheres 1.204 2.358 3.418. Rural Homens 7.006 5.046 4.360. Mulheres 6.550 4.774 4.142. Fonte: IBGE, Censos demográficos 1970, 1980, 1991.. Devido aos recenseamentos, os mesmos ocorrerem de 10 em 10 anos, portanto não dispomos de dados referentes à população urbana e rural no ano de 1985 para observação. Anterior à década de 1970, a lavoura de arroz, como já foi dito, necessitava de uma grande oferta de mão-de-obra para o desenvolvimento das diversas etapas da produção. Com a modernização e a introdução de maquinários modernos, ocorreu a diminuição da tração animal na atividade agrícola e consequentemente a utilização de um contingente expressivo de trabalhadores, fixos e temporários, principalmente no período da colheita. Assim,. antes de mil novecentos e setenta, antes de vim as colheitadeiras, como eu já disse, pra planta cem quadras, cento e setenta hectare, se usava fixo não era tanto, fixo era dezoito, quinze a dezoito, mas temporário na colheita até cento e cinqüenta homens. Em oitenta, eu tinha em torno de cinco, seis funcionários (ZIMER, 2008)..
(38) 38 Essa assertiva e ressaltada por Milanese, V.: “[...] com tratores bem dizer terminou os empregados e agregados que tinham, em cima da mesma área, aí bem dizer quase zero, que foi a grande, grande leva de pessoas para a cidade” (2008). O cultivo de arroz anterior à década de 1970 tinha como característica a lavoura em sociedade, que geralmente ocorria entre membros da mesma família, ou seja, como menciona Zimer “[...] uma parceria com o seu Evaldo meu sogro e o Almiro Alterman meu cunhado [...] (2008). A partir da mecanização e da diminuição do número de pessoas necessário nas atividades relacionadas à lavoura de arroz irrigado, torna-se uma atividade de caráter individualista,como bem sintetiza Milanesi, V.: “Aí, por causa da revolução3, e aí o Pai e os tios se separaram, aí bem dizer, zero os empregados [...] (2008).. 3. Refere-se a modernização da lavoura de arroz irrigado..
(39) 39 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS. Por meio da pesquisa realizada, foi possível observar que o período que se estendeu entre 1970-1985, foi de grandes transformações tecnológicas na lavoura de arroz irrigado no Rio Grande do Sul em geral e na localidade de Bom Retiro interior do município de Restinga Seca em particular. Através das entrevistas realizadas com os agricultores, podemos perceber as mudanças na lavoura de arroz irrigado, a partir do processo de modernização que proporcionou o aumento do uso de insumos químicos. Através da pesquisa desenvolvida neste trabalho, percebeu-se que a lavoura de arroz irrigado, no período anterior à década de 1970, tinha como característica uma atividade que possuía uma grande oferta de mão-de-obra. A implementação de tecnologia provocada pela aquisição de maquinário e a conseqüente intensificação do processo produtivo incidiram na diminuição do número de pessoas necessárias na lavoura de arroz. As inovações tecnológicas como fertilizantes e defensivos possibilitaram um melhor controle das ervas daninhas, da mesma forma que a utilização de maquinário permitiu a melhor preparação do solo para plantio e a adoção de novas técnicas. As novas variedades de sementes produziam em menor tempo, utilizando um volume menor de água na irrigação, fazendo com que ocorresse nos anos de 1970-1985 o aumento da produção de arroz irrigado. Contudo, foi possível observar, no mesmo período, um importante decréscimo da população rural do município de Restinga Sêca, bem como um aumento na população urbana. Esses fenômenos estavam relacionados. Ao reduzir a necessidade de trabalhadores na zona rural, a modernização e mecanização da lavoura de arroz irrigado (mais importante atividade produtiva do município) foi um dos fatores que influenciou para esses movimentos populacionais observados em Restinga Seca..
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