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PODER JUDICIÁRIO SEGUNDO TRIBUNAL DE ALÇADA CIVIL DÉCIMA CÂMARA

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PODER JUDICIÁRIO

SEGUNDO TRIBUNAL DE ALÇADA CIVIL DÉCIMA CÂMARA

APELAÇÃO COM REVISÃO Nº 585.190-0/8 – BOTUCATU

Apelante: CAPEMI Caixa de Pecúlios, Pensões e Montepios - Beneficente Apelada : Maria Luiza Claro

AÇÃO DE COBRANÇA. SEGURO DE VIDA. INDENIZAÇÃO POR MORTE. BOA-FÉ. Restou comprovada a boa-fé do segurado, pois ainda que se fale que ele tivesse consciência de algum mal, era sabido que estava clinicamente bem e acreditava ser portador de boa saúde. Não havia, dessa forma, como excluir o dever indenizatório diante do fato típico da responsabilidade, de maneira especial diante da

causa mortis constante da certidão de óbito.

EXAME MÉDICO. CONTRATOS DE SEGURO DE VIDA E DE SAÚDE. ISENÇÃO DE CARÊNCIA. As Seguradoras, ao que se evidencia pela generalidade, exigem rigorosos exames médicos e laboratoriais do particular para firmar com ele um contrato de saúde, principalmente quando o cidadão já tem uma certa idade. Ao contrário, em qualquer agência bancária e sem maior rigor, são convencionados numerosos contratos de seguro de vida mediante prêmio previamente estabelecido. Entretanto, após um evento, ou um sinistro, é sistemática a posição de recusa que adotam para não honrar o compromisso contratual.

SOCIEDADE CIVIL. COMPETÊNCIA. Trata-se de Sociedade Civil e não de entidade de direito público e, com isto, não há envolvimento formal das alegadas “... questões previdenciais ...”, mas questão referente “... a seguro de vida e acidentes pessoais”, previsto pelo item IX, do campo “Competência do Segundo Tribunal de Alçada Civil”, imposto pelo Provimento nº 51/98 do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Voto nº 4.381

Visto.

MARIA LUIZA CLARO ingressou com Ação

Ordinária de Cobrança contra CAPEMI – CAIXA DE PECÚLIOS, PENSÕES E MONTEPIOS - BENEFICENTE, qualificação e caracteres das partes nos autos, como beneficiária do irmão falecido REINALDO MARTINEZ, perseguindo o recebimento do valor constante da apólice de seguro de vida.

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Formalizada a angularidade a parte adversa apresentou contestação, que foi impugnada. Em audiência, inviabilizada a conciliação e saneado o processo, foram produzidas as provas orais, apresentando as partes memoriais.

Seguiu-se a entrega da prestação jurisdicional julgando procedente a pretensão condenando a CAPEMI:

“... a pagar à autora o valor do benefício contratado, no valor de R$40.000,00, acrescido de juros de mora, contados da citação e atualização monetária contada a partir do óbito do segurado Reinaldo Martinez (fls. 7). Condeno também a ré ao pagamento das custas processuais e honorários da advogado que fixo em 15% do valor final da condenação ...” (folha 138).

CAPEMI – CAIXA DE PECÚLIOS, PENSÕES E MONTEPIOS - BENEFICENTE interpôs recurso. Persegue a reforma da sentença com a inversão dos ônus da sucumbência, enfatizando entre outros pontos:

“... para que o(s) beneficiário(s) tenha(m) direito ao pecúlio legado pelo participante, necessário se faz seja feita prova do pagamento das contribuições mensais antes da ocorrência do evento morte do participante legatário ...” (folha 144).

“... no que diz respeito à falsa declaração de saúde, também nesta parte merece reparo a r. Sentença (...), pois a mesma também contraria completamente as provas dos autos e os dispositivos constantes do regulamento do plano, da lei que rege a Previdência Privada e do Código Civil ...”(folhas 145/146).

MARIA LUIZA CLARO questionou a representação por se encontrar o mandato da parte adversa vencido. No mérito contrariou as razões defendendo o acerto da decisão, uma vez que o falecido:

“... recebia seu pagamento, invariavelmente, no quinto dia útil do mês subseqüente ao trabalho (fls. 11, 12, 13)”.

“... a contribuição jamais poderia ocorrer, no sistema de desconto em folha de pagamento, na data estabelecida em contrato, ou seja todo dia 30 do mês” (folha 157).

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“... o segurado desconhecia, quando formalizou o contrato, a patologia que o levou a óbito, eis que a hipótese diagnóstica ocorreu aos 10 de abril de 1996, portanto posterior à data do contrato ...”(folha 160).

Concedeu-se prazo para regularização da representação. Ao atendê-la CAPEMI invocou o Provimento nº 51/98 do Tribunal de Justiça para sustentar a

incompetência desta Corte para o julgamento, por se tratar de questão previdenciária.

É o relatório, adotado no mais o da r. sentença.

O fato gerador da pretensão está evidenciado no Pecúlio com Acidentes Pessoais – Seguro de Acidentes Pessoais – Apólice nº 820.001 – CONAPP – Estipulante: CAPEMI (folha 50).

CAPEMI – Caixa de Pecúlios, Pensões e Montepios – Beneficente, antes denominada Caixa de Pecúlio dos Militares – Beneficente e, no início Caixa de Pecúlio Mauá - Beneficente – CAPEMA, adquiriu personalidade jurídica própria de 24 de julho de 1961, com o registro de seu Estatuto sob nº 8.677, no Registro Civil

das Pessoas Jurídicas, na Cidade do Rio de Janeiro, onde tem sede e foro.

Trata-se de Sociedade Civil (folha 175) e não de entidade de direito público e, com isto, não há envolvimento formal das alegadas “... questões previdenciais ...” (folha 173), mas questão referente “... a seguro de vida e acidentes pessoais”, previsto pelo item IX, do campo “Competência do Segundo Tribunal de Alçada Civil”, imposto pelo Provimento nº

51/98 do Tribunal de Justiça de São Paulo.

O contratante Reinaldo Martinez faleceu em 10 de maio de 1996, com 51 anos de idade, solteiro, vítima de “... Hemorragia Digestiva Alta com Choque, Hipertensão Protal, Cirrose Hepática de Etiologia não definida, Hipertensão Essencial, Cardiopatia Hipertensiva ...” (folha 7). Os motivos da recusa do pagamento estão compreendidos na falta de pagamento e na má-fé do falecido.

Aceita por “CAMPEMI - PREVIDÊNCIA – SEGUROS – SAÚDE” a PROPOSTA DE INSCRIÇÃO DO PARTICIPANTE (folha 14),

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firmado uma anterior (folha 52). Era conhecido, em termos, no sistema. Não se evidencia tenha firmado a “DECLARAÇÃO DE SAÚDE E ATIVIDADE” de 18 de março de 1996 (folha 53) com má-fé.

Pelo “Certificado individual” CAPEMI – PREVIDÊNCIA – SEGUROS – SAÚDE

, certificou que o subscritor foi aceito como participante do Plano Idade Certa da Capemi e como componente do Seguro de Acidentes Pessoais estipulado “... por esta com a CONAPP ...” (folha 8).

Restou fixado o valor contratado de R$40.000,00, com a definição de que “... o valor do benefício inclui o valor do seguro”, e que a contribuição contratada seria de R$61,20, a partir (1ª contribuição) de 04/1996. E, o que é mais importante: “... ISENTO DE CARÊNCIA ...” (folha 8). A sentença apreciou com propriedade o tema:

“... A própria requerida mostrou, pelo documento que juntou a fls. 50, que o sistema de pagamento seria por desconto em folha de pagamento, através de averbação. O documento invocado pela autora como prova de sua alegação não admite controvérsia. A ré chega mesmo a provar sua própria má-fé ao dizer que o seguro não foi pago pelo segurado, se ela mesma tratou de se incumbir da averbação para desconto em folha de pagamento ...” (folha 138).

A alegada má-fé por parte do falecido não restou demonstrada indene de dúvida nos autos. Era dever da parte que alegou o fato demonstrá-lo.

Aceita a proposta sem a obrigatoriedade do exame ou de prova de doença preexistente, que devia ser eminentemente técnica e formal, a parte Apelante assumiu automaticamente o risco, não podendo, após a morte do segurado elidir-se do pagamento de indenização à beneficiária, sob alegação de que o proponente sofria de doença ao assinar o contrato.

Essas ponderações encontram esteio nas demais provas constantes dos autos e, evidentemente, esses valores, unidos, afastam a pretensão recorrida.

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Hildebrando Luiz da Silva disse que a Apelada é sua sogra e, que, ele próprio foi segurado da CAPEMI e que “... a própria Capemi que me procurou para fazer o seguro e descontava em folha de pagamento ...” (folha 100).

Mário Roberto Cezar também disse ter sido segurado da CAPEMI e que “... o pagamento era feito conforme desconto no holerith (...); depois que eu assinei a proposta o pagamento veio descontado no mês seguinte ao que eu assinei a proposta ...” (folha 101).

As Seguradoras, ao que se evidencia pela generalidade, exigem rigorosos exames médicos e laboratoriais do particular para firmar com ele um contrato de saúde, principalmente quando o cidadão já tem uma certa idade.

Ao contrário, em qualquer agência bancária e sem maior rigor, são convencionados numerosos contratos de seguro de vida mediante prêmio previamente estabelecido.

Entretanto, após um evento, ou um sinistro, é sistemática a posição de recusa que adotam para não honrar o compromisso contratual.

Restou comprovada a boa-fé do segurado, pois ainda que se fale que ele tivesse consciência de algum mal, era sabido que estava clinicamente bem e acreditava ser portador de boa saúde. Não havia, dessa forma, como excluir o dever indenizatório diante do fato típico da responsabilidade da parte recorrente.

“O contrato de seguro privado configura uma relação de consumo na qual a boa-fé do segurado é presumida, cabendo à seguradora a prova cabal da alegada má-fé com que aquele teria agido no momento da contratação. Em matéria de contrato de adesão regido pelo Código de Defesa do Consumidor, como é o caso dos contratos de seguro de vida e acidentes pessoais, eventual dúvida resolve-se em favor do segurado e não do segurador. Inteligência do art. 47 da Lei 8.078/90 1”.

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“Tendo em vista que o contrato de seguro é contrato de adesão, eventuais dúvidas resolvem-se em favor do segurado, consumidor do serviço, que não tem meios para discutir os termos da proposta que lhe é feita pelo segurador. Uma vez que a boa-fé do segurado é presumida, cabe ao segurador, se alegar que o segurado omitiu dados relevantes sobre seu estado de saúde, provar cabalmente a má-fé com que o segurado teria agido, eventual dúvida resolvendo-se em seu favor, em face do princípio do ônus probatório 2”.

Em face ao exposto, rejeita-se a argüição de incompetência e nega-se provimento ao recurso.

IRINEU PEDROTTI Relator

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