1 Curso: Estudos Diversificados 1 – História da Arte Visual - Turma: 04
Professora: Dária
Aluno: Wagner Kimura n° USP: 6891465
Uma análise pessoal sobre obras abstracionistas
Obras em observadas: Obra 1
Nesta obra, Chastel, premiado na Primeira Bienal de São Paulo, em 1951, faz uma composição na qual observamos uma junção de cubismo¹, figuração² e abstracionismo³. Um leve paradoxo, afinal em inúmeras definições de abstracionismo sempre apontam como característica principal o desapego à figuração, ou seja, no abstracionismo não há a necessidade de retratação de paisagens, objetos, pessoas e imagens de cenários.
1 - Cubismo: Movimento artístico que surgiu nas primícias do século XX. Sua principal característica é a preponderância das formas geométricas nas artes plásticas. Os cubistas representam objetos da realidade cotidiana como se fossem vistos sob diferentes ângulos ao mesmo tempo. Um dos grandes expoentes do cubismo foi o pintor espanhol Pablo Picasso (Eliene Percília, site Equipe Brasil Escola, 2009)
2 – Figuração: Tipo de arte que se desenvolve principalmente na pintura pela representação, de seres e objetos em suas formas reconhecíveis para aqueles que as olham. Na arte ocidental a prática da arte figurativa só se transforma, perdendo sua soberania, a partir do início do século XX, com o surgimento da arte abstrata, que busca expressar o mundo interior, o mundo dos sentidos, bem como relações concretas usando como referência apenas os recursos da própria pintura, como a cor, as linhas e a superfície bidimensional da tela. (enciclopédia Itaú Cultural - artes visuais, 2005)
3 – Abstracionismo: Em sentido amplo, abstracionismo refere-se às formas de arte não regidas pela figuração e pela imitação do mundo. Em acepção específica, o termo liga-se às vanguardas européias das décadas de 1910 e 1920, que recusam a representação ilusionista da natureza. A decomposição da figura, a simplificação da forma, os novos usos da cor, o descarte da perspectiva e das técnicas de modelagem e a rejeição dos jogos convencionais de sombra e luz, aparecem como traços recorrentes das diferentes orientações abrigadas sob esse rótulo. Inúmeros movimentos e artistas aderem à abstração, que se torna, a partir da década de 1930, um dos eixos centrais da produção artística no século XX. (enciclopédia Itaú Cultural - artes visuais, 2005)
“Namorados no Café” 1950/1951
óleo sobre tela (161,7 x 97,0 cm) Roger Chastel
2 Na obra, as cores são trabalhadas com grande maestria, o amarelo, o ocre e o marrom em várias tonalidades, e mais o preto e o branco, proporcionando-nos uma imagem que, após a leitura do título, acaba nos induzindo, intuitivamente, a ver o casal de namorados num ambiente que sugere um café (um fato inusitado e que corrobora com a afirmação foi um senhor, ao meu lado, imaginar num devaneio, tratar-se de um retrato de si mesmo e da esposa após uma noite de romance). Essa indução nos leva a identificar o casal, uma cadeira, a janela, e deixando a imaginação correr solta, até outros objetos. Esse tipo de situação indica a proximidade da obra com a figuração, apesar de todo abstracionismo que a compõem. Já as formas geométricas, traçados retos e angulares, e o trabalho de luzes com pouca variação cromática indicam as relações diretas da obra com o cubismo.
Fora o fato de que, numa sensibilidade perceptiva extrema, as cores utilizadas, podem nos trazer o aroma do café servido ou sendo preparado. Exagero? Pode ser, mas quem pode entender a mente humana.
Obra 2
Nesta obra, Segall, que se radicou em São Paulo em 1923 e foi um dos fundadores da Sociedade Pró-Arte Moderna - SPAM em 1932, da qual se tornou diretor até 1935, faz uma composição, que como na obra anterior de Chastel, apresenta-nos a idéia de uma
“Interior de Indigentes” 1920
óleo sobre tela (85,0 x 40,0 cm) Lasar Segall
3 mistura de abstracionismo, cubismo e figuração e o mesmo paradoxo citado anteriormente.
Na obra, as cores trabalhadas, o ocre, o marrom e o cinza em várias tonalidades, e mais o preto e o branco, resulta num trabalho forte e instigante, principalmente pelo uso de tons escuros e sombrios. O cenário, retratando a figuração de forma mais delineada e visível, mostra uma criança no colo de uma mãe (provável) e um indivíduo ao fundo, sentado em uma mesa, de uma suposta taberna, pouco se importando com a presença da mulher, numa atitude típica da maioria das pessoas com relação aos indigentes e pedintes que adentram nos estabelecimentos comerciais. Os traços retos, levemente angulares e o jogo de luzes, mostram também, sua relação com o cubismo.
Obra 3
Nesta obra, Flexor, que se destacou na segunda Bienal de São Paulo, em 1953 juntamente com o grupo do “Atelier Abstração”, escola fundada por ele, apresenta-nos, assim como Chastel e Segall, a idéia de uma mistura de abstracionismo, cubismo e figuração. Quanto ao paradoxo citado nas duas obras anteriores, Flexor, em 1949, foi um dos três representantes brasileiros a promover o debate “figuração versus abstração
“Aos pés da Cruz” 1949
óleo sobre tela Samson Flexor
4 entre nós” (os outros dois foram: Cícero Dias e Waldemar Cordeiro). O que demonstra ser antiga a discussão sobre o tema.
Na obra, observamos o trabalho com cores diversas, como o vermelho que, após lermos o título, sugere penitência, martírio, sangue, etc; cores sombrias e escuras como roxo preto e marrom, mostrando-nos um cenário de muita tristeza, comoção e tragédia; os olhos de pavor e sofrimento de duas figuras que nos lembram freiras ou beatas; e os pés na cruz, que nos sugere a crucificação de uma pessoa, ou a própria crucificação de Jesus. O cenário é de extrema agonia, consternação, lamentação e desespero. Os traços retos e a utilização mais abundante de traçados angulares, associados ao jogo de luzes, apontam toda a relação da obra com o cubismo.
Sob análise pessoal de comparação
“A cor é o meio para exercer uma influência direta sobre a alma. A cor é a tecla, o olho é o martelo moderador, a alma é um piano com muitas cordas e o artista representa a mão que, mediante uma tecla determinada, faz vibrar a alma humana.” — Wassily Kandinsky
As três obras apresentadas possuem características comuns e diferenciadas ao mesmo tempo. Quando analisamos o abstracionismo, o cubismo e a relativa figuração das obras, vemos similaridades que, posteriormente, numa análise mais profunda e detalhada, podemos destacar todas as peculiaridades próprias de cada obra.
É como se pudéssemos traçar escalas em termos comparativos, por exemplo: A obra de Flexor é mais cubista que a de Chastel que é mais cubista que a de Segall, ou na obra de Segall vemos mais presente a figuração do que vemos na de Flexor, mas vemos mais na de Flexor do que na de Chastel.
Porém, inegável é o poder das cores, como bem menciona Kandinsky na frase transcrita acima, e sua importância na arte abstrata.
Um clima de romance e a brandura do momento, presentes na obra de Chastel; a tristeza, o descaso e o infortúnio presentes na obra de Segall; e a agonia, o desespero e o martírio presentes na obra de Flexor.
Este é um fascinante aprendizado, para este aluno, que viveu e ainda vive num mundo tecnicista, de globalização, negócios, engenharia, enfim, constatar como uma obra pode mexer com nossos sentimentos, pela simples observação crítica.