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LA NOVELA DE MI VIDA, DE LEONARDO PADURA: REFLEXÃO TEÓRICA
A PARTIR DA PRÁTICA DE TRADUÇÃO
Nathália Hecz Couto
*Resumo: Neste artigo, apresenta-se uma reflexão teórico-prática a partir de tradução ao português brasileiro de parte de La novela de mi vida, romance do escritor cubano Leonardo Padura (2002). Com base na tradução realizada pela autora deste trabalho, destacam-se características da tradução literária e aspectos culturais envolvidos nesse processo. Para refletir sobre aspectos referentes à linguagem literária e equivalência, são citados Rónai (1981, 1983), Bassnett (2003) e Pym (2011). Venuti (2002) e Frota (2000) fundamentam as reflexões teóricas referentes à formação de identidade cultural e à tradução como atividade de produção de significados. Após, procede-se à análise de exemplos retirados da tradução apresentada. Por fim, considera-se a tradução como um trabalho não mecânico: é centrado no sentido do texto original e na língua para a qual se traduz. Enfatiza-se também, o impacto cultural que a atividade tradutória é capaz de produzir.
Palavras chave: Tradução literária. La novela de mi vida. Leonardo Padura. Literatura hispano-americana.
Abstract: In this article, we present a theoretical-practical reflection from a translated extract into Brazilian Portuguese of La novela de mi vida romance by the Cuban author Leonardo Padura (2002). Based on the translation carried out by the author of this paper, we highlight the literary translation characteristics and the cultural aspects involved in the process. We have used the works of Rónai (1981, 1983), Bassnett (2003) and Pym (2011) to reflect upon the aspects concerning the literary language and equivalence. Venuti (2002) and Frota (2000) are used as theoretical background related to the cultural identity formation and to the translation as an activity of meaning production. To do so, we have analyzed excerpts taken from the translation. Ultimately, we consider that translation is not a mechanical process: it is centered on the text original meaning and on the target language. We also emphasize the cultural impact that translation activity can produce in society.
Keywords: Literary translation. La novela de mi vida. Leonardo Padura. Hispanic-american literature.
Considerações iniciais
Este artigo tem por objetivo apresentar uma reflexão teórico-prática a partir da
tradução ao português de parte de La novela de mi vida, de Leonardo Padura, com foco
* Mestranda em Teoria da Literatura. Especialista em Estudos em Tradução (PUCRS). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Escola de Humanidades, Programa de Pós-Graduação em Letras. E-mail: [email protected]
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nas características da tradução literária e nos aspectos culturais envolvidos nesse
processo. No cenário atual da literatura hispano-americana, o trabalho do autor cubano
tem ganhado cada vez mais espaço e reconhecimento, conquistando leitores em diversas
línguas, como inglês, italiano, alemão e português.
Portanto, a escolha da referida obra para a realização deste trabalho se justifica
pelo motivo de que não há, até o presente momento, uma tradução publicada ao português
brasileiro. Sendo assim, a tradução apresentada se configura como um trabalho inicial,
com o fim de gerar discussões e comentários acerca da atividade tradutória em relação
aos aspectos culturais intrínsecos à língua do texto original.
Para efeitos de contextualização, apresentam-se, brevemente, informações sobre
Leonardo Padura, sua obra e sua relação com Cuba. Após, dá-se lugar considerações
teóricas acerca da tradução literária. Para a discussão de aspectos referentes à linguagem
literária e à equivalência, são citados Rónai (1981, 1983), Bassnett (2003) e Pym (2011).
Para o embasamento teórico a respeito da atividade tradutória como formadora de
identidade cultural, procede-se à leitura de Venuti (2002). Sobre a tradução como
atividade de produção de significados, apresentam-se ideias expostas por Frota (2000).
Como ponto de breve análise, com o aporte teórico referido, alguns exemplos da
prática de tradução
33são comentados e comparados ao texto original em espanhol. Para
concluir, serão tecidas considerações finais sobre o artigo como um todo, avaliando os
resultados propostos.
La novela de mi vida, Leonardo Padura e Cuba
Após um ciclo de romances policiais, o escritor e jornalista cubano Leonardo
Padura Fuentes mudou sua trajetória na literatura, tornando-se um dos romancistas mais
importantes da nova narrativa cubana. Entre os reconhecimentos conferidos ao autor,
estão, entre outros, o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba (2012) e o Prêmio Princesa
de Astúrias das Letras (2015).
La novela de mi vida, romance publicado em 2002, trata-se de uma viagem à
origem da consciência nacional de Cuba por meio da vida de seu primeiro grande poeta.
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Desse modo, a narrativa transforma-se numa leitura da história desse país. Padura nos
apresenta, inicialmente, a Fernando Terry, professor que dedicou sua tese de doutorado
ao poeta José María Heredia. Depois de ser expulso de seu cargo universitário e após
dezoito anos de exílio, decide voltar por um mês a Havana, interessado na possibilidade
de encontrar a autobiografia desaparecida do poeta, intitulada La novela de mi vida.
Em sua estrutura temporal, o romance apresenta ao menos três planos: a busca
pelo manuscrito; a vida de Heredia (século XX); e os últimos dias de seu filho, José de
Jesús de Heredia, integrante da maçonaria. Nesse contexto, as vidas dos personagens vão
criando paralelismos com a história de Cuba, permeando o destino de cada um.
Em conferência no Fronteiras do Pensamento
34, no ano de 2017, Leonardo Padura
palestrou essencialmente sobre o isolamento geográfico e político da ilha, situada a 150
quilômetros de Miami, como circunstância decisiva para a formação da identidade
cubana:
Desde os anos 1960, conforme explicou o escritor cubano, a saída dos cidadãos do país é estritamente controlada. Em raros casos, ganhava-se o direito de viajar. Na maior parte das vezes, adotava-se uma política de confisco de bens e retirada de direitos cidadãos, fazendo com que muitos dos que fossem não pudessem mais voltar. Ainda assim, cerca de 20% da população saiu do país desde então. Desde 2013, o sistema foi flexibilizado, e tornou-se viável a qualquer cidadão - com passaporte em vigor, visto do país de destino e condições financeiras - deslocar-se para qualquer lugar. “Esta nova conjuntura foi aproveitada por muita gente para sair, mas fez com que outras pessoas olhassem de forma diferente para as centenas de metros do muro do Malecón”, afirmou Padura. [...]. O Malecón, muro de oito quilômetros de extensão que divide Havana - capital de Cuba - do mar, foi elemento central da fala de Padura no Fronteiras do Pensamento. Após a conferência, ele respondeu às questões da plateia, e também à Pergunta Braskem, enviada pelo público dos canais digitais do projeto (FRONTEIRAS DO PENSAMENTO, 2018).
Em artigo intitulado Padura es la mejor cubanía, publicado no jornal espanhol El
mundo, o escritor e jornalista José Manuel Martín Medem (2015) diz que a concessão dos
prêmios literários a Padura é reconhecer o melhor de Cuba, enfatizando que, em sua ilha,
34O Fronteiras do Pensamento é um projeto idealizado em 2006, na cidade de Porto Alegre, a fim de possibilitar reflexões sobre as mudanças sociais, econômicas, culturais e políticas do mundo contemporâneo. Para tanto, promove conferências anuais com pensadores, artistas, atores sociais e líderes políticos.
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o autor ganhou não somente o direito de estar, mas também o de questionar. O jornalista
menciona, ainda, que “sintonizar mal e tarde com a autêntica realidade cubana se
converteu em uma especialidade da cultura e da política que na Espanha continuam
lastradas pelo eurocentrismo”. José Manuel recomendou aos leitores espanhóis que
devorassem os romances de Leonardo Padura, para que entendessem o que os cubanos
sofreram e a que ainda podem ser capazes de resistir diante da nova política dos Estados
Unidos contra Havana.
A seguir, considerando os aspectos referentes ao autor e à obra citados
anteriormente, propõe-se uma discussão teórica a respeito da tradução literária em relação
às suas características e ao seu vínculo com a formação de identidades culturais. Após,
dá-se lugar à análise dos exemplos selecionados da tradução apresentada, a qual pode ser
lida integralmente no subtítulo 4.
Tradução literária: aspectos teóricos e análise
Na obra Estudos de tradução, a professora britânica Susan Bassnett traz
considerações acerca da tradução, como questões fundamentais, históricas e teóricas. No
capítulo sobre problemas da tradução literária, Corti (1978), citado por Bassnett (2003, p.
135), refere que cada época produz seus próprios signos, os quais se manifestariam em
modelos sociais e literários. A representação da realidade estaria, então, relacionada ao
surgimento desses signos:
Logo que estes modelos se consomem e a realidade parece desaparecer, são necessários novos signos para recapturar a realidade, e isto permite-nos atribuir um valor de informação às estruturas dinâmicas da literatura. Vista deste modo, a literatura é ao mesmo tempo a condição e o lugar da comunicação artística entre emissores e destinatários ou público (CORTI apud BASSNETT, 2003, p. 135).
Sendo assim, pode-se dizer que a literatura possibilita o (re)conhecimento da
culturas representadas por meio dessa comunicação artística, como é o caso do romance
estudado neste artigo. Portanto, a partir de suas criações literárias, Leonardo Padura
representou a realidade e os problemas da sociedade cubana em determinada época,
mostrando, assim, sua cultura e sua identidade a diversos leitores pelo mundo, por meio,
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também, das traduções de seus livros. A obra literária de Padura, hoje em posição de
destaque na literatura em língua espanhola, caracteriza-se justamente pela representação
de seu país e por críticas a ele. Em entrevista ao jornal espanhol El País, Padura (2015)
salienta:
É verdade que meus personagens foram se tornando cada vez mais crus e trágicos, mas é porque a realidade de Cuba se tornou igualmente crua e trágica [...]. Acredito que o drama de minha geração percorre por toda a minha obra [...]. Se no começo havia uma expectativa de futuro, a partir dos anos noventa o que se impõe é a luta por sobreviver, a opção pelo exílio que muitos escolhem, o tratar de resolver e inventar para poder comer, vestir ou sustentar o resto de sua família.
Sobre essa relação estabelecida entre a literatura e o fazer tradutório, Venuti
(2002, p. 129) menciona que a tradução, frequentemente, é vista como suspeita, pois
“domestica textos estrangeiros, inscrevendo neles valores linguísticos e culturais
inteligíveis para comunidades domésticas específicas”. Ainda, explica que até mesmo a
escolha do texto a ser traduzido já é parte desse processo, já que culmina na exclusão de
demais literaturas estrangeiras, assim correspondendo a outros interesses domésticos. O
autor destaca que o fator que produziria consequências mais relevantes seria a formação
de identidades culturais:
A tradução exerce um poder enorme na construção das representações de culturas estrangeiras. A seleção de textos estrangeiros e o desenvolvimento de estratégias de tradução podem estabelecer cânones peculiarmente domésticos para literaturas estrangeiras, cânones que se amoldam a valores estéticos domésticos, revelando assim exclusões e admissões, centros e periferias que se distanciam daqueles existentes na língua estrangeira (VENUTI, 2002, p. 130).
Para Venuti (2002, p. 130), a tradução, ao criar estereótipos, possibilita vincular
“respeito ou estigma a grupos étnicos, raciais e nacionais específicos, gerando respeito
pela diferença cultural ou aversão baseada no etnocentrismo, racismo ou patriotismo”.
No Brasil, por exemplo, a obra de Leonardo Padura tem tido boa repercussão e sucesso
entre os leitores. Em entrevista à Folha, em 2017, destacou-se que O homem que amava
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o mercado editorial brasileiro. O jornalista e escritor cubano atribuiu o sucesso de suas
obras no país à atuação das editoras e à visibilidade alcançada como colunista da Folha,
por três anos.
A partir da tradução que se apresenta neste trabalho e do estudo teórico realizado,
foi possível refletir sobre aspectos comumente associados à atividade tradutória, como a
crença de que é um fazer mecânico, uma simples transposição de um idioma a outro.
Sobre o assunto destacam-se aqui as reflexões da professora Maria Paula Frota (2000),
na obra A singularidade na escrita tradutora. No capítulo referente às ideias de Venuti
quanto à (in)visibilidade do tradutor, fala-se na banalização da tradução como uma
atividade realizada mecanicamente, “mera cópia de significados já dados”. Contudo, a
autora aponta que
é o reconhecimento das línguas e textos em sua materialidade opaca e equívoca, assim submetida à interpretação daquele que o lê, que vem a identificar o trabalho de tradução — na medida em que implica a escolha de certos significantes e não de outros — como um trabalho de produção de (efeitos de) significado (FROTA, 2000, p. 101).
A partir da noção de equivalência, conforme explica Anthony Pym (2011, p. 23),
a tradução tem o mesmo valor que o texto de partida, ou ao menos algum aspecto dele. O
autor menciona que outros teóricos enfatizam que os tradutores não trabalham com
palavras isoladas, mas sim com textos, os quais têm muitos níveis linguísticos.
O linguista John Catford (1965) salientou que a equivalência não tem por que se dar em todos esses níveis ao mesmo tempo; poderia delimitar-se por categorias. Assim seria possível buscar a equivalência a nível fonético, léxico, fraseológico, oracional, semântico, etc. Catford observou que a tradução opera, sobretudo, em um ou vários desses níveis, com o que “ao longo de um texto, a equivalência pode subir e descer na escala de categorias” (1965, p. 76). Trata-se de uma teoria integral e dinâmica da equivalência, que não tem por que contradizer as assimetrias estruturais entre as línguas (2011, p. 28).35
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Pym (2011, p. 41) cita Peter Newmark, que distingue tradução semântica e
tradução comunicativa. Para ele, a tradução semântica buscaria os valores formais do
texto de partida e procuraria manter o máximo possível deles. Já a tradução comunicativa
se deteria às necessidades daquele a quem se direciona a tradução e se adaptaria a elas.
Portanto, as teorias da equivalência direcional implicam que os tradutores têm de escolher
que aspecto do texto de partida querem conservar.
Ao aplicar as considerações teóricas até aqui citadas ao trabalho de tradução,
faz-se relevante salientar algumas passagens. Na primeira frafaz-se da primeira parte de La novela
de mi vida, o tradutor já se depara com uma diferença entre o par de línguas, conforme
passagens abaixo:
Original: “Ponme un café doble, mi hermano.” (PADURA, 2002, p. 15). Tradução: “Me dá um café duplo, meu irmão.”
Original: “Qué bueno verte... Pero si estás entero, mira eso, casi te has vuelto blanco.” (PADURA, 2002, p. 18).
Tradução: “Que bom ver você... está inteiro, mas, olhe, está parecendo um fantasma.” Nesses casos, o uso do pronome tú, em espanhol, expressa um tom informal à fala do personagem, manifestando uma relação de proximidade. Já no português brasileiro, a tradução, se mantivesse o uso do pronome tu, perderia a informalidade pretendida pelo original.
Nos seguintes trechos, os termos guagüero e Malecón expressam uma forte carga cultural, já que estão ligados à cultura cubana. Abaixo, o trecho original seguido da tradução:
Original: “[...] codo a codo con borrachos, trabajadores de la emisora de radio cercana, algún guagüero apresurado y los vagabundos de rigor, bebería el café leve y dulzón […].” (PADURA, 2002, p. 16).
Tradução: “[...] lado a lado com bêbados, funcionários da emissora de rádio vizinha, um motorista de ônibus apressado e os vagabundos de sempre, beberia o café leve e enjoativo [...].”
Original: [...] prefirió seguir hasta el Malecón antes de subir a la casa de Álvaro, donde podían esperarlo ausencias y tristezas aún más desgarradoras.” (PADURA, 2002, p. 16).
Tradução: “[...] preferiu seguir até o Malecón antes de ir à casa de Álvaro, onde podiam lhe esperar ausências e tristezas ainda mais desgarradoras.”
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Guagüero, em Cuba, é o termo utilizado para designar os motoristas de guaguas,
palavra coloquialmente empregada com o significado de ônibus. Na tradução aqui
apresentada, optou-se por motorista de ônibus, uma vez que se preserva o significado
essencial para a compreensão do leitor. Retomando as reflexões feitas por Pym (2011),
mencionadas anteriormente, aqui se deu prioridade às necessidades daquele a quem se
direciona a tradução, escolhendo preservar o significado. Já no caso de Malecón,
optou-se por manter o termo em espanhol, já que uma possível equivalência não faria jus à força
cultural que o nome já tem, como ponto turístico de Cuba, famoso muro que se estende
pela orla de Havana. Nesse sentido, ao encontro disso, considera-se o que Rónai explica,
a respeito da tradução de obras estrangeiras, em relação ao leitor:
Conduzir uma obra estrangeira para outro ambiente linguístico significa querer adaptá-la ao máximo aos costumes do novo meio, retirar-lhes as características exóticas, fazer esquecer que reflete uma realidade longínqua, essencialmente diversa. Conduzir o leitor para o país da obra que lê significa, ao contrário, manter cuidadosamente o que essa tem de estranho, de genuíno, e acentuar a cada instante a sua origem alienígena (RÓNAI, 1981, p. 20).
O referido autor elucida o fato de que não há equivalências absolutas:
[...] ao tradutor não lhe basta um conhecimento aproximativo da língua do autor que está vertendo. Por melhor que maneje seu próprio instrumento, não pode deixar de conhecer a fundo o instrumento do autor. O tradutor deve conhecer todas as minúcias semelhantes da língua de seu original a fim de captar, além do conteúdo estritamente lógico, o tom exato, os efeitos indiretos, as intenções ocultas do autor. Assim a fidelidade alcança-se muito menos pela tradução literal do que por uma substituição contínua. A arte do tradutor consiste justamente em saber quando pode verter e quando deve procurar equivalências. Mas como não há equivalências absolutas, uma palavra, expressão ou frase do original podem ser frequentemente transportadas de duas maneiras, ou mais, sem que se possa dizer qual das duas é melhor (1987, p. 23).
Sendo assim, não existiria uma tradução ideal de determinado texto. Conforme o
autor, não haverá a tradução boa de um original, mas sim muitas traduções boas. Portanto,
volta-se à ideia de que a tradução não é uma atividade mecânica, mas sim um trabalho
que envolve subjetividade, reflexão e criatividade. No caso dos exemplos dados da
tradução realizada, assim como na prática como um todo, percebe-se que os pontos mais
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importantes a serem tidos como guia são o sentido dado pelo texto do original e a língua
para a qual estamos traduzindo.
Tradução ao português brasileiro de trecho da primeira parte de La novela de mi
vida
— Me dá um café duplo, meu irmão. Sua mente repetiu tantas vezes aquela frase, durante dezoito anos, que as palavras tinham gastado seu valor de uso na memória e no paladar, para soarem vazias, como uma consigna dita em um idioma incompreensível. Porque, apesar do esquecimento que tentou se impor como melhor alternativa, Fernando Terry sofreu muitas vezes aquelas imprevisíveis rebeliões de sua consciência e com uma assiduidade ingovernável dedicou algum pensamento ao que tivesse querido sentir no preciso instante em que, depois de tomar um café duplo em frente ao cabaré Las Vegas, acenderia um cigarro para atravessar a rua Infanta e descer pela Vinte e Cinco, disposto a reencontrar-se com o melhor e o pior do seu passado. Da melancolia ao ódio, da alegria à indiferença, do rancor ao alívio, em suas viagens imaginárias, Fernando havia jogado com todas as cartas da nostalgia, sem pressentir que, na manga escura, encolhida, podia ficar aquela tristeza agressiva que havia cravado em sua alma, com uma interrogação: você tinha de voltar?
—Ponme un café doble, mi hermano. Tantas veces su mente repitió aquella frase, durante dieciocho años, que las palabras habían gastado su valor de uso en la memoria y en el paladar, para sonar vacías, como una consigna dicha en un idioma incomprensible. Porque, a pesar del olvido que intentó imponerse como mejor alternativa, Fernando Terry sufrió demasiadas veces aquellas imprevisibles rebeliones de su conciencia y con una asiduidad ingobernable dedicó algún pensamiento a lo que hubiera querido sentir en el preciso instante en que, luego de beber un café doble frente al cabaret Las Vegas, encendería un cigarro para cruzar la calle Infanta y bajar por Veinticinco, dispuesto a reencontrarse con lo mejor y lo peor de su pasado. De la melancolía al odio, de la alegría a la indiferencia, del rencor al alivio, en sus viajes imaginarios Fernando había jugado con todas las cartas de la nostalgia, sin presentir que en la manga oscura, agazapada, podía quedársele aquella tristeza agresiva que se le había clavado en el alma, con una interrogación: ¿tenías que volver?
No começo de seu exílio, nos meses de incerteza vividos embaixo de um toldo asfixiante nos jardins do Orange Bowl de Miami, sem saber se ainda conseguiria a residência norte-americana, Fernando havia começado a pensar em um retorno breve mas
necessário, que lhe ajudasse a estancar as feridas que ainda sangravam provocadas por uma traição demolidora e talvez, inclusive, a curar a vertiginosa sensação de encontrar-se descentrado, fora do tempo e em outro espaço. Depois, com o passar dos anos e a
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persistência da barreira de leis e disposições que dificultavam qualquer regresso, havia tratado de acreditar que o esquecimento era possível, que inclusive podia ser o melhor dos remédios, e pouco a pouco começou a sentir seu benéfico alívio, e a ansiedade para voltar foi se diluindo, até se converter em uma angústia adormecida que arteiramente emergia certas noites insubornáveis, quando na solidão de seu apartamento seu cérebro insistia em evocar algum instante de seus trinta anos vividos na ilha. Al principio de su exilio, en los meses de incertidumbre vividos bajo una carpa asfixiante en los jardines del Orange Bowl de Miami, sin saber aún si obtendría la residencia norteamericana, Fernando había comenzado a pensar en un retorno breve
pero necesario, que le ayudara a restañar las heridas todavía sangrantes provocadas por una traición demoledora y tal vez, incluso, a curar la vertiginosa sensación de hallarse descentrado, fuera del tiempo y en otro espacio. Después, con el paso de los años y la persistencia de la barrera de leyes y disposiciones que dificultaban cualquier regreso, había tratado de creer que el olvido era posible, que incluso podía resultar el mejor de los remedios, y poco a poco empezó a sentir su benéfico alivio, y la ansiedad por volver se fue diluyendo, hasta convertirse en una angustia adormecida, que arteramente subía a flote ciertas noches insobornables, cuando en la soledad de su ático madrileño su cerebro insistía en evocar algún instante de sus treinta años vividos en la isla.
Mas desde que chegara a carta de Álvaro com a notícia mais inquietante e que já não esperava receber, a necessidade do regresso deixou de ser um pesadelo furtivo, e Fernando se sentiu obrigado a abrir outra vez o baú das mais perigosas lembranças. Então se dedicou a ler, pela primeira vez desde que saíra de Cuba, os velhos manuscritos de sua malograda tese de doutorado sobre a poesia e a ética de José María Heredia, enquanto sua mente insistia em traçar cada um dos passos que o conduziriam até a casa de Álvaro, para enfrentar aquelas escadas sempre escuras e cansativas e cair de repente no vórtice de seu passado. Em seus caminhos imaginários, costumava alterar a ordem, o ritmo, a intenção de suas ações e pensamentos, mas o início imutável deveria ocorrer em frente ao balcão do Las Vegas, onde, lado a lado com bêbados, funcionários da emissora de rádio vizinha, um motorista de ônibus apressado e os vagabundos de
sempre, beberia o café leve e enjoativo, que costumavam servir na velha cafeteria que agora, com ardor infinito, descobriu que existia somente em sua persistente memória e em alguma literatura da noite havaneira: a cafeteria de Las Vegas e seu invencível balcão de mogno polido haviam desvanecido, como tantas outras coisas da vida.
Pero desde que le llegara la carta de Álvaro con la noticia más inquietante y que ya no esperaba recibir, la necesidad del regreso dejó de ser una pesadilla furtiva, y Fernando se sintió compulsado a abrir otra vez el baúl de los más peligrosos recuerdos. Entonces se dedicó a leer, por primera vez desde que saliera de Cuba, los viejos papeles de su malograda tesis doctoral sobre la poesía y la ética de José María Heredia, mientras su mente insistía en trazar cada uno de los pasos que lo conducirían hacia la casa de Álvaro, para enfrentar aquellas escaleras siempre
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oscuras y fatigosas, y caer de golpe en el vórtice mismo de su pasado. En sus recorridos imaginarios solía alterar el orden, el ritmo, la intención de sus acciones y pensamientos, pero el inicio inmutable debía ocurrir ante el mostrador de Las Vegas, donde codo a codo con borrachos, trabajadores de la emisora de radio cercana, algún guagüero apresurado y los vagabundos
de rigor, bebería el café leve y dulzón que solían colar en la vieja cafetería que ahora, con ardor infinito, descubrió que ya sólo existía en su persistente memoria y en alguna literatura de la noche habanera: la cafetería de Las Vegas y su invencible mostrador de caoba pulida se habían esfumado, como tantas otras cosas de la vida.
Como se o empurrassem, Fernando fugiu daquele fracasso desconcertante e, aos pés do velho edifício em que vivia seu amigo, entre latões de lixo transbordando, paredes feridas pelo salitre e cachorros tristes e sarnentos, compreendeu que apenas havia começado a guerra entre sua memória e a realidade e preferiu seguir até o Malecón antes de ir à casa de Álvaro, onde podiam lhe esperar ausências e tristezas ainda mais desgarradoras.
Como si lo empujaran, Fernando huyó de aquel fracaso desconcertante y, al pie del desvencijado edificio donde vivía su amigo, entre latones de basura desbordados, paredes heridas por el salitre y perros tristes y sarnosos, comprendió que apenas había empezado la guerra entre su memoria y la realidad, y prefirió seguir hacia el Malecón antes de subir a la casa de Álvaro, donde podían esperarlo ausencias y tristezas aún más desgarradoras.
Quase com alegria percebeu que a essa hora da tarde, com o sol da tarde ainda na ativa, o longo muro que separava os havaneiros do mar permanecia deserto, ainda que de longe tenha visto uns pescadores cheios de fé que lançavam suas redes à água, enquanto um enfeitado veleiro turístico saía da baía ao mar.
Casi con alegría comprobó que a esa hora de la tarde, con el sol del verano todavía en activo, el largo muro que separaba a los habaneros del mar permanecía desierto, aunque a lo lejos vio unos pescadores llenos de fe que lanzaban sus pitas al agua, mientras de la bahía salía al mar abierto un engalanado velero turístico.
Dezoito anos lutando contra os detalhes desse momento para terminar envolto naquela ingrata sensação de encontrar-se outra vez perdido, fizeram-lhe duvidar se seu regresso tinha algum sentido e por isso deveria apegar-se à carta de Álvaro e à
notícia que, em letras maiúsculas, fez com que tivesse de enfrentar o transe de vencer todas as suas reticências, e pedir um mês de permissão para voltar a Cuba. FERNANDO, FERNANDO, FERNANDO: AGORA SIM EXISTE UMA BOA PISTA. CREIO QUE
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PODEMOS SABER ONDE ESTÃO OS
MANUSCRITOS PERDIDOS DE
HEREDIA.
Dieciocho años luchando contra los detalles de ese momento para terminar envuelto en aquella ingrata sensación de hallarse otra vez extraviado, le hicieron dudar si su regreso tenía algún sentido y por eso debió aferrarse
a la carta de Álvaro y la noticia que, en mayúsculas, le había hecho afrontar el trance de vencer todas sus reticencias, y pedir un mes de permiso para regresar a Cuba. FERNANDO, FERNANDO, FERNANDO: AHORA SÍ HAY UNA BUENA PISTA. CREO QUE PODEMOS SABER DÓNDE ESTÁN LOS PAPELES PERDIDOS DE HEREDIA.
E seu amigo lhe contava como o doutor Mendoza, seu antigo professor, que virou bibliotecário da Grande Loja após sua aposentadoria, tinha resgatado várias caixas de documentos maçônicos desordenados em um porão do Arquivo Nacional e entre os papéis havia encontrado um capaz de tirar-lhe o fôlego: tratava-se da ata em que se registrava a homenagem que, em 1921, a loja matancera Filhos de Cuba fez a José de Jesús Heredia, o filho caçula e último testamenteiro do poeta José María Heredia, e onde se assegurava que o velho maçom havia entregado ao Venerável Mestre um envelope selado que continha um valioso documento escrito por seu pai, o qual deveria ficar, desde então e até 1939, sob a custódia daquele templo, herdeiro do que havia iniciado ao poeta independentista em 1822...
Y su amigo le contaba cómo el doctor Mendoza, antiguo profesor de ambos, convertido tras su jubilación en bibliotecario de la Gran Logia, había rescatado varias cajas de documentos masónicos traspapelados en un sótano del Archivo Nacional y entre los papeles había hallado uno capaz de cortarle la respiración: se trataba del acta donde se registraba el homenaje que en 1921 le rindiera la logia matancera Hijos de Cuba a José de Jesús Heredia, el hijo menor y último albacea del poeta José María Heredia, y donde se aseguraba que el viejo masón había entregado al Venerable Maestro un sobre sellado que contenía un valioso documento escrito por su padre, el cual debía quedar, desde entonces y hasta 1939, bajo la custodia de aquel templo, heredero del que había iniciado al poeta independentista en 1822…
Que documento valioso pode ser?, perguntava-lhe Álvaro, e Fernando concluiu que não poderia ser outra coisa que não o suposto romance perdido de Heredia que, por anos — e sem o menor sucesso —, havia tratado de localizar. Duas semanas depois, contrariando suas decisões anteriores, apresentou-se no consulado cubano disposto
a iniciar os trâmites para obter um visto que lhe permitisse o retorno temporário à sua pátria . ¿Qué documento valioso puede ser?, le preguntaba Álvaro, y Fernando concluyó que no podría ser otro que la presunta novela perdida de Heredia que por años —y sin el menor éxito— había tratado de localizar. Dos semanas después, negando sus
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anteriores decisiones, se presentó en el consulado cubano dispuesto a iniciar los
trámites para obtener un visado que le permitiera el retorno temporal a su patria.
Perdido em suas elucubrações, Fernando não percebeu a proximidade do veleiro turístico até que a brisa lhe trouxe a música de tambores e maracas tocada a bordo. Quando olhou para a embarcação, descobriu, com os cotovelos sobre a bancada, um homem aparentemente distante da agitação dos demais turistas. De repente, o olhar do viajante se levantou e se fixou em Fernando, como se fosse inadmissível a presença de uma pessoa, sentada no muro, à mercê da solidão reverberante do meio-dia havaneiro. Sustentando o olhar do homem, Fernando seguiu a navegação do veleiro até que a mais modesta das ondas levantadas pela sua passagem morreu nos arrecifes da costa.
Perdido en sus elucubraciones, Fernando no advirtió la cercanía del velero turístico hasta que la brisa le trajo la música de tambores y maracas tocada a bordo. Cuando miró hacia la embarcación descubrió, acodado a la baranda, a un hombre al parecer ajeno al jolgorio de los demás turistas. De pronto, la mirada del viajero se levantó y quedó fija sobre Fernando, como si le resultara inadmisible la presencia de una persona, sentada en el muro, a merced de la soledad reverberante del mediodía habanero. Sosteniendo la mirada del hombre, Fernando siguió la navegación del velero hasta que la más modesta de las olas levantadas por su paso vino a morir en los arrecifes de la costa.
Aquele desconhecido, que o observava com uma insistência minuciosa, deixou-o alarmado e sentindo-se como uma rêmora capaz de voar sobre o tempo, a dor que devia haver reprimido José María Heredia aquela manhã, seguramente fria, de 16 de janeiro de 1837, quando viu, do bergantim que o devolvia ao exílio após uma lacerante visita à ilha, como as ondas se afastavam em busca precisamente daqueles arrecifes, o último ângulo de uma terra cubana que o poeta já não veria outra vez.
Aquel desconocido, que lo observaba con tan escrutadora insistencia, alarmó a Fernando y le hizo sentir, como una rémora capaz de volar sobre el tiempo, el dolor que debió de embargar a José María Heredia aquella mañana, seguramente fría, del 16 de enero de 1837, cuando vio, desde el bergantín que lo devolvía al exilio luego de una lacerante visita a la isla, cómo las olas se alejaban en busca precisamente de aquellos arrecifes, el último recodo de una tierra cubana que el poeta ya nunca volvería a ver.
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E eu, também precisava egressar? Perguntou-se de novo enquanto atravessava a avenida do Malecón, acendia um cigarro que tinha gosto de erva seca, percorria a rua Vinte e Cinco e seguia por ela, com os estreitos degraus que o levavam à casa de Álvaro. Com mais temor que delicadeza bateu na velha porta de madeira, como se não desejasse fazer aquilo, e seu coração acelerou quando escutou os passos e sentiu que a porta rangia.
Y yo, ¿también tenía que regresar?, se preguntó de nuevo mientras cruzaba la avenida del Malecón, encendía un cigarro que le supo a hierba seca, desandaba la calle Veinticinco y la emprendía con los estrechos escalones que lo llevaban a la casa de Álvaro. Con más temor que delicadeza tocó la vieja puerta de madera, como si no deseara hacerlo, y su corazón se aceleró cuando escuchó los pasos y sintió que la puerta chirriaba.
— Finalmente, meu irmão — disse Álvaro e sem pensar por um instante o abraçou. — Que merda, Varo — e Fernando apertou contra si a humidade cheirando a suor, cigarro e álcool que envolviam os ossos evidentes do homem a quem anos atrás tinha considerado como um de seus melhores amigos.
— Que bom ver você... está inteiro, mas, olhe, está parecendo um fantasma.
Álvaro sorriu com sua própria piada e Fernando o imitou, apesar de estar vendo algo muito pior do que tinha imaginado: os cinquenta anos de Álvaro Almazán, mal dormidos e mal alimentados, haviam sido macerados por destilados baratos e fulminantes que devem ter dado ao seu fígado o mesmo aspecto de seu rosto: uma máscara violácea, cruzada de sulcos perversos e veias nodosas a ponto de arrebentar.
—Por fin, mi hermano —dijo Álvaro y sin pensarlo un instante lo abrazó. —Coño, Varo —y Fernando apretó contra sí el vaho a sudor, cigarro y alcohol que envolvían los huesos evidentes del hombre al que años atrás había considerado uno de sus mejores amigos.
—Qué bueno verte… Pero si estás entero, mira eso, casi te has vuelto blanco. Álvaro sonrió con su propia ocurrencia y Fernando lo imitó, a pesar de estar viendo algo mucho peor de lo que había imaginado: los cincuenta años de Álvaro Almazán, mal dormidos y peor alimentados, habían sido macerados por alcoholes baratos y fulminantes que debían de haberle dado a su hígado el mismo aspecto de su rostro: una máscara violácea, cruzada de surcos perversos y venas nudosas a punto de reventar.
Considerações finais
A proposta deste artigo foi apresentar uma reflexão teórico-prática a partir da
tradução ao português de parte de La novela de mi vida, romance do escritor cubano
Leonardo Padura (2002), atentando para peculiaridades da tradução literária e aspectos
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culturais envolvidos, com comentários acerca de algumas escolhas à hora de traduzir o
texto. Para tanto, fez-se necessário apresentar informações sobre o autor e a obra,
principalmente sobre a forte presença da identidade cubana na escrita de Padura, que se
reflete consideravelmente no conteúdo de sua escrita.
Com o aporte teórico de autores como Rónai (1981, 1983), Bassnett (2003) e Pym
(2011), foi possível refletir acerca das características da linguagem literária e sua relação
com a tradução, por diferir do processo de tradução técnica ou científica, e da noção de
equivalência. Venuti (2002) e Frota (2000) fundamentaram os comentários referentes à
formação de identidade cultural e à tradução como atividade de produção de significados,
ao considerar o trabalho de tradução apresentado, especialmente em relação aos exemplos
escolhidos, analisados do ponto de vista da transferência de conteúdo entre práticas
culturais, de acordo com cada caso.
Retomando Rónai (1987, p. 23), não há equivalências absolutas. Os exemplos
citados poderiam ter sido traduzidos (ou não) de outras maneiras, resultando, ainda assim,
em traduções válidas. Contudo, atenta-se para os exemplos citados que envolvem o uso
dos pronomes de tratamento na tradução, já que a tradução de “tú” no espanhol para “tu”
no português acarretaria um problema significante, ao considerarmos a diferença de uso
existente entre o par de línguas aqui estudados.
Por fim, a partir da prática e do estudo teórico realizados para a escrita deste artigo,
considera-se essencial que o tradutor tenha a consciência de que a tradução não é um
trabalho meramente de cópia ou transferência de significados, resgatando as reflexões de
Frota (2000). Além de se ter o cuidado de prezar o sentido do texto original e a língua
para a qual se traduz, há de se levar em conta o grande impacto cultural que essa atividade
é capaz de fomentar. Conforme proposto por Venuti (2002), o trabalho de tradução tem
influência na formação de identidades culturais, gerando respeito, estigma ou aversão,
considerando a recepção do texto traduzido. Como efeito disso, pode-se explicar o grande
impacto das traduções das obras de Leonardo Padura, levando a identidade cubana, com
seus estigmas e controvérsias, a diversos países através do trabalho do tradutor.
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