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MESTRADO EM TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA E DESIGN DIGITAL

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC-SP

Guilherme Felitti

Blogues: debates sobre três perspectivas e desenvolvimento do

fenômeno no Brasil

MESTRADO EM TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA

E DESIGN DIGITAL

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC-SP

Guilherme Felitti

Blogues: debates sobre três perspectivas e desenvolvimento do

fenômeno no Brasil

MESTRADO EM TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA

E DESIGN DIGITAL

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Tecnologias da Inteligência e Design Digital – Processos Cognitivos e Ambientes Digitais, sob a orientação da Profa.Doutora Lucia Isaltina Clemente Leão

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Banca examinadora

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RESUMO

FELITTI, Guilherme. Blogues: debates sobre três perspectivas e desenvolvimento do fenômeno no Brasil. 2006. 136 f. Dissertação (Mestrado em Tecnologias da Inteligência e Design Digital) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2009

A popularização dos blogues do seu surgimento em 1996 até os dias de hoje, atraindo perfis de usuários além dos entusiastas e profissionais de tecnologia, nos apresenta novos tipos de aplicações da plataforma que extrapolam as definições iniciais de filtros de links ou diários pessoais na internet. Esta pesquisa pretende passar em revisão os principais conceitos básicos sobre os blogues, para indicar pontos comuns às diferentes aplicações da plataforma. O primeiro capítulo explorará os blogues sob três prismas: o estrutural, explicando as ferramentas que os serviços atualmente disponíveis oferecem; o da prática, explorando que tipos de hábitos são desdobramentos da apropriação das ferramentas; e o das conversações, com os blogues hospedando diálogos altamente fragmentados e infinitamente expansíveis. O segundo capítulo retomará a classificação dos blogues como gênero para argumentar a necessidade de encará-los como linguagem, apresentando sugestões para um modelo de tipificação mais preciso e criterioso. Já o terceiro explorará o desenvolvimento dos blogues nos Estados Unidos e no Brasil, em comparação que pretende destacar semelhanças e diferenças em seu desenvolvimento nos dois países. O quarto capítulo analisará três estudos de casos brasileiros e é focado em suas capacidades de atraírem e interagirem com suas comunidades.

(6)

ABSTRACT

The popularization of the blogs from their beginning in 1996 until today, attracting profiles of users besides enthusiasts and technology professionals, presents to us new kinds of applications of the platform that surpass the initial definitions of link filters or personal diaries on the internet. This research intends to review the main basic concepts about blogs, to indicate common points to the different platform applications. The first chapter will explore blogs under three prisms: structural, explaining the tools that the available services nowadays offer; practical, exploring which habits come from the appropriation of the tools; and the conversations, with blogs hosting dialogues highly fragmented and infinitely expansible. The second chapter will retake the classification of the blogs as a genre to indicate the necessity of seeing them as language, presenting suggestions for a model of a more precise and discerning definition. The third chapter will explore the development of the blogs in United States and in Brazil, in a comparison that intends to highlight common points and differences in their development in both countries. The fourth chapter will analyze three Brazilian case studies and it is focused in their capacities to attract and interact with their communities.

(7)

SUMÁRIO

Resumo...8

Abstract...9

Listra de ilustrações...12

Sumário de anexos...13

Introdução...15

1 – O blogue por três perspectivas...19

1.1 O blogue como ferramenta...19

1.2 As práticas dos blogues...32

1.3 As conversações por meio dos blogues...46

2 - Categorias e mídia: a evolução na classificação dos blogues...61

3 - Marcos e diferenças: comparando o desenvolvimento da blogosfera nos Estados Unidos e no Brasil...78

4 – Estudos de caso...105

4.1 – Para Francisco...108

4.2 – Correndo Atrás...113

4.3 – AllesBlau...118

Considerações finais...122

Referências...125

Anexos...128

(8)

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

FIGURA 01: reprodução de blogue Chá Quente com post datado com link permanente, RSS, busca,

widgets na coluna lateral e explicações sobre o autor...18

FIGURA 02: exemplo de localização do ícone para assinatura do feed RSS em um blogue...25

FIGURA 03: exemplo de nuvem de tags, onde o tamanho dos termos (tags) indicam a frequência do seu uso dentro do blogue...27

FIGURA 04: exemplo de blogroll, apontando links relevantes na coluna lateral do blogue...28

FIGURA 5: exemplos de widgets que podem ser integrados à interface do blogue...30

FIGURA 06: o novo processo envolvendo notícias na internet, segundo Jarvis...41

FIGURA 07: a dinâmica de uma conversação envolvendo diferentes blogues por Jenkins...49

FIGURA 08: como o trackback registra no post original citações em outros blogues...51

FIGURA 09: os sistemas de comunicação mediada pelo PC, segundo Herring...54

FIGURA 10: o gráfico proposto na tipificação de Krishnamurthy...67

FIGURA 11: a matriz de tipificação de Primo...69

FIGURA 12: o aprofundamento proposto na dissertação para a matriz de Primo...75

FIGURA 13: Embratel anuncia Serviço Internet Comercial em dezembro de 1994...81

FIGURA 14: post inaugural do Justin's Links From the Underground, de Justin Hall, o 1º blog criado...84

FIGURA 15: post inaugural do Diário da Megalópole, 1º blogue brasileiro em português...87

FIGURA 16: blogue em que a equipe do Desembucha anunciava novidades do serviço...91

FIGURA 17: post do Catarro Verde, de Sérgio Faria, acusando o plágio do então senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA)...96

FIGURA 18: reprodução da página inicial do blogue Para Francisco...107

FIGURA 19: reprodução da página inicial do blogue Correndo Atrás...112

(9)

ANEXOS

A.1 - Entrevista com a designer Cristiana Guerra, responsável pelo blogue Para Francisco...128

A.2 - Entrevista com o subeditor de arte Mario Guilherme de Vasconcelos, responsável pelo blogue

Correndo Atrás...130

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Introdução

A liberação do polo de emissão permitida pela internet, em contraste com as mídias

convencionais de transmissão de mão única, alimentou um novo fenômeno no ciberespaço

(LEMOS, 2002, p. 2) onde qualquer um conectado à rede pode se expressar livremente. O principal

veículo para tal exposição e consequente projeção da identidade do seu autor no ciberespaço é o

blogue, abreviação para a expressão “weblog” (registro online, em tradução livre para o português).

O fenômeno teve início com o estudante Justin Hall, que criou, em janeiro de 1996, o Justin's Links

from the underground1 (ainda não havia a nomenclatura específica), página com atualizações diárias

e organização temporal retroativa. O próprio Hall afirma, porém, que se inspirou em outros

exemplos vigentes na época para criar e manter o blogue pioneiro (ROSENBERG, 2009, p.21).

À medida que o fenômeno se tornava mais popular, alimentado tanto pelo desenvolvimento

de novas ferramentas como pela projeção que a publicação pessoal na internet ganha dentro de

outras mídias, os blogues se transformam para abarcar todos os objetivos sociais daqueles que,

intrigados com a plataforma, criavam seus próprios blogues. Nos dois primeiros estágios da sua

evolução, o blogue foi alvo de duas tipificações resultantes do perfil demográfico daqueles que o

adotaram: nos primeiros anos, blogues serviam para que profissionais do mercado de tecnologia

indicassem links interessantes online; e, após a ascensão de ferramentas que automatizavam

processos técnicos, em movimento iniciado pela Pyra Labs em 1999, blogues eram encarados como

versões digitais e coletivas dos tradicionais diários pessoais, em que se encontra a narrativa íntima

do seu autor.

Dada a popularidade da plataforma no correr dos anos, tais simplificações são insuficientes

para abarcar o potencial de aplicações que os blogues têm, em um processo que se autoalimenta:

quanto mais popular o blogue se torna, mais pessoas com diferentes objetivos (e, portanto,

aplicações) adotam a ferramenta, indicando novos potenciais usos e atraindo novos usuários.

(11)

Blogues já não servem apenas para apontar links em posts monossilábicos ou servirem de suporte

para seu relato emocional sem edições. Para nos aprofundarmos nas diferentes apropriações dos

blogues e entendermos alguns pontos comuns a todas elas, o que nos ajudaria a definir com maior

precisão o fenômeno, precisamos discutir pontos básicos sobre a natureza dos blogues e sua

evolução.

Esta dissertação se propõe a discutir os blogues sob três perspectivas – a estrutural,

analisando as ferramentas disponíveis para a criação e manutenção; a das práticas, detalhando que

tipos de hábitos afloram da apropriação dessas ferramentas (a prática é parte intrínseca das

ferramentas, já que ela se desenvolve a partir das funções permitidas pelo software); e a das

conversações, abordando o potencial dos blogues como veículos de agregação de comunidade e

definindo como são conduzidas as conversas por diferentes blogues, em diálogo que se destaca pela

fragmentação ao ser comparado a outros métodos de comunicação mediada pelo computador.

O primeiro capítulo desta dissertação é dividido em três subcapítulos, que discutirão as

perspectivas acima citadas, revisando propostas e estudos etnográficos já produzidos por

pesquisadores para tentar atingir definições que abarquem as apropriações mais populares que

encontramos atualmente. Vale notar que estamos tratando de um fenômeno em constante evolução e

poderemos esperar novas apropriações, capazes de apontar novas direções para os blogues, após o

encerramento da pesquisa.

O segundo capítulo trata da abordagem inicial dos blogues como gêneros, classificação

facilitada pelo exagerado uso de metáforas na definição da plataforma, partindo da definição de

Bakhtin (2005, p. 279), para quem gêneros são “tipos relativamente estáveis de enunciados”. O

capítulo argumentará, sustentado pela teoria de Boyd (2006, p.7), que blogues guardam

semelhanças com as mídias que o antecederam, mas apresentam características próprias a ponto de

serem consideradas uma nova mídia. Aqui, a argumentação é fundamentada segundo a definição de

McLuhan (1967, p. 21), para quem a mídia é uma extensão por onde o homem pode se expressar

(12)

sistemas de tipificação que considerassem conceitos básicos da manutenção de um blogue, como o

número de participantes e a aplicação pessoal ou profissional dos textos publicados. Por fim, um

sistema de classificação proposto por Primo (2008) será detalhada e aprofundada, com

exemplificações entre blogues criados no Brasil e sugestões que podem tornar o sistema de

tipificação ainda mais rigoroso e preciso.

O terceiro capítulo compara o desenvolvimento histórico dos blogues nos Estados Unidos,

onde foram registrados os principais marcos referentes à história do fenômeno, graças à

concentração geográfica de espaços de inovação, produção e uso de novas tecnologias,

argumentação defendida por Castells (1996, p. 36), e no Brasil, retomando o início da internet

comercial e o desenvolvimento das primeiras comunidades e formas de comunicação digital. A

dissertação comparará a evolução dos blogues nos dois ambientes, indicando diferenças e

similaridades, a partir de quatro pontos de vista: Pioneiros, Ferramentas, Visibilidade e Adoção

Corporativa.

Por fim, o quarto capítulo é composto de três estudos de caso, escolhidos pelo mestrando por

seus semelhantes potenciais de mobilização, mas diferentes explorações da comunidade criada ao

redor do conteúdo oferecido. Os blogues Para Francisco, da mineira Cristiana Guerra, o Correndo

Atrás, do carioca Mario Guilherme de Vasconcelos, e o AllesBlau, da catarinense Juliana Maria da

Silva, terão suas histórias contadas e serão analisados a partir de conceitos apresentados no decorrer

da dissertação, como prática, ferramentas técnicas, coletividade, exploração da comunidade e

desdobramentos fora da internet. As entrevistas conduzidas com os três estarão disponíveis na

(13)
(14)

1 – O blogue por três perspectivas

Neste primeiro capítulo, os blogues são discutidos sob três diferentes perspectivas: estruturalmente,

como ferramenta; como prática, com hábitos decorrentes da apropriação da plataforma; e como

fenômeno social, com conversações que se fragmentam em diferentes ambientes.

1.1 – O blogue como ferramenta

A abordagem inicial para discutir blogues é sua estrutura. Neste subcapítulo, será exposto o

debate sobre o que vem a ser a estrutura mais básica de um blogue e serão abordadas algumas das

ferramentas adicionais fundamentais à socialização e à navegação em conteúdos publicados pela

plataforma. A estrutura sobre a qual se dará o debate é a de um “blogue-protótipo”, em qualificação

que, em menor ou maior grau, pode depender da configuração dos softwares oferecidos para a

criação do blogue. Vale ressaltar que, dada a rápida evolução tecnológica, o debate estrutural deste

subcapítulo registra um momento histórico de uma mídia em pleno desenvolvimento.

É importante discutir a estrutura a partir da relação de decorrência que ela tem com as

práticas dos blogues. As funções oferecidas pelos softwares “moldaram o estilo e as propriedades

dos blogues” (BOYD, 2006, p. 13). É por meio da evolução das ferramentas iniciais das primeiras

plataformas de blogues que é possível analisar e debater práticas e perspectivas comunicacionais

contidas nos blogues. O software é o ponto de partida do fenômeno.

Como coloca Manovich (2008), o software que apresenta uma interface simplificada para o

usuário mistura conteúdos como textos, vídeos e fotos em posts, avisa sistemas de filtragem de

conteúdo sobre novas informações e abre espaços para comentários dos leitores e, assim, a

consequente formação de comunidades é parte formadora do fenômeno.

A plataforma tem potencial para reajustar e remodelar processos quando aplicada sobre

processos de comunicação. É necessário estudar os softwares por trás de novas práticas de

publicação pessoal já que, "se a eletricidade e o motor de combustão tornaram a sociedade

(15)

2008, p. 4).

Se não estudarmos o software por si, estaremos sempre em perigo de lidar apenas com os efeitos ao invés das causas: o desdobramento que aparece na tela de um computador ao invés do programa ou das culturas sociais que produzem esses desdobramentos.

(MANOVICH, 2008, p. 5).

Aqui vale uma consideração: por mais que tenham uma relação de interdependência com as

práticas (funções definem rotinas, que podem guiar o desenvolvimento de novas ferramentas), “as

propriedades do protótipo [estrutural] não definem os limites da mídia nem transmitem práticas

normativas ou de valor” (BOYD, 2006, p.12). A construção do fenômeno é social, dada

principalmente através da apropriação das ferramentas construídas. É a prática que define a

fronteira do blogue, não a plataforma.

A popularidade de tipificações estruturais fica evidente ao serem listadas as diferentes

abordagens à plataforma no decorrer do seu desenvolvimento. Em uma das primeiras definições, a

pesquisadora Brigitte Eaton compilou uma das primeiras listas com blogues em 1999, usando

apenas um critério técnico: blogues seriam todos aqueles conteúdos sucessivos com “conteúdos

datados” (BLOOD, 2000, p.2), definição que não diferenciava dos blogues os sites estáticos com

frequência de publicação estabelecida, por exemplo.

Nos últimos anos, artigos acadêmicos ou jornalísticos apresentaram definições estruturais de

blogues que misturavam ferramentas com a prática ou o gênero do conteúdo publicado. É o caso de

Gillmor (2004, p.29), quando diz que blogues são “diários online compostos de links e posts em

ordem cronologicamente reversa”. É possível notar em sua definição, considerada “generalizada”

pelo próprio autor, que há tanto a classificação restritiva quanto ao gênero (blogues como diários)

como a obrigatoriedade de links em seu conteúdo, algo a ser discutido no subcapítulo 1.2. Nota-se a

redundância do autor em atrelar blogues ao ciberespaço, como se fosse possível existir blogues na

estrutura apresentada – com Hyperlinks – em outra mídia que não a hipermídia.

Já Barger (1999, online)2 define blogues estruturalmente como “uma página [...] [em que o]

formato consiste normalmente em adicionar conteúdos novos no topo da página [...]”, o que faria

(16)

com que os visitantes pudessem ler tudo o que foi escrito anteriormente apenas navegando para o pé

do site. Herring (2005, p.1) o define como “páginas online modificadas constantemente em que

conteúdos datados são listados em sequência cronologicamente reversa” e que se organizam ao

redor de posts, “os corações dos blogues”.

Conor, Hayes e Avesani (2007) seguem o caminho de misturar ferramenta com práticas ao

definir que blogues, além das publicações em ordem cronológica reversa, são caracterizados

também por atualizações constantes, escritas geralmente vindas de apenas um usuário e organização

definida por tags. Já para Recuero (2002, p. 3), blogues são ferramentas “simples de criar conteúdo

dinâmico em um website” baseado em atualizações frequentes com “pequenas porções de texto” (os

posts, segundo a autora) e organizado em torno do tempo, com a atualização mais nova ocupando o

topo do website com data e hora. Até mesmo o formal Oxford English Dictionary, ao tipificar pela

primeira vez o termo “blog”, definiu a ferramenta como “um site atualizado frequentemente que

consiste de observações pessoais, excertos de outras fontes, etc, geralmente atualizado por uma

pessoa” (OED, 2003).

Percebe-se que, entre desencontros em relação às práticas e mesmo aos conteúdos que

blogues podem ser usados para canalizar, todos os pesquisadores citados concordam na estrutura

mais básica do blogue como sendo uma plataforma de publicação centrada em posts identificados

com um link permanente (chamado tecnicamente de permalink) e dados temporais sobre o

conteúdo, como dia do mês e/ou hora de publicação.

Quem mais se aproxima de uma definição condizente com as ferramentas básicas

disponíveis por populares plataformas de blogues até o momento da execução dessa dissertação,

como Blogger3, WordPress4, LiveJournal5, Movable Type6 e Typepad7, é a socióloga da

Universidade de Bamberg, na Alemanha, Jan Schmidt, que propõe a definição de blogues como

[…] websites frequentemente atualizados onde os conteúdos (texto, fotos, arquivos de som,

3 http://www.buzzmachine.com/ (Acesso em 25 de outubro de 2009) 4 http://chaquente.com/ (Acesso em 25 de outubro de 2009)

(17)

etc) são postados em uma base regular e posicionados em ordem cronológica reversa. Os leitores quase sempre possuem a opção de comentar em qualquer postagem individual, que são identificados com uma URL única. (SCHMIDT, 2007, p.1).

A centralização em posts parece ser a característica estrutural mais importante dos blogues,

já que, sendo eles as unidades chaves de um blogue, como descreve a cofundadora da Pyra Labs,

empresa responsável pelo Blogger, Meg Hourihan, tal estrutura “captura expressões em andamento,

não edições de criações estáticas” (BOYD, 2006, p. 10). Além de dinamismo na maneira como

conteúdos mais novos são apresentados, a sucessão de posts exige que blogues tenham ferramentas

complementares que ajudem o leitor a navegar pelos posts anteriores e que já foram substituídos,

nas páginas iniciais, por outros materiais mais recentes. Como expõe Tim O´Reilly:

A blogosfera pode ser pensada como um novo equivalente peer-to-peer da Usenet e de

bulletin-boards, os “bueiros conversacionais” do começo da internet. As pessoas podem não apenas se cadastrar nos sites dos outros e facilmente “linkar” para comentários individuais na página, mas também, por um mecanismo conhecido como trackback, podem ver qualquer um que tenha links para suas páginas, e pode responder com links recíprocos ou não, ou acrescentar comentários. (O´REILLY, 2007, p. 25).

Funcionalidades como comentários, sistema de classificação por tags, lista de links, suporte

a RSS, arquivos organizados por mês e widgets laterais são complementos à estrutura crua dos

blogues que fazem com que o usuário abandone o simples uso da ferramenta de publicação, aceite

“o convite para a conversação” (PRIMO, 2008, p. 123) e explore as práticas conversacionais

inerentes à nova mídia.

O “blogue-protótipo”, constituído a partir da mistura entre a estrutura crua centrada em posts

e com link permanente e um número variável das funcionalidades descritas, restringe-se a uma

ferramenta de publicação pessoal facilitada que automatiza processos e, portanto, derruba o nível de

conhecimento prévio necessário aos interagentes para praticamente zero (GILLMOR, 2004, p. 30).

Um blogue com conteúdo disposto em ordem cronológica reversa, mas que não tenha

comentários, feeds de RSS e/ou widgets, não se transforma em um site convencional – ele continua

a ser um blogue, da mesma forma como outro veículo com todas as funcionalidades habilitadas

também o é, embora ambos guardem profundas diferenças em seus funcionamentos.

Neste cenário, porém, o blogue é tratado como mais um sistema de gerenciamento de

(18)

conversacionais e do cultivo de audiências que ajudam a moldar suas práticas. Em suma,

representar conteúdo em ordem reversa e com link permanente ainda é fazer uso do blogue, muito

embora a plataforma se distinga pouco de outros CMSs disponíveis para gerenciamento de

conteúdo digital. A relação entre CMSs e plataformas de blogues começa a se extinguir de maneira

que softwares como o WordPress já oferecem configurações para que webmasters criem sites a

partir das ferramentas responsáveis por blogues.

A popularização dos blogues passa por um marco histórico no setor, onde a então exigência

de se conhecer a linguagem de programação HTML para manter seu registro online impedia uma

adoção em massa e restringia a prática do blogue a funcionários do mercado de tecnologia

familiarizados com códigos. Os primeiros blogues que se têm notícia, algo a ser detalhado no

capítulo 3, eram feitos por programadores que precisavam formatar não apenas a apresentação da

página, mas também o conteúdo (fosse ele texto ou imagem) que seria veiculado no post, como foi

o caso de Justin Hall no Links From the Underground, que estreou em janeiro de 1996.

A estreia da primeira ferramenta de blogues, da desenvolvedora Pitas em julho de 1999, e,

principalmente, da ferramenta Blogger, da Pyra Labs, ajudaram a quebrar a resistência e incentivar

o público em geral a criar seus blogues ao oferecer uma interface familiar, “com comandos simples,

semelhantes aos dos editores de texto” (GUTIERREZ, 2003, p. 91), onde imagens e links poderiam

ser formatados pelo apertar de botões. Além de popularizar o termo “weblog”, foi o Blogger o

responsável por engatilhar o movimento “button-pushing publication”, plataformas online que não

exigiam conhecimento prévio e permitiam que qualquer um criasse seu espaço para reflexões no

ciberespaço. O movimento de transformar códigos de programação em interfaces em que os

mesmos resultados são atingidos com o apertar de botões - um movimento iniciado em 1984, com a

Apple lançando no Macintosh o primeiro sistema operacional com sistema de navegação gráfico

baseado em ícones, símbolos e janelas, e não a tradicional linha de comando –, teve ainda

desdobramentos em outras áreas de colaboração online, como criação de redes sociais centradas em

(19)

A facilidade oferecida pelo Blogger atraiu um contingente de usuários além dos entusiastas

já citados, o que teve reflexos na blogosfera tanto por novas razões pelas quais se atualizava um

blogue como por novos conteúdos publicados. Quando o Blogger quebrou a barreira técnica

necessária para se ter o privilégio de possuir um blogue, o segundo momento da blogosfera,

capturado por análise etnográfica por autores como Herring e Nardi, foi marcado pela divulgação de

narrativas pessoais, semelhantes às encontradas em diários adolescentes, acrescidos dessa vez do

fator comunicacional. O constante uso de metáforas comparando blogues com diários pessoais

marcou a plataforma digital no imaginário coletivo a partir dessa segunda fase do seu

desenvolvimento, como há de ser discutido mais a fundo no capítulo 2.

Além da estrutura básica já apresentada, debateremos algumas das ferramentas adicionais

amplamente encontradas em blogues - RSS, blogroll, tags e widgets, sendo que as quatro primeiras

ajudam na organização e facilitam a navegação do leitor pelo conteúdo arquivado e a última

extrapola as funcionalidades oferecendo conteúdos de bancos de dados externos ao blogue.

Comentários e trackbacks são funcionalidades que serão estudadas mais a fundo, tanto em suas

definições técnicas como em suas consequências conversacionais, no subcapítulo 1.3.

FIGURA 02: exemplo de localização do ícone para assinatura do feed RSS em um blogue

A RSS é uma tecnologia que permite a “assinatura” do blogue em questão, com conteúdos

(20)

checar atualizações. Programas e serviços online, denominados leitores de RSS, permitem o

cadastro dos chamados “feeds”, canais por onde as atualizações são levadas ao usuário, que podem

ser classificados e agrupados conforme sua vontade, o que o torna "uma forma de clipping contínuo

e automatizado" (PRIMO, 2007, p.4).

Tecnicamente, o RSS é uma linguagem que cria uma arquitetura padronizada para exibir o

sumário de conteúdos disponíveis no blogue, acrescidos de meta dados que ajudam na classificação

e exibição do material. Ou, como escreve Dan Libby (1999, p.18), engenheiro envolvido na criação

da tecnologia para o portal My.Netscape.com, que publicou uma revisão do formato ainda em 1999,

“o RSS foi originalmente concebido como um formato de meta dados que oferece o sumário de um

site”.

A natureza estruturada dos dados no RSS permite que o usuário defina filtros para o feed que

exibirão apenas conteúdos que mais lhe interessam, algo que representou a ascensão do movimento

dos mashups online. Um mashup é um serviço nascido para desempenhar determinada função após

duas outras ferramentas ou uma ferramenta e uma fonte de dados (que tinham propósitos originais

diferentes do mashup) tenham sido combinadas.

Ainda que o primeiro esboço do RSS tenha sido criado em 1999 pelo pesquisador

Ramanathan V. Guha dentro de uma iniciativa de um portal para o Netscape, a tecnologia só se

aproximou da qual estamos acostumados a usar hoje em setembro de 2002, quando Dave Winer,

também um dos primeiros blogueiros do mundo, publicou a especificação RSS 2.0. Em 2003,

Winner cedeu o gerenciamento do formato RSS 2.0 para o Berkman Center for Internet & Society9,

grupo de estudos cibernéticos da Universidade de Harvard, e aplicou uma licença Creative

Commons sobre a tecnologia.

Nuvem de tags é o termo que descreve uma ferramenta que ajuda na exploração do

conteúdo arquivado por meio de um sistema de categorização surgido com a cultura digital

chamado de “folksonomia”. A “folksonomia” é um sistema distribuído de “categorização

8 http://www.scripting.com/netscapeDocs/Rss%200_91%20Spec,%20revision%203.html (Acesso em 25 de outubro de 2009)

(21)

colaborativa [que] usa palavras livremente escolhidas, chamadas com frequência de tags”, como

explica O'Reilly (2007, p. 23). As tags são descritas por Hayes, Avesani e Veeramachaneni (2006,

p. 1) como “descrições curtas e informais, geralmente de uma ou duas palavras, usadas para

descrever entradas em blogues (ou qualquer outro recurso online)”.

FIGURA 03: exemplo de nuvem de tags, onde o tamanho dos termos (tags) indicam a frequência do seu uso dentro do

blogue

Não existe “uma lista global condensada de tags a partir da qual o usuário pode escolhê-las,

nem há um conjunto de melhores práticas sobre tags” (Hayes, Avesani e Veeramachaneni, 2006,

p.1). Mathes (2004, p. 3) detalha ainda que “não existe hierarquia e qualquer relação diretamente

especificada de relacionamento entre os termos”, fora as tags relacionadas geradas automaticamente

pela associação com URLs semelhantes.

O uso de tags permite associações múltiplas e complementares de um conteúdo da mesma maneira que o cérebro faz, em vez de [explorar classificações em] categorias rígidas. Em exemplo canônico, a foto no Flickr de um filhote pode ser classificada com as tags 'filhote' ou 'fofo', permitindo que ela esteja em dois eixos da atividade gerada pelo usuário

(O'REILLY, 2004, p. 23).

Nuvens de tags, portanto, são uma maneira de representar graficamente os principais tópicos

(22)

tamanho indica a frequência de uso do termo - quanto maior o termo na nuvem, mais popular ele é

no banco de dados que tenta expressar visualmente.

FIGURA 04: exemplo de blogroll, apontando links relevantes na coluna lateral do blogue.

A liberdade com que usuários podem criar suas tags é alvo de críticas por estudiosos do uso

da folksonomia online, que, como Mathes (2004, p. 4), apontam que o “vocabulário descontrolado

leva a um número de limitações e fraquezas nas folksonomias”.

O problema, complementam Hayes, Avesani e Veeramachaneni (2006, p .2), “é que a tag é

definida localmente e não há mecanismo que indique que duas tags signifiquem a mesma coisa”.

Ou seja: ao mesmo tempo em que é encarada como libertária em relação à hierarquização da

(23)

induzir à navegação falha pelos diferentes parâmetros aplicados na definição do termo.

Blogroll são links que o blogueiro define como forma de indicar outros blogues e/ou sites

em que seu leitor poderá encontrar conteúdos semelhantes aos publicados no seu blogue ou

endereços que o autor considera interessantes. Mais que fazer referência a um post específico, o

blogroll traz uma lista de ambientes externos que compartilhem objetivos ou tragam enfoques

diferentes aos apresentados pelo blogueiro, “mapeando” (NARDI, 2004, p. 11) seu entorno, criando

redes com a blogosfera.

O blogroll pode ser fragmentado pelo blogueiro em categorias que agrupem links sobre

determinados assuntos ou indiquem relação pessoal com o link citado (como é o caso de amigos ou

familiares). A lista também pode servir para que o próprio blogueiro organize seu repertório online,

dispensando outras ferramentas de gerenciamento de conteúdo, como leitores de RSS, muito

embora Efimova e De Moor (2005, p. 2) detalhem que blogueiros consultados em seu estudo

etnográfico não viam sentido no blogroll após o advento do RSS.

Um estudo conduzido por Schmidt (2009, p.112) chegou à média de 16 links indicados no

blogroll, com um quarto dos blogueiros ouvidos indicando apenas links recíprocos e a maioria deles

(85% e 60,3%, na ordem) cita como principais razões para a indicação o fato de lerem os blogues

constantemente ou serem de amigos seus.

Por mais que seja visto como um importante veículo conversacional dos blogues, o blogroll

ainda é menos relevante que os comentários na capacidade de estabelecer e manter conversações

(SCHMIDT, 2009, p.112), seja pela imobilidade de referência a assuntos ou pelo baixo ritmo de

atualização em comparação aos novos posts publicados.

Ainda que tanto blogues como trabalhos acadêmicos sejam afetados por relações

interpessoais (que criam os “clusters10 de referências trocadas”, na denominação do blogueiro

Joshua Allen), o blogroll serve como veículo determinante para que blogues sejam considerados

relevantes. De certa forma, o blogroll se comporta como votos que o blogueiro dá àqueles que

(24)

admira (BOWMAN e WILLIS, 2003, p.43).

FIGURA 5: exemplos de widgets que podem ser integrados à interface do blogue

Widgets (que também podem ser chamados de badges) são aplicativos complementares que

(25)

começaram a se tornar mais moduláveis, a facilidade com que usuários passam a poder editar as

colunas laterais e aproveitá-las para enriquecer o conteúdo reproduzido costumeiramente na coluna

central serviu de propulsor para os widgets.

Seja pela associação ágil ou pela ampla variedade de funcionalidades disponíveis, widgets

são usados por muitos dos blogueiros (HERRING, 2004, p.7). A liberdade de edição possível em

softwares como o LiveJournal ou, mais recentemente e em grau mais elevado, o WordPress, tende a

fazer com que widgets se tornem cada vez mais presentes em blogues, em resposta à

tradicionalmente regulada plataforma do Blogger.

A facilidade de integração se associa à conscientização de serviços online em oferecer

códigos que permitem que as funcionalidades sejam levadas dos sites onde estão hospedadas para

qualquer ambiente online que suporte HTML. Isso faz com que blogues possam assumir o papel de

centralizador da atuação online do usuário.

Tradicionalmente, widgets ou badges se caracterizaram como uma forma do usuário mostrar

identificação e se atrelar a algum movimento online colando em seu blogue códigos que

reproduzem uma imagem com link que leva ao site, concentrando a manifestação sobre determinado

assunto.

Pela evolução da programação online, serviços online ou bancos de dados externos ao

blogue podem ser integrados por meio de widgets, expandindo suas capacidades para que

mensagens instantâneas sejam trocadas enquanto o blogueiro está online (Meebo11), que discussões

mantidas em outro ambiente digital sejam reproduzidas junto ao conteúdo do blogue (Google

Friend Connect12), quais as canções mais ouvidas pelo blogueiro sejam indicados (Last.FM13), que

leituras selecionadas pelo blogueiro estejam disponíveis (Delicious)14 e até que um canal de

bate-papo seja aberto em tempo real entre blogueiro e leitores (CoverItLive15).

Se considerarmos a popularização deste movimento de trazer funcionalidades de serviços

11 Http://www.meebo.com (Acesso em 25 de outubro de 2009)

12 Http://google.com/friendconnect (Acesso em 25 de outubro de 2009) 13 Http://last.fm (Acesso em 25 de outubro de 2009)

(26)

online externos para o blogue por meio dos widgets, podemos constatar que a pequenas aplicações

servirão a objetivos ainda mais específicos que os já suplantados agora e, portanto, têm poder em

potencial para transformar a prática dos blogues.

Assim como os widgets levam ao blogue funcionalidades (compactas e independentes) de

serviços hospedados em outros ambientes, pode-se perceber também como as empresas por trás de

softwares de blogues vêm se preocupando em oferecer ferramentas que facilitem a seleção e edição

de conteúdos para os blogues, ainda que o usuário não esteja com a interface padrão aberta em sua

frente. Exemplo disso é a barra de ferramentas “Blog This”, que o Google oferece para que

blogueiros do Blogger indiquem domínios ou textos que serão jogados automaticamente no blogue.

A constante evolução das ferramentas oferecidas para a manutenção de blogues, focadas não

mais apenas no gerenciamento de conteúdo, mas também em uma melhor organização da

comunidade nascida ao redor do material publicado, faz com que o estudo estrutural dos blogues

possa ser aprofundado em ocasiões futuras, levando-se em consideração as implicações que tais

novidades técnicas significarão às práticas do blogue.

1.2 – As práticas dos blogues

A análise estrutural dos blogues guia a próxima discussão da dissertação, já que é da

apropriação das ferramentas tecnológicas (LEMOS, 2002) que emergem as práticas que guiarão a

criação e a divulgação de conteúdo na nova plataforma. Há uma conexão muito próxima entre

estrutura e prática nos blogues, pois “a tecnologia representa um papel fundamental no molde das

formas resultantes” (BOYD, 2006, p. 12). É pelo uso das ferramentas que “as fronteiras dos blogues

são socialmente construídas, não tecnologicamente definidas” (BOYD, 2006, p. 12). A adoção da

ferramenta, portanto, leva os blogues a assumirem “um vasto leque de usos, resultando em um

conjunto diverso de práticas agrupado sob a rubrica 'blogging'”(PARK, 2009, p. 1).

(27)

fatores que podem ser considerados inerentes à rotina citada por Schmidt, e explorando o potencial

impacto que a publicação pessoal em um ambiente público, intertextual e dotado do suporte

multimídia do hipertexto, tem sobre a linguagem, adaptando-se conforme suas restrições práticas de

discurso anteriores.

Como esclarece Schmidt (2009, p.110), o debate sobre as práticas do blogue pode se

concentrar em “características individuais, motivações, rotinas e expectativas ou em propriedades

estruturais da blogosfera, de modo mais proeminente nas redes de links entre blogues ou no público

emergente”. A pesquisadora afirma que os estudos acadêmicos voltados à prática dos blogues se

concentram majoritariamente na língua inglesa, com a exceção de análises voltadas às blogosferas

persa (ESMAILI, 2006), espanhola (MERELO, 2005) e polonesa (TRAMMELL, 2006), o que a

impulsionou a realizar um estudo com mais de 5 mil falantes da língua alemã para descobrir seus

hábitos e rotinas na criação de blogues.

A abordagem inicial das pesquisas para analisar as práticas dos blogues se apoiava em

estudos etnográficos que tentavam apontar rotinas padrões para as diferentes apropriações da

ferramenta blogue. Sendo assim, autores como Nardi, Herring, Boyd e mesmo Schmidt definiram

categorias que formavam a prática do blogue, como frequência, coletividade, conteúdo, motivação e

privacidade (complementares, mas não indissociáveis).

Em uma das primeiras tentativas de definir blogues, Blood (2000) se concentrou no

conteúdo publicado pelo blogueiro, tipificando como “estilo original” da plataforma a apresentação

de “links tanto para cantos pouco conhecidos da Web como para notícias e artigos que acham valer

a pena ser notados”, apostando na então nascente mídia como um método de registro. Todas as

publicações, sempre veiculadas em espaços pequenos, “o que encorajava a precisão por parte do

escritor”, segundo sua concepção, também eram acompanhadas por “comentários do editor” e

carregavam “um tom irreverente e algumas vezes sarcástico”. Blood tomava como base o

movimento dos blogues em desenvolvimento entre entusiastas e programadores antes da introdução

(28)

Tendo isso em vista, por mais que suas definições documentem com precisão um momento do

desenvolvimento das práticas dos blogues, a tipificação soa exageradamente desatualizada ao se

preocupar apenas em indicar formatos ou tons de abordagem para publicação.

Nardi também aborda a importância do uso de links dentro do conteúdo, embora não

restrinja tom, formato ou assunto abordado para sua tipificação. O estudo etnográfico (conduzido

com 23 participantes no período entre abril e junho de 2003) indica que o uso de links (dentro dos

posts ou por meio do blogroll) fomenta a criação de comunidades ao redor do blogue e cria

integração com outros blogueiros, já que “pessoas tipicamente encontram blogues por outros

blogues que estão lendo, por amigos ou colegas que avisam sobre seus blogues ou de outros, ou

pela inclusão de uma URL em um site ou no perfil de algum comunicador instantâneo”. (NARDI,

SCHIANO e GUMBRECHT, 2004, p. 3).

O estudo etnográfico de Herring, no entanto, vai na contramão da crença de que links são

partes indissociáveis da atividade de “blogar”, apontando que menos de um terço dos posts

analisados em 2003 continha qualquer link, com o grupo estudado atingindo uma média de 0,65 link

por post, muito abaixo da média de 1,89 alcançada por Krishamurthy (2002) ao estudar os hábitos

do MetaFilter, um dos blogues de filtragem de conteúdo mais populares da Web. A descoberta da

pesquisadora reflete o contexto histórico da época: a alta taxa daqueles que declararam manter

blogues como “diários pessoais” (70% dos entrevistados) é desdobramento direto do então sucesso

que o Blogger experimentava com usuários sem conhecimento técnico. A afirmação de Blood de

que a origem do blogue remonta a filtros online centrados em links, então, “representa erroneamente

a maioria dos blogues” na época do estudo, por mais que fizessem sentido em 2000, admite Herring

(2004, p. 9).

Por outro lado, o estudo de Herring corrobora a proposta de Blood (ecoada também por

Gillmor) de que posts são publicações curtas, indicando uma média de 210,4 palavras por

publicação pessoal, número menor, argumenta Herring, do que o presente em e-mails trocados em

(29)

palavras) também corrobora a análise da pesquisadora de que a ampla adoção da ferramenta como

recurso para narrativa pessoal na amostra influi diretamente no seu resultado, tanto pela

popularidade de links e conteúdos citados nos posts, como na falta de conteúdos multimídia nas

publicações – blogues como veículos para distribuição de imagens, como faz o cartunista Laerte no

seu Manual do Minotauro16com suas tiras, ou de vídeos, exemplo do presidente da Rússia, Dmitri

Medvedev17.

Diferentes abordagens ao estudo dos blogues concluem que ferramentas não determinam

temas a serem cobertos, o que indica que podemos observar uma grande diversidade nos assuntos

abordados por blogues. A variedade de tópicos compreende desde conteúdo inédito oferecido por

um escritor, que pede à comunidade opiniões e críticas sobre seu trabalho, até citações a outros

conteúdos por meio de hyperlinks (GILLMOR, 2003), sejam elas monossilábicas ou análises

aprofundadas, formando uma espécie de clipping ou agregado crítico sobre o assunto.

A escolha do tema a ser abordado tem relação muito próxima às motivações que levam o

blogueiro a começar seu blogue. Seja para atualizar amigos e família sobre seus passos, divulgar

talentos não aproveitados na atual ocupação, arquivar e organizar trabalhos próprios, indicar links

interessantes ou analisar questões emocionais próprias, “as motivações para “blogar” “são

manifestações de diversos motivos sociais, nas quais as inscrições no blogue comunicam propostas

sociais comunicativas específicas aos outros” (NARDI, 2003, p. 4). Partindo sempre da motivação

social da narrativa íntima, Nardi descreve cinco motivações para se ter um blogue – documentar a

vida do autor; oferecer comentários e opiniões; expressar emoções profundas; trabalhar ideias

enquanto se escreve; e formar e manter comunidades e fóruns –, em estilos que podem alternar de

post para post ou dentro da própria publicação.

A documentação da vida do autor pode misturar tanto fluxos de emoções não editadas como

registros de eventos em sua vida, relevantes para um grupo limitado, composto majoritariamente

por contatos mais próximos, e também para o próprio blogueiro, que cria um arquivo de atividades

(30)

próprias mais fácil de ser consultado e mais definitivo que outras mídias tradicionalmente usadas

para registro, como cadernos de papel. Blogues se tornam apenas mais um veículo para

documentação a partir do momento em que a interação do autor com bancos de dados externos

àquele ambiente, como comunidades de vídeos, serviços de bookmark, listas em sites de comércio

eletrônico, entre outros, torna-se automatizada.

Por meio de serviços como FriendFeed,18 por exemplo, onde o cadastramento de feeds

relativos às atividades online de qualquer indivíduo, é possível manter um histórico das “pegadas

online”, sem que o blogueiro tenha que relatar suas atividades no formato de texto em posts, o que

leva a uma fragmentação do registro online, decorrente da variedade de serviços especializados

nascidos após a popularização do blogue.

A privacidade das publicações é garantida pela opção que permite acesso apenas mediante

senha, que algumas plataformas oferecem a blogueiros. A senha, nesse caso, funcionaria como o

cadeado que protege o diário de papel do acesso indevido, em metáfora que se sustenta se não

levarmos em consideração as profundas diferenças interativas que ambos os modelos de registro

pessoal guardam entre si, assunto que será explorado mais profundamente no capítulo 2.

A privacidade em blogues pode assumir três diferentes níveis: blogues protegidos

completamente por senhas; blogues públicos, que avisam filtros agregadores de conteúdo e serviços

de busca sobre eventuais atualizações (o que facilita a descoberta por leitores que não fazem parte

da sua comunidade); e blogues públicos cujos autores escolhem não enviar alertas sobre novos

conteúdos (o que não impede o acesso, mas dificulta a localização por quem não conhece a URL).

Por fim, a inexatidão domina o histórico das pequisas sobre a frequência necessária para a

prática do blogue. Por mais que se tenha sugerido um tempo médio de espaçamento entre posts

(Herring sugere 5 dias), amostras etnográficas mostraram diferentes ritmos de atualização que

impedem a descoberta de algum padrão. Há mesmo a dúvida se a falta de atualização de um blogue

faz com que ele deixe de ser um blogue (RECUERO, 2009, p. 30). Por mais que os autores não

(31)

tenham encontrado um ritmo padrão na atualização de blogues (partindo do pressuposto que exista

um), a natureza dinâmica da blogosfera exige atualizações frequentes o suficiente para manter o

engajamento da comunidade, algo que resvala em outro componente da prática dos blogues, a

coletividade.

Por mais que tenha nascido como uma plataforma para publicações de autoria individual,

que permitia a livre expressão e debate de opiniões (GILLMOR, 2003, p. 31) pela manipulação

tanto de conteúdos multimídia como vídeos, fotos e músicas, ou citações de outros veículos online,

sejam eles páginas ou outros blogues, a maturidade empreendida pela plataforma mostra como os

blogues mais populares do mundo são obras coletivas, mantidas por grupos de pessoas.

A consulta aos 100 blogues mais populares do mundo segundo o ranking do Technorati

(novembro de 2009), que formula uma lista da blogosfera mundial baseada na quantidade de outros

blogues diferentes que apontaram links para determinado endereço nos últimos seis meses, mostra

que, dos 100 blogues mais populares do planeta, 13 são atualizados individualmente: The Daily

Dish19 (14º lugar), por Andrew Sullivan; o blogue homônimo de Michelle Malkin20 (19º); o blogue

homônimo de Ezra Klein21 (28º); Yglesias22, de Matthew Yglesias (32º); Political Punch23, de Jake

Tapper (35º); The Plum Line24, de Greg Sargent (47º); o blogue homônimo de Ben Smith25 (52º); o

blogue homônimo de Glenn Greenwald26 (61º); The Conscience of a Liberal27, de Paul Krugman

(67º); Perez Hilton28 (77º), por Mario Lavandeira; The Ausiello Files29, de Michael Ausiello (82º); o

blogue homônimo de Glenn Thruch30 (87º); e Dlisted31, de Michael K (95º).

O escritor Seth Godin elabora mais sobre a situação, em um post chamado “Fim do blogue

19 http://andrewsullivan.theatlantic.com/ (Acesso em 01 de novembro de 2009) 20 http://michellemalkin.com/ (Acesso em 01 de novembro de 2009)

21 http://voices.washingtonpost.com/ezra-klein/ (Acesso em 01 de novembro de 2009) 22 http://yglesias.thinkprogress.org/ (Acesso em 01 de novembro de 2009)

23 http://blogs.abcnews.com/politicalpunch (Acesso em 01 de novembro de 2009) 24 http://theplumline.whorunsgov.com/ (Acesso em 01 de novembro de 2009) 25 http://politico.com/blogs/bensmith (Acesso em 01 de novembro de 2009) 26 http://salon.com/opinion/greenwald (Acesso em 01 de novembro de 2009) 27 http://krugman.blogs.nytimes.com/ (Acesso em 01 de novembro de 2009) 28 Http://perezhilton.com (Acesso em 01 de novembro de 2009)

29 http://ausiellofiles.ew.com/ (Acesso em 01 de novembro de 2009)

(32)

pessoal?”, em novembro de 200832 do seu blogue homônimo. “A melhor maneira de aumentar seu

ranking como blogueiro é atualizar com bastante frequência e ter grupos de pessoas fazendo o

trabalho. Se esta é sua estratégia, claro que você não pode ter um blogue sozinho”, definindo uma

analogia para explicar que, por mais que a pessoalidade de um blogue, pela sua definição original,

dificulte sua popularização, os blogues pessoais não estão mortos: “seu blogue pode ser como um

jornal (escrito por uma equipe) ou pode ser como um livro (escrito por um autor). [...] Eles são

diferentes. E precisamos de ambos.”

Percebe-se que a definição do blogue como “vozes pessoais não editadas” (EFIMOVA,

2005, p. 2) pode fazer sentido quando encaramos os blogues situados em uma esfera

majoritariamente artesanal, encaixando-se na rotina diária do blogueiro e atraindo uma comunidade

própria interessada na seleção de assuntos abordados. Alguns blogueiros, porém, conseguem

quebrar a barreira e atraem tanto relevância como atenção do público sozinhos, (no Brasil, o

Querido Leitor33, da química Rosana Hermann, é um exemplo). De maneira geral, porém, a adoção

em massa dos blogues mostra que os de maior sucesso, tanto financeiro como de projeção, mantêm

uma rotina industrial de produção, atrelando relevância a ritmo constante de atualização. Por outro

lado, posts esparsos não desqualificam um blogue como tal.

Como é possível notar pela discussão corrente, tentar analisar as práticas dos blogues como

uma rotina em que padrões podem ser encontrados nas mais diferentes apropriações se torna uma

atividade nem sempre definidora, com estudos que refletem escolhas e hábitos da amostra que se

resolve estudar. Tentar fixar definições médias para atributos como tamanho do post, uso ou não de

links, integração de conteúdo multimídia ou frequência é limitar a plataforma e ignorar seu próprio

histórico de desenvolvimento. Como uma mídia, o blogue é uma plataforma que serve aos

propósitos sociais definidos por cada um dos seus interagentes e, por mais que haja alguns comuns

a diferentes objetivos, esses “valores protótipos” são detectados em práticas em particular, “mas não

são compartilhados universalmente” (BOYD, 2006). Não ironicamente, os estudos que tentavam

(33)

delimitar rotinas foram publicados, em sua maioria, até 2005, quando novos investimentos no

mercado de internet incentivaram a criação de novas plataformas de registro online focadas em

determinadas atividades que levaram o conceito de blogue além do que o Blogger definiu a partir de

1999.

Por que criar um blogue para armazenar suas fotos quando se tem o Flickr34? Por que

escrever posts com seus links favoritos quando se tem o Delicious? Por que escrever posts curtos

quando se pode fazer o mesmo no Twitter35 de maneira mais fácil? Por que perguntar a seus amigos

no blogue sobre festas e eventos se o Facebook36 e o Yelp37 mostram onde cada um deles estará

nessa ou naquela data? Por que perder minutos formatando uma imagem no blogue quando o

Tumblr tem uma interface voltada especificamente para a publicação multimídia? Todas as

atividades acima não se beneficiam de todas as características do “blogue-protótipo” discutido no

subcapítulo 1.1 (algumas não compartilham nenhuma característica, na verdade), mas todas ainda

podem ser consideradas uma maneira de autopublicação online gratuita e extremamente fácil. A

mudança na natureza do blogue, forçada pela popularização de serviços com outros tipos de

objetivos mais focados, força também a academia a mudar a maneira como se encara a prática do

blogue.

Boyd vê a prática de blogue como

a produção de conteúdo digital com a intenção de compartilhamento assíncrono com uma audiência conceitualizada. Trata-se de uma prática n-para-?, em que um número discreto de blogueiros compartilha com um número desconhecido de leitores. [...] O conteúdo que escolhem compartilhar varia tão amplamente como (qualquer outro meio de) comunicação, indo de reflexões a listas de tarefas, filosofias a referências a objetos digitais encontrados

(BOYD, 2006, p. 13).

Mais que simplesmente uma produção digital passível de compartilhamento com uma

audiência potencial infinita (algo possível em outras ferramentas de comunicação mediada pelo

computador, como sites tradicionais), a prática do blogue envolve também dinamismo, uma postura

ativa “onde o blogueiro produz expressões semirregulares que se 'amontoam' umas sobre as outras

(34)

sob o mesmo 'teto digital'" (BOYD, 2006), o que faz com que a coleção dessas expressões

incompletas capturem o autor responsável por elas. As ferramentas técnicas citadas até aqui

facilitam esse empilhamento digital: a ordenação retroativa dos posts dá maior destaque aos

conteúdos mais recentes (e, seguindo o raciocínio de Boyd, mais elaborados), enquanto permalinks

e trackbacks interconectam essas “expressões semirregulares”, dando ao leitor um panorama do

processo de criação que levou o blogueiro à sua publicação mais recente. Se considerarmos que

qualquer processo de criação se baseia em expressões incompletas acumuladas e retrabalhadas com

o objetivo de formar um novo conteúdo, a prática do blogue se revela como algo não totalmente

novo – a diferença está no registro do caminho trilhado pelo autor até atingir seu produto final,

passível de consulta e interferência por parte da audiência.

Se excluíssemos o fator tecnológico dos blogues, o que privaria as obras principalmente do

potencial de divulgação de n-para-? e das ferramentas (trackbacks e links permanentes) que unem as

diferentes expressões de uma mesma narrativa, podemos encarar o método de produção dos

blogues, baseado na definição de Boyd da construção sistemática usando fases consecutivas, como

algo já explorado em mídias analógicas. Seja pelos sucessivos comentários curtos que exploram

comentários registrados anteriormente, ou pela escrita com consciência da audiência (ainda que não

tenha havido efetivamente alguma além dos autores), os trabalhos do jornalista norte-americano I.F.

Stone, do ensaísta francês Michel de Montaigne, do político britânico Samuel Pepys e do

conquistador basco Lope de Aguirre, podem ser encarados como protoblogues pelos registros

realizados nas suas respectivas épocas em diários que traziam constantes referências a passagens

anteriores, nascidos antes mesmo de outras mídias, cujas especificidades a hipermídia encarna.

Por influência do dinamismo possibilitado pelos blogues, a criação de conteúdo digital muda

seu foco “do produto final para o processo” (JARVIS, 2009, online)38. Dentro do jornalismo, se

veículos estabelecidos prezam pelo produto final pronto, posts de blogues podem ser encarados

como uma parte do processo de aprendizado, define Jarvis, analisando o embate entre diferentes

(35)

métodos de produção de notícias entre jornais e blogueiros. Jornalisticamente, o post como parte de

um processo, e não como produto final, faz com que a comunidade ao redor do blogue tenha papel

ativo na apuração, o que faz com que um novo processo de produção de notícias emerja, como

Jarvis exemplifica na Figura 06. Ainda que não seja foco desta dissertação discutir os impactos das

ferramentas de publicação pessoal nos processos jornalísticos, a tipificação de Jarvis pode ser

replicada para a enorme variedade de conteúdos que a mídia blogue pode acolher, desde que o

blogueiro explore as capacidades comunicacionais da plataforma que serão exploradas no

subcapítulo 1.3.

FIGURA 06: o novo processo envolvendo notícias na internet. (JARVIS, 2009)

O dinamismo capturado pelo registro das expressões semirregulares sob um mesmo 'teto

digital' tem como consequências tanto a corporificação digital do blogueiro, projetando

virtualmente a identidade do seu autor em um espaço próprio por meio de rotinas como design do

blogue, conteúdo e abordagem escolhidos e interação com a comunidade, como a emergência de

uma nova linguagem nascida do blogue, mais fluida, em que a oralidade e a textualidade confluem.

Partindo da proposição de Döring (2002, online), segundo a qual a identidade pode ser

entendida a partir da multiplicidade do “eu” enquanto algo em constante construção e mudança,

Recuero afirma: “ao mesmo tempo que um blogue é mutante (constantemente modificado,

atualizado, reformulado, reconstruído), a identidade do indivíduo também o é". Isso quer dizer que

o dinamismo da plataforma, seja em seu design ou no ritmo ágil de novos conteúdos, faz com que

(36)

mídia de autoexpressão. O conteúdo em si constitui um grande definidor da identidade daquele que

ministra as atualizações, ainda que os posts não passem de um apanhado de links (EFIMOVA e

HENDRICK, 2005; TRAMMELL e KESHELASHVILI, 2005).

Após dois mil anos de dominação da palavra escrita, McLuhan lamentava, em 1964, a

ascensão da palavra falada pela explosão no uso de meios de comunicação baseados na voz, como o

rádio, o telefone e a televisão. Segundo ele, “a tecnologia elétrica parece favorecer a palavra falada,

inclusiva e participacional, e não a palavra escrita especializada”, o que fazia com que os valores

ocidentais fossem afetados pelos "meios elétricos" (1964, p. 101). O lamento se explica pela relação

que o teórico faz entre linguagem e desenvolvimento da consciência coletiva: enquanto a

civilização aprendeu a se organizar e a se basear na alfabetização, pela capacidade do alfabeto em

projetar as ideias (e, segundo a teoria de McLuhan, a mente humana) no tempo e no espaço, as

tribos se organizavam “segundo o sentido vital auditivo, que reprime os valores visuais” (p. 105).

A quebra promovida pela hipermídia na “rígida divisão paralelística entre o mundo visual

(da palavra escrita) e auditivo (da palavra falada)” (p. 102), aliada à agilidade de publicação pessoal

pelo apertar de botões, torna os blogues um "gênero de ligação” (HERRING, 2004), ao se apossar

de características de outras mídias de comunicação para que nasça a primeira linguagem totalmente

nativa da internet (ROSENBERG, 2009).

A nova linguagem não se restringe a mimetizar particularidades comunicacionais de meios

anteriores, já que a mistura entre textos, vídeos e imagens pode ganhar novos significados pelos

links feitos pelo blogueiro para conteúdo externos. Em sintonia com a proposta de Boyd, segundo a

qual blogues são não apenas uma mídia, mas também o produto direto da manipulação desta mídia,

Manovich defende que, com a interconexão de conteúdos facilitada pela plataforma de blogues (e

sua consequente navegação e interpretação por parte dos interagentes) também é carregada de

significados além daqueles que preenchem o conteúdo tradicional do post. A cultura dos links e suas

consequentes interconexões carregadas de significados, portanto, são bastante importantes na

(37)

Enquanto Boyd generaliza sua definição de prática de blogue para tentar abarcar os

diferentes métodos de construção de conteúdo digital, Schmidt propõe um framework de tipificação

partindo da explicação de aspectos da vida social, para quem toda ação individual em um nível

micro produz estruturas sociais de nível macro dentro de uma sociedade. Isso faz com que a

pesquisadora afirme que as práticas dos blogues possam ser encaradas como “ episódios individuais

nos quais o blogueiro usa um software específico para atingir determinados objetivos

comunicacionais” (2007, p. 12). Os episódios citados são enquadrados (mas não determinados) por

três elementos estruturais: regras, relações e códigos. Na prática, ações referentes a blogues –

envolvendo seleção ou publicação de conteúdo e estabelecimento de novas conexões –, fazem com

que os blogueiros “(re)produzam aspectos das regras que guiam o processo, (re)estabeleçam

relações sociais e estabilizem ou mudem a maneira como o código de softwares é criado e

empregado” (p. 12).

A correlação entre os três elementos estruturais, que são analiticamente separados, mas

interdependentes em vários aspectos, definidos pelo próprio interagente na hora de criar, atualizar e

gerenciar o conteúdo e as conexões do seu blogue, “leva à formação não apenas das redes

hipertextuais, mas também às redes sociais de densidades variáveis”, em indício de que o estudo de

Schmidt parte do pressuposto de que blogues são ferramentas nativamente comunicacionais – é

impossível aplicar a teoria da pesquisadora a um “blogue protótipo”, como discutido no subcapítulo

1.1, cuja estrutura mais básica conta com posts dispostos em ordem cronológica, data e link

permanente. Logo, a motivação na conceituação de Schmidt é sempre a interação social.

O detalhamento que Schmidt faz dos elementos estruturais mostra que a finalidade de toda

rotina envolvendo o blogue é a socialização. O primeiro elemento, “regras”, pode ser dividido em

duas categorias. A primeira, regra de adequação, “consiste nas expectativas compartilhadas sobre a

adequação de determinada mídia para obter certas gratificações”. Por depender das características

de um determinado formato de mídia comparado a outros formatos, a regra de adequação implica

Imagem

FIGURA 01: reprodução de blogue Chá Quente ( http://chaquente.com ) com post datado com link permanente, RSS,  busca, widgets na coluna lateral e explicações sobre o autor
FIGURA 02: exemplo de localização do ícone para assinatura do feed RSS em um blogue  A RSS é uma tecnologia que permite a “assinatura” do blogue em questão, com conteúdos  novos publicados levados ao usuário ao invés de exigir que o site seja visitado cons
FIGURA 03: exemplo de nuvem de tags, onde o tamanho dos termos (tags) indicam a frequência do seu uso dentro do  blogue
FIGURA 04: exemplo de blogroll, apontando links relevantes na coluna lateral do blogue
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Referências

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