VOZES EXCLUÍDAS: JUVENTUDES E DIREITOS HUMANOS ENTRE JOVENS EM MEDIDA SOCIOEDUCATIVA

Texto

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VOZES EXCLUÍDAS: JUVENTUDES

E DIREITOS HUMANOS ENTRE JOVENS

EM MEDIDA SOCIOEDUCATIVA*

STEFANNY KARULAYNE FIGUEIREDO DE LUCENA** FÁTIMA FERNANDES CATÃO***

* Recebido em: 10.11.2019. Aprovado em: 06.12.2019.

** Mestre em Psicologia Social (2017) pela Universidade Federal da Paraíba. Bacharel em Psicologia (2014). Professora e coordenadora do curso de Psicologia da UNESC - Faculdade Integrada de Cacoal (Unidade Cacoal). E-mail: stefanny.f.lucena@gmail.com..

*** Pós-Doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pós-Doutora em Saúde e Bioética pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto-Portugal. Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Professora Pesquisadora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Coordenadora do Núcleo de Estudos Psicossociais da Exclusão/Inclusão e Direitos Humanos (NEIDH).

E-mail:fathimacatao@uol.com.br

DOI 10.18224/frag.v29i3.7853

DOSSIÊ

Resumo: este estudo tem por objetivo analisar os significados de juventudes e direitos humanos entre jovens em cumprimento de medida socioeducativa de privação de liberdade em um Centro Educacional do Jovem (CEJ). Participaram da pesquisa 20 jovens do sexo masculino, entre 18 e 21 anos de idade. Foram aplicados questionários sociodemográficos e entrevista semiestruturada. Utilizou-se a análise de conteúdo categorial temática com o auxílio do software ALCESTE de análise de dados textuais à luz da perspectiva da Psicologia Socio-histórica. Foram configurados quatro eixos temáticos: Presença/ausência dos direitos humanos na vida dos jovens, com 61% das UCEs (Unidades de Contexto Elementares); Juventude e criminalidade, com 10% dasUCEs; Motivos que levaram à reclusão, com 14% das UCEs; e, Insatisfação com a vida e perspectiva de mudança, com 15% das UCEs. A pesquisa evidenciou significados e reflexões acerca de juventudes, direitos humanos e possibilidades de mudanças na vida dos jovens em medida socioeducativa. Palavras-chave: Juventudes. Direitos Humanos. Medida Socioeducativa. Psicologia Sócio-Histórica.

E

ntende-se que a produção conceitual de juventude traz a marca do contexto social, do tempo histórico, cultural e político. O conceito de juventude, enquanto um fenômeno sócio-histórico, é um exercício de elaboração da experiência social juvenil, uma processualidade dialética, uma categoria analítica

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atra-vessada por relações de classe, etnia, gênero, sexualidade, raça e relações geracionais (OLIVEIRA et al., 2015).

Nesse direcionamento, a juventude pode ser vivenciada de diversas formas, não fazendo sentido compreender que existe apenas um tipo específico de juventude, mas, sim, juventudes no plural, que se configuram em diferentes culturas juvenis e desiguais condi-ções de vida. Para abarcar tal pluralidade, atualmente tem-se utilizado o termo juventudes no plural, como uma forma de análise a partir do lugar em que são constituídas e constituintes nos seus meios sociais e culturais (GIL, 2011; MÁXIMO; ALBERTO, 2013; OLIVEIRA

et al., 2015). Por exemplo, a juventude de uma pessoa em contexto de pobreza não pode ser

entendida como a mesma de um jovem que vive em condições de vida mais favoráveis econo-micamente (VIGOTSKI, 1999, 2003, 2004).

O presente estudo tem por objetivo analisar como jovens em conflito com a lei, que estão em cumprimento de medida socioeducativa, significam a juventude e os direitos huma-nos, dando-lhes possibilidade de refletirem sobre suas experiências, concepções de mundo, juventude e direitos humanos. Debater sobre tal tema, então, significa abrir caminhos para que se analisem os fenômenos psicossociais resultantes das problemáticas da sociedade con-temporânea em relação ao jovem em conflito com a lei.

JUVENTUDE E DIREITOS HUMANOS: O JOVEM EM MEDIDA SOCIOEDUCATIVA

O Estatuto da Juventude, promulgado em 2011, define como jovens as pessoas en-tre 15 e 29 anos de idade. No interior dessa faixa etária, define três sub-categorias: enen-tre 15 e 17 anos como jovem-adolescente; entre 18 e 24 anos como jovem-jovem; e, finalmente, entre os 25 e 29 anos como jovem-adulto. O Estatuto da Juventude reafirma, assim, a condição de sujeitos de direitos dos jovens já preconizada no Estatuto da Criança e do Adolescente para as pessoas com até 18 anos, e alarga os direitos específicos e a proteção especial para as pessoas com até 29 anos (BRASIL, 1990). O referido Estatuto da Juventude ainda estabelece que as políticas públicas e os programas sociais devem possibilitar aos jovens espaços para a partici-pação ativa, visando, também, garantir aos jovens o acesso à educação, à saúde, ao lazer e ao esporte, à cultura e ao trabalho (BRASIL, 2013).

Embora tenham ocorrido essas mudanças no plano da legislação e do estatuto, para os jovens que cometem ato infracional a literatura aponta as diversas formas de violação de direitos que contradizem o que é proposto em termos legais. Desta forma, para analisar tais questões, diversos pesquisadores estudaram, a partir da ótica dos jovens em conflito com a lei, os significados, a percepção, as concepções e crenças sobre as experiências vividas, o cotidiano, a medida socioeducativa e o centro educacional.

Entendendo que estes jovens estão em processo de desumanização e de violação de direitos (HUNT, 2009), este estudo reafirma a existência desses que, por vezes, são estudados de forma estigmatizada e descontextualizada da sua realidade social, com um posicionamen-to de considerá-los enquanposicionamen-to sujeiposicionamen-tos de direiposicionamen-tos (ALMEIDA; LEÃO, 2018) e capazes de construir seu próprio projeto de vida – mesmo em contextos de exclusão social (VIGOTSKI, 1999, 2003, 2004).

Embora tenham ocorrido essas mudanças no plano da legislação e estatuto para os jovens que cometem ato infracional, a literatura aponta as diversas formas de violação

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de direitos que contradizem o que é proposto em termos legais. Para analisar tais questões, diversos pesquisadores estudaram, a partir da ótica dos jovens em conflito com a lei, os sig-nificados, a percepção, as concepções e crenças sobre as experiências vividas, o cotidiano, a medida socioeducativa, o centro educacional.

Evangelista (2008) buscou analisar os efeitos das políticas públicas em jovens autores de ato infracional, sob medida de internação. O estudo buscou avaliar que chances têm esses jovens de se tornarem sujeitos de direito, verdadeiros cidadãos e apontou que, nas instituições, há ações que favorecem a estigmatização, bem como ações contraditórias que parecem reforçar os interesses do sistema dominante, exercendo controle e repressão. Segundo o autor, as ações não promovem alternativas para favorecer a autonomia dos jo-vens, mas propõem a punição, negando os direitos básicos desses sujeitos (CATÃO, 2001).

O estudo de Coutinho, Estevam, Araújo e Araújo (2011), apontaram as represen-tações sociais dos jovens que cumprem medida de internação, sobre a prática da medida de privação de liberdade. Os autores apontam que o discurso dos jovens demonstra que há mais práticas não socializadoras, bem como práticas institucionais permeadas por elementos de insegurança, medo e violência. Segundo a pesquisa, os jovens acreditam que a prática socioe-ducativa de privação de liberdade pode ter eficácia, na ressocialização e superação da exclusão, se for realizada de forma justa e humanitária.

Brum (2012) realizou uma pesquisa a respeito da percepção de jovens internos em centros educacionais com relação à medida socioeducativa de internação, bem como buscou explicar como jovens, em cumprimento de medida de internação, percebem a privação de liberdade como forma de ajuda, ou não, na formação de um projeto de vida que resgate sua condição de cidadão depois que deixarem a instituição. A pesquisa apontou que poucos jovens que participaram da pesquisa tiveram impactos ou melhoras na vida com relação à privação de liberdade, uma vez que as diferenças positivas com relação à medida na vida dos jovens foram muito superficiais, não alcançando o objetivo da ressocialização. Portanto, as práticas institucionais estão desarticuladas com o projeto de vida dos jovens em medida socioeducativa (CATÃO, 2015), pois deveriam atuar em busca da transformação social, da educação reflexiva e crítica, promovendo a autonomia e contribuindo para uma sociedade mais igualitária e pacífica (ANDRADE; BARROS, 2018).

A naturalização da infração juvenil parte da noção de se colocar essa população como criminosa devido a sua própria natureza, partindo, assim, de sua essência individual ou, ainda, havendo uma inadequação do próprio jovem que precisa ser disciplinado para, então, estar adequado à sociedade (SCISLESKI et al., 2015). Essa naturalização está posta como algo em que a culpa e a responsabilidade são do indivíduo ou, no máximo, de seu núcleo familiar que é considerado desestruturado, cabendo ao Estado e às suas instituições o dever de corrigi-lo e adequá-lo novamente à sociedade (SCISLESKI et al., 2012). MÉTODO

O presente estudo foi realizado pelo Núcleo de Estudos Psicossociais de uma Univer-sidade da região Nordeste do Brasil. O trabalho faz parte do projeto de pesquisa e intervenção do referido núcleo, intitulado SEOPV – Serviço de Escuta em Orientação Profissional e Projeto de Vida, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da referida Universidade sob Protocolo nº 068/09.

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Local e Participantes

O Centro Educacional do Jovem (CEJ) é uma unidade da Fundação do Desenvol-vimento da Criança e do Adolescente (FUNDAC). O referido centro atende jovens do sexo masculino, entre 18 e 21 anos de idade, que cometeram ato infracional e estão em cumpri-mento de medida socioeducativa de internação. Segundo dados fornecidos pela instituição, no período da referida pesquisa, o CEJ contava com 114 jovens em cumprimento de medida de internação e quatro em medida provisória.

Participaram do estudo 20 jovens do sexo masculino, com idade de 18 a 21 anos e em cumprimento de medida de internação no CEJ. Os critérios para participação na pesquisa foram: aceitação pelo jovem e estar, há um ano ou mais, cumprindo medida de privação de liberdade na instituição.

INSTRUMENTOS E PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS

Foram aplicados questionários sociodemográficos e entrevistas semiestruturadas. As entrevistas foram realizadas de forma individual a partir do seguinte roteiro indutor: 1 – Fale um pouco sobre você e sua história de vida; 2 – Quando falo juventude, o que lhe vem à mente?; 3 – Quando falo direitos humanos, o que lhe vem à mente?; e, 4 – Quando falo juventude e direitos humanos, o que você pensa?

PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE DE DADOS

Os dados foram explorados a partir da análise de conteúdo categorial temática (BARDIN, 1977; CATÃO, 2001; VALA, 2003) à luz da abordagem da Psicologia Sócio-Histórica, com o auxílio do software ALCESTE (Analyse de Lexèmes Concurrents dans les Énoncés Simples d'un Texte) para a Análise Lexical Contextual de um Conjunto de Segmentos de Texto (REINERT, 1997).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O estudo aponta para quatro eixos temáticos relacionados entre si, os quais configu-ram os significados de juventude e direitos humanos elaborados por jovens em conflito com a lei: Juventude e criminalidade (Eixo 1), com 10% das UCEs; Insatisfação com a vida e pers-pectiva de mudança (Eixo 2), com 15% das UCEs; Motivos que levaram à reclusão (Eixo 3), com 14% das UCEs; e, Direitos humanos na vida dos jovens (Eixo 4), com 61% das UCEs. Tais resultados são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1: Distribuição das unidades de contexto elementar (UCE) sobre os significados juventude. de direitos humanos .

Eixos de sentido UCE (f) UCE %

Juventude e criminalidade 42 10%

Motivos que levaram à reclusão 56 14%

Presença/ausência dos direitos humanos 252 61%

Insatisfação com a vida e perspectiva de mudança 61 15%

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JUVENTUDE E CRIMINALIDADE

Os significados de juventude e direitos humanos, no eixo temático juventude e criminalidade, perfazem 42 unidades de contexto elementar (UCE), totalizando 10% do

cor-pus. Nesse eixo, os termos lexicais (palavras) mais significativos, ou que mais surgiram, foram: droga, amizade, festa, outro, comecei e andar. Os jovens em medida socioeducativa relacionam

juventude com envolvimento na vida do crime, tráfico, drogas, festas, amizades e grupos. O discurso desses jovens parece imprimir uma realidade social excludente, naturalizando a condição juvenil da periferia a uma criminalidade que seria inerente ao sujeito, como pode ser ob-servado nas seguintes falas: “gente jovem só quer é curtir, roubar, alguém que rouba, outro que tira vida, outro que desgraça a vida. Outros jovens entram na vida errada de droga, beber, fazer coisa que não deve” (19 anos, ensino fundamental incompleto); “a maioria da juventude de hoje é toda errada, se envolvendo com droga logo cedo, tráfico, roubando” (19 anos, ensino fundamental incompleto).

Desta forma, a criminalidade é naturalizada e surge como um modo de existir en-quanto sujeito, uma forma particular de vivenciar a juventude que enfrenta uma exclusão social que os coloca no lugar de sujeito perigoso, associando-se a outras categorias étnicas e socioeco-nômicas. Assim, a juventude pobre e negra surge como sinônimo de perigo, e a infração cometi-da surge relacionacometi-da a um estilo de vicometi-da juvenil dito como marginalizado (SCISLESKI, 2018). Portanto, o jovem que comete o ato infracional surge como aquele que possui em sua essência a periculosidade, a “vadiagem” e a criminalidade, o que nos remete às teorias da eugenia e higienistas que contribuíram para a construção de um discurso da criminalidade em torno desses jovens que compõem as “classes perigosas”. Sendo assim, esse discurso construiu uma relação de suas vivências com a vadiagem, com a ociosidade e com a pobreza, bem como dessa, por sua vez, com a criminalidade e com a violência (COIMBRA, 2005), justificando, então, as instituições de controle sobre esses corpos.

Aliado a esse discurso surge o uso de drogas, o tráfico, os conflitos e as rivalidades entre os grupos da comunidade, como pode ser observado nas seguintes falas:

Hoje, a maioria com quinze anos, home, já tá usando droga, já tá fumando maconha. Meu grupo, eu, estava sempre desafiando o outro [...] eu comecei a andar de faca. [...] O traficante que coloca a droga pra lá [...] comecei a ter contato com um (19 anos, ensino médio incompleto).

O tráfico parece surgir como única forma de inserção econômica nesse sistema capi-talista que exclui pelo desemprego, pela falta de oportunidade, pelas condições dignas de mo-radia, saúde e educação, criando, neste sentido, condições de pobreza e desigualdades sociais. A vida no tráfico surge como uma atividade remunerada que “liberta” com a capacidade de prover as necessidades familiares e gerar visibilidade e ascensão social, mas, ao mesmo tempo, levar a situações de vulnerabilidade pela morte e pelas relações conflituosas entre os grupos de tráfico na busca por hegemonia de território (FLORES, 2016).

MOTIVOS QUE LEVARAM À RECLUSÃO

Nesse eixo, os jovens abordaram os motivos que os levaram à reclusão, relatando o seu envolvimento com a vida do crime, de homicídios e tráfico. Os termos lexicais que mais aparecem nesse eixo são: tava, foi, arma, tinha, crime, eu e preso.

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Captura-se, nesse eixo, um entendimento pelos jovens acerca dos atos infracionais cometidos, em que os jovens falam sobre os seguintes atos infracionais que cometeram: “por isso eu tô aqui, tô aqui por causa da arma do crime, foi pá perícia aí [...] Esse crime foi assim: eu matei esse cara na cara memo, sabe? Cheguei e duas hora da tarde e matei” (19 anos, en-sino fundamental incompleto); “eu dei uns tiro no bicho lá, eu fui preso, aí passei 45 dias no CEA” (19 anos, ensino fundamental completo).

A pobreza, a miséria, a fome, a barbárie e a falta de oportunidades constituem o cotidiano dos jovens em contexto de pobreza que cometem ato infracional. A falta de opor-tunidades unida ao preconceito, as desigualdades sociais, ao descaso, a exclusão e a falta de garantia de direitos são alguns dos inúmeros problemas sociais que favorecem jovens a co-meterem crimes (CATÃO, 2011, 2015; SCISLESKI et al., 2012). Isso pode ser observado nos seguintes trechos das falas dos jovens: “sei lá, às vezes é até da pobreza, sabe? Também, a pessoa tá precisando de uma coisa, a família não tem condição de dar, aí vai, a pessoa já jovem já, já revoltado, aí começa a pegar arma e começa a assaltar pra ter as coisa” (19 anos, ensino fundamental incompleto).

Se analisarmos o sentido dessa fala podemos perceber como esses jovens buscam, nesses atos infracionais, uma alternativa para sair da exclusão social e do descaso, bem como uma tentativa de mobilidade social com acesso a bens materiais e sociais que o sistema capi-talismo oferece. Nessa configuração histórica, o Estado e a sociedade têm corresponsabilidade por esse sistema na medida em que a reclusão, que por lei se estabelece como medida pro-tetiva, funciona na prática como mecanismo de exclusão social que isola, que encarcera os corpos, que humilha e que causa danos morais, físicos e sociais. Portanto, compreendemos a reclusão como uma ferramenta culpabilizadora dos indivíduos, opressora, que naturaliza a condição desses jovens e mascara a realidade cruel de violações de direitos do jovem pobre e/ ou negro da comunidade.

PRESENÇA/AUSÊNCIA DOS DIREITOS HUMANOS NA VIDA DOS JOVENS Esse eixo representou a maior parte do discurso dos jovens, com 61% dos significa-dos e 252 unidades de contextos elementares. As UCEs mais significativas ou mais frequen-tes desse eixo são: direito, humano, gente, vem, tem e direito. Os jovens reconheceram que são detentores de direitos, ou seja, que direitos lhes são assegurados pela lei – por mais que não expressem quais são esses direitos.

Os discursos, quando os jovens se reconhecem enquanto sujeitos detentores de direitos, apresentam-se nas seguintes falas:

Estamos presos, né? Mas também temos direito, também, temos direito também. Direito, direito, né? Direito é de todos, né? Tenho, somos internos, mas temos direito .

Então, nós têm o direito da gente, né? Por que a gente tá preso, né, nem um bicho não, a gente tá no direito da gente, home. A gente tem que ser tratado aqui igual a um ser humano (19 anos, ensino fundamental incompleto).

Sobre os significados elaborados por esses jovens em relação aos seus direitos vio-lados, é possível perceber como eles denunciam em suas falas vivências de violência institu-cional, e que mesmo diante desta significam a si mesmos como sujeitos de direitos,

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demons-trando, a sua maneira, que não estão de acordo com essas práticas que os tratam de forma desumana.

Esta violência tem sido observada como prática inerente ao sistema socioeducati-vo, e que vem se constituindo como mecanismo de controle e disciplina, uma vez que, na medida socioeducativa em meio fechado, essa violência salta aos olhos na estrutura física e aparece na forma de prisões, na superlotação e no uso de punições (AZEVEDO; AMORIM; ALBERTO, 2017). Diante dessa violência vivida nas instituições socioeducativas, os jovens reconhecem que o ato da infração não justifica a violação de direitos e não exclui a possibi-lidade de efetivação. Ou seja, parte dessa população tem seus direitos garantidos apenas “no papel”, significando suas vivências como distantes da real garantia dos mesmos: “quantas vezes o direitos humanos veio aqui já. A gente já falou altas coisa aqui. E a gente não vê nem uma mudança. [...] Até agora, disseram que iam tomar as cabíveis providências e até agora nada, home” (19 anos, ensino médio incompleto).

Nesse cenário, a fala desses jovens transborda em palavras uma injustiça social que acomete ao tipo de juventude que vivenciam: uma juventude esquecida, excluída, oprimida, vigiada e punida, que vê na rebelião uma forma de ser atendida e escutada, uma única possi-bilidade de “quebrar o sistema” e sair dessa invisipossi-bilidade que a sociedade lhe impõe.

INSATISFAÇÃO COM A VIDA E PERSPECTIVA DE MUDANÇA

Esse eixo temático revelou 61 UCEs e 15% dos significados elaborados, momento em que os jovens relataram suas insatisfações em relação a instituição e a sua própria vida, assim como falaram dos problemas que são gerados por uma vida na criminalidade. Os dis-cursos giraram em torno da necessidade de se conseguir um emprego, de concluir o ensino básico e de cuidar da família como projetos de vida para si. Os léxicos mais significativos, ou que mais surgiram, foram estudo, quero, minha, sai, casa e vida, como podem ser vislumbra-dos na seguinte fala: “eu não tenho muita sorte na vida, não. Tenho um pouquinho de azá. Eu tô pensando em ir embora pra o Rio, eu tenho família lá. Lá é mais oportunidade. Aqui já deu pra mim já, home. trabalhar” (19 anos, ensino médio incompleto).

A construção de um projeto de vida para esses sujeitos está atrelada unicamente a um movimento pessoal, sendo que as condições sociais aparecem no discurso como consequ-ência da “falta de sorte” e como resultado de uma vivconsequ-ência particular, cabendo apenas ao indi-víduo a sua adaptação a esse meio. Entretanto, é preciso pontuar que os jovens significam a si mesmos e suas vidas em meio ao discurso socialmente construído, o qual coloca as mudanças de vida como dependentes do esforço único de cada pessoa. Desta forma, paira em suas signi-ficações um discurso individualizante de questões sociais e econômicas que é construído por um sistema de exclusão social, de pobreza e de falta de oportunidades:

Quando sair daqui eu quero sair dessa vida, home. Ir pra igreja e mudar de vida. Trabalhar e tomar conta da minha mulher e dos meus filhos. Quero mudar de vida. Essa vida não dá pra ninguém, não. É mudar de vida mesmo (19 anos, ensino fundamental incompleto).

Os jovens não fizeram uma relação direta entre insatisfação com a vida, perspectiva de mudança, direitos humanos e juventude. No entanto, eles parecem compreender a ne-cessidade de que sejam geradas oportunidades e possibilidades para a construção de projetos

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de vida que provoquem mudanças significativas (CATÃO, 2001). Esse discurso, contudo, parece surgir apenas em nível teórico, sendo pouco utilizado como base para se analisar a vida particular de cada jovem, como é relatado no seguinte trecho: “que o mais importante do cara é a oportunidade, se bota na vida do cara oportunidade [...] O governo mesmo não dá oportunidade a ninguém não, home” (19 anos, ensino médio completo).

Ao mesmo tempo em que os sujeitos compreendem a necessidade de mudança e de sair da vida da criminalidade por meio do trabalho, percebem também que estão inseridos nesse sistema de exclusão social. Isto é, o Estado, que deveria atuar como agente de transfor-mação social por meio de políticas e da própria medida socioeducativa, não fornece apoio e ações concretas de reais mudanças na condição de vida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo possibilitou analisar como os jovens, que estão em cumprimento de me-dida socioeducativa no Centro Educacional do Jovem, elaboram significados acerca da juven-tude e dos direitos humanos. Na tentativa de promoção do protagonismo juvenil, esse estudo permitiu que os jovens excluídos socialmente pudessem ter voz e fossem ouvidos a partir da possibilidade de refletir sobre suas experiências e concepções, tendo em vista, a partir da pala-vra e do falar, assim como do ser ouvido e entendido, garantir-lhes o direito humano de expor ideias e pensamentos acerca de si, do mundo e de suas inter-relações.

Sobre os significados elaborados pelos jovens, percebemos que estes constroem uma relação quase simbiótica entre a juventude e a criminalidade, na qual a segunda surge como meio de transgressão e de ausência de responsabilidades de forma naturalizada, como se fosse um modo natural de vivenciar a juventude. Os entendimentos desses jovens, então, vêm de um discurso historicamente construído que parte de análises individualizadoras do problema, que coloca o jovem pobre no lugar de marginal e de uma vida criminosa, e que acaba por re-afirmar e reproduzir ações de movimentos, como o higienismo e o eugenismo, que buscavam limpar a sociedade dos negros, dos vadios, dos delinquentes e dos menores (SCISLESKI; GALEANO, 2018).

Como forma de driblar essas vivências e se projetar para o futuro, os jovens acabam por encontrar na criminalidade, no roubo, no homicídio e no tráfico condições socioeconô-micas mais favoráveis e ascensão social, de tal forma que quebram esse sistema de exclusão social que lhes é imposto. Nessa vivência de violações, os jovens parecem desacreditar de si mesmos, culminando em desassistência social e medidas protetivas que acabam por produzir o reflexo do fenômeno da exclusão, da marginalização e do preconceito à juventude pobre, negra e periférica, do que como agentes de transformação das injustiças sociais.

Essa percepção de injustiça social fica evidente quando os jovens falam sobre a insatisfação com suas condições de vida, tanto em relação a seus projetos de vida, quanto a instituição em que estavam cumprindo a medida, trazendo como forma de denúncia, em suas falas, a violação contínua de direitos a que estão expostos. Assim, por estarem aquém de me-didas e esforços políticos e sociais de mudanças efetivas na sua condição de vida, esses jovens reproduzem o discurso social de que seus projetos de vida estão atrelados à questão do esforço pessoal, como meio de superar as suas difíceis condições de vida.

Portanto, a responsabilização desses jovens com referência à construção de seus pro-jetos de vida, nesse processo socioeducativo, volta-se para a esperança de que saiam, sozinhos,

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da criminalidade, sem o mínimo de apoio. Esse dado é um aspecto que precisa ser debatido e evidenciado nos meios de implementação e de criação de políticas, apontando para a concep-ção culpabilizadora posta sobre esses jovens.

EXCLUDED VOICES: YOUTH AND HUMAN RIGHTS AMONG YOUNG PEOPLE IN SOCIO-EDUCATIONAL MEASURE

Abstract: this study aims to analyse the meanings of youth and human rights among young people

in compliance the socioeducational measure of deprivation of freedom in a Youth Educational Center (YEC). Twenty young males between 18 and 21 years old took part of this research. So-ciodemographic questionnaires and semistructured interviews were applied. Thematic categorical content analysis was used with the assistance of the ALCESTE software for textual data analysis in the light of the perspective of Socio-Historical Psychology. Four thematic axes were configures: Presence / absence of human rights in young people’s life with 61% of ECUs (Elementary Context Units); Youth and criminality, with 10% of ECUs; Reasons that led to reclusion, 15% of ECUs; Dissatisfaction with life and perspective of change, 15% of ECUs. The research can highlight the meanings and reflections about youth and human rights and possibilities of changes in the life of young people in socio-educational measure.

Keywords: Youth. Human Rights. Socio-Educational Measure. Socio-Historical Psychology. Referências

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Tabela 1: Distribuição das unidades de contexto elementar (UCE) sobre os significados juventude.

Tabela 1:

Distribuição das unidades de contexto elementar (UCE) sobre os significados juventude. p.4

Referências