A caminho do mar
Personagens
1. Crisipo- Forasteiro 2. Morte/Gina
3. Tonha- Dona da pensão 4. O Prefeito
5. Isabel- Mulher do Prefeito 6. Carlão - Delegado
7. Maria- Mulher do delegado 8. Padre 9. Issac- Alfaiate 10. Barbeiro 11. Rapaz 1 12. Rapaz2 Cena 1
Luz em resistência ilumina Crisipo, numa ponte, olhando para baixo, vacilante, na iminência de pular. Morte surge por detrás dele. Ele usa uma espécie de mortalha e um véu que lhe cobre o rosto..
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Crisipo: (assustado)Ahã... desculpe. Faz tempo que você está aí? Morte: Não, cheguei agorinha. Então, vamos?
Crisipo: Mas, já?
Morte: É , chegou a hora. Crisipo: Acho que não quero. Morte: Já está decidido.
Crisipo: E o livre arbítrio, não existe? Morte:Só em certos limites.
Crisipo: Então é assim que as coisas acontecem... Morte:É assim mesmo.
Crisipo:Talvez não seja o momento ! Morte:O momento é este!
Crisipo:Como você pode ter tanta certeza? Morte:Porque estou aqui e agora.
Crisipo:O aqui é relativo e o agora já passou. Morte:Não estou entendendo.
Crisipo:Viu ?! Até você que parece uma certeza, tem dúvida. Morte:Você está tentando me confundir!
Crisipo:Eu? Como poderia?
Morte:Esta história de aqui relativo e agora já passou não faz o menor sentido. Crisipo:Claro que faz! O aqui agora é diferente do aqui depois.
Morte:Se o aqui agora é diferente depois, como posso está aqui e agora? Crisipo:Mas você não está aqui.
Morte:Como não estou aqui? Você está me vendo, eu estou me vendo aqui! Crisipo:Quem disse que estou vendo você?
[email protected] 3 Morte:Você está falando comigo!
Crisipo:Eu mesmo, não!
Morte:Eu estou vendo e ouvindo você!
Crisipo: Me vendo? Como? Se você não está aqui! Morte:Eu estou aqui! Você também está aqui! Crisipo:Não me meta em suas histórias. Morte:Você também não está aqui?
Crisipo:Também? Então você admite que não está aqui?
Morte:Somente por hipótese! E se nem eu nem você estamos aqui, quem está conversando conosco?
Crisipo:Como posso saber, se não estou presente. Morte: Mas afinal, o que eu vim fazer aqui? Crisipo:Pergunte a outro?
Morte:Ah! Já sei, você quer me ludibriar. Crisipo:Pode ser...
Morte:Então é isto?
Crisipo:Se for verdade, sua presença se torna desnecessária. Morte:O quê?
Crisipo:É lógico. Se você veio me buscar em determinada hora, e esta hora já passou. Logo, não devo ir.
Morte: Faz sentido...Se não é aqui e nem agora, quando será? Crisipo:Quem sabe!
Morte:Então, só me resta partir! Mas, eu volto! Crisipo: Não tenha pressa...
Som e apaga-se a luz Cena2
A voz de Crisipo é ouvida, à medida que vai se iluminado, percebe-se que ele está falando ao gravador, sentado ao lado de uma mala...
Crisipo : Meu nome é Crisipo...È um nome estranho, eu sei. Mas é apenas um nome... Tenho trinta anos e conto minha vida neste gravador para...Gravar a minha vida...Contar minha vida neste gravador que comprei há duas semanas por 30 reais. Ele tem redução de ruídos e...o que eu falo agora? Não faço a menor idéia.. (Ele desliga, a voz em off continua) Já tentei manter um diário mas não deu certo.Não sou escritor nem nada. Na verdade, sou um guarda-livros.( Ele caminha, segurando a mala debaixo do braços. Cega a uma cidade.Algumas pessoas da cidade começam a observá-lo) .Nem vale a pena falar. Sou Crisipo. Esta é a história de minha viagem ao mar. Dos lugares que eu nunca fui é o que eu mais amo....Mas quem vai ouvir isto? Talvez nem eu.
Cena 3 Chega à pensão, onde há um balcão. Toca sineta.. Tonha: Que diabo você quer?
Crisipo : A sua placa diz que há vagas. Tonha: Ela sempre diz isso. Ela é pintada. Crisipo: Então não tem quartos?.
[email protected] 4 Tonha: Eu não falei isso. Assine aí. São vinte paus por noite, adiantados. O quarto é lá em cima. Esta é a chave.
Ele entra no quarto e liga o gravador.
Crisipo: (gravador) Estou numa cidadedezinha agora. Não sei nome, nem onde fica. Estou no hotel, quarto sete. (adormece)
Luz apaga no quarto
Cena 4
Luz no balcão da pensão, onde encontra-se Tonha, o Prefeito, o delegado e sua mulher, Maria. Prefeito : Crisipo? Mas nossa, que nome feio é esse?
Tonha: Sei lá, prefeito, não parece turista. Ele pode ser um vendedor. Pode ser um traficante. Delegado: Cheque a placa do carro dele.
Tonha:Nâo há carro, ele veio andando. Prefeito: A próxima cidade é a 60 quilômetros Tonha: Quer que eu o expulse daqui?
Delegado: Não, sem antes sabermos quem é? Me avise se ele fizer algo estranho.Fique de olho. O nome pode ser falso. Tenho mal pressentimento!
Tonha:Vou Grudar no pé dele. Delegado ; Ele deve ser um terrorista
Maria: Será que ele está lá dentro fazendo Bombas? Luz apaga-se
Cena 5
Focaliza em Crisipo, falando ao gravador, circulando no quarto, arrumando suas coisas.. Crisipo : A vida inteira eu quis ver o mar. Nem imagino como é olhar lá para frente e ver todo o horizonte. Dá vontade de viver só para ver algo assim. Talvez você se sinta insignificante. Mas nunca o vi. Não foi por falta de tempo, sempre tive tempo. Mas eu sempre tive detalhes a resolver antes. Tarefas. A balança do banheiro quebrada, coisa assim. Desta vez eu vou em frente. Eu já poderia está lá. Eu vou descobrir onde estou e continuar. Ninguém vai me deter. Eu partirei hoje.
Cena 6 Crisipo saindo, com a mala embaixo do braço.
Tonha: Você é preto? Crisipo: Como?
Tonha: Sangue preto? Talvez, seu avô ou sua avó, lá atrás? Crisipo: Não que eu saíba.
Tonha: Verdade? Tem algo negro em você. Crisipo: Estou indo, deixei a chave no quarto. Tonha: Onde vai?
Crisipo: Estou a caminho do mar. Tonha: Você tem problema com a lei? Crisipo: Não.
Tonha: Então para que sair correndo? Crisipo: Não estou correndo, com licença.
[email protected] 5 Cena 7
As pessoas estão olhando. Ele para na ponte
Crisipo; (Gravando)Nunca fiquei muito tempo numa cidade pequena. Nem numa cidade grande também. Me mudei muito quando criança. Meu pai vendia fotocopiadoras. De qualquer forma, me acostumei a ser anônimo. Não que eu ache ruim. É assim que eu sou. Acho que não é possível ficar anônimo aqui.
Volta para pensão.
Crisipo:Vou ficar um ou dois dias.Para conhecer a cidade. Tonha: Faça isso, Sr. Crisipo.
Cena 8 Reunião na casa do prefeito
Isabel: Quem é ele?
Maria : Carlão, acha que ele é traficante Evangélica: Traficante meu Deus!
Isabel : Então ele está no lugar errado. Ninguém aqui quer drogas, muito menos diversão ilegal.
Maria: Não acredito que vá ficar aí parado .Tem um criminoso aqui e você aqui e você não faz nada.
Prefeito: Na verdade não aconteceu nada.
Maria:Ele pode estar aí fora nos espreitando. Ele vai tentar matar alguém, pode ficar certo. Evangélica: Alguém me disse que ele fala sozinho
Padre: Ele deve ser só um turista
Maria:Um turista aqui, neste fim do mundo? Ele deve está planejando algo.? .Maria :Há algo na água daqui que deixa todo mundo burro.
Isabel : Porque não o pressionamos para que fale!
Delegado: Fiquem sossegados, eu estou de olho nele. Se ele tentar alguma coisa, ele se ferra Maria: Como podemos ficar sossegados, enquanto tem um terrorista solto em nossa cidade? Prefeito: Tudo bem. Vamos atacar, antes dele!
Cena 9
Crispo está sentado numa mesa do bar da pensão, quando entra todos que estavam na reunião e o cercam. Ficam observando-o por um instante.
Delegado : Quem é você, rapaz? Crisipo: Crisipo...o meu nome é...
Prefeito: Sabemos quem você é...pelo menos o nome que você deu. Delegado: O que você veio fazer em nossa cidade?
Crisipo: Aqui?
Prefeito: É. Onde nós estamos.
Delegado:Que tem na mala? Você não solta dela. Prefeito: Se é droga, você veio ao lugar errado. Crisipo: Drogas? Não tenho drogas nenhuma.
[email protected] 6 Maria :Você tem uma cara de fugitivo.
Crisipo: Eu sou um guarda-livros... Evangélica: Ele rouba livros? Padre: Você é assassino?
Isabel :Deve ser assasino em série de várias mulheres inocentes! E veio aqui matar de novo. Delegado:Por que veio aqui?
Crisipo: O meu carro quebrou e eu estava a caminho da praia... Delegado:Não tem nenhum carro na estrada.
Crisipo: Eu juro.
Delegado:Então mostre as chaves.
Crisipo: Eu joguei fora.É verdade. Esta cidade é tão bonita que eu resolvi ficar. Isabel :Esta cidade é um lixo, você sabe!
Prefeito: Não minta pra nós. Por que veio aqui? Maria :Vai matar um de nós?
Crisipo: Escute eu vim aqui...Acho melhor ir embora. Delegado:Sente-se!
Isabel :Fale.
Maria :Pare de mentir! Evangélica: Qual de nós? Padre: É melhor confessar. Delegado:Fale logo. Crisipo: Eu...
Evangélica: Ele ia matar! Crisipo: Não!
Maria :Ele não admite. Crisipo: Eu vim para... Isabel :Matar alguém! Maria :Droga, quem é? Evangélica: Quem é ? Prefeito: Desembucha!
Delegado:Fale, miserável, fale! Crisipo: Me matar!
Silêncio, por um instante. Evangélica: O que ele disse?
Padre: Você veio aqui para se matar? Crisipo: Eu só queria ficar sozinho... Padre: Você está morrendo?
Crisipo:Não, a minha saúde está ótima. Evangélica: E o que foi. Perdeu o emprego? Isabel :Sua mulher lhe deixou?
Evangélica: Morreu um parente? Crisipo: Não.
Delegado:Que diabos foi então? Prefeito: Por que quer se matar?
Maria :Ou é dinheiro ou mulher um dos dois.
Delegado:Vai se matar mesmo, ou é só papo furado? Crisipo: Com licença..
[email protected] 7 Cena 10
Padre bate na porta e Crisipo deixa entrar.
Padre: Sou o reverendo João, Padre da cidade. Eu fiquei comovido com o que você
falou....Comovido e angustiado...O quarto é lindo muito bonito. Um banheira. Também adoro banheira... A gente tem tempo para pensar...Então...Você vai se matar..Por quê?
Crisipo: É difícil explicar.
Padre: Infeliz?..E você acha que se matar ajuda?..Você já fez isso antes? Crisipo:Me matar?
Padre: Não, claro que não. Você está vivo.Se você já tentou... Crisipo:Não.
Padre: Ótimo. Bom saber. É bom conversar. Botar tudo pra fora.(pensativo)Não é bom ficar sozinho. Ficar muito tempo sozinho, faz qualquer um se matar....Bem vou lhe deixar sozinho agora.Venha até a igreja. Vamos conversar mais. Promete?
Crisipo confirma que sim e o Padre sai.
Cena11 O prefeito entra .
Prefeito: Olá Sr. Crisipo, espero não está lhe atrapalhando.Na verdade eu sei que tem muito o que pensar. Coisas a resolver de última hora. Eu pensei... a minha mulher pensou e eu
também. Como você é novo na cidade, logo partirá para uma melhor, pensamos em lhe convidar para jantar lá em casa. Assim como uma última ceia, sabe? É brincadeira 6:30 está bem?
Crisipo: Hoje estarei ocupado, mas agradeço. Crisipo:Que tal amanhã?
Crisipo: Vou pensar.
Crispo empurra o prefeito para fora.. Cena 12
Entra a mulher do prefeito, insinuante.
Isabel: Olá, Sr. Crisipo.Não vai me convidar para entrar?(observando o quarto) Meu Deus! Que espelunca, não combina com um homem como você.
Crisipo: Eu não ligo.
Crisipo: Não faça cerimônia...Já sou crescidinha...desculpe, meu nome é Isabel Martins... Crisipo: Já nos conhecemos.
Crisipo: Martins é do meu marido.Se me chamar de Sra. Martins eu te mato. Me chame Bel...Posso te chamar de Cris?
Crisipo: Crisipo.
Crisipo: Que belo nome...Cá estamos nós.. Bem, vou indo...se precisar de mim, é só pedir a dona da pensão para me chamar.
[email protected] 8 Cena 13
A evangélica bate à porta.
Evangélica:Bom dia Sr. Crisipo, desculpe lhe incomodar.. Crisipo: Tudo bem.
Evangélica: Achei que gostaria de ler alguma coisa. Entrega-lhe um presente.
Crisipo: Que gentileza....Uma bíblia.
Evangélica: É uma versão simplificada.É a que eu leio.Meu marido Rui, não aprovaria eu ter vindo aqui.Ele disse que devo cuidar da minha vida.Porque pego todos os cães e gatos da minha rua. A casa está cheia. Não consigo evitar. O que você falou eu me senti mal.... Crisipo: Obrigado.
Ela deseja se aproximar dele, mas fica encabulada e sai, apressadamente. Cena 14
Crisipo começa a gravar.
Crisipo: O que eles pensam? Que eu vou acabar coma a minha vida assim? De qualquer forma o que foi dito, foi dito e não pode ser desdito.
Batem à porta
Crisipo: Por que não me deixam em paz! Não vou me matar hoje, vocês podem ir para casa. Abrindo a porta.
Gina: Desculpe, eu não quis incomodar Crisipo: Por favor, espere.Quem é você? Gina: Meu nome é Gina.
Crisipo: Entre. Gina: Desculpe.
Crisipo: Tudo Bem...Quer sentar? Gina: Eu sonhei com você. Crisipo: Sonhou?
Gina: Por isso eu vim aqui...eu sonhei... Crisipo: O quê?
Crisipo: Sonhei que te vi no campo e o campo virou meu quarto e você estava ao meu lado, na cama com um facão.De repente você esfaqueou o próprio peito e acordei e soube que você é o homem que esperei a vida toda.
Ela avança sobre ele e o beija..
Crisipo: Como sonhou comigo? Nós nunca nos vimos. Gina: Eu te vejo todos os dias.Eu sei porque veio aqui. Crisipo: Sabe?
Gina: Você veio me buscar. Crisipo: Vim?
Gina:Sonhei com isso a vida inteira e você apareceu.Eu soube, logo que o vi, que era você. Crisipo: Verdade?..Você é tão bonita. Por você eu viveria para sempre.
[email protected] 9 Gina: Não impedirei o que você tem de fazer.
Ela o deixa atônito e sai.
Cena 15
Crisipo: (gravando) As pessoas vem e vão tão rápidas aqui Uma garota veio aqui hoje. Ela parece um anjo.Ela disse que sonhou comigo e esperou a vida inteira por mim. Quem é ela? Não sei nada sobre ela. Ela tem o cheiro da praia .Creio que já devo ter sonhado com ela também.
Cena 16 Crisipo, anda pela rua. Encontra o barbeiro.
Barbeiro: Não é assim que se faz. Eu quero ser lembrado por todos através do senhor. Aquele último momento antes de entrar no caixão é importante. Venha, sente aqui eu darei um jeito nisso, em um minuto. Pessoas na sua posição não pensam no corte de cabelo., até que seja tarde demais. Já vi milhares de vezes. O último penteado de sua vida feito por um agente funerário. Ele é um barbeiro profissional? Eu lhe pergunto senhor Crisipo....Claro que ele não é. Por isso é importante pensar nisso antes.Ao sair daqui estará tão garboso que nem vai querer morrer....Pronto, um agente funerário faria isso?
Crisipo tenta pagar.
Barbeiro:Por conta da casa. Se pensar ficar mais...do que o planejado estou sempre aqui. Cena 17
O alfaiate o chama.
Isaac: Ô senhor Crisipo, nós não nos conhecemos sou Isaac Samir, que bom que veio aqui. Entre tenho o que precisa.
Crisipo: Como? Não quero comprar nada.... eu..
Isaac: Por favor, me dê a honra.. (veste um paletó nele)...Perfeito é só fazer a bainha e estará pronto
Crisipo: É bonito, mas não preciso de um terno novo, já tenho um. Isaac: Um homem na sua situação precisa de dois.
Crisipo(olhando a etiqueta) É muito caro, não posso pagar. Isaac: É presente.
Crisipo: Por quê?Mal nos conhecemos.
Isaac: Você não é um homem comum.Você tem ideais. Tem força de vontade. E eu sou um covarde. Nunca peguei a vida pelo pescoço e disse. Me dê isso. Senão....Mas você pegou .Quero que use o meu terno, Senhor Crisipo. Quero ser parte de sua aventura
[email protected] 10 Cena 18
Crisipo gravando na ponte.
Crisipo: Há algo acontecendo comigo que jamais aconteceu. Um evento. Um evento está acontecendo.De alguma espécie. Não quero ser otimista demais. Mas há uma bondade aqui...Será que esse rio desemboca no mar? Quem sabe...
Aparece Gina por detrais dele.
Crisipo: Gina, o que você está fazendo aqui? Gina: Eu te segui.
Crisipo: Você quer me ver pular, como os outros? Gina: Nâo sou como os outros estou do seu lado. Crisipo: Por quê?
Gina: Eu costumava vir aqui na ponte e ficar a noite inteira, só pensando nas coisas que me assustavam.Tanto me assustavam as conversas. Você diz coisas, elas soam erradas e diz mais coisas e aí fica preso nelas. Aí você tem de escapar. Meu pai, morreu quando eu tinha cinco anos. Ele tinha bigodes. Sempre me dava chicletes e me chamava de princezinha.
Crisipo: Sente falta dele?
Crisipo: Nâo, ele está sempre comigo .Mas não posso tocá-lo até chegar aonde ele está. Sinto falta de tocar o bigode dele.
Ela tira de uma bolsa várias blusas de crochê Gina: Prove, eu fiz para você.
Crisipo: Quando, acabamos de nos conhecer?!.
Gina: Esse eu fiz no ano passado, as outras eu fiz antes. Crisipo: É perfeito, como sabia o meu tamanho?
Gina: Eu não sabia. Este eu fiz aos dezesseis anos, pensei que você fosse maior. Eles de beijam. Luz se apaga.
Cena 18 Voz de Crisipo em off.
Crisipo: Encontrei com Gina de novo. O que posso dizer dela? È a mulher mais bonita que já vi. E ela me ama. Ninguém jamais me amou assim antes. Só sei que isso me deixa muito feliz. Mas ela é um pouco confusa...
Cena 19
Crisipo está no bar da pensão.. Aparecem dois rapazes e sentam na mesa dele, com uma garrafa de cerveja na mão..
Rapaz1: Aí esta, é por conta da casa! Rapaz2:E aí, quando está pensando fazer? Crisipo:Em breve.
Rapaz1:Vai ser com revólver? Crisipo:Ainda não decidi...
[email protected] 11 Rapaz2:Meu cunhado fez com birita e comprimidos. Suja bem menos do que com revólver. Mas, você pode não morrer. E ainda ter uma baita ressaca.
Rapaz1: Ouvi dizer que cortar os pulsos é melhor. Tem que cortar ao longo. Muitos fazem um cortezinho assim....O sangue não sai rápido.
Crisipo: É bom saber.
Rapaz2:Sabe, é um homem notável, Sr. Crisipo. Crisipo:Sou?
Rapaz2:Claro, você decide fazer algo e vai em frente. Rapaz1:Gosto do seu estilo. Beba mais uma cerveja. Rapaz2:Olhe não deixe faltar cerveja aqui.
Os dois rapazes saem.
Cena 21 Tonha senta ao lado de Crisipo, com uma cerveja.
Tonha: Chega na hora de todo mundo, Sr. Crisipo...Assim, como c sol nasce e se põe. Ele tem de encarar as coisas. E aí está você...Eu entendo perfeitamente...Já aconteceu comigo...Mas não tive coragem...Aposto que está pensando, como irá fazer...Eu sou a pessoa que vai lhe ajudar.(Ela sobe a sai, e tira um revólver e entrega para ele)...É tudo que tenho a dizer...Bum, está acabado. Já era. Fácil e rápido. Sem sujeira. Você não. Mas eu terei muito trabalho...Mas faz parte... Não é preocupação sua. Sua única preocupação é como sair deste mundo fodido, certo? Esta belezinha faz isso. È uma Magnum 44, coloquei três balas. Mesmo que erre duas, ainda tem mais. Você pode contar comigo, senhor Crisipo.Imaginei que foi o mínimo que eu poderia fazer.
Ela sai. Crisipo pega na arma com mal jeito , solta-a e sai apressadamente. Cena 22
Padre encontra Crisipo
Padre: Senhor Crisipo, que prazer em vê-lo. Não é hoje. É? Crisipo: Acho que não.
Padre: Sobre isso que desejo lhe falar. Da morte e tudo mais. O que você espera encontrar lá? Crisipo: Onde?
Padre: No céu.Você acredita nele ou não acredita? Crisipo: Eu não sei.
Padre: Nem eu! Sempre penso nisso. Deve haver algo, não acha? Se fosse só isso aqui, seria terrível. No catecismo ensinamos que o céu é um piquenique no campo. Mas deve ser como uma cidade, no meio do oceano ou numa caverna. Um pássaro sempre voando. Para onde você acha que vai?
Crisipo: Eu não sei...mas...talvez tenhamos o que não tivemos aqui. Se queria um pequenique no campo, ok, ou qualquer coisa. Acho que Deus, se é que ele existe, ele nos pede desculpa no céu. Se ele não quer pedir desculpa, é o inferno.
Padre: Eu nunca havia pensado nisso!Então, pelo menos, acredita em Deus? Crisipo: Alguém tem de pedir desculpa...com licença.
[email protected] 12 Cena 23
Crispo se esbarra com o delegado, que está trajando roupa de caçador. Delegado: Bom dia , Senhor Crisipo como está?
Crisipo:Bem.
Delegado: Não acabou com tudo a noite, não é?Já que está vivo! Que tal ir caçar comigo. Crisipo:Eu não sei caçar.
Delegado: Você não tem tempo a perder, vamos! Matar traz algo a tona na gente. São os maiores prazeres do homem: matar e fazer sexo. Que a minha mulher não sabia...o Sr. Compreende, né? (Sorri, maliciosamente) Já matou algo, Senhor Crisipo?
Crisipo:Insetos.
Delegado: É o momento perfeito, quando animal pula no ar!No último esforço de
sobrevivência.E aí ele cai morto antes de bater no chão. Um momento de êxtase....Eu já matei um homem. Ninguém soube. Foi como matar um coelho. Só que era um homem. Foi um dos maiores momentos da minha vida. É o que você fará, não? Só que você é o caçador e o coelho. Eu o invejo. Você não considera matar um pecado, considera?.
Crisipo:Pecado?...Se mata um homem, você o liberta. Não é um pecado é um favor.
Delegado: Nossa, você tem razão!Nós dois precisamos matar. Crisipo, você é um grande cara! Cena24
Crisipo encontra com Isaac.
Crisipo : Sr. Isaac, preciso de uma gravata
Isaac: Tenho o que o senhor precisa....É casado, Sr, Crisipo? Crisipo :Não.
Isaac: Já se apaixonou? Crisipo :Sim.
Isaac: É maravilhoso, não é ?Marivilhoso...E terrivel ao mesmo tempo. Terrível se não podemos ter a pessoa que amamos...
Crisipo :Deve ser...
Isaac:Essa é minha situação... Eu nunca poderia ter a pessoa que amo. Crisipo :Por que?
Isaac:Destino...Que palavra horrível...É como uma prisão...Você nasce com isso e não consegue mudar, torna a felicidade impossível...Meu destino é nunca ter a pessoa que amo.
Crisipo :Quem você ama? Pausa
Isaac: Carlão... Crisipo :Hein?
Isaac: Carlão., o delegado.Sou apaixonado desde que éramos criança...Nunca contei a ninguém Crisipo :E Carlão sente a mesma coisa por você.
Isaac: Como vou saber, não posso perguntar. Ele é casado.Se alguém descobri, minha vida acaba.Que faço?
Crisipo :Me arrependo de muita coisa, principalmente das coisas que tive medo de fazer. A vida é curta demais para se viver com medo.(Ele tenta pagar)
Isaac: (feliz e aliviado)É um presente. Crisipo :Fico feliz
[email protected] 13 Cena25
No quarto de Crisipo. A evangélica bate a porta. Crisipo :Então, em que possa ajudá-la
Evangélica: (Tímida) Eu sei como você sofreu, dá para ver.Sei que uma mulher te magoou.Por isso você quer se matar.As mulheres são cruéis. Mas quero que saiba, que eu não sou assim, eu quero te ajudar.
Crisipo :Quer mesmo?
Evangélica:Eu faria qualquer coisa para ajudar. Lhe dar paz, Sr. Crisipo. Crisipo :Faria?
Evangélica:Sim, eu faria. Crisipo :Qualquer coisa?
Evangélica:Qualquer coisa, Sr. Crisipo. Pausa.
Crisipo :Tire a sua blusa. Evangélica:Desculpe?
Crisipo :Você disse que faria qualquer coisa. Ela tira a blusa, timidamente.
Crisipo :E a sua saia. Evangélica:Tudo bem
Ele se aproxima dela. Fica costa a costa. Evangélica:Eu faço mais alguma coisa? Crisipo :Obrigado por ter vindo. Evangélica:Só isso?
Crisipo :Só.
Ela veste-se apressadamente. E sai correndo, passando pela a Tonha, que traz uma enorme mala.
Cena26
Tonha: Quero falar daquela arma que lhe dei. Pode não ser o que você quer. Você pode querer algo completamente diferente.
Crisipo :É uma ótima arma, obrigado.
Tonha: Um homem deve escolher sua própria arma.
Tonha abre a mala. Esta está repleta de armas de todos os tipos: facas, revólveres, rifles, granadas, uma parafernália bélica.
Tonha: Vejo que ficou impressionado. (pegando no rífle) Esta deve ser o que procura.É uma Winchester.. Já fez muitos estragos.Esta em perfeitas condições. Matei um bode com ela, há duas semanas. (Ela vai falando e Crisipo vai saindo sem que ela perceba). A idéia que eu tive, é que você enfia na boca assim, e coloca o dedão no gatilho...e buum...Adeus problemas.
[email protected] 14 Cena 27
Crisipo vai ao barbeiro.
Barbeiro: Eu andei pensando muito sobre a sua situação. Pensei muito. Crisipo:Verdade?
Babeiro: Fascinante! Um homem que quer acabar com a vida. Mas ele não faz como os outros.Viaja para um lugar estranho, anuncia o seu plano e faz tudo da forma mais cautelosa possível. Faz do seu suicídio uma obra de arte. É bonito!
Crisipo:Você acha?
Babeiro: .(amolando a navalha) Sem dúvida. E até acho que posso ajudar de alguma forma. Crisipo:Como assim?
Babeiro: Bem...Você sabe...Sou uma espécie de artista também...Todos acham que eu só corto cabelos e aparo costeletas. Mas eu faço mais do que isso. (próximo do rosto de Crisipo) Um rosto é minha tela e isto (mostrando a navalha) é meu pincel. (mais perto, sussurrando com a navalha na garganta de Crisipo). Sabe, sempre me imagino cortando a garganta dos clientes. Mas sempre que penso isso, começo a tremer, fico assustado. Mas com você seria diferente, não seria assassinato, seria uma co-autoria numa obra de arte. Eu começaria por aqui, pelo pomo-de-adão. Assim, eu pegaria a carótida exterior, talvez até as interiores. Seria
rápido.Indolor.O que acha, Sr. Crisipo? Basta o Sr. pedir.. Crisipo, apavorado, sai correndo.
Cena 28 Voz de Crisipo em off.
Crisipo: Preciso sair desta cidade. E levar Gina comigo.Ela esperou a vida inteira por mim, E eu é que esperei a vida inteira por ela. O destino existe mesmo? É a minha dúvida. Pois se existe, eu devo ter um.Talvez, ele a envolva. .Ela me ama. E se eu não for quem ela pensa. Nunca houve um resposta simples na minha vida. Nunca.
Crisipo entra em seu quarto. Gina está deitada em sua cama, de abraços abertos. Gina: Venha, eu estava lhe esperando.
Ele se deita. Beijam-se. Luz diminui
Cena 29
O Alfaiate está sentado na mesa de bar. Um pouco nervoso. O Delegado entra.. Delegado: Disseram-me que você deseja falar comigo.
Isaac:Senta.
Delegado: Não posso demorar. Isaac: Senta, um pouco, vai! O delegado se senta
Delegado: Então?
[email protected] 15 Delegado: É verdade...
Isaac:Quer dizer que você também se sente solitário? Delegado: Muito!
Isaac:E sua mulher?
Delegado: É mesmo que não ter! Isaac: Sério?
Delegado: Vou lhe dizer mais...aqui entre nós...há anos que eu e a Maria ...você sabe! Aquilo!. Isaac: Nada?
Delegado: Nadinha...ela e um homem para mim é a mesma coisa... Isaac:Puxa...
Delegado: Não. Homem é muito melhor! Isaac: E por que você não experimenta? Delegado: Experimentar o quê?
Isaac:Bem...algo diferente! Delegado: Ah! Mas isso eu já fiz! Isaac: Já? E ai!
Delegado: Normal.. Isaac:Como assim, normal? Delegado: Normal, é normal! Isaac:Você não gostou?
Delegado: Gostar não é a palavra...Foi diferente, só! Isaac:E você não pretende procurar outro...
Delegado: Outro? Isaac:Caso.
Delegado: Não sei...as pessoas podem descobrir. Isaac:E por que esconder? A vida é tão curta! Delegado: Mais eu sou o Delegado!
Isaac:E daí ? Ninguém tem nada com sua vida particular... Delegado: Você tem razão!
Isaac: Você ainda pode ser feliz... Delegado: Posso sim!
Isaac:Com uma pessoa que lhe ame e sempre lhe amou... Delegado: É isso mesmo!...Mas onde está essa pessoa? Isaac: Aqui!
Delegado: Onde? Isaac:Eu...
Delegado: Que tem você? Isaac: Eu te..te amo, Carlão! Delegado: Quê?
Isaac:Eu te amo, sempre te amei...
O Alfaite permanece um pouco olhando enternecido para o delegado. Delegado: Você está se sentindo bem?
Isaac: Melhor não poderia...
Delegado: Deve ser a bebida...acho que puseram algo na sua bebida. Isaac: Como você é tolo, não precisa disfarçar...
Delegado: Essa bebida está com cheiro muito estranho...
Isaac:Carlão, escuta! A gente não precisa esconder este amor! Nós temos que assumir isso como duas pessoas adultas...
[email protected] 16 Isaac: Carlão, eu não estou bêbado...pára! Não é porque não se satisfez com ele, que você não pode se dar uma outra chance!
Delegado: Ele?
Isaac: Ora, ele (sussurando)...o homem que você teve um caso! Delegado: Está louco? Quem falou de homem aqui?
Isaac:Você disse...
Delegado: Eu disse que tive um caso com uma mulher, uma mulher... Isaac:Uma mulher... Por um instante eu pensei que você...
Delegado: Eu?...
Isaac: (Toma um gole rapidamente... e sai) Nada.
Cena 30
Na igreja, várias pessoas sentadas para ouvir o sermão do padre.
Padre: (tranqüilo, com ar de felicidade) Tirarei o meu sermão de hoje, não deste livro (mostrando a bíblia). Mas de um homem que vive entre nós. O exemplo dele nos faz perguntar: o que realmente sabemos? Nós sabemos quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Achamos que sabemos, mas nós só sabemos o que os outros nos dizem e o que sentimos no coração...Mas ele também mente. Então, o que sabemos?... Nada. Eu não quero ficar aqui fazendo sermão para vocês. Eu quero libertá-los. Eu descobri esta semana...que não acredito em Deus. (burburinho dos ouvintes).Por que esperar Deus desculpar por esta droga toda? Talvez, ele nem queira. Talvez, ele nem esteja aí. Mas nós estamos aqui. Então, hoje, meus amigos ...eu quero lhes pedir desculpas por tudo. Muito obrigado.
As pessoas vão saindo e o padre na porta, pede desculpa a cada um.. Padre : Obrigado, me desculpe.
Evangélica: Você devia ficar envergonhado. Você vai direto para o inferno. Padre: Me desculpe
Prefeito: Está se sentido bem, padre? Padre: Muito bem. Melhor do que nunca.
Cena 31
Crispo acorda, procura por Gina. Encontra apenas uma carta. Fica assustado. Prepara a mala rapidamente, enquanto ouve-se a voz de Gina em off. Ele sai da pensão, desesperado. Vai até ponte. Encontra o lenço de Gina, amarrado no ferro de proteção.
Gina(off): Meu amado Crisipo, até você aparecer em minha vida eu não conhecia a felicidade. Achei que andaria na escuridão desta cidade até envelhecer. Aí você veio até mim e tudo ficou tão claro. Ontem eu vi nos seus olhos o que você queria me dizer. O que já sabia, mas não sabia como falar. Eu te ouço como estivesse dentro de minha cabeça, me pedindo que eu prove o meu amor. Me pedindo que eu vá primeiro. Então, eu fui em frente, meu querido
[email protected] 17 Crisipo E esperarei por você do outro lado. Do lado melhor. Todo meu amor e gratidão.Para sempre Gina.
Crisipo: Gina, por quê? Nós íamos ver o mar... Ele chora.
Cena32
Crisipo se vira. Estão todos da cidade olhando para ele.Ele tenta passar. Crisipo: Com liçença...
Delegado: Para onde o Sr. pensa que vai? Crisipo: Estou indo embora.
Prefeito: Embora? Por quê?
Crisipo: Não há mais nada mais o que fazer aqui. Barbeiro: Como não?
Padre: Nós confiamos em você. Achamos que ia se matar e tivemos piedade. Delegado: Você não ia se matar, era tudo mentira, não era?
Maria: Fizemos um trato e nós cumprimos nossa parte. Crisipo:Trato? Não fiz trato nenhum..
Isabel: Não pensamos assim. Você fez uma promessa agora cumpra. Crisipo:Querem que eu morra?
Prefeito : Você mesmo falou que ia morrer. Crisipo: Não posso mudar de opinião? Padre: A pequena Gina não pode...
Delagado: A coitada morreu por sua culpa. Mas você ainda pode se redimir.
Crisipo: Por minha culpa? Eu era o único que gostava dela!Vocês só querem culpar alguém. Vão me matar, não é?
Prefeito: Não tocaremos em você.
Delagado: Chegou a hora. Só isso. De fazer o que você disse que faria.
Ele olha para trás e vê o vulto de Gina do outro lado da ponte, como na primeira cena. Gina: Vamos...
Crisipo: (para os outros)Tudo bem eu cumprirei o que disse. Palmas e ovações de todos.
Prefeito: Obrigado, por ser compreensivo, Sr. Crisipo. Assim é melhor para todos. Ele sai de encontro a Gina. Ela levanta o véu.
Crisipo: Gina...
Gina: Eu não falei que voltaria
Eles se beijam. A luz diminui aos poucos.
Cena Final A voz em off.
Crisipo : Meu nome é Crisipo. Em 1970 eu nasci. Nos últimos tempos fiz uma jornada. Eu me apaixonei, isto parece ter servido algum propósito. E após uma breve pausa, estou novamente a caminho do mar. Em geral, estou feliz comigo mesmo....
Apaga-se a luz no casal e acende no quarto de Crisipo, Tonha começa arrumá-lo Ela encontra o gravador. Senta na cama ouvindo a voz dele.
[email protected] 18 Crisipo: Esta cidade se comporta de acordo com suas regras. E ninguém precisa se desculpar .Aprendi que sempre há espaço para o perdão. E que todos os rios dão no mar. Mas o mar ainda não está cheio. Pelo menos é o que eu fui levado acreditar...
Luz apaga-se.