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Roberto Marinho, Boni e os militares: relações entre TV e política na criação do Telecurso 2º Grau ( )

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Roberto Marinho, Boni e os militares: relações entre TV e política na criação do Telecurso 2º Grau (1978-1981)

WELLINGTON AMARANTE OLIVEIRA*

Roberto Marinho, sua Fundação e a criação do Telecurso.

Em 26 de setembro de 1977, o empresário Roberto Marinho criou uma Fundação, com o objetivo publicamente declarado de colocar os meios de comunicação a serviço da educação (FINGUERUT, 2007:11). A partir desse momento, as Organizações Globo1 passariam a atuar em um segmento ainda pouco explorado pelas emissoras comerciais de televisão no Brasil, situação que possibilitaria ao concessionário estreitar ainda mais as suas relações com os diversos setores da sociedade, mas, sobremaneira, com o Estado, então governado pelos militares.

Na visão do empresário, a Fundação Roberto Marinho (FRM) seria a “síntese de todas as sínteses” dos objetivos de suas empresas de comunicação. E havia nascido e continuaria existindo com o intuito de servir à sociedade brasileira (O GLOBO, 09/08/1979).2 Para os críticos, a nova instituição era o seu passaporte para o céu (MACHADO, 1988:52). O fato é que, por meio de uma Fundação, seria possível a arrecadação de fundos, o abatimento de impostos e a captação de verbas públicas para a execução dos projetos do interesse de Marinho.

Somente o fato da criação da Fundação já foi motivo de repercussão entre os aliados políticos de Roberto Marinho. O senador da ARENA, José Sarney, fez questão de felicitar em plenário a iniciativa, classificando-a como um “amadurecimento do empresariado nacional”. Essas manifestações evidenciam que o empresário teria uma possibilidade ampla de busca de apoio para executar seus projetos (O GLOBO, 01/12/1977).

Entre os primeiros projetos da FRM estava o Telecurso 2º Grau. Um programa educativo que utilizaria televisão, rádio e material impresso com o intuito de colaborar na

* Professor Substituto na Universidade Federal de Uberlândia, campus Pontal. Mestre em História

(UNESP/Assis).

1 Para uma visão geral das Organizações Globo e do alcance de suas ações ver: BRITTOS, Valério Cruz;

BOLAÑO, César Ricardo Siqueira (orgs.). Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. São Paulo: Paulus, 2005.

2 Entre os jornais consultados para a pesquisa e citados no decorrer do texto estão: O Estado de S.Paulo; a Folha de S. Paulo; e O Globo. Todos considerando o recorte cronológico, 1978-1981.

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preparação de pessoas para os Exames Supletivos. Ideia que teria surgido da cabeça do jornalista potiguar Francisco Calazans Fernandes, então diretor do departamento de Educação da FRM. 3 A produção, comercialização e veiculação do curso dividiu-se em três fases: a primeira com as disciplinas de História, Geografia e Língua Portuguesa; a segunda com Matemática, Educação Moral e Cívica (EMC), Organização Social e Política Brasileira (OSPB) e Inglês; e, por fim, Física, Química e Biologia, totalizando 450 teleaulas. Os fascículos, vendidos semanalmente nas bancas de jornal, eram escritos por professores da USP, mas com uma linguagem adaptada por redatores pedagógicos. Além disso, vale ressaltar que, por seguir o currículo oficial, o Telecurso recebeu a chancela “Aprovado pelo MEC”, o que fornecia legitimidade ao material.

Mas, para a realização desse grandioso projeto, a FRM buscou parceiros; o principal foi a Fundação Padre Anchieta (FPA), mantenedora da Rádio e TV Cultura de São Paulo, que, desde sua criação, em 1967, empenhava-se na produção de diversos programas educativos.4

A instituição paulista tinha uma origem muito diversa de sua congênere carioca. Nasceu da iniciativa do governador Abreu Sodré de criar uma emissora de TV pública para o estado de São Paulo. Desde que iniciou suas emissões, a TV Cultura buscou seu espaço no campo televisivo,5 destacando-se, notadamente, entre as emissoras educativas, e tornando-se

pauta recorrente nos principais veículos da imprensa impressa paulista. 6

No dia 16 de janeiro de 1978, no prédio da FPA, no bairro da Água Branca, na capital paulista, ocorreu o lançamento oficial do Telecurso 2º Grau. A cerimônia, realizada na hora do almoço, reuniu, além dos presidentes das fundações parceiras – Roberto Marinho e Antonio Soares Amora –, parte do secretariado do Estado de São Paulo, representantes do MEC e funcionários ligados à produção do programa. O evento marcava simbolicamente o início de uma série de ações capitaneadas por Roberto Marinho voltadas à divulgação e à legitimação

3 Essa informação foi confirmada pelos filhos do jornalista, entre eles a professora do Departamento de História

da USP Antônia Terra de Calazans Fernandes.

4 Para um panorama sobre os programas educativos ver: OLIVEIRA, Wellington Amarante. “Uma breve

história do ensino na TV brasileira durante o regime militar (1964 – 1979).” História Social. Revista dos pós-graduandos da Unicamp. n.20 jan.-jun. 2011. pp. 111-139.

5 A acepção de campo aqui utilizada deriva da sociologia da prática de Pierre Bourdieu. Ver: BOURDIEU,

Pierre. O Senso prático. Petrópolis-RJ : Vozes, 2009.

6 A respeito da criação da TV Cultura de São Paulo ver: BARROS FILHO, Eduardo Amando de. Por uma

televisão cultural-educativa e pública: a TV Cultura de São Paulo, 1960-1974. São Paulo: Cultura Acadêmica,

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do Telecurso junto à sociedade e ao campo político. Marinho fez com que o material de divulgação do programa chegasse aos secretários estaduais de educação, a deputados e senadores e até ao presidente da República, como veremos adiante.

Os primeiros meses de 1978 marcaram o sucesso das teleaulas e das vendas dos fascículos em São Paulo, primeira cidade onde o Telecurso foi exibido. O programa foi bem recebido não somente pela audiência, mas, notadamente, por agentes ligados aos poderes públicos – que estavam ansiosos para contar com o Telecurso em sua cidade. O formato de veiculação e distribuição do programa já estava sendo testado com êxito em São Paulo, Brasília, Goiânia e Rio de Janeiro. E entre as metas da FRM estava a de atingir todo o território nacional a partir de parcerias com secretarias de educação, com emissoras educativas e afiliadas da Rede Globo.

A partir do dia 14 de julho de 1978, o Telecurso passou a ser transmitido para todo o Brasil via 33 estações. A ampliação do sinal esteve alicerçada na vasta rede de afiliadas à Rede Globo, nas emissoras educativas do governo federal e em alguns canais comerciais. Em Natal, capital do Rio Grande do Norte, por exemplo, o programa era exibido quatro vezes ao dia. No período da manhã, às 10 horas e às 11h30, pela TV Globo Nordeste e durante a noite, no horário nobre pela TV Universitária às 19h30 e às 21 horas. A partir de então, o Telecurso ganhava destaque pela demonstração de sua força e do alcance geográfico que a televisão comercial poderia atingir em um processo educativo, o que interessava demasiadamente aos militares com vistas à política de integração nacional. O alcance nacional do Telecurso significava visibilidade às ações da FRM e, por extensão, à Rede Globo.

Com pouco mais de um mês no ar em âmbito nacional, o Telecurso foi um dos temas discutidos em um debate sobre as responsabilidades da TV, realizado na Escola Superior de Guerra (ESG). Entre os palestrantes convidados, estavam dois funcionários da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni e Mauro Salles, o que reflete a importância da iniciativa de Roberto Marinho. O painel, realizado no dia 29 de agosto, com o tema Televisão

e Educação: as responsabilidades da TV, contou ainda com a participação do general Octávio

Pereira da Costa, ex-diretor da Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP) no governo Médici, e Glauco Carneiro.

A fala de Boni foi a última. O executivo da Rede Globo demonstrou um vasto conhecimento sobre programas educativos, citando algumas experiências realizadas em outros

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países. Aproveitou também para tecer comparações entre a regulamentação brasileira e norte-americana, lembrando que a Comissão de Comunicações do Congresso nos Estados Unidos havia acabado de aprovar alterações no código daquele país e a tendência era que a nova norma fosse ainda mais liberal, exemplo que deveria ser seguido pelo Brasil, demonstrando abertamente a sua defesa do modelo televisivo comercial.7

Passados apenas três meses do início da exibição do Telecurso em rede nacional, o então presidente da República, Ernesto Geisel, enviou uma carta para Roberto Marinho. Segundo o comunicado, o presidente conheceu o programa a partir de um relatório enviado pelo próprio Marinho, demonstrando o modo como atuava a FRM na divulgação de seu produto.

Uma notícia dessas não passaria incólume à cobertura d’O Globo, sempre em busca de notícias positivas sobre as instituições do grupo comunicacional de Roberto Marinho. A matéria com os elogios do presidente ao Telecurso foi vendida aos leitores em tom triunfal, com a manchete “Geisel aplaude o Telecurso” na primeira página do periódico, e a publicação da carta na íntegra (O GLOBO, 26/10/1978).

Na sua missiva, o presidente assegurava que em “numerosos pronunciamentos” tinha “acentuado e reiterado a preocupação de seu governo” com “a ampliação de oportunidades de educação para todos os brasileiros,” e ponderava que melhor do que as suas declarações eram os fatos e os números que confirmavam essa direção. De acordo com Geisel, a mensagem da Presidência da República enviada ao Congresso Nacional com a proposta orçamentária para o ano de 1979 previa a destinação de 43 bilhões de cruzeiros para a Educação e Cultura, sendo que, desse total, cerca de dois bilhões seriam aplicados no Supletivo (O GLOBO, 26/10/1978). Essa declaração é importante, pois indica que o Governo Federal estaria disposto a investir na educação supletiva, direção que muito interessava a Roberto Marinho.

Geisel aproveitou o espaço do jornal para rebater seus opositores. De acordo com o mandatário, o cuidado com a educação era “a forma básica e autêntica de promover os direitos humanos” (O GLOBO, 26/10/1978). A essa altura, o regime militar sofria diversas críticas não somente dos agentes oposicionistas internos, mas da comunidade internacional,

7 Para a compreensão da constituição dos modelos televisivos no mundo ver: JEANNENEY, Jean-Noël. História

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por violações aos Direitos Humanos, sobretudo dos Estados Unidos da América, situação que levou Geisel a não visitar esse país ao longo de seu mandato. Tais críticas ficaram mais agudas a partir de 1977, com a ascensão de Jimmy Carter à Presidência norte-americana.

A temática do desenvolvimento nacional também recebeu atenção de Geisel. O presidente afirmou que a destinação de recursos federais para a educação estava intimamente ligada ao “contexto da política para a consolidação do processo de desenvolvimento brasileiro”. E fez um chamamento à iniciativa privada: “em nenhum país do mundo livre o problema da educação se pode resolver por ação exclusiva do governo”. E apontou que a educação fazia parte de um esforço coletivo da sociedade, sendo que essa responsabilidade deveria ser “particularmente acrescida no caso das empresas de comunicação”. Segundo o presidente, “além de maior qualidade e clareza que as técnicas de gravação emprestam às aulas, a televisão multiplica pelo número de aparelhos a ação de um único professor e supre deficiências de instalações escolares e de tempo dos alunos” (O GLOBO, 26/10/1978). Ao final da carta, o presidente enfatizava: “por todas essas razões registro com efusivos aplausos a iniciativa da Rede Globo, de produzir o Telecurso 2º Grau” [grifo nosso]. E reconhecia que o programa era “uma realização que honra a tradição de reais serviços prestados a Nação por Vossa Senhoria [Roberto Marinho] e por essa organização, e merece por isso o apoio do governo e reconhecimento da comunidade brasileira” (O GLOBO, 26/10/1978).

É interessante notar como Geisel atribuiu a iniciativa do Telecurso direta e exclusivamente à Rede Globo, demonstrando claramente que, apesar do programa ter sido produzido em parceria com a FPA, quem mais se legitimava com o sucesso do programa era Roberto Marinho e a TV Globo. Afinal, se até mesmo o presidente da República entendia o programa como uma produção da Rede Globo, o que dizer da audiência regular do Telecurso, que via os atores e as atrizes das novelas lecionando disciplinas no programa todos os dias?

Em julho de 1979, sob o governo de João Batista de Oliveira Figueiredo, o então ministro da Educação e Cultura, Eduardo Portella, declarou que não se educava um país de 120 milhões de habitantes com processos artesanais de educação, bem como não se educaria uma sociedade de massa sem a utilização dos meios de educação de massa (O ESTADO DE S. PAULO, 17/07/1979). Essa declaração demonstra o quanto a iniciativa da FRM estava afinada com o discurso do Governo Federal, e que a possibilidade da produção de um

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programa educativo produzido pela FRM e com financiamento público estava tornando-se realidade.

Pouco mais de um mês após essa declaração do ministro, Roberto Marinho fora convidado para apresentar o Telecurso 2º Grau à Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. Em longa exposição, Roberto Marinho discorreu sobre os primeiros projetos da Fundação, realizados ainda em 1977, dedicados à preservação do patrimônio histórico e artístico nacional, com ações específicas em cidades do estado de Minas Gerais. Tratou também das atividades que a FRM vinha desenvolvendo junto às crianças e jovens do Morro da Mangueira e na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, até chegar aos detalhes sobre a criação e desenvolvimento do Telecurso 2º Grau. Nesta direção, o empresário revelou que a criação do Telecurso partira de uma análise daquilo que seria possível executar dentro dos recursos disponíveis. Ressaltou que a Fundação elegera a Educação Permanente “como um capítulo dos mais carentes no quadro total da problemática brasileira cuja solução parcial poderia ser imediatamente atacada” (O GLOBO, 09/08/1979).

O empresário buscou, por meio do seu discurso, mostrar a potencialidade do programa e afirmou que a trajetória do Telecurso já era suficiente para se concluir “que algo novo e importante surgiu no campo da teleducação”. Disse estar honrado em dar seu testemunho à Casa, pois podia, assim, oferecer “ideias para o debate sobre uma política nacional de teleducação”. E, citando Dean Jamison, assessor do Banco Mundial para assuntos da educação, afirmou que o Telecurso atendia aos requisitos de “alta qualidade de ensino e custo baixíssimo para o beneficiário” (O GLOBO, 09/08/1979).

Mesmo o Telecurso alcançando todos esses êxitos, relatados exaustivamente por Roberto Marinho, o empresário admitiu que não cabia à iniciativa privada arcar com tal responsabilidade sozinha: “um empreendimento de tal envergadura supõe um ônus financeiro que ultrapassa o âmbito da iniciativa privada, quer em termos de esforço operacional, quer em termos de responsabilidade social.” E sentenciou: “o poder público não pode ficar alheio a um problema de vastas dimensões e de implicações tão vitais para o próprio desenvolvimento da nação” (O GLOBO, 09/08/1979).

O argumento do empresário era condizente com a concepção de educação professada pelos militares ao longo da ditadura, que esteve alicerçada em dois pontos chaves, o ideário nacionalista baseado na Doutrina de Segurança Nacional e o ensaio de um projeto econômico

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desenvolvimentista que resultavam em uma força de trabalho minimamente especializada (MARTINS, 2005:17).

Após essa reunião com o Legislativo, ainda que não tenha sido criada uma ampla política para a teleducação, como sugeriu o discurso de Roberto Marinho, pavimentava-se o caminho para o financiamento público dos projetos da Fundação.

Como resultado, no início de 1980, foi assinado por Roberto Marinho e pelo ministro Eduardo Portella, estando Boni entre as testemunhas, o Acordo de Cooperação e Amparo Técnico e Financeiro nº 01/80, no valor 250 milhões de cruzeiros, com o propósito de implantação de um curso supletivo voltado ao primeiro grau aos moldes do Telecurso (MILANEZ, 2007:63).

A aprovação do projeto de Supletivo Primeiro Grau, como ficou conhecido essa nova versão do Telecurso, com financiamento público, constituía-se como a efetivação dos objetivos buscados pela FRM desde sua criação. Roberto Marinho, por meio de suas relações com agentes do campo político, demonstrou como uma emissora comercial poderia cumprir as determinações legais de veiculação de programação educativa e ainda obter vantagens financeiras, situação que dificilmente se repetiria com outro concessionário.8

Mas, a parceria entre MEC e FRM não passaria despercebida nem para parte da imprensa e nem mesmo dentro do Governo Federal. O jornal O Estado de S. Paulo publicou uma matéria destacando que a teleducação havia perdido verbas, e que tal queda nos recursos inviabilizaria o atendimento dos programas básicos e prioritários. (O ESTADO DE S. PAULO, 05/06/1980) Segundo Reynaldo Valinho, titular da Secretaria de Aplicações Tecnológicas (Seat), o órgão dispunha de CR$ 128,5 milhões para o exercício do ano de 1980, contra CR$ 214,4 milhões para o ano anterior, representando, assim, decréscimo real na ordem de 60% e nominal de 40%, quando comparados os dois orçamentos. (O ESTADO DE S. PAULO, 05/06/1980) Valor que, segundo informava Valinho, era muito inferior ao destinado a FRM para a execução do Supletivo Primeiro Grau. E acrescentava, ainda, que o orçamento da secretaria teria de ser de CR$ 600 milhões para a pasta conseguir atender às

8 Um exemplo da relação complexa entre os militares e os concessionários de televisão pode ser verificado no

episódio que resultou o fechamento da TV Excelsior. Ver: BUSETTO, Áureo. Sem aviões da Panair e imagens da TV Excelsior no ar: um episódio sobre a relação regime militar e televisão. In: KUSHNIR, Beatriz (org.).

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demandas de assistência financeira a entidades de teleducação responsáveis pela produção e aquisição de séries ou filmes educativos, bem como as tarefas de produzir, gerar, distribuir e veicular programas educativos para rádio e televisão, adquirir e instalar equipamentos e obras.

Em matéria publicada na quarta-feira, 17 de setembro de 1980, o jornal O Estado de S.

Paulo divulgou uma denúncia de repasse de verbas do governo federal à FRM, feita por Luis

Eduardo Nascimento, então diretor da TV Educativa do Espírito Santo. Segundo o diretor, o MEC teria transferido à FRM, por determinação do ministro do planejamento, Delfim Neto, a quantia de 285 milhões de cruzeiros “para a realização de um curso supletivo de 1º grau a ser veiculado por todas as emissoras de televisão do país, em cumprimento à Portaria 408”. Pelo acordo, na verdade, o valor repassado a FRM seria um pouco menor: 250 milhões de cruzeiros. Para Nascimento, a “medida é absurda”, pois a FRM, não tendo recursos próprios para produzir o programa, teria de recorrer à Fundação Centro Brasileiro de Televisão Educativa, órgão público que deveria ter sido acionado desde o início para “o cumprimento da missão”. Nascimento ainda revelou que, enquanto as instituições públicas estavam realizando “esforços sobre-humanos para formalizar projetos”, a FRM “ganha de mão beijada uma grande verba que poderia ter sido destinada não só à rede de emissoras educativas como às próprias universidades que atualmente enfrentam problemas até de falta de giz”. De acordo com a matéria d’O Estado de S. Paulo, Nascimento não soubera explicar a razão pela qual a FRM foi contemplada com 285 milhões de cruzeiros. Porém, fez observações contundentes ao jornal: “só sei que a Rede Globo é um país dentro de um país e, nesse episódio, me senti como um menino pobre que queria apenas uma bala doce, enquanto um outro, muito rico, ganhava sem maiores esforços um saco de balas” (O ESTADO DE S. PAULO, 17/09/1980).

O convênio do MEC com a FRM geraria mal estar também na TVE do Rio de Janeiro. A emissora, que havia acabado de criar a telenovela educativa, A Conquista, voltada para as últimas séries do 1º grau, se viu obrigada a substituí-la pelo Telecurso de 1º grau, da FRM. Conflito que acabaria ocasionando o afastamento do então diretor executivo da TVE, Ronaldo Nordi, que se recusara a tirar o programa do ar (MILANEZ, 2007:62).

O Supletivo Primeiro Grau, produzido pela FRM em parceria com a UnB e com financiamento público, entrou no ar a partir de 16 de março de 1981. O programa conseguiu ampliar a grandiosidade, em termos quantitativos, do seu precursor. As teleaulas começaram

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simultaneamente em todo país, reunindo mais de 50 emissoras de TV e cerca de mil estações de rádio aproveitando toda a estrutura do Projeto Minerva do MEC (O GLOBO, 15/03/1981).

Em 1981, o Telecurso voltaria a ser tema de debate na ESG, mas, ao contrário da primeira vez, quando foi assunto coadjuvante dentro do painel sobre Televisão e Educação, o programa foi pauta principal, e, por isso, a conferência contou com a presença de Roberto Marinho e de José Carlos de Almeida Azevedo, reitor da UnB. O evento teve a ampla cobertura do jornal O Globo, que publicou a íntegra as duas conferências, em uma matéria que ocupou duas páginas no jornal e dava como manchete em letras garrafais: “Telecursos de 1º e 2º Graus são experiências vitoriosas”. Roberto Marinho declarou durante sua exposição que a FRM “lançava o Telecurso 2º Grau com a convicção de poder contribuir de maneira objetiva no esforço educacional brasileiro”. Segundo ele: “ao favorecer a educação de todos, os meios de comunicação de massa estão promovendo ativamente a elevação da cultura e da civilização do povo brasileiro” (O GLOBO, 25/06/1981).

O evento na ESG marcou o encerramento de um ciclo. De 1978 a 1981, a FRM trabalhou incessantemente para tornar o Telecurso uma marca de sucesso, e conseguiu. O trânsito de Roberto Marinho pelo campo político, no qual buscou parceiros e o reconhecimento dos militares; a utilização constante de seu jornal na divulgação das ações promovidas pelo programa; e a posição privilegiada da Rede Globo no campo televisivo, respondem parcialmente por esse êxito. Para compreender o sucesso do Telecurso em sua multiplicidade, é necessário considerar um último elemento: o da produção televisiva.

O papel de Boni ou como o “Padrão Globo de Qualidade” chegou ao Telecurso.

Boni afirma, em seu livro, que o “Padrão Globo de Qualidade não foi criado por ninguém, mas resultou de uma exigência comum a quase todos os funcionários da empresa em todos os escalões” (OLIVEIRA SOBRINHO, 2011:431). O que ele denomina como “mentalidade tolerância zero”, deve ser compreendido historicamente como práticas engendradas por um determinado habitus específico aos agentes, que, assim como ele, ocupavam determinada posição dentro do campo televisivo. Um exemplo dessa dinâmica pode ser visto em uma avaliação realizada por Boni de um programa piloto do Telecurso.

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após uma primeira avaliação da FPA, aos cuidados de Boni, então superintendente de Produção e Programação da Rede Globo. Apesar de não integrar oficialmente os quadros profissionais da FRM, Boni contribuiu na construção da concepção televisiva do Telecurso, o que demonstra a relação tênue em termos administrativos/operacionais entre a Fundação e a Rede Globo. Em um memorando encaminhado a FPA, Boni fez valer sua posição privilegiada dentro do campo televisivo para tecer críticas e intervir no processo final de produção da série, enquadrando-a na concepção comercial de se fazer televisão.9

Inicialmente, divergindo da avaliação da FPA, Boni destacou que o Telecurso apresentava “uma evolução apreciável no sentido didático” o que, “além de atrair compradores para os fascículos,” seria efetivamente útil aos alunos/telespectadores. Avaliou de forma positiva “a utilização de recursos variados de televisão – como a música, o teatro, a entrevista, a reportagem, a narração, o desenho.” Afirmou que o uso desses recursos demonstrava o conhecimento da equipe técnica sobre a produção educativa, e concluía que o formato compunha “um programa dentro dos melhores moldes didáticos recomendados” pelos produtores de teleducação em todo mundo.

As críticas mais duras de Boni recaíram sobre os aspectos estéticos do programa, justamente os que tinham sido mais elogiados pela avaliação da FPA. Enfático, Boni defendeu que era “preciso partir para a simplificação, evitando-se rebuscamentos inúteis, como efeitos desnecessários de chroma-key ou marcações ridículas, como a do narrador falando para o receptor ou a declamação ao espelho”. E afirmava que tal tipo de preocupação, além de expressar um tom amadorístico, atrasava “a produção dificultando a adoção de um processo industrial, rápido e objetivo”.

Em relação ao texto, Boni advertiu que o uso de palavras, tais como: “urgia, estagnação, alheamento”; ou expressões como: “famílias abastadas, decadentes suspiros das aristocráticas ninfas”; resultavam em uma linguagem pesada e imprópria para o veículo televisão, meio que, para o diretor-geral da TV Globo, deveria ser “coloquial e direto”. E concluía que palavras e expressões “não correntes na língua falada” davam ao programa “tom professoral e rançoso”, e, portanto, os redatores teriam de “estar mais familiarizados com o veículo” ou então que seus textos pudessem ser modificados.

9 As informações entre aspas utilizadas doravante nos próximos quatro parágrafos constam em memorando

assinado por Boni intitulado: Avaliação de Pré-produto: piloto TV. Anexo ao Relatório Final do Telecurso 2º

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Ao final, considerando os prazos estipulados, possivelmente por Roberto Marinho, Boni pediu urgência na constituição da equipe de produção, que deveria ser formada por profissionais “experientes e rápidos”, para que se obtivesse, assim, um bom volume de trabalho, com boa qualidade e sem rebuscamentos. Sugeria que a equipe, então em formação, fosse reduzida, pois havia superposições de funções, especialmente nas áreas de apoio, assistentes de produção e pesquisa. Ademais, Boni propunha que, imediatamente após a constituição da equipe, ocorresse uma reunião na TV Globo-SP ou na TV Cultura, com a finalidade de discutir o piloto e o “balisamento da filosofia de produção.” E salientava que à reunião deveriam estar presentes, além dele próprio, Joe Wallach 10, Eduardo Sidney e quem

mais fosse necessário a critério da FPA e FRM. E numa demonstração de controle do projeto, solicitou a “elaboração do cronograma de produção e edição, para acompanhamento pela Rede Globo”.

As orientações de Boni, por meio de seu memorando, demonstraram claramente o papel fundamental que ele exerceu para levar o “Padrão Globo de Qualidade” ao Telecurso. O programa ainda contou com outros agentes importantes ligados ao modelo televisivo comercial que colaboraram com esse objetivo. Integravam a equipe técnica nomes como Gregório Bacic, jornalista e cineasta, Naum Alves, cenógrafo e Silvio de Abreu, roteirista. Entre os apresentadores das disciplinas estavam artistas como Gianfrancesco Guarnieri (História), Ariclê Perez (Geografia), Kito Junqueira e Cléo Ventura (Língua Portuguesa), Jorge Fernando (EMC/OSPB), Marco Nanini (Matemática), Silvia Bandeira (Física), Marília Gabriela e Mário Lago (Química) e o casal Antônio Fagundes e Clarisse Abujamra (Biologia). Podemos ainda pontuar participações especiais do jornalista Heródoto Barbeiro, do jurista Dalmo Dallari, e do ator Lima Duarte.

Dessa forma, as aulas do Telecurso configuraram-se como um importante elemento no avanço do setor de telensino, pois elas eram muito superiores em termos de produção técnica de tudo o que havia sido realizado anteriormente por outras emissoras no setor, a julgar pelo que é conhecido desta produção. E ainda que se retomassem alguns expedientes já experimentados nas produções anteriores, como o recurso do uso do teledrama, vindo das

10 Joe Wallach, americano, chegou ao Brasil em 1965 para gerir os recursos investidos pelo grupo

norte-americano Time-Life naTV Globo. Acabou permanecendo na emissora mesmo após o fim oficial da parceria, tornando-se um dos homens de confiança de Roberto Marinho e com importante papel na articulação entre Walter Clark e Boni.

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telenovelas educativas, e do parcial uso de audiovisuais, as aulas do Telecurso eram investidas mais amplamente de recursos próprios da linguagem audiovisual televisiva. Seus textos eram mediados ampla e sistematicamente por imagens de arquivos da TV (produzidas por jornalismo, documentário, dramaturgia, musicais, cinematográficos e fotográficos), ou mesmo as produzidas especialmente para a apresentação do conteúdo de uma teleaula, elaboradas com base em ilustrações, cenários com reprodução de ambientes relacionados às disciplinas ou conteúdos destas, na linguagem da teledramaturgia, quando não de programas humorísticos. Em relação aos conteúdos, as teleaulas mostraram um dinamismo e uma riqueza de detalhes, inclusive com a participação de especialistas, que a escola tradicional do final da década de 1970 não teria facilidade em superar.

Em suma, o que se observou durante a produção do programa foi que a condução e a participação dos profissionais ligados à Rede Globo ganhavam corpo e começavam prevalecer em detrimento daqueles vinculados à emissora pública paulista. Direção expressa na adoção de práticas como a seleção de produtores e roteiristas oriundos da emissora comercial, com o fito de adequar as telaulas à linguagem mais propriamente televisiva, a qual, então, era experimentada mais largamente pelos profissionais da Rede Globo. Assim, a escolha de Boni, para acompanhar o andamento dos trabalhos não deixava sombra de dúvidas sobre aquela direção, além de ser um atestado do desejo de Roberto Marinho ter um programa com a cara de sua emissora. E isso significava dizer que o “Padrão Globo de Qualidade”, o qual passava a orientar toda a produção da Rede Globo a partir da década de 1970 e respondia, em certa medida, aos anseios do regime militar por uma melhoria na produção televisiva nacional, devesse finalmente ser aplicado aos programas educativos.

Considerações Finais

As relações sociais que envolveram a criação do Telecurso 2º Grau revelam ao menos quatro aspectos importantes do modo de funcionamento do campo televisivo brasileiro. 1) A carência de programas educativos em um espaço audiovisual formado estritamente por produções de entretenimento e informação; 2) O predomínio do setor televisivo comercial sobre as emissoras públicas ou estatais; 3) A relação íntima entre os concessionários e os

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políticos na consecução de seus projetos; 4) A tentativa constante do setor comercial de reafirmar sua competência técnica e tecnológica frente as iniciativas públicas.

A partir desses elementos, podemos concluir que dentro de um quadro televisivo com alguns experimentos educativos pouco duradouros e sem abrangência nacional, o surgimento do Telecurso 2º Grau acabaria por impor um paradigma à programação educativa no Brasil. Naquele momento, e dado o quadro televisivo nacional, a Rede Globo era a única que dispunha de condições para investir recursos tecnológicos e profissionais adequados e modernos à produção e veiculação de um programa educativo da magnitude alcançada pelo

Telecurso.

A constituição e a dinâmica do modelo televisivo comercial tornaram-se, no Brasil, um fator estruturante das práticas desenvolvidas pelos agentes do campo televisivo em termos de produção. O exemplo do Telecurso 2º Grau auxilia a compreensão de que apenas quando programas educativos passaram a ser pensados e experimentados por profissionais formados dentro da lógica televisiva comercial, em nítida consonância com novos experimentos da linguagem audiovisual televisiva, foi possível se avançar na busca e construção sistemática de um modelo de produção de telensino.

Ao longo da história da televisão no mundo, estabeleceu-se uma espécie de tríade sagrada formada por entretenimento, informação e educação (BRIGGS; BURKE, 2005, p.193). Com o Telecurso, a Rede Globo, que já dominava, desde o início da década de 1970, a produção do entretenimento, com suas telenovelas, e da informação, com o Jornal Nacional, conquistava, enfim e para não mais perder, o terceiro elemento: a educação.

Referências Bibliográficas

BARROS FILHO, Eduardo Amando de. Por uma televisão cultural-educativa e pública: a TV Cultura de São Paulo, 1960-1974. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2011.

BOURDIEU, Pierre. O Senso prático. Petrópolis-RJ: Vozes, 2009.

BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: da Gutenberg à Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

BRITTOS, Valério Cruz; BOLAÑO, César Ricardo Siqueira (orgs.). Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. São Paulo: Paulus, 2005.

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Referências

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