JOSÉ ALFREDO EVANGELISTA
CASOS e CAUSOS da CASERNA
Relatos de um militar inativo
Copyright © 2014 by José Alfredo Evangelista
Todos os direitos reservados ao Autor José Alfredo Evangelista
Impresso no Brasil Printed in Brazil
Montagem de Capa e Diagramação Andreza de Souza
Revisão Do Autor
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Ficha Catalográfica
Evangelista, José Alfredo
E92c Casos e causos da caserna: relatos de um militar inativo / José Alfredo Evangelista. – Olinda: Livro Rápido, 2014.
256 p.:il.
Contém biografia do autor p. 253
ISBN 978-85-406-0895-5
1. Literatura. 2. Narrativa. 3. Casos e causos – José Alfredo Evangelista. I. Título.
82-93 CDU (1999) Fabiana Belo - CRB-4/1463 Editora Livro Rápido – Elógica
Coordenador editorial: Maria Oliveira
Rua Dr. João Tavares de Moura, 57/99 Peixinhos Olinda – PE CEP: 53230-290 Fone: (81) 2121.5307/ (81) 2121.5313
APRESENTAÇÃO
Com o objetivo de relembrar os bons tempos vividos na
“caserna”, durante trinta anos, tendo incorporado no ano de 1965, no “2º Regimento de Obuses 105” na cidade de Itu-SP, promovido a Terceiro Sargento e classificado, no ano de 1967, no “1º/5º Regimento de Infantaria”, na cidade de Lorena, depois transferido e nomeado Instrutor do “Tiro de Guerra de Mogi das Cruzes” e, por fim, transferido para o “Comando de Aviação do Exército”, em Taubaté-SP, o SUBTENENTE JOSE ALFREDO EVANGELISTA, autor deste Livro, propõe-se a contar seus CASOS e CAUSOS, de uma forma leve e solta, utilizando de um estilo literário, que beira os limites do colóquio. Seu jeito de expor os mais diversos fatos ocorridos dentro do convívio com seus camaradas superiores e subordinados, dão um sentido autêntico e característico da vida militar, pautada pelos trabalhos em grupo, onde a integração, a camaradagem, a responsabilidade, a disciplina e a hierarquia, modelam o seu caráter.
“O autor, narra toda sua história, compreendida entre os anos de 1965, quando senta Praça no quartel de Itu e 1993, quando passa para a reserva remunerada, no CAVEX, de Taubaté”.
Sua narrativa é recheada de textos hilários, mas também destaca historias mais sérias. Pauta-se ainda, na maioria de suas histórias, pela omissão de nomes, limitando-se a dar ênfase apenas às “personagens anônimas”.
“CASOS E CAUSOS DA CASERNA” relata os momentos mais interessantes que os militares e o autor, experenciaram no dia-a-dia da labuta não só durante o expediente, mas, também nos trabalhos em campanha.
DEDICATÓRIA
Este trabalho é dedicado a todos os militares do serviço ativo, e inativos, que estão vinculados às histórias relatadas neste livro os quais deixo de mencionar seus nomes, por questão de fórum íntimo. Preferi a omissão de nomes próprios, para deixar os textos isentos de alguma responsabilidade ou implicações pessoais constrangedoras. Apenas torno público o meu nome, pois, como autor da obra, quis identificar-me com cada Casos/Causos, ao longo dos meus trinta anos de serviço ativo.
Meu objetivo é ressaltar a integração fraterna e camarada nas lides da caserna e mostrar os diversos momentos, tanto hilariantes, quanto sérios e até tristes, que sempre balizaram a vida castrense.
Seus personagens são reais e dignos de fé. O autor é testemunha viva de todas as narrativas por ele relatadas.
Não posso deixar, ainda, de dedicar e agradecer ao meu amigo e irmão de armas, Capitão Antonio Sérgio de Pinho, que nos brindou com o prefácio do livro e alguns “CASOS” de seu tempo de caserna, ao Dr. Luís Fernando A. Rodrigues, ex- Atirador do Tiro de Guerra de Mogi das Cruzes no ano de 1991, que enriqueceu nosso livro com suas hilariantes historias e à Professora Dona Maria Auxiliadora da Silva Néto Barbosa, pelo relevante trabalho prestado na revisão ortográfica desta obra. A todos, o nosso apreço, pela inestimável colaboração na execução deste trabalho.
O sacerdócio, que caracteriza a convivência, para os companheiros da “ativa”, é um misto de camaradagem, responsabilidades, coragem, altivez, patriotismo e, sobretudo, de grandes amizades, que marcam a nossa vida para a eternidade.
A “caserna” é uma escola de vida, onde todos são por um, e um é por todos, nos desafios inerentes às atividades da instrução, e do cumprimento dos objetivos.
Tenho o prazer, ainda hoje, de encontrar com aqueles garotos, que hoje são pais de famílias, e senhores honrados, que com orgulho, falam e ostentam a condição de “reservistas do Exército Brasileiro”, além de nos distinguirem com o seu apreço e consideração.
A Caserna é um lugar, onde se forjam os verdadeiros brasileiros, que cumprem suas missões, sem esperar nenhuma recompensa ou elogios... Executam seus trabalhos, apenas por ideal, e fé na dignidade da sua missão!
A mistura do hilarismo, com seriedade, alegria e tristeza, fé e esperança, dedicação e inconsequências, caracterizam e modelam todo o universo da gente militar, na convivência, no trabalho de equipe, na busca incessante da conquista e dos objetivos.
De um lado, os companheiros da "ATIVA”; Do outro, os “INATIVOS". De um lado aqueles, que são os atores de hoje... Do outro, aqueles, que já saíram do palco e vestiram o pijama!
A CASERNA - A mesma de ontem, de hoje e de sempre!
PREFÁCIO
Lembro-me perfeitamente, quando disse ao amigo Alfredo, que o livro “Tenente Cláudio Pereira - Tributo e Memórias”
(de sua autoria), seria o primeiro de muitos. Meio espantado, disse-me que tinha ficado quase maluco, para concretizar a obra.
Agora, tenho a grande satisfação de prefaciar seu segundo livro, este com o Título "Casos e causos da Caserna". Acho que agora ele ficou mesmo maluco!
Trata-se de um tema, que nos é muito agradável, e ao mesmo tempo, nostálgico. Relembra-nos os bons e velhos tempos, as amizades, os rancores, os acertos e erros da juventude, os chefes, os amigos, as cidades, enfim, a vida militar.
Lembrar dos bons tempos da caserna, com um público heterogêneo, gênios fáceis e difíceis de se conviver, a arrogância e a prepotência de alguns, a ingenuidade e ignorância de outros, tudo isso somado, dá uma mistura um tanto quanto explosiva, porém salutar, fonte inesgotável, para quem tem o dom da escrita.
São passagens quase iguais em cada aquartelamento, parecendo mesmo, que, quando adentramos na caserna, nos entregam um manual de procedimentos.
Nos vários CASOS E CAUSOS coletados pelo autor, nota-se, que as figuras caricatas (não nomeadas por questão óbvia) têm seu lugar de honra, nesse pedestal andrógino (era), em que temos que provar a masculinidade, a higidez a toda hora, e é uma obrigação, afinal somos preparados para matar e/ou morrer.
Os fracos, não cabem nesse universo.
Tenho certeza absoluta, que todos que tiverem o privilégio de passear pelas páginas de “Casos e Causos da Caserna”
vão se identificar com os personagens e fatos.
As quase três décadas de “DEDICAR-ME INTEIRAMENTE AO SERVIÇO DA PÁTRIA”, somados à educação recebida do Vô Marcos e da Vó Antonieta (in memoriam) dão ao autor, o crédito para ser o portador de nossa história.
Parabéns Alfredo, por resgatar parte daquilo, que era o nosso dia-a-dia. No afã do “Dever Cumprido” não percebíamos (não sobrava tempo), aqueles fatos, que às vezes nos constrangiam, poderiam no futuro, ser tema de livros tão prazerosos. Desejo a todos, uma boa leitura, e, que aproveitem, e voltem ao passado, para relembrar nossos bons tempos.
(Capitão QAO R1 Antonio Sérgio de Pinho)
Sumário
INTRODUÇÃO ... 15
CAPÍTULO I ... 17
Meu batismo de fogo ... 17
O Silêncio e a Remington ... 19
O disparo da pistola ... 21
A estranha continência ... 22
As caronas dos recos ... 23
Botafogo X Santos no Maracanã ... 25
Cafezinho com gosto estranho ... 27
Descarga elétrica ... 28
Jabá pela goiabada ... 30
Continência de um recruta ... 32
Instrução para aspirantes ... 34
O meu primeiro trote como recruta ... 36
Meu primeiro trote como Sargento ... 37
Nossa confraternização trinta anos depois ... 39
Meu capitão trinta anos depois ... 41
A festa da minha promoção ... 43
Censurado no cinema ... 45
Pãozinho da madrugada ... 47
Cabo trapaceiro ... 49
CAPÍTULO II ... 51
Ronda como castigo ... 51
A bronca do cavalariano ... 53
Rosa de Ouro ... 54
Sacanagem com a minha farda ... 57
Sono ao relento ... 59
Trágico acidente ... 61
Transposição da Mantiqueira ... 64
Um cochilo oportuno ... 66
O Sargento e a Bíblia ... 67
Teste no futebol amador ... 68
Simulacro de granada ... 70
Bolada na cara do Comandante ... 72
Missão de Informações ... 74
Uma praça... Questão política ... 76
Minha casa e a Polícia Federal ... 79
As vacas e os fios ... 81
Cobra ao sol ... 83
Uma punição ... 84
Recruta irmão de minha namorada ... 86
Usina hidrelétrica de Jupiá ... 88
Voto de agradecimento ... 90
Zabumba furada ... 91
Meu casamento, uma festa militar ... 92
Sacerdócio ... 94
CAS ... 96
Museu do 5º BI... 97
A culpa foi dos pernilongos ... 99
A república ...100
A surpresa dos manda-brasas ...102
Ação cívico-social...104
Acidente fatal ...106
Alvorada com água ...108
Baixinho invocado ...110
Bazuca maluca ...112
Boinas Verdes ...113
Caixa de gargalhadas ...114
O irmão do Presidente ...116
Caserna, escola de camaradagem ...118
Chegada triunfal ...119
Se correr, o bicho pega... ...121
Atos inconsequentes e excesso de autoridade ...123
Como era uma expulsão ...125
Conduzindo terrorista ao DOI-CODI ...127
Era para ter sido eu! ...129
Corrida do galo ...131
Estágio na área de instrução especializada ...133
Figuração inimiga ...136
Foi por pouco! ...139
Gás lacrimogêneo ... 141
A prisão do tenente ... 143
Incursão no paiol ... 145
Meu segundo trote como Sargento ... 147
Minha passagem para a reserva ... 149
Notícia pela televisão ... 152
O cão não aguentou a marcha de 80 km ... 154
O quartel como refúgio ... 155
Olimpíadas militares ... 156
Operação Lamarca ... 158
Os carneiros do Batalhão ... 160
Patrulha no bordel ... 162
Pista de orientação ... 164
Pistola no fundo do rio ... 166
Prêmio para Soldado alterado ... 168
Quase fiquei capado! ... 170
Rede Guarani ... 172
Enchente ... 174
Sequestro ... 176
Transferência indesejada ... 178
Trote no Sargento gaúcho ... 180
Notícia triste ... 182
Pega pra capar ... 184
Capacete ao contrário ... 185
Reencontro de trinta anos ...188
Minha arma sumiu! ...190
Mochila pesada ...192
Copa do Mundo de 74 ...193
Pagando o maior mico ...194
Morte na Fazenda da Onça ...195
Corinthiano maluco ...197
Sem antena, não fala! ...198
Gerador a zero grau ...200
Banho gelado na Bocaina ...202
Não havia cansaço ...203
1º/5º RI - Museu de Sargentos ...205
Missão fétida ...206
Solidariedade entre militares ...208
Oração do infante ...210
"Tortura latina" ...211
CAPÍTULO III ... 212
Atirador bizonho ...212
Rivalidade no Tiro de Guerra ...215
Dor de cotovelo no TG ...217
O monitor e sua moto ...219
Ladrão inoportuno ...221
Atirador no Japão ...223
O melhor coturno do TG ...224
Racha em frente ao TG ... 226
Campanha do agasalho no TG ... 228
Tiro com a pistola do Instrutor ... 230
Tinha que ter um bizonho! ... 232
CAPÍTULO IV ... 234
O trote do helicóptero ... 234
Está faltando uma pistola! ... 237
Carga para desconto ... 239
CAPÍTULO ESPECIAL ... 241
General Dureza, Sargento Tainha e Recruta Zero... 241
Zero, o fanfarrão comodista ... 242
O irreverente recruta ZERO ... 243
Apologia do ZERO ... 244
A Bandeira e o Secretário ... 246
Dia da Cavalaria ... 247
Avance a senha ... 249
A pistola do sargento ... 251
BIOGRAFIA DO AUTOR ... 253
INTRODUÇÃO
Para editar este Livro, fui levado pelos vínculos, que alimento pela vida na CASERNA, desde quando passei para a reserva. Há vinte e um anos, quando deixei o serviço ativo no Comando de Aviação do Exército em Taubaté-SP, tenho mantido contatos por ocasião de eventos ou visitas inopinadas aos companheiros da ativa.
Jamais me afastei do convívio e do apreço, que me distinguem meus irmãos de armas, desde o Comandante, até o Soldado mais moderno. E para traduzir o afeto, que tenho ao nosso glorioso Exército Brasileiro, participei da fundação de uma Associação, que congrega militares inativos e senhoras pensionistas, na qual sou o Diretor de Comunicação da AMIPEL – Associação dos Militares Inativos e Pensionistas de Lorena.
Formado que sou em “Jornalismo”, procuro sempre que, posso divulgar a minha “Associação, o meu Batalhão e o meu Exército”.
Tenho, por dever de ofício, postado textos em jornais e entrevistas em programas radio-jornalísticos, enaltecendo a participação e a presença dos amigos e irmãos de armas, na
“política brasileira”, atividade de há muito desejada por toda a sociedade brasileira, pela confiança e alto conceito que faz da nossa gente.
Como todo militar, eu não seria diferente, quando relato os CASOS e CAUSOS que experienciei durante os meus trinta anos de vida na CASERNA! Com o objetivo mesmo, de testemunhar e transmitir aos de hoje, espero poder contribuir com os valores de outrora que, perenes, são consolidados pelos atuais companheiros de armas.
Como bem expressa a frase: “RESERVA ATIVA”, é uma síntese que mostra os valores universais tão bem acendrados no carácter e na formação de todo militar, quer seja ele da ativa, ou da reserva... E, como inativo que sou, após vinte e um anos no “pijama”, sinto-me o mesmo de ontem, de hoje, e com certeza, por toda a eternidade, já que a CASERNA como a maior das escolas da vida, impregnou na minha personalidade, tudo o que sou nas esferas da cidadania, da honra, da moralidade, honestidade, camaradagem, força de vontade e formação cívica, onde posso expressar meu amor pela pátria amada, pela nossa Bandeira e pelo nosso Hino.
Relatar CASOS/CAUSOS DA CASERNA foi um imenso prazer que pretendi compartilhar com os leitores, principalmente, se estes forem militares de todos os postos e graduações, assim como Inativos, no sentido de estimulá-los a conquistarem seus objetivos, não só profissionais, como familiares.
Com esta obra, concito a todos os irmãos de armas, a fazerem da CASERNA suas segundas casas, pois, ali se cultiva os verdadeiros valores que nossa Pátria espera de cada um de nós, que somos os CIDADÃOS FARDADOS.
Quanto a mim, continuarei a lhes dedicar toda a minha estima e consideração, afinal, todos estamos edificando e construindo um Brasil que espera muito de seus filhos... E o nosso trabalho silente, e sem esperar recompensas nem refletores de glória, somos diuturnamente os agentes anônimos, os “anjos de guarda” da pátria querida! BRASIL ACIMA DE TUDO!
CAPÍTULO I
Relato de “Casos e Causos da Caserna”, durante o período de 1965 a 1967 no 2º RO 105 na cidade de Itu-SP. O autor estava incorporado em janeiro de 1965, como recruta para o seu serviço militar obrigatório, na Bateria de Comando da Artilharia Divisionária do II Exército, onde fora promovido a Cabo do Núcleo Base e, posteriormente a 3º Sargento tendo sido transferido para o 1°/5º Regimento de Infantaria, na cidade de Lorena-SP, no ano de 1967.
Meu batismo de fogo
Os primeiros meses como incorporado ao Exército Brasileiro, são todos cheios de muitas expectativas. O recruta passa por uma bateria de provas físicas e de conhecimentos técnicos de combate inerentes à sua Arma. No meu caso, fui incorporado no 2º RO 105, uma Unidade de Artilharia.
Mas a que mais nos encheu de satisfação e admiração foi o BATISMO DE FOGO de toda a nossa “Bateria” com quase cem soldados. Depois de dois meses, fomos para o campo nas imediações da cidade de Itu-SP, onde está sediada a nossa Unidade.
Os nossos instrutores nos colocaram sentados numa elevação, e nos instruíram sobre os tiros da possante arma da nossa Artilharia Divisionária, os OBUSES 105 MILÍMETROS, que executam tiros curvos, e alcançam entre dez a onze quilômetros.
Essas armas, são empregadas na concentração de fogos sobre as áreas inimigas, e operadas por um conjunto de combatentes chamados de PEÇA.
Após a execução de cada tiro, o Comandante da PEÇA brada em alta voz: “PEÇA ATIROU”!
Naquele dia, de tanta expectativa e curiosidade para vermos a “potência dos tiros”, o instrutor ao terminar sua exposição, nos deixou preparados para o nosso BATISMO DE FOGO da Artilharia.
Minutos de silêncio se seguiram... Quando foi quebrado por um forte estampido à nossa retaguarda. O projetil do Obus passou por sobre as nossas cabeças, e podíamos ouvir seu
“chispar”, e ao longe, na outra elevação alguns quilômetros à nossa frente, um grande “cogumelo de terra se levantava”... Era a explosão da granada do Obus 105mm.
E, assim foram alguns tiros se repetindo naquela cena, que para nós era um deleite de guerra!...Sentíamos como num verdadeiro teatro de guerra entre uma PEÇA DE OBUS e OS ALVOS Á FRENTE!
Os estampidos surdos à nossa retaguarda, a granada zumbindo por sobre nossas cabeças e a explosão nos alvos à frente, nos enchiam de satisfação, por saber que éramos SOLDADOS RECRUTAS da PODEROSA ARTILHARIA, QUE NA GUERRA SE IMPÕE PELA METRALHA... A MISSAO DAS OUTRAS ARMAS AUXILIA, E PREPARA O CAMPO DE BATALHA...
“PEÇA ATIROU”!
O Silêncio e a Remington
Durante o meu período de serviço militar inicial no 2º RO 105 de Itu, a nossa Bateria de Comando da Artilharia Divisionária estava alojada na grande Igreja que pertencia ao antigo prédio de um colégio jesuíta, com paredes grossas de barro. As demais instalações, como o PC do Capitão Comandante, a Reserva do Subtenente, as reservas de armamento e o nosso alojamento eram tudo ali ao redor daquele imenso salão que correspondia à Igreja desativada, e que servia para abrigar todo o efetivo de recrutas incorporados naquele ano de 1965.
Era tudo muito grande. Ao redor das altas paredes, os armários um ao lado do outro, e nos meios, as fileiras das camas beliches de ferro. No local onde era o altar daquela Igreja, ficava a nossa “sala de praça”, com mesa de pingue-pongue, pebolim, revistas, um aparelho de som e uma TV. Os banheiros eram anexos às essas instalações, mas do lado de fora. Logo na entrada do alojamento, havia uma ante-sala com um imenso espelho que servia para que o recruta checasse o seu fardamento antes de sair à rua.
Numa certa noite, lá pelas 23 horas, depois do toque de silêncio, tocado pelo corneteiro, que ecoou por todos os longos corredores daquelas instalações, todo mundo se amoitou. Acho que naquele dia estavam pernoitando no alojamento da nossa Bateria, 60% do efetivo total dos recrutas.
No fundo do nosso alojamento, havia o Corpo da Guarda do Regimento, naturalmente, com o seu efetivo de guarda daquele dia também respeitando o silêncio que havia sido tocado pelo clarim do corneteiro.
O silêncio reinava, e todos roncavam em paz. Mas, de repente, o som de alguém datilografando uma enorme
Remington de carro grande, ia aos poucos, atravessando o crânio da moçada que dormia.
Esse inoportuno barulho vinha lá do Corpo da Guarda, e pelo que, soube, se tratava do Sargento Comandante da Guarda, que trabalhava em uma das repartições da administração do Regimento, e que aproveitava para botar em dia o seu serviço, batendo sua possante máquina ali nos fundos e atrás de um grande muro que dividia o nosso alojamento com o do Corpo da Guarda. De um lado, o silêncio total onde dormíamos, e do outro, aquele barulho que começava a incomodar a rapaziada que aos poucos ia acordando.
Em pouco tempo, todos com o “saco cheio” daquele barulho e tirando-nos o precioso sono, no anonimato, alguém gritou bem alto: “–Tá fazendo cerão, seu fdp”... Ao que, os demais começaram a rir e xingar a quem estava do lado de lá na incômoda máquina de escrever! Todo o alojamento virou um grande “puteiro”, com todos dirigindo palavras de “elogios” ao infeliz que estava fazendo seu “cerãozinho”!...
Em dado instante, aquela “datilografia” silenciou-se...
Ouviu-se um arrastar de cadeira... Aquilo foi a senha para que todos voltassem a dormir, e o silêncio voltou do nosso lado...Alguém entrou no nosso alojamento, acendeu as luzes e ordenou:“–Atenção alojamento, em forma na frente dos seus armários agora”! Era o Oficial de Dia... Puutzzz... Foi um foda-se, e eu tive a feliz ideia de ficar coberto até a cabeça, fingindo-me de doente...
Algum companheiro informou o Oficial de dia que o Soldado Evangelista estava doente, e me quebrou o galho porque sai ileso daquela alteração coletiva. Todos receberam aquela mijada e voltamos a dormir...Mas A INOPORTUNA MÁQUINA de datilografia também ficou quieta, e voltou a reinar o silêncio total naquele gigantesco alojamento da
O disparo da pistola
Já engajado como Cabo, pois tinha feito o CFC (Curso de Formação de Cabos), estava eu acolhendo e orientando os novos recrutas que estavam entrando naquele ano de 1966. Eles recebiam seus enxovais e no alojamento iam se distribuindo por armários e por camas beliches. Sentei-me numa das camas, com três “recrutas” à minha frente que queriam que eu lhes falasse daquela “pistola.45” que eu portava no meu coldre. Querendo, então, mostrar os meus conhecimentos sobre a arma, peguei-a na mão e comecei a explicar seu funcionamento. Engatilhei a pistola que estava com munição no seu carregador e, sem perceber, disparei um tiro, que por sorte, foi para o chão, entre as pernas de um deles! Ufffffaaaa... Graças a Deus, foi só um susto! Àquele ruído, os recrutas nem se deram conta que tinha acontecido um disparo e eu fiquei aliviado por ter escapado de uma situação pior!
E, a partir desse fato, passei a ter muito mais cuidado e atenção ao manusear uma pistola!!!
1 Sgt Alfredo no Estande de Tiro do TG de Mopgi das Cruzes
A estranha continência
Com poucos dias promovido à graduação de terceiro Sargento do Exército, tive que me deslocar do meu antigo quartel dos tempos de recruta, o saudoso 2º RO 105 de Itu, para a capital paulista. Estava comprando o meu enxoval de Sargento.
Descendo do ônibus da Viação “Cometa”, na Rodoviária da Duque de Caxias, ali bem próxima da Estação da Sorocabana, subi a escadaria que dava acesso aos guichês.
Como todo o Sargento recém-promovido, eu estava
“antenado” às diversas situações que por ali eu ia me deparando.
Fardava a minha túnica verde-oliva de botões dourados, camisa e gravata caqui, calça vincada de tergal, sapatos pretos sociais e quepe na cabeça.
À medida que eu me deslocava por entre a multidão de pedestres que acorriam aos guichês dos ônibus e com quem eu cruzava me vinha uma preocupação: a de me encontrar com outro militar do Exército no sentido contrário onde eu deveria fazer a minha continência ou recebê-la... Mas teria que antes o identificar!
Eis então, que ao longe avistei um militar que vinha na direção oposta... Foquei então o momento em que nós nos cruzaríamos e a tão esperada continência iria acontecer!
A distância ia diminuindo e aquele militar se aproximava de mim sem, no entanto, eu poder identificá-lo, pois havia ainda os movimentos de muitos civis, o que me dificultava a visão.
Mais perto e mais próximo, eu já ia me preparando para o encontro fatal. Qual não foi a minha surpresa, que era a minha própria imagem refletida num imenso espelho, que dava a falsa visão de que aquele corredor paralelo aos guichês era enorme e muito comprido! E a expectativa daquela continência
As caronas dos recos
Se há alguém mais “duro” e sem dim-dim, este é o RECRUTA! A nossa turma de incorporação de 1965 no 2º RO 105 na cidade de Itu-SP, que residia na cidade vizinha de Sorocaba, era especialista nas “caronas”, pois ficava muito caro para o recruta pagar os ônibus de ida e de volta! O jeito era apelar na cara de pau para as caronas.
A avenida de saída de Itu na direção a Sorocaba, após a liberação da tropa nas sextas-feiras, ficava apinhada de recos.
Dispersos e a certa distância uns dos outros, essa era a técnica para não atrapalhar as caronas que porventura aparecessem.
Eu já tinha acostumado, quando estava na casa de meus pais em Sorocaba, a não pedir dinheiro para os ônibus. Já acreditava que faria economia viajando nas caronas!
Apesar de eu ser meio tímido e discreto, eu já havia assimilado o jeitão da cara de pau, acenando com o polegar da mão direita, tentando convencer os motoristas que iam passando e com certeza iriam à Sorocaba.
Nem todos atendiam àquele nosso apelo... Mas até já éramos conhecidos pelos que anteriormente nos tinham nos presenteados com suas caronas... E se passassem por ali, novamente, nos reconheceriam e parariam...
Numa daquelas dispensas, que a gente sai voando baixo para irmos às nossas casas, comer a comidinha da mama, dormir na caminha nossa em silêncio e acordar tarde nos sábados e domingos e revermos nossos pais e toda a família e contarmos nossas aventuras na caserna, eu já estava meio que desistindo, pois, não parava um filho de Deus para me dar aquela carona tão desejada. Mas, eis que a esperança é a última que morre, pedi e fui atendido. Parou um caminhão com um carregamento de cal!
Puuutzzz... Era pegar ou largar. O bondoso motorista me
disse:“–Garoto, eu posso te levar mas só lá em cima da carroceria, pois aqui na cabine não há lugar. Suba e fique bem lá atrás”. E assim, fui eu levando pó da cal pela cara e pelo meu uniforme.
Quando cheguei a Sorocaba, o motorista parou para que eu “branquinho” e mais parecendo um pinguim, descesse ao que lhe agradeci e sob os olhares dos transeuntes, pois estava ridículo e todo manchado de branco, fui para a casa. Minha mãe teve que lavar toda a minha farda para que eu retornasse no domingo.
Mas nem sempre as caronas eram assim tão hostis e inóspitas! Em outra ocasião, e na mesma circunstância de sempre, eis que disputávamos posições e caronas que passavam. Desta vez, parou um rapaz dirigindo uma bela SP2 com teto solar. Ele atendeu ao meu sinal e disse-me:“–Entra aí, eu vou para Sorocaba e sei que você também. Você vai ver o que é um carro de corrida”!
Gelei, mas topei. Num percurso que levaria uns cinquenta minutos, chegamos a Sorocaba com um tempo de meia hora! Mas não me sujei e ainda me diverti um pouco com aquele carrão da época e a gentileza daquele rapaz tão generoso!
Botafogo X Santos no Maracanã
Estava eu incorporado como recruta no 2º Regimento de Obuses 105 mm, em Itu, no ano de 1965. Dentre tantos prazeres que eu tinha naquela época um deles era o futebol. E foi assim que, entre uma pelada e outra eu ia sendo conhecido pelos Oficiais e Sargentos daquela saudosa Unidade do Exército Brasileiro, onde prestei o meu serviço militar inicial.
Vez ou outra, eu era convidado para uma partida de futebol de salão pelo meu Sargento que treinava as equipes desse esporte. Mas a grande surpresa, mesmo, foi quando alguns Oficiais e Sargentos se mobilizaram para formar uma comitiva que iria ao Rio de Janeiro assistir a uma partida que simplesmente reunia a seleção brasileira daqueles tempos: BOTAFOGO de
“Garrincha” e SANTOS de “Pelé”. Fui convidado para compor a turma que iria ao Maracanã, embarcada no ônibus do Regimento. A viagem foi de uma grande expectativa, pois além de assistirmos ao jogo, almoçaríamos num restaurante português e de sobra, uma visita à famosa Praia de Copacabana!
E assim fomos muito animados para o grande programa que iria, com certeza, marcar nossas vidas, principalmente a minha que tive a extraordinária chance de, com dezoito anos, ver um jogo daquele nível, dar um mergulho em Copacabana e conhecer a cidade maravilhosa.
O que vi naquela ocasião, ficou gravado na minha retina.
O resultado do jogo foi 5 X 4 para o Botafogo carioca. Vi Pelé fazer dois gols e Garrincha deixar o seu. Durante o intervalo do jogo, tive a vontade de dar uma volta completa no anel superior do “Maraca”, vendo a cidade do lado de fora e daquela altura do maior estádio do mundo... Não estava acreditando que aquela maravilha estava sendo realidade de um sonho de garoto.
Fomos almoçar num belo restaurante português, sorvendo uma deliciosa bacalhoada e sorver aquele vinho português.
Para concluir aquele fantástico programa, fomos para Copacabana. Trocamos de roupa no ônibus e nos banhamos naquelas águas famosas. Eu com tamanho espanto e não acreditando que estava ali, fui surpreendido por uma onda gigante que me pegou de surpresa e me jogou ao chão. Engoli muita água, mas sai rindo e satisfeito, afinal tudo aquilo era COPACABANA!
Cafezinho com gosto estranho
Durante os meus primeiros meses, ainda “mocorongo” no linguajar da caserna, fui chamado para auxiliar na Seção de Operações do 2º RO 105. Lá, pondo em prática meus dotes de desenhista, conforme tinha sido registrado na minha entrevista para a incorporação, eu me debruçava sobre grandes folhas de papel quadriculado para esboçar as planilhas de operações.
Num certo dia, dois “praças velhos” dirigiram-se sobre minha mesa de trabalho e ofereceram-me uma xícara de café como cortesia do Capitão, que me achava muito competente.
Distraído, então, sobre os meus desenhos, levei à boca o aromático cafezinho. Mas eis que para minha surpresa eu havia apenas levado à boca, porém não engolido aquela xícara de VERNIZ que deixou-me o resto do dia sem sabor.
Descarga elétrica
Com alguns meses de serviço militar inicial realizado no 2º Regimento de Obuses em Itu, toda a tropa de recrutas teve a sua primeira manobra, sempre aguardada com muita expectativa pelos novos soldados.
No exercício, todas as qualificações daquela Unidade de Artilharia do Exército empregavam seus trabalhos. A mim, cabia operar uma Central Telefônica de 12 direções ou circuitos que ligavam os Comandos de diversas outras Unidades, pois a minha formação durante o meu serviço militar foi o das Comunicações que abrangiam o sistema fio, o sistema rádio e o de mensageiros.
Como eu havia me destacado na operação daquele tipo de equipamento telefônico, com muita destreza eu atendia diversos chamados dos escalões que me solicitavam a
“conversação” telefônica.
A minha localização era um pouco no limite do nosso acampamento e a minha Central telefônica BD 73, alimentada por baterias, tinha um magneto como dispositivo de chamada que, ao ser girado por mim, faria tocar a campainha do telefone chamado.
Bem, até aí, tudo bem e o serviço transcorria normalmente e conseguia atender a todas as solicitações de chamadas, até que numa noite de céu carrancudo com nuvens negras, o mundo desabou e parecia que teríamos um dilúvio com um gigantesco temporal. Raios iluminavam toda aquela mata escura a noite e os estrondos chegavam a assustar. Mas nem por isso, as operações paravam e eu continuava ali firme na minha missão.
De repente, ao estrondo de uma descarga elétrica, que atingira as proximidades do nosso posto, senti-me sem sentidos
isto é, com um fio terra. Ao estampido de uma grande descarga elétrica, o microfone de peito e os fones de ouvido presos à cabeça, que eu usava para falar com os meus interlocutores descarregaram em mim um grande choque que me deixou sem sentidos por instantes, embora eu permanecesse sentado no meu banco de trabalho e embaixo da minha pequena barraca de lona.
Voltei aos sentidos rapidamente e percebi que quase tinha sido eletrocutado por aquela descarga.
Esse fato me fez aprender que jamais eu deveria ter negligenciado o “circuito terra”, que ligava a minha central ao chão, e então, eu não seria “terra”, mas aquela descarga passaria pelo fio-terra e iria para o solo, sem nenhum risco.
Assim que o temporal foi embora e voltou a bonança naquela noite, eu imediatamente tratei de instalar o “fio-terra” na minha central.
3º Sgt Alfredo interior do avião Búfalo voando para Hidrelétrica de Jupiá-MS
Jabá pela goiabada
Quando prestava o serviço militar inicial no ano de 1965, no 2º RO 105 em Itu-SP, tínhamos um problema sério na nossa alimentação. Pelo rancho do almoço, quando a nossa fome era leonina, por causa das intensas atividades, a tropa chegava ao rancho com fome de leão!
Mas o rango não era dos mais convidativos a começar pelo atendimento na linha de servir que era feito pelas “praças velhas” e que ao colocar a comida nas nossas “bandejas” nos encaravam com cara de poucos amigos.
Se não iam com a sua cara então, a coisa era pior... Mas o que me causava mais desconforto era a qualidade da comida. O arroz, eram só pelotes do tipo “unidos venceremos”... A mistura era de uma carne cheia de nervos e pelancuda conhecida pelo famoso JABÁ. Era servida uma salada com tomates inteiros ou mal cortados... “Mas o que nos enchia os olhos de prazer, era o pedaço de GOIABADA ou MARMELADA que compensava o paladar”!
Eu sentia uma fome animal, mas, quando olhava para aquela bandeja, hummmmmmmm... Apenas o doce de goiabada ou marmelada me apeteciam!
E não era somente eu que não gostava da comida, havia muitos outros “recos” que passavam fome, pois, levavam as grandes “postas de doce” para comer no alojamento.
Por outro lado, havia aqueles recrutas com estômago de avestruz que trituravam aquela comida horrorosa com suas bisnagas de pimenta e que tentavam as “trocas do nosso jabá pelas suculentas marmeladas/goiabadas”.
Passou a ser uma prática constante, trocarmos os nossos indigestos jabás pelos saborosos doces da sobremesa que íamos
Para não “morrer de fome” passei a adotar o uso das bisnagas de pimenta para ver se dava para “empurrar aquele jabá”...
Não adiantou pelo menos para mim, pois, eu não conseguia comer o jabá, com o feijão ralinho e o arroz “unidos venceremos”!
Para ajudar a empurrar o rango era servido um “chá brochante” que eu tomava com o doce trocado pelo meu insuportável jabá.
Continência de um recruta
Por ocasião da incorporação dos recrutas de 1965, no 2º RO 105 em Itu, o planejamento da instrução, prevê um período de internato ao todos os recém-incorporados daquela classe de 1946.
Esse período estende-se por quarenta dias. O recruta não sai à rua. Recebe instruções durante o dia e à noite até às 22 horas quando se recolhe para dormir.
A carga de conhecimentos, durante a quarentena, visa a treinar os “recos” no hábito da continência, ordem unida, educação física, visita às instalações do Regimento, conhecimento dos seus Oficiais e Sargentos pelo nome de cada um, enfim, formaturas, horários, pernoite, rancho, silêncio, alvorada, visando a uma adaptação rápida do Soldado recruta à nova vida a que ele inicia dentro da “caserna”.
Um dos quesitos que mais prende a atenção e o reflexo do recruta é a “CONTINÊNCIA” ao seu superior hierárquico, que deve ser executada através do “gesto, atitude e duração” e da
“apresentação individual, dizendo a sua graduação, número, nome de guerra e sua bateria, quando este se dirige ao superior”, mas apenas a continência quando este passa pelo superior.
Bem, após o período de quarentena, recebemos a ótima notícia que seriamos liberados após o expediente. Aqueles que quisessem sair à rua poderiam fazê-lo, desde que fardados com o uniforme de passeio (Jaqueta verde-oliva com botões negros, calça de tergal, “bibico” na cabeça e coturnos nos pés).
Naquele dia, foi uma revoada geral. A recrutada saiu toda às ruas de Itu. Eu estava no bolo... Fui logo à Praça central da cidade. Mas todos nós, estávamos focados para as nossas
“continências”, caso encontrássemos com os nossos superiores,
Eis que, ao passar por alguns senhores, executei a minha continência, com o maior garbo, mas notei que riram!
Pude perceber, então, que não se tratavam de meus superiores, mas de alguns “motoristas de táxis” reunidos no ponto, mas, que me chamaram a atenção porque estavam com a camisa
“cáqui e calças verde-oliva”, parecendo-me o uniforme que tinha sido apresentado aos recrutas nas instruções! Paguei o maior mico... Mas, lembrei-me de um ditado dito lá nas instruções de continências: “É MELHOR FAZER CONTINÊNCIA PRA TODO O MUNDO, AFINAL O QUE ABUNDA NÃO PREJUDICA”!
Instrução para aspirantes
No meu tempo de serviço militar, tive uma grande e satisfatória experiência. Após o período básico da minha instrução de recruta, fui designado para compor o Pelotão de Comunicações do 2º RO 105 de Itu. Ali era o local onde o Regimento Deodoro recebia todo o apoio das comunicações rádio e fio com os trabalhos dos Sargentos, Cabos e Soldados da Turma de Comunicação do RO.
Todos os dias, após as formaturas matinais, eu e meus companheiros lotados naquele Pelotão de Comunicações, éramos mandados nos apresentar aos Instrutores que nos ensinavam as práticas de operação dos diversos equipamentos como os “radiotransmissores, telefones com e sem fio, centrais telefônicas, telégrafos com e sem fio, bobinas de cabos telefônicos, bobinas translatoras para circuitos sem fio, sinalização para heliportos e muito mais”.
À medida que passavam as instruções especializadas, eu ia me adestrando e especializando na Central Telefônica BD 73 – Americana, com capacidade para doze assinantes, a ponto de chamar a atenção do meu Sargento Instrutor pela minha destreza na montagem e na exploração da conversação dentro das normas previstas para as Comunicações militares. Eu, realmente gostava daquilo para o qual fui formado como Soldado e era indicado para todas as operações do Regimento como o telefonista oficial que deveria operar nas manobras e exercícios.
Era previsto também todos os anos, a chegada de Aspirantes a Oficial de Artilharia, que fariam seus estágios no Regimento. E naquele ano em que eu prestava o meu serviço militar inicial, foram destinados dez novos aspirantes que ficaram por vinte dias na nossa convivência e instruções inerentes à Arma de Artilharia que caracterizava a nossa Unidade.
Num certo dia, o meu Sargento do Pelotão de Comunicações, chamou-me dizendo:“-Evangelista, prepare-se que você vai dar instrução da Central Telefônica a dez Aspirantes”. Eu, a princípio tremi com aquela determinação, mas o Sargento me deu todo o apoio e me deixou à vontade porque, segundo ele, eu dominava bem o assunto e tinha todas as condições de instruir a turma de aspirantes sobre o equipamento que mais eu sabia e que era “doutor”!
Naquele dia, estávamos todos a postos, eu, os Aspirantes e o Sargento, que começou logo se dirigindo à turma de
“aspirinas”:“–Senhores, quero lhes apresentar o Soldado Evangelista, que é doutor e sabe tudo sobre um dos principais equipamentos que presta apoio ao nosso Regimento. Podem fazer toda e qualquer pergunta e tirem suas dúvidas com ele e prestem atenção em tudo o que ele disser sobre a Central Telefônica”.
Eu me enchi de orgulho e coragem e comecei a minha instrução àqueles Aspirantes a Oficial que, certamente, jamais esqueceriam que um dia eles tiveram como Instrutor o Soldado 525 – Evangelista, que sabia tudo sobre certa Central Telefônica.
Terminada a Instrução que durou cinquenta minutos (tempo aproximado para toda e qualquer instrução militar), fui cercado pelos “aspirinas” que me elogiaram e agradeceram o trabalho a eles prestado. Ficaram realmente satisfeitos com a minha competente instrução. Depois disso, achei mesmo que meu destino era seguir a minha carreira militar como veio a ocorrer.
O meu primeiro trote como recruta
No auge de minha mocidade, com dezoito anos, fui para a prestação do serviço militar no temível quartel do 2º Regimento de Obuses 105, na cidade de Itu-SP. Logo no primeiro dia, quando estávamos recebendo o nosso enxoval de fardamento, eis que me aparecem dois “praças velhos” dando-me ordens para que eu os seguisse. Lá fui eu, então todo prestativo, pois naquela incerteza, obedecíamos até Soldados do núcleo base que sempre que podiam, aprontavam para cima dos “recos”!
Ordenaram-me, que levasse uma enorme máquina de datilografia, uma daquelas velhas Remington de carro grande para o segundo andar do prédio dos alojamentos. Depois de subir exaustivamente a escadaria de madeira com aquele enorme
“trambolho” nos braços, ordenaram-me que a pusesse sobre uma mesa. Logo a seguir, mandaram-me abrir uma grande porta que dava acesso para um alojamento de Cabos e Soldados. Com uma terrível timidez, obedeci. Assim que abri a porta, uma grande lata de vinte litros cheia de água despencou sobre minha cabeça, me ensopando, sob o riso de gozação daquele bando de praça velha. Eu então ia percebendo a gozação que eles estavam me aprontando.
Meu primeiro trote como Sargento
Depois do período em que prestei o serviço militar em Itu-SP incorporado no 2º Regimento de Obuses 105 – Regimento Deodoro, fiz na sequência o Curso de Cabo e fui promovido a Cabo Telefonista. Bem, já estava na condição de Cabo engajado, quando o meu Comandante de Bateria me convidou para que eu prestasse o concurso para Sargento na Escola de Sargento das Armas – ESA, em Três Corações, Minas Gerais.
Naquela ocasião, eu cursava o curso científico, que hoje corresponde ao ensino médio, e encontrava-me em dia com os meus conhecimentos e topei o desafio. Fiz os exames escritos, as provas físicas, exames médicos, psicológico e, aprovado em tudo, lá fui eu para o Curso de Formação de Sargentos. Após o período de um ano como aluno, fui declarado 3º Sargento da Arma de Comunicações (a Arma do Comando) e retornei para Itu-SP, onde fiquei aguardando a minha classificação, que ocorreria meses depois, para o 5º RI de Lorena.
Mas quando retorno ao quartel de Itu, já promovido, e fardado de Sargento com aquela túnica verde oliva e botões dourados, quepe na cabeça, calça vincada de tergal, sapatos sociais pretos, gravata cáqui, contrastando com o meu conhecido perfil de Cabo, fui recebido, gentilmente, por todos os
“meus camaradas Sargentos” da minha Bateria de Comando do Regimento, que me conduziram, amigavelmente, aos chuveiros no alojamento dos Sargentos e me deram aquele banho com roupa e tudo e depois na hora do almoço me introduziram no
“cassino” dos Subtenentes e Sargentos do Regimento, onde tive que me apresentar ao mais antigo presente, que era um
“Subtenente”, lhe pedindo permissão para almoçar a qual me foi concedida, mas depois que terminei a minha refeição, me serviram um cafezinho “salgado”, que tomei sem fazer careta,
pois, entendi que se tratava de um trote que me estavam aplicando.
Nossa confraternização trinta anos depois
A nossa turma de serviço militar, que esteve reunida no ano de 1965, no famoso quartel do 2º RO 105, em Itu, e na Bateria de Comando da Artilharia Divisionária do II Exército, se reencontrou trinta anos depois.
O evento aconteceu no ano de 1995, com um belo trabalho de garimpagem de uma equipe de veteranos de Sorocaba que contou ainda com indispensável apoio do Comando do 2º RO 105. Fomos todos contatados por telefonemas e cartas durante mais ou menos três meses.
No dia marcado, um a um ia chegando com suas famílias.
Eram senhores de quarenta e oito anos, que choravam ao reencontrar seus amigos e relembrar daquele gostoso período de convivência por dez meses a um ano, onde valores de cidadania, camaradagem, cumprimento de deveres e obrigações, educação moral e cívica, profundas amizades, além do aperfeiçoamento do físico, reflexos e trabalhos em grupo, moldaram nosso caráter e cidadania.
Foi um dia inesquecível. Fomos recebidos pelo Comandante, oficiais e sargentos daquela Unidade, onde tínhamos deixado um pouco da nossa mocidade, mas com certeza o grande prazer de adquirirmos a bela condição de reservistas do Exército de Caxias.
Após a alegria e emoção do contato na chegada, fomos conduzidos para o velho pátio, onde tantas e diversas vezes desfilamos e fizemos nossa educação física. Todos em forma, em oito colunas e sob meu comando, pois era o único que havia seguido carreira militar e já estava na reserva, apresentei-me ao Comandante, fazendo a minha continência e declinando a minha antiga graduação daquele tempo, junto com aqueles senhores que ali estavam perfilados, dizendo:
-“Cabo Evangelista, apresentando a Vossa Senhoria, o grupamento de reservistas de 1965, pronto para a formatura”!
E a formatura seguiu, com a locução do Comandante, canto da Canção da Artilharia por todos nós, Chamada Póstuma dos colegas já falecidos e, por fim, o nosso desfile com um grande público nos assistindo. A seguir, fomos liberados para um passeio nostálgico pelas instalações nas quais vivemos naquele longínquo 1965, mas, que passavam como um filme pelas nossas memórias.
Por fim, foi servido um almoço, na área das piscinas e com os acordes de uma banda, que nos brindava com músicas daquele tempo de recruta, onde bombavam, The Beatles, Renato e seus Blue Caps, Wanderléia, Roberto e Erasmo, Os Vips e muito mais.
A TV Convenção, de Itu fez a cobertura do evento e entrevistou-me, tendo sido a matéria exibida pela TV Globo no Jornal Regional.
Meu capitão trinta anos depois
Ao término do meu serviço militar, eu estava previsto para a primeira baixa. Já estávamos no mês de outubro e se aproximava o final da nossa jornada.
Eu tinha sido promovido a Cabo do efetivo variável, que daria baixa. O meu Capitão Comandante da Companhia de Comando da Artilharia Divisionária do II Exército, chamou-me e disse:“- Cabo Evangelista, nós precisamos do seu trabalho aqui conosco. Convidamos você para engajamento. Você aceita”?
Ao que respondi ao meu Capitão:“– Eu preciso consultar meus pais, senhor. Eles querem que eu dê baixa, porque preciso trabalhar para ajudá-los... Eles são pobres”!
E o Comandante então, respondeu-me:“– Mas aqui você vai trabalhar com remuneração e poderá ajudá-los também... Nós temos vaga para você”!
Como era uma sexta-feira, dia de dispensa do final de semana, ele me pediu que eu trouxesse com urgência a minha resposta. E assim, tudo começou. Me pai deu-me liberdade de ação perguntando-me se era isso que eu queria. Eu disse ao meu pai que sim e ao retornar na segunda-feira, fechei com o meu Capitão que me engajou e um ano depois me indicou e me orientou para os exames de seleção para a ESA. A minha carreira então começava nesse momento com a ajuda indispensável que recebi do meu Capitão.
Trinta anos depois, estando eu em minha casa e na reserva, frequentando a rede social do Facebook, descobri o Coronel Bayma, morando em Fortaleza e que havia sido o meu Comandante durante o serviço militar que fiz em Itu-SP. De posse do seu telefone pelo Facebook, fiz uma ligação a ele.
“–Alô, quem está falando”?...A voz rouca respondeu:“–É o Coronel Bayma”! E eu emocionado disse-lhe:“–Olá meu Comandante.
Sou o Cabo Evangelista, seu subordinado nos anos de 1965 na Bateria Comando da Artilharia Divisionária do II Exército de Itu que o senhor comandava... O senhor se lembra de mim”?
Com sua voz também emocionada e embargada ele lembrou-se e eu então disse-lhe:“–Sou o Subtenente Jose Alfredo Evangelista, graças ao seu empenho para que eu ficasse e fizesse a minha carreira”!
Chorei de emoção e as poucas palavras que me restaram ao ouvir o meu Capitão também emocionado nos levaram a terminar a nossa saudosa conversa... O meu Comandante estava muito doente!
Anos depois o Coronel Bayma partiu para a pátria celeste com a MISSÃO CUMPRIDA!
A festa da minha promoção
Um momento de grande felicidade na minha vida militar foi exatamente o da minha promoção à primeira das graduações de Sargento do Exército – a de 3º Sargento. Após dois anos de prestação de serviço militar como incorporado no serviço militar inicial e depois, já na graduação de Cabo, fui aprovado nos exames do concurso para a Escola de Sargentos das Armas – ESA.
Ao fim de um ano no Curso de Formação de Sargento, retornei para a minha unidade de origem, o 2º RO 105 para aguardar a promoção.
Após algumas semanas, chegou na 1ª Seção do Regimento Deodoro, o boletim da Diretoria de Promoção do Exército informando a promoção do Cabo Aluno do CFC da ESA à graduação de 3º Sargento – Jose Alfredo Evangelista.
Oficialmente, a minha promoção foi anunciada na formatura da minha Bateria de Comando da Artilharia Divisionária da 2ª DI, com a leitura do Boletim Interno do Regimento.
Fui agraciado pelo meu Comandante, Oficiais, Subtenentes e Sargentos, Cabos e Soldados, que me cumprimentaram efusivamente. Como eu já tinha preparado todo o meu enxoval, sai do Quartel e fui para a república onde eu estava morando como Cabo.
Com imensa satisfação, vesti a minha camisa cáqui, gravata cáqui, calça de tergal verde-oliva, túnica verde com botões dourados, quepe na cabeça e sapato social preto. Estava esfuziante como um pavão todo empolado. Fui para a Rodoviária de Itu, tomei o ônibus para Sorocaba. Chegando à
minha casa, meus pais e mano, tiveram uma grande surpresa, pois, eu não havia dito sobre a minha promoção.
Nos dias seguintes, meu pai deu o troco me proporcionando em casa, a grata surpresa de uma festa na companhia dos meus amigos e garotas onde brindamos com muito refrigerante (tubaína, soda, crush e salgadinhos)...
Estão rindo né?...Mas estávamos no ano de 1967!
kkkkkkkkkkkk...
1º Sgt Alfredo, Instrutor da 1 Turma no TG de Mogi das Cruzes
Censurado no cinema
Após a grande alegria da minha promoção a Sargento do Exército permaneci, por algum tempo no 2º RO 105 de Itu- SP, onde aguardei a minha classificação, isto é, qual seria o meu novo destino.
Nos finais de semana, retornava à minha casa, em Sorocaba junto de meus pais e mano.
Eu estava no auge dos meus vinte e um anos e minha aparência facial era mesmo a de um garoto de dezesseis!
Como era de costume eu sempre ia à matiné, aos domingos no tradicional Cine Caracante, no centro de Sorocaba.
Chegando às bilheterias, tratei de comprar meu ingresso para ver dois filmes. Era comum naquele tempo ser exibido o filme que estava em destaque e depois um “seriado”.
No momento de entregar o meu tíquete ao porteiro, ele olhou-me e pediu meus documentos. O filme era censurado até dezoito anos! Eu fiquei com uma cara de otário e meio abestalhado, pois não portava nem a identidade de Sargento porque ainda não estava pronta. O porteiro achou que eu não tivesse dezoitos anos e não quis me deixar entrar.
Fiquei “P” da vida e saí cuspindo marimbondo... Voltei para casa, fardei-me com meu uniforme de passeio (túnica verde oliva com botões dourados, camisa cáqui com, gravata, calça verde-oliva bem vincada, quepe na cabeça e sapatos pretos sociais), e retornei bem depressa e parei na frente do infeliz porteiro e disse-lhe:“– O Senhor quer ver a minha identidade” ?...Ele olhou-me assustado e com cara de quem comeu
e não gostou, recolheu meu tíquete e eu entrei olhando-o de cima a baixo!
Pois é, Papai do céu fez-me com esta cara de jovem até hoje com os meus sessenta e oito aninhos!... (rsrs) e mamãe passou açúcar “nimim”!... kkkkkkkkkkkkkk
Pãozinho da madrugada
Como disse, o recruta tem fome de leão! E as circunstâncias da vida em caserna, quase sempre, exigem muitos esforços tanto psicológicos como físicos. Durante o meu serviço militar inicial em Itu, no 2º RO 105, uma dessas circunstâncias a que refiro-me, era quando estávamos na “guarda do quartel” !
O cabo da Guarda nos distribuía em escalas de três turnos que iam se revezando pelas 24 horas daquele serviço. O horário que mais incomodava a recrutada era o das 04h às 06h.
O Cabo então, a cada duas horas se levantava e acordava aqueles que deveriam assumir seus postos.
Esse momento era crucial, pois o sono estava pesado e profundo além do frio e da fome que batia naquele instante! Mas, o dever tinha que ser cumprido por todos. Quinze minutos antes, levantávamos com cara de sono e meio tonto, entrávamos em forma e saíamos para render os companheiros que estavam nos postos e aguardavam ansiosamente aquela rendição.
Mas, o que alegrava um pouco aquela missão, era a distribuição de um pãozinho francês. Durante o deslocamento da guarda, o Cabo parava em frente à Padaria Regimental. O cheiro de pão fresco nos animava a puxar aquele “quarto de hora” até o amanhecer do dia.
O Padeiro do Regimento aparecia na porta da padaria com um enorme cesto repleto de pãezinhos frescos e assados e dava um para cada soldado que ia assumir o posto da guarda.
Como a fome, naquele momento, incomodava a moçada, íamos para os postos, com muito mais ânimo e confortados! Pelo menos, supria a nossa alimentação até o café matinal após sairmos do serviço às 06h.
Bem dita “padaria” que nos presenteava com aqueles gostosos e apetitivos pãezinhos fresquinhos que nos alimentavam até amanhecer o dia!
Aquele procedimento fazia com que os recrutas, procurassem ser escalados e até pediam ao Cabo da Guarda para ficarem naquele “quarto de hora” na Guarda do quartel!
Cabo trapaceiro
Já no final do meu período de serviços no 2º RO 105 de Itu, eu estava aguardando minha promoção, após a realização do Curso de Formação de Sargentos, da ESA e na eminência de ser transferido para outra Unidade do Exército Brasileiro, quando fui procurado por um Cabo da nossa Bateria.
Era um dos mais antigos e se impunha, pela sua antiguidade aos demais pares da graduação. Eu, também, Cabo, porém ainda novo e inexperiente, atendi com camaradagem ao que ele me propunha.
O Cabo era, alto, negro, falante e desembaraçado. Tinha um grande poder de persuasão na sua fala. E, foi, assim, que ele, ao saber da minha futura promoção a Sargento e que iria receber uma polpuda diferença de Cabo, no próximo “pagamento”, me procurou dizendo-me: “-Evangelista, eu sei que você, em breve será promovido e no próximo vencimento, vais receber, uma bolada. Eu estou precisando de um empréstimo, pois, tenho que pagar umas contas que estão acima das minhas possibilidades. Então, te peço, encarecidamente, que me empreste 80%, que eu te pago no próximo pagamento!
A esse pedido, senti-me com compaixão do amigo e quis ajuda-lo. Assim que recebi, ele veio a mim e eu sem pestanejar, passei-lhe às mãos o dinheiro proposto e o fiz com muita boa vontade, pois, achei que estaria ajudando a um amigo e companheiro de armas!
Passou o primeiro, segundo, terceiro... pagamento da tropa e ele não se pronunciava sobre o meu ressarcimento!
Eu, então, passei a procura-lo para tentar receber o meu dinheiro, mas ele, sempre, se esquivando, dizia-me que me pagaria no “próximo pagamento”...
Veio a minha transferência e tive que me mudar para o 1º/5º Regimento de Infantaria, em Lorena, no Vale do Paraíba, fato esse que para o nosso “CABO TRAPACEIRO”
foi uma grande felicidade e para mim, uma grande perda financeira que até hoje estou esperando pelo pagamento!!! (rsrs)
Essa experiência, serviu-me de exemplo, pois em todos os níveis da sociedade, há aqueles “maus pagadores” que pedem emprestado mas de má fé, não pagam mais, em que pese o nosso espírito de caridade aos que mais precisam da gente! (rsrs)
CAPÍTULO II
Relato de “Casos e Causos da Caserna”, durante o período de 1967 a 1986, no 1º/5º Regimento de Infantaria, onde o autor serviu desde a sua primeira promoção a 3º Sargento, até a promoção a 1º Sargento, quando foi transferido para o Tiro de Guerra de Mogi das Cruzes.
Ronda como castigo
Um dos pilares da vida em caserna para a manutenção da disciplina e da hierarquia militar é o Regulamento Disciplinar do Exército – RDE, que pode ser aplicado em casos que haja a quebra do sistema.
Mas no dia-a-dia rotineiro das instruções e da vida em comunidade que constitui a caserna, é óbvio que os Soldados recrutas, ainda sem experiência e moldados pelo padrão civil, cometem todo o tipo de alteração disciplinar.
Falta ao serviço de escala vermelha, ausência ao quartel, ausência ao pernoite, falta às paradas diárias, discussões com seus pares, pequenas agressões... Enfim, só para enumerar algumas das alterações mais comuns.
Eu, como estava sempre envolvido nas instruções aos Soldados recrutas envolvia-me também, com seus aspectos disciplinares a ponto de eu mesmo aplicar as devidas punições.
Quando eu estava de serviço de escala como Sargento de Dia à Companhia e tivesse anotado os Soldados que cometeram suas “alterações” naquele dia, já tinha definido o remédio para ser aplicado a eles.
À noite, por ocasião da reunião de todo o pessoal de serviço (Plantões, guardas do quartel, etc...) com o Oficial de Dia, uma dos ajustes feitos era a escala de rondas feita pelos Sargentos de Dia que se iniciava às 22 horas e terminava às 06 horas.
Como eu era um dos Sargentos mais “modernos”
(com menor tempo de graduação), quase sempre e em decorrência dessa circunstância, cabia-me a ronda das 02 às 04 horas, no meio da madrugada, quando o sono é mais profundo.
Então, de posse da lista dos “alterados” e das suas respectivas camas, acordava-o (os) sempre com uma lanterna acesa no (s) seu (s) rosto (s). O dorminhoco acordava apavorado com aquela visão terrificante, cegando-lhe as vistas na escuridão do alojamento e cutucando-lhe, dizendo:“– Em pé para a ronda, rápido”!
Então eu partia para o circuito de todos os postos de guardas e plantões dos alojamentos, banheiros, Pelotão de Transportes, tendo como companhia os “alterados” que quase dormiam em pé, caminhando comigo e em passo rápido, guarita por guarita...
Ao término das rondas, sentava nos bancos do gelado Corpo da Guarda e podia ver a cara de sono do “alterado”, quase dormindo sentado.
Era um “santo remédio” aos alterados que me enchiam o saco durante a instrução. Bem rápido eu quase não os tinha mais como companhia durante as minhas rondas da madrugada... Eles foram se portando e comportando na instrução quando eu era o instrutor.(rs)...
A bronca do cavalariano
O Exército Brasileiro tem, na sua composição básica de operacionalidade, cinco “armas” que são a Infantaria, Artilharia, Engenharia, Cavalaria e Comunicações, além dos Serviços de Saúde, Material Bélico, Serviço Religioso e outros...
Quando fui Sargento-aluno do CAS – Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos na Escola de Comunicações, no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de conviver e estudar junto com companheiros que serviam em todas as armas, pois o pessoal de Comunicações pode servir em todas elas, uma vez que todas as demais armas são apoiadas pelas COMUNICAÇÕES militares.
Tínhamos, então, no nosso curso, um Sargento gaúcho que servia na “Cavalaria” e como manda a tradição, naturalmente
“grosso”... Literalmente, “ele juntava a fome com a vontade de comer”...
Dava coice até na sombra!... (rsrs)
Então, numa daquelas formaturas diárias, pela manhã ao iniciarmos nossas aulas, eram tocadas no serviço de som da Escola, as Canções das cinco Armas e todos deveriam cantá-las.
Nesse dia então, íamos cantar a Canção da Cavalaria e o meu lugar em forma foi exatamente atrás do gaúcho. Quando começamos a cantar a Canção da Arma de Cavalaria...
“CAVALARIA... CAVALARIAAAA... TU ÉS NA GUERRA A NOSSA ESTRELA GUIA... MONTADO SOBRE O DORSO DESTE AMIGO”... Eu coloquei minha mão no ombro direito do gaúcho e dei uma RELINCHADA IMITANDO UM CAVALO!
“Bah shê”! Quase ele me deu um coice, mesmo estando em forma! Depois da formatura, ele veio tirar satisfações comigo, que suei frio para lhe acalmar e dizer que tudo não passou de uma brincadeira!
Rosa de Ouro
Foi talvez uma das maiores sensações de alegria e de minha fé católica, a vinda do Papa João Paulo II ao Brasil e em Aparecida do Norte para fazer a entrega da “ROSA DE OURO” ao Santuário Nacional de Aparecida e ao povo brasileiro.
O 5º BI foi mobilizado para proporcionar todo o esquema de segurança ao Papa que viria ao nosso País pela primeira vez.
Fomos nós, os militares do Batalhão Itororó, treinados e instruídos para executar talvez um dos maiores e mais complexos sistemas de segurança já vividos pelo nosso Batalhão, dada a amplitude e grandiosidade que o evento exigiria!
Na segurança aproximada, estabelecemos pontos de metralhadoras nos morros vizinhos e adjacentes à Basílica.
Havia patrulhas ligando esses pontos com todos os movimentos no interior da Basílica.
Homens à paisana misturavam-se ao povo pelos imensos e apinhados pátios do Santuário. Na Torre, tínhamos também homens que observavam lá de cima, com seus binóculos, toda e qualquer tentativa de atos atentatórios contra Sua Santidade.
Viaturas cercavam todo o perímetro mais próximo da Basílica formando um cordão de isolamento.
Eu, como fazia parte do grupo de informações e contra-informações da 2ª Sessão do Batalhão, compus com mais colegas, o grupo de segurança “VELADA” do Papa João Paulo II. Desde a sua entrada nos pátios até se postar no palanque para celebrar a Missa, o nosso grupo, acompanhou-O.
Depois, ao longo da Missa, ficamos ali bem perto de João Paulo II, protegendo-O de qualquer atentado.
Era realmente uma nobre e preocupante missão que tínhamos que encarar. Constantemente, olhávamos em todas as direções, muitas vezes deixando de ver aquela célebre personagem do mundo que estava tão perto da gente!
Eu, particularmente, estava tão imbuído daquela missão que me recusei a levar uma máquina fotográfica para registrar aquele momento ímpar na minha vida. A minha responsabilidade para com a segurança de Sua Santidade e, principalmente, representando o Exército Brasileiro era maior que todas as demais intenções. Dentro desse contexto, não me foi permitido
“receber a comunhão” como faço em todas as Missas que participo para não negligenciar a “segurança” daquela importante personagem mundial, mas fiquei gratificado pelo cumprimento de tão nobre missão, que não apresentou nenhum problema que nos viesse desabonar.
Apenas, ao término da Missa, quando João Paulo II ia se retirando, consegui captar uma rápida olhadela dele para mim, ao que respondi com um ligeiro aceno de mãos! Aquele gesto me bastou! E a missão estava cumprida.
No ano de 2000 quando fui a Roma, nas comemorações do Jubileu de Prata, celebrado de 25 em 25 anos pela Igreja Católica, portanto considerado Ano Santo, tive a oportunidade de ver novamente Sua Santidade, no interior da Basílica de São Pedro, no Vaticano e tempos depois quando fundamos a AMIPEL – Associação dos Militares Inativos e Pensionistas de Lorena, e como Diretor de Comunicação dessa Entidade, enviei um Ofício de Congratulações a João Paulo II que nos enviou, por conseguinte, um pequeno Diploma oficializado pelo Vaticano onde João Paulo II, nos retribuía o Ofício com uma “BÊNÇÃO PAPAL” à nossa AMIPEL.
Esse quadro hoje está exposto na Secretaria da AMIPEL, com muito orgulho e devoção.
Subten Alfredo no CAVEX
Sacanagem com a minha farda
Éramos os Subtenentes e Sargentos da 2ª Companhia de Fuzileiros do 5º BI de Lorena. Todos formavam uma excelente equipe de trabalho, sempre elogiada pelo nosso Comandante.
Entre os Sargentos, tínhamos aqueles que eram mais gozadores e os mais sérios, que não gostavam de brincadeira. Eu era um desses! (rs)
Certo dia, após o almoço, como era costume, todos iam ao alojamento dos sargentos para uma “cesta” de mais ou menos uma hora, quando depois viria o segundo tempo da instrução e do expediente do Batalhão.
Eu, como sempre fazia, ficava jogando minhas peladas até depois do rancho. Na hora da educação física, trocava de roupa no alojamento dos sargentos. Deixava minha blusa de instrução, sempre engomada e minha calça vincada dependuradas na porta do meu armário e coturnos no chão ao lado do armário.
Terminada a pelada, corria para o banho, pois tinha que pegar ainda um resto de rango no cassino. Para isso, teria que ser rápido com o banho, a troca de roupa e o almoço, que já seria atrasado.
Quando peguei a minha calça de instrução para vestir, me deparei com um NÓ BEM APERTADO que quase não se dava para desatar... Fui vestir a blusa de instrução, outros dois nós, um em cada manga... Por fim, tudo desatado calcei os coturnos e senti que estavam “molhados”, ou melhor dizendo... “MIJADOS”, literalmente!
Fiquei puto da vida, quando olhei aquele bando que dormia e pensei com os meus botões quem será que foi o FDP que me fez essa sacanagem?
Fui até o banheiro dos Cabos e Soldados, pedi ao plantão uma lata de 25 litros, que é usada para as faxinas, enchi de água, subi por cima dos armários dos Soldados e fui até a divisa com o nosso alojamento, que era contíguo ao dos Cabos e Soldados.
Aproximei-me, bem devagar e sem barulho que me denunciasse...Pude ver todos eles, deitados naquele sono profundo e todos fardados...
Quanta satisfação quando DESPEJEI aquela enorme lata cheia de 25 litros de água por sobre aquele bando que dormia. Todos acordaram, repentinamente, e eu já estava longe, com meu uniforme ainda nas mãos, pois estava todo amarrotado e coturnos lavados daquela urina fedorenta.
Então, como já estava na hora da formatura da tarde, toda a Companhia entrou em forma. Todos os Sargentos com seus uniformes “ensopados” e eu, “sequinho”, com meu uniforme de educação física!
Eles não falaram comigo, pois estava dado o troco!
Quem faz paga e paga bem!... kkkkkkkkkkkkkkk