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Rede Guarani

No documento CASOS e CAUSOS da CASERNA (páginas 172-178)

Num Batalhão, há companheiros de todas as regiões do Brasil. E, quando vamos para outras Unidades, também encontramos companheiros, que já os conhecemos.

O nosso Pelotão de Comunicações do 5º BI, possuía, entre os seus equipamentos, “rádios transmissores”, entre os quais, um de alta potência e que operava com sinal de USB e seu alcance era em todo o território nacional.

Ele ficava instalado bem ao lado de uma janela do Pelotão, por onde passavam os colegas da Unidade, que sempre ouviam, ficavam curiosos para ver as nossas transmissões com várias regiões do Brasil e ali paravam para matar sua curiosidade!

Era a famosa “REDE GUARANI”, que não era oficial e nem reconhecida pelos Comandos... “Apenas ela prestava serviços de interesses particulares aos companheiros militares que precisassem”.

Então era comum, todas as tardes, eu ou outro operador do nosso Pelotão de Comunicações, ligar o equipamento na frequência pré-estabelecida e ficar, como se diz no linguajar de comunicação, “corujando” quem estivesse no ar para a conversação.

E havia colegas, que já tinham passado por várias Unidades, cuja transmissão os possibilitava, a um “olá companheiro, como vai aí, tudo bem?... Ou, conforme a necessidade de resolver algum assunto, que envolveria os dois interlocutores.

A REDE GUARANI servia e entendia a todos, sem distinção. Até o Comandante, certa vez, perguntou-me se eu tinha contato com a sua ex-Unidade, em Pelotas, no Rio Grande do Sul e eu disse-lhe que sim: era só eu chamá-la pelo

“indicativo de rede”, que o operador de lá iria atender! E o

Comandante pôde conversar com o seu colega a milhares de quilômetros de distância.

Enfim, a rede prestava-se para a “transmissão de avisos, pedidos, mata-saudades, saudações, informações, bate-papos amigáveis, mas nada oficial”. Ela não tinha um PDR – (Posto Diretor de Rede), que caracteriza uma rede oficial... Muito pelo contrário, era uma rede de todos... Onde todos se faziam presentes e quem chamasse era atendido com extrema camaradagem e amizade, no sentido da prestação de serviço.

Os operadores eram todos do Pelotão de Comunicações e não obedeciam nenhuma escala de operador...

Quem chegasse primeiro e tivesse interessado, poderia ligar o equipamento, dar uma rastreada pela frequência e saber quem já estava no ar... Dava a boa tarde a todos da rede e ficava a postos para qualquer chamada.

Enchente

Há anos, Lorena sofria com as enchentes das grandes chuvas de verão. O Rio Paraíba passa, relativamente, próximo à cidade e naquele tempo, não havia os grandes diques, que evitam a água no perímetro urbano!

Eu acabara de chegar no 5º RI, quando chovia muito e a iminência de enchente era esperada.

O Bairro que mais sofria e alagava era a Vila Brito.

Ficava tudo debaixo d´água, porque tinha o Rio Paraíba ao fundo e um córrego na lateral e paralelo à Rodovia Lorena-Piquete, que entornavam suas águas sobre o bairro.

Lembro-me que estava de serviço naquele domingo e fomos acionados pelo Oficial de Dia. “Todo o pessoal de serviço se mobilizou. Viaturas foram encostadas nos nossos pátios. Enxadas, rastelos, picaretas, cordas, colchões, enxadões e outros materiais necessários, foram embarcados nas viaturas para o socorro aos moradores inundados”.

Fomos separados em equipes e embarcamos rumo à enchente, para socorrer a Vila Brito, de Lorena. Chegamos ao local com as viaturas, já com água até quase encobrindo os pneus.

Desembarcamos e fomos socorrendo as famílias mais necessitadas. Íamos retirando seus bens e utensílios mais importantes, como geladeiras, fogões, televisão, camas, guarda-roupas, sofás, crianças, idosos, senhoras, animais e embarcando nas viaturas...

A operação estendia-se dentro d´água e diversas viagens foram feitas, quando deixávamos aquele pessoal e seus pertences, em escolas, ginásios e outras dependências públicas, que foram preparadas, pela Prefeitura Municipal, para abrigá-los.

Numa das últimas viagens, a nossa viatura “apagou”... O motor molhado não pegava... A viatura não ligava. O jeito, então, foi toda a equipe “empurrar” aquela grande viatura de duas e meia toneladas e sob uma grande quantidade d´água!

Foi um sufoco vencer todas aquelas dificuldades, para no final de tudo, sentirmo-nos gratificados pela raça e dedicação com que vencemos aqueles obstáculos, tão comuns no meio militar, que jamais se dá por vencido ante qualquer dificuldade!

Sequestro

No final do ano de 1986, passei por momentos de profunda angústia. Minha esposa e sua amiga, nossa vizinha, foram, como de costume, para o Grupo de Oração que havia aqui em Lorena. Eu ficara em casa, assistindo à televisão. Eram mais ou menos onze e meia da noite, quando “ouvi um carro, passando em alta velocidade, na frente de nossa casa”.

Ao ouvir aquela arrancada e com ronco de escapamento aberto, pareceu-me o meu próprio Passat, pois ele estava com o “escapamento avariado”... Cheguei a pensar que poderia ser minha esposa socorrendo alguém em caráter de urgência!

O tempo passava... Era quase meia noite e minha esposa não vinha... Comecei a ficar preocupado e como sabia que ela estava com sua amiga, fui até a casa dela, que era quase vizinha...

Apenas quatro casas nos separavam!

Seu marido, e meu colega de quartel atendeu, dizendo que também tinha ouvido aquele estranho ruído! E como já era tarde da noite, resolvemos tomar algumas iniciativas.

A primeira foi a de checar, outra casa de amigos que frequentavam o grupo de oração, se sabiam delas! Fomos informados que o grupo acabara às onze horas e que todos já deveriam estar em suas casas! ... Exceto as nossas esposas!

A partir de então, eu e o meu colega, entramos em parafuso e começamos a pensar “no pior”!... Fomos então ao Batalhão da Policia Militar de Lorena e lavramos um Boletim de Ocorrência, informando que nossas esposas, provavelmente, tinham sido sequestradas e que tivemos o nosso “carro roubado”.

A Polícia, então, iniciou as investigações comunicando-se com todos os postos da Rodovia Presidente Dutra, em

ambos os sentidos e na Rodovia Lorena-Itajubá, com o acesso para Minas Gerais!

Lá por uma hora da madrugada, recebi um telefonema do Oficial de Dia do 5º RI, dando-nos conta de que as nossas esposas estavam salvas e seriam levadas até nossa casa por um jipe do Batalhão.

Assim que foram resgatadas e chegaram aos nossos lares, foi um alívio para todos. Minha esposa estava com a cara inchada, por ter levado um “soco do sequestrador”, mas as duas estavam apenas em pânico. “Elas foram soltas na Rodovia Presidente Dutra, ainda próximo a Lorena e vieram a pé para o quartel do 5º BI, em busca de socorro”.

Fizemos então todas as diligências, no sentido de resgatar o nosso Passat branco. Notifiquei meu cunhado, que era policial militar da ROTA, o qual registrou todos os dados do meu carro, assim como os documentos e alguns sinais que poderiam ajudar na identificação.

“Dois meses e dez dias depois”, a polícia militar de Volta Redonda-RJ prendeu uma quadrilha e recuperou o nosso Passat, que estava bem judiado. Fomos à Delegacia de Volta Redonda fazer o reconhecimento do sequestrador, que fora levado e julgado em Lorena e depois cumpriu pena no ex-presídio do Carandiru em São Paulo.

No documento CASOS e CAUSOS da CASERNA (páginas 172-178)

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