O 5º BI, para aprimorar o nível de suas instruções, criou a “Área de Instrução Especializada,” que ficava na Fazenda Amarela, em Lorena. Os primeiros estagiários a passar pelas oficinas da instrução especializada, foram os Sargentos, envolvidos diretamente na instrução dos recrutas. Eu fui o estagiário 017.
As oficinas que teríamos que estagiar, eram: Patrulha noturna, Cabo aéreo, Rapel vertical, Pista de ação e reação, Aplicação de injeções, tiro noturno com munição traçante, travessia de curso d´água, sobrevivência na selva, confecção de tapiris (camas suspensas, feitas de taquaras e palhas), preparação de armadilhas à semelhança das empregadas na Guerra do Vietnam, campo de concentração e fuga sob pressão.
Toda essa gama de instrução especializada era feita sempre “sob grande pressão psicológica”, com o objetivo de abater e sugar a moral dos estagiários, aproximando-se de um quadro de realidade.
O momento mais desgastante e de pressão era o do campo de concentração, onde todos nós estagiários nos sentíamos presos como porcos dentro de um chiqueiro. A fome era grande e o frio tirava-nos toda a moral. Ali, bem à nossa frente, a mesa dos instrutores estava posta com um lauto jantar ou almoço. Todos comiam fartamente sob nossos olhares famintos. De vez em quando, vinha alguém do lado de fora das cercas eletrificadas do campo e jogava baldes de água gelada na gente! A moral ia lá embaixo e dava vontade de pedir desligamento.
Em outro momento do estágio, tínhamos um tempo bem curto para o nosso almoço. Ficávamos confinados do outro lado
do riacho que separava as instalações do “Comando, onde era proibido aos estagiários”. Então, todos nós, com a nossa marmita de campanha, recebíamos um pouco de arroz, feijão, carne e um suco, mas não tínhamos paz para consumir a nossa ração. O local, onde nos reuniram para matarmos a fome e a sede, era em cima de grandes placas de esterco que as vacas do local deixavam durante a noite. Sempre que estávamos reunidos, sorvendo aquela comida com, “voracidade que a fome pedia”, aparecia alguém e soltava entre os estagiários “simulacros de granadas” que causavam um grande estrondo, espalhando bosta de vaca que salpicava a nossa comida e a nós também.
No estágio de patrulha noturna, quando já tínhamos confeccionado os nossos “tapiris” para um descanso e dormida, o nosso sono era interrompido com as explosões dos simulacros de granadas durante a noite toda.
A descida no RAPEL (corda comprida e esticada de cima abaixo num barranco) fazia a diferença aos mais medrosos.
Esse obstáculo, realmente, dá muito medo de se desprender da corda e cair de costas lá embaixo, e exige muita força e firmeza nos braços.
A descida no Cabo Aéreo também botava medo na moçada. Éramos lançados de uma encosta, pendurados num triângulo de metal onde segurávamos e voávamos, deslizando por um cabo de aço, preso na rampa de lançamento até o final do percurso, que sempre era num mergulho dentro d´água no lago.
Um dos estágios mais sugados, era a pista de ação e reação. Os estagiários eram obrigados a receber e decorar uma
“mensagem” para ser entregue no final daquela pista. O Estagiário combatente, quando pronto, saía correndo com seu fuzil na posição de arma cruzada e era surpreendido por vários momentos, nos quais ele tinha que tomar atitudes, segundo seus reflexos... Na corrida por picadas estreitas na mata, ele se
três a quatro figurantes, que o dominavam e o amarravam nu, para que “dissesse” a mensagem que ele estava levando... Nas curvas daquela corrida, o combatente surpreendia-se com um grande pêndulo de bananeira, que era solto na sua direção e que, fatalmente, cravaria nele as pontas de lanças, exigindo-lhe muita atenção em atirar-se ao chão para escapar...
Outro momento de agonia, para nós estagiários, era a
“Sobrevivência na selva”. Ficávamos, propositalmente, só com o café servido pela manhã, no início da jornada. Quando a fome já era devastadora da nossa moral, nos avisavam que seriam soltas cinco galinhas pela mata. O grupo que era composto de trinta estagiários tinha que “caçar as galinhas, tomar seu sangue, preparar os fogareiros com gravetos e fazer o fogo no atrito, com pedras, além de distribuir, equitativamente, os pedaços para que todos se alimentassem”.
O Tiro Traçante era realizado à noite e com muita escuridão. O objetivo era o de aprimorar os reflexos do tiro, orientando a pontaria pelo risco de luz que o projétil deixava, quando saia da boca do fuzil.
Na Travessia de Curso D´água, aprendíamos a técnica de bater com rapidez a blusa de instrução abotoada e a calça, na lâmina de água, para coletar o ar que formava uma bolha presa dentro dessas peças de roupa e nos permitia flutuar e atravessar com os petrechos que cada um conduzia. Construíamos, ainda, pequenas “jangadas”, feitas com palhas secas e capim, dentro das blusas e calças, que eram fechadas e amarradas, para que atravessássemos o nosso material mais pesado para a outra margem do rio.
Bem, para terminar esta narrativa da Pista de Instrução Especializada, logo na chegada à pista, havia uma “grande caveira”, escavada no morro logo à entrada da área que era iluminada com latas de óleo e que assustavam a quem chegasse sempre à noite para a realização dos estágios. Aquela visão era terrífica aos ânimos dos estagiários.