ALFABETIZAR-SE: UM DIREITO DA CRIANÇA DE 6 ANOS

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ALFABETIZAR-SE: UM DIREITO DA CRIANÇA DE 6 ANOS

Marcia Aparecida Alferes1

Resumo

O presente texto pretende refletir sobre a questão da alfabetização como conceito presente nas políticas educacionais que tem como objetivo ofertar uma educação com qualidade social, especificamente na ampliação do Ensino Fundamental de oito para nove anos. Partindo da discussão do que vem a ser uma educação com qualidade social, o texto reitera que a alfabetização pode ocorrer em classes com crianças de 6 anos de idade, se for realizado para isso, um trabalho planejado e sistemático.

Palavras–chave: alfabetização, política, qualidade social.

1. Introdução

Ao iniciarmos esse texto, concordamos com Frade (2007) quando diz que no processo de alfabetização não basta decifrar, pois é preciso, além da habilidade constitutiva dos saberes envolvidos no ler e escrever (alfabetização), participar ativamente dos benefícios envolvidos na cultura escrita para construir atitudes, representações e disposições necessárias para essa participação (letramento).

Segundo Silva e Ferreira (2007) o tema alfabetização avançou na discussão teórica, visto que, hoje é um tema que agrega em torno dele estudos e reflexões de vários campos do conhecimento, tais como: psicologia, sociologia, história da educação, lingüística, psicolingüística, entre outros.

Avançou-se no próprio conceito, pois além da criação do conceito de letramento, desiventou-se e reinventou-se a alfabetização (Soares, 2004).

Para Freire (1983), o processo de alfabetização caracteriza-se no interior de um projeto político que deve garantir o direito a cada educando de afirmar sua própria voz, pois, segundo o autor, “a alfabetização não é um jogo de palavras; é a consciência reflexiva da cultura, a reconstrução crítica do mundo

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humano, a abertura de novos caminhos (...) A alfabetização, portanto, é toda a pedagogia: aprender a ler é aprender a dizer a sua palavra” (p. 14).

No entanto essa importância atribuída à alfabetização não pode designar ao seu conceito um significado demasiado abrangente, como diz Soares (1985) que considere a alfabetização um processo permanente, que se estenderia por toda a vida e que não se esgotaria na aprendizagem da leitura e da escrita.

Para Soares (1985, p. 20 – grifo da autora) “[...] não parece apropriado, nem etimológica nem pedagogicamente, que o termo alfabetização designe tanto o processo de aquisição da língua escrita quanto o processo de seu desenvolvimento [...]” Sendo assim, a autora toma o conceito de alfabetização em seu sentido próprio e específico, como o processo de aquisição do código escrito, das habilidades de leitura e de escrita, ou seja, “[...] a alfabetização, entendida como processo de aquisição e apropriação do sistema de escrita, alfabético e ortográfico [...]” (SOARES, 2004, p. 16)

Conclui a autora que alfabetização não é uma habilidade, mas um conjunto de habilidades que exige uma articulação e integração dos estudos e pesquisas a respeito de suas diferentes facetas. Essas facetas referem-se, fundamentalmente, às perspectivas psicológica, psicolingüística, sociolingüística e propriamente lingüística do processo. (SOARES, 1985)

Muito já se escreveu sobre o tema alfabetização, no entanto o que temos nos dias atuais no Brasil são avaliações2 que revelam o fracasso da escola em conseguir que seus alunos aprendam a ler e a escrever.

Na busca pela qualidade do ensino brasileiro, diversas políticas são implementadas, entre elas a ampliação do Ensino Fundamental de oito para nove anos, política que vem sendo adotada em todo o país, e que tem instigado os seguintes questionamentos: com a ampliação do tempo escolar a criança de 6 anos deve ou não ser alfabetizada? A implementação de tal política trará de fato a qualidade para a educação?

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2. Educação com qualidade social

Uma educação com qualidade social contempla propostas de democratização do acesso e garantia de permanência nas escolas em todos os níveis e modalidades de ensino. Segundo Belloni (2003) a qualidade social como direito de cidadania está intimamente ligada a uma política de inclusão social.

Segundo Camini (2001), uma educação pública de qualidade social compromete-se com: a democratização do acesso; a democratização do conhecimento; democratização da gestão; o financiamento e regime de colaboração; a valorização dos trabalhadores em educação.

Um dos fatores que levaram o Governo Federal a propor uma educação com qualidade social e estabelecer metas para a educação brasileira, foram os índices revelados pelo SAEB, relativos à aquisição da leitura e da escrita nos anos iniciais do Ensino Fundamental.

De acordo com o documento “Toda criança aprendendo” (2003) haveria urgência na implementação de soluções estruturais que incidissem nos fundamentos do processo educacional e que buscassem a qualidade da educação, tais como: a valorização e a formação do professor, a gestão democrática e eficiente da escola e o monitoramento dos resultados pelos profissionais da educação, bem como a parceria dos entes federados na implantação das políticas educacionais.

Em relação à democratização do acesso e da permanência dos alunos no Ensino Fundamental, o Brasil avançou, pois segundo o Censo realizado pelo MEC/INEP (2002) 97% das crianças estão na escola. Entretanto, avalia-se que a escola pública tem produzido baixo deavalia-sempenho, haja visto o reiterado fracasso da escola brasileira em alfabetizar, hoje incontestavelmente comprovado por avaliações nacionais, estaduais, municipais e, freqüentemente, denunciado pela mídia.

Segundo Brasil (2004) é importante debater com a sociedade um outro conceito de currículo e escola, com novos parâmetros de qualidade:

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Para Frade (2007) os desafios da escola têm-se constituído na tentativa de ampliar as exigências da alfabetização e do letramento e pensar esses desafios para além das metodologias de ensino ao mesmo tempo que ela precisa voltar pra si mesma e discutir os métodos específicos de ensino da cultura escrita e da tecnologia da escrita envolvida nesse campo de saber.

3. Alfabetização: um direito consolidado legalmente

Desde a aprovação da Lei n.º 10.572/2001, que instituiu o Plano Nacional de Educação, o Brasil está empenhado em implantar progressivamente o Ensino Fundamental de nove anos, pela inclusão das crianças de seis anos de idade, e com isso melhorar o desempenho dos alunos na leitura e escrita. A ampliação do Ensino Fundamental de oito para nove anos tem como metas:

a) oferecer maiores oportunidades de aprendizagem no período de escolarização obrigatória e assegurar que,

b) ingressando mais cedo no sistema de ensino, as crianças prossigam nos estudos, alcançando maior nível de escolaridade.

A LDB 9.394/96 no art. 32, inciso I, determina como objetivo do Ensino Fundamental a formação do cidadão, mediante o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo.

De modo geral as leis que regem a educação brasileira determinam que a aprendizagem da leitura e da escrita é direito de todos e com a ampliação do Ensino Fundamental de oito para nove anos os olhares se voltam para a criança de 6 anos.

As crianças pequenas, especificamente as de 6 anos de idade, manifestam um grande interesse pela leitura e pela escrita, ao tentar compreender seus significados e imitar o gesto dos adultos escrevendo.

Porém, possibilitar apenas o acesso delas aos diversos usos da leitura e da escrita não é suficiente para que elas se alfabetizem. É necessário um trabalho sistemático e precoce, pois quanto mais cedo forem as vivências de leitura e escrita, mas rápida acontecerá a alfabetização pelas crianças.

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população o direito fundamental à apropriação do saber sistematizado, de forma mais ampla, mais exitosa e no menor tempo possível.

Segundo essa autora:

Interessa, à classe trabalhadora, o domínio do conhecimento científico histórica e criticamente acumulado e sistematizado. Se isto é o que interessa para a classe trabalhadora, então o papel fundamental da escola é o acesso ao conhecimento. Não, entretanto, qualquer conhecimento, mas o conhecimento teórico-prático voltado para o desenvolvimento da sociedade, vale dizer, para sua transformação. (2003, p. 49)

É fundamental que essa aquisição se realize na idade mais tenra, para que os cidadãos possam usufruir o mais cedo possível das possibilidades que lhes são oferecidas pelo domínio do conhecimento mais amplo.

Segundo Batista (2006, p.2):

[...] se as crianças são matriculadas mais cedo, a escola pode dispor de condições mais adequadas para alfabetizá-las, incluindo aquelas pertencentes a meios populares e pouco escolarizados: uma importante base da alfabetização consiste na familiarização com o mundo da escrita e com a cultura escolar; se as crianças dos meios favorecidos são, na escola, como “peixes na água” é porque se familiarizaram, em sua socialização primária, em ambientes fortemente influenciados pela cultura escolar e pelo mundo da escrita...entrar mais cedo na escola significa experimentar de modo mais precoce a cultura da escola e da escrita.

4. Considerações finais

A alfabetização é uma atividade educativa de conscientização, uma atividade de conteúdo e natureza política, portanto deve ser reconhecida como atividade criadora, de crítica, reflexão e recriação da realidade, que deve ser desenvolvida em situações reais de uso da linguagem.

Se o aumento do tempo escolar para a alfabetização for acompanhado de medidas de enriquecimento dos recursos didáticos e formação dos professores alfabetizadores, é possível que o fracasso nos anos iniciais, até hoje uma espécie de fatalidade brasileira, esteja em vias de ser vencido.

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aquisição e uso da leitura e escrita, ou seja, que exista a formação de indivíduos alfabetizados e letrados.

Para isso a escola tem que atender seu objetivo primordial que na perspectiva de Libâneo (2006) é promover a aprendizagem dos alunos, sendo que isso se realiza pela atividade dos professores e pelas condições oferecidas pelas práticas de organização e de gestão.

5. Referências bibliográficas

BATISTA, A. A. G. “Ensino Fundamental de nove anos: um importante passo à frente”. Boletim Universidade Federal de Minas Gerais, ano 32, n. 1.522, 16 mar, 2006.

BRASIL. Ensino Fundamental de nove anos: orientações gerais. Brasília: MEC/SEB, 2004.

BELLONI, I.; MAGALHÃES, H. de; SOUSA, L. C. de. Metodologia de avaliação em políticas públicas: uma experiência em Educação Profissional. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2003.

CAMINI, L. et. al. Educação pública de qualidade social: conquistas e desafios. Petrópolis: Vozes, 2001.

FRADE, I. C. A. da S. Alfabetização na escola de nove anos: desafios e rumos. In: SILVA, E. T. da (org.). Alfabetização no Brasil: questões e provocações da atualidade. Campinas, SP: Autores Associados, 2007.

FREIRE, P. Educação e mudança. 9. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. KLEIN, L. Fundamentos teóricos – os ciclos de aprendizagem e a qualidade da escola pública. In: Seminário de Educação e Políticas Educacionais: qualidade da escola pública e os Ciclos de Aprendizagem. Curitiba, 2003.

LIBÂNEO, J. C. Sistema de ensino, escola, sala de aula: onde se produz a qualidade das aprendizagens? In: LOPES, A. C.; MACEDO, E. (Org.). Políticas de currículo em múltiplos contextos. São Paulo: Cortez, 2006.

SOARES, M. B. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, São Paulo, n. 25, p. 5-16, jan./abr. 2004.

______. As muitas facetas da alfabetização. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 52, p. 19-24, fev. 1985.

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