1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUCSP
EDUARDO KIOCHI NAKAMITI
A QUESTÃO DO FUTURISMO PÓS-HUMANO E DA VIDA ARTIFICIAL Comunicação científica e de divulgação nas ciências da complexidade
DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
SÃO PAULO
2 EDUARDO KIOCHI NAKAMITI
A QUESTÃO DO FUTURISMO PÓS-HUMANO E DA VIDA ARTIFICIAL Comunicação científica e de divulgação nas ciências da complexidade
DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
3 Banca Examinadora
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5 A QUESTÃO DO FUTURISMO PÓS-HUMANO E DA VIDA ARTIFICIAL
Comunicação científica e de divulgação nas ciências da complexidade
SUMÁRIO
1- Resumo... 7
2- Abstract... 8
3- Introdução... 9
4- Capítulo 1 Advento do pós-humanismo e do pós-humano... 16
1.1 - Introdução ao pós-humano e o pós-humanismo... 16
1.2 - Pós-humanismo / Pós-humano... 20
5- Capítulo 2 A exponencialidade do nosso desenvolvimento ... 39
2.1 - O início de tudo...o big bang... 42
2.2 - O desenvolvimento das tecnologias e da ciência... 46
2.3 - Como foi nossa lenta evolução... 49
2.4 - O século XX...a teoria da relatividade... 51
2.5 - As 4 forças da natureza... 55
2.6 - A física das partículas... 58
2.7 - Teoria das cordas... 61
2.8 - Computação quântica... 66
2.9 – Nanotecnologia... 68
2.10 - Convergência tecnológica... 72
2.11 - A velocidade das descobertas científicas... 76
6- Capítulo 3 Imortalidade... 85
3.1 - Imortalidade segundo Kurzweil... 86
3.2 - Imortalidade segundo “Os grandes Mistérios do Universo com Morgan Freeman”... 95
7- Capítulo 4
6
4.1 - Quem é Ray Kurzweil... 104
4.2 - O começo... 105
4.3 - O inventor/empreendedor... 106
4.4 - O escritor... 110
4.5 - A universidade da singularidade (SU)... 112
4.6 – Singularidade... 115
4.7 - Sua vida hoje... 123
8- Capítulo 5 Análise das hipóteses... 126
9- Capítulo 6 Comentários e Conclusão... 131
7 A QUESTÃO DO FUTURISMO PÓS-HUMANO E DA VIDA ARTIFICIAL
Comunicação científica e de divulgação nas ciências da complexidade
RESUMO
O objeto desta pesquisa é estudar a divulgação nas mídias de massa e digital, em suas mais variadas formas de avanços científicos na esfera das relações homem-máquina. O trabalho visa discutir o descompasso entre as formas de comunicação e divulgação acadêmica, por um lado, e popular, por outro, que retratam o desenvolvimento do pós-humanismo e do homem pós-humano em sua busca pela permanência ou eternização. Nosso objetivo específico é avaliar, por meio da divulgação das descobertas das ciências da complexidade, esta forma de comunicação popular que está se faz presente nas mídias digitais, tal como a Internet e outras mídias de massa. Esse tipo de comunicação visa divulgar rapidamente os avanços tecnológicos, simplificar teorias complexas para o entendimento popular e, principalmente, divulgar teses e estudos controversos, normalmente vistos pela Academia com certo ceticismo. A mídia de massa se esforça em retratar a busca da permanência pelo homem, divulgando as descobertas tecnológicas que destacam o homem pós-humano como imortal. Mas para que esta revolução? Por que é necessário toda esta energia na divulgação popular? Será por causa da velocidade das descobertas? Nossa hipótese é de que isto se faz necessário para garantir as verbas de pesquisa em temáticas de conhecimento do público, mas ainda não desenvolvidas. Metodologicamente, utilizaremos como fontes, de um lado, a literatura acadêmica disponível, reconhecida pela Academia e, em especial, os artigos científicos da Scientific American. Para a divulgação na mídia de massa, utilizaremos a figura de Raymond Kurzweil como case exemplar, pois se trata de um cientista que se notabilizou com a divulgação popular da evolução tecnológica e de suas consequências, que resultarão numa Inteligência Artificial que suplantará a Inteligência Humana. Esta popularização da ciência está familiarizando o público com termos como cosmologia, nanotecnologia, buracos negro, quasar, bóson etc. Mostraremos como Ray Kurzweil possui todo o patrocínio e apoio para suas pesquisas, baseados nesta forma de divulgação. Também serão utilizados como fonte diversos sites de divulgação, bem como o programa da série televisiva de Morgan Freeman intitulada “Grandes mistérios do universo com Morgan Freeman”. Como fontes teóricas, usamos os trabalhos acadêmicos tradicionais de Lúcia Santaella, Donna Haraway, Neil Badmington, Robert Pepperell, Francisco Rudiger, Paula Sibilia e Raymond Kurzweil, Brian Greene, Miguel Nicolelis, Robert Freitas Júnior, Michio Kaku como fontes populares.
8 ABSTRACT
The object of this research is to study the spread in mass and digital media in its various forms, scientific advances in the field of human-machine relations. The paper aims to discuss the gap between the forms of academic communication and dissemination, on the one hand, and popular, on the other, that depict the development of post-humanism and post-human in their quest for permanence or immortalization. Our specific objective is to evaluate, through the dissemination of the findings of the sciences of complexity, this popular form of communication that is doing this in digital media such as the Internet and other mass media. This type of communication designed to rapidly disseminate technological advances, simplify complex theories to popular understanding, and especially disseminate theses and controversial studies, often viewed with skepticism by the Academy. The mass media tries to portray the quest for permanence by man, disseminating technological discoveries that highlight the post-human and immortal. But, what is the purpose of this revolution? Why do we need all this energy in popular magazines? Is it because of the speed of these new discoveries? Our hypothesis is that this is necessary to ensure the funding of research in matters of public knowledge, but not yet developed. Methodologically, we use as sources on the one hand, the available academic literature, recognized by the Academy and, in particular, science articles from Scientific American. For dissemination in the mass media, we use the figure of Raymond Kurzweil as an exemplary case, because it comes from a scientist who became famous with the popular dissemination of technological change and its consequences, which result in Artificial Intelligence that will supersede Human intelligence. Because this popularization of science, the public is familiar with terms such as cosmology, nanotechnology, black hole, quasar, boson etc. Show as Ray Kurzweil has every sponsorship and support for their research, based on this disclosure form. Also be used as a source of dissemination multiple sites, as well as the program of Morgan Freeman television series titled "Great mysteries of the universe with Morgan Freeman." As theoretical sources, we use the traditional academic work Lúcia Santaella, Donna Haraway, Neil Badminton, Robert Pepperell, Rudiger Francisco, Paula Sibilia and Raymond Kurzweil, Brian Greene, Miguel Nicolelis, Robert Freitas Júnior, Michio Kaku as popular sources.
9 INTRODUÇÃO
A- Cenário
As previsões tecnológicas dos chamados “futurologistas” estão cada vez mais ousadas e precisas, e, podemos verificar que a maioria delas se concretizou exatamente como foi previsto, outras aconteceram em épocas diferentes, adiantadas ou postergadas e poucas não aconteceram. Julio Verne, no passado, previu uma série de situações futuras, utilizando-se da ficção científica. Hoje em dia, a ficção científica que serve principalmente de diletantismo popular, é produzida com assessoria técnica de especialistas no assunto. Muitas das pesquisas que estão em curso, pelos cientistas de vanguarda, servem de referência para um trabalho de ficção bem elaborado.
No passado o homem concebeu vários projetos de sociedade. Agora esse tempo passou. No horizonte da cibercultura e do pós-humanismo, pensa-se em projetos de mundo. Nesses cenários, há pouco espaço para o humano. As fantasias e projeções são feitas no sentido de criar uma realidade pós-humana.
Nessas condições, o sistema emergente, acompanhando e estimulando a automação acelerada de linhas de projeto e produção, poderá aperfeiçoar-se num ritmo cada vez maior, levando a superação do conceito de humanidade, para o conceito de pós-humanidade.
Uma afirmativa consensual é que a fusão GRN (Genética, Robótica e Nanotecnologia), que trataremos no capítulo 2, proporcionará impactos cognitivos, sociais e tecnológicos na organização do cotidiano do ser humano, quando atravessarmos um estágio colossal de avanço científico num curtíssimo espaço de tempo.
Esta abrupta explosão de novas descobertas científicas, está abrindo a necessidade de aparecerem pesquisadores de vanguarda, que estarão tratando de temas controversos, Normalmente estes temas ainda não foram tratados pela academia com o rigor e a responsabilidade necessários a merecer a credibilidade para entrar em textos e publicações respeitados, e que passam por conselhos editoriais respeitados e abalizados.
Vale aqui, trazer a tona, o pesquisador brasileiro Miguel Nicolelis:
10 essas reflexões dolorosas, eu fantasiava sobre o dia em que poderia resgatar essas ideias especulativas e liberá-las para os outros analisarem e contemplarem. Nosso progresso no laboratório indica que o momento da divulgação finalmente chegou. No decorrer desse confronto com a cultura ultraconservadora da academia, vários escritores e diretores de filmes de ficção científica especularam sem reservas e, às vezes, aceitaram com facilidade os excessos de sua imaginação fértil. Apenas durante 2009, duas megaproduções de Hollywood, Os substitutos e Avatar, retrataram o estereótipo de cientistas controlando, prejudicando, matando e conquistando as pessoas com feitiçaria tecnológica. Nesses filmes, as interfaces cérebro-máquina permitiram que os seres humanos vivessem, amassem e lutassem por procuração. Deixaram que seus avatares de corpo inteiro executassem o difícil trabalho de percorrer o Universo e, em alguns casos, de tentar aniquilar toda uma raça alienígena em nome de seus mestres humanos.
Miguel A. L. Nicolelis, professor da cadeira Anne W. Deane de neurociência da Duke University e fundador do Duke's Center for Neuroengineering e do Instituto de Neurociências de Natal. Scientific Americam Brasil no. 111 (agosto de 2011, p. 34)
Assim como Miguel Nicolelis se manifestou no trecho acima – muitos outros pesquisadores que estudam assuntos polêmicos, ou tem teses ufanistas ou mesmo pesquisam assuntos controversos como o português João Marqueijo, autor do livro “Faster Than The Speed of Light: The Story of a Scientific Speculation” ( 2003) e professor de Física Teórica no Imperial College de Londres, onde foi durante três anos Research Fellow (investigador) da Royal Society, que está trabalhando em sua teoria da variabilidade da velocidade da luz, chocando um dogma que foi colocado por Einsten há décadas atrás –, existem centenas de outros se confrontando com os puristas e tradicionalistas da academia, para poderem mostrar seu trabalho, e serem patrocinados pelas verbas de pesquisas governamentais ou de fundações de desenvolvimento científico.
11 B- A Questão
Ao nos depararmos com pesquisas de vanguarda, aparecem temas polêmicos, que causam muitas controvérsias. Vem então, a nossa mente, a seguinte questão:
“Com a sisudez e o conservadorismo da academia, necessários a credibilidade das divulgações de resultados das pesquisas, como podem estar sobrevivendo estes pesquisadores de temas polêmicos, já que as bolsas são escassas?”
C- As Hipóteses
Nós temos as seguintes hipóteses, que poderão responder o questionamento acima, e é o objeto principal da nossa tese:
1- Alguns pesquisadores estão se auto financiando, e criando independência do seu trabalho.
2- A verba de pesquisa pode vir do mercado privado altamente capitalista, que vislumbra algum retorno financeiro advindo do resultado da mesma.
3- Tornando a pesquisa popular, de forma a obter apoio da população, o que justificaria e pressionaria a continuidade da mesma.
D- Como trabalharemos esta nossa tese.
Falaremos sobre a “Imortalidade” porque é um tema dos mais controversos desta entrada do século XXI. Colocaremos todo tratamento científico que puder ser pesquisado, na tentativa de proporcionar alguma credibilidade. Evidentemente, não é o caso aqui, mostrarmos se ela vai ou não ser possível acontecer, e se vai, de que forma, ou quando.
Trabalharemos o conceito de pós-humanismo e pós-humano no capítulo 1, que tem ocupado bastante o meio acadêmico, substituindo os já desgastados termos pós-modernismo e pós-moderno.
12 Nas referências que usaremos, vários autores trabalham a questão do pós-humanismo enfatizando as tecnologias que estão nos levando muito próximos de uma espécie de simbiose final entre homens e sua tecnologia, na formação de uma nova inteligência, ora mais humana no topo, como hoje se verifica pontualmente, ora híbrida, ora artificial. Nesse cenário a distinção clara entre inteligência humana ou das máquinas seria superada.
Faremos uma fusão com o lento desenvolvimento das descobertas científicas, quando tivemos bilhões de anos desde o Big Bang, acelerando um pouco a partir do século dezenove e com uma aceleração exponencial nesta entrada do século XXI. Aproveitando este histórico, a intenção é mostrar a forma como isto foi divulgado à comunidade científica. Na sequência dos fatos, os primeiros artigos, foram escritos de forma protocolar, de modo a garantir a consistência, a credibilidade e a ética do trabalho. Não usaremos os artigos originais dos cientistas pesquisadores e/ou descobridores, mas sim algo já bastante popularizado, mas que tem a consistência e a credibilidade citadas acima, que são os artigos de uma revista científica respeitada: a Scientific American (Sciam).
A Sciam, de uma forma bem tradicional, está publicando artigos de cunho de divulgação, mas continua sendo uma referência no mundo científico. Nos primeiros artigos, onde se permitiu um aprofundamento nas pesquisas dos dados, a linguagem é extremamente conservadora, mas notamos que a partir do ano 2000, existe uma pequena tendência da popularização dos seus artigos. Numa edição especial de número 25 de 2004, da Scientific American Brasil, intitulada “Seu Futuro com Robôs – as máquinas inteligentes que Vão Transformar o Mundo” encontramos um artigo de Ray Kurzweil, “A proximidade da União Mente e Máquina” e também artigos de Hans Moravec e Bill Gates.
Apesar da tentativa de popularização da ciência, ela ainda mantém um conselho editorial cujo editor chefe Mariette Di Christina, comanda mais de 20 editores especializados em várias áreas da Ciência e mais de 40 conselheiros consultores para propor e/ou aprovar artigos. Para acompanhar as novas possibilidades de mídia, possui site na Internet para blogs, twiter e podcasts, e teve por um tempo, um programa na televisão, no canal PBS. (dados obtidos no www.scientificamerican.com em 02/junho/2014)
13 utilizados, e principalmente agora estamos vendo o uso da televisão a cabo, com vários canais se especializando, tais como o Discovery Channel, com o Discovery Science.
O desenvolvimento científico da década de 1950, que embasou de certa forma o nascimento do pós-humanismo, arraigou-se nos artigos acadêmicos com base humanista, e hoje está plenamente integrado, abastecendo os relatos das ciências da complexidade.
Na entrada do século XXI em plena era do pós-humanismo, a comunicação científica deverá se tornar menos burocrática e principalmente mais ousada, de outro modo, não acompanhará a velocidade proporcionada pela fusão de Genética, Robótica e Nanotecnologia (GRN) que é a convergência esperada nesta era do pós-humanismo.
Alguns cientistas estão se utilizando desta forma popular de divulgação, para estar presente nas mídias digitais de alcance em massa como a internet, televisão, e pequenos artigos em jornais e revistas não científicas, utilizada para divulgar avanços científicos e/ou explicar teorias complexas simplificando então, o seu entendimento.
Não somente cientistas renomados como Ray Kurzweil, Michio Kaku, Stephen Hawking, Miguel Nicolelis e outros, mas astros de cinema como Morgan Freeman que produz e apresenta o programa “Grandes mistérios do universo com Morgan Freeman” estão recontando a ciência de forma popular.
Mostraremos, também os avanços da ciência, sob a ótica desta nova forma de comunicação, e de artigos na Sciam, conectando os com os argumentos de evolução do pós-humano, e principalmente, buscar na obra de Ray Kurzweil, esta nova linguagem que está popularizando a ciência.
A forma como ele divulga seu trabalho, por meio de seus livros, da internet, de suas palestras e televisão, mostra uma agilidade e ao mesmo tempo, uma credibilidade baseada em fatos originados de pesquisas reais e também de instituições que já fazem parte do nosso cotidiano.
Isto está fazendo com que a ciência, aguce a curiosidade humana, a ponto de vários programas de televisão serem baseados em questões complexas de cosmologia e nanotecnologia, onde Big Bang, buracos negro, energia escura, quasar, bóson etc. são palavras corriqueiras e familiares à grande massa.
14 Haveria uma forma da comunicação científica nos moldes atuais acadêmicos, comedida, com toda formalidade e burocracia hoje necessária à credibilidade e aos padrões éticos sobreviver às novas conquistas tecnológicas que acontecerão numa velocidade singular?
Apresentaremos no capítulo 3, a discussão da imortalidade, um dos mais polêmicos assuntos que derivam do pós-humanismo e do avanço das conquistas científicas GRN. Por não ser um consenso entre acadêmicos, e não ter literatura tradicional a respeito, é tratada aqui na forma de comunicação popular, através de um texto baseado nas teorias de Kurzweil e da transcrição de um programa de Televisão “Os grandes mistérios do Universo com Morgan Freeman” exibido no canal Discovery Science em dezembro de 2013.
Mostraremos a eterna busca da permanência pelo homem, utilizando se das modernas descobertas tecnológicas que levam para uma discussão onde o homem pós-humano é em vários textos, tratado como imortal. A imortalidade obtida por uma vida artificial é o suprassumo da permanência humana. Evidentemente, não é o nosso caso aqui, defender uma ou outra posição, mas sim mostrar o que está sendo apresentado sobre o assunto.
Mostraremos também as diversas expectativas que são preconizadas e esperadas para o pós-humano. As principais teorias de alongamento da vida, derivam do desenvolvimento da tecnologia GRN. Uma delas refere-se ao prolongamento da vida, eliminando doenças e repondo através da nanotecnologia, os órgãos e funções do nosso corpo, destrinchando de vez o DNA humano, permitindo, assim, a identificação e modificação dos genes do envelhecimento, e principalmente preservando a memória e os sentimentos, através de reposição de neurônios, que já está em desenvolvimento no MIT (Massachussetts Institute of Technology). A outra, que está servindo de base para o trabalho da Google e de Ray Kurzweil, é a engenharia reversa do cérebro, e a sua reconstrução através de inteligência artificial, de modo a manter as características oriundas de sentimentos, sonhos, desejos e percepções afetivas de um cérebro humano tradicional. Na verdade, na era da singularidade, teremos um mix destas duas formas.
15 existem certos cientistas que preconizam seus anseios, sem base científica, caso dos extropianos.
Apresentaremos no capítulo 4, Raymond Kurzweil, seus conceitos, suas teorias, sua forma de pensar o mundo e principalmente, suas obras, que o tornaram guru do presidente dos EUA, Bill Clinton e de Bill Gates, fundador da Microsoft . Com todo este arsenal de produção suas pesquisas são financiadas de várias formas, e por causa disto, outros cientistas estão enveredando pelo mesmo caminho.
Falaremos de sua vertente empreendedora e criativa, suas pesquisas, passando pelo sistema de reconhecimento ótico de caracteres (OCR), que escaneia e transforma imagens em textos editáveis, a máquina leitora para cegos que lia e sintetizava em voz, os livros e textos e máquinas de reconhecimento de padrões, entre outros.
Falaremos também do Kurzweil escritor, autor de 7 livros, 5 deles best-sellers na América, e do seu inicio de pesquisas em inteligência artificial no MIT, e de como ele teve que procurar algo além das bolsas científicas para trabalhar com suas teorias de vanguarda e que ficaram controversas e incômodas dentro da academia.
Mostraremos sua redirecionada na busca do financiamento de suas pesquisas que estavam limitadas dentro dos critérios acadêmicos vigentes, e que o levaram a desenvolver projetos junto ao Google e a NASA, que culminou na criação da Universidade da Singularidade, onde Larry Page o fundador do Google falou “Aqui é o lugar onde eu gostaria de estudar” e a partir daí se tornou seu maior investidor, junto com a NASA e a Microsoft.
Mostraremos por fim, seu trabalho atual, como diretor técnico do Google; e porque se tornou um empregado apesar de ser um empresário bem sucedido, dono de uma fortuna considerável graças às suas empresas. A sustentabilidade de suas pesquisas, passaria pela montagem de um enorme “data warehouse” que custaria uma fortuna, e não poderia ser bancada por sua fortuna pessoal, e muito menos por verbas limitadas de pesquisas acadêmicas, além do tempo que seria dispendido em seu desenvolvimento.
16
Capítulo 1
Advento do Pós-Humanismo e do Pós-Humano
1.1 - Introdução ao Pós-humano e ao Pós-humanismo
A questão do pós-humanismo vem sendo desenvolvida de maneira cada vez mais assídua nos meios acadêmicos e pode se tornar um dos temas mais destacados no âmbito das humanidades, em um futuro bem próximo.
Um grande evento em maio de 2012, realizado no Center for 21st Century Studies da Universidade de Wisconsin-Milwaukee, reuniu pesquisadores do nível de Manuel de Landa, Mark Hansen, Steven Shapiro, para discutir o tema “a virada não humana”. Este tema abrange questões diversas do que pode acontecer no futuro do século XXI, onde se inclui o pós-humanismo e o pós-humano. Pode ser a emergência de um novo paradigma intelectual.
O desenvolvimento exponencial das tecnologias genéticas, robóticas e nano, tem nos levado a grandes indagações sobre quais seriam os limitantes da tecnologia e/ou da humanidade, ou seja, até que ponto a tecnologia estará a serviço do homem e sob seu total controle.
Desde os primórdios, quando de acordo com a teoria darwiniana, o planeta criou condições de gerar vida no leste africano, e foi evoluindo desde nossos ancestrais ao ser atual, o humano vive transformações em relação ao que se pode chamar de regulamentos ou estatutos do projeto de um corpo. Entre um corpo biológico de carbono, que sustenta sua estrutura e compleição e outro corpo cerebral e individual, que é consciente e pensa, é possível constatar descobertas e invenções que transformaram a forma física e psíquica do humano e sua relação no e com o mundo.
Nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer continuam a fazer parte das regras de vida do ser humano em qualquer ponto de vista, desde religioso espiritual ao mais científico e material. Contudo, e na medida em que este desenvolveu métodos e tecnologias sociais e científicas capazes de modificar o seu “umwelt, ou seja, o meio em que vive, a si próprio e a cultura de sua sociedade, instituiu-se uma intenção ou um direcionamento no sentido de interferir e transformar o “natural”, através do “artificial”, o que conduziu a uma das questões centrais do pensamento contemporâneo: o hibridismo humano/máquina.
17 De certa forma, isso é algo já perspectivado em produções do conhecimento artístico/científico/cultural de outros períodos, quando anteviam experiências cuja finalidade ia desde a diversão e substituição nas tarefas de realizar pequenas atividades humanas, até as promessas de transformação no seu “umwelt”, indo ao extremo de preconizarem o abandono de toda e qualquer forma tradicional e comum ao ser humano.
Nesse panorama, e seguindo-se a lógica de desenvolvimento tecnológico em termos do que será necessário para sua realização, muitas dessas perspectivas possivelmente vão se concretizar, prevendo como ponto focal uma espécie de simbiose final entre homens e sua tecnologia, na formação de uma nova inteligência, ora mais humana no topo, como hoje já se verifica pontualmente, ora híbrida, ora completamente artificial. Nesse cenário, a distinção clara entre inteligência humana ou das máquinas seria superada.
No passado o homem concebeu vários projetos de sociedade. Agora esse tempo pode ter passado. No horizonte da cibercultura, pensa-se em projetos de mundo. Nesses cenários, há pouco ou nenhum lugar para o humano. As fantasias e projeções são feitas no sentido de criar uma realidade pós-humana, como de resto já havia preconizado, ainda que noutros termos, o filósofo Friedrich Nietzsche. Desde esta época, a humanidade está com uma perspectiva de exaustão, e prenuncia se o advento de um novo tempo que passará a vigorar numa condição de depois do humano. Nietzsche é o filósofo que preconiza o niilismo ou o desprezo por si mesmo como a marca mais próxima do ente que chamamos homem. O pensador afirma que o homem sempre esteve em questão, quando não enojado de si mesmo, buscando ir para além de suas circunstâncias, através de figuras míticas, artísticas ou políticas. Ele não renega ou pretende estar acima desta situação, mas aceita a com a convicção de suspender toda negação ou má afirmação sobre a mesma. “O que há em nossa virtude se não viveste o momento em que desprezastes o ser humano em vós por amor ao ser além-do-humano”1
A referência ao super-humano por Nietzsche sempre foi vista como uma condição problemática, que não é a concepção atual de cientistas de peso que desejam experimentar situações e colocações antes restritas ao universo ficcional.
Nessas condições, o sistema emergente, acompanhando e estimulando a automação acelerada de linhas de projeto e produção, poderá aperfeiçoar-se num ritmo cada vez maior, levando ao conceito de singularidade, ou superação do conceito de humanidade, para o
18 conceito mesmo de pós-humanidade como ilustrado por Lucia Santaella2 , com certeza a
autora que mais escreveu sobre o assunto, e possivelmente a maior autoridade brasileira em pós-humanismo:
“O potencial para as combinações entre vida artificial, robótica, redes neurais e manipulação genética é tamanho que nos leva a pensar que estamos nos aproximando de um tempo em que a distinção entre vida natural e artificial não terá mais onde se balizar. De fato, tudo parece indicar que muitas funções vitais serão replicáveis maquinicamente assim como muitas máquinas adquirirão qualidades vitais. O efeito conjunto de todos esses desenvolvimentos tem recebido o nome de pós-humanismo”.
Por outro lado, ressoando na obra de Francis Fukuyama, “Nosso futuro Pós-humano” (2002), apregoou-se o fim dos processos históricos, num ponto de equilíbrio na “superestrutura” econômica mundial, como seus reflexos nas estruturas “secundárias” da dimensão humana. E mais, que esse momento seria o ápice da história humana. Capitalismo liberal superando demais ideologias econômicas, visto como a solução final da governança humana, como marco do fim da história pelo término de tensões dialéticas econômicas.
Trata-se de um exemplo de enfoque em que modelos são criados sobre as premissas de simplificação e abstração, como convém a um modelo – mas tomados como descrição completa da realizada, sendo o significado parcial generalizado, as implicações simplificadas tomadas como completas e finais e a transmissão de ideias passa a ser um problema de comunicação ideológico.
Novos horizontes se apresentam para os processos históricos e para a evolução humana. Mas sua compreensão depende de procedimentos mais amplos de intelecção e análise. O pós-humanismo levanta algumas dessas possibilidades e cabe serem analisadas e metacriticadas à luz de premissas semióticas e comunicacionais, tentando-se entender seu significado e implicações e, principalmente suas limitações conceituais, como um sistema que veicula informações ideológicas com suas necessárias limitações, mas que podem ser facilmente tomadas como transcrição da realidade.
Numa outra forma de se expressar, aparece neste cenário Raymond Kurzweil, cientista e futurólogo do MIT (Massachusetts Institute of Technology), descrevendo o cotidiano de um futuro talvez não tão distante, quando o implante de neurônios estiver plenamente viabilizado, conforme se depreende do seguinte texto3:
2 SANTAELLA, Lucia.
Cultura e Artes do Pós-Humano: Da Cultura das Mídias à Cibercultura. Editora Paulus, 2003. p. 199.
19 “O pensamento humano está se fundindo com o mundo da inteligência de máquina que a espécie humana inicialmente criou. A engenharia reversa do cérebro humano parece estar completa. As centenas de regiões especializadas foram totalmente escaneadas, analisadas e compreendidas. Análogos de máquinas são baseados nesses modelos humanos, que foram aprimorados e estendidos, juntamente com muitos novos algoritmos maciçamente paralelos. Esses aprimoramentos, combinados com as enormes vantagens na velocidade e na capacidade dos circuitos eletrônicos/fotônicos, fornecem vantagens substanciais para a inteligência baseada nas máquinas. As inteligências baseadas em máquinas derivadas inteiramente desses modelos estendidos de inteligência humana afirmam ser humanas, embora seus cérebros não sejam estruturados em processos celulares baseados em carbono, mas sim equivalentes eletrônicos e fotônicos. A maioria dessas inteligências não está vinculada a uma unidade de processamento computacional específica (isto é, peça de hardware). O número de humanos baseados em software excede em grande parte os que ainda utilizam computação baseada nos neurônios nativos”.
Apesar de se referir ao mesmo assunto, fazemos aqui uma distinção entre “pós-humano” e “pós-humanismo”.
20 1.2 – Os Conceitos de Pós-humanismo e de Pós-humano
Nietzsche foi talvez o primeiro pensador a se referir com entusiasmo na necessidade de tentar aperfeiçoar o humano, quando cravou o termo supra-humano. Talvez, não tenha se referido a superar a espécie humana. Marcou-se muito esta sua referência, porém, foram poucos os que o seguiram positivamente, apesar do sentimento vigente na era nacional-socialista na Alemanha.
Atualmente, temos mais simpatizantes desta figura do supra-humano e, a partir dela, surgiram os derivados que se concentravam não apenas no aperfeiçoamento intelectual, mas também no desenvolvimento científico que trabalha no aperfeiçoamento natural do homem.
Existia, no período de Nietzsche, uma perspectiva de exaustão do ser humano e esperava-se a chegada de um novo tempo, que ainda não se focava especificamente numa eventual suplantação do humano.
Francisco Rüdiger, da PUC RS, escreveu:
“Nietzsche é o filósofo que se descobre parte de uma história, a qual pretende superar, notando que, talvez, a marca mais própria do ente que chamamos homem seja o niilismo ou o desprezo por si mesmo. O homem sempre esteve em questão, senão enojado de si mesmo, visto que busca ir para além de suas circunstâncias, através de figuras míticas, artísticas ou política. O pensador não renega ou pretende estar acima dessa situação, mas suspender toda resistência ou má consciência diante da mesma, aceitando-a positiva e afirmativamente.”4 O humano desprezado acima é aquele que deve ser assumido totalmente com toda fatalidade. O filósofo refere-se ao super-humano não como um problema, mas com situações cujas soluções decidirão seu futuro.
Nietzsche dizia que há uma linha ascendente para a espécie humana que é a linha da criação política, artística, ética e institucional. A outra é a linha da sua rotinização, nivelamento e padronização, que é a linha descendente. Para ele, o oposto da criação não é a destruição, mas sim a mediocridade, a fossilização, a normatividade, o nivelamento. Este homem é calculável, rotineiro, disciplinado, normal, programado: o homem do rebanho, que é o que deseja e aceita de bom grado que o convertam em peça de engrenagem, parte de uma máquina. O homem criativo, o opositor do homem de rebanho, está sujeito a riscos que talvez nem mesmo ele queira correr. Ele mesmo - um homem de extrema criatividade - dizia que tinha a necessidade de, em certos casos, ser um homem de rebanho. O homem
21 supra-humano tem que ser muito criativo.
“Mesmo quando passou a explorá-la (a criatividade), o filósofo o fez de um modo que se horrorizaria com a maior parte das descrições de nosso futuro pós-humano, feitas pelos arautos da cibercultura. Segundo essas, com efeito, as máquinas se encarregarão de montar a civilização. Os computadores pessoais, por exemplo, nos dispensarão de escrever. Quem sabe, a musica de nossa preferencia será executada diretamente em nosso aparelho auditivo. Para Nietzsche, em tudo isso, o sentido imanente seria criticado por pretender nos liberar da prestação de provas. O conhecimento que desejarmos, seja do tipo que for, nos será dado por um implante em alguma terminação do córtex cerebral. Assim, poderá ser, por exemplo, que não precisemos mais trabalhar tanto nossa aparência, modelarmos o corpo e tentarmos ser encantadores, visto que nossos parceiros sexuais poderão ser adquiridos por encomenda, sob medida e em vários modelos. Ocorre que chegado tal tempo, para o qual muitos se inclinam, sobrará o que de próprio do humano, salvo as elites que, pervertidas até a medula, quiserem continuar quebrando a cabeça para atender os problemas dos outros?” (Ibid. pág.207)
Segundo Robert Pepperell, em seu “Manifesto do pós-humano” (1995), existem muitas pessoas com desejo de experimentar situações extremas proporcionadas pelos progressos tecnológicos da sociedade humana inventadas a partir de exercícios de ficção, progressos estes que podem tornar a espécie humana redundante.
O termo pós-humano tem ganhado espaço nos meios intelectuais e acadêmicos nos últimos tempos. Ele parece vir substituir, de certo modo, o já desgastado termo pós-moderno e passou a tornar-se uma constante nos cadernos de cultura, nas discussões filosóficas e socioculturais ditas de ponta.
Em 1922, James Joyce em sua obra “Ulisses”, já sugerira que nós somos um intervalo entre duas eras, a pré e a pós-humana.
Em “The Science of Life” de 1927, Julian Huxley usou a expressão transhumanismo num sentido de transcendência moral tão diferente da época quanto o era do “Homem de Pequim”. A diferença seria na percepção de novas possibilidades da natureza humana sendo que o homem continuaria homem.
Em 1929, James Bernal explorou o sentido dado por Joyce, sem, no entanto, ter usado o termo em foco, mas preconizando que haverá no futuro um ser humano alterável, por meio do progresso científico e tecnológico; e que este ser seria uma criatura estranha, monstruosa e inumana.
22 simultaneamente em animais, humanos e máquinas.
Estas conferências reuniram cientistas renomados de várias áreas do conhecimento que estariam forjando um novo paradigma. Alguns trabalhos apresentados foram: Claude Shannon, que contribuiu com teoria da informação; Warren McCulloch apresentou seu modelo de funcionamento neural que mostrava como neurônios trabalham com sistemas de processamento de informações; John von Neumann, com sua analogia dentre sistemas biológicos e computadores processando código binário concebendo sua auto reprodução; Norbert Weiner apresentou o paradigma da cibernética, mostrando sua larga implicação em como desmistificar sua significância cósmica. Outros participantes, citados historicamente, foram: Gregory Bateson, Heinz von Foerster, Kurt Lewin, Arturo Rosenblueth, Julian Bigelow, Walter Pitts entre outros.
O resultado desta empreitada inovadora foi uma nova forma de se olhar a raça humana, compreendida como entidade processadora de informações, similar às máquinas inteligentes. Estava lançada a semente do pós-humano, com uma proposta de analogia entre o funcionamento do orgânico com o maquínico.
A similaridade estava no conceito de feedback que as máquinas realizam, utilizando os resultados do output como um novo input, e assim corrigia o processamento, ajustando sua performance, visando a sua permanência. Com os humanos, existe a capacidade do organismo de se manter estável no confronto com as vicissitudes do ambiente, chamado de homeostase.
Então, a síntese do orgânico e do maquínico sustenta-se no seguinte tripé: informação, controle e comunicação, conceito base da cibernética.
Norbert Wiener, escreveu “Cybernetics: or control and communication in the animal and machine”, em 1948, e editado pela MIT Press em 1965. Wiener era um matemático do MIT e considerado o pai da cibernética. Ele observou que pegar um objeto, guiar um míssil, administrar uma empresa, fazer o sangue circular em um corpo, tinha algo em comum, tudo lhe parecia depender da transmissão de “informação”, ou seja, depender daquilo que os engenheiros tinham começado a chamar de feedback; um conceito sugerido por Claude Shannonn, dos Laboratórios Bell.
23 informação. Estas informações acontecem durante todo o percurso, constantemente. Não é apenas uma ocorrência pontual.
Este fenômeno é parte de um circuito de feedback, seu cérebro recebe um input do ambiente, que informa a velocidade do vento, o tempo e a corrente, e envia, então, sinais para que seus braços possam conduzir seu barco para longe do perigo.
Wiener percebeu que o modelo poderia ser aplicado a qualquer situação que envolvesse o gerenciamento de um sistema complexo. Os seguidores de Wiener viram a cibernética como uma ciência que explicaria o mundo como um conjunto de sistemas de feedback, permitindo o controle racional de corpos, máquinas, fábricas, comunidades e praticamente qualquer outra coisa. A cibernética prometia reduzir problemas “confusos”, em campos tais como a economia, a política e talvez a moral, à condição de simples tarefas de engenharia: uma coisa que se poderia resolver com um equacionamento lógico, usando-se caso necessário, de alguma computação eletrônica, quando fosse mais complexo.
Em 1958, John von Neumann, em seu livro póstumo “The computer and the brain”, preconizou que o progresso tecnológico provocará uma mudança radical no ser humano, e assim chegaremos a um estágio em que ocorrerá alguma singularidade essencial à história da raça humana e para além da qual os problemas humanos, tais como os conhecemos, não poderão prosseguir sendo como tais. Foi a primeira vez que a expressão “singularidade” foi utilizada no sentido de um evento histórico previsto para o futuro no qual a humanidade atravessaria um estágio de colossal avanço tecnológico em um curtíssimo espaço de tempo.
Outro termo que faz parte desta história é o ciborgue. Esta palavra mais se adequaria a uma história de ficção científica, mas ela teve origem em um rato de laboratório, um programa experimental no Hospital Estadual de Rockland, Nova York, no final dos anos 1950. Foi nosso primeiro ciborgue.
Implantou-se no corpo do rato uma pequena bomba osmótica que injetava doses precisamente controladas de substâncias químicas que alteravam vários de seus parâmetros fisiológicos.
24 seriam substituídos por uma “célula energética inversa”, alimentada por energia nuclear, ou seja, um homem superdotado. Este conceito do ciborgue/homem superdotado era uma espécie de sonho científico e militar, muito mais que uma mera pesquisa científica. Os militares sonhavam com um “super homem/super soldado” para vencer as batalhas em que se envolvessem. Este sonho os levou a dispender todo o seu orçamento de pesquisa e desenvolvimento para perseguir com essa meta. Em meados de 1960, os ciborgues representavam um grande negócio, com milhões de dólares gastos pela força aérea norte-americana em projetos de construção de exoesqueletos, com braços e pernas robóticas controladas pelo homem, com dispositivos de biofeedback e sistemas especializados.
Clynes e Kline profetizaram “uma nova e mais ampla dimensão para o espírito do homem”. Porém, apesar de todo o dinheiro gasto com tal pesquisa, diga-se muito pressionada à obtenção de resultados, que, por sua vez foram pífios, chegando-se à conclusão de o ciborgue é um tipo de sonho bastante caro de ficção científica. Começaram-se então as especulações metafísicas sobre evolução e fronteiras humanas.
Mas o sonho de melhorar a capacidade humana por meio de uma reprodução seletiva ou de ampliar sua capacidade por meio de dispositivos artificiais, ou mesmo a de recuperação de capacidades vitais, tem constituído agora o foco da comunidade científica. Doses de insulina têm sido utilizadas para controlar os metabolismos dos diabéticos desde os anos 1920. Uma máquina constituída de uma combinação de pulmão e coração foi utilizada para controlar a circulação sanguínea de uma moça de 18 anos durante uma operação em 1953. Um homem de 43 anos recebeu o primeiro implante de marca passo em 1958.
Nos anos 1970, a ideia de um ser humano superdotado voltou a baila com a série de televisão “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, onde Steve Austin e sua companheira Jamie Sommers, como a Mulher Biônica (com seus braços biônicos e seu ouvido biônico supersensível), tinham se tornado heróis populares: seus superpoderes, fabricados sob medida, podiam ser diretamente comprados tal como se compra um relógio digital. O ciborgue, que até então era uma fantasia acadêmica, transformou-se em um assunto do horário nobre da TV.
Obviamente, robôs, autômatos e pessoas artificiais tinham feito parte da imaginação ocidental desde pelo menos o Iluminismo. Um dos mais polêmicos exemplos foi o Frankenstein de Mary Shelley, que foi construído a partir de corpos de defuntos e juntou-se num monstro que foi ativado por uma carga elétrica muito forte.
25 trazem dentro de si sistemas causais circulares, mecanismos autônomos de controle, processamento de informação – são autômatos com uma autonomia embutida.
Os construtores de ciborgues estavam envolvidos na tarefa de tornar realidade as ideias de Wiener. Para eles, o corpo era apenas um computador de carne, executando uma coleção de sistemas de informação que se auto ajustavam em resposta aos outros sistemas e a seu ambiente. Caso se quisesse construir um corpo melhor, tudo que se tinha a fazer era melhorar os mecanismos de feedback ou conectar um outro sistema – um coração artificial, um onisciente olho biônico. Não é por acaso que esse quadro estranhamente abstrato do corpo, concebido como uma coleção de redes, assemelha-se bastante àquela outra rede de redes, a internet; vieram, ambas, daquela mesma estufa da pesquisa militar da guerra fria.
O sonho de Wiener, de uma ciência universal da comunicação e do controle, apagou-se com o decorrer dos anos. A cibernética deu origem a novas áreas, tais como as ciências cognitivas, estimulando pesquisas valiosas em numerosos outros campos. Mas quase ninguém, hoje, se auto intitula um “ciberneticista”. Alguns acreditam que o projeto de Wiener tornou-se vítima da moda científica, seu financiamento sendo desperdiçado em vultosas e vistosas – mas ao final irrelevantes – pesquisas sobre inteligência artificial. Outros pensam que a cibernética foi eliminada pelo problema central dos mecanismos básicos de controle e de comunicação nas máquinas, que, por sua vez, são significativamente diferentes daqueles que existem nos animais, sendo que nenhum deles se assemelha aos mecanismos de controle e comunicação existentes na sociedade.
Assim, a cibernética, que estava baseada em uma inspirada generalização, tornou-se vítima da incapacidade para lidar com detalhes. Não importa qual dessas perspectivas é a verdadeira (e, tal como ocorre com a maioria das histórias, a verdade é, provavelmente, uma mistura de ambas), a cibernética deixou dois importantes resíduos culturais. O primeiro é sua descrição do mundo como uma coleção de redes. O segundo é sua intuição de que não existe uma distinção tão clara entre pessoas e máquinas como alguns gostariam de crer. Esses ainda controversos conceitos estão no coração biônico do ciborgue, que está vivo e passando bem, e se autoconstruindo em algum laboratório perto de nós.
26 Em 1972, Robert Ettinger conferiu ao termo transhumano um significado vinculado à ideia de uma nova singularidade, na obra “Do Homem ao Super-homem”, que levou à criação de empresas de preservação de cadáveres, no sentido de que a tecnologia um dia superaria o homem.
Atualmente, em resposta às pressões da sociedade, estão surgindo novas subjetividades e novos tipos de corpos. Junto com o declínio da sociedade industrial e seus corpos disciplinados, dóceis e úteis, o homem de rebanho como chamou Nietzsche, é possivel constatar a consequente decadência da figura do autômato, do robô, do homem-máquina, uma imagem que alimentou muitas ficções conforme citado anteriormente. Estas novas subjetividades estão propondo um emblema inspirador de novas configurações, baseadas no ciborgue misto de organismo e cibernética, que irá ultrapassar as barreiras das redes de poder contemporâneas focadas em várias vertentes, tais como Donna Haraway, citada mais a frente, uma radical defensora do pensamento político feminista.
O corpo humano parece ter perdido a sua definição clássica e a sua solidez. O sonho renascentista da figura humana parece ter atingido seu ápice, ou simplesmente ficou obsoleto. Toda grandiosidade e feitos dos humanos por vários séculos está chegando ao limite, baseado no conceito do humano “humano”. Esse limite, contudo, começa a revelar uma membrana porosa, permeável a novos conceitos que permitiriam transgredí-lo e ultrapassá-lo. De acordo com esta perspectiva, na eminência da inquietante virada de século a humanidade se encontraria num ponto de inflexão: no limiar da “pos-humanidade”. Na cultura grega, havia um mensageiro, Hermes, filho de Zeus e Maia, que era o elo entre os deuses e o homem, que costumava ser cultuado nos cruzamentos de caminhos, nas fronteiras e em outros espaços limítrofes. Talvez seja a hora do aparecimento de um novo Hermes.
Os corpos contemporâneos se apresentam como sistemas de processamento de dados, códigos, perfis cifrados, feixes de informação; uma certa coisa analógica inserida no mundo digital.
O termo pós-humano (Posthuman) foi utilizado inicialmente pelo intelectual norte americano Ihab Hassan em um artigo publicado em 1977, na Georgia Review intitulado Prometeus as Performer: Toward a Posthumanist Culture, onde o autor acreditava que esse neologismo deveria ser usado como uma imagem do ódio do homem por si mesmo. Estava aí a influência filosófica de Nietzsche.
27 ao fim, a medida que o humanismo se transforma em algo que deve sem desvios se chamar pós-humanismo” (HASSAN, 1977, p. 212).
O termo hibernou durante alguns anos e voltou fortalecido na década de 90, desta vez adotado por filósofos, cientistas e artistas ligados ao avanço tecnológico e às proposições de hibridização entre homem e máquina, carne e silício, no sentido de transposição da ontologia tradicional, dos limites físicos e culturais que definiram historicamente o conceito de humano.
O ciborgue dos anos 90 é uma criatura mais sofisticada do que seu ancestral dos anos 50 e, ao mesmo tempo, uma criatura mais doméstica. Juntas pélvicas artificiais, implantes de tímpanos para os surdos, implantes de retina para os cegos e todo o tipo de cirurgia cosmética fazem parte, hoje, do repertório médico. Sistemas de recuperação de informação on-line são utilizados como próteses para memórias humanas limitadas. No mundo fechado da sofisticada indústria da guerra, combinações ciborguianas de humanos e máquinas são utilizadas para pilotar aeronaves militares – os tempos de resposta e os aparelhos sensórios de simples e “puros” humanos são inadequados para as demandas do combate aéreo supersônico. Esses arrepiantes ciborgues militares podem ser os anunciadores de um mundo novo mais estranho do que qualquer outro dos que vivemos até agora
Em 1985, Donna Haraway lançou o “Manifesto Ciborgue: Ciência, Tecnologia e Feminismo-socialista ao Final do Século XX”, no qual é proposta uma leitura progressista e feminista do mito do ciborgue. Este neologismo foi apropriado por Haraway e ficou notabilizado a partir deste manifesto. Bióloga de formação, de imediato, soube avaliar a ruptura com as tradicionais categorias ideológicas e epistemológicas disparadas pelas figurações do ciborgue, especialmente na sua violação das distinções entre ser humano, animal e máquina. Afirmava que os ciborgues, de fato, existem. Exibem-se nas hibridações do corpo com as próteses tecnológicas, também se projetam nas fabulações da imaginação e se manifestam nos discursos da cultura e da ciência. Justo na mistura desses ingredientes encontra-se o segredo do sucesso do manifesto. Lançou as bases para o desenvolvimento do ciber-feminismo no campo dos estudos culturais. Haraway usa a figura do ciborgue como uma metáfora carregada de ironia, com a intenção de fazer essa imagem funcionar como uma blasfêmia contra o capitalismo patriarcal dominante.
28 indeterminações como recurso imaginativo para construir seu argumento prazeroso, e mesmo perverso, sobre uma ontologia de fronteiras transgredidas, fusões potentes, possibilidades perigosas e sobre uma epistemologia que não teme identidades permanentemente parciais e pontos de partida contraditórios. O alvo da transgressão, ao fim e ao cabo, é a constituição histórica e social de gênero, raça e classe própria do patriarcado, colonialismo e capitalismo.
Como queria a autora, o texto contribuiu grandemente para redirecionar a cultura do feminismo socialista. Desde então, a noção tanto metafórica quanto literal do ciborgue passou a fazer parte dos estudos culturais de linha feminista. Formou-se, assim, uma comunidade discursiva que passou a ser conhecida como uma das tendências do pós-humano crítico, aproveitando-se da brecha aberta pelo ciborgue, na sua subversão de todos os tipos de dualismos que deram subsídios às hierarquias dominadoras das sociedades patriarcais.
Com isso, entraram em cena os abundantes discursos sobre a crise das identidades unas e a emergência do múltiplo, do instável, do volátil, livre das amarras das normas institucionalizadas
Outra grande corrente do pós-humanismo começou a ganhar corpo com uma literatura ficcional onde a tônica era a alienação do corpo carnal em dispositivos informáticos. Esta corrente foi batizada de literatura “Cyberpunk”, que se originou com o marcante livro de William Gibson (1984), chamado “Neuromancer”, onde neste mundo, o ciberespaço é uma rede computacional global de informações chamada de “A matriz”. Os operadores podem acessar essa rede através de fones de ouvido e de um terminal de computador, e é descrito como:
“Uma vez na matrix, os operadores podem voar para qualquer parte de um vasto sistema tridimensional de dados codificados em várias formas arquitetônicas, icônicas e coloridas dispostas sob eles como uma vasta metrópole. Nessa cidade de dados, qualquer documento está disponível, qualquer gravação é audível, e qualquer imagem, visível. Quando um local particular é selecionado, através de um zoom, é possível se mover para dentro da representação tridimensional dos dados a fim de escandir áreas particulares. Diferentes tipos de entidades inteligentes podem conviver no ciberespaço, desde representações simuladas dos próprios usuários até inteligências artificiais autônomas que tem seu habitat no ciberespaço”. (Apud FELINTO e SANTAELLA, 2012, p.31)
29 A história de “Neuromancer” acontece em um futuro próximo, onde temos uma sociedade caótica, governada por gangs de rua, corporações multinacionais e mercenários, todos residindo em megacidades nas quais extrema pobreza e alta tecnologia usualmente coexistem, mas todos com acesso à tecnologia, em que cada classe a utiliza de forma sempre corrupta almejando o poder.
Em 1988, Hans Moravec, professor da Carnegie Mellon University, em seu livro “Mind Children”, fala de um mundo pós-biológico da liberação de um corpo mortal: “Imagine um cérebro em uma cuba, sustentado por máquinas de sobrevivência, conectado por formidáveis laços eletrônicos a uma série de simulacros corporais em realidades virtuais e a corpos de aluguel artificiais colocados em regiões remotas”.
Em 1989, Jean Claude Beaune, em seu estudo sobre autômatos “Philosophie des milieux techniques”, falou de uma criatura viva dotada de uma inteligência semi-autômata ou capacidade de adaptação, que chamou de autômato cibernético e informático.
Em 1990, Stelarc, um artista plástico australiano, no seu artigo “Prótese, robótica e existência remota”, falava de estratégias pós-evolucionistas para reprojetar o corpo humano biologicamente mal equipado para enfrentar seu novo ambiente extraterrestre, ao desenvolver sua tese do corpo obsoleto:
“É hora de se perguntar se um corpo bípede, que respira, com visão binocular e um cérebro de 1.400 cm3 é uma forma biológica adequada. Ele não pode dar conta da quantidade, complexidade e qualidade de informações que acumulou; é intimado pela precisão, pela velocidade e pelo poder da tecnologia e esta biologicamente mal equipado para se defrontar com seu novo ambiente. O corpo é uma estrutura nem muito eficiente, nem muito durável. Com frequência ele funciona mal [...] Agora é o momento de reprojetar os humanos, torná-los mais compatíveis com suas máquinas” .
Gilles Deleuze viu um feixe de transformações sociopolíticas e econômicas no livro “Conversações” em 1990, apresentado brevemente num post-scriptum. Estas transformações estariam levando a formação de um novo tipo de sociedade que estaria sendo implantado gradativamente através de um novo regime de poder-saber. Este conceito foi denominado “sociedade de controle”, onde mecanismos informatizados estariam se transformando em novos mecanismos de dominação, que se infiltraram nos aparelhos de normalização burocratizados e disciplinados para explodi-los visando a criação de uma nova política de saber.
30 promovendo mudanças radicais. Isto significa que a velha lógica serial, analógica, fechada e descontínua, está sendo substituída por modalidades digitais, fluídas, abertas, flexíveis e mutantes, que se interagem velozmente no corpo social.
A lógica de funcionamento associada a estes novos dispositivos desconhece fronteiras, atravessa os espaços e tempos, com uma constância dominadora, veloz e com resultados a curto prazo. Este novo regime de poder-saber está ligada ao pós-industrial de cunho meramente capitalista.
Em 1993, Gareth Branyn mencionou a emergência de uma tecnomitologia que consiste em formatar o corpo humano para ele responder as exigências de uma era pós-humana, num artigo intitulado “The desire to be wired”.
Em 1996, Hayles afirmou que o pós-humano representa a construção de um corpo como parte de um circuito integrado de informação e matéria que inclui componentes humanos e não humanos, tanto chips de silício como tecidos orgânicos, bits de informação e bits de carne e osso. Nesse sentido, podemos afirmar que o pós-humano pode ser considerado mais que humano, ou seja transhumano.
“Este livro começa com um sonho roboticista que me pareceu um pesadelo. Eu estava lendo o livro de Hans Moravec: “Mind Children: The Future of Robot and Human Intelligence”, apreciando a variedade engenhosa de seus robôs, quando me deparei com a passagem, onde ele argumenta que em breve será possível transferir a consciência humana para um computador. Para ilustrar, ele inventa um cenário de fantasia no qual um cirurgião robô suga o cérebro humano em um tipo de lipoaspiração craniana, lendo as informações em cada camada molecular enquanto ele é retirado e transferindo as informações para um computador. No final da operação, a cavidade craniana está vazia, e o paciente, agora, está habitando o corpo metálico do computador, e desperta com a consciência dele exatamente como era antes. Como, perguntei a mim mesmo, era possível para alguém de notória inteligência como Moravec, acreditar que a mente pode ser separada do corpo? Mesmo admitindo que tal separação é possível, como poderia alguém pensar que a consciência num meio totalmente diferente permaneceria inalterada, como se não tivesse nenhuma ligação com a encarnação anterior?”5
“O pós-humano quer dizer realmente o fim da humanidade. Isto é um sinal, ao invés do fim do conceito do humano, uma nova conceituação que pode melhor ser aplicada a uma fração da humanidade que tem a saúde, a força e o prazer de para se auto definir um autônomo exercendo sua vontade através de sua escolha individual”(Ibid, p.286)
Hayles dirige suas discussões em três frentes:
(a) como a informação perdeu sua corporeidade ao ser conceitualizada como uma entidade separada das formas materiais nas quais está enraizada;
31 (b) como o ciborgue foi criado à maneira de um artefato tecnológico e ícone cultural;
(c) como uma construção específica, chamada humano, está cedendo passagem para uma construção distinta chamada pós-humano.
E. Thacker, em 2003, afirmou “a lógica do informacionalismo essencialista é a seguin-te: a informação equivale ao corpo, o qual, por extensão, implica que a informação equivale a biologia e/ou materialidade, o que conduz da contingencia do corpo biológico à emancipação desse corpo por meio dos potenciais técnicos da informática” num artigo da revista Cultural Critique. Queria dizer que a chave do pensamento do informacionalismo essencialista não está na descorporificação, mas em algo mais perto das conversões de arquivos e da tradução de dados.
Em 2002, E. L. Graham, no seu livro sobre Representações do pós-humano, considera que a tecnologização da natureza, dos corpos e mentes humanas – a dificuldade de se definir as fronteiras entre as espécies – complicou sobremaneira o que significa ser humano. Ela prefere o termo “pós-humano” para caracterizar as novas tecnologias do século XXI do que os termos “pós-biológico” e “condição pós-humana”.
Cary Wolfe, em seu livro “Philosofy and animal life” de 2008, busca encontrar novos paradigmas teóricos para o pós-humanismo ao sugerir que a teoria dos sistemas precisa de desconstrução, mas utilizando-se da mesma teoria dos sistemas.
Hoje o termo pós-humano é empregado de todas as formas que se queira descrever o depois do humano, inclusive o nosso maquinístico.
Decerto, questionar sobre o natural e o artificial, o homem e a máquina, se tornou lugar comum, pois já não explica ou responde a relação que é estabelecida entre o sujeito e o meio e seus desdobramentos, aí incluídos a fé, ciência, conhecimento, e relações de poder – vetores que também são atualizados no processo de conversão do mundo em bit e byte de dados. Cabe, com isto, compreender a nova ecologia do pensamento que está sendo gestada, de modo a não somente acompanhá-la em pensamento,mas em ações que contemplem a relação de aprendizagem com base na (co)autoria e (co)participação entre novas entidades: o sujeito do agora e o outro – as tecnologias da inteligência, na era ciber.
32 humano, por sua vez, trilha em direção a processos cada vez mais maquínicos, na medida em que se tem um corpo/objeto receptor de tecnologias, e um corpo/sujeito psicologicamente transformado por esses agenciamentos. Ou seja, uma condição de ser/estar pós-humano.
Muitos teóricos conceituam o pós-humano como a emergência ontológica relacionada às proposições de hibridização entre homem e máquina ou carne e silício.
Os avanços gradativos da consciência através da conexão com dispositivos múltiplos e à manipulação gradativa do DNA humano poderão resultar em mudanças drásticas na estrutura biológica da espécie.
Termos semelhantes também são usados com essa mesma intenção, Hans Moravec (1988) adotou o termo ex-humans, o artista e teórico inglês das redes telemáticas Roy Ascott (2003) fala de uma era pós-biológica “vislumbrada por ele através dessa fusão entre carne e silício e do mundo seco do silício com o mundo úmido do carbono – e da expansão da consciência pela conexão em rede”.
Dessa mesma forma, acreditamos que a ligação planetária em rede cria uma mente expandida pela somatória das inteligências conectadas
Com a emergência de uma era ciber, torna-se possível perceber a fusão de organismos naturais e artificiais convivendo num mesmo espaço tempo por um lado, bem como a convivência cotidiana e quase híbrida de ambientes paralelos como o da realidade real e o da realidade virtual. Espaço, corpo e uma sequência de vetores de uma realidade real dão sinais claros da existência de outras plataformas, fazendo com que as operações num futuro próximo a sua construção sejam impulsionadas e ou mediadas por imagens virtuais.
Desde o surgimento do computador digital e do conceito de internet, o espaço tem ganhado um novo status; e para a sua significação e sentido na contemporaneidade, também o corpo e o operativo de todas as relações de troca. Desde as questões relacionadas com a operacionalização de atividades diárias e rotineiras nos diversos setores da economia, passando pelos processos comunicacionais e educacionais, até as questões mais filosóficas e que remetem ao existencialismo pré-socrático do espaço, do corpo e da alma, religião e conhecimento, o que se pode constatar é que os desdobramentos teóricos e reflexivos contemporâneos convergem no sentido de compreender o humano dependente de tecnologia científica como nunca foi presenciado na história da humanidade.
33 computação, telecomunicações, biotecnologia e exploração do espaço. Estamos vivendo a era da singularidade.
A revolução tecnológica que estamos atravessando indica com alguma segurança que nossos estilos de vida serão fatalmente alterados, quando milhões de microchips forem espalhados em todo canto de nosso ambiente, incorporados às paredes, aos móveis, aos nossos aparelhos, nossa casa, nosso carro, penetrando na estrutura de nossas vidas, tornando-os inteligentes.
Foi justamente no terreno sedimentado por esse tipo de ficção e pelas inquietações e indagações nele presente que a expressão “pós-humano” gradativamente tomou corpo.
Expressões similares, tais como “autômata bioinformático”, “biomaquinal”, “pós-biológico”, foram aparecendo cada vez mais assiduamente em publicações de arte e cultura cibernéticas até que, em meados dos anos 1990 – todas elas consolidaram-se no caldo da cibercultura emergente. O tema comum que as une encontra-se no hibridismo do humano com algo maquínico-informático, que estende o humano para além de si. Assim, a condição pós-humana diz respeito à natureza da virtualidade, genética, vida inorgânica, ciborgues, inteligência distribuída, incorporando biologia, engenharia e sistemas de informação. Por isso mesmo, os significados mais evidentes, que são costumeiramente associados à expressão “pós-humano”, unem-se às inquietações acerca do destino biônico do corpo humano.
Os ufanistas da cibercultura o rezam como um sistema de informações, ora genético, ora neuronal, mas sempre pensando em sua matematização maquinística.
Como o chamado ciborgue, a figura do pós-humano é ao mesmo tempo uma matriz ficcional e um objetivo silencioso das políticas que estão se projetando como centrais em nosso futuro. Noutros termos, constitui um campo de confronto e intervenção de ficções literárias, crenças religiosas, estratégias militares, práticas de pesquisa, intervenções médicas, investimentos de capital, experimentação política, etc. “O ciborgue é texto, máquina, corpo e metáfora — teorizados e postos em prática em termos de comunicações.”7
O sentimento de que o processo de maquinização da vida social nos leva a imaginar que haverá um salto de qualidade no ser humano. Este sentimento maquínico não foge do conceito de ciborgue, que substituirá o humano obsoleto e imperfeito que, com suas atitudes e construções, está decretando o final de uma era romântica e cheia de emoções.
O ciborgue seria apenas o estágio intermediário de um processo evolutivo que pode
34 culminar no seu ápice, numa estrutura maquínica, para onde seriam transferidos a memória, e o melhor dos sentimentos humanos. Este tipo de futurismo parece ficcional e delirante, mas não deve ser desprezado, porque aquilo que um dia foi simples fantasia, mítica ou lendária, pode se converter em realidade muito tempo depois, considerando a história evolutiva da humanidade, como, por exemplo, o sonho humano de voar, que inspirou histórias e lendas que foram desprezadas e a conquista do espaço, com o homem pousando na lua, e em condições de atingir até outros planetas.
No passado, o homem trabalhava com vários projetos conceituais de sociedade. Isto já está sendo suplantado pelo advento da cibercultura, que está levando o homem a pensar em projetos de um mundo globalizado, mas com algumas influências locais, o que foi cunhado de “glocal” por Paul Virílio em “A arte do motor” em 1996.
Usando outros termos, Nietzsche já preconizava um mundo sem humanos, mas com uma realidade pós-humana.
Na sua obra “A Condição Pós-humana”, o artista inglês Robert Pepperell (1995) afirma que a expressão “pós-humano” pode ser empregada em três sentidos:
(i) Em primeiro lugar, para marcar o fim do período de desenvolvimento social conhecido como humanismo, de modo que pós-humano vem a significar “depois do humanismo”;
(ii) Em segundo lugar, a expressão sinaliza o fato de que nossa visão do que constitui o humano está passando por profundas transformações. O que significa sermos humanos hoje não é mais pensado da mesma maneira em que era pensado anteriormente; e
(iii) Em terceiro lugar, “pós-humano” refere-se a uma convergência geral dos organismos com as tecnologias até o ponto de tornarem-se indistinguíveis. Para ele, essas tecnologias pós-humanas são: realidade virtual (RV), comunicação global, protética e nanotecnologia, redes neurais, algoritmos genéticos, manipulação genética e vida artificial. Tudo isso junto deve representar uma nova era no desenvolvimento humano, a era pós-humana.
Neste manifesto pós-humano, Pepperell afirma: