A
IMPORTÂNCIA DO
C
LIMA DE
S
EGURANÇA
Neste apontamento vou falar-vos um pouco sobre clima de segurança e sobre o seu papel nos comportamentos de prevenção dos trabalhadores.
Ao analisar-se o que tem sido estudado e quais as preocupações que têm estado no centro das investigações na área dos comportamentos dos trabalhadores, é possível distinguir duas grandes abordagens que são complementares e não antagónicas:
Centrando a nossa atenção nos factores organizacionais e grupais e dando continuidade ao trabalho e à perspectiva multi-causal importa definir uma série de variáveis cuja importância tem vindo a ser realçada nesta nova perspectiva da segurança (Quadro 1).
Abordagem tradicional
Defendia que os comportamentos de risco dos trabalhadores e consequentes acidentes de trabalho, eram resultado de más condições mecânicas e físicas no local de trabalho e de factores associados ao próprio trabalhador, especificamente, ao erro humano.
Nova abordagem
Salienta a multi-causalidade subjacente aos comportamentos dos trabalhadores e à sinistralidade; demonstrando que para além dos factores de causalidade apontados na abordagem tradicional, existem outros, de origem organizacional (como por exemplo, o clima e cultura de segurançaorganizacional), grupal (como por exemplo, o clima de segurança grupal) e individual (como por exemplo, a percepção de risco, as atribuições causais e a experiência de acidente) que têm igualmente um importante papel na predição do comportamento dos trabalhadores.
Quadro 1 – Definições importantes
Variável Definição
Cultura de segurança organizacional
Normas, valores, crenças, procedimentos, práticas e atitudes face à segurança
(Silva, 2004)
Clima de segurança organizacional
Percepções partilhadas pelos membros de toda a organização sobre os valores, normas, crenças, procedimentos e práticas de segurança
(Silva, 2004)
Clima de segurança grupal
Percepções partilhadas pelo grupo de trabalho (trabalhadores do mesmo nível hierárquico e chefias) sobre os valores, normas, crenças, procedimentos e práticas de segurança
(Gonçalves et al., 2006)
Comportamento de segurança/risco
Acções e comportamentos que os trabalhadores demonstram durante o período de trabalho em relação à sua segurança, dos colegas e outros
(Burke et al. 2002; Neal & Griffin, 2004)
O clima de segurança é um dos factores mais estudados na abordagem organizacional e multi-causal dos acidentes de trabalho. O início do estudo do clima de segurança é marcado pelo trabalho de Zohar em 1980. Este investigador analisou a importância das percepções que os trabalhadores partilham sobre a segurança (clima de segurança) enquanto preditoras de diferentes condições de segurança nas organizações. As suas conclusões sugeriram que o clima de segurança tem implicações para o sucesso dos programas de segurança, comportamentos dos trabalhadores e sinistralidade nas organizações.
Um outro tipo de relações que têm sido estudadas incide na influência que o clima exerce sobre o comportamento individual (e.g., Hofmann & Stetzer, 1996; Griffin & Neal, 2000; Neal & Griffin, 2004). Por exemplo, o estudo de Hofman e Stetzer (1996) mostrou que o comportamento de segurança é influenciado por variáveis grupais, como a percepção que o grupo partilha sobre a implicação da direcção na segurança e o envolvimento dos trabalhadores na segurança. No mesmo sentido, mas ao nível organizacional, os estudos
de Neal e Griffin (2000) mostraram que o clima de segurança influência o comportamento dos trabalhadores face à segurança, quer para a existência de mais comportamentos de segurança, quer em termos de conformismo/obediência (compliance) em relação às exigências formais da segurança, como, por exemplo, utilizar o equipamento de protecção individual, quer em termos de participação na segurança.
Os resultados dos estudos realizados, no âmbito do projecto ImpAcTos dos Acidentes de Trabalho, coordenados pela Professora Doutora Sílvia Silva (do qual tive o prazer de fazer parte), revelam que o clima organizacional e grupal de segurança mais positivos e fortes (o que se traduz, por exemplo, numa percepção de existência de boas práticas organizacionais e de uma implicação e responsabilidade partilhadas ao nível da segurança) está associado a mais comportamentos de segurança e a menos de risco (Quadro 2).
Quadro 2 – Síntese dos principais resultados
Comportamentos de segurança dos trabalhadores Comportamentos de risco dos trabalhadores Clima organizacional de segurança Clima grupal de segurança da chefia Clima grupal de segurança dos colegas
Legenda: = associação positiva repetidamente encontrada; = associação negativa repetidamente encontrada
PREVENÇÃO/ INTERVENÇÃO
Tal como foi referido anteriormente os estudos têm vindo a apontar para a necessidade de se avaliar os climas de segurança; mostram ainda, que é necessário promover climas de segurança mais fortes e positivos que são determinantes para os comportamentos dos
trabalhadores.
Neste sentido apresento de seguida algumas medidas que as organizações podem adoptar para avaliar e promover o clima de segurança.
Diagnóstico do clima de segurança
Para conhecer o clima de segurança organizacional e de grupo, é importante utilizar instrumentos fiáveis, e existem já disponíveis diferentes questionários de diagnóstico (ver recursos).
A elaboração do diagnóstico de clima de segurança permite identificar os pontos fortes e fracos do clima de segurança organizacional ou grupal. Esta identificação permitirá uma intervenção adequada que se focalize nas verdadeiras necessidades e lacunas que a organização possui no campo da segurança, por exemplo, se no diagnóstico as pessoas considerarem que não há uma boa formação na área da segurança ou que o sistema de comunicação das questões associadas à segurança não funciona de forma eficaz, a empresa deverá desenvolver medidas no sentido de colmatar essas falhas e promover o que falta para ter um clima de segurança mais forte e positivo.
Esta avaliação do clima se segurança organizacional e grupal deve ser realizada com alguma regularidade, por exemplo, anualmente, ou de 2 em 2 anos.
Promoção de climas de segurança mais fortes e positivos
A promoção de um clima de segurança mais forte e positivo implica a percepção da existência de práticas organizacionais que reforcem a segurança (por exemplo, ao nível da formação, equipamentos, sistema de comunicação acerca segurança, aprendizagem com os acidentes de trabalho), a percepção de que as chefias estão envolvidas na promoção da segurança e de que há um envolvimento colectivo com as questões da segurança.
A promoção de um clima de segurança organizacional positivo pode passar nomeadamente, por:
- Realizar acções de formação para que os trabalhadores adquiram conhecimentos sobre os riscos que correm e sobre as melhores formas de desempenhar o trabalho em segurança;
- Melhorar as condições de trabalho, por exemplo, ao nível no equipamento de segurança e da eficácia do departamento de segurança (desenvolver um gabinete caso não exista);
- Melhorar o sistema de comunicação de segurança de modo a que todos os trabalhadores tenham acesso às informações sobre o que se passa em termos de segurança;
- Fomentar a aprendizagem organizacional com os acidentes de trabalho;
- Fomentar o envolvimento dos trabalhadores nas questões da segurança, para tal é essencial que os trabalhadores sejam envolvidos na planificação dos planos de segurança, “abrindo” espaço de debate e sugestões a todos os trabalhadores (por exemplo, utilizar a “caixa de sugestões de segurança”), promover reuniões regulares de debate das condições de segurança, deixando cada um falar da sua experiência e das necessidades que sente aquando da execução da sua actividade profissional (por exemplo, necessidades ao nível do equipamento, condições físicas de segurança ou formação).
1.1.1.1.1.1.1 RECURSOS
Foram seleccionados alguns exemplos de diferentes recursos que podem ser úteis para aprofundar algumas questões e retirar algumas ideias para melhorar a segurança no trabalho nas empresas portuguesas.
Instrumentos de diagnóstico de clima de segurança
Têm sido desenvolvidos uma série de instrumentos que visam ajudar as organizações a elaborar um diagnóstico da situação ao nível da segurança. Indicamos dois exemplos que foram desenvolvidos pelos membros da nossa equipa de investigação:
- ICOS (Inventário de Clima Organizacional e de Segurança) www.impactos.com.pt
Silva, S., Lima, L., & Baptista, C. OSCI: an organizational and safety climate inventory.
Safety Science, 42 (2004), 205-220.
Este inventário permite o estabelecimento de um perfil acerca das percepções partilhadas acerca das características da empresa em geral e da segurança em particular.
- Bateria Valência Prevacc 2003
http://www.uv.es/~meliajl/Segur/Prevacc.htm
Melià, J., & Sesé, A. (1999). La medida del clima de seguridad y salud laboral. Anales
Esta bateria é constituída por um conjunto estruturado de instrumentos para avaliar a segurança nas organizações.
1.1.1.1.1.1.1.1 Artigos e livros aconselhados
Os artigos/ livros aqui apresentados foram seleccionados com base no critério de apresentarem sugestões de prevenção e avaliação da intervenção que podem ser utilizadas pelas organizações.
Feyer, A. M. & Williamson, A. (Eds.) (1989) .Occupational Injury: Risk, Prevention and
Intervention. London: Taylor & Francis.
Meliá, J.L. (1999). Medición y Métodos de Intervención en Psicología de la Seguridad y Prevención de Accidentes. Revista de Psicología del Trabajo y de las Organizaciones,
15(2).
Mukherjee, S., Overman, L., Leviton, L., & Hilyer, B. (2000). Evaluation of worker safety health training. American Journal of Industrial Medicine, 38, 155-163.
Quick, J.C & Tetrick, L.E. (Eds.) (2003). Handbook of Occupational Health Psychology. Washington: American Psychological Association.
Robson, L.S., Shannon, H.S., Goldenhar, L.M., & Hale, A. R. (2001). Guide to Evaluating
the Effectiveness of Strategies for Preventing Work Injuries: How to show whether a
safety intervention really works. Disponível em
www.monash.edu.au/muarc/IPSO/safebk/safetybk.pdf.
Shannon, H.S., Robson, L.S., & Guastello, S.J. (1999). Methodological criteria for evaluating occupational safety intervention research. Safety Science, 31, 161-179.