Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais, realizada sob a orientação científica da Professora Doutora Isabel Baltazar e do Professor Doutor
DECLARAÇÕES
Declaro que esta Dissertação se encontra em condições de ser apreciada (o) pelo júri a designar.
O candidato,
____________________
Lisboa, .... de ... de ...
Declaro que esta Dissertação se encontra em condições de ser apreciada (o) pelo júri a designar.
O(A) orientador(a),
____________________
Dedico esta dissertação a todos os que ao longo dos anos contribuíram para a evolução e sucesso da União Europeia e que viram nela uma fonte de novas oportunidades para Portugal e os Portugueses.
AGRADECIMENTOS
Com esta última etapa concluo o meu mestrado, bem como a minha vida estudantil, iniciando assim um percurso profissional. Mas o caminho até aqui não foi fácil e, assim, necessito aqui de deixar, o mais sincero agradecimento a todos os que participaram comigo neste longa etapa que agora termina.
São muitas as pessoas a quem devo este agradecimento. Devo-o em primeiro lugar a toda a minha família, personificada na minha Mãe, Pai e Avó Manuela por todo o longo apoio ao longo de vários anos.
Um agradecimento também aos meus amigos e amigas que em vários momentos e situações, souberam dar o seu apoio e proporcionar imensos momentos que jamais esquecerei.
Por fim ainda, uma palavra de agradecimento à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH-UNL), ao corpo docente, especialmente a todos os meus professores pela formação e possibilidade de aumentar os meus conhecimentos nesta área. De entre todos, no entanto, não poderia deixar de individualizar este agradecimento na pessoa da Dra. Isabel Baltazar que, como minha coordenadora tanto me ajudou no decurso deste ano, mostrando-me novas direcções e novas ideias, de forma a melhorar o resultado final da dissertação.
RESUMO
A relação de Portugal com as várias comunidades europeias que permitiu a adesão em 1986 foi um dos mais importantes factos da história recente de Portugal. Esta adesão foi o resultado de um longo período de negociações que tinham como objectivo a integração de Portugal num bloco económico e político forte que viesse assegurar um longo período de prosperidade e de estabilidade para Portugal. A adesão às comunidades não foi, no entanto, um processo linear e desprovido de dificuldades e durante anos resultou numa divisão entre as elites internas e partidos políticos e pela sua importância levanta até hoje várias questões sobre o seu sucesso e utilidade prática.
PALAVRAS-CHAVE: CEE, Portugal, adesão, negociações, relações, Comunidades, Europa
ABSTRACT
The relationship between Portugal and the various European communities that allowed a membership in 1986 was one of the most important facts of recent history of Portugal. This join was the result of a long period of negotiations which aim at integration of Portugal in a strong political and economic bloc that would ensure a long period of prosperity and stability for Portugal. Adherence to the communities was not, however, a linear process, devoid of difficulties and for years resulted in a division between the domestic elites and political parties and its importance today, raises several questions about its success and practical usefulness.
KEYWORDS: EEC, Portugal, join, negotiations, relations, communities, Europe
ÍNDICE
Introdução………1
Capítulo 1: Operacionalização 1.1. Formulação do Problema……….……….….……….…3
1.2. Metodologia: Técnicas e Tratamento de dados……...5
Capítulo 2: Portugal e a Europa na Primavera Marcelista 2.1. Salazar e a Europa……….………..….……..7
2.2 O Marcelismo e a Europa………...………….…..10
2.3 Aproximações á Europa………..…...14
2.4 Reacções a uma associação com as Comunidades Europeias………17
2.5 Considerações Finais………..20
Capítulo 3: Portugal e a Europa Durante o PREC 3.1 Portugal e o PREC………... 22
3.2 Os Acordos Comerciais Durante o PREC……….…..……….…....23
3.3 As Pressões Externas………... 24
3.4 A Evolução Política Nacional Durante o PREC……….………...……..26
3.5 Os Partidos Políticos Portugueses e a CEE 3.5.1 Partido Socialista……….………..…...35
3.5.2 Partido Comunista Português……….………..…..…...37
3.5.3 Partido Social-Democrata………...……..39
3.5.4 Partido Popular………...………40
3.6 1976: As Eleições Legislativas………..……….……...41
3.7 Considerações Finais………43
Capítulo 4: Debates Parlamentares sobre a Adesão (1977-1985) 4.1 Introdução……….44
4.3 Os Longos Anos de Negociações………..……..…….48
4.4 O Fim das Negociações………..…….……63
4.5 Considerações Finais……….72
Capítulo 5: Os Actores e a Adesão 5.1 Os Testemunhos……….………….………..74
Conclusão……….…….……..84
Bibliografia………...……..…..89
1 Introdução
Com a realização desta dissertação, procurarei traçar um cenário das relações das últimas décadas entre Portugal e a Europa, com especial enfâse para o período de negociações com vista à adesão do país às Comunidades Europeias encetadas após a revolução de Abril de 1974.
Se até ao 25 de Abril de 1974 Portugal sempre manteve uma postura de isolacionismo em relação ao continente em que se inseria, em virtude de uma relação de preferência com as suas colónias, ou províncias ultramarinas como passariam a ser chamadas, e pela sua vocação iminentemente atlântica.
A partir de 1974 e com a chegada da democracia, a voz do povo passou a ser escutada, o que a par com o desenvolvimento histórico registado no mundo, a nível económico, durante os anos 70, levou a que o caminho europeu se reabrisse, de forma total, para Portugal, como a opção mais valiosa para o desenvolvimento do país, pelo menos no pensamento de alguns, a maioria, sem que no entanto, tenha sempre sofrido uma oposição forte e constante de alguns sectores.
A importância de um bloco socioeconómico com tal dimensão como o das Comunidades Europeias é crucial para Portugal na medida em que o nosso país goza de uma dimensão geográfica deveras reduzida, quase sem parceiros fronteiriços (há apenas a Espanha) com um mercado curto e um poder económico frágil resultado de políticas económicas erróneas provenientes do mercantilismo do século XVI.
Portugal necessita dos mercados europeus para fomentar as suas exportações bem como dos fundos europeus da mais variada ordem. Se não estivesse integrado na União Europeia, Portugal estaria hoje submetido às leis de um mercado internacional com uma regulação bastante limitada, com uma moeda própria profundamente desvalorizada e sobrevivendo às custas de fundos internacionais como o Fundo Monetário Internacional, e exposto às pesadas formas de amortização de dívidas que estes fundos impõem aos países aderentes.
2 Portugal está, assim, inserido num bloco político-económico por sua vontade mas também por necessidade.
Assim, nesta dissertação começarei por apreciar as relações e os contactos existentes entre o Portugal de Salazar e a Europa que, aos poucos se formava após a segunda guerra mundial, e onde se poderá ver a posição de distância que o Estado Novo sempre resguardou, seguindo muitas vezes as posições da Inglaterra em relação às Comunidades.
No segundo capítulo atentarei no período conhecido como PREC, período onde os vários partidos que viriam a formar a espinha dorsal da assembleia da república portuguesa foram criados ou legalizados e porei em destaque as suas ideias e sentimentos em relação às Comunidades.
A análise às posições e opiniões expressas pelos actores que participaram nas negociações propriamente ditas para a adesão, bem como os debates parlamentares sobre o tema, ajudarão a perceber quais as maiores dificuldades que a adesão trouxe a Portugal e quais as maiores preocupações que nos guardou.
Após esta análise restarão dados suficientes para se perceber se esta adesão foi realmente a melhor, ou até a única opção possível para Portugal após a revolução; se o período de negociações foi bem organizado e elaborado pelos seus actores ou o que poderia ter sido feito diferente; e em última análise poder-se-á concluir até que ponto este processo teve um claro beneficio para o país.
3 Capitulo 1: Operacionalização
1.1 – Formulação do Problema
O tema que dá origem a esta dissertação «Portugal e a Europa: Balanço e Perspectivas» manifesta-se em torno da procura de uma clarificação de todo um período histórico bastante importante para Portugal através da explanação de todo o processo de adesão e da relação entre Portugal e o Mercado Comum. A análise a este problema, seja ela sustentada em questões ideológicas ou mesmo mais directas ao nível de dados económicos ou graus de satisfação, pode ser variada e existem nesta questão diversas formas e pesos de concordância ou discordância.
Desta forma, proponho-me a avaliar o grau de satisfação do ponto de vista português em relação à Europa desde antes da revolução de 1974 até 1986. A partir da situação portuguesa de pré-adesão (em 1986) poderei partir para as mudanças que tiveram lugar no período pós-adesão e se essas transformações foram positivas do ponto de vista económico e social.
Darei relevância à relação de Portugal e a Europa desde o tempo do Estado Novo, passando pela chamada primavera marcelista, período no qual se estabeleceu o primeiro acordo e se notou uma maior abertura do país à então Europa dos seis. Entre outros indicadores, terei como orientação o posicionamento dos partidos políticos portugueses ao longo dos anos, ou seja, de 1974 até meados dos anos 80 e farei uma análise das discussões na assembleia da república durante o longo período de negociações que durou de 1977 até 1985.
Esquematicamente irei elaborar a minha dissertação de acordo com a seguinte estrutura:
- Uma primeira parte onde descreverei a relação de Portugal com a Europa e com as instituições internacionais durante o período do Estado Novo período esse que se caracteriza por uma política de total isolacionismo do cenário internacional.
4 - Continuarei analisando o período da primavera marcelista no qual Portugal se abre ligeiramente ao exterior, momento esse em que tem lugar o primeiro acordo comercial com a CEE, assinado em 1972.
- De seguida, abordarei as transformações internas que ocorreram após a revolução de Abril, avaliando a forma como estas alterações alteraram a relação de Portugal com o exterior e darei enfâse ao que os novos partidos políticos tinham a dizer sobre as Comunidades e o papel que Portugal deveria ter nelas.
- Após esta fase abordarei as discussões na Assembleia da República desde 1977 até á discussão final em meados de 1985 onde se verificará que a larga maioria dos partidos (espelhando a larga maioria da população portuguesa) se mostra favorável à adesão portuguesa.
- Por fim, terminarei dando espaço a uma reflexão onde alguns dos principais actores de todo esta processo o explicam a partir da sua própria experiência.
Com a elaboração deste trabalho, fica traçada toda a experiência Portuguesa de adesão a um grande bloco político e económico que veio mudar a história recente do país. Assim, analisando o ponto de onde o país iniciou esta aproximação, tornar-se-á mais fácil chegar a conclusões concretas sobre os verdadeiros resultados obtidos para o progresso das condições de vida em Portugal.
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1.2 – Metodologia: Técnicas e Tratamento de Dados
A pesquisa e recolha de informação com vista à elaboração deste trabalho de investigação serão desenvolvidas através da consulta de vários tipos de fontes. Consultarei sobretudo livros, artigos de opinião, publicações de jornais periódicos e vários recursos electrónicos.
Este trabalho não recorrerá a materiais tais como entrevistas ou inquéritos, pois é na sua essência, um trabalho de contextualização histórica e basear-se-á, essencialmente, num método de consulta bibliográfica / documental através de fontes primárias e secundárias desde textos de opinião ou de informação a livros. Sendo assim, será um trabalho eminentemente de observação que resultará na minha própria interpretação dos dados recolhidos.
O tema da adesão será, pois, discutido com base nas minhas leituras sobre a matéria dos partidos políticos, da necessidade de se inserir Portugal num bloco económico ocidental como forma de se evitar o aparecimento de uma “Cuba” no espaço europeu e sobre o aventado desenvolvimento do país no período pós-adesão.
No que toca ás posições dos partidos políticos relativamente à adesão, a minha principal fonte serão livros acerca da relação de Portugal com a Europa, actas e discursos na assembleia da república e, também, alguns recursos electrónicos. Os discursos políticos são, no entanto, de grande importância nesta parte da exposição porque ajudam a explicar na primeira pessoa quais as opiniões e envolvimento que vários actores tiveram em todo o processo. Esses discursos podem ser encontrados através dos recursos electrónicos mas, também, recorrendo a jornais periódicos da época.
Sobre a necessidade que havia de inserir o país numa organização internacional para evitar a ameaça do comunismo recorrerei, uma vez mais, e maioritariamente a livros especializados podendo ainda recorrer a alguns recursos electrónicos.
A real conclusão sobre a resposta à questão que está na base deste trabalho, a aferição do sucesso da adesão de Portugal à CEE será encontrada essencialmente a partir da minha análise sobre as pesquisas realizadas em bibliografia e websites
6 especializados de economia e política de variadas instituições tais como os sítios da Assembleia da República, Comissão Europeia, ou do Eurostat. Os Artigos de opinião também serão tidos em conta sempre que se demonstrem fidedignos e de qualidade na exploração da temática do desenvolvimento português nos vinte anos que se seguiram á adesão de 1986.
Este tema tem uma base eminentemente teórica, com um elevado grau de exposição histórica, contextualização e explicação dos objectos em análise. As opiniões acerca do assunto poderão ser diversas e nem sempre condizentes com a realidade dos factos, o que obrigará a uma análise do conteúdo alicerçada numa análise de discurso de forma a poder confrontar com factos certas opiniões mais vincadas politicamente.
Os objectivos da investigação passam por criar toda uma problemática acerca de um assunto e recolher, de seguida, de várias fontes, informações que me permitam chegar a uma conclusão fidedigna sobre a real natureza da problemática criada. E essa conclusão terá que ser tomada com base em textos maioritariamente expositivos o que, de certa forma, acaba por delinear o que será o trabalho quanto ao seu formato e quanto ao tratamento das fontes e suas informações.
Assim, as informações recolhidas serão alvo de uma análise de conteúdos tratados de forma qualitativa, pois eles servir-me-ão para expor e explicar os pressupostos teóricos do meu trabalho e assim, então, chegar a uma conclusão essencialmente teórica, não sendo de descurar a possibilidade de existência de algumas conclusões mais práticas devido a dados de carácter quantitativo que possam ser usados.
7 Capitulo 2 - Portugal e a Europa na Primavera Marcelista
2.1 - Salazar e a Europa
A revolução Portuguesa, que veio colocar um ponto final no regime ditatorial do Estado Novo teve lugar, como é sabido, a 25 de Abril de 1974 e trouxe um Portugal livre, cujas políticas poderiam então ser alteradas de modo a abandonar certas directrizes que dominavam, por exemplo, as relações externas nacionais. Tais relações eram baseadas em delineações como a da conhecida expressão “orgulhosamente sós”, que ficou célebre como forma de mostrar que o Portugal de Salazar estava pouco interessado em associações, ou mesmo em procurar qualquer tipo de aceitação, da parte dos outros estados, que inclusivamente eram seus pares na Organização das Nações Unidas, (organização para a qual, apesar deste posicionamento, Portugal apresentou um pedido de adesão logo em 1946 e que foi recusado). Estas limitações em matéria externa teimavam em bloquear as possibilidades de desenvolvimento do país que, apesar de um forte crescimento económico nos anos 60 e inícios de 70, mostrava já um grande atraso em relação aos outros estados europeus. Países esses que, apenas 30 anos antes, tinham saído praticamente arruinados por uma grande guerra da qual o Estado Novo soube privar Portugal.
O longo consulado do Dr. António de Oliveira Salazar conseguiu, como é de conhecimento público, controlar as depauperadas finanças portuguesas da primeira república e dar-lhes uma força que até então tinha sido rara e terá até tido alguns méritos na manutenção de um imenso império ultramarino, bem para além do espaço temporal, do que fizeram outros estados Europeus.
Salazar manteve, ao longo do seu regime, uma opção clara por um distanciamento do país dos parceiros estrangeiros vendo nestes uma possível intromissão na vida política interna. Assim, qualquer tipo de associação política estava totalmente fora da vontade de Salazar. Certa vez, numa reunião de ministros da EFTA
8 (European Free Trade Association) Salazar proferiu mesmo o seguinte discurso acerca da sua visão de Portugal no mundo e na Europa mais em particular:
“Nós somos dentre os Estados europeus o mais afastado do centro de gravidade política e económica da Europa. A quem nos examina no mapa, o país pode até dar a impressão de querer separar-se da terra firme e de tentar lançar-se pelos oceanos fora. (...). Podemos considerar-nos, pelo maior peso de territórios e populações noutros continentes, quase uma nação extra-europeia”1.
Por altura deste discurso Portugal tinha, no entanto, aderido já a uma associação internacional de cariz puramente económico – a EFTA. Uma vez que uma associação política estava posta de parte, uma possível adesão ao Mercado Comum e às Comunidades Europeias era totalmente inviável e muito desagradava a Salazar e às elites da época.
Ainda assim, Salazar sabia que posicionar-se totalmente à margem a nível económico não seria benéfico para Portugal. Conseguiu assim, não sem grande cautela e indiferença pelos seus parceiros, aderir à EFTA, uma nova associação comercial liderada pelo Reino Unido, uma espécie de resposta ao mercado comum mas de muito menor ambição ao nível político.
A entrada do país na EFTA beneficiou de forma consistente as finanças do país e Portugal observou um forte crescimento económico durante os anos 60 do século passado.
Apesar deste sucesso económico alcançado com a associação à EFTA, Salazar mantinha outras opções em aberto e manteve uma política de aproximação a Inglaterra. De certa maneira, a política externa de Salazar dependia dos desenvolvimentos da política externa inglesa. Ao longo dos anos 60 a Inglaterra foi tentando uma adesão ao mercado comum. Salazar sabia que a adesão inglesa à CEE enfraqueceria irremediavelmente a EFTA e, nesse sentido, sempre que o governo inglês iniciava conversações para aderir à CEE, o governo português seguia o mesmo caminho. A 14 de Janeiro de 1963 o presidente Francês, Charles De Gaulle, interrompe as negociações de adesão da Inglaterra à CEE e Portugal interrompe também
1OLIVEIRA SALAZAR, A. “No almoço oferecido aos participantes na reunião ministerial da EFTA”,
9 imediatamente as suas conversações com a Europa dos 6. Em 1969, quando as negociações inglesas com a Europa se reabrem, são iniciadas novamente as conversações entre Portugal e a CEE, já sob a liderança de Marcello Caetano. São estas conversações iniciadas em 1969 que irão abrir caminho para os acordos de associação em1972 entre Portugal e a CEE.
No entanto, e apesar de manter as finanças do país controladas, o desenvolvimento de Portugal e das condições de vida dos Portugueses mantiveram-se baixos, principalmente ao nível de literacia da população bem como dos seus rendimentos. Portugal não era, até aos finais dos anos sessenta, um país manifestamente industrializado, permanecendo essencialmente como uma nação agrícola, característica essa que o Estado Novo não mostrava vontade de alterar. Às fracas condições de vida dos Portugueses aliavam-se outras questões como a grande opressão às liberdades públicas operadas pela polícia política, a PIDE-DGS, que mantinha constantes acções de combate às livres associações, às forças oposicionistas e democráticas bem como um rigoroso controlo dos meios de comunicação social que se estendia a todas as formas de artes elaboradas no país.
Mas o que a partir do início dos anos 60 mais contribuiu para um sentimento de revolta e insatisfação no seio da população portuguesa foi uma guerra em África com “províncias ultramarinas” que tentavam, à imagem de outras colónias que se lhes antecederam, alcançar a sua independência; a guerra do ultramar, responsável pelo envio de milhares de soldados portugueses para um confronto que, aos olhos de muitos portugueses e do mundo ocidental democrático, era profundamente injusto e revelador de um regime autoritário e desrespeitador das liberdades (da autodeterminação dos povos, neste caso, mas de muitas outras formas a nível interno). A guerra do ultramar deixou uma forte marca na memória colectiva da população portuguesa.
O mal-estar vivido num país que aos poucos, se afundava num regime, cada vez mais sustentado na imagem de uma pessoa, o Dr. Oliveira Salazar, foi demasiado forte para a sustentação inalterada do próprio regime e assim, em 1968, com a ascensão ao cargo de Presidente do Conselho pelo Prof. Dr. Marcello Caetano várias promessas de mudança no seio do regime tiveram de ser anunciadas.
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2.2 – O Marcelismo e a Europa
Em 1968, quando Marcello Caetano sucede a Salazar, inicia-se um novo período para a economia nacional, que veio a durar até ao 25 de Abril de 1974 e que, pelo menos nas palavras, anunciava uma maior abertura ao estrangeiro.
Eis a altura para iniciar uma verdadeira nova política económica que teria que passar por uma maior industrialização como forma de atingir níveis superiores de exportações bem como uma modernização de produção em Portugal, mas também nas colónias, uma vez, findas as guerras que anos antes tinham despoletado.
Um dos principais avanços, e, que demonstrava uma séria vontade de alterar a economia Portuguesa foi a assinatura de um acordo comercial com a CEE em 1972, acordo esse que durou para lá da revolução de Abril e veio a ser bastante importante nos anos vindouros.
Contudo, de uma forma geral, as promessas da primavera marcelista acabaram por não se cumprir por variadas razões, algumas externas mas também internas.
As razões de carácter externo eram mais sustentadas de um ponto de vista económico, as internas de um ponto de vista político. Assim, externamente, o falhanço da nova orientação do Estado Novo deu-se devido à crise petrolífera de 73 e consequente aumento dos preços das matérias-primas que Portugal tinha que comprar no estrangeiro, e, a crise do dólar com o fim do sistema de Bretton-Woods. Internamente, as promessas de maior liberalização de Marcello Caetano esbarraram no imobilismo das camadas dirigentes do país que ainda muito se regiam pela teoria profundamente conservadora e cautelosa de Oliveira Salazar. No fundo, as perseguições continuaram, a polícia política continuou a existir, várias propostas (de uma nova geração de políticos que então despontava dentro do partido único da União Nacional, a chamada Ala Liberal) no sentido de uma maior liberalização económica e de restituição de liberdades públicas continuavam a ser rejeitadas pela maioria ultra conservadora da União Nacional na Assembleia.
A Ala Liberal da União Nacional era, assim, uma facção de cerca de 30 deputados que a partir dos finais dos anos 60 entram no partido único do regime
11 altamente motivados pelas propostas de renovação política e económica de Marcello Caetano. Entre os deputados que formavam a Ala Liberal encontram-se vários nomes que, anos mais tarde, viriam a fundar o Partido Popular Democrático (PPD) e vários deles viriam a ter papéis importantes na adesão de Portugal à CEE como sejam Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão ou Mota Amaral.
Entre as várias propostas apresentadas pela Ala Liberal aquando do projecto de revisão constitucional de 1970 destacam-se a liberdade de imprensa; fim dos entraves às liberdades públicas de associação; a extinção dos tribunais plenários; o fim da censura; o direito à emigração ou a restauração do sufrágio eleitoral nas eleições para o Presidente da República.
Uma após a outra, todas estas propostas e outras, foram sendo rejeitadas pela maioria conservadora da Assembleia.
A resposta repressiva do regime às tentativas de tornar Portugal uma democracia ocidental não se fez esperar. Nos anos de 1970 e 1971 as detenções políticas sofreram um aumento, os casos de violência multiplicavam-se e Sá Carneiro dava voz na assembleia as denúncias destes casos.
Esta situação de imobilismo levou então o líder da Ala Liberal, Sá Carneiro a abandonar permanentemente o cargo de deputado em 1973 com a célebre frase “É o fim!”. O acto de Sá Carneiro foi nos meses seguintes adoptado por outros deputados da Ala Liberal, chegando assim ao fim a ilusão da primavera marcelista quando estávamos a um ano da revolução que veio pôr termo ao estado novo.
Como vimos acima, a ascensão ao poder de Marcello Caetano em Setembro de 1968 acabou por não resolver, no aspecto político, os vários problemas de fundo do estado novo; mantinha-se o partido único – a União Nacional – mantinha-se o sistema repressivo e mantinha-se um sistema eleitoral viciado.
Ainda assim, neste período de 1968 a 1974 interessa falar daquilo que no campo económico foi feito pelo regime marcelista. Estas alterações foram, os primeiros sinais de uma aproximação definitiva de Portugal à Europa, ainda que não tenha sido por profunda convicção.
12 O modelo seguido por Salazar nos anos 60, assente numa parceria comercial associando Portugal à EFTA serviu para fomentar alguma industrialização e aumentar as exportações do país. No entanto, esta associação foi sempre travada por uma política externa de separação de Portugal em relação aos outros, procurando-se sempre a defesa de um nacionalismo e, assim, uma excessiva protecção da indústria portuguesa impossibilitando uma real integração de Portugal numa organização internacional.
Assim, este sistema acabou por falhar no que toca a tornar o país num estado industrializado tal como defendia Rogério Martins em 1970 ao afirmar “o regime industrial que vigorou no nosso país no último quarto de século nem permitiu que nos aproximássemos do conjunto de países Europeus economicamente avançados, diminuindo a distância que deles nos separava, nem melhorou a nossa posição em relação aos outros”2 Mais, enquanto se falhava na industrialização do país, acabou por se descurar o sector agrícola Português. O nível de rendimento médio Português também acabou por não ter o desenvolvimento esperado e os resultados foram uma alta taxa de emigração ao longo da década de 60 (principalmente para os países da Europa central que mostravam nesta década uma grande pujança alicerçada já no mercado comum europeu), bem como um elevado grau de disparidade no desenvolvimento regional do país.
Assim, nos primeiros anos do seu consulado, o governo de Marcello Caetano assiste a dois destinos distintos da EFTA e do mercado comum.
A EFTA começava a perder forças dada a sua limitada abrangência de territórios e potencial económico e tinha o seu destino selado desde que o Reino Unido (a grande sustentação da EFTA) tinha anunciado a sua intenção de aderir ao mercado comum, intenção essa que vinha sendo negada pela França de De Gaulle (levando a momentos caricatos da história da CEE como o episódio da política da cadeira vazia).
2 MARTINS, Rogério. Caminho de País Novo. Lisboa: Ed. do Autor, 1970.
13 No entanto, essa pretensão Inglesa acabou por se tornar realidade, no início dos anos 70, deixando a EFTA órfã e destinada a ser apenas um pequena e marginal associação comercial de estados a levitar em torno da CEE.
Por outro lado, a CEE apresentava nos finais dos anos 60 uma grande projecção e desenvolvimento. Em 1 de Julho de 1968 entra em vigor a união aduaneira e a 15 de Outubro é aprovada a livre circulação de trabalhadores entre o espaço dos seis. Em Dezembro de 1969 os líderes dos seis, na cimeira de Haia, acordam sobre a completa aplicação do Tratado de Roma (1957) através de várias medidas como a criação de uma união económica e monetária, o aumento dos poderes do parlamento europeu e a preparação, precisamente, de um alargamento que viria a integrar o Reino Unido (a par da Irlanda e Dinamarca) na CEE, enfraquecendo definitivamente a EFTA.
Perante esta situação, Marcello Caetano opera algumas mudanças no seu concelho de ministros e, assim, em Março de 69 entram para o governo nomes como Xavier Pintado ou Rogério Martins que começam a defender uma maior aproximação à CEE. A ala liberal da Assembleia também começa, por esta altura, a pressionar o governo com vista a uma integração com a Europa, bem como o abandono de certas práticas do regime.
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2.3 – Aproximações à Europa
Em 23 de Março de 1970 é criada uma Comissão de estudos sobre a Integração Económica Europeia que tinha por objectivo avaliar a situação, à época, do país e perceber as possibilidades de uma futura adesão às Comunidades. Esta comissão era presidida pelo embaixador Ruy Teixeira Guerra, ficando com o cargo de vice-presidente o embaixador José Calvet de Magalhães e contando ainda com João Cravinho, Silva Lopes ou Castro Caldas, entre outros.
A mera criação desta comissão parece-me uma prova cabal de que pelo menos o governo Português pensou, ao mais alto nível, numa adesão à CEE, caso contrário jamais teria sido possível a criação de tal comissão num regime que recorde-se, permanecia repressivo e ultranacionalista. Mais, foi após a análise feita por esta comissão que o novo ministro dos negócios estrangeiros português, Rui Patrício, pôde iniciar conversações com o Conselho de ministros da CEE com vista a futuros acordos.
A 28 de Maio de 1970 é então entregue, pelo governo Português á CEE, um memorando no qual afirma o possível interesse de Portugal em aderir a esta, após um período de negociações que o governo Português estaria interessado em encetar. É a partir deste memorando que se iniciam as aproximações que iriam culminar no acordo de associação à CEE de 1972.
Esta aproximação, como vinha sendo hábito, não era no entanto consensual nem reunia o apoio de todo o sector político do estado e ainda menos das elites que sustentavam o regime. Entre as forças da “continuidade” destaque para o então ministro dos negócios estrangeiros Franco Nogueira que afirmava, em 1969, que os últimos contactos com a CEE datavam de 19623. No lado oposto a Franco Nogueira estava, por exemplo, Rogério Martins que acerca da indústria portuguesa e do seu futuro necessariamente internacionalista afirmava que “Temos de andar melhor e mais depressa que nesses anos de boa memória (anos da EFTA), se queremos ser coerentes como Portugueses e cumprir ao que nos comprometemos como industriais; e sendo bons patriotas e bem informados do que se passa no mundo, ainda temos de
15 estugar mais o passo, porque taxas que nos aproximem da Europa além-fronteiras deviam rondar os 15 por cento. O tempo é de acção eficaz. Por aí passa o nosso modo de defender a pátria e dar vigor á Nação”4.
O relatório final, feito pela comissão encabeçada pelo embaixador Ruy Teixeira Guerra, é, assim, elaborado em Setembro de 1970 sendo a partir daí que se iniciam os contactos que resultariam nos acordos de 1972. Uma das principais ideias a salientar deste relatório é de que com a adesão da Inglaterra ao Mercado Comum, a EFTA ficaria esvaziada de viabilidade e acabaria por desaparecer, o que traria graves consequências para Portugal e dessa forma era prioritário que fosse alcançado um acordo com a CEE. Nesse sentido, o relatório aconselha a que nas futuras conversações com a CEE, não se exclua a possibilidade de uma adesão futura5. O relatório lembra, no entanto, que o facto de pertencermos à EFTA nos poderia dar uma boa base de sustentação para alcançarmos um bom acordo coma CEE, não ficando assim tanto na dependência da boa vontade europeia. No entanto, e uma vez mais, este relatório afirma também que caso as negociações entre a Inglaterra e o Mercado Comum fracassassem, a vida da EFTA seria prolongada e nesse sentido Portugal deveria abrandar as suas conversações também. O relatório frisa, no entanto, a baixa probabilidade de isso acontecer como em 1963.
Posto isto, caberia então a Marcello Caetano analisar e fazer a opção por uma decisão final perante tal divisão que aos poucos se ia apossando do governo Português. Mas Marcello Caetano opta por não tomar um posição clara e definitiva aceitando uma maior abertura ao estrangeiro, sem no entanto, expressar claramente uma integração na CEE como demonstra numa comunicação ao pais ao afirma aceitar “com prazer os capitais e a técnica estrangeiros quando efectivamente representem um contributo válido para a nossa economia: sobretudo se entrar, na verdade, capital, e se com ele vier técnica que nos enriqueça”6.
Ao longo do ano de 1971 foram acontecendo vários contactos entre Portugal e a CEE. No entanto só a 17 de Dezembro foram abertas oficialmente as negociações
4
MARTINS, Rogério. “Tempo Imperfeito”. Lisboa: Ed. Do Autor. 1973.
5
Relatório da Comissão Interministerial de Cooperação Económica Externa, p. 136. 1970.
6
CAETANO, Marcello. “Vamos conversar em família…” em Pelo Futuro de Portugal. Lisboa: Ed. Verbo, 1969.
16 entre as partes que mais tarde levaram á assinatura dos acordos de Bruxelas a 22 de Julho de 1972. Para além de Portugal, também a Áustria, a Islândia, a Suécia e a Suíça se associam ao Mercado Comum. Obviamente, a assinatura destes acordos, pelo lado de Portugal, se deveu à adesão plena no Mercado Comum da Inglaterra a par da Dinamarca e da Irlanda em Janeiro do mesmo ano, enfraquecendo a EFTA, e, não por uma vontade expressa de pertencer às Comunidades.
Desta forma, a associação Portuguesa ao Mercado Comum foi a forma de aliviar o país do enfraquecimento da EFTA e a maneira de o harmonizar nas suas relações económicas externas com a de outros países europeus.
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2.4 – As Reacções a uma Associação com as Comunidades Europeias
Foi assim, com natural satisfação, que o ministro dos negócios estrangeiros Português apresentou os acordos de 1972 com as comunidades:
“Referi, claramente, em 24 de Novembro de 1970, aquando do início dos nossos contactos, que Portugal estava disposto a ir o mais longe possível relativamente às relações com as Comunidades. Os resultados obtidos permitem afirmar que ultrapassámos uma etapa importante na via do grande destino que é o de todos nós, ou seja, estreitar os laços entre os países da Europa ocidental. *…+ Com efeito, acabámos de estabelecer conjuntamente *…+ um vasto espaço europeu no que diz respeito às trocas de produtos industriais. Isto representa um passo extremamente importante na via da integração da Europa. *…+ Ao longo das negociações, sublinhámos o peso da nossa agricultura no comércio externo português e a importância para Portugal de ver respeitado o princípio de não recuar no grau de liberalização das trocas já alcançado na Europa. Estou firmemente convencido de que a marcha do tempo e a experiência adquirida nos permitirão, na devida altura, fazer com que certas necessidades da economia portuguesa e certas disparidades de desenvolvimento, nomeadamente no que concerne a tecnologia, possam ser consideradas, de forma a satisfazer tanto os interesses do meu país como os das Comunidades. Neste momento, não queria deixar de sublinhar que muitas das disposições inseridas nos acordos irão facilitar consideravelmente o indispensável progresso da industrialização do meu país.”7
No entanto, os acordos de Bruxelas são rapidamente explicados, pela propaganda do governo aos Portugueses, como tendo uma base de associação puramente no campo económico e com os quais Portugal não perderia, de forma alguma, a sua soberania. É nesse quesito que se centram as preocupações das elites Portuguesas.
Marcello Caetano considera sobre estes acordos que: "graças a eles, encontram-se algumas soluções globais para o presente e ganha-se tempo para tomar
7PATRICIO, Rui. Discurso do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal na cerimónia de assinatura
18 outras medidas, capazes de garantir um futuro melhor para o país" enquanto “não originam, sob o ponto de vista político, qualquer risco para a integridade nacional.”8
Internamente as reacções a este acordo não se fizeram esperar, da esquerda à direita.
Do espectro político mais à esquerda, a posição do Partido Comunista Português (PCP) foi de uma forte contestação afirmando que “o acordo com o Mercado Comum – acto de traição dos interesses nacionais”9 Esta posição não é, no entanto, de estranhar tendo em conta todas as posições e teses do PCP em relação ao Mercado Comum visto como um espaço de afirmação do capitalismo e de clara oposição à sua doutrina e dos seus aliados políticos como o Partido Comunista da União Soviética (PCUS).
O PCP declara, assim, a política de Marcello Caetano como uma continuação da política de Salazar mas, agora, aliando uma ditadura corporativista e colonialista aos “grupos monopolistas e ao imperialismo estrangeiro”10. Em 1972, o PCP apelida o Mercado Comum como uma “associação dominada pelos interesses das grandes potências e dos grandes monopólios internacionais, assente na exploração dos trabalhadores e dos países menos desenvolvidos” e considera que uma possível adesão faria da economia de Portugal “um joguete dos monopólios internacionais”11, como seria a vontade dos sectores corporativistas e até dos liberalizantes. Do Mercado Comum, o PCP considerava ainda não vir qualquer onda democratizadora, uma vez que o imperialismo internacional apenas faria dos trabalhadores Portugueses novos escravos de uma Europa imperial e reaccionária.
À direita, as críticas aos acordos com a CEE/CECA centravam-se no facto de uma política deliberadamente “europeísta” se ter de pautar pelo abandono imediato de uma política ultramarina. Ora, para as elites mais conservadoras, encabeçadas à data por Franco Nogueira, a política económica de Portugal deveria manter a sua
8
CAETANO, Marcello. Actas da Câmara Corporativa, nº130, 5 de Dezembro de 1972 em Câmara Corporativa, Pareceres X Legislatura Ano 1972, Vol. III, Lisboa, INCM, 1973.
9 “Declaração da Comissão Executiva do Comité Central do Partido Comunista Português – O Acordo
com o mercado comum – Acto de traição dos interesses nacionais”, em Jornal Avante! Nº444, pp. 44-45. 5 de agosto de 1972.
10
Jornal Avante! Nº 397, p. 4, Dezembro de 1968.
19 independência de intromissões externas e centrar-se numa mais segura e dominadora política com África.
Assim, pode-se resumir a opção pelos acordos com a CEE como algo que tinha como único objectivo as relações comerciais e uma maior competitividade económica. No fundo, a assinatura destes acordos teve por base exactamente as mesmas ambições e limitações da adesão à EFTA em 1959.
Há no entanto a ressalvar neste acordo de Comércio Livre entre Portugal e a CEE a inclusão de uma “cláusula evolutiva” que defende uma maior aproximação de Portugal à CEE nos anos vindouros, chegando mesmo a aceitar-se uma política de mudança, baseada na democratização e descolonização em Portugal que, viesse a permitir uma futura adesão na sua plenitude.
Assinados em 1972, os acordos entram em vigor a 1 de Janeiro de 1973. De Janeiro de 1973 até à revolução do 25 de Abril de 1974 não houve, no entanto, tempo para se chegar a alguma conclusão sobre os resultados práticos destes acordos.
A crise económica que começava a alastrar num Portugal deixado órfão na EFTA e, principalmente, a longa guerra que parecia interminável em África serviram então de sustentação para o despoletar de um sentimento de revolta na população Portuguesa que, teve eco nas camadas militares e que precipitou o país para a revolução de Abril. A frase que deu início à revolução é uma mostra deste clima de insatisfação:
“Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativistas e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite vamos acabar com o estado a que chegámos”.12
12SALGUEIRO MAIA, F. Discurso na parada militar da Escola Prática de Cavalaria, Santarém, 25 de Abril
20
2.5 – Considerações Finais
Resumindo, a teoria política com que Salazar orientava os destino da nação era profundamente conservadora, não permitindo qualquer tipo de integração de Portugal em organizações estrangeiras. Deste modo seria mais fácil manter um estado de repressão internamente e, assim, impedir ingerências externas que pugnassem por uma democratização do país.
Para Salazar a governação de Portugal tinha que ser rígida, e, economicamente, mantendo-se o império ultramarino, todas as necessidades do país seriam fomentadas, sem haver recurso aos outros mercados mundiais. Essa visão, no entanto, começou a ser alterada e Salazar passou, nos anos 50, a ponderar uma abertura do regime, mas apenas no campo económico. A isso se deveu a adesão á EFTA. Esta adesão em nada ameaçava a soberania e a capacidade política nacionais trazendo, no entanto, um claro beneficio comercial, como se observou pelo grande crescimento económico nacional, registado nos anos 60 e princípios de 70.
Quando a Inglaterra tentou entrar para o Mercado Comum, em 1962, algo que levaria a um enfraquecimento comercial da EFTA, Salazar, a contra gosto, iniciou também contactos com o Mercado Comum. A adesão da Inglaterra foi, no entanto, rejeitada pela França e logo após, Salazar decidiu acabar as conversações nacionais com a CEE. Salazar mostrava assim não ter qualquer intenção de aderir ás Comunidades Europeias, tendo como única preocupação a saúde económica do país e indo, assim, a reboque da Inglaterra.
Com o afastamento de Salazar, passa a Presidente do Conselho o Prof. Marcello Caetano e uma onda de pequenas mudanças são anunciadas no país. Como vimos, as mudanças na prática foram pouco notadas e no geral tudo se mantém.
Um novo pedido de adesão por parte do Reino Unido ás Comunidades, no entanto, faz o governo Português criar uma Comissão de Estudos sobre a Integração Económica Europeia. Desta vez o pedido Inglês é aceite e com o abandono do Reino Unido da EFTA, Portugal teve que apressar as suas conversações com as Comunidades.
21 A partir de 1970, esta Comissão desenvolve vários contactos e negociações com a CEE e em 1972 é alcançado um primeiro Acordo Comercial entre Portugal e as Comunidades Europeias que viria a entrar em vigor a 1 de Janeiro de 1973.
22 Capitulo 3 – Portugal e a Europa Durante o PREC
3.1 - Portugal e o PREC
A revolução do 25 de Abril de 1974 vem então pôr um fim nos governos do estado novo e alterar por completo a história Portuguesa, notando-se uma nova direcção política ao nível das suas relações externas e forma de encarar a Europa.
Até ao 25 de Abril as Comunidades Europeias eram vistas, por alguns, apenas como uma solução de carácter económico que não iria despoletar uma instabilidade política interna.
Após o 25 de Abril, este entendimento altera-se e as comunidades passam a ser apreciadas como uma solução, talvez a única, para colocar Portugal no trilho das grandes democracias europeias, não descurando, obviamente, a vertente económica de um país que teria que aprender a equilibrar as suas finanças sem depender dos seus habituais mercados ultramarinos, uma vez que um dos resultados imediatos da revolução seria o reconhecimento da independência das província ultramarinas. Iniciou-se então o processo de descolonização.
Esta nova visão das comunidades como veículo de assistência não só económica, mas também política, tem a sua origem nos partidos políticos de cariz democrático e é na sua base, o resultado de um período de grave crise política interna e de fortes pressões externas. A solução para a crise política interna foi, como iremos ver mais à frente, a ingerência de factores políticos externos. Sem eles, o período do PREC em Portugal poderia ter tido um desfecho inverso ao augurado pelas forças democráticas internas e, neste sentido, uma vez resolvidas as questões pendentes, a melhor solução política para o país seria a manutenção das relações com os estados europeus no longo prazo, a nível económico e, por conseguinte, a nível político.
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3.2 – Os Acordos Comerciais Durante o PREC
Convém lembrar que, apesar da revolução, as relações de Portugal e as Comunidades não cessaram. Os acordos de 1972 continuaram em vigor no período do PREC e também nos anos seguintes e, na realidade o interesse das Comunidades em Portugal até aumentou, como iremos ver adiante, despoletado pelo medo da ascensão comunista num país europeu.
A nova formatação política das relações externas Portuguesas eram então de proceder a uma rápida adesão às Comunidades Europeias, algo que teria de ser feito por convicção e não apenas por interesse económico como defendem vários autores, Fernando Neves escreveu acerca deste assunto que “A adesão de Portugal às então Comunidades Europeias foi uma decisão eminentemente política e estratégica. Portugal assumiu o projecto de integração europeia com o objectivo de consolidar as suas instituições democráticas, modernizar as suas estruturas económicas e caminhar para a abertura da sua sociedade.”13
Assim, a manutenção destes acordos serviu, ao invés da sua anulação, para manter o dinamismo possível na economia portuguesa e a manutenção de relações económicas do país com a europa, numa altura em que essa ligação foi posta em causa e em que grande parte da força produtiva do país foi nacionalizada.
Estes acordos facilitaram, assim, o caminho que Portugal viria a traçar na rota da adesão às comunidades que só viria a estar completa em 1986.
13
NEVES, Fernando. “O Testemunho Português: O Futuro” in Vinte anos de Integração Europeia (1986-2006), Lisboa, Edições Cosmo, p. 217. 2007.
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3.3 – As Pressões Externas
O período que decorre entre o 25 de Abril de 1974 até os fins de 1975 foi de grande instabilidade política em Portugal No espaço de pouco mais de um ano e meio existiram seis governos provisórios, havendo uma forte divisão ideológica no seio da sociedade e assistia-se a uma intensa disputa pelo poder com forte intervenção do exército na vida política do país e ameaças de novas revoluções.
Entretanto, com a revolução de Abril, dá-se início ao período revolucionário em curso (PREC), época de profunda instabilidade política e de confrontação entre os novos partidos políticos então criados, o Partido Socialista (PS), o Partido Popular Democrático (PPD) e o Centro democrático e social (CDS) bem como o já existente Partido Comunista Português (PCP).
A disputa entre estes partidos em Portugal foi, em muito, uma contenda aberta a nível mundial entre duas ideologias dominantes na época: o capitalismo encabeçado pelos Estados Unidos da América e o comunismo da União Soviética.
A acção destes grandes blocos estrangeiros foi, como é defendido em inúmeros trabalhos sobre o tema, fundamental na evolução política da jovem democracia portuguesa. O PCP era, por questões ideológicas, como se sabe, apoiado pelo Partido Comunista da União Soviética ao passo que sofria a oposição dos Estados Unidos que, apoiavam os outros partidos Portugueses recusando qualquer envolvimento dos comunistas no governo.
O envolvimento do PCP nos governos provisórios, no entanto, levou a um afastamento inicial dos Estado Unidos da América em relação a Portugal. Ao tomarem conta deste envolvimento, os Americanos, deram origem ao que ficou conhecido como a “teoria da vacina” criada pelo seu secretário de estado, Henry Kissinger, que queria fazer de Portugal um exemplo para todos os outros países do sul da europa: ligações comunistas nos governos da europa não seriam toleradas pelo governo americano, e assim, esses países seriam abandonados pela América, e, o seu destino seria, irremediavelmente, o de uma crise financeira.
25 Este medo do aparecimento de uma “Cuba” no espaço europeu era então partilhado pelos americanos com os governos da europa e, em particular, pelos dois estados alemães que viam em Portugal uma definição possível para o seu futuro. Assim, a República Federal da Alemanha de Willy Brandt apoiou os partidos de evolução, especialmente o PS; já a República Democrática da Alemanha decidiu apoiar o Partido Comunista Português.
A possível vitória da facção democrática em Portugal (encabeçada pelo PS) poderia servir de exemplo e, assim, abrir caminho para uma unificação alemã sobre os pressupostos da liberdade defendidos pela parte federal da Alemanha. Uma vitória da democracia popular do PCP poderia dar mais força ao leste europeu e à República Democrática da Alemanha.
Assim se pode ver que a confrontação interna entre os vários partidos portugueses foi fomentada, essencialmente, por pressões e interesses externos. Isso mesmo é defendido por Reiner Eisfeld no seu artigo “Influências externas sobre a revolução Portuguesa” onde este afirma que “as atitudes dos EUA, NATO e CEE revelar-se-iam particularmente importantes para Portugal em virtude da deterioração económica do país”14, ou seja, as acções dos políticos portugueses neste período foram diminuídas e submetidas ás pressões ideológicas e económicas estrangeiras.
14EISFELD, Reiner ”Influencias externa sobre a revolução Portuguesa” em AA.VV., Conflitos e Mudanças
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3.4 – A Evolução Política Nacional Durante o PREC
Apesar das várias pressões externas para apoiar as forças democráticas pró-ocidentais em Portugal, a verdade era que o Partido Comunista Português, sendo o mais antigo e estruturado, estava muito bem organizado e conseguiu estar presente nos primeiros governos provisórios pós-revolução, em lugares de destaque.
No primeiro governo provisório, que dura dois meses, até cair por tentar fortalecer os poderes do Presidente da República indo contra o programa do MFA, apesar de ser liderado por Adelino Palma Carlos um democrata de centro e ser dominado por personalidades ligadas ao Partido Socialista, nota-se já a presença do líder comunista Álvaro Cunhal como ministro sem pasta.
Mas essa presença comunista foi ainda mais marcante a partir do segundo governo provisório que subiu ao poder a 18 de Julho sob a liderança de um integrante do Movimento das Forças Armadas (MFA) com ligações ao Partido, Vasco Gonçalves. O segundo governo tem também vida curta e acaba por cair a 30 de Setembro.
O terceiro governo provisório, chefiado novamente por Vasco Gonçalves, dominado maioritariamente por membros do, ou ligados ao Partido Comunista. Este terceiro governo, mais precisamente a 25 de Novembro, procede a contactos com as Comunidades Europeias com vista a uma renegociação dos acordos assinados entre estas e Portugal em 1972. As intenções desta renegociação centram-se em proceder a algumas alterações ao nível das relações comerciais existentes entre o país e as Comunidades e, também, garantir determinados direitos sociais para os emigrantes portugueses que viviam nos países que formavam as comunidades europeias, em número bem elevado na época.
Esta tentativa de renegociação foi prontamente rejeitada pelas Comunidades Europeias. Esta rejeição, parece, ter sido motivada pela falta de vontade dos líderes europeus em negociar e, assim, dar forças e credibilidade ao governo português de cunho comunista. A mensagem da Europa era clara, não tinha quaisquer ambições de cooperar com governos comunistas.
27 A renegociação dos acordos de 1972 viria, no entanto, a ser feita em Maio do ano seguinte, já após as eleições para a assembleia constituinte onde o povo português deu uma clara maioria aos partidos do centro.
Paralelamente a esta inicial rejeição ao governo de Vasco Gonçalves, os líderes europeus iam mantendo contactos com os líderes portugueses dos partidos pró-ocidentais, especialmente com o Partido Socialista e com Mário Soares. A prova de que os líderes europeus se mantinham com o apoio a Portugal, apesar de rejeitarem negociações com os governos provisórios comunistas, foi a visita do líder Alemão Willy Brandt a Portugal em Outubro de 1974. Nesta visita, o líder alemão veio declarar o seu apoio a um Portugal livre e democrático e, particularmente, ao Partido Socialista, chegando mesmo a discursar em comícios do PS. Estes apoios ajudaram a fortalecer o Partido Socialista aos olhos do país ao criarem uma sensação de pertença à família socialista europeia bem como de combate à ameaça comunista.
Este apoio que os líderes europeus ainda reservavam para Portugal não era, no entanto, partilhado do outro lado do atlântico.
Dos Estados Unidos da América chegavam ecos de uma grande desilusão com a situação em Portugal, especialmente pela subida ao poder de membros ligados ao partido comunista. O secretário de estado americano, Henry Kissinger considerava mesmo que Portugal era já um caso perdido e deveria ser esquecido, deixado sozinho com os seus gravíssimos problemas económicos e o seu governo de origem comunista. Então segundo Kissinger, o eminente colapso económico de Portugal serviria para apontar o comunismo como o “culpado” e, assim, servir de exemplo a outros países que colocassem a hipótese de ter comunistas no governo, como era então o caso da Itália de Aldo Moro.
Esta posição da Casa Branca não era, no entanto, sustentada por todo o corpo diplomático americano. O novo embaixador americano em Lisboa, Frank Carlucci, considerava que apesar da existência de forças comunistas no governo Português, as relações dos Estados Unidos com Portugal deveriam ser mantidas uma vez que, discordava de Kissinger, quanto ao perfil de alguns líderes Portugueses, não
28 considerando Vasco Gonçalves um comunista puro mas antes um “nacionalista esquerdista”15.
Carlucci tinha assim uma posição mais flexível quanto a Portugal, possivelmente por, uma vez que estava em Lisboa, poder-se aperceber de que na realidade o país não tinha caído totalmente sob influência comunista, já que havia uma larga maioria silenciosa, mas perceptível, que apoiava as forças democráticas do centro e que deviam ser apoiadas pelos Estados Unidos e não esquecidas como pretendia Henry Kissinger através da sua teoria da vacina, isolando Portugal na Organização das Nações Unidas (ONU).
Ainda assim, a posição de Kissinger manter-se-ia inflexível, mesmo após as eleições para a assembleia constituinte que deu larga maioria às forças não-comunistas, mas que eram consideradas por Kissinger como apenas uma “sondagem de opinião”16. A ideologia anticomunista, que vigorava com muita força nos Estados Unidos, não permitia qualquer tipo de complacência para com este tipo de regime. Para Kissinger, a ascensão ao poder de comunistas num país europeu poderia ter um efeito dominó em vários outros países, principalmente devido à situação económica que se vivia pós crise petrolífera de 1973.
Foi durante a vigência do terceiro governo provisório aliás, que foi nacionalizada mais de metade da capacidade produtiva do país, a 11 de Março de 1975, mais precisamente.
Na sequência desta nacionalização, Mário Soares, Ministro dos negócios estrangeiros, sai do governo. Este tipo de desenvolvimentos, obviamente, não vinha ajudar à percepção que os americanos tinham de Portugal. O Partido Comunista crescia a olhos vistos. Ainda assim, os líderes das comunidades europeias não perdiam a esperança num Portugal livre e democrático uma vez que pela tradição política europeia, estavam habituados a ter governos muito diferentes que necessitavam de negociações e de fazer compromissos, ao contrário dos americanos habituados a processos mais simples e directos.
15
GOMES, B. e MOREIRA DE SÁ, T., Carlucci vs. Kissinger – Os EUA e a Revolução Portuguesa, Lisboa, Ed. Dom Quixote, 2008.
29 Ainda assim, este apoio da Europa a Portugal, por oposição ao desinteresse americano, não era unânime nos actos. Se a Alemanha Federal, através de Willy Brandt mostrava interesse em apoiar cada vez mais Portugal, a França de Valery Giscard D´Estaing, não se comprometia com a evolução Portuguesa, estando mais interessada na evolução da Grécia. Como é sabido, as decisões em matéria de política externa no seio das Comunidades eram tomadas por unanimidade e, assim, existia um bloqueio às suas acções para com Portugal.
Perante esta situação dentro das Comunidades, a Alemanha Federal decide avançar sozinha para uma ajuda a Portugal e coloca ao dispor do ministério dos negócios estrangeiros português, liderado por Melo Antunes, a soma de 70 milhões de marcos. Mas a esta ajuda Alemã não se seguiu qualquer tipo de ajuda por parte da CEE.
Após uma reunião com o conselho da revolução, a 23 de Maio de 75, Mário Soares declara que “é impossível na Europa e em Portugal” a imposição de um estado comunista como o cubano, porque “a URSS não está nessa disposição e mesmo que o quisesse não o podia fazer”, e assim o futuro de Portugal passava então pelo auxilio da Europa se o país desse “garantias de independência nacional” e se “assegurarmos a democracia política”17.
Já Álvaro Cunhal, líder do PCP, defende existirem dois processos paralelos em Portugal: o revolucionário do PCP e o eleitoral do PS. O caminho eleitoral do PS seria o resultado de pressões externas com o objectivo de travar o processo revolucionário e que, por isso, teria o combate do PCP.
É no seio desta discussão pública entre os que defendem a via eleitoral e os que defendem a via revolucionária que é formado o quarto governo provisório. Uma vez mais, o novo governo provisório é liderado por Vasco Gonçalves, mas as pressões internacionais e os resultados da assembleia constituinte começam a surtir alguns efeitos e o governo perde alguma da sua tendência comunista.
Como resposta á ascensão das forças democráticas, o PCP e o chefe de governo apoiam-se cada vez mais no Movimento das Forças Armadas, e no acordo entre este e
17
SOARES, Mário. “Acta da Reunião do Conselho da Revolução com o Partido Socialista”, na Revista do Jornal Expresso, de 25 de Maio de 1996.
30 os partidos, de modo a sustentarem o seu poder num braço armado que lhes pudesse dar um equilíbrio de forças.
Mas a 17 de Julho de 1975 o presidente Francês veta um apoio económico da CEE a Portugal afirmando que a CEE não pode “estar a subsidiar uma aliança socialista-comunista”18. Esta posição francesa está ligada ao facto de internamente, os socialistas franceses, de François Mitterrand, também estarem com intenções de se ligarem aos comunistas franceses. Havia que impedir esta ascensão comunista em vários países europeus a todo o custo.
É então a Alemanha Federal, através do seu novo chanceler Helmut Schmidt, que avança, apoiado por Willy Brandt no suporte a Portugal, fazendo pressão junto do governo Americano para que este apoiasse as forças democráticas Portuguesas e se impedisse a União Soviética de actuar em Portugal.
Este processo de pressão internacional não é ignorado pelo PCP e Cunhal afirma que “as forças da reacção internacional exercem as mais variadas pressões sobre Portugal para que seja entravado e interrompido o processo revolucionário”19 tendo como principais objectivos “dividir o MFA, eliminar os seus elementos mais progressistas e afastar o PCP do governo provisório”20
As fortes pressões estrangeiras de líderes europeus e do embaixador americano em Lisboa acabaram por surtir efeitos às portas do verão quente de 75. Os ministros do Partido Socialista e do Partido Popular Democrático abandonam o governo e a 19 de Julho tem lugar a manifestação da fonte luminosa que junta apoiantes de todas as forças democráticas portuguesas lideradas pelo PS, o PPD e o CDS. Na noite anterior, o líder comunista exultava os seus apoiantes a não permitirem que as forças reaccionárias e amigas do imperialismo estrangeiro tomassem o poder em Portugal.
18
Conclusões do Conselho Europeu de Bruxelas de 16 e 17 de Julho de 1975, em Bulletin des Comunatés Europeénes, nº10, p. 10, 1975
19
CUNHAL, Álvaro. “Discurso no Comício do MDM no pavilhão dos Desportos em Homenagem a Valentina Terechkova,”, em A Crise Político-militar, p. 64, 3 de Junho de 1975.
20
CUNHAL, Álvaro. “Discurso do PCP na Praça do Campo Pequeno em Lisboa,”, em A Crise Político-militar, p. 9228 de Junho de 1975.
31 Sem a presença de PS e PPD no governo, a contestação ao quarto governo sobe de tom e a sua continuidade fica nas mãos do Presidente da República Costa Gomes que sofre pressões internacionais com vista ao derrube do governo durante a cimeira de Helsínquia no início de Agosto21.
A 8 de Agosto entra em funções o quinto governo, quase só formado por militares. Esta tentativa de se resolver a crise da saída do governo dos partidos democráticos dura pouco mais de um mês até o governo cair a 19 de Setembro. Esta situação é criada pelas cisões internas no MFA, dando origem ao grupo dos nove, e que prevê a separação entre o poder político e militar o que ia contra a intenção do PCP (poder político) em ter no MFA (poder militar) um braço armado da revolução. Sem um braço armado o PCP teve que aceitar um quinto governo feito á pressa, de modo a sustentar-se no governo através do líder Vasco Gonçalves.
Mas o destino estava traçado, com as forças democráticas a crescerem apoiadas pelo grupo dos nove e um PCP cada vez mais posto á margem. O PCP considera que “a grande ofensiva militar e política da direita concentraram os seus esforços num objectivo: o afastamento de Vasco Gonçalves, vendo nesse objectivo como que a abertura numa barragem de areia. Quer dizer, a água não passa, não passa até que num sítio consegue abrir caminho por um pequeno rompimento. E então a brecha alarga-se e a areia vai toda atrás”22.
É em Agosto, após vários esforços de persuasão das forças democráticas portuguesas e do próprio embaixador Frank Carlucci, que a posição americana sobre Portugal muda. Kissinger deixa de ver Portugal como parte integrante da sua “teoria da vacina” e passa a considerar o país como uma possível prova da coesão do ocidente e do seu comprometimento para com os interesses norte-americanos.
A 29 de Agosto o Presidente da República, general Costa Gomes, destitui o primeiro-ministro do quinto governo provisório, que tinha na ausência de apoio do PS e do PPD a sua maior fraqueza e põe á disposição de Vasco Gonçalves o cargo de chefe
21
Revista História, nº14, p.19. Novembro de 1995.
22
CUNHAL, Álvaro. “Intervenção na Reunião Plenária do Comité Central do PCP,” em A Crise Político-militar, p. 13910, de Agosto de 1975.
32 do estado maior-general das forças armadas. Este acto do presidente é claramente o resultado da pressão dos líderes europeus em Helsínquia alguns dias antes.
Vasco Gonçalves não chega a assumir o cargo. Sobre isto, Costa Gomes referiu que “foi uma ligeira rasteira que lhe passei (…) eu sabia que ele, como chefe do estado-maior-general das forças armadas não podia fazer nada”23.
Por estes episódios se pode compreender como as pressões internacionais da América e dos líderes europeus tiveram um papel fundamental na viragem política operada em Portugal durante o verão quente de 75.
O sexto governo aparece então liderado por Pinheiro de Azevedo. Rapidamente se percebe que este seria um governo com forte pendor de centro dominado por figuras do PS e do PPD.
Ainda assim, Álvaro Cunhal admite participar neste governo e concorda com o seu programa, como forma de manter alguma força de nível institucional para o PCP. Cunhal considerava, assim, este sexto governo como aceitável logo no início do seu processo de formação. No entanto, no fim de Setembro já demonstra uma profunda desilusão com o novo governo e com o afastamento do PCP dos principais ministérios, como o das finanças, por vontade dos partidos de centro mas também das pressões Europeias. Cunhal afirma mesmo que “se a CEE quer emprestar dinheiro a Portugal, a CEE não nos tem de dizer quem deve ser o ministro das finanças”24.
Com a formação do sexto governo, com o afastamento do PCP dos ministérios das finanças, da educação ou do trabalho e com os apoios financeiros vindo duma CEE que agora apoiava abertamente as forças democráticas portuguesas e com o 25 de Novembro e o fim das confrontações militares de esquerda e de direita, Portugal pôde enfim enveredar pelo caminho das democracias ocidentais, sem mais desvios.
Estava, assim, ultrapassado um período turbulento onde se notava “uma dimensão internacional na revolução Portuguesa”, dimensão essa que agora se abria com o objectivo de integrar Portugal a par com as outras democracias europeias.
23
GOMES, Costa. Revista História, Nº14, Novembro de 1995.
33 A conclusão que se pode tirar destes episódios e da actuação dos líderes externos só mostra que, apesar da indefinição no país, a Europa não queria perder Portugal, com vista a uma futura adesão às comunidades europeias, algo que cada vez mais era visto como inevitável pelos partidos portugueses.