ÍNDICE
ÍNDICE ... 1
SÍNTESE ... 3
INTRODUÇÃO ... 5
CAPÍTULO 1: CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA, SOCIAL E POLÍTICA ... 7
1.1. Ruína da Monarquia ... 8 1.2. Implantação da República ... 11 1.3. Ditadura Militar de 1926 ... 19 CAPÍTULO 2: O LIBERALISMO ... 22 2.1. Marcos históricos ... 23 2.2. Conceções de liberdade ... 26
2.3. Liberalismo: conceito pluridimensional ... 28
2.4. Falsa antinomia: a liberdade e a autoridade ... 29
2.5. Igualdade Jurídica versus Igualitarismo ... 30
2.6. Individualismo, jusnaturalismo e contratualismo ... 33
2.7. Estado: uma necessidade e/ou uma ameaça ... 35
2.8. Negação das posições libertária e estatista ... 38
CAPÍTULO 3: O LIBERALISMO EM RAÚL PROENÇA ... 41
3.1. Liberdade, o valor supremo ... 41
3.2. Primado do Indivíduo: no epicentro da visão liberal de Raúl Proença ... 46
3.3. Proença e a análise crítica da conjuntura política ... 47
3.4. Interpenetração das doutrinas individualista e solidarista ... 51
3.5. A liberdade e a reciprocidade ... 53
3.6. Falsa contradição: Liberdade/Autoridade ... 54
3.7. Liberdade e Igualdade: falsa dicotomia ... 55
3.8. Repúdio da conceção rousseauniana de democracia ... 58
3.10. Renúncia do liberalismo económico ... 62
3.11. Estado, um instrumento para a liberdade ... 63
CAPÍTULO 4: O SOCIALISMO ... 67
4.1. O Socialismo e a sua intenção libertadora ... 67
4.2. Socialismo: as suas variantes ... 70
4.3. Repúdio do individualismo económico, herdeiro do liberalismo ... 73
4.4. Objeções ao Socialismo ... 74
CAPÍTULO 5: O SOCIALISMO EM RAÚL PROENÇA ... 76
5.1. Socialismo democrático-liberal ... 76
5.2. Intervencionismo estatal: um postulado essencial ... 79
5.3. A noção de propriedade privada ... 81
5.4. Entrelaçamento entre o Socialismo e o Liberalismo ... 82
CONCLUSÃO ... 84
Porque, por mim, exijo absolutamente a liberdade do meu inimigo e sinto-me capaz de
dar a minha vida por ela.
Raúl Proença, «Conversa com as Novidades», in Seara Nova, n.º 257, 13 de agosto de 1931, p. 262.
SÍNTESE
Adversário feroz da débil monarquia dos finais do século XIX, Raúl Proença destacou-se como um dos maiores obreiros e intérpretes da propaganda republicana. Realçando a pretensa superioridade moral e política do regime republicano-parlamentar, denunciou, em vários órgãos da imprensa da época, os vícios e perversidades que conspurcavam o funcionamento do regime monárquico.
No entanto, não tardaria a reconhecer que muitos dos males de que padecia o novo regime remontavam já à monarquia sua predecessora.
Assente na defesa dos direitos individuais, o seu Liberalismo traduziu-se também na crítica frontal de algumas experiências governativas de nítido recorte ditatorial, anticonstitucional ou autoritário (governos de João Franco, Pimenta de Castro e de Sidónio Pais), que muito contribuíram para fazer precipitar a queda do regime republicano. Retomando alguns dos mais elementares pressupostos da mundividência iluminista e liberal, Raúl Proença, no seu persistente labor doutrinário, revelou-se um democrata vigoroso, valorizando os princípios liberais da liberdade individual e da igualdade de direitos, para além das instituições parlamentares e do necessário controlo do poder político.
Numa relação intrínseca com o seu exercício doutrinário, a sua participação cívica contra as insurreições monárquicas de Monsanto e da Monarquia do Norte (1919) é bem ilustrativa do total apreço pelo idealismo republicano-liberal. Baseado em fundamentos filosóficos, o seu heroísmo cívico dispensava a crença não só na existência de Deus, como também na imortalidade da alma, considerando-a um elemento que inibe
uma moralidade pura e exigente, além de promover uma atitude de resignação e de inferior empenho no combate pelos ideais que se defende.
Contrariando o antagonismo que os reacionários integralistas admitiam haver entre a liberdade e a igualdade, Raúl Proença privilegiou, numa lógica de respeito absoluto pelo valor da reciprocidade, o individualismo solidarista, assente na igualdade de direitos individuais entre todos, ou seja, no direito igual que todos possuem de se desenvolverem livremente.
Uma importante particularidade do seu Liberalismo é, sem dúvida, a negação de uma suposta contradição entre a autoridade e a liberdade. Longe de ser a antítese, a autoridade é condição da liberdade, sendo fundamental para assegurar que a liberdade de uns não seja uma ameaça à dos outros. Ora, nesta defesa do princípio da autoridade, está implícita não só a rejeição das teses de índole anarquista, como ainda a conceção de Estado como meio e instrumento ao serviço do livre desenvolvimento individual.
Embora o intelectual republicano defendesse o Liberalismo stricto sensu, não se absteve de impugnar a tese do Liberalismo económico, considerando-a responsável por desencadear a anarquia e a opressão económicas. Para mitigar as suas funestas consequências e estabelecer uma maior justiça distributiva, Raúl Proença acentuou a necessidade do intervencionismo estatal. Modelado pela nítida influência do trabalhismo britânico de Mac Donald e pela reflexão de Carlo Rosseli, de quem apreendeu a noção de 'Socialismo Liberal', o Socialismo que o pensador adotou, baseado na estreita articulação entre o individualismo liberal e o socialismo solidarista, teve por finalidade assegurar uma repartição mais equitativa dos bens económicos, condição fundamental para que a liberdade de todos os indivíduos pudesse florescer e desenvolver-se.
Republicano socialista de vincado recorte individualista, Raúl Proença comungou dos mesmos propósitos libertadores do Socialismo, embora não tivesse consentido, ao invés de alguns socialistas, que os mesmos pudessem ser realizados à custa da supressão dos direitos individuais, por meio de táticas e expedientes revolucionários e violentos.
INTRODUÇÃO
Na presente dissertação, ocupámo-nos de uma das figuras mais proeminentes do pensamento político português na primeira metade do século XX: Raúl Proença.
Várias foram as razões que nos deixaram fascinar por uma personalidade tão singular. Entre as mais significativas, consideramos a sua elevada envergadura intelectual, o seu arrojo polemista e crítico, a defesa vigorosa e resoluta do ideal republicano-democrático, a ousadia no empenhamento cívico, além de outras que poderíamos assinalar.
Embora os seus textos se encontrem dispersos por várias publicações e não estejam sistematizados, o que torna a sua consulta de difícil acesso, isso não nos demoveu da intenção de desenvolver um trabalho de investigação que permitisse contribuir, de alguma maneira, para um maior conhecimento do autor.
Perante um pensador cuja reflexão se estendeu aos mais diversos domínios disciplinares, especialmente à política, pedagogia, ética, antropologia e metafísica, tivemos, naturalmente, de delimitar o âmbito temático deste trabalho, para evitarmos incorrer em desnecessárias deambulações que nos fazem desviar do nosso objetivo.
Com o título «Raúl Proença, entre o Liberalismo e o Socialismo», o presente trabalho teve por finalidade expor a confluência entre as perspetivas liberal e socialista no pensamento de Raúl Proença, por entendermos serem estes os vetores fundamentais do seu vasto e denso apostolado doutrinário.
No que concerne à estruturação interna do trabalho, decidimos organizá-lo em cinco capítulos, cada um reunindo um conjunto de particulares subsecções. Mas se cada um deles se debruça sobre um determinado tema, o que lhes confere certa identidade e autonomia, não é menos verdade que existe entre todos eles um encadeamento lógico.
No primeiro capítulo, «Contextualização Histórica, Social e Política», foi nosso intuito principal descrever o enquadramento subjacente ao exercício doutrinário e militante de Raúl Proença. Com flagrante impacto na definição e evolução do universo doutrinário deste intelectual republicano, as várias incidências da realidade política, social, cultural e económica ajudaram, sobremaneira, a moldar e influenciar as suas futuras opções políticas e doutrinárias.
No segundo capítulo, foi «O Liberalismo» o enfoque da nossa investigação. De forma genérica, procurámos identificar e realçar os principais fundamentos teóricos do
Liberalismo considerado como fundador. Por óbvias exigências de rigor e clarificação, procurámos complementar a reflexão desenvolvida com a preciosa invocação de alguns dos mais representativos pensadores da tradição liberal.
A terceira parte, «O Liberalismo em Raúl Proença», teve como propósito focar a conceção liberal do autor, explorando as possíveis afinidades/ruturas com o entendimento clássico do Liberalismo. Na sua vasta produção literária, detetamos flagrantes reminiscências da mundividência liberal (defesa de valores como a liberdade e igualdade políticas), ainda que se verifique um particular distanciamento face ao Liberalismo na sua aceção estritamente económica. Imprescindível se torna também assinalar que, por detrás das opções políticas e éticas, houve a necessidade permanente de lhes aprofundar os fundamentos filosóficos. Na reflexão filosófica, a sua atitude perante a vida encontra justamente o arcaboiço perfeito.
Com o título «O Socialismo», no quarto capítulo, procurámos pôr em evidência alguns dos pressupostos mais elementares do Socialismo.
Para encerrar, no quinto e último, intitulado «O Socialismo em Raúl Proença», tentámos explicitar a componente socialista do nosso autor, aflorando alguns dos elementos da mundividência socialista da época com que Raúl Proença se identificava. Realçámos, de igual modo, a confluência entre os vários pressupostos que o doutrinário republicano assimila do Liberalismo e do Socialismo, vetores que dominam invariavelmente a sua vasta reflexão política. Como poderá observar-se, o seu Socialismo vincadamente liberal é a manifestação mais visível da simpatia que nutriu pela social-democracia, fenómeno político implantado em algumas nações europeias da época. Assente num assumido propósito liberal, é na liberdade e em ordem à liberdade que o seu Socialismo se concretiza. A desejada repartição justa dos recursos económicos não só era fundamental para garantir a todos uma maior liberdade, como também só se tornaria possível sem a coação e opressão da liberdade individual.
Este é também o momento apropriado para dirigirmos os nossos encarecidos agradecimentos à nossa orientadora Professora Doutora Celeste Natário pelo diligente apoio que nos deu durante a realização deste trabalho. Estendo ainda o agradecimento à Professora Doutora Susana Cadilha e ao José Domingos pelas suas sábias recomendações, para além de outras pessoas que eu poderia, por certo, mencionar.
1. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA, SOCIAL E POLÍTICA
Compreender a figura ímpar de Raúl Proença (1884-1941) no contexto do pensamento português, nos princípios do século XX, não é tarefa fácil. Perante um espírito verdadeiramente multifacetado (jornalista, doutrinário, polemista, crítico político, bibliotecário, escritor e inflexível democrata), somos confrontados, inevitavelmente, com um raciocínio que se encontra, não raras vezes, esparso e aparentemente desconexo entre si. No entanto, é de um pensamento situado que se trata, na medida em que surge vinculado às condições concretas da realidade, repercutindo as suas tensões, dinamismos, pulsões e vicissitudes mais visíveis, mesmo que ainda hoje algumas delas possam permanecer, em certa medida, atuais 1.
E, se todo o pensamento é situado, importa conhecer o enquadramento político, social e histórico à luz do qual as ideias e atitudes do nosso autor ganharão maior inteligibilidade.
Possuindo, todavia, algo de absolutamente originário e singular, a sua reflexão insere-se naturalmente nos mais diversos condicionamentos epocais, referindo António Reis que Raúl Proença é «Simultaneamente filho do seu tempo - doutrinário, político e cultural - e em luta contra o seu tempo» 2
.
Embora curta, a sua vida acompanhou o desenrolar de múltiplas transformações da mais distinta natureza. Importa destacar que assistiu ao declínio e derrube da monarquia liberal, à implantação e ulterior crise da 1.ª República, aos episódios de interregno ditatorial (Ditadura de Pimenta de Castro e a experiência sidonista), à
1
O confronto entre a sua vida e as várias condicionantes históricas e epocais chegaria a atingir dimensões tão heroicas quanto trágicas.
2
António Reis, Raúl Proença: Biografia de um Intelectual Político Republicano, vol. II, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Temas Portugueses, Lisboa, 2003, p. 231.
instauração da Ditadura Militar, à emergência do autoritarismo do Estado Novo e, por último, à frustração das várias tentativas de reposição do regime republicano.
1.1. Ruína da monarquia
Uma vez que as aspirações, ideais e promessas (liberdade e justiça social) trazidas pelo revolucionarismo liberal se haviam frustrado, o regime da monarquia constitucional estava moribundo, sobretudo após a crise de 1890, ameaçando sucumbir a curto prazo.
Alguns dos principais fatores que, nos finais do século XIX, vieram debilitar a imagem da monarquia, incentivando a reação hostil da oposição, foram a descrença tanto dos monárquicos como dos republicanos nas instituições monárquicas vigentes, originando uma profunda instabilidade política e governamental, bem como tensão social 3. Com a degradação crescente das condições de vida e de trabalho (insuficiência salarial e acréscimo do custo de vida), o surto da emigração e das greves intensificou-se. De igual modo, o pauperismo, a fome, a insatisfação das classes baixas, o deficiente desenvolvimento industrial e endividamento interno e externo, as múltiplas bancarrotas e défices orçamentais, bem como a censura à imprensa, favoreceram a decomposição progressiva do regime.
Mas, além disto, outras razões relevantes se perfilavam. O pseudoparlamentarismo reinante, ou seja, a subordinação servil dos parlamentares aos interesses das oligarquias e clientelas reinantes que os patrocinavam, o personalismo entendido como sobreposição das personalidades às ideias 4
, o esbanjamento, a ineficácia governativa ou administrativa na realização dos programas políticos, as conspirações, o obstrucionismo deliberado à ação governativa, o défice programático dos partidos, as múltiplas dissoluções do Parlamento, o falseamento e manipulação dos resultados eleitorais, o caciquismo, as dissidências partidárias, a corrupção política, assim como a cedência governativa perante o episódio do «Ultimato Inglês», foram
3
Veja-se Douglas Lanphier Wheeler, História política de Portugal de 1910-1926, trad. de J.O.M. e Cristina Correia, vol. 213, Publicações Europa-América, Estudos e Documentos, Mem Martins, 1978. Ao longo deste capítulo, esta é a obra que mais nos orientará, parecendo-nos apresentar uma descrição histórica fiável e rigorosa, não subestimando, claro está, outras obras que tivemos em real consideração.
4
Equivale a dizer que não se seguem os homens pelo programa que defendem, mas o oposto, ou seja, segue-se o programa pelos homens que o defendem.
alguns dos fatores que suscitaram, de forma inequívoca, o descontentamento, o pessimismo e a frustração face à monarquia, contribuindo para impulsionar o grupo dos que apoiavam a causa republicana. O declínio ou colapso do regime monárquico estava mais do que justificado e as consequências não tardariam.
Nos primeiros anos do século XX, as dissidências partidárias resultaram na fragmentação dos principais partidos monárquicos. Neste âmbito, o partido Regenerador cindira-se nos partidos Nacionalista e Regeneradores Liberais, ao passo que do grupo dos Progressistas proveio o dos Progressistas Dissidentes.
A satirização, caricaturização ou ridicularização políticas foram fenómenos suplementares que acentuaram a desilusão crescente face à política nacional.
No artigo «A reunião regeneradora», Raúl Proença fustigou o mencionado personalismo que dominava o sistema partidário monárquico 5.
A infiltração progressiva do republicanismo na sociedade portuguesa ficou a dever-se, sobremaneira, à campanha republicana de forte propaganda contra a monarquia moribunda.
A rápida republicanização de certos setores da sociedade portuguesa terá sido, assim, o resultado tanto do ativismo republicano como do fracasso da Monarquia 6. Além disto, o desfasamento e desconfiança dos próprios monárquicos face à frágil monarquia davam um forte impulso à disseminação do ideário republicano 7.
Ilustre colaborador na propaganda dos ideais republicanos, Raúl Proença desenvolveu na imprensa republicana da época, como se pode constatar, grande parte da sua intensa intervenção cívica e «militantismo republicano» 8.
Entre 1906 e 1908, o eminente jornalista de ideias tornara-se militante do Partido Republicano. Aos ideais defendidos pela monarquia contrapôs a exigência de liberdade, assim como as noções de direitos cívicos e políticos. As promessas monárquicas frustradas e as consequências funestas de muitas experiências governativas acabaram por lhe inspirar profunda desilusão, encorajando-o a enaltecer a República.
Não sendo possível aos republicanos assegurar uma imediata vitória eleitoral, por causa do caciquismo reinante que promovia a manipulação dos resultados eleitorais, eles optaram, a par do referido propagandismo republicano, por um republicanismo
5
Veja-se Vanguarda, 8 de fevereiro de 1909. 6
Veja-se Douglas Lanphier Wheeler, História política de Portugal de 1910-1926, p. 68. 7
Esta desconfiança e indiferença aparece sublinhada também em Jorge Morais, Os Últimos Dias
da Monarquia: 1908-1910: da esperança de tréguas à instauração da República, Zéfiro, Sintra, 2009.
8
António Reis, Raúl Proença: Biografia de um Intelectual Político Republicano, vol. I, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Temas Portugueses, Lisboa, 2003, p. 78.
radical e revolucionário. Em oposição aos processos eleitorais e evolutivos, a solução golpista e conspirativa, que se tinha tornado a fórmula predominantemente aceite desde o Congresso Republicano de Abril de 1909, estaria na origem de sucessivos pronunciamentos e conspirações armadas para derrubar a monarquia. A Carbonária 9, sob o impulso de Luz de Almeida, e a Maçonaria 10 deram um contributo decisivo para a organização dos preparativos revolucionários.
Embora a experiência franquista (1906-1908) tivesse surgido, de início, imbuída de um desígnio de inequívoco reformismo social, educativo e administrativo, bem como de intenções liberais, plasmadas na promessa de liberdade de opinião e de imprensa, foram inúmeros os fatores que, fazendo antever uma inflexão ditatorial, acabaram por adensar o clima de agitação e hostilidade sociais, de animosidade e revolta dos deputados republicanos oposicionistas 11. A simpatia e o fascínio iniciais com que muitos intelectuais e vários setores sociais a acolheram depressa começaram a esboroar-se. Entre as múltiplas razões para o fracasso da experiência franquista 12, consideram-se: a famosa questão dos adiantamentos feitos à família real a 30 de agosto de 1907, por decreto ditatorial; a repressão política vigente; a aprovação, a 11 de abril de 1907, de uma lei de imprensa que sujeitava também os diretores dos jornais (e não só os jornalistas) à responsabilidade penal; a suspensão da Câmara dos Deputados, em 1907, sem um prazo determinado para a sua reabertura; e, por último, a crise ou greve académica coimbrã de março de 1907 13.
O apoio incondicional que D. Carlos dera a Franco, que ficou bem expresso numa entrevista concedida a 11 de novembro de 1907, fizera dissipar, por completo, o apoio dos dirigentes dos partidos monárquicos.
Devido aos inúmeros malefícios que se lhe reconheceu, a governação ditatorial de João Franco acabou por beneficiar a causa da republicanização, sendo que muitos dos monárquicos decidiram filiar-se no Partido Republicano.
9
Sociedade secreta com intuitos revolucionários, cujas origens remontam à segunda metade do século XVIII, em França. Surgida em 1844 em Portugal, dela se serviu a Maçonaria para o assalto ao poder, tendo desempenhado um papel fulcral no derrube da monarquia.
10
Sociedade secreta que surgiu historicamente eivada de fins altruístas, tendo, atualmente, ramificações por todo o mundo.
11
Consulte-se António Reis, op. cit., vol. I, p. 77. 12
Observe-se como Douglas Lanphier Wheeler (Professor Emérito de História na Universidade de New Hampshire, Durham) retrata a governação franquista: «censurou a imprensa, aprisionou os oposicionistas e começou a pôr em prática as suas reformas por meio de decretos», tendo renunciado à premissa elementar da aprovação parlamentar ou eleitoral (História política de Portugal de 1910-1926, p. 64).
13
A agitação grevista operária em 1907 e o decreto de 20 de Junho desse mesmo ano, de caráter mais repressivo que a lei de imprensa, provocaram duras reações. As prisões arbitrárias de alguns dirigentes republicanos fizeram precipitar uma revolta republicana a 28 de janeiro de 1908, que acabou por gorar-se. O decreto assinado por D. Carlos a 31 de janeiro de 1908, que estipulava a deportação para as colónias dos que comprometiam a ordem pública, descurando, deste modo, as imunidades parlamentares, fez pressentir o regicídio. De igual modo, a politização das classes operárias urbanas, que passaram a sentir-se estimuladas para a reivindicação da mudança política, teve influência decisiva na eclosão da Revolução republicana 14
.
Após o regicídio em 1908 e eliminado o franquismo, D. Manuel tentara viabilizar uma solução governativa conciliatória, de timbre mais liberal, a que se convencionou atribuir a designação de governo de acalmação 15 de Ferreira do Amaral. Embora tivesse procurado assegurar a continuidade do regime monárquico, através de determinadas concessões face às exigências dos republicanos, de modo a apaziguar ânimos mais exaltados, esse esforço acabou por se revelar insuficiente.
1.2. Implantação da República
A 5 de outubro de 1910, o regime republicano sucedeu à decrépita monarquia. Se bem que Raúl Proença tivesse feito a apologia do regime republicano, assinalando a sua suposta superioridade moral e política, rebateu, no artigo «A Liga Nacional de Instrução» 16, a tese do messianismo político, que, neste caso, consistia na crença de que a República era a solução para todos os males, ideia veiculada pela propaganda republicana.
Mas alguns republicanos pensavam o contrário, julgando que a mudança política preveniria não só a perda das colónias africanas, como uma possível perda da
14
Consulte-se Douglas Lanphier Wheeler, op. cit., p. 55. 15
Jorge Morais, na obra Os Últimos Dias da Monarquia: 1908-1910: da esperança de tréguas à
instauração da República, deu especial destaque a esta experiência governativa. Jorge Morais é um
escritor português nascido em 1955, com inúmeros estudos e ensaios produzidos acerca do período de transição da Monarquia para a República.
16
independência a favor de Espanha e ainda uma maior degradação entre os estados europeus 17.
Esta crença messiânica na República despertou, de início, um entusiasmo, uma esperança, uma euforia imensos em muitos portugueses, não só os das classes baixas urbanas que viam na República a garantia de melhores condições sociais e económicas, como da baixa classe média, mas também de alguns setores da elite urbana 18.
Estes sentimentos iniciais haveriam, contudo, de esmorecer gradualmente, à medida que as inúmeras vicissitudes e acontecimentos políticos vinham desmentindo as mais nobres e lídimas aspirações da República.
O descontentamento, o protesto e a reivindicação dos operários por melhores condições culminaram, efetivamente, na organização de imensas greves entre 1911 e 1912. Apesar da sua ambição, os movimentos laborais que surgiram com o propósito de velar pela situação dos trabalhadores não tardaram a ser vítimas de violenta repressão governamental e policial.
Se a República tivesse cumprido as justas reivindicações dos operários por melhores condições de vida, considerados uma das suas principais bases de apoio no desmembramento da precedente monarquia, teria conseguido, com maiores probabilidades, superar a forte convulsão social existente.
O anticlericalismo radical e virulento, consubstanciado na legislação do Governo Provisório e impulsionado justamente pela ânsia de uma total secularização da vida, esteve na origem não só da polarização da nação política, como também da alienação de algum do seu apoio político 19.
Este republicanismo radical, a que normalmente se atribuía a designação de jacobinismo, reagia, em particular, contra uma eventual transigência perante a liberdade religiosa. Embora o Governo Provisório tivesse introduzido «alguma legislação mais progressiva nos campos da educação (...), reforma agrária...» 20
, resvalou para procedimentos assumidamente arbitrários e opressivos. A ação legisladora por meio de decretos, sem a necessária aprovação parlamentar, foi perfeitamente reveladora de uma flagrante viragem ditatorial.
Em novembro de 1911, após a cisão no seio do primitivo Partido Republicano
Português (PRP), criou-se a União Nacional Republicana (UNR), organizada pelos
17
Veja-se Douglas Lanphier Wheeler, op. cit., p. 59. 18 Idem, p. 81. 19 Idem, pp. 90-110. 20 Idem, pp. 95-104.
deputados republicanos mais conservadores e moderados, avessos tanto à legislação promulgada pelos deputados republicanos radicais como a muitos dos atos do seu Governo Provisório. O grupo republicano radical passaria a designar-se, doravante, o partido dos Democráticos.
Em fevereiro de 1912, a UNR, em resultado de evidentes divergências programáticas e de opinião, mas também de ambições pessoais dos dirigentes - males que remontavam já ao regime monárquico -, fragmentou-se, tendo dado origem a dois novos partidos republicanos: os Unionistas de Brito Camacho e os Evolucionistas de António José de Almeida.
Interessa ressaltar que, apesar do derrube da Monarquia, não ficara dissipada, por completo, a ameaça restauracionista. Entre 1911 e 1914, os republicanos tiveram de enfrentar várias insurreições monárquicas, como é o caso da primeira incursão de Paiva Couceiro, a 5 de outubro de 1911. Pese embora todas estas tentativas tivessem malogrado, o ímpeto dos monárquicos não desfaleceu totalmente. Na verdade, só com o fracasso das sublevações de Monsanto e da Monarquia do Norte (despoletadas em 1919) diante das forças republicanas, foi imposta a derradeira derrota das expetativas restauracionistas.
Apesar do mérito alcançado no saneamento de alguns dos problemas financeiros que há muito faziam vacilar o país, tendo apresentado um orçamento equilibrado, o primeiro governo de Afonso Costa, instituído a 9 de janeiro de 1913, debateu-se com inúmeras convulsões, agitações laborais e uma violência pública intensa 21. Perante esta realidade, o governo eleito não hesitou em reprimir as greves sindicalistas que ocorriam. Ainda que tenha pretendido garantir o equilíbrio orçamental através da célebre «lei-travão», que impedia o Parlamento de aprovar leis que implicassem o aumento das despesas do Orçamento, e tenha feito aprovar uma ambiciosa reforma fiscal, não se absteve de enveredar pela ação repressiva 22
. Devido à oposição feita ao movimento sindical, vítima de violenta repressão, e à reação clerical, muitos monárquicos e alguns setores republicanos começaram a insurgir-se.
Vários grupos militantes republicanos designados como «vigilância popular» 23 semearam o pânico, a violência pública e o terror republicano, sob a orientação, por
21
Idem, p. 121. 22
Ver António Reis, op. cit., vol. I, p. 204. 23
vezes, da Carbonária, combatendo eventuais opositores ou ameaças à ordem republicana estabelecida 24.
Os governos democráticos posteriores sentiram idênticas dificuldades em superar a agitação laboral, até porque a repressão que vitimou as organizações anarco-sindicalistas, sob cuja direção os movimentos operários atuavam, fez recrudescer a mesma animosidade laboral.
O «obstrucionismo político-parlamentar» do setor oposicionista face ao partido dominante (o dos denominados Democráticos) permitia bloquear os projetos deste último, bem como obstruir a execução e aprovação das suas legislações 25
. Os oposicionistas ao predomínio parlamentar dos democráticos, tendo abandonado a adesão às fórmulas eleitoral, parlamentar ou constitucional, preconizaram, por seu turno, a insurreição militar e os pronunciamentos, ou seja, a adoção de métodos e processos golpistas, enquanto expedientes mais eficazes para a captura do poder, mudança governativa ou alteração do rumo dos acontecimentos.
A partir de 1912, vemos começar a apoderar-se de Raúl Proença um sentimento de desilusão 26 e descrença moral na alegada capacidade e eficácia da República em realizar os seus intuitos de renovação nacional, a par do que António Reis chama também uma «desilusão relativamente ao comportamento prático dos dirigentes republicanos, depois da euforia da vitória da República» 27. A credibilidade da República começou cedo a deteriorar-se, à medida que o descontentamento de alguns setores recrudescia.
Apesar deste sentimento emergente, Proença considera, em «Carta a um Amigo do Brasil», que os governos republicanos, mesmo com todas as suas falhas, fizeram «mais do que os últimos vinte anos de anarquia» 28
.
Por seu turno, também António Sérgio, em carta a Raúl Proença, de 31 de agosto de 1913, reportava-se ao «terror republicano» associado aos atos da «Formiga Branca» e à «apologia carbonária do recurso à bomba». A esta «violência - sistema - e -
24
Segundo Douglas Lanphier Wheeler, estes grupos «reprimiram brutalmente os trabalhadores nos conflitos laborais de 1910-1912» (in História política de Portugal de 1910-1926, p. 88).
25
Consulte-se António Reis, op. cit., vol. I, p. 439. 26
O triunfo das nações democráticas na Grande Guerra, mas também a derrota do projeto sidonista e do restauracionismo monárquico em Portugal, deram a Raúl Proença uma esperança e alento momentâneos.
27
António Reis, op. cit., p. 196. 28
gosto», escrevia, contrapunha a bem distinta «violência - recurso extremo» 29, cujo uso sanciona.
Em 1914, a crise das instituições republicanas recrudescia, para tal tendo contribuído as rivalidades pessoais e as divergências partidárias baseadas mais «em função de questões pessoais do que em função de correntes reais de opinião» 30.
A pretexto do «Movimento das Espadas» 31, de 24 de janeiro de 1915, Manuel de Arriaga empossou Pimenta de Castro a formar um novo governo. Composta, na sua maioria, por militares, a nova liderança política veio a denotar um cunho assumidamente ditatorial, anticonstitucional e autoritário, patente numa atuação privada, várias vezes, da necessária sanção parlamentar. Esta experiência governativa constituiu um primeiro golpe desferido sobre o funcionamento democrático das instituições republicanas, agudizando a conjuntura de crise e adensando, mais concretamente em Proença, um estado de pessimismo face à situação, levando-o a condenar a repressão que a governação de Pimenta de Castro infligiu à supremacia do poder civil 32.
Em 1917, a Europa foi abalada por um conflito bélico de proporções outrora inimagináveis. Muitos republicanos portugueses justificavam a necessidade do país intervir na 1.ª Guerra Mundial devido ao receio perante a ameaça alemã à segurança das colónias nacionais.
Enquanto partidário da intervenção portuguesa no conflito, Raúl Proença acreditava que a conservação não só da liberdade e da dignidade, como ainda da independência nacional e do território colonial, mas também do regime republicano, dependia do triunfo da fação democrática.
Os efeitos da participação militar de Portugal no conflito foram, porém, devastadores. Os esforços económicos que o país teve de suportar fizeram despertar a hostilidade e divergência de alguns setores ou grupos oposicionistas, que já, antes, se haviam insurgido contra a deliberação dos Democráticos em intervir no mesmo. Em termos económicos e financeiros, a nação ficou mais débil e vulnerável, tendo-se agravado a inflação, a carestia de géneros alimentícios e a dívida nacional. Todas estas consequências acabaram por ter um papel relevante no agravamento da crise e no posterior advento da Ditadura Militar de 28 de maio de 1926.
29
Citado por António Reis, op. cit., vol. I, p. 207. 30 Idem, p. 217.
31
Designação pela qual ficou conhecido um protesto de oficiais contra a transferência de um seu camarada, o major monárquico Craveiro Lopes, por razões supostamente de natureza política.
Em 1917, a conjuntura social caraterizava-se pela agitação social, repressão de greves, censura à imprensa, elevado número de mortes e baixas humanas na frente de guerra, mas também pela carestia de vida e atuação do movimento operário e sindical.
Paralelamente, sobrevieram outras ameaças ou perigos para as instituições republicanas ou democracias liberais. O fortalecimento do movimento sindical nas principais nações industriais e a consolidação eleitoral dos partidos das classes trabalhadoras criaram receio nas classes conservadoras, tendo impulsionado a emergência do movimento fascista.
Além das baixas humanas na frente bélica e da frustração das classes médias fragilizadas pela crise económica e financeira, a Grande Guerra promoveu o recrudescimento dos nacionalismos e do impulso militarista, cuja valorização, pressentida no Sidonismo 33, estaria na origem do trágico desfecho da 1.ª República 34.
Os nacionalismos extremos e o militarismo surgidos no pós-guerra representaram uma ameaça à solidez e consolidação das democracias liberais e suas instituições. Em reação, vários movimentos filosóficos despertaram na Europa (o
idealismo, personalismo 35, existencialismo) acentuando o valor e dignidade da pessoa humana.
Abominando o estado de desordem e instabilidade social e política que imperava na sociedade portuguesa, diversos setores da intelectualidade republicana e da juventude universitária deixaram-se seduzir pelas ideologias e regimes autoritários que se vinham implantando na Europa, como é o caso do fascismo italiano 36.
A grande imprensa portuguesa mostrava-se fascinada pelos aparentes sucessos materiais e administrativos da governação de Mussolini, descurando, contudo, o pendor assumidamente ditatorial de que esta última se revestira.
Organizado por Sidónio Pais, o golpe militar de 5 de dezembro de 1917 trouxe consigo o forte desejo de derrubar o predomínio ou monopólio parlamentar e eleitoral dos democráticos, que se revelavam cada vez mais impotentes para introduzir as necessárias reformas para a resolução dos problemas nacionais.
33
Sob a liderança de Sidónio Pais, uma Junta Revolucionária, que integrou Machado Santos e contou com o apoio dos unionistas e a importante colaboração do movimento sindical operário, tomou posse do governo a 5 de dezembro de 1917, suspendendo o Congresso e demitindo o Presidente da República Bernardino Machado.
34
Ver António Reis, op. cit., vol. I, p. 292. 35
Divergentemente da aceção antes veiculada, o personalismo é entendido, neste caso, como a dimensão da pessoa humana.
36
Esta situação levou Raúl Proença a reiterar a censura ao défice ideológico do republicanismo dominante.
Em vigor desde 7 de dezembro do mesmo ano até 14 de dezembro de 1918, o Sidonismo, apelidado de «República Nova» 37, cedo resvalou para pretensões de teor presidencialista e autoritário, com as quais não contemporizavam, de maneira alguma, os republicanos mais convictos e inflexíveis. A partir de certa altura, a experiência sidonista 38 passou a atuar com base em decretos legislativos que ignoravam a necessidade de aprovação parlamentar.
Embora a 'República Nova' tivesse surgido com o propósito de renovar a República vigente, foi incapaz de expurgá-la dos seus vícios ditos orgânicos. A desordem civil e política, a elevada criminalidade, as diversas tentativas golpistas e as greves continuavam a ser situações recorrentes.
Enquanto a nova geração de oficiais militares enaltecia a figura de Sidónio Pais e aplaudia a experiência ditatorial do riverismo em Espanha, irrompiam, na Europa, as ideologias ou vagas antiliberais e antidemocráticas 39.
De igual modo, a politização do exército foi um fator decisivo para a falência da República. Descontente com as condições em que vivia e com a péssima reputação do Congresso, este setor procurou tomar o poder e imiscuir-se nos assuntos políticos, extrapolando, assim, o seu congénito papel de defesa da ordem e segurança nacionais. Em resultado disto, a política tornou-se mais militarizada 40.
À crise do funcionamento das instituições republicano-liberais e às dificuldades económicas e sociais resultantes da guerra somava-se a crise dos valores ideológicos e ético-estéticos 41. A crise do sistema de representação parlamentar impulsionou a afirmação de correntes políticas e doutrinárias extremistas, tanto à esquerda como à direita, com destaque para o movimento anarco-sindicalista, de um lado, e o Centro Católico, a Cruzada Nun'Álvares e o Integralismo Lusitano 42
, do outro. Apesar de
37
Assim se batizou o novo regime que Sidónio Pais pretendeu ver institucionalizado. 38
Convém realçar que, a partir do Sidonismo, considerado um dos episódios históricos que mais fizeram abalar a República e que serviu de inspiração ao que veio a ser a Ditadura do Estado Novo, o Exército passou a exercer uma maior influência sobre os dirigentes políticos e a sociedade.
39
Ver Douglas Lanphier Wheeler, op. cit., p. 225. 40
Idem, p. 278. 41
Interessa destacar que às investidas críticas lançadas por Raúl Proença, na segunda década do século XX, ao mau funcionamento das instituições e aos comportamentos dos políticos seguiu-se a censura à ofensiva doutrinária e estético-cultural que punha em causa os valores que defendia e promovia o aparecimento das mais perigosas doutrinas antidemocráticas.
42
Importa ressaltar que a doutrinação do Integralismo Lusitano começara, a partir de 1915, a infiltrar-se nos meios estudantis e militares, tendo desempenhado uma influência decisiva no desenrolar dos acontecimentos políticos.
diferenças óbvias, todas estas correntes de direita proclamavam a «superioridade política de uma alternativa autoritária e antiparlamentar» 43.
Ora, o período pós-guerra viu emergir, no campo estético-cultural, as ruturas estéticas e culturais. O vanguardismo estético, consubstanciado no modernismo e futurismo, inclinou-se para a adesão a «alternativas político-sociais extremistas, à direita e à esquerda» 44, que, estando inspiradas num vitalismo amoralizante, negavam os valores racionalistas, naturalistas e humanistas, inerentes ao idealismo republicano-liberal.
A partir de 1919, o espetro partidário alterou-se. Cisões partidárias deram origem a novos partidos 45
.
À medida que se pressentia o desfecho da República, as correntes integralista, tradicionalista 46 e fascista alastravam-se a um maior número de setores da sociedade. No grupo Seara Nova, fundado em 1921, grande parte do labor doutrinário de Raúl Proença centrou-se no combate às doutrinas ou ideologias reacionárias antidemocráticas. Depois do combate inicial contra o Integralismo Lusitano, voltou-se para o ataque ao fascismo.
As sucessivas revoltas ou pronunciamentos reacionários (de 18 de abril e 19 de julho de 1925), de claro pendor direitista, fizeram prenunciar o pior. Mesmo tendo fracassado, estes episódios foram a expressão notória do descontentamento existente nas Forças Armadas, bem como nas hostes nacionalistas e monárquicas, face à governação vigente. O clima conspirativo, propício a uma solução ditatorial, crescera profundamente. O descontentamento e desilusão não só dos setores operários, desprezados nas suas reivindicações, como também das classes médias, privadas do seu inicial poder de compra e desejosas de estabilidade e segurança, fizeram antever a eclosão da Ditadura Militar.
43
António Reis, op. cit., vol. I, p. 296. 44
Idem, p. 293. 45
Numa penetrante denúncia da conjuntura política, Raúl Proença, em «A situação política», verberou o fracionamento e a indisciplina existentes no seio de cada agrupamento partidário: «já não há partidos, mas partidos de partidos, facções de facções» (in Obra Política de Raúl Proença, vol. III,
Páginas de Política (3), Seara Nova, Lisboa, 1974, p. 74). No artigo «A Crise», já havia denunciado o
sectarismo partidário (O Norte, n.º 139, 11 de dezembro de 1914). 46
Os tradicionalistas preconizavam, em oposição à tradição liberal e ao demoliberalismo, a restauração da monarquia como era antes de 1820, contrapondo às noções de individualismo e soberania do povo as de autoridade, hierarquia e tradição. Ver Douglas Lanphier Wheeler, op. cit., p. 31.
1.3. Ditadura Militar de 1926
Em 28 de maio de 1926, um golpe militar derrubou a Primeira República parlamentar, instalando uma Ditadura Militar.
Resultante do descontentamento face ao funcionamento do parlamentarismo republicano, este regime autoritário emergente acabou por culminar na implantação do Estado Novo Salazarista, o qual, vigorando de 1933 a 1974, fez triunfar as tendências mais conservadoras, tendo dissolvido muitas das liberdades cívicas por que havia zelado o precedente regime parlamentar.
No intuito de restaurar uma democracia republicana reformada, a oposição republicana sobrevivente apoiou a via revolucionária, ou seja, a estratégia de derrube violento da Ditadura, atitude que ficou conhecida como reviralhismo republicano. Mas, se a Revolução de 3 de Fevereiro de 1927 e a Revolução do Castelo, a 20 de julho de 1928, não tiveram êxito, a Ditadura procurou reforçar os setores antiliberais e fascizantes da sociedade, de modo a dissipar, por completo, qualquer intuito de reposição democrática.
Compelido pelo regime persecutório e repressor da Ditadura Militar, o panfletário Raúl Proença chegou ao exílio em 1927 47, tendo, aí, prosseguido o seu combate doutrinário contra o novo regime. Colaborou na Liga de Paris (1927-1929), protagonista da oposição republicana no exílio, e interveio, politicamente, no seu órgão de difusão 'A Revolta'. Na série de artigos «Para um evangelho de uma acção idealista no mundo real», dedicados à análise do livro de Julien Benda intitulado «La Trahison des Clercs», iniciada a partir dos começos de 1928, o eminente republicano haveria de retomar o seu labor doutrinário.
Entre 1927 e 1931, a conjuntura internacional transmitia sinais demasiado ambivalentes. Os sucessivos desaires do reviralhismo haviam suscitado certa descrença e pessimismo nos republicados mais convictos. Para o refluxo da oposição republicana registado em 1929, contribuíra, em grande medida, o sucesso governativo de Salazar, mas também a tendência aparentemente transicionista para um regime constitucional-republicano dos governos de Vicente de Freitas e Ivens Ferraz.
A partir dos anos 30, assistiu-se ao triunfo e consolidação gradual das ditaduras na Península Ibérica (Estado Novo em Portugal) e Europa (Mussolinismo e Nazismo).
47
Com o governo de Domingos de Oliveira, começou a anunciar-se, em Portugal, a viragem para a orientação cada vez mais antiliberal e autoritária da Ditadura, linha que Salazar haveria de preconizar.
Embora fragilizada diante dos setores antiliberais e fascizantes que começavam a impor-se no interior da Ditadura portuguesa, a oposição republicana recuperou algum otimismo e esperança quanto a uma possível reposição do regime republicano, tendo para tal contribuído a dissolução da ditadura riverista espanhola em 1930 e consequente implantação da República no ano seguinte 48
. Além disto, a afirmação da corrente trabalhista ou social-democrata nos países germânicos e escandinavos permitia reforçar esse sentimento.
No entanto, a gorada revolta de 26 de Agosto de 1931 fez vacilar ainda mais a oposição republicana, contribuindo, por conseguinte, para consolidar o setor antiliberal da Ditadura. Mas se a França, a Inglaterra e os países escandinavos se erigiam em baluartes democráticos, o Estado Novo salazarista, instituído em 1933, reforçava-se, acelerando o desfalecimento absoluto da ofensiva reviralhista, o que acabou por suceder com o fracasso do Plano Lusitânia de 1938.
Apesar de todas as ambições iniciais, a Ditadura Militar acabou por agravar a instabilidade governativa, a incompetência e as despesas públicas, além de ter fomentado a indisciplina militar e a corrupção.
Em novembro de 1931, a doença psíquica, que faria Raúl Proença sucumbir à morte, apossou-se dele, tendo sido já antevista por alguns episódios passados de excitação, todos eles fortemente marcados por um temperamento irascível, colérico e impulsivo.
Faleceu a 20 de maio de 1941, em pleno auge do fenómeno salazarista, enquanto o nazismo alemão avançava na Europa.
Apesar de breve, a sua vida foi uma das mais autênticas e fervilhantes manifestações de ativismo republicano-democrático e empenhamento cívico, tendo no alistamento como voluntário para o Corpo Expedicionário Português na primeira Grande Guerra e na participação contra as sublevações de Monsanto e a Monarquia do Norte (1919) uma das suas expressões mais visíveis.
48
De um heroísmo 49 e robustez moral 50 ímpares, Raúl Proença combinou, na perfeição, a «ética do intelectual com a ética do cidadão consciente dos seus direitos e disposto a bater-se, fisicamente se necessário, por eles» 51. Se a reflexão acerca do Eterno Retorno foi fundamental para reforçar a crença na autonomia humana, o estudo em torno da questão de Deus permitiu a Proença assumir um agnosticismo ético, adequado a uma atitude viril e heroica perante a vida, incompatível com a ideia de um Deus que premeia e sanciona os atos humanos. Nos artigos «A filosofia de Epicuro e a concepção heróica da vida» e «Sobre a existência de Deus e a lealdade de consciência» 52
, considera inconciliáveis a sua conceção heroica da vida e as ideias da existência de Deus e da imortalidade da alma, sendo estas últimas dissuasoras de toda a auto-exigência e dedicação éticas 53.
49
Porque assente na exaltação do sentido heroico da vida, a filosofia vitalista de Nietzsche, que havia seduzido, durante as duas primeiras décadas do século XX, alguns meios intelectuais e até anarquistas em Portugal, serviu ao ilustre democrata para condenar o pessimismo e decadentismo reinantes nos finais do século XIX.
50
José Rodrigues Miguéis não se coibiu de realçar a robustez moral e mental de Raúl Proença (in
Uma Flor na Campa de Raúl Proença, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1985, p. 9).
51
António Reis, op. cit., vol. I, p. 468. 52
Cf. Seara Nova, n.º 40, janeiro de 1925. 53
2. O LIBERALISMO
Na sua génese, o Liberalismo assenta, acima de tudo, no elogio da liberdade. Se dúvidas subsistissem quanto à sua suposta veracidade, bastaria uma breve incursão pelos escritos de alguns dos mais ilustres pensadores liberais para desfazê-las de imediato. John Locke é um dos insignes representantes da tradição liberal que estabelecem os principais fundamentos ideológicos do Liberalismo. A liberdade, vista como o "fundamento de tudo o mais que um homem possa ser ou ter» 54
, é o valor político que mais aplaude.
A doutrina liberal revela-se, entre outras coisas, no «intêresse pela livre manifestação do pensamento» 55, pela liberdade de exame e de crítica. Em sintonia com esta atitude de autêntica renúncia a fórmulas dogmáticas e impositivas, ela advoga o respeito recíproco e tolerância perante a diversidade de opiniões e crenças.
Apesar da primazia atribuída à liberdade, há outros pressupostos axiológicos com extensa relevância. Dentro deste domínio, a igualdade é, sem dúvida, uma das tónicas dominantes em toda a perspetiva liberal 56. A par da fraternidade, estas duas categorias políticas básicas são constitutivas da 'trilogia' reguladora e inspiradora da Revolução Francesa de 1789.
Embora possa passar-nos despercebido, muitos dos pressupostos que orientam a política contemporânea são herdeiros diretos da mundividência liberal: a primazia da
54
John Locke, Segundo Tratado Do Governo, Fundação Calouste Gulbenkian, Coimbra, 2008, p. 46.
55
Theodore Meyer Greene Liberalismo: teoria e prática, trad. de Leonidas Gontijo de Carvalho, vol. 5, Ibrasa, Coleção Clássicos da Democracia, São Paulo, 1963, p. 31. Theodore Meyer Greene (1897-1969) foi professor de Filosofia, tendo inúmeras obras e artigos de jornal escritos. Além disto, foi conferencista.
56
Adiante, teremos a oportunidade de desenvolver a questão da nítida correlação entre ambos os conceitos.
liberdade; a igualdade encarada como idêntica dignidade e liberdade; a posse de direitos individuais; a noção de acordos, pactos ou contratos como elementos decisivos na resolução dos conflitos resultantes da confrontação entre as liberdades dos indivíduos, entre muitos outros.
2.1. Marcos históricos
Para uma maior compreensão acerca da herança, alcance e impacto do Liberalismo, importa que sejam enunciados alguns dos seus mais relevantes e significativos antecedentes históricos. Como podemos constatar a seguir, são diversas as circunstâncias que ajudaram a impulsionar a sua concreta afirmação.
As aspirações liberais tiveram eco em múltiplos acontecimentos históricos. Na verdade, episódios como a 'Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão' e as primitivas constituições americana e francesa, bem como as diversas e sucessivas revoluções liberais que despontaram ao longo do século XIX, foram o reflexo visível da profunda ânsia de disseminação do ideal liberal.
De certo modo, a origem do Liberalismo político parece remontar à Reforma Protestante e às revoluções liberais ulteriores. Antes disto, numa altura em que começava a despontar, na Europa, o surto absolutista, a Magna Carta (documento que os barões feudais ingleses impuseram ao rei João, em 1215, de forma a limitar o seu poder) foi um dos primeiros prenúncios das futuras exigências liberais.
De inegável importância, o movimento de secularização, ocorrido no fim da Idade Média, promoveu a dissolução do imperialismo religioso, reivindicando, ao invés, a «soberanía del individuo» 57.
A Reforma Protestante perfila-se, com efeito, entre os acontecimentos mais importantes no longo percurso de consolidação das ideias liberais. Este acontecimento promoveu, na esfera religiosa e espiritual, a valorização da liberdade de consciência, tendo rompido, por conseguinte, com a tradição, a superstição, a rigidez, a hierarquia, a autoridade e o dogma religiosos, todas elas noções que o catolicismo havia hipertrofiado
57
André Vachet, La ideología liberal, trad. de Pablo Fernández Albaladejo, Valentina Fernández Vargas, Manuel Pérez Ledesma, vol. 22, Editorial Fundamentos, Colección Ciencia, Série Historia, Madrid, 1972, p. 59.
58. Tendo desintegrado a função totalizadora e organicista da Igreja, favoreceu o atomismo individualista.
Para além destes, destacam-se muitos outros agentes que deram um contributo decisivo para a ascensão gradual da doutrina liberal.
No plano intelectual, o cartesianismo, à semelhança do que a Reforma Protestante tinha feito, insurgiu-se contra as noções de tradição, autoridade e dogma, contrapondo-lhes, em alternativa, os conceitos de livre exame e livre-pensamento.
O individualismo, que apareceu após a dissolução da conceção organicista da sociedade nos finais da Idade Média, e o racionalismo foram, indiscutivelmente, dois dos movimentos que anunciaram o liberalismo.
No âmbito moral, Kant inaugurou uma moral fundada na estrita autonomia individual. A origem da lei moral, à qual os indivíduos devem submeter-se, radica na autonomia humana. Demarcando-se do princípio da heteronomia, isto é, a sujeição a obrigações e imperativos oriundos do plano exterior, o pensador alemão declarou que «uma vontade livre e uma vontade submetida a leis morais são, por conseguinte, uma só e mesma coisa» 59.
No domínio social, o desencanto, a repugnância e o descontentamento populares face ao absolutismo régio foram sentimentos que fizeram acelerar o advento do Liberalismo, do parlamentarismo e do constitucionalismo. Todos estes movimentos trouxeram consigo a vontade firme de conter e refrear os ímpetos absolutistas, autocráticos e despóticos inerentes a um poder político que se encontrava destituído de qualquer fiscalização e controlo populares.
Dominantes na Europa, as monarquias absolutas dirigiam o destino coletivo dos povos de forma arbitrária. Secundadas, em certa medida, na conceção medieval da origem divina do poder (o poder provém de Deus), elas não tinham de se justificar perante os súbditos e nem estavam dependentes da sua contínua legitimação ou aprovação. De facto, uma das principais caraterísticas do Liberalismo primitivo foi o inicial impulso para a resistência contra um poder assaz opressor e ameaçador.
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), a Declaração de Direitos da Virgínia (1776) e a Declaração de Independência Americana foram cruciais,
58
Consulte-se André Vachet, op. cit. 59
Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, trad. de Filipa Gottschalk, Lisboa Editora, Lisboa, 1998, p. 122.
na medida em que consagram a liberdade e a igualdade de direitos. Fazem referência, concretamente, a direitos inalienáveis e imprescritíveis dos indivíduos.
De acordo com Fernando Valera, a 'Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão' é o documento que constitui o «principio, fundamento y origen del liberalismo político» 60. Trata-se, com efeito, do depositário mais completo dos direitos liberais, condensando, de modo embrionário, os valores e as premissas que haveriam de ser melhor desenvolvidas e teorizadas nas várias constituições liberais em vigor nos países democráticos.
Num dos seus artigos, o referido documento proclama que «Todos nascemos e permanecemos iguais em direitos», vincando a já mencionada igualdade de direitos. Desta forma, o Liberalismo emergente representava a contestação da controversa noção de privilégios políticos.
Com repercussões avassaladoras ao nível da dissolução dos privilégios políticos, a Revolução Francesa foi um dos acontecimentos mais marcantes na história da doutrina em estudo. Considerando o impacto decisivo que teve ao nível da mentalidade e vida social e política de então, o seu ideário converteu-se rapidamente na «esencia y inspirácion de todas las constituciones redactadas por los parlamentos de las modernas democracias» 61. No entanto, na sua ação, não se absteve de recorrer a um radicalismo revolucionário, responsável por ter cometido, não raras vezes, as maiores crueldades. A fase do Terror, dirigida por Robespierre, foi disso perfeitamente ilustrativa 62.
A introdução da representatividade política foi um facto histórico de importância incalculável, na medida em que veio a favorecer a expressão da vontade e soberania populares, vistas como um dos pressupostos essenciais das correntes liberal e democrática. Despojada do cariz autocrático e arbitrário, por meio do qual o absolutismo régio visava submeter os indivíduos, a lei tornou-se a expressão da vontade geral.
Para a doutrina de que nos ocupamos agora, a soberania política, retirada ao monarca absoluto, pertence ao povo. Somente dele poderá provir a necessária legitimação de todo o exercício governativo. Embora continue a pertencer à autoridade
60
Fernando Valera, Liberalismo, vol. IV, Gonzalo Julián, Cuadernos de Cultura, Valencia, 1930, p. 9. Em termos metodológicos, optámos por manter, nas múltiplas transcrições efetuadas, a aparência do texto original.
61
Ibidem. 62
No momento de focarmos as principais caraterísticas da conceção liberal de Raúl Proença, iremos notar a sua aversão face ao radicalismo virulento e feroz do jacobinismo republicano.
política a função de reger a comunidade, só lhe é reconhecida total legitimidade para fazê-lo se ela tiver sido consentida e outorgada previamente pelos súbditos. Portanto, mesmo não governando diretamente, é o povo, enquanto conjunto dos súbditos, que entrega a função executiva a indivíduos a quem caberá representar e defender os seus interesses.
Como afirmava Montesquieu, a divisão da soberania em poderes distintos tinha o propósito de limitar e fiscalizar o exercício político. Reconhecendo que «todo o homem que possui poder é levado a dele abusar», este pensador recomendou que, «para que não se possa abusar do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder limite o poder» 63
.
2.2. Conceções de liberdade
O termo liberdade pode ser encarado de diversas formas 64. Georges Burdeau, por exemplo, enuncia duas conceções fundamentais de liberdade: a «liberdade-autonomia» e a «liberdade-participação» 65.
A primeira, bem próxima do registo liberal, identifica-se com a autonomia e resistência face à prepotência e exacerbamento do poder político. A segunda, por sua vez, diz respeito à participação dos cidadãos no poder político, a fim de «o impedir de lhes impor medidas arbitrárias» 66
, reconhecendo a enorme fragilidade da primeira das noções.
A este respeito, Maurice Duverger fez especial alusão à distinção estabelecida por Benjamin Constant, que pôs em contraste, justamente, a conceção moderna de
63
Montesquieu, O Espírito das Leis, trad. de Cristina Murachco, Martins Fontes, São Paulo, 1993, p. 170.
64
No capítulo «O Socialismo», a questão das várias conotações alegadamente implicadas no conceito de liberdade será, de novo, retomada. Nessa ocasião, insistiremos na liberdade como sinónimo de libertação face, especificamente, aos diversos constrangimentos económicos e à situação de carência material.
65
Consulte-se Georges Burdeau, O Liberalismo, trad. de J. Ferreira, vol. 22, Publicações Europa-América, Colecção Biblioteca Universitária, 1979.
66
liberdade («As liberdades são resistências») e o que ele denominava de noção antiga («participação activa no poder colectivo» 67, nas decisões coletivas).
Relativamente à conceção que faz repousar a liberdade sobre o direito de participação na vontade geral, André Vachet considera que ela «implica la socialización del individuo y el estatismo» 68.
Importa realçar que às duas anteriores vem somar-se uma terceira aceção: a noção de libertação, mais concretamente face à opressão económica. Quando a iniciativa individual se mostra impotente para eliminar as desigualdades e servidões económicas existentes, é comum exigir ao poder político que intervenha a fim de libertar os indivíduos e estabelecer a justiça e a liberdade efetivas. Se o Liberalismo, num primeiro momento, desconfia e reage contra a autoridade estatal, numa fase subsequente, transforma-a em «instrumento de criação de uma liberdade efectiva» 69.
Maurice Duverger é também um dos autores que dão destaque à liberdade como libertação e «supressão das alienações (..) das penúrias...» 70. Interessa sublinhar que, também para o Socialismo, é ao Estado que compete esse papel libertador. Para além desta, Duverger ressalta uma outra noção de liberdade: a «liberdade-florescimento» 71. Significa esta que todos estarão em condições de desenvolverem a sua individualidade, desde que disponham de todas as condições materiais necessárias.
Reinhold Zippelius, na obra «Teoria Geral do Estado», alerta para a necessidade de não identificar o conceito de liberdade do Liberalismo com o conceito democrático de liberdade. Se o primeiro «designa a liberdade do status negativus, ou seja, o espaço de liberdade de actuação individual face ao Estado», o segundo, por seu turno, diz respeito ao «status activus, ou seja, à liberdade de participação na formação da vontade comum» 72
. Acrescenta que ambas «as liberdades não convergem necessariamente», uma vez que a «maioria democrática pode exercer uma tirania muito pouco liberal» 73
.
67
Maurice Duverger, Introdução à Política, trad. de Mário Delgado, vol. 1, Editorial Estúdios Cor, Colecção Ideias e Formas, 1964, p. 290.
68
André Vachet, op. cit., p. 172. 69
Georges Burdeau, op. cit., p. 13. 70
Maurice Duverger, op. cit., p. 291. 71
Idem, p. 291. 72
Reinhold Zippelius, Teoria Geral do Estado, trad. de Karin Praefke-Aires Coutinho, 3ª Edição, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1997, p. 375. Reinhold Zippelius foi Professor Emérito de Filosofia do Direito e Direito Público na Universidade de Erlangen-Nuremberg, APemanha.
73
2.3. Liberalismo: conceito pluridimensional
É comum associar ao Liberalismo três grandes dimensões: política, económica e religiosa. Todas elas constituem, em boa verdade, espaços de desenvolvimento e afirmação individuais.
Do ponto de vista político, o Liberalismo procurou pôr em marcha uma liberalização, a fim de derrubar o absolutismo e o imperialismo dos poderes políticos. Professando uma atitude de resistência e desconfiança perante um governo que excede os limites das suas funções, encara a «libertad como la afirmación de la autonomía y de la independencia del individuo en relación a la autoridad política y social» 74.
Neste contexto, importa recordar Montesquieu, para quem o abuso do poder era a tendência natural do exercício governativo.
Ultrapassando a dimensão estritamente política, o Liberalismo estendeu-se, igualmente, ao âmbito económico, tendo desaguado, conforme indica Theodore Greene, num «libertismo econômico do laissez-faire» 75. Exigiu, acima de tudo, a máxima liberdade para as iniciativas económicas, mas com o mínimo de controlo e intervenção governamentais. Sob a orientação do critério da livre concorrência, impulsionador da iniciativa ou empresa individual, fez da busca do lucro o seu valor mais elevado.
Em todo o caso, apesar de ter privilegiado a liberdade de iniciativa no campo económico, esta segunda variante acabou por dar azo, conforme é referido na obra "Teoria Geral do Estado", à «formação de concentrações de capital e de empresas bem como cartéis» 76
, constituindo verdadeiros adversários do princípio básico da concorrência. Como explica o seu autor, a «liberdade foi utilizada para limitar a liberdade» 77
.
Com base na conhecida máxima «laissez faire, laissez passer», a doutrina liberal repudia inteiramente a noção de protecionismo económico, que interfere na livre concorrência, para além do mercantilismo, que propunha a regulamentação da vida económica por parte do Estado.
Para além das referidas variantes política e económica, é possível destrinçar uma terceira categoria: o Liberalismo religioso. Distinta das restantes, esta modalidade
74
André Vachet, op. cit., p. 193. 75
Theodore Greene, op. cit., p. 218. 76
Reinhold Zippelius, op. cit., p. 380. 77
procurou levar a cabo a secularização, com a finalidade de dissipar o domínio e o império da transcendência.
Com o advento do Liberalismo, é inaugurada uma nova antropologia, baseada na promoção da emancipação humana face à teologia e transcendência. Proclamando a soberania absoluta do indivíduo, esta última variante visa libertá-lo de uma ética da dependência e obediência ao sobrenatural.
2.4. Falsa antinomia: a liberdade e a autoridade
Para o Liberalismo, as noções de liberdade e autoridade/lei não são antitéticas, mas complementares. Distanciando-se do raciocínio que crê, erradamente, que ambos os conceitos são inconciliáveis e se excluem mutuamente, ele acentua a sua profunda correlação. De facto, o respeito pela liberdade e direitos recíprocos dos outros indivíduos requer a intervenção da autoridade para disciplinar e conter os impulsos predatórios e arbitrários das liberdades individuais. Segundo André Vachet, «la ley y la igualdad ante la ley, constituyen la condición de liberdad en el Estado» 78. Em total divergência com o entendimento libertário, para o Liberalismo, «la libertad no puede confundirse con la licencia y la anarquia, sino que exige la sumisión armoniosa a un orden» 79. Na génese desta ideia, John Locke afirma, na obra «Segundo Tratado do Governo», que «um estado de liberdade não é um estado de licenciosidade» 80
.
Contrariamente ao que poderia presumir-se de início, a ênfase posta na noção de liberdade não pressupõe a assunção das convicções e interpretações anarquistas. Na sequência do raciocínio anterior, a doutrina liberal exige a aplicação de leis que determinem restrições a uma liberdade desenfreada e desvairada 81.
Relativamente a esta problemática, Montesquieu, na obra «O Espírito das Leis», esclarece que a «liberdade política não consiste em se fazer o que se quer»,
78
André Vachet, op. cit., p. 172. 79
Idem, p. 102. 80
John Locke, op. cit., p. 36. 81
Como veremos adiante, é a preocupação com a reciprocidade e intersubjetividade que constitui a razão principal para a proposta de uma liberdade que «supone, necesariamente, una disciplina» (in André Vachet, La ideología liberal, p. 170).