Ergologia
compreender a atividade humana para transformá-la
Pierre Trinquet
FAE/UFMG Belo Horizonte
2021
Coleção Conhecimento e Experiência do Trabalho
edição bilingue
Diretora da Faculdade de Educação Daisy Moreira Cunha Vice-Diretor
Wagner Auareck
Coordenadora da Editora Selo FAE Suzana Gones
Conselho Científico da Coleção Daisy Moreira Cunha (UFMG)
Admardo Bonifácio Gomes Júnior (CEFET/MG) Mônica de Fatima Bianco (UFES)
Maria Clara Bueno Fischer (UFRGS) Wanderson Ferreira Alves (UFG) Élida Hennington (FIOCRUZ)
Capa e projeto gráfico
Ana Cláudia Dias Rufino Preparação de originais
Mônica Bianco Diagramação
Ana Cláudia Dias Rufino
ISBN do livro
978-65-88446-13-3
Endereço para correspondência Editora FAE – FAE/UFMG Av. Antônio Carlos, 6627 31270-901 – Belo Horizonte/MG Tel.: (31)
e-mail:
site: www.fae.ufmg.br
Sumário
5 Agradecimentos 7 Prefácio
Daisy Moreira Cunha
14 Introdução
18 Capítulo 1: O que é ergologia?
27 Capítulo 2: Os princípios fundamentais da ergologia
64 Capítulo 3: A Ergologia e a atividade de trabalho
79 Capítulo 4: As duas funções fundamentais da atividade de trabalho
95 Capítulo 5: O método ergológico
138 Capítulo 6: Bem estar no trabalho
158 Bibliografia
161 Posfácio
Mariana Veríssimo
165 Anexo
183 Remerciements 185 Préface
Daisy Moreira Cunha
193 Introduction
197 Chapitre 1: Qu’est-ce que l’ergologie ? 206 Chapitre 2: Les principes fondamentaux de l’ergologie
243 Chapitre 3: L’ergologie Et L’activité De Travail 258 Chapitre 4: Les deux fonctions
fondamentalesde l’activité de travail 274 Chapitre 5: La méthode ergologique 317 Chapitre 6: Le bonheur au travail 337 Bibliographie
340 Postface
Mariana Verissimo
ErgologAgradecimen
Agradecimentos
O autor agradece calorosamente a todos aqueles que participaram da tradução desta obra para o português do Brasil.
Inicialmente, à professora Daisy CUNHA, Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação PPGE e Diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais- FAE/UFMG, quem encomendou esta obra para o uso com fins pedagógicos nos cursos de Ergologia no Brasil e quem supervisionou a realização da versão brasileira.
Igualmente, à professora Mariana VERÍSSIMO, Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas e Coordenadora do Grupo de Pesquisa Garimpo da Atividade /CNPq, quem organizou e acompanhou esta tradução.
Entre os tradutores voluntários, quero agradecer em particular:
Admardo B. GOMES JÚNIOR - Doutorado em cotutela Educação - FAE/UFMG e Filosofia/
Ergologia na Aix-Marseille Université, professor no CEFET-MG.
Enio RODRIGUES DA SILVA - Doutorado em educação pela FAE/UFMG - CNAM (Conservatoire National des Arts et Métiers) et d’Aix-Marseille Université (AMU), professor da Universidade Federal
ErgologAgradecimen
do Sul da Bahia (UFSB) no Bacharelado Interdisciplinar em Saúde - BI/CSC - Porto Seguro/BA.
Estela Aparecida OLIVEIRA VIEIRA - Doutorado em Cognição, linguagem e educação pela Aix- Marseille Université e pós-doutorado em educação pela FAE /UFMG.
Lucas VERÍSSIMO - Estudante de cinema pela PUC Minas, morou e estudou na França por 4 anos e tradutor livre.
Rosimare ALVES R. - Mestrado e doutorado em Ergologia pela Aix-Marseille Université e em Educação pela FAE /UFMG; Atividade profissional:
Tribunal Regional do Trabalho 3ª Região
E, pela revisão geral e formatação da versão final:
Daisy CUNHA - Doutorado em Filosofia por Aix- Marseille Université. Editora da Revista Trabalho e Educação; Diretora da FAE/UFMG.
Jurandir SOARES DA SILVA - Mestrado em Ergologia pela Aix-Marseille Université e professor interino no Instituto Federal de Minas Gerais – IFMG (Bambuí) e na PUC-Minas.
Mariana VERÍSSIMO, Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas e Coordenadora do Grupo de Pesquisa Garimpo da Atividade /CNPq.
Mônica de Fatima BIANCO - Doutora em Engenharia de Produção pela POLI-USP, Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Administração da UFES.
ErgologPrefácio, por Daisy Moreira Cun
Prefácio
Daisy Moreira Cunha Pierre Trinquet nos brinda com uma obra de iniciaçao à Ergologia, esta Abordagem Clínica do trabalho de origem francesa. Hoje, a Ergologia graça várias partes do mundo universitário e social fora da França. Podemos considerar uma abordagem do trabalho internacional, que tem lastro no Brasil em várias universidades, diversas disciplinas e também vários pontos de interlocuçao com organizações da sociedade civil, como organizaçoes sindicais. Este diálogo foi iniciado depois da primeira vinda de Yves Schwartz ao Brasil em 1997, principal teórico desta abordagem que congrega pesquisadores e trabalhadores oriundos de vários ofícios. Pierre é um destes trabalhadores que muito contribuiu para que esta abordagem se configurasse, antigo mestre de obras da construçao civil francesa que, após a primeira formaçao junto com pesquisadores da Aix-Marseille Université (antiga Université de Provence), realizou estudos de Sociologia e hoje tem várias obras publicadas sobre segurança no trabalho, notadamente.
Por que obra de iniciaçao? Porque esta abordagem original, já bastante conhecida no Brasil, continua e inova uma grande tradiçao inaugurada pela Ergonomia da Atividade de lingua francesa.
Porque esta abordagem dialoga com as principais disciplinas que estudam o trabalho, bem como com
ErgologPrefácio, por Daisy Moreira Cun
filosofias que estudaram aspectos que podem ser resgatados para se pensar a atividade humana.
Neste melting poting, para cuja iniciaçao Pierre nos convida, nada é estrangeiro ou mal colocado. Trata- se de, primeiramente ler os autores importantes para compreender o trabalho contemporâneo, mas de utilizá-los confrontando-os permentente com os domínios da atividade humana no curso de sua existência e aos debates de normas que a atravessam no aqui e no agora das situaçoes de trabalho.
Enquanto obra que tem como objetivo nos iniciar, apresenta-nos alguns dos principais conceitos e as bases téorico-metodológicas que formaram esta abordagem inédita do trabalho, assim é que, conceitos são necessários para este confronto:
uso de si por si e por outros, renormalizações, são apenas dois dos conceitos que Pierre manuseia aqui, com leveza coloquial, mas cujo entendimento demanda flexionar antropologicamente toda e qualquer conclusão sobre a experiência que fazem os homens no trabalho.
O conceito de atividade tem aqui um lugar central. Ele preenche a distância entre o trabalho prescrito e o trabalhor real. Estes três conceitos da ergonomia tornaram possivel várias outras clínicas do trabalho existentes na França. Se o conceito de prescrito e real do trabalho abre as vias para a especulação sobre o que se passa no micro das situaçoes de trabalho, o conceito de atividade tenta preencher o vazio entre um e outro nos deixando mais problemas do que soluções ao que torna
ErgologPrefácio, por Daisy Moreira Cun
possivel as coisas serem diferentes do que elas são.
O conceito de atividade dá visibilidade ao homem que opera em um meio sócio-técnico cada vez mais numérico, sem, contudo, fisgaá-lo completamente.
E este é, finalmente o paradoxo, estes três conceitos chaves tornam possíveis ler a espessura das microsituaçoes, mas as tornam impossíveis de serem codificadas por qualquer disciplina na medida em que abrem horizontes incomensuraveis por via das abordagens disciplinares. São eles também que abrem a possibilidade de existência primeira de uma abrodagem ergológica do trabalho e de seus conceitos, mas que estão expressos, finalmente na incomensurabilidade, sempre anunciada por Yves Schwartz, das atividades e situações humanas de trabalho. Finalmente, não são tão operacionaveis assim, como alguns gostariam de sê-lo, pois qualquer tentativa de recorte para explicar a atividade, é seu congelamento em uma perspectiva disciplinar que a mutila. Isto nos lembra não apenas a ideia de homem como ser inacabado (Paulo Freire), mas também a idea de que não existe terreno firme em ciência (ensinamentos primeiros de Miguel Arroyo).
Para nós que somos do Campo de Pesquisas sobre Trabalho e Educaçao, há algo de profundamente interessante na Abordagem Ergológica que Pierre extrai ligeiramente aqui, é sua competência para associar o ontológico e o antropológico. É nesta confluência potente que podemos resgatar o quanto o trabalho pode ser pensado educativo em
ErgologPrefácio, por Daisy Moreira Cun
suas três dimensões: enquanto processo que funda o humano (ontológico), enquanto processo que humaniza/desumaniza (antropológico) e enquanto processo que individualiza (histórico). Estas três perspectivas estão aqui imbricadas tornando qualquer tentativa de aprisionar o conceito de atividade em uma definiçao, ou de circunscrevê-la por um protocolo de pesquisa uma tentativa vã. Daí a necessidade de sermos cuidadosos no uso desta Abordagem em nossas pesquisas tradicionais de Mestrado, Doutorado ou outras configuradas à partir de demandas do pesquisador.
Pierre também explora com maestria a ideia, central em Yves Schwartz, de um Dispositivo Dinâmico à Três Polos, traduzido aqui em um Grupo de Encontro de Trabalho. Sobre estes dispositivos, é preciso alertar, de inicio, que nada, em lugar algum, atesta ser esta a via canônica de apreender os debates de normas na atividade. Antes, é um discaminho para tentar aproximá-la. Não é um one best way da Ergologia, mas segue sendo uma via importante e já testada anteriormente por outras pesquisas-intervenção que são citadas resumidamente. Por outro lado, é importante observar alguns de seus princípios, nenhum deles estranho aos princípios da pesquisa-ação ou dos Círculos de Cultura segundo preceitos da Educaçao Popular. A nuance aqui, importante, é o fato de que esta proposta se faz para compreender e transformar as situações de trabalho contemporâneas. Neste caso, a proposta exige mais que uma disputa entre
ErgologPrefácio, por Daisy Moreira Cun
discursos ideológicos e emancipatórios, exige manipular finamente um confronto entre saberes para abrir no horizonte novos possíveis em termos de gorvernabilidade no trabalho, esta experiência limite onde os domínios da atividade humana são testados todos os dias e que exige tomar partido em cada gesto, sobre o que deva ser a vida, a boa vida em saúde, no trabalho. O que não permite neutralidade de espécie alguma, e toda ingenuidade será castigada. O tom político ao final da obra é algo mais que natural, visto que Pierre Trinquet sempre fora militante sindical da CGT e também fora militante do PCF; mas, além dos engajamentos sindicais e politicos do autor, esta questão do poder e do governo do trabalho traz em si questões relativas ao poder como aspecto estruturante das relaçoes sociais e humanas no trabalho. E próprio do autor, poderiamos dizer, próprio de sua história de vida, mas é próprio do trabalho como território de existência.
E, portanto, não podemos então nos enganar sobre o clínico da abordagem, não se trata de modo algum de deixar escapar, ao olhar o mais perto possível do homem na sua relação com o meio de trabalho, deixar escapar as dimensões macroestruturantes, totalizantes e globalizantes, que tanto marcam as situações de trabalho nas quais nos encontramos imersos. Toda arte de articular macro e micro deve ser aqui resgatada, pois a abordagem ergológica requer segurar as pontas que nos deixam um olhar esquizofrênico
ErgologPrefácio, por Daisy Moreira Cun
sobre o humano nos repartindo entre subjetivo e objetivo, macro e micro, saber e valor, individual e coletivo... todo conceito disciplinar e/ou toda dimensão necessária para compreender a atividade é, paradoxalmente, deixar de lado sua natureza própria de incomensurabilidade pelo entendimento humano. Ao pensar qualquer problema, é preciso se haver com esta complexidade, de onde o valor de uma obra de iniciaçao, mas também seus limites e a tolerância necessária para viver estes desconfortos permenentes de fazer face ao desconhecido.
Em anexo publicamos ainda a comunicaçao de Pierre, em outubro de 2017 no CNAM em Paris, no colóquio : Penser et réaliser la transformation du travail : l’apport de la démarche ergologique et de l’œuvre d’Yves SCHWARTZ, onde ele comenta sua experiência brasileira desde que veio a primeira vez em 2001. Neste texto de 2017 ouvimos de Pierre relato de seus encontros com pesquisadores brasileiros em várias universidades brasileiras, bem como em vários organimos e empresas, onde falou diretamente para chefes de empresas, sindicalistas e trabalhadores de modo dialógico tornando possível comunicar questões universais para públicos com experiências muito distintas.
Isto é possível não apenas pela capacidade dialógica do autor, mas porque as análises e histórias que conta têm uma dimensão universal que estrapola geografias fundandas em um tempo histórico no qual as arganizaçoes produtivas são pensadas numa perspectiva taylorista de que
ErgologPrefácio, por Daisy Moreira Cun
uns planejam e outros executam, dando lugar à toda sorte de incompreensao sobre o que importa saber realmente nas situações de trabalho. Então que, mesmo contando histórias de um país, a França, onde as relações de trabalho sempre foram reguladas por Direitos associados ao trabalho, elas fazem sentido no Brasil, país que se quer moderno, mas onde as relações de trabalho sempre foram bastante informais, guardando uma submissão própria de paises esclavagistas como pano de fundo nas relações de trabalho capitalistas.
Nossa ideia foi de publicar a obra em formato e-book e bilíngue, para que também o leitor francês possa aceder a este trabalho original.
ErgologIntroduç
Introdução
O trabalho: uma maldição ou uma benção?
A saúde no trabalho é um problema que preocupa muitas pessoas, tanto do ponto de vista econômico quanto do ponto de vista social. Diante desta mobilização, deveríamos notar melhorias, mas ao contrário, agrava-se, deteriora-se, mesmo se notamos alguns progressos em certos domínios na França, por exemplo, no que diz respeito a acidentes de trabalho declarados, isto se degrada de outras maneiras, como por exemplo, os problemas psicossociais, o suicídio, e doenças profissionais como certos canceres. Então, como explicar isto?
De acordo com a estimativa do Bureau International du Travail (BIT)*, o risco profissional aumenta visto que acidentes de trabalho e doenças profissionais causam a morte de 2 milhões de pessoas por ano**.
Minha hipótese é que em vez de melhorar, apesar dessa mobilização, de fato, a situação se degrada porque o problema é mal colocado. Mais eu avanço em minhas pesquisas, mais eu estou convencido que se agrava, porque aqueles que têm responsabilidades de gestão, de administração do trabalho, não sabem ou não querem saber, por razões essencialmente ideológicas, o que é realmente o trabalho. E o pior, é que eles acreditam saber, mas como eles se enganam, as boas soluções escapam. Eles agem cegamente e então não devemos nos surpreender se os resultados
* Secretariado permanente da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A OIT é o órgão das Nações Unidas responsável por questões
trabalhistas em todo o mundo. Sua sede é em Genebra na Suiça.
** http://www.who.
int/mediacentre/
news/releases/2005/
pr18/fr/
ErgologIntroduç
são estes que, infelizmente, constatamos. E é isto que eu gostaria de mostrar neste texto.
Mas, é verdade que a atividade de trabalho está em cheque, porque seria uma tortura (o tripalium) ou uma calamidade divina (você ganhará seu pão com o suor de seu rosto)? O que significa que se seu rosto não sua, se você não sofre trabalhando, você não ganha seu pão, é em todo caso, o que parece sustentar nossa cultura ocidental judaico-cristã. Mas, crendo nisso, será que não confundimos: trabalho com condições/
situações de trabalho? O que é muito diferente!
O trabalho, considerado como atividade é uma função natural, imemorial, e fundamental da espécie humana; as organizações-situações de trabalho são apenas atividades circunstanciais, historicamente datadas, concebidas e colocadas em funcionamento pelos homens, para responder às necessidades conjunturais; deste fato, elas são convocadas a evoluir de acordo com as circunstâncias e os acontecimentos sociais e com o objetivo de responder às aspirações profundas dos seres humanos. Tudo evoluiu sempre, e às vezes rapidamente. Toda civilização, todo modo de produção não é mais que um processo histórico, com um começo, um desenvolvimento e um fim.
É, em todo caso, o que nos ensina a história da humanidade.
Esta visão negativa do trabalho foi questionada a partir de 1972, pela descoberta da ergonomia francesa, da distância irredutível que existe e
ErgologIntroduç
existirá sempre, entre o trabalho, tal como ele foi prescrito antes de sua realização, e tal como ele é realizado. É isto que explica que o trabalho humano é sempre transgressão/ aperfeiçoamento, e isto depois de 2,5 milhões de anos, depois da invenção das ferramentas, depois da aparição do homem faber, o homem que fabrica, o homem produtor. A partir daí, o Homo faber sempre transgrediu, ele nunca fez exatamente como o dissemos para fazer, e é a gestão desta diferença, às vezes, mínima, e frequentemente invisível quando observada, mas sempre presente, que explica a constante evolução do trabalho humano, mas também, por uma boa parte, nossa humanização. Isto também nós o mostraremos.
É com o aparecimento da ferramenta e então
“a invenção do trabalho”, que o homo faber evolui de sua condição animal para um processo de humanização. Sem essa transgressão constante, nós estaríamos no mesmo estágio que outras espécies animais, que “trabalham”, as formigas, as abelhas, os predadores que caçam em grupo, etc.
que, certamente fazem coisas admiráveis mais sempre idênticas. O Homem é o único animal social capaz de transgredir, de se adaptar, de aperfeiçoar constantemente sua atividade laboriosa para adaptá-la à suas necessidades, aos seus desejos, às circunstâncias encontradas no aqui e agora.
Por que ele o faz? Como ele consegue fazer?
São questões fundamentais que os avanços científicos das ciências humanas e sociais, e mais
ErgologIntroduç
particularmente, o método ergológico, apresentam elementos de resposta. O que nos permite conhecer melhor e compreender a atividade humana para melhorá-la e ao mesmo tempo, conhecer melhor e compreender o homem. E, de compreender que longe de ser uma tortura ou uma maldição divina, a atividade de trabalho é uma boa coisa, uma benção para o ser humano, na medida em que a condição de trabalho permite o bem estar no trabalho. E é não apenas realizável e realizado (e nós o mostraremos).
E percebemos que quando estamos bem no trabalho somos mais produtivos, então porque persistimos a sempre elaborar métodos de gerenciamento desumanizantes, degradantes, constrangedores, às vezes, ou frequentemente, mortíferos? Parece-me, seria por razões ideológicas e não econômicas. Com efeito, os métodos de gerenciamento que permitem a felicidade no trabalho não podem se vislumbrar sem uma participação ativa dos trabalhadores. O que nos conduz, ipso facto, a uma partilha de poder na empresa, entre as forças do Capital e aquelas do Trabalho. O que é, infelizmente, dificilmente vislumbrável no modo de produção atual. Mas se queremos preparar um futuro melhor, é preciso começar a se preocupar desde hoje. Amanhã, será muito tarde!
É o que queremos mostrar nesta obra.
ErgologCapítulo 1: O que é ergolog
Capítulo 1
O que é ergologia?
Não tenho a pretensão de apresentar um curso completo de ergologia, nem de resumir este método de investigação. Ele é demasiado vasto e está muito acima de minhas possibilidades nesta obra. As “missões impossíveis” estão fora da minha competência e de minha área. Além disso, estaria fora do objetivo dessa obra que se quer, antes de tudo, ser muito mais operacional e introdutória que teórica. Tudo o que eu ambiciono, é mostrar a complexidade intrínseca ao trabalho humano, suas fontes e forças frequentemente enigmáticas, mas bem reais e que não podemos negar sem prejuízos graves para a saúde/ segurança dos operadores, mas também (sobretudo?) pela eficácia e produtividade do trabalho. A ergologia – via conhecimentos e saberes acadêmicos atualmente disponíveis e mais particularmente aqueles provenientes da ergonomia – permite melhor conhecer o trabalho, sua natureza profunda, suas propriedades e assim melhor compreendê-lo para lhe transformar/
melhorar, adaptando-se aos seus imperativos sociais, humanos e organizacionais. O que parece ser o inverso daquilo que hoje constatamos.
Compreende-se que o sonho, e mesmo os desejos, de todos os organizadores e gestores do trabalho, seria poder adaptar o trabalho às suas próprias vontades, aos seus desejos, às suas necessidades,
ErgologCapítulo 1: O que é ergolog
aos seus interesses, entretanto, é bem o contrário – adaptar o trabalho ao Homem e não o Homem ao trabalho – que se deve pesquisar se quisermos ser realistas. Conhecemos bem as derivas do modelo taylorista e/ou fordista, da força deles em querer obrigar os trabalhadores a executar sem refletir.
Isso mostra ser contra – a natureza e conhecemos todas as consequências sobre a saúde dos trabalhadores, tanto física quanto mental (Cf. Os tempos modernos de Charles Chaplin). Não se pode ir impunimente contra a natureza das coisas, suas leis e seus imperativos. É, então, essencial conhecer bem o trabalho humano para bem compreendê-lo e o gerir segundo o interesse de todos e não somente de uma minoria de aproveitadores.
Eu não mais me aventurarei em demonstrações científicas dos conceitos evocados. Simplesmente porque não podemos apresentar tudo, abraçar tudo.
Foi necessário fazer escolhas. Tudo o que é possível esperar de mim, é de fornecer um resumo - o mais completo possível -, daquilo que é a ergologia, o que ela nos permite compreender e realizar. Ou, mais exatamente, o que me parece necessário apresentar da ergologia, para torná-la inteligível.
Talvez também (não é proibido sonhar!) fazer com que o leitor se interesse suficientemente para lhe motivar a seguir sua busca na abundante literatura relativa ao assunto. Seria só partir das obras aqui citadas. E, porque não, entrando em contato com o Instituto de Ergologia da Universidade Aix- Marseille, em Aix-en-Provence (www.ergologia.
ErgologCapítulo 1: O que é ergolog
org) ou com a rede de colaboradores internacionais deste Instituto.
Além disso, na sequência, eu exprimo muitas ideias e pontos de vistas pessoais são de minha estrita responsabilidade. Que tudo isso esteja claro para todos nós!
1.1 - Histórico da Ergologia
1.1.1 – Origem e desenvovimento
Em 1983*, começava uma experiência original na universidade Aix-Marseille. Ela foi impulsionada por três universitários: Yves SCHWARTZ, filósofo e epistemólogo, Daniel FÄITA, linguista e Bernard VUILLON, sociólogo, com a implicação afetiva de Jacques DURRAFFOURG, ergonomista e de Marc BARTOLI, economista. Esses pesquisadores foram formados por grandes pensadores: o médico- filósofo Georges CANGUILHEM, o criador da ergonomia de língua francesa (a ergonomia da atividade) Alain WISNER, e o médico e psicólogo italiano Ivar ODDONE.
Essa experiência queria responder à seguinte questão: o que seria necessário para se preparar as jovens gerações para reconhecer as mudanças que atravessam todos os aspectos da vida econômica e social, notavelmente aqueles concernentes às atividades de trabalho? Lembremo-nos, era a
* NT: cf. ergologia em:
http://fr.wikipedia.org/
wiki/Ergologie
ErgologCapítulo 1: O que é ergolog
grande época das “mutações tecnológicas”. Mas, responder a essa questão supunha responder, simultaneamente, a uma questão subsidiária, porém inevitável: Quais meios têm os professores/
pesquisadores universitários para afrontar essas novas interrogações?
Desde então, uma convicção ganhou corpo e desencadeou todo um processo: as relações entre a universidade e as atividades econômicas e sociais eram muito indiretas ou concebidas de maneira muito estreita, formal, aparcelada e instrumental.
Era conveniente, então, repensar as articulações entre estas instituições. Não parecia mais possível, assim, formular diagnósticos e prognósticos, lançar projetos e proposições sobre a atividade de trabalho ou sobre o não-trabalho, se não se encontrava os meios de trabalhar efetivamente com todos aqueles que são diretamente implicados, quer dizer, todos os atores do trabalho. E a hipótese fundadora de todo o processo ergológico era posta desde 1985, na obra L’Homme producteur, que relatava o primeiro estágio desta aventura apaixonante:
“... todo progresso no conhecimento do trabalho impõe associar os trabalhadores, na pesquisa e na reflexão teórica”.* É um problema ético, claro, mas é, de início, um problema científico, epistemológico.
Visivelmente, uma articulação estava por se inventar entre a experiência de trabalho, as formas de saberes e os valores que se desdobram sem cessar e as competências adquiridas pelos universitários e pelos pesquisadores. Este desafio colocava a
* Yves Schwartz, Daniel Faïta (org.).
L’homme producteur.
Autour des mutations du travail et des savoirs. Paris:
Messidor/ Editions Sociales, avril de 1985.
ErgologCapítulo 1: O que é ergolog
exigência de uma dupla validação: aquela por seus pares em uma disciplina científica e aquela tecida nas relações vinculadas ao conjunto do universo social. Essa é a essência dessa história: a ideia que o trabalho possa questionar tanto aqueles que procuram produzir a análise, quanto àqueles que são protagonistas diretamente implicados nas situações de trabalho.
É essa convicção que apoiou a criação contínua de um “dispositivo” diversificado de aprendizagem recíproca, entre as fontes dos saberes universitários, adquiridos pelos empregados, os ofícios, as técnicas – o todo em movimento constante – e os saberes novos trazidos pelas novas configurações da atividade. A Universidade Aix-Marseille, na cidade de Aix-en-Provence e seu Departamento de Filosofia, foram o contexto desse dispositivo.
Pluridisciplinar e pluriprofissional, o dispositivo, assim implantado, não reivindicava para si a filiação em nenhuma disciplina científica e universitária existente em particular, mas tinha a ambição de lhes requerer todas, uma vez que a atividade humana – e, notavelmente, a atividade de trabalho – atravessa e interroga todos os saberes e todas as experiências industriosas.
Seu sucesso sua notoriedade engrandecedora, no plano nacional e internacional, conduziam a Universidade Aix-Marseille a criar um novo departamento, chamado de Departamento de Ergologia. O que institucionalizava assim essa experiência e a conferia, ao mesmo tempo, uma
ErgologCapítulo 1: O que é ergolog
espécie de reconhecimento acadêmico, mesmo que essa abordagem não tenha verdadeiramente um estatuto universitário, sendo antes de tudo pluridisciplinar. Em resumo, ela é reconhecida e admitida, mas não existia como área de conhecimento na universidade francesa. O que ocasiona muitas situações ambíguas e a priva de meios universitários indispensáveis ao seu funcionamento e à sua difusão.
1.1.2 – O instituto de ergologia
Esta abordagem se apresenta, essencialmente, em três domínios, como toda função universitária*:
Uma formação universitária. Em nosso caso, trata-se de um ensino profissionalizante. A metodologia que funda esse ensinamento conduz, necessariamente, a associar, em seus cursos, universitários e não universitários, tanto no nível de quem ensina quanto dos que aprendem; o que permite notavelmente o acesso de não acadêmicos às formações superiores (o que foi, entre outros, o meu caso). O que caracteriza mais particularmente esse ensino é a utilização que é feita dos saberes da experiência dos estudantes/ trabalhadores (saberes investidos). O ensino ofertado não é feito apenas pelos professores (saberes constituídos), mas o resultado de uma dialetização constante, entre essas duas formas de saberes, no contexto de uma organização e de uma pedagogia adaptada.
Esta prática - original na universidade, que
* Para mais
informações, acesse:
www.ergologia.org
ErgologCapítulo 1: O que é ergolog
mistura formação inicial e formação continuada, profissionalização e iniciação à pesquisa -, resultou na implantação de uma formação diplomada:
Mestrado em Ergologia ou obtenção de um Diploma de Universitário (DU).
Pesquisadores. A ligação ensino-pesquisa é absolutamente necessária ao ensino/
aprendizagem da ergologia. Com efeito, é por intermédio do ensino em formação continuada que os atores econômicos e sociais trazem seus saberes da experiência, os confrontam com os saberes instituídos e fazem progredir globalmente a pesquisa. Inversamente, é partindo da pesquisa e, notavelmente, das pesquisas feitas “em campo”, quer dizer, em situação concreta, que o ensino tomará a forma viva que a universidade deseja dar.
Um centro de documentação. Ao longo dos anos se constituiu um acervo ao mesmo tempo especializado e pluridisciplinar sobre as questões do trabalho. Esse acervo compreende em torno de 3.000 obras representando 16 “disciplinas acadêmicas”, às quais foi necessário acrescentar uma rubrica
“pluridisciplinar”. Mas, a riqueza desse acervo reside também, senão principalmente, em uma importante “literatura cinza” (não controlada por editoras): mais de 1.500 documentos, monografias ou relatórios, realizados seja pelos estudantes, seja pelos consultores ou pelos profissionais de diversas instituições, seja ainda por aqueles que ensinam e pesquisadores. Para as pessoas que não pertencem ao mundo acadêmico, a consulta local é possível.
ErgologCapítulo 1: O que é ergolog
1.1.3 - A difusão internacional
Esta abordagem parece ter reunido fortes preocupações intelectuais e sociais em outros países. É o notável caso do Brasil, com o qual importantes cooperações, em sentido duplo, foram enormemente desenvolvidas desde uns quinze anos, ou outros com a Argélia, a Tunísia, o Portugal, a Itália, o Moçambique, o Quebec, as ilhas Comores... A tal ponto que a criação, desde setembro 2012, de uma Sociedade Internacional de Ergologia (SIE) se mostrou indispensável para gerir e enriquecer uma cooperação internacional.
A necessidade que se fez progressivamente sentir é dupla:
• Reforçar as ligações daqueles que partilham uma preocupação comum quanto à produção dos saberes e a governabilidade social nas relações com a atividade humana;
• Nutrir essa relação por trocas internacionais e de circulação de ideias, quaisquer que sejam suas formas institucionais, instaurando desse modo uma dimensão de sociedade científica.
A Sociedade Internacional de Ergologia é uma associação científica cujo objetivo é reforçar uma comunidade de parceiros interessados - segundo modalidades variadas - pela abordagem ergológica e desejosos de continuar a explorar coletivamente os horizontes intelectuais e sociais que ela possa abrir. Ela permite associar seus parceiros com
ErgologCapítulo 1: O que é ergolog
toda independência em relação às estruturas, instituições e organizações existentes*.
A SIE organiza, a cada dois anos, um congresso internacional cujas consequências são importantes para os interessados.
* Para informações:
http://www.ergologia.
org
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
Capítulo 2
Os princípios fundamentais da ergologia
2.1 - Elementos de base
Os vários elementos seguintes permitem identificar, em primeira aproximação, os conteúdos da noção de ergologia, tal como ela foi desenvolvida no contexto histórico antes evocado. Que o leitor me perdoe mais uma vez, mas o assunto é muito vasto e podemos abordá-lo por pequenas parcelas, cada uma contribuindo com sua parte para reconstituir um pouco da história do conjunto do edifício ergológico. Todas as noções e conceitos evocados na sequência serão explicitados e desenvolvidos conforme progredimos ao longo dessa obra. Convém, então, um pouco de paciência e perseverança.
A ergologia não é uma disciplina científica a mais. Mesmo que elaborada de uma maneira muito científica e sobre bases epistemológicas consolidadas, a ergologia não é uma disciplina científica no sentido acadêmico e universitário do termo. É uma abordagem metodológica e/ou um posicionamento pluridisciplinar de apreensão e análise da atividade humana. A atividade neste sentido é definida como um élan, um impulso
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
de vida, de saúde, sem marco predefinido, que sintetiza, cruza e amarra tudo que se apresenta separadamente (corpo/espírito; individual/
coletivo; fazer/valor; privado/profissional; imposto/
desejado, etc.).
Este olhar sobre a atividade tem como objetivo produzir conhecimentos sobre o que as pessoas vivenciam a fim de melhorar suas condições de trabalho. E é aproveitando, o mais próximo possível, os intercruzamentos de saberes e valores gerados nas situações reais vividas. O trabalho é a atividade humana mais correntemente analisada pelos “ergólogos”. Mas não somente! A ergologia se debruça, desde alguns anos, sobre todas as atividades humanas; a atividade de trabalho sendo considerada entre outras atividades humanas.*
O posicionamento do pesquisador ou daquele que analisa o trabalho, não pode ser uma projeção de suas próprias normas. Ele deverá tentar apreender a atividade das pessoas observadas, seus determinantes e suas consequências. Quer dizer, as condições nas quais as pessoas realizam o trabalho delas, o que isso demanda e o que isso lhes demanda, as arbitragens que elas operam. Seu papel é de colocar em relação: as verbalizações do conjunto de atores da situação de trabalho, os elementos resultantes das observações, os documentos coletados e os conceitos ergológicos.
Os fundamentos científicos dessa abordagem implicam em uma coconstrução por diferentes tipos de saberes. Com efeito, para apreender o que
* Sobre isso, ver:
Manifesto pelo Ergo-engajamento de Yves SCHWARTZ publicado em
“Trabalho e Ergologia:
conversas sobre a atividade humana”;
livro organizado por Y.
Schwartz e L. Durrive e já editado no Brasil.
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
se passa realmente, a ergologia requer uma dupla confrontação de saberes:
• saberes da experiência ou “saberes investidos”
(daqueles que trabalham, que vivem o que é analisado) com os saberes acadêmicos ou “saberes constituídos”;
• saberes acadêmicos entre eles (ergonomia, economia, filosofia, ciências da linguagem, sociologia, história, psicologia, direito, medicina, ciências da engenharia...).
Esses diferentes saberes devem se interrogar e se interpelar continuamente. E isso, em um formato semelhante aos processos socráticos em sentido duplo. De outra maneira, cada tipo de saber tem necessidade de outros saberes para reconhecer, compreender melhor e em toda sua complexidade, a situação estudada. Porque a atividade de trabalho atravessa todas as disciplinas científicas convocadas e nenhuma pode a apreender em sua totalidade.
Essas interpelações mútuas obrigam cada saber a se colocar em questão, a retrabalhar seus próprios conceitos sob o efeito dos questionamentos e das precisões demandadas pelas outras disciplinas acadêmicas, mas também, evidentemente, a partir daqueles saberes investidos na atividade. Esses saberes exercem entre eles, o papel de “forças de convocação e reconvocação” para atualizar e validar constantemente os conhecimentos assim produzidos. É o que permite a esses conhecimentos produzidos de não ser simples “modelos teóricos”,
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
mas de ser uma reflexão, a mais exata possível, da realidade observada “aqui e agora”.
Os conhecimentos produzidos são sempre historicamente datados. Eles reenviam e só podem reenviar a uma situação “aqui e agora”.
Dito de outro modo, eles são sempre ligados a uma história singular, aos “encontros” de Homens em uma dada situação e em um ambiente particular, perfeitamente situado no tempo e no espaço.
Segundo a ergologia, em todas as “ciências”
humanas, o que é verdade em determinado lugar e em determinada situação (uma história), não pode ser transferido tal qual para outros lugares.
Não podemos neutralizar a dimensão histórica como podemos e devemos fazer nas ciências da natureza. Nós retornaremos ao assunto.
Isso não pode se conceber sem exigências éticas e epistemológicas compartilhadas.
Essas exigências representam os preceitos epistemológicos que todo ergólogo deve integrar os quais explicaremos melhor a seguir. Nesta etapa de nossa proposta, convém retomar que toda essa abordagem requer uma organização, meios, uma estratégia, objetivos, valores comuns, etc. Senão, não há funcionamento. Do contrário isso não pode funcionar. Nós veremos isso em detalhe, quando abordarmos:
• O Dispositivo Dinâmico de Três Polos (DD3P),
• Os Grupos de Encontros do Trabalho (GET).
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
2.2 - A inovação ergológica
Para resumirmos e irmos mais além, dizemos que a ergologia, se bem que elaborada cientificamente não é uma nova ciência, posto que ela é pluridisciplinar; ela se reivindica, um método de apreensão de saberes e conhecimentos gerados por todas as atividades humanas, entre elas a atividade de trabalho. E isso, colocando em articulação e em constante dialética três polos: o polo do “saber investido” na experiência por aqueles que operam e agem, é um verdadeiro saber da mesma maneira que o segundo polo: aquele do “saber constituído”, organizado, disponível e formalizado pelas e nas diferentes disciplinas científicas, tecnológicas e técnicas, médicas, etc., e, enfim, um terceiro polo, aquele das “exigências epistemológicas e éticas”
dos valores, das estratégias e dos meios implicados.
É tudo isso que a ergologia nomeia de: o dispositivo dinâmico de três polos (DD3P)* e que exploraremos como isso funciona concretamente a seguir.
Em grande parte, a inovação ergológica se situa nessa metodologia que permite fazer funcionar, tornar realizável e criativa, a pluridisciplinaridade dialética ampliada aos saberes investidos. Cada vez mais, essa pluridisciplinaridade é reconhecida como indispensável para abordar a complexidade intrínseca dos objetos observados, e o trabalho é um deles. Acreditamos tê-lo mostrado. Mas, como colocar em coerência, em coesão, em dialética fecunda todos esses saberes convocados?
* SCHWARTZ, Y. e DURRIVE, L. (Orgs).
Trabalho e ergologia : conversas sobre a atividade humana.
Tradução de Jussara Brito [et al.] e revisão técnica de Jussara Brito e Milton Athayde. 2a ed. Niterói:
Editora da Universidade Federal Fluminense, 2010.
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
Como fazê-lo sem cair na cacofonia, em debates escolásticos, e mesmos ideológicos e sectários, mas ao contrário, na complementaridade de diversas abordagens, fazendo de sorte que as lacunas de certas disciplinas sejam compensadas por outras? E, aos saberes disciplinares, acrescentamos os saberes da experiência dos protagonistas dos trabalhos, a fim de estar próximo da realidade do aqui e agora, isso pode mostrar a propriedade do impossível.
O objetivo do dispositivo dinâmico de três polos, organizado no formato de Grupos de Encontros do Trabalho – GET é de resolver esse desafio.
Sem querer ser grandiloquente e excessivo, mas me parece que estamos, nesse ponto, em uma situação próxima de uma “revolução copernicana das ciências humanas”, de um
“salto epistemológico”, no sentido de Gaston Bachelard. O objetivo destes pesquisadores em ciências humanas foi sempre se aproximar mais do modelo da disciplina epistêmica (aquela das ciências ditas “duras” da natureza, matemáticas, etc.), a fim de propor mais cientificidade ao seu trabalho de pesquisa obtendo maior validação. A Ergologia, por sua vez, defende a ideia que não podemos nos interessar por tudo que toca o ser humano, sem considerar a dimensão histórica, a especificidade de cada situação, de cada encontro, de cada lugar, etc. São aspectos que a disciplina epistêmica se impõe em neutralizar. Com efeito, para ser aceita, uma descoberta no domínio das ciências “duras”, precisa ser passível de reprodução
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
e de verificação – respeitando estritamente um protocolo de experiência – em todo lugar e em todas as épocas. O que não pode ser o caso das pesquisas em ciências humanas porque elas são obrigatoriamente marcadas pela história, o lugar, a situação encontrada, etc. Para as disciplinas epistêmicas, o que é verdade hoje e agora, deve ser – a fim de ser validada – também no tempo e alhures. Podemos defender que o que é verdade para os trabalhadores franceses da indústria automobilística em Sochaux (sede da Peugeot), hoje, deve ser também verdade e verificado, por exemplo, pelos trabalhadores da construção civil na África, e o tempo todo? Isso seria um absurdo!
E, portanto, não é isso que tentam fazer atualmente a maior parte dos pesquisadores em ciências humanas? Encontrar soluções generalizáveis para tudo e em qualquer momento. O que corresponde para um ergólogo a uma ausência de “desconforto intelectual” que é um conceito e, sobretudo, uma virtude ergológica de primeira importância. Isso quer dizer que não estamos nunca em segurança para tentar compreender, analisar e ainda mais neutralizar ou enquadrar as atividades humanas.
Isso não é somente uma modéstia é, principalmente, uma atitude científica fundada e sensata.
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
2.3 - Disciplina epistêmica, disciplina ergológica*
Fica compreendido que para todo ergólogo, existem dois tipos de disciplinas científicas: a disciplina epistemológica que diz respeito às ciências “duras”, da natureza, matemáticas, quer dizer, as ciências que podemos, e devemos neutralizar o espaço e o tempo. Por exemplo: se conseguimos misturar um átomo de oxigênio com dois átomos de hidrogênio obteremos sempre, água, em qualquer lugar que o fizermos e não importa em que momento. Neste caso, o espaço e o tempo são neutralizados e não tem algum efeito sobre o resultado desta ação. Neste caso, para um ergólogo, estamos no campo de uma disciplina epistémica.
A disciplina ergológica que diz respeito às ciências do Homem e da sociedade. Isso quer dizer, as ciências nas quais não podemos e não devemos neutralizar o espaço e o tempo, quer dizer, a história destes homens dos quais falamos. O que quer dizer que os resultados das pesquisas neste domínio, não são jamais, e não podem jamais, ser estabilizados posto que elas sejam ligadas ao espaço e ao tempo da descoberta. Daí o conceito ergológico de um
“desconforto intelectual”.
E é por isso que, em Ergologia, temos tendência a colocar aspas em “Ciências Humanas e Sociais”
para distingui-las das ciências ditas “duras”.
* SCHWARTZ, Yves.
Disciplina epistêmica disciplina ergológica paidéia e politéia.
Pro-posições, v. 13, nº 1 (37), jan/abr. 2002, pp.
126-149.
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
Y. Schwartz (2010) mostra a diferença epistemológica dessas duas disciplinas, quando ele afirma que*:
Atualmente, nos meios de trabalho, regulados pelas normas técnicas, econômicas, gestoras, jurídicas, toda situação de trabalho é sempre em parte a aplicação de normas antecedentes. Se somente elas existissem, se faria de uma situação de trabalho o equivalente a um protocolo experimental. (...) Em um protocolo experimental, é preciso que os conceitos tenham uma definição absolutamente clara e sem resíduos, manipuláveis e operatórios por qualquer um, a experimentação deve tentar eliminar todos os vieses.
Os físico-químicos falam de condições standard. É o que eu denominaria neutralização do histórico. De certa maneira, a ambição do governo taylorista do trabalho era de fazer dos atos de trabalho o equivalente a um protocolo experimental no qual tudo teria sido pensado pelos outros, antes que os executantes agissem:
aliás, a eles não é permitido agir, eles executam. As dificuldades, os fracassos parciais das organizações tayloristas nos ensinaram que não é jamais esse o caso. (...) Toda situação de atividade é aplicação de um protocolo: há normas a respeitar, um regulamento a aplicar, não somente por questões de responsabilidade jurídica, mas também por que essas normas são, em parte, experiência capitalizada, escolhas políticas, escolhas orçamentárias que devemos traduzir. E, ao mesmo tempo, toda situação de atividade é, sempre, numa proporção jamais antecipável, não somente encontro, mas encontro de encontros. Num guichê do La Poste12, face a pessoas que têm o direito de receber o RMI os funcionários têm certas normas a observar ao efetuar o pagamento do subsídio. E, ao mesmo tempo, eles têm face a face, indivíduos particulares, em tal dia da semana, tem populações comorianas ou magrebinas, tem todo esse conjunto de elementos que faz com que seu encontro, mesmo se eles aplicam normas, seja um encontro desta situação, um encontro de pessoas em parte singulares, de meios coletivos particularizados pela sua história comum, de instrumentos de trabalho, e eles mesmos nesse instante: um encontro de
* p. 13 et 14.
http://194.199.119.54/
activites/seminaire_
formateurs/
experience_
formatrice_bastia Y. Schwartz :
« L’expérience est-elle formatrice ? » in : Actes du séminaire
“l’expérience est-elle formatrice ?” IRA de Bastia, octobre 2003.
Publicado no Brasil como: SCHWARTZ, Yves. A experiência é formadora?
Educação&Realidade, jan-abr 2010, p. 35-48.
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog encontros. Eles não podem escapar porque isso não é
jamais normalizado, standardizado, mesmo em situação taylorista.
Uma vez que compreendemos que toda atividade é sempre de um lado aplicação de um protocolo e, de outro, um encontro de encontros a gerir, podemos dizer que toda atividade é um debate, uma dramática no sentido em que acontece algo, entre normas antecedentes – tudo o que está do lado da experimentação e do protocolo –, e tudo o que é o encontro de encontros e aqui é preciso renormalizar, quer dizer que nenhuma prescrição de espécie alguma diz como agir sexta-feira à noite com o trabalhador imigrante que fala de tal ou qual maneira sua língua. É preciso se apoiar sobre aspectos do protocolo, mas será preciso dar a si mesmo normas para tratar o aspecto não-standardizado da situação. Há, aí, um postulado de convocação à experiência, pois se é preciso que cada um se dê normas para tratar o aspecto singular da situação, o faz com seu patrimônio, diremos, com sua experiência. Teremos dito e, ao mesmo tempo, não saberemos muito bem do que falamos. (SCHWARTZ, 2010, p. 42-43)
Todavia, se a disciplina ergológica afirma sua diferença em relação à disciplina epistêmica, não é por isso, no entanto, que ela irá rejeitá-la. Bem ao contrário! Ela reconhece – e tudo isso é natural – que há muito que se levar em conta e se inspirar nos avanços e descobertas das ciências ditas “duras”, mas, se convém reconhecer as convergências, é imperativo também aceitar a necessária bifurcação, do fato da consideração, de forma obrigatória, da historicidade, do peso da história, do ambiente, de tudo aquilo que é próprio ao humano.
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
2.4 - A distância entre o prescrito e o real
Mas o que foi que levou, enfim, à consciência do lugar e da importância da atividade de trabalho como atividade propriamente e unicamente humana?
No início dos anos 1970, dois jovens ergonomistas aprendizes: Catherine Teiger e Jacques Duraffourg observavam o trabalho sobre uma linha de montagem taylorista de televisores, na fábrica da Thompson. Eles faziam estas observações para o laboratório de ergonomia do CNAM, dirigido pelos professores Alain Wisner e Antoine Laville, ambos médicos de formação. Tratava-se de analisar o trabalho de operárias com pouca qualificação, em níveis hierárquicos mais básicos.
Estas operárias deviam, em uma linha de montagem fordista num tempo previsto de 90 segundos, colocar sobre chassis de televisores, que se deslocavam diante delas, em torno de trinta componentes diferentes: diodos, fios, lâmpadas, etc. Esses componentes se encontravam em caixas dispostas acima da linha de montagem. Elas tinham então, um minuto e meio! Evidentemente, o setor de métodos tinha concebido e organizado tudo para que isso fosse possível. Porém, para surpresa geral, esses aprendizes de ergonomia perceberam que nenhuma dessas operárias fazia o seu trabalho como previsto pelo setor de métodos. Além do mais,
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
nenhuma delas o executava de forma semelhante ao de outra operária!
Segundo eles, quando anunciaram suas descobertas aos patrões, esses não acreditaram. Era inimaginável! Porém, isso necessitou ser colocado em evidência. Havia perfeitamente uma distância entre o trabalho que eles chamavam na época de
“teórico” (posteriormente denominado “trabalho prescrito”) e o trabalho tal qual era realizado aqui e agora (denominado posteriormente “trabalho real”).
Desta maneira que foi descoberto o fundamento da ergonomia francesa, isto é, a ergonomia da atividade: a distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Toda a ciência ergonômica partiu daí e foi sempre baseada nessa constatação.
Quando essas operárias foram interrogadas, elas responderam que para conseguir realizar o ciclo de trabalho em 90 segundos, cada uma havia adaptado seus procedimentos (em ergologia nós dizemos: havia renormalizado), cada uma tinha seus procedimentos. Senão, elas não conseguiriam!
Por quê? Porque essas operárias não eram todas iguais: algumas eram destras, outras canhotas;
algumas altas, outras não; algumas tinham uma boa visão, outras não, etc., etc. De acordo com elas, era necessário não ultrapassar, invadir o espaço da próxima operária, pois isso desorganizaria toda a linha de montagem.
Era, então, para serem eficazes, que elas teriam renormalizado os procedimentos do serviço de métodos.
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
Mas não somente isso!
Continuando as investigações, elas reconheceram que adaptavam os procedimentos também, para ganhar tempo. Portanto, um minuto e meio não era suficiente para colocar 27 a 30 componentes diferentes, era preciso que elas fizessem melhor. Por quê? Para ter tempo de resolver os imprevistos que nunca deixavam de ocorrer durante o seu ciclo de 90 segundos: às vezes os componentes não estavam bem dispostos nos compartimentos, outras vezes eles escapavam de suas mãos, etc. Assim não era preciso, sobretudo, que elas avançassem sobre a próxima operadora.
Então, era também, para serem eficazes, que elas adaptavam seus procedimentos!
Percebeu-se rapidamente que não era apenas na linha de montagem da Thompson que isso ocorria, verificou-se que isso ocorria em toda parte.
Mesmo que, na França, após os acontecimentos de 1968 e da grande greve dos operários com pouca qualificação em maio de 1971, se estivesse pesquisando novos métodos de trabalho, o taylorismo/fordismo era ainda o dogma dos organizadores do trabalho. Isso quer dizer, entre outras coisas, que tudo deveria ser previsto e organizado antes que o trabalho fosse executado.
Os que o executam não deveriam refletir e os que refletiam não deveriam executar. Esta descoberta ergonômica, antes citada, estabeleceu um impacto tal como um temporal no céu sereno e um pouco
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
adormecido das ciências do trabalho! Como seria possível que, operárias, ainda mais, as operárias com tão pouca qualificação, pudessem pensar modos mais eficientes de realizar seu trabalho na “linha de montagem”? - o que era considerado como um “crime de lesa-taylorismo”.
Uma verdadeira revolução copernicana surgiu no horizonte, o que provocou uma verdadeira batalha titanesca entre todos aqueles que se interessavam pelo trabalho.
Do meu ponto de vista, eu comecei meus estudos universitários em sociologia, em meados dos anos oitenta e eu posso testemunhar, ainda nesta época, as disputas verbais, que podiam chegar até a injúrias, entre os partidários da “batalha do trabalho real” como se chamava a equipe de ergonomistas seguidora do professor Wisner e aqueles que se recusavam a admiti-la.
Tudo, finalmente e bem rapidamente entrou em ordem porque foi preciso ser colocado em evidência. Em dezembro de 1991, uma lei de inspiração Europeia sobre os riscos do trabalho, obriga a se considerar o trabalho real, para se realizar uma avaliação de riscos. A partir daí, creio que se pode dizer que a situação foi entendida, pelo menos no mundo científico, porém, nem sempre no mundo empresarial. A partir do momento em que uma lei obriga a se considerar o trabalho real na avaliação de riscos, é antes de tudo, a prova de que este existe ou em todo caso, que é necessário levá-lo em consideração.
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
Em efeito, atualmente, esta “batalha do trabalho real” está quase ganha. Somente alguns raros gestores ainda se esforçam em querer suprimir essa distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real, mas isto pertence à ordem do fantasma da gestão. Por quê? Porque é da natureza humana procurar sempre adaptar sua atividade às condições (técnicas, organizacionais, éticas, deontológicas, etc.) que ela julga serem as mais adequadas para responder à situação encontrada, aqui e agora e que jamais seria totalmente previsível. Felizmente isso é feito, porque senão o trabalho não poderia se realizar.
Esta distância entre o trabalho tal como ele é prescrito, anteriormente à sua realização e como ele é finalmente realizado, sempre existiu, em todos os locais e em todos os tempos.
2.5 - Mas, o que caracteriza essas distâncias?
De acordo com SCHWARTZ, há quatro ingredientes que as caracterizam:
2.5.1 - É uma constatação universal
Nós já evocamos essa particularidade. O que significa que esta distância sempre existiu em todo o mundo e em todos os tempos, desde que o ser
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
humano fabrica ferramentas, armas, abrigos, desde que ele se esforça por ser “mestre e possuidor da natureza”, enfim, desde o surgimento do homo faber*. Será sempre assim, porque isto está em sua natureza e isto é indispensável à realização de sua atividade!
2.5.2 - Essa distância não é antecipável e é sempre, em parte, resingularizada
O que quer dizer que não se pode jamais prever qual vai ser a natureza dessa distância e nem em que momento da atividade ela vai se produzir e, que de uma situação a outra, no tempo e/ou no espaço, a natureza da distância jamais será totalmente idêntica. Tudo o que se tem certeza é que haverá um desvio, uma distância a administrar, mas não se pode saber qual e nem quando. Isto está longe de ser fácil de administrar, sobretudo no campo da prevenção. Mas nem por isso se deve negligenciá-la, negá-la e/ou ocultá-la. Não é porque um problema é difícil de resolver que se pode agir como se ele não existisse. Isto seria muito fácil! Mas então, como prever o imprevisível? Bem evidentemente isso não é simples, mas a ergologia, entre outras, pode confirmá-lo. Veremos isso, mais adiante.
2.5.3 - Suas motivações são obscuras
Se compreendermos bem que seus objetivos são os de preencher e administrar a distância
* Homo faber: em filosofia, faz referência ao homem capaz de fabricar ferramentas.
ErgologCapítulo 2:Os princípios fundamentaisda ergolog
imprevisível do trabalho prescrito, tanto organizacionais quanto materiais, ambientais (a meteorologia, por exemplo), humanas e éticas (uso de si), etc., suas escolhas (porque assim e não de outra maneira!) são obscuras. Ainda mais uma vez, isto remete à história, às características do aqui e agora, ao uso do seu “corpo si” (sua alma e seu corpo físico) (ibid. : “Trabalho e Ergologia”, p. 192 e seguintes), à apreciação da situação, da motivação, da antecipação do que ocorre após a tarefa e ainda de outras coisas que não se pode exaustivamente enumerar, mais que cada um as percebe bem, refletindo um pouco sobre isso.
2.5.4 - Suas escolhas mobilizam valores e/ou normas
Se existe escolha, existem obrigatoriamente valores em jogo que orientam as renormalilzações;
é evidente que não se pode julgar e decidir sem se apoiar em valores. Na experiência, observamos que estas escolhas remetem a noções de solidariedade (à atividade coletiva, às leis), à saúde (usamos a nós mesmos procurando sempre nos economizarmos).
Isso é humano e mais eficaz, de cultura, de valores, de ética e até mesmo de estética, de consciência profissional, de busca de eficácia, etc. Tudo isto não facilitando a tarefa dos preventores que querem agir só e em expertise, qualquer que sejam suas competências e motivações. Então como fazer?