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2.4 - A distância entre o prescrito e o real

Mas o que foi que levou, enfim, à consciência do lugar e da importância da atividade de trabalho como atividade propriamente e unicamente humana?

No início dos anos 1970, dois jovens ergonomistas aprendizes: Catherine Teiger e Jacques Duraffourg observavam o trabalho sobre uma linha de montagem taylorista de televisores, na fábrica da Thompson. Eles faziam estas observações para o laboratório de ergonomia do CNAM, dirigido pelos professores Alain Wisner e Antoine Laville, ambos médicos de formação. Tratava-se de analisar o trabalho de operárias com pouca qualificação, em níveis hierárquicos mais básicos.

Estas operárias deviam, em uma linha de montagem fordista num tempo previsto de 90 segundos, colocar sobre chassis de televisores, que se deslocavam diante delas, em torno de trinta componentes diferentes: diodos, fios, lâmpadas, etc. Esses componentes se encontravam em caixas dispostas acima da linha de montagem. Elas tinham então, um minuto e meio! Evidentemente, o setor de métodos tinha concebido e organizado tudo para que isso fosse possível. Porém, para surpresa geral, esses aprendizes de ergonomia perceberam que nenhuma dessas operárias fazia o seu trabalho como previsto pelo setor de métodos. Além do mais,

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nenhuma delas o executava de forma semelhante ao de outra operária!

Segundo eles, quando anunciaram suas descobertas aos patrões, esses não acreditaram. Era inimaginável! Porém, isso necessitou ser colocado em evidência. Havia perfeitamente uma distância entre o trabalho que eles chamavam na época de

“teórico” (posteriormente denominado “trabalho prescrito”) e o trabalho tal qual era realizado aqui e agora (denominado posteriormente “trabalho real”).

Desta maneira que foi descoberto o fundamento da ergonomia francesa, isto é, a ergonomia da atividade: a distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Toda a ciência ergonômica partiu daí e foi sempre baseada nessa constatação.

Quando essas operárias foram interrogadas, elas responderam que para conseguir realizar o ciclo de trabalho em 90 segundos, cada uma havia adaptado seus procedimentos (em ergologia nós dizemos: havia renormalizado), cada uma tinha seus procedimentos. Senão, elas não conseguiriam!

Por quê? Porque essas operárias não eram todas iguais: algumas eram destras, outras canhotas;

algumas altas, outras não; algumas tinham uma boa visão, outras não, etc., etc. De acordo com elas, era necessário não ultrapassar, invadir o espaço da próxima operária, pois isso desorganizaria toda a linha de montagem.

Era, então, para serem eficazes, que elas teriam renormalizado os procedimentos do serviço de métodos.

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Mas não somente isso!

Continuando as investigações, elas reconheceram que adaptavam os procedimentos também, para ganhar tempo. Portanto, um minuto e meio não era suficiente para colocar 27 a 30 componentes diferentes, era preciso que elas fizessem melhor. Por quê? Para ter tempo de resolver os imprevistos que nunca deixavam de ocorrer durante o seu ciclo de 90 segundos: às vezes os componentes não estavam bem dispostos nos compartimentos, outras vezes eles escapavam de suas mãos, etc. Assim não era preciso, sobretudo, que elas avançassem sobre a próxima operadora.

Então, era também, para serem eficazes, que elas adaptavam seus procedimentos!

Percebeu-se rapidamente que não era apenas na linha de montagem da Thompson que isso ocorria, verificou-se que isso ocorria em toda parte.

Mesmo que, na França, após os acontecimentos de 1968 e da grande greve dos operários com pouca qualificação em maio de 1971, se estivesse pesquisando novos métodos de trabalho, o taylorismo/fordismo era ainda o dogma dos organizadores do trabalho. Isso quer dizer, entre outras coisas, que tudo deveria ser previsto e organizado antes que o trabalho fosse executado.

Os que o executam não deveriam refletir e os que refletiam não deveriam executar. Esta descoberta ergonômica, antes citada, estabeleceu um impacto tal como um temporal no céu sereno e um pouco

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adormecido das ciências do trabalho! Como seria possível que, operárias, ainda mais, as operárias com tão pouca qualificação, pudessem pensar modos mais eficientes de realizar seu trabalho na “linha de montagem”? - o que era considerado como um “crime de lesa-taylorismo”.

Uma verdadeira revolução copernicana surgiu no horizonte, o que provocou uma verdadeira batalha titanesca entre todos aqueles que se interessavam pelo trabalho.

Do meu ponto de vista, eu comecei meus estudos universitários em sociologia, em meados dos anos oitenta e eu posso testemunhar, ainda nesta época, as disputas verbais, que podiam chegar até a injúrias, entre os partidários da “batalha do trabalho real” como se chamava a equipe de ergonomistas seguidora do professor Wisner e aqueles que se recusavam a admiti-la.

Tudo, finalmente e bem rapidamente entrou em ordem porque foi preciso ser colocado em evidência. Em dezembro de 1991, uma lei de inspiração Europeia sobre os riscos do trabalho, obriga a se considerar o trabalho real, para se realizar uma avaliação de riscos. A partir daí, creio que se pode dizer que a situação foi entendida, pelo menos no mundo científico, porém, nem sempre no mundo empresarial. A partir do momento em que uma lei obriga a se considerar o trabalho real na avaliação de riscos, é antes de tudo, a prova de que este existe ou em todo caso, que é necessário levá-lo em consideração.

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Em efeito, atualmente, esta “batalha do trabalho real” está quase ganha. Somente alguns raros gestores ainda se esforçam em querer suprimir essa distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real, mas isto pertence à ordem do fantasma da gestão. Por quê? Porque é da natureza humana procurar sempre adaptar sua atividade às condições (técnicas, organizacionais, éticas, deontológicas, etc.) que ela julga serem as mais adequadas para responder à situação encontrada, aqui e agora e que jamais seria totalmente previsível. Felizmente isso é feito, porque senão o trabalho não poderia se realizar.

Esta distância entre o trabalho tal como ele é prescrito, anteriormente à sua realização e como ele é finalmente realizado, sempre existiu, em todos os locais e em todos os tempos.

2.5 - Mas, o que caracteriza essas