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Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica

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Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Programa de Estudos Pós-Graduados em

Comunicação e Semiótica

COMUNICAÇÃO SEM RESERVAS:

ENSAIOS DE MALANDRAGEM E PREGUIÇA

Edil Silva Costa

(2)

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM

COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA

ENSAIOS DE MALANDRAGEM E PREGUIÇA

Edil Silva Costa

Tese apresentada à Banca Exami-nadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exi-gência parcial para obtenção do tí-tulo de Doutor em Comunicação e Semiótica, sob a orientação da Profa. Dra. Jerusa Pires Ferreira.

(3)

Banca Examinadora:

Orientadora:___________________________________________________

Examinador 1__________________________________________________

Examinador 2__________________________________________________

Examinador 3__________________________________________________

(4)
(5)
(6)

Agradecimentos

A toda a equipe do PEPLP-UFBa, em especial a Doralice Fernades X. Alco-forado e Maria del Rosário Suarez Albán

À Gerência de Pesquisa da PPG-Uneb À Capes pela bolsa PICDT

Ao Departamento de Educação do Campus II-Uneb

A Gilvan Barbosa, Nayara Dantas, Luiz Ramos, Ana Débora e Kelvo, cola-boradores do NEO em diferentes etapas da pesquisa

A Márcia Rios, revisora criteriosa A Pérola Cunha, pelo abstract

Aos novos amigos e colegas do Núcleo de Poéticas da Oralidade da PUC, Josias, Márcio, José, Conceição, Sula, Viviane e Denise

A Marlyse Meyer, Amálio Pinheiro, Carmem Junqueira e Renato Cohen (in memorian)

E mais:

Gracias a la vida!...

... Por eu ter nascido em uma família comandada por D. Carminha;

partilhar o pão e o espírito com os amigos Silvio e Irê, Pérola e Luis Pláci-do, Dulciene e Paulo Sérgio, presentes sempre (mesmo distantes);

(7)

RESUMO

Partindo de um corpus de contos populares do ciclo de João Pregui-çoso e de Pedro Malasartes, recolhidos no Estado da Bahia, abordam-se a força e a permanência dos temas malandragem e preguiça na cultura bra-sileira, acompanhando os princípios identitários que os fortalecem. Com o objetivo de contribuir para o estudo da tradição oral, descrevendo os me-canismos de produção do texto, e para uma compreensão mais ampla da cultura brasileira, o aporte teórico se constrói a partir da obra de Paul Zumthor e Jerusa Pires Ferreira e da semiótica da cultura de Iuri Lotman; com os trabalhos de antropologia cultural de Roberto DaMatta, Georges Balandier, François Laplantine, e ainda com os estudos culturais de Stuart Hall e Homi Bhabha e elementos da teoria da comunicação de Muniz So-dré e Lucrécia D’Aléssio Ferrara, entre outros. A tese se compõe de três ensaios: “Preguiça e malandragem: mitos e estereótipos na cultura brasi-leira” faz uma abordagem histórica, apresentando os textos fundadores e as construções estereotipadas em relatos do período colonial, relacionan-do-os à literatura de utopia e ao imaginário medieval transposto para a América. “Oralidade e mestiçagem” discute identidades culturais e formas de identificação, a partir de processos comunicativos da literatura popular (depoimentos e contos), como expressão de rumos civilizatórios de base mestiça, enfatizando a cultura afro-brasileira. “Por uma tipologia do herói malandro” traça um panorama dos tipos malandros mais recorrentes, des-tacando e caracterizando malandros, bestas e preguiçosos, a partir dos contos populares em suas relações com outros textos de cultura, da histó-ria em quadrinhos à literatura escrita.

Palavras-chave

(8)

ABSTRACT

This work stars from a corpus of popular stories collected in the “João Preguiçoso and Pedro Malasartes´s cycle chosen in the State of Ba-hia. It approaches the strength and consistent themes as the cunning and laziness which persists inside Brazilian culture. These themes follow prin-ciples identities that make them stronger. Not only looking forward con-tributing to studies of oral tradiction, describing the mechanisms of text production, but also more widely observing the Brazilian culture. The theorical basis of this thesis was built beginning by on one side in Paul Zumthor and Jerusa Pires Ferreira´s writings, and also cultural semiotics in Iuri Lotman. On the other hand, we also read cultural anthropologists works as in Roberto DaMatta, Georges Balandier´s and François Lap-lantine´s. Otherwise, it was based in cultural studies in Stuart Hall and Homi Bhabha also, elements of communication theories as in Muniz Sodré and Lucrécia D’Aléssio Ferrara and others.

This thesis is compounded by three issues: “The lazyness and the cunning: myths and stereotypes in Brazilian culture”. It makes a historical approach, presenting the very beginner texts and the stereotyped built in narratives from colonial times. They were related to utopic literature and also to the medieval imaginary brought to América. In the “Oral and the mestice of races”, cultural identities and identification ways that comes from the communication processes of popular literature (statements and stories), as expression of civilizatory destinations originaly based on mi-xed process, underlining afro-brasilian culture. In “For a cunning hero tipology”, it tracks a panoramic view of the more common cunning types, pointing out and characterizing the cunnings, the fools and also lazy ones, all from popular stories in their relations with others cultural texts, from cartoons to written literature.

Key-words:

Cultural identities – oral communication – tradiction – cunning – laziness – popular stories

(9)

SUMÁRIO

0. Introdução: Pelas estradas, rios de histórias ... 11

0.1 Narrar histórias, narrar o mundo, narrar a si mesmo ... 15

0.2 Cultura brasileira, culturas brasileiras ... 18

0.3 Malandragem, preguiça e outras questões ... 25

1. Preguiça e malandragem: mitos e estereótipos na cultura brasileira ... 29

1.1 Da viagem e da ventura... 34

1.1.1 América, Utopia, Nova Atlanta, Cocanha, São Saruê... ... 36

1.1.2 O caso Américo Vespúcio ou a trapaça americana ... 38

1.2 Utopias e tradição popular ... 42

1.3 O mito da preguiça no projeto utópico da terra brasileira ... 46

1.4 A triste terra da alegria ou a paixão pelas diferenças ... 57

1.4.1 A realeza dos preguiçosos ... 58

1.4.2 Cigarras e formigas ... 62

1.5 O avesso do avesso ... 64

2. Oralidade e mestiçagem ... 71

2.1 Encontros desconcertantes: culturas na fronteira ... 72

2.2 Relato de uma pesquisa: o outro sou eu? ... 74

2.2.1 Das margens e da resistência ... 77

2.2.1.1 Candomblé de caboclo e capoeira ... 80

2.3 Alguns depoimentos: o jogo de espelhos ... 89

2.4 O negro na literatura popular ... 95

2.5 Dores e sabores: as matrizes étnicas ... 103

2.5.1 Cores e matizes do texto oral ... 104

2.5.2 A Mama África não é longe daqui ... 106

2.5.3 A dor e o sabor da morenidade ... 109

3. Por uma tipologia do herói malandro ... 123

3.1 Pedro Malasartes, João Preguiçoso e a formas do riso ... 125

3.1.1 Mikhail Bakhtin e a cultura popular ... 127

3.2 Malandros, preguiçosos, vagabundos etc... ... 129

3.2.1 Macunaíma e o caráter que ele não tinha ... 137

3.2.2 Malandragem nos contos populares ... 139

3.2.2.1 Maria Sabida e a malandragem feminina ... 144

3.2.3 Esperteza e jogo de poder ... 145

3.2.3.1 Pedro Malasartes por Edmundo Malasartes ... 147

3.2.4 O Besta: inteligência X sentimento ... 155

3.2.4.1 Mané Sabido: de besta a rei ... 156

3.2.5 O direito à preguiça ... 157

3.2.5.1 Santa malandragem ... 160

(10)

3.2.5.3 João Preguiçoso e a recompensa da preguiça ... 163

3.3 O riso como forma de poder... 165

4. Imagens brasileiras ... 169

5.Três pontinhos ... 181

6. Contos ... 184

6. 1 A onça e o coelho ... 185

6. 2 João Preguiçoso ... 187

6. 3 João Preguiçoso ... 190

6. 4 Maria Borralheira ... 191

6. 5 Maria Borralheira ... 195

6. 6 Moura Torta ... 197

6. 7 O trato com a comadre morte ... 199

6. 8 São Pedro, Jesus e o preguiçoso ... 201

6. 9 São Pedro, Jesus e o jogo de cartas ... 202

6. 10 O Boi Brincão ... 203

6. 11 A afilhada de Santo Antônio ... 205

6. 12 Pedro Malasarte e o contrato de trabalho ... 211

6. 13 Mané Sabido ... 217

6. 14 Maria Sabida ... 221

6. 15 A mulher preguiçosa ... 223

6. 16 Causo de Caipora ... 225

7. Bibliografia ... 227

(11)

Pelas estradas, rios de histórias

ra década de 80, quando um grupo de pesquisadores partiu a

campo para investigar a permanência da tradição oral no

Es-tado da Bahia. Coordenado pelas professoras Doralice F. Xavier

Alcofora-do e Maria del Rosário Suaréz Albán, Alcofora-do Instituto de Letras da

Universi-dade Federal da Bahia, o Programa de Estudo e Pesquisa da Literatura

Popular (PEPLP) foi criado em 1984 com o intento de recolher e

documen-tar a tradição oral no Estado da Bahia. Desde então, a equipe se mantém

atuante, envolvendo estudantes da graduação e pós-graduação e

apresen-tando resultados em Congressos e publicações diversas. Em 2002, foi

lan-çada a coletânea Contos populares brasileiros: Bahia (Recife: Joaquim Nabuco, Massangana), com cerca de 100 contos populares baianos de diversos

ti-pos, recolhidos pelo Programa e que servirá de referência para este estudo.

E

Participo do grupo desde 1985 e fiz das versões baianas do conto

“Maria Borralheira” objeto de minha dissertação de Mestrado (Cinderela nos entrelaces da tradição. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo; Fun-dação Cultural; EGBa, 1998). Sendo professora da Universidade do Estado

da Bahia (UNEB), coordeno o Núcleo de Estudos da Oralidade (NEO),

atuante desde 1996 de forma integrada com o PEPLP e também com a

par-ticipação de estudantes da Graduação em Letras e História da

UNEB-Campus II, na cidade de Alagoinhas-Ba.

Já na graduação, senti-me atraída pela literatura e a produção

cultu-ral das margens, a exemplo das narrativas e cantos populares, cordel,

poe-sia marginal1. Certamente, o meu percurso acadêmico tomou outro rumo

(que sigo com alguns desvios até hoje), quando fiz minhas primeiras

in-cursões a campo junto ao grupo do PEPLP. Um mundo se descortinou à

minha frente quando, longe do isolamento acadêmico, conheci que a

poe-sia, do mesmo modo que a língua, é viva e que o contato humano dá uma

(12)

bem ou para o mal, muito dessa minha vivência deixará suas marcas neste

texto.

Uma vez em campo, a equipe não demorou a perceber o vigor e a

ri-queza do material que, aos poucos, foi se apresentando, mas também as

dificuldades a serem enfrentadas. Eu, então estudante da Graduação em

Letras, embarquei nessa empreitada sem ter uma idéia muito clara do que

aguardava. Foi preciso coragem e determinação para, mesmo com

recur-sos bem limitados, percorrer mais de 50 municípios pelas estradas da

Ba-hia. Não falo nem da dureza das viagens nem da falta de apoio que,

mui-tas vezes, teve que ser resolvida com improvisos. Ir a campo não é

sim-plesmente recusar o relativo conforto dos gabinetes acadêmicos para

en-frentar a poeira das estradas, nem apenas entrevistar e gravar. É

princi-palmente empreender uma enorme energia que o contato humano exige.

Não estávamos diante de arquivos ou bibliotecas, depositários da tradição

popular, mas de pessoas, com todas as graças e desgraças dessa condição.

Uma pessoa não tem índice ou bibliografia; não está à disposição do

mes-mo mes-modo que um livro na estante. Para o contato se estabelecer

plenamen-te, é preciso criar as condições anímicas para fazer o texto fluir. Envolve

disposição, disponibilidade e humor. Até se conseguir esse mínimo

neces-sário, não se sabe qual será a ventura ou desventura da viagem.

E o retorno é apenas o início de uma nova incursão. Diante de uma

quantidade enorme de informações a transcrever, percebo que, por mais

preciso e sofisticado que seja, nem todo o aparato tecnológico para o

regis-tro dos textos – lápis, papel, gravador, máquina fotográfica, filmadora – é

suficiente para a captação do nosso objeto desejado. Se, por um lado,

ha-verá sempre imperfeições de registro, por outro, a memória da experiência

ficará também fixada em nossa memória. O texto em performance será

recordado cada vez que me debruçar sobre sua transcrição. Mesmo sem o

envolvimento na emoção do momento, filtrado pela imprecisão da

(13)

in-terpretação pessoal do pesquisador, que passa a ser também depositário

de seu objeto.

O contato com as pessoas durante a pesquisa de campo é um rico e

prazeroso (mas também muito duro) aprendizado. O prazer da narrativa é

o mesmo de estabelecer vínculos humanos, e o pesquisador termina por

ser influenciado por isso. O contato com o outro através da palavra cria

vigorosos laços sociais. Esse contato pressupõe não propriamente o

diálo-go, mas o ensinamento do ouvir e, portanto, o aprendizado do respeito ao

outro, pois é preciso garantir ao semelhante o espaço para expressar-se. É

desse vínculo afetivo, de cumplicidade com o narrador e com a palavra –

intermediária –, que nasce o ambiente propício à produção de narrativas.

Ao revolver a vida desses sujeitos, o pesquisador deve estar

prepa-rado para as surpresas dessa circunstância. Risos e (mais raramente)

lá-grimas fazem parte dos textos e devem ser representados em letra na hora

da transcrição. Acostumados ao planejamento da vida acadêmica, é

preci-so ter agilidade para, rapidamente, aprendendo a lidar com os

sentimen-tos oscilantes daquele que se dispõe a falar, conciliar o seu roteiro com o

improviso e a reformulação.

Mesmo com as melhores intenções (das quais o inferno está cheio),

na verdade somos invasores. Ir a campo é também ocupar o espaço do

outro, inserir-se em um contexto que não é o seu e, dependendo do que se

quer encontrar e do modo de se comportar, arriscar-se ao constrangimento

de ser identificado como transgressor de regras do grupo social abordado.

Prestes a ingressar em território muitas vezes desconhecido, o pesquisador

vai, tateante, descobrindo até onde pode ir e a melhor maneira de se

por-tar.

Por outro lado, não basta boa vontade por parte do narrador. Como

ter certeza de que o que ele sabe é o que queremos registrar? A memória é

invisível. O pesquisador experimenta longos instantes de tensão, desde o

clique que liga o gravador até o abrir de boca do entrevistado e a

(14)

enunciado é uma promessa, um título muitas vezes obscuro, uma

incógni-ta que repousa em um suporte biológico, que é a memória humana. Ao

tratar com pessoas e com a substância de sua vida familiar, portanto com a

intimidade dos entrevistados, fui percebendo que eu estava lidando

inevi-tavelmente com afetividades. Muitas vezes, memórias de infância, de

en-tes queridos ou mesmo acontecimentos do passado (que apenas por ser

passado já deixam a impressão de ser um tempo melhor), nosso material

de estudo é parte de pessoas, antes de ser parte da memória coletiva.

É claro que a tradição é anterior às pessoas, mas é preciso

evidenci-ar que ela nos chega através de sujeitos, e que, por isso mesmo, o

pesqui-sador deve guardar todo respeito frente a esse contato humano.

Interes-sou-me em especial o miúdo, os detalhes. Memória coletiva, mas do

enfo-que individual. Histórias de vida, depoimentos pessoais, peenfo-quenas

memó-rias, fragmentos da história coletiva. Enquanto estive dando forma a este

texto, não pude esquecer os encontros com as pessoas, narradores e

canta-dores, que fui encontrando e guardando ao longo desse caminho. Descobri

a tempo que, na verdade, o que encontrei neles foi uma parte

desconheci-da – ou pelo menos esquecidesconheci-da – de mim, de nós.

Escrever este trabalho foi também um exercício de memória, de

re-lembrança, pois, ainda que contando com os dados documentais, os textos

transcritos, as fotos, os vídeos, as anotações de campo, todo o tempo

bus-quei também o que retive em minha memória dos pequenos mundos que

achei/reencontrei. Pequenas histórias que, apesar de tantas vezes

esqueci-das, constroem nossa história.

Não obstante as permanências e conecções, a sensação de

desloca-mento esteve presente em muitos modesloca-mentos da pesquisa, em maior ou

menor grau. E sabemos que o diferente tanto atrai quanto incomoda.

Ini-ciamos a recolha em território familiar, Salvador e adjacências, mas, em

um momento posterior, a pesquisa se estendeu às micro-regiões pastoris e

ao Litoral Norte do Estado. Não há dúvida de que muito mais difícil que o

(15)

pesqui-sar comunidades de minorias étnicas, a exemplo da aldeia Kiriri, no sertão

da Bahia, por ocasião de uma visita, e terreiros de candomblé. Também

nos guardava surpresas a tentativa de aproximação com as senhoras da

Irmandade da Boa Morte em Cachoeira, cidade histórica do Recôncavo

baiano. Foram situações que nos deixaram frente ao distanciamento de nós

mesmos.

Narrar histórias, narrar o mundo, narrar a si mesmo

Jerusa Pires Ferreira define tradição como “uma espécie de reserva

conceitual, icônica, metafórica, lexical e sintática, que carrega a memória

dos homens, sempre pronta a se repetir, e a se transformar, num

movi-mento sem fim” (2003, 91). Desse modo, sendo parte da tradição, a

litera-tura oral2 cria um mundo e projeta uma imagem do grupo onde transita,

construída pelos valores que o texto carrega. Se as narrativas sofrem

con-tínua e rigorosa censura, isso é o que garante a conservação de uma forma

preestabelecida e de uma carga simbólica que perpassa o processo de

transmissão. Essa literatura delimita territórios, mas também amplia

espa-ços culturais, étnicos e geográficos.

Os textos se repetem infinitamente em narrativas de vastos

territó-rios culturais e podem sofrer modificações, leves ou nem tanto,

adequan-do-se ao longo dos anos a um arcabouço que se forma e lhes dá

sustenta-ção. É justamente o compromisso com a forma preestabelecida e o

conteú-do veiculaconteú-do que faz com que essa produção cultural seja associada ao

passado. Mas ele traz o passado e o presente.

Na transmissão do texto, extrema repetição, marcas do que passou

se atualizam. Os textos tradicionais fazem, assim, a ponte que liga o

pas-sado aos dias atuais. Os contínuos ajustes que sofrem na cadeia de

trans-missão, em nome da clareza e facilidade comunicativa, fazem com que a

literatura tradicional seja sempre renovada e possa estar em consonância

(16)

primeira vista, tradição é antes de tudo movimento, lento e contínuo

mo-vimento. A presença de um narrador com a autoridade de sua voz viva

(ZUMTHOR, 1997b), do corpo que se movimenta e do qual emana o texto,

prolongando-o e presentificando-o, assegura a permanência e demarca

territórios, mesmo em sociedades tecnicamente avançadas, que deixam à

voz um espaço restrito, salvo as mediatizações.

Talvez não haja hábito mais antigo em qualquer ajuntamento

hu-mano que o de narrar, relatar fatos, sejam eles fictícios ou não. As

narrati-vas imemoriais terminam sendo o eixo de ligação entre o homem

primiti-vo e o da sociedade urbana ocidental. Seus dramas e necessidades não

di-ferem essencialmente, embora sua cultura os diferencie muito.

Entendidas como memória individual, as narrativas transportam os

narradores e ouvintes ao seu passado. Como memória coletiva, remontam

a tempos longevos. Narra-se um acontecimento, mesclando o real e o

fictí-cio, mas sempre algo que já foi concluído. Toda narrativa é, assim,

presen-tificação. No entanto, é importante dizer que a tradição é uma prática

coti-diana e não momentos de rememoração do passado.

O ato de narrar é dar continuidade a uma trajetória errante, que traz

ecos do passado à contemporaneidade. O narrador não fica imune a esse

movimento, ele é transpassado pela tradição e através dele ela se revigora.

O passado (e o presente) que o texto carrega é, de alguma forma, também

nosso passado. Assim se constrói a memória, reafirmam-se identidades.

Narrativas são muitas: lendas, mitos, causos, contos, anedotas. Uma

complexa classificação de gêneros tem ocupado estudiosos há tempos.

Sem querer propor uma discussão a respeito, tomo o conto por suas

relções com a superfície social, como gênero que organiza uma memória,

a-creditando que possa oferecer vigoroso material de estudo para a

compre-ensão de significados de certos temas inseridos na cultura.

De tão remoto, o conto é poderosamente misterioso. Nenhuma das

teorias sobre sua gênese foi até hoje suficiente para explicá-la3. A

(17)

vari-ados que transitam por diversos estratos de cultura. As análises

estrutu-rais do conto popular mostram as diferenças e semelhanças entre os

tex-tos, dando novo impulso ao desvendamento dessa forma narrativa. A

im-portante obra Morfologia do conto (Rio de Janeiro: Forense, 1984) de Vladi-mir Propp, datada de 1928, é sem dúvida um marco.

Analisando 100 versões dos contos maravilhosos russos da

coletâ-nea de Afanasiev, Propp observou que as ações dos personagens se

repe-tem e constituem o que ele denominou de funções. Foram listadas 31 fun-ções correspondentes às afun-ções dos personagens, funfun-ções constantes nas

narrativas. Embora nem todas sejam obrigatórias, tais funções obedecem a

uma ordem de sucessão invariável, garantindo uma estrutura narrativa

que se conserva. Por outro lado, o narrador tem a liberdade de escolher os

motivos e a ordenação/organização dos mesmos. Esse aspecto da teoria

proppiana, que diz respeito à atuação do narrador, interessa sobremodo e

será tratado oportunamente.

Os estudos de Propp não se limitam à morfologia. Em um pequeno

texto intitulado “As transformações dos contos fantásticos”, publicado no

Brasil na coletânea dos Formalistas Russos (Porto Alegre: Globo, 1978), Propp detém-se em analisar não mais o que se conserva e se transforma na estrutura do conto, mas como essas transformações se processam, seja a-través de reduções seja aa-través de prolongamentos, amenizações ou

inten-sificações etc.

Em outra importante obra, Raízes históricas do conto maravilhoso (São Paulo: Martins Fontes, 1997), ele publica uma consistente pesquisa que estabelece a relação das narrativas com as práticas sociais primitivas,

ex-plicando sua permanência e variação. Em Édipo à luz do folclore (Lisboa: Vega, s.d.), livro que reúne quatro “estudos de etnografia histórico-cultural”, Propp assinala a importância dos estudos de correspondência

entre a realidade histórica e o folclore, mais fácil de se detectar quando

este reflete diretamente o passado histórico, práticas ancestrais ora

(18)

trata, entretanto, de motivos que não refletem de forma clara essa

realida-de, o estudo toma-se bem mais complexo. Desse modo, certos elementos

podem refletir desejos e anseios de um determinado grupo, apesar de,

his-toricamente, não haver qualquer relação.

Ainda que trate especificamente dos contos maravilhosos, Propp

abre um importante caminho para o estudo dos contos populares e, ao

final da Morfologia, sugere a possibilidade de seu esquema ser aplicado aos outros tipos, a exemplo dos contos religiosos, de moralidade ou

humorís-ticos. Não interessa aqui a análise morfológica dos textos, mas essa

trajetó-ria de Vlamidir Propp é um seguro programa de estudo que dá o melhor

exemplo da necessidade de partir da forma, do particular, para as

rela-ções, primeiro com um contexto concreto, o histórico, que se completará

com a abordagem etnográfica e cultural.

Cultura brasileira, culturas brasileiras

As andanças pelos territórios baianos e os encontros com as pessoas

que, brasileiros como nós, nos provocavam tantos estranhamentos,

des-pertaram em mim inúmeras questões. A identidade obscura desse povo

mestiço tomou uma dimensão maior que a diversidade e riqueza da

cultu-ra popular que ela revela. Por outro lado, a partilha de bens cultucultu-rais

co-muns mostra que as identidades se constroem em exercícios da memória,

na repetição, reiteração de categorias que têm significado para a

comuni-dade. Assim, é isso que forma e sustenta a tradição: a conservação de

de-terminadas categorias significantes para a comunidade e que se constitui

um forte indicador de coesão social.

Mas, de que modo falar de identidade hoje e nesse contexto?

Se-gundo Stuart Hall (1999), a identidade se apresenta em nossos dias como

uma “celebração móvel” e, embora as culturas nacionais sejam uma das

principais fontes de identidade cultural no mundo moderno, na

(19)

provoca deslocamentos que afetam as identidades culturais, sendo mais

apropriado falar em formas de identificação.

Segundo Hall, diante da fragmentação das paisagens culturais de

classe, gênero, sexualidade, etnia, raça, nacionalidade, que no passado

forneciam sólidas localizações para os indivíduos sociais, os sujeitos

en-tram em crise, e até mesmo a idéia que fazemos de nós mesmos fica

abala-da (1999, 9). Em verabala-dade, a identiabala-dade unificaabala-da é uma construção

facili-tadora: construímos uma cômoda história sobre nós ou uma confortadora

“narrativa do eu”, uma fantasia. A literatura, e as narrativas de um modo

geral, tem um grande papel nesse processo de construção de um discurso

sobre um povo ou uma nação.

Porém, de que modo essas grandes narrativas são abaladas pela

globalização? Os mitos, entendidos como grandes narrativas da

coletivi-dade, constroem o meio social mais do que são construídos por eles,

sus-tentam as formas de relacionamento e a imagem ideal que se quer ter de

um grupo humano. Narrar um mito – e o conto nesse aspecto tem um

pa-pel semelhante – é dizer quem se é, de onde se fala e o que se quer tornar

público a respeito de um determinado grupo ou indivíduo.

Edward Said (2004), em Freud e os não-europeus, traz uma importan-te contribuição para pensarmos as questões de identidade. Said se detém

na argumentação de Freud em Moisés e o monoteísmo, segundo a qual o pa-triarca do judaísmo não era judeu, mas egípcio e diferente dos seus

seguidores, que são pessoas que se tornaram judeus e o elegeram líder, tornando-se o seu povo. Mostra como as complexas camadas do passado foram eliminadas por uma Israel oficial. Essa outra história não-judaica,

não-européia, foi apagada e já não figura naquilo que diz respeito a uma

identidade judaica oficial.

Percebe-se aqui que identidade não pode ser pensada nem

traba-lhada em si mesma e quantos fatores estão relacionados ao complexo

(20)

uni-ficar-se em um só discurso. Mesmo polêmico, o estudo de Edward Said

sobre Freud muito nos diz a respeito de nós mesmos. Ele conclui dizendo:

A força desse pensamento, acredito, é que ele pode ser articulado dentro e dirigir-se a outras identidades sitiadas; [...] tratadas como feridas seculares, perturbadoras, desabilitadoras, desestabilizado-ras – a essência cosmopolita da qual não há recuperação, nenhum estado de tranqüilidade, e nenhuma reconciliação utópica, nem sequer consigo mesma. [...] (2004, 82)

Nossas identidades conflituosas, “sitiadas”, serão experimentadas

ao longo de nossa história enquanto povo mestiço. Embora se possa falar

de uma identidade forte, nuclear (FERREIRA, 2004), não é preciso ir longe

para perceber as ficções que um discurso dominante faz crer

representati-vo do conjunto, enquanto as minorias terminam por aderir e repetir, por

necessidade de se inserir na história. Os conflitos tendem a ser ignorados e

as divergências acomodadas, mas imagens aí produzidas nem sempre são

as mais favoráveis e podem até mesmo ferir o amor-próprio dos sujeitos.

Clifford Geertz, em A interpretação das culturas (1998), sustenta a tese de que o conceito de cultura está relacionado ao conceito de homem.

Se-gundo ele, o homem está e sempre esteve tão ligado à sua cultura, que não

existiria sem ela, ingrediente essencial na produção desse animal racional.

Para saber quem é o homem, é preciso saber quem ele é culturalmente. Daí

a importância da identidade cultural para a auto-afirmação e auto-estima

dos sujeitos/indivíduos. Para Geertz, o “homem precisa tanto de tais

fon-tes simbólicas de iluminação para encontrar seus apoios no mundo porque

a qualidade não-simbólica constitucionalmente gravada em seu corpo

lan-ça uma luz muito difusa” (p. 57).

Assim, seríamos animais incompletos, que nos completamos

atra-vés da cultura. Porém, chama a atenção o fato de essa identificação se dar

não através da cultura em geral, mas de formas altamente particulares de

cultura. A cultura teria nos modelado uma espécie única e assim também

(21)

ral estabelecido. Teríamos que descer aos detalhes para apreender o

cará-ter essencial das várias culturas e dos vários tipos de indivíduos dentro de

cada cultura. O caminho para o geral segue através de uma preocupação

com o particular.

Na medida em que transmite situações e valores, a literatura

tradi-cional reforça vínculos e é, sem dúvida, uma modo de os indivíduos se

situarem no mundo (ZUMTHOR: 1997b, 52). Por sua posição à margem,

de certa forma se resguarda das rápidas mudanças impostas pela

moder-nidade. Apesar de serem expressões localizadas, e talvez por isso mesmo,

esses textos constituem parte de um lastro diluído, subterrâneo, silencioso

e poderoso, que fundamenta a cultura.

Por essa razão, a cultura popular tradicional termina por ser

com-preendida como símbolo do “autêntico” na cultura nacional. Tomado

co-mo exemplo de nacionalisco-mo, identidade, diferenciado da cultura de

mas-sa globalizada, o popular, quando interesmas-sa, é transformado em bem de

consumo e circula como atrativo turístico.

Muitos estudiosos optam pela classificação segregadora dos

estra-tos culturais, demarcando as chamadas culturas popular e erudita. Porém, é possível deixar de lado essa já cansativa abordagem dialética e tomar um

caminho menos preconceituoso e mais preciso para se lidar com a questão.

Jerusa Pires Ferreira (1985) coloca bem claramente a dificuldade que é

tra-tar de conceitos como folclore, cultura popular e cultura de massa. O

arti-go, intitulado “ ‘Quero que vá tudo pro inferno’, cultura popular e

indús-tria cultural” mostra que a literatura de folhetos, como uma produção

quase industrial e de grandes tiragens, já seria a princípio uma literatura

de massas. Por outro lado, a chamada cultura de massa foi gerada e se

a-tualiza a partir do popular, como aponta Jesus Martin Barbero em seus

estudos.

Inicialmente, cabe formular a questão: por que estudar a cultura

enquanto “cultura popular”? Penso que importa abrir espaço, no ambiente

(22)

brasileira questões relativas a populações vastas que se encontram no

“li-miar da escrita” (BOSI: 1992, 323). No entanto, proponho-me a estudar o

popular, ou o que comumente se chama “folclórico”, como manifestação

cotidiana, e não “residual”, uma prática social coesa e imbricada à vida

das comunidades, em geral colocadas à margem da sociedade, seja por sua

condição econômica, seja por sua baixa instrução escolar.

Interessa estudar a cultura popular não como algo exótico, produto

de exportação ou atração turística, mas considerando-a um estrato da

cul-tura brasileira em suas relações com os outros estratos mais sujeitos à

ra-pidez das transformações das sociedades modernas e à velocidade

con-temporânea. As análises folclorizantes devem ser deixadas de lado porque

Folclore já demarca uma diferença hierarquizante, do ponto de vista da

classe média em relação a camadas sociais mais populares.

Em consonância com Iuri Lotman na sua tipologia da cultura, a

i-déia central do meu trabalho é que a cultura é um grande texto, um

contí-nuo com camadas que se sobrepõem o tempo todo, trocando informações

e formando novos textos. A produção dessa malha textual depende,

cer-tamente, de muitos fatores e das possíveis relações entre os estratos

cultu-rais. As diferenças e especificidades existem, daí a tendência a rotular,

sempre que se expõe a questão da cultura popular. Mas creio ser possível

tratar das diferenças sem hierarquizar, diferenciar, sem ajustar nem julgar

a partir de critérios da crítica hegemônica.

Não se pode pensar que haja uma simples passividade4 das classes

populares em relação a outros estratos de cultura, a exemplo da chamada

cultura de massa e erudita. Colocada de modo bastante simplificado, essa relação parece ser uma via de mão única. As classes menos favorecidas são

consideradas vítimas da influência nociva dos meios de comunicação de

massa ou produtoras rudes da matéria-prima para o intelectual ou erudito

que explora e refina o popular para renovar seu estoque criador.

É necessário ressaltar o caráter específico do processo de criação da

(23)

de elementos. Por mais que seja hoje difícil o isolamento das comunidades,

o ritmo mais lento das mudanças e da assimilação do novo permite que os

valores mais arraigados da cultura popular possam conduzir as escolhas.

É ingenuidade pensar que não haja imposição, tanto quanto pensar

que não haverá a rejeição do estranho, daquilo que trai as regras dessa

poética popular. É essa assimilação filtrada que faz com que a cultura

po-pular não copie simplesmente as outras produções culturais, mas as tome

também como matéria-prima para suas recriações diferenciadas, para suas

reinterpretações.

Roberto Schwarz (1987), em “Nacional por subtração”, fala de um

mal-estar bem facilmente identificável nas classes dominantes, o qual

re-sulta da sua constatação da cultura brasileira como uma cultura imitativa.

Será que esse mal-estar atinge as comunidades populares? Outro

senti-mento é mais comum: de inferioridade também, mas advindo do

desnhecimento do valor da cultura iletrada, uma vez que, para o senso

co-mum, cultura é sinônimo de conhecimento escolar. Também há uma

tole-rância com o novo e o diferente. Talvez haja o respeito e o encantamento

pelo diverso e, ao mesmo tempo, um distanciamento e a desconfiança de

que o mundo do outro só parcialmente pode ser trazido para junto do seu.

Sem dúvida, o processo de produção da cultura popular só fica

es-clarecido se observadas as normas de funcionamento das comunidades

narrativas onde ela se processa. Entende-se por comunidades narrativas

grupos coesos e articulados pelos valores tradicionais e seu cânone. A

tra-dição é repetida, mas também modificada para sua própria continuidade

e, assim, exerce uma função importante na construção da identidade do

grupo. O que se transmite está em conexão direta ou indireta com o

coti-diano, daí sua movência5, uma vez que as sociedades são dinâmicas, e a

cultura se relaciona com as dinâmicas sociais (BALANDIER: 1976). Disso

resulta a contemporaneidade da cultura popular, ainda que articulada a

(24)

Certos folcloristas é que querem aprisionar a manifestação popular

como peça de museu e sofrem do pânico do “registrar antes que acabe”.

No entanto, os ecos do passado são atualizados pela presença e

perfor-mance dos transmissores que imprimem sua marca pessoal, mas sempre

respeitando a tradição. É o já-dito, o que é reconhecido pelo ouvido, o

fa-miliar, que goza de prestígio, porque é forma de proteção identitária, a

verdade da norma social englobando todas as práticas simbólicas da

co-munidade.

A aproximação da cultura popular, de grupos minoritários, da

cul-tura hegemônica se dá pela proximidade cada vez maior dos meios de

comunicação de massa e as comunidades narrativas. Cada dia mais

inten-sos esses contatos, o pesquisador da cultura popular, ao invés de lamentar,

não pode é deixar de lidar com a matéria não-tradicional, a cultura letrada,

a cultura de massa. É a recepção que faz o texto popular ou tradicional e

não apenas sua produção.

Assim, mais importante que se preocupar com a gênese de um texto

é observar sua trajetória no seu trabalho de composição. Segui-lo na sua

repetição, na busca da semelhança e na escolha das diferenças, dos

ele-mentos novos que serão assimilados no trajeto. Também tem grande

im-portância o esquecimento (ZUMTHOR:1997a). Longe de ser apenas falha

de memória, é o esquecimento que abre as “brechas para a criação”

(FERREIRA: 1979, 36), a inovação, a atualização do texto. Da tradição não

se lembra, mas se relembra. Esquecer é rejeitar o estranho em determinado

contexto.

A poética da criação popular ensina uma velha lição: não há um

processo passivo de produção cultural, o que há é a seleção dos

compo-nentes do texto de cultura e organização de sistemas simbólicos. Essa é a

própria essência da poética das literaturas da voz. Da mesma forma que o

vestuário, a alimentação, os hábitos diversos, enfim, a cultura material se

transforma, a tradição oral há de sofrer modificações. Não podemos

(25)

estudioso da cultura popular será o de registrar no estágio atual a tradição

e estudá-la, sem perder de vista o seu processo dinâmico.

Diante do que foi colocado a respeito do processo de criação da

cul-tura popular, acredito que, desses contatos com outros estratos de culcul-tura,

não resultaria a banalização, empobrecimento ou uniformização cultural.

Antes, seriam trazidos à cena novos elementos a serem selecionados,

as-similados, transformados.

Malandragem, preguiça e outras questões

Na tradição estudada, os narradores são na maioria mulheres

po-bres e não alfabetizadas. Predominam os contos de encantamento e, logo

em seguida, a facécia6 ou conto humorístico, preferencialmente narrado

por homens nas mesmas condições. Dentre esses, o conto de Pedro

Mala-sartes é, sem dúvida, o mais difundido. Com uma presença

numericamen-te inferior, está o de João Preguiçoso, embora ambos numericamen-tenham aspectos em

comum.

Os contos de Pedro Malasartes e de João Preguiçoso, ambos da

tra-dição ibérica, encontraram na cultura brasileira um lastro que lhes

permi-tiu permanecer e serem recriados. Como disse, não interessa aqui uma

abordagem genética nem tampouco uma análise morfológica dos contos,

embora os estudos formalistas possam auxiliar no que diz respeito à

re-configuração das narrativas em um contexto determinado.

Dito isso, o enfoque partirá de um conjunto de textos específicos e

contemporâneos, recolhidos da tradição oral da Bahia, e que, nesse

referi-do contexto, fornece elementos de reflexão e pontos de partida para

pen-sar a cultura nacional e os sentidos que têm os temas da malandragem e

da preguiça na nossa história e na nossa cultura. Esta análise não pode

deixar de lado a vivência da pesquisa e o contato com as pessoas que

nar-raram os contos, imprimindo neles a sua marca pessoal e, muito menos, a

(26)

Os dois contos se estruturam em torno de um personagem central.

Pedro Malasartes e João Preguiçoso têm autonomia e são aproveitados e

recriados em outras obras. São personagens independentes e ganham

con-tornos heróicos (ou melhor, anti-heróicos). A popularidade dos dois se

deve também a isso. Mas que sentido tem narrar esses contos hoje? O que

sustenta os mitos da malandragem e da preguiça na cultura brasileira?

Qual a função do riso relacionado a esses mitos?

A proposta inicial de investigar os sentidos da malandragem e da

preguiça nos contos populares trouxe questões de cultura, que foram se

delineando ao longo da pesquisa. Portanto, reitero, importa trazer para o

centro das discussões acadêmicas os discursos que comumente são

situa-dos à margem. Ao enfocar a malandragem e a preguiça no ideário

nacio-nal, tema transversal do meu trabalho, não pude resistir à pretensiosa

in-tenção de apontar caminhos para se pensar nossa realidade, talvez

proje-tando mais uma utopia tropical.

Assim, com o intuito de pensar estas questões, escrevi os três

ensai-os que apresento em seguida. Procurei dar a eles uma certa autonomia,

que permite a escolha da ordem de leitura de acordo com o interesse e a

conveniência. O primeiro ensaio, Preguiça e malandragem: mitos e este-reótipos na cultura brasileira, faz um levantamento histórico das bases dos mitos da malandragem e da preguiça no Brasil, relacionados à

elabo-ração do discurso dominante e sua continuidade.

O seguinte, Oralidade e mestiçagem, aborda a identidade cultural, com ênfase na cultura afro-brasileira, a partir da produção de textos da

literatura popular no Brasil, considerando-a expressão de um processo

civilizatório de base mestiça.

No terceiro ensaio, Por uma tipologia do herói malandro, traço um panorama dos tipos malandros mais recorrentes. Incluindo no corpus des-de histórias em quadrinhos e contos populares à literatura escrita,

procu-rei destacar e caracterizar os malandros, bestas e preguiçosos, para

(27)

Por fim, apresento uma galeria de Imagens Brasileiras, ilustrações coletadas ao longo da pesquisa que estiveram presentes constantemente

na elaboração deste trabalho e que foram citadas direta ou indiretamente.

Suplementam o texto dezesseis versões de Contos orais baianos, que fa-zem parte dos acervos do PEPLP e do NEO e serviram de pontos de

parti-da para a discussão dos tópicos que considero mais importantes.

1 Uma das lembranças mais gratas que trago dos primeiros tempos no Instituto de Letras

da UFBA são os recitais de um grupo que se nomeava “Beijos Ardentes” e a descoberta do movimento dos Poetas da Praça. Lídio Barros, Douglas de Almeida, Antonio Short, Geraldo Maia integravam o grupo de poetas que, inspirados em Castro Alves e Gregório de Mattos, tomaram a Praça da Piedade em Salvador, na década de 80 e circulavam no ambiente universitário mercando, a preços módicos, seus livrinhos à moda de cordel. Toda essa marginália me interessava pela irreverência e o desejo de levar a poesia às ruas, numa época que era mais importante poder falar em alto e bom som do que ser ouvido. Em geral, eles não mereciam atenção dos estudiosos das belas letras e não encontravam espaço nos bancos da academia, mas deixaram sua marca. Alguns continuaram seu cami-nho, outros desapareceram.

2 Literatura Oral é um termo que, embora já consagrado pelo uso, ainda causa um certo

desconforto pela ambigüidade que carrega. O termo “literatura” (de littera) remete a sinal

gráfico, portanto, à escrita, não podendo, por princípio, ser conciliado a “oral”. Luis da Câmara Cascudo dedica o primeiro capítulo do seu livro Literatura oral no Brasil (“O

que é literatura oral?”) a tentar esclarecer o conceito. Ele compartilha com Paul Sébillot a tese de que literatura oral é aquela que, para o povo analfabeto, substitui as produções escritas. Adotarei aqui o termo não só pelo seu largo uso, mas também pela falta de um outro melhor, para designar um conjunto de textos de produção popular anônima, que obedece a um cânone tradicional, e que, mesmo tendo com a escrita constante interação, é transmitido principalmente pela oralidade. É o caso dos contos populares do qual me ocupo. Sobre o assunto, ver também Introdução à poesia oral, de Paul Zumthor, pp. 21 e

ss.

3 1) Teoria indo-européia ou mítica. Segundo essa teoria, desenvolvida por Marx Muller,

os contos teriam sua origem em mitos cosmológicos que se espalharam e perderem seu sentido primitivo, com a dispersão dos povos indo-europeus; 2) Teoria indianista.

Segun-do a teoria indianista, toSegun-dos os contos teriam como origem comum a Índia, posteriormen-te migrando para outros lugares, inicialmenposteriormen-te através da tradição oral, depois da transmis-são literária. 3) Teoria etnográfica. Formulada por Andrew Lang, a teoria etnográfica

explica a origem do conto como uma forma anterior ao mito, como fragmentos de práti-cas rituais primitivas. 4) Teoria ritualista. Com grande afinidade com a teoria etnográfica,

a teoria ritualista entende os personagens dos contos como lembrança de personagens cerimoniais. 5) Teoria estadial. Desenvolvida por Vladimir Propp, em seu livro Raízes históricas do conto maravilhoso, busca as estruturas sociais e os modos de produção

(28)

4 Sobre esse assunto, ver de Jerusa Pires Ferreira

O livro de São Cipriano: uma legenda de massas: “Acho que não podemos pensar apenas em termos de imposição, no caso da colpotage nem no desta literatura popular [...]. Não se poderá falar em passividade de

quem a recebe, mas também de um reconhecimento de temas e de linguagens, de modos de ver e de dizer [...].” pp.137 e ss.

5 Termo usado por Paul Zumthor, medievalista e estudioso das literaturas da voz, para

designar as transformações dos textos orais no seu processo de transmissão.

6 Na classificação de Luis da Câmara Cascudo, facécias são “contos cômicos” ou

(29)

1.

Preguiça e malandragem:

(30)

s contos populares “Pedro Malasartes” e “João Preguiçoso”

(cf. pp.187 e ss.), tanto na tradição ibérica quanto na

brasilei-ra, apresentam os personagens que agem de acordo com um código moral

próprio, conseguindo alcançar seus objetivos, desafiando as regras sociais.

Ambos estão do outro lado do poder, enfrentando-o com suas armas e

ameaçando a estrutura hierárquica: Malasartes ganha a aposta com o

pa-trão graças à sua esperteza, enquanto João Preguiçoso se casa com a filha

do rei sem fazer o menor esforço, contando apenas com meios mágicos.

O

É preciso lembrar que essas narrativas nos chegaram com a tradição

ibérica, mas, se permaneceram, é porque encontraram aqui as condições

favoráveis para isso. Assumindo uma configuração brasileira e ganhando

peculiaridades nesse novo contexto, servem adequadamente às

encena-ções das nossas práticas sociais1.

É preciso dizer ainda que a literatura popular tem um caráter

bas-tante conservador, resultado, por um lado, da observância a um cânone

tradicional, e por outro, da rigidez com que as classes populares

costu-mam compartilhar dos valores instituídos e adotados pelas classes

domi-nantes. Assim, pareceu-me instigante ponderar, fazendo uma leitura dos

contos tradicionais, para entender de que modo são constituídos e

trans-mitidos na nossa cultura os valores e discursos hegemônicos relativos à

malandragem e à preguiça e o lugar que ocupam nas comunidades

narra-tivas.

A literatura oral é um texto das margens. Além disso, nesses contos

específicos, são narradas as aventuras de personagens duplamente

margi-nalizados (dentro e fora do texto). Trazê-los à luz é revelar o modo pelo

qual os contadores, em suas comunidades narrativas, lidam com essas

questões e resolvem no imaginário a condução das práticas sociais e dos

jogos de poder.

São contos que encenam as relações hierárquicas e de trabalho nas

(31)

lugar social do indivíduo. O malandro, tal qual o preguiçoso, foge ao

mo-delo dessas relações, o que torna a ambos tipos liminares, deslocados

socialmente.

Os grupos sociais se organizam em camadas e, de certo modo,

pro-porcionam a aparição de tipos marginalizados que, nos contos e na vida,

se não quebram a hierarquia, incomodam. São saliências na superfície

pla-na e chã das sociedades de classes. Os tipos limipla-nares permanecem pla-na

memória há muito, porque desempenham uma função reguladora: a

soci-edade instituída em suas regras se esconde atrás desses tipos para dizer o

que não é permitido, o que a moral das normas sociais encobre. Por

ofere-cerem perigo, são assimilados pelo riso e só assim são aceitos.

Mesmo sem pertencer à hierarquia, esses personagens contribuem

para organizá-la, pois suas ameaças fazem emergir mecanismos de defesa.

Se situados à margem, têm a mobilidade necessária para escapar às regras,

mas, na medida em que são fixados como estereótipos, passam a ocupar

um lugar (baixo) na estrutura social. Assim, domados pelo poder, são

sub-jugados e servem para reforçar as estruturas de dominação.

Se a proposta de início era tratar da tradição oral contemporânea2,

pelo desejo de enfocar discursos colocados à margem, logo se percebeu a

necessidade de trazer esses textos em um feixe de relações com a cultura e

a complexidade de construções correlacionadas com o discurso popular.

Assim, intenta-se compreender de que modo se constrói o discurso

domi-nante e quem está por trás dele procurando cercar e sufocar o que o

amea-ça e incomoda, não só no plano material, mas, sobretudo, no simbólico.

Olhando um pouco para trás em nossa tão recente história,

percebe-se que os mitos da malandragem e da preguiça foram construídos pouco a

pouco, impulsionados por esse movimento de defesa dos interesses

domi-nantes. Desde os tempos da colonização, a partir de referências mais

ge-rais existentes no imaginário e na cultura do conquistador, o trabalhador

nativo (e depois o negro) é interpretado e rotulado por seu modo de vida,

(32)

à lógica da discriminação para dominar e vai sendo organizado e reorgani-zado, com o passar dos anos, em função disso.

Dois mundos se confrontaram quando uma civilização que vivia

nos moldes mais primitivos entrou em contato com a cultura ocidental de

uma sociedade de classes, mercantilista e cristã, através da brutalidade da

colonização européia, aqui principalmente sob a responsabilidade

portu-guesa. Entendendo a malandragem e a preguiça como mitos produzidos

por esse choque cultural, antes de tratar propriamente das versões baianas

de “Pedro Malasartes” e “João Preguiçoso”, desloco meu foco de atenção

para as relações de trabalho descritas nos textos sobre a América e o Brasil

dos séculos XVI e XVII.

As representações da “preguiça” do nativo que ali se observam se

sustentam em diversos textos de cultura, inclusive nos contos populares

de tradição ibérica, que são aqui recriados e transmitidos. Por outro lado,

interessa localizar também na cultura atual os correspondentes a essas

construções iniciais.

Se no princípio a descrição da terra e do nativo foi filtrada pelo

o-lhar de encantamento que comparava o Novo Mundo ao Éden, é

impor-tante frisar que, em algum momento de nossa história, a idéia positiva,

paradisíaca, de viver sem trabalho vai ser substituída pela depreciação da

mão-de-obra nativa para justificar a sua dominação e maus tratos por

par-te dos poderosos.

Sem deixar de lado tais conexões, o estudo das narrativas populares

pode contribuir para pensar a malandragem e a preguiça na cultura

brasi-leira e a construção dos estereótipos a elas relacionados. Numa cadeia de

repetição, chegam aos dias de hoje as mesmas construções que se

susten-tam nesses pressupostos e que perpetuam, por exemplo, o mito da

pregui-ça baiana. Algumas comunidades e regiões do país onde se concentrou um

maior número de descendentes de negros e índios terminam por ser

de-preciadas com a repetição desse discurso. A colocação pode ser

(33)

samba e futebol), mas a discriminação se faz presente e merece ser

questi-onada.

O contato com as narrativas populares permitiu formular as

ques-tões que serão desenroladas ao longo deste trabalho: quais os sentidos da

malandragem e da preguiça como categorias da cultura brasileira? Que

significado tem no texto de cultura a permanência e atualização desses

tipos? De que forma os narradores de comunidades tradicionais percebem

e transmitem, adequando ao seu código cultural, tais representações,

transformando-as em um discurso positivo, que considera a esperteza um

vantajoso dom? Ou que condena a preguiça (embora ria dela),

conside-rando-a um dos pecados capitais, segundo a norma cristã? De que modo a

classe dominante protege a hegemonia de seu discurso?

Mas será que é um problema de classe? Se fosse, certamente seria

mais simples responder. Em se tratando do texto cultural, que engloba

todos os estratos sociais, as respostas às formas de dominação podem

a-presentar-se num jogo de mostra-esconde. Não se deve, portanto,

polari-zar, mas observar os comportamentos flutuantes resultados das séries em

contato. É um primeiro cuidado a se tomar não só na busca das respostas,

mas também na formulação das perguntas.

O primeiro passo para esboçar possíveis respostas será percorrer as

literaturas de viagens, buscando as referências ao modo de vida do nativo

aí existentes e, sobretudo, suas relações com as literaturas de utopias.

Tendo por referência as cartas de Américo Vespúcio, as quais narram suas

viagens ao Novo Mundo, e os folhetos que as cartas inspiraram,

pretende-se de que modo a história faz emergir o mito e contribui para consolidá-lo,

inaugurando um importante filão literário na época.

Em seguida, passo das literaturas de utopias para os seus reflexos

na literatura de informação sobre o Brasil, discutindo o modo pelo qual a

descrição da vida do nativo vai produzir uma imagem interessada do

bra-sileiro e reforçar os mitos da malandragem e da preguiça. Passando do

(34)

necessá-rio quando se lida com a literatura oral e com as práticas tradicionais –,

partirei do mais amplo para o mais particular.

É assim que, afunilando ao máximo, trato da configuração atual dos

estereótipos disseminados ao longo de nossa história, mostrando os tipos

populares e os modos de vida relacionados ao texto da malandragem e da

preguiça, no bairro de Itapuã, região periférica de Salvador.

Da viagem e da ventura

A literatura de viagem, as crônicas que descrevem o novo mundo

a-chado, os diários de bordo, as cartas noticiando a descoberta de novas

ter-ras, as pinturas retratando a paisagem e os costumes dos povos nativos e

mestiços nas missões oficiais, todos são textos valiosos para se

compreen-der de que modo foi forjada a identidade brasileira.

No entanto, o que nos chegaram foram fragmentos da memória

des-ses homens que vieram de muito longe. São registros parciais, pois se

co-nhece apenas o discurso de alguns, emitidos através da ótica do

conquis-tador, as vozes que se oficializaram. Nada ou quase nada se sabe dos que

aqui já estavam e dos que vieram depois, à força, tendo sua cultura

esface-lada. De que modo os nativos se viam? Que formas de identidade

possuí-am?

Não se deve perder a dimensão humana da descoberta. Esses

ho-mens que aqui chegaram, hoho-mens do mar, rudes e maus cheirosos,

cansa-dos, muitos doentes e com medo, tinham cada um sua história (pessoal e

coletiva, uma vez que, em meio aos portugueses, outros europeus e

orien-tais misturados já formavam uma nação mestiça e literalmente flutuante).

Enfrentaram o mar, a fragilidade das embarcações, os seus próprios

fan-tasmas. O que levava esses homens simples a tamanha aventura?

Deixa-vam suas casas, suas famílias, o certo pelo duvidoso. O que os movia?3 Se

a vida que levavam não lhes satisfazia, havia a esperança de encontrar

(35)

alte-ridade. Nas condições precárias das travessias marítimas, encontrar a terra

firme já era o paraíso.

Se tomar consciência de si mesmo e de sua especificidade é se

con-trapor a outras esferas, a América foi um importante palco da tomada de

consciência da civilização ocidental. E os nossos povos nativos, que

guer-rearam tantas vezes entre si, exercendo sua auto-afirmação, nesse encontro

puderam experimentar contrase a um inimigo tão mais perigoso

por-que com as diferenças escandalosas de um código cultural nunca visto e,

por isso mesmo, de difícil decifração. Foi um encontro trágico porque

rompeu com as crenças e feriu a concepção de mundo do nativo (e

vice-versa), obrigando-o a resistir radicalmente ou adaptar-se para não ser

en-golido.

Quando o europeu descreve a terra e os costumes autóctones, e

ine-vitavelmente compara com o mundo conhecido, imprime seu juízo de

va-lor. Como acontece até os dias de hoje, o que é valorizado é o

desenvolvi-mento tecnológico, desprezando-se a organização social, a riqueza de uma

cultura milenar, a sabedoria ao lidar com o meio ambiente e a harmonia

conseguida num tempo em que o homem vivia mais próximo dos animais,

caçando e sendo caçado.

Ao invés disso, a superioridade do europeu é atestada por tudo que

“falta” ao outro. Apesar do fascínio exercido pelo exotismo, não se tem

dúvida do difícil embate travado ali, nas tentativas de inserção nesse

terri-tório para organizá-lo e dominá-lo. Narrar o outro é a primeira parte do

processo: torná-lo conhecido, ou melhor, menos estranho. O segundo

pas-so é estabelecer o diálogo, quando já é minimamente possível a troca de

informações.

A leitura e análise dos primeiros textos sobre o novo continente

mostram a seleção de determinadas categorias que interessam para

sedi-mentar e reforçar um discurso dominante que expressa a crença na

supe-rioridade do europeu. As escolhas feitas, conscientes ou não, vão se

(36)

territó-rio, como sistemas bem acabados de signos e códigos específicos e não

fragmentos textuais, o que poderia parecer à primeira vista. Os textos

in-formativos (e utópicos) aqui relacionados – direta ou indiretamente – com

a cultura brasileira servem para mapear, esboçar um painel dos elementos

selecionados, sobre os quais se construíram muitos dos nossos mitos

iden-titários.

América, Utopia, Nova Atlanta, Cocanha, São Saruê...

A literatura de utopia é vasta e antiga4. Os principais traços que

podem ser apontados nas terras utópicas são a fartura, a harmonia social,

a liberdade sexual e a não necessidade de trabalho. Textos como Utopia5, de Thomas Morus, Nova Atlanta6, de Francis Bacon e o fabliau medieval que descreve o país imaginário da Cocanha7 são alguns exemplos, porém são declaradamente textos ficcionais.

Por outro lado, é curioso constatar que as literaturas de viagens,

uma produção que se pretende documental, pois objetiva o registro e a

divulgação de informações, ainda que parciais, aproximam-se, em muito,

da produção dos textos de utopias. Em sua essência, as narrativas que

descrevem as terras do Novo Mundo também trazem marcas dos textos

utópicos, o que se pode ver nas cartas atribuídas a Américo Vespúcio, nos

textos de Gabriel Soares de Sousa, Pero de Magalhães Gândavo e outros

cronistas da época.

A visão do paraíso, da terra de abundância e sem males, também

presente entre os índios brasileiros (QUEIROZ: 1973), aparece nesses

tex-tos e vai delineando, como parte do projeto utópico da terra brasileira, o

imaginário do trabalho e da preguiça e, associado a isso, cria-se o mito da

malandragem. Visto por esse ângulo, o estudo da cultura brasileira, e de

certas categorias compreendidas como parte desta, revela o

(37)

longeva, recuperada pelo discurso do poder, em um determinado

momen-tohistórico.

A chamada literatura de utopia é um reflexo e ao mesmo tempo

contribui para reforçar esses discursos, formando, com a literatura de

via-gem e o imaginário medievo, uma rede. A Nova Atlanta, de Francis Bacon, e Utopia, de Thomas Morus, são modelos de repúblicas cristãs. Com uma postura institucional e ordenadora, são bem diferentes da Cocanha, texto

de caráter mais popular, um mundo às avessas, onde o prazer e os

exces-sos comandam.

Considerada a obra fundadora da chamada literatura de utopia, o

livro de Thomas Morus foi lançado em 1516, numa publicação popular em

latim, e tornou-se um clássico. É claro que, muito antes disso, já se

conhe-cia a narração de terras utópicas. De modo que Morus inaugurou na

ver-dade uma moda ou um profícuo filão literário que, associado à invenção

de Gutenberg, logo se converteu em um grande sucesso editorial e em

fon-te de renda. Escrito na primeira metade do século XVI, o fon-texto demonstra

uma preocupação moderna: a relação com o tempo e a exatidão, o

realis-mo. O autor pretende informar precisamente a situação geográfica da ilha

(apesar de não ter subsídios para isso) e descrevê-la em detalhes. Porém,

está claro que, sendo um não-lugar, Utopia jamais poderia ser localizada.

Crítica da sociedade inglesa de sua época, a narrativa de Morus vai

buscar inspiração na obra Insuper Quatuor Americi Vesputii Navigationes, publicada em 1507, uma tradução da famosa Lettera al Soderini8, carta que Américo Vespúcio teria escrito a Pietro Soderini, em 4 de setembro de

1504. Percebe-se quanto o assunto mobilizava um grande contingente de

“leitores”, letrados e das classes populares, que rapidamente tomaram

conhecimento das proezas do navegador florentino, que não se eximia de

contar suas aventuras. No entanto, as cartas atribuídas a Américo

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O caso Américo Vespúcio ou a trapaça americana

O caminho que os textos noticieros de Vespúcio percorreram é cheio de curvas10, mas sabe-se que um folheto atribuído a ele, e intitulado

Mun-dus Novus, circulou intensamente no século XVI na Europa e, a exemplo de outros, tinha a clara intenção de informar, mas também de deleitar,

preen-chendo uma lacuna para aqueles que desejavam viajar sem nunca sair da

Europa. Porém, a força e a importância desse texto se impõem, por ele ser

também uma poderosa matriz (FERREIRA: 1979) para outros textos e

fo-mentar o imaginário sobre o Brasil.

Em setembro de 1504, após retornar de mais uma de suas viagens,

Américo Vespúcio teria escrito a carta que ficou conhecida por Lettera al Soderini11, que, indiretamente, o que já foi dito, inspira Thomas Morus a escrever Utopia. Dois anos mais tarde, a Lettera circulou em uma publica-ção popular e fez ainda mais sucesso que Mundus Novus. Foi precisamente graças a isso e, por conseguinte, à popularização do nome de Vespúcio,

que o novo continente passou a ser chamado de América.

Estudos revelam que a Lettera é um mosaico textual, pois traz tre-chos de Mundus Novus, mas também da carta a Lorenzo de Médici (só pu-blicada em 1789 por Francisco Bartolozzi) e até de outras narrativas de

viagens, a exemplo da de Marco Pólo. Isso prova que o interesse maior

não estava na veracidade dos fatos, mas na construção e divulgação de um

grande texto (LOTMAN: 1979) dos descobrimentos, formado em mosaico,

intertexto da Bíblia, das edições populares e dos textos oficiais.

A longa discussão sobre a autenticidade das cartas e das viagens12

pouco importa aqui. O que interessa é que existem as cartas, tenham elas

sido escritas por Vespúcio ou não, com a intenção clara de difundir as

des-cobertas do Novo Mundo, resposta ao desejo de um público europeu

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Ao que parece, as cartas cumpriram, ainda que em parte, o seu

pa-pel. O que importa é o interesse em compilar, publicar, divulgar esses

tex-tos que circularam intensamente e o conteúdo que veiculavam. Se são

fan-tasias, tanto melhor. Isso confirma a tese de que textos escritos e orais

fo-mentam o imaginário, por sua vez, um arcabouço virtual que dá

sustenta-ção aos discursos. Se os textos existem e circularam com tanta intensidade

na época, é porque atendiam a essa solicitação dos grupos sociais.

Está clara também a circulação popular, haja vista que foi publicado

em folheto, nos moldes da literatura de massas, facilmente assimilado e

transposto oralmente. Noticiavam, mas também deleitavam, e a

informa-ção, por mais fantasiosa que fosse, recoberta por um verniz de verdade,

exercia um fascínio ainda maior sobre as mentes de seus fruidores. O

en-cantamento proporcionado por essa literatura era semelhante ao do

explo-rador que entra em contato com terras e povos recém-descobertos, num

misto de desejo e temor. Narrar a viagem é viajar outra vez; ler a narrativa

é embarcar junto nessa dupla aventura, viagem vivida e narrada.

Não há por que entrar nas controvérsias a respeito das cartas e das

aventuras de Vespúcio. No entanto, devem-se considerar as quatro

via-gens, com atenção especial às viagens ao Brasil,13 e os folhetos Mundus

Novus e Lettera, por serem textos que circularam largamente na época. Em Mundus Novus, o narrador opta por descrever e explicar o Novo Mundo por partes, consciente da separação do mundo europeu e daquele que se

revelava. Aliás, a comparação de fatos novos com os elementos

conheci-dos no Ocidente é uma constante, fazendo parte da sua técnica de

descri-ção e nomeadescri-ção do Outro, embora, às vezes, fique um vazio, um

inquie-tante silêncio por “não ter com o que comparar”.

A linguagem é a grande lacuna. Inúmeras passagens de textos de

viajantes tratam da comunicação gestual, a única forma possível de

apro-ximação. Estabelecer o diálogo é uma tentativa de se aproximar; comparar

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aí, misturando ficção e realidade. São essas lacunas que recebem o recheio

do imaginário.

Nesse movimento, o texto elege alguns tópicos. O primeiro, que

muito nos interessa, é concernente ao nativo. O convívio com eles é

amis-toso e, na maior parte das vezes, simpático. Apesar de sua visão ser

parci-al, o narrador percebe uma organização peculiar: ‘’Não possuem bens

próprios, mas tudo lhes é comum, vivendo juntamente, sem rei nem lei,

sendo cada qual o senhor de si próprio. [...] Não há entre eles mercados

nem comércio”.

A comparação pode ser direta ou indireta, mas, na viagem da

Eu-ropa para a América, fragmentos de discursos vão se deslocando e

recom-pondo um novo texto. O comparativismo revela uma interseção de dois

mundos: um real, concreto; o outro suposto, imaginado; um conhecido,

outro incógnito. Inaugura-se assim uma leitura de mundo. Com o alfabeto,

as palavras, a sintaxe do homem ocidental, uma vez que a comparação só

é possível se se vale de elementos conhecidos, o texto do mundo é

(re)escrito. Surpreende ainda a necessidade de marcar a diferença e

mere-cem atenção as qualidades atribuídas ao nativo e ao europeu. Que

aspec-tos do nativo e da terra são selecionados para a (re)escritura do mundo e

por quê?

A antropofagia é, sem dúvida, junto com a liberdade sexual, o

as-pecto que mais choca o europeu, vindo a tomar grande parte da descrição.

Isso se deve naturalmente ao modo pelo qual a cultura européia, de base

judaico-cristã, lidava (e ainda lida) com as questões relacionadas ao corpo,

associando a sexualidade ao pecado e a tabus, principalmente em se

tra-tando da sexualidade feminina. No trecho abaixo, observa-se a

transferên-cia da luxúria e da “culpa” para as índias e a isenção do europeu, vítima,

pois “contaminado” por elas: “Ao terem o ensejo de copular com os

cris-tãos, contaminavam e poluíam todo sentimento de recato, excitadas de

Imagem

Ilustração de Luiz Ramos

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