• Nenhum resultado encontrado

16 AS TRANSFORMAÇÕES DO ESTADO E A SEGURANÇA PUBLICA

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "16 AS TRANSFORMAÇÕES DO ESTADO E A SEGURANÇA PUBLICA"

Copied!
18
0
0

Texto

(1)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 16

AS TRANSFORMAÇÕES DO ESTADO E A SEGURANÇA PUBLICA

THE STATE TRANSFORMATIONS AND THE PUBLIC SECURITY

Laís Veríssimo * RESUMO

A sociedade da informação e do conhecimento impõe às estruturas de segurança pública que se ajustem às novas realidades, o que perpassa pela necessidade de investimentos na área de inteligência. A atividade de inteligência faz parte do contexto histórico, social e político das sociedades e dos Estados, que se valeram desse instrumento para suas estratégias e ações. A gestão da informação e do conhecimento adquire cada vez mais importância e relevância nas atividades de inteligência, o que enseja que novas ferramentas, novas tecnologias da informação e da comunicação e novos conceitos auxiliem neste processo. Nesse sentido, a atividade de inteligência deve ser compreendida como um sistema adaptativo complexo, em que os processos de construção, produção e gestão da informação e do conhecimento possam otimizar a sua organização e utilização na segurança pública em defesa do Estado, da sociedade e do cidadão. Faz-se necessário também uma análise acerca da eficiência estatal na manutenção da segurança.

PALAVRAS-CHAVE: Segurança Pública; Estado; Governo; Tecnologia.

ABSTRACT

The information and knowledge society imposes on public security structures to adjust to the new realities, which is the need for investments in the area of intelligence.

Intelligence activity is part of the historical, social and political context of societies and states that have used this instrument for their strategies and actions. The management of information and knowledge is becoming increasingly important and relevant in intelligence activities, which means that new tools, new information and communication technologies and new concepts help in this process. In this sense, the intelligence activity must be understood as a complex adaptive system, in which the processes of construction, production and management of information and knowledge can optimize its organization and use in public security in defense of the State, society and citizen. An analysis of state efficiency in maintaining safety is also necessary.

KEYWORDS: Public Security; State; Government; Technology.

*

Doutoranda em Direito FDV. Mestra em Educação no Sistema Prisional, especialista em

Educação Especial;, Gestão e Supervisão Escolar; Educação Infantil; Docência do Ensino Superior

e Filosofia e Sociologia da Educação. Graduada em Direito, Pedagogia e Filosofia. Atualmente é

professora da Escola de Ensino Superior Fabra /ES.

(2)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 17

INTRODUÇÃO

A humanidade vem diariamente alcançando graus de desenvolvimento tecnológico que há alguns anos seriam considerados ficção científica. Vive-se hoje a onda do conhecimento, em inúmeros setores, como evolução desde a agricultura até a indústria - Era da Informação. Devido a essa evolução, as polícias têm o dever de fazer uso de conhecimentos que possam ser benéficos ao melhor desempenho de suas atribuições. A tecnologia tem congregado ao trabalho cotidiano das organizações policiais de forma mais tardia que em outros setores, porém de forma definitiva. A indústria cinematográfica tem explorado o uso de tecnologias por parte da polícia, dirigindo sua atenção à solução de crimes. A gama de tecnologias disponíveis para o serviço policial é hoje extensa, mas começou timidamente.

A tecnologia tem sido cada vez mais utilizada como forma de controle de espaços públicos e privados. No âmbito da elaboração e implementação de políticas de segurança geralmente este uso é denominado “prevenção situacional”.

Este tipo de estratégia preventiva visa tornar mais difícil a ocorrência de crimes (ou incivilidades) com intervenções ambientais, como o redesign arquitetônico, a iluminação pública e também a ação de monitoramento de espaços e pessoas.

Contudo, a prevenção situacional possui seus limites éticos, jurídicos, pois pode ferir direitos e garantias fundamentais, como aqueles referentes à imagem, à privacidade e à intimidade, além do fato de que seus resultados também são questionáveis quando não inseridos em um panorama mais amplo de ações preventivas de natureza social. Pode acontecer, por exemplo, que o controle de uma área provoque simplesmente a transferência da criminalidade para outra área menos vigiada, o que não significa uma redução da criminalidade, e sim sua migração.

O debate e as agendas em torno dos temas da Segurança Pública e Direitos Humanos no Brasil estão, hoje, entre as questões mais importantes no que tange a consolidação dos direitos civis e sociais dos cidadãos brasileiros. Neste sentido, o Governo Federal vem ao longo dos últimos anos desenvolvendo várias políticas públicas nacionais de Segurança e Direitos Humanos (BRASIL, 2015).

Destacam-se como ações estratégicas: a consolidação do Sistema Único de

Segurança Pública (Susp), os programas da Secretaria Nacional de Segurança

Pública do Ministério da Justiça (Senasp/MJ), o Programa Nacional de Segurança

Pública com Cidadania (Pronasci), a criação da Rede Nacional de Altos Estudos

em Segurança Pública (Renaesp) e a Matriz Curricular Nacional para Ações

Formativas dos Profissionais da Área da Segurança Pública. Da mesma forma, são

relevantes a implementação de critérios qualitativos para a distribuição dos

recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública. No âmbito das políticas

públicas de Direitos Humanos, vale ressaltar a terceira edição do Programa

Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), o Plano Nacional de Educação em

Direitos Humanos (PNEDH) e as várias ações desenvolvidas pela Secretaria de

Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR).

(3)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 18

A evolução das novas tecnologias e a emergência da chamada sociedade da informação e do conhecimento enseja que as estruturas governamentais passem a se adequar às novas formas de gestão e de administração, de forma a catalisar ações facilitadoras para a administração pública e para o administrado.

O problema da (in)segurança vem causando preocupação recorrente dos governos conforme o aumento da incidência da violência e da criminalidade, ensejando que os órgãos de segurança pública se preparem cada vez mais para o enfrentamento dos mais variados conflitos e formas de comprometimento da ordem pública e da paz social.

As estruturas de segurança pública são complexas e fazem parte de um sistema social complexo, contexto no qual o emprego das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) é fundamental em razão de oferecerem uma série de facilidades para a administração e gestão pública que podem melhorar os seus serviços e, por conseguinte, a vida dos cidadãos em termos de segurança. Ou seja, as políticas públicas e as ações querem preventivas ou repressivas, podem ser facilitadas e voltadas para um modelo de gestão pública mais participativa, eficiente, efetiva e transparente, melhorando e aperfeiçoando o relacionamento com o cidadão e a qualidade dos serviços de segurança prestados pelo suporte e apoio decorrentes do emprego das TIC.

1. A ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA

A história da humanidade, desde os primórdios da civilização, tem se assentado na busca pelo conhecimento no sentido de desvendar os fatos e fenômenos da vida, visando proporcionar a satisfação das necessidades dos povos e das pessoas, notadamente a segurança e a sobrevivência.

A busca inicialmente pela sobrevivência e posteriormente pelo “poder”

tornou a informação e o conhecimento indispensáveis como instrumentos de acesso à satisfação das necessidades humanas e, num segundo momento, como meio de manipulação e de controle, sendo certo que a atividade de inteligência, nesse contexto, foi utilizada para “conquistas”, quer no plano do “Estado” – exercício da autoridade e controle social –, da “lógica produtiva” – controle do capital –, ou ainda da ideologização da maneira de “pensar” o mundo – ou seja, de submissão às regras postas como “verdades”.

A atividade de inteligência, desde a sua origem, apresenta-se como recurso de que se valiam as autoridades das sociedades antigas não apenas para atender os interesses da coletividade, mas também resguardarem seus interesses, notadamente a manutenção e a ampliação de suas relações de poder e controle. Os métodos utilizados também eram muitas vezes eivados de práticas espúrias, no sentido de que “os fins” acabavam justificando “os meios”.

Constata-se que na Idade Média o serviço de espionagem, desde o início confundido com a

atividade de inteligência, foi posto de lado em razão da influência da Igreja e da Cavalaria,

que o julgavam pecado. Porém Maomé o utilizou em 624: seus agentes infiltrados em Meca

(Arábia Saudita) avisaram-no de um ataque de soldados árabes a Medina, cidade em que

(4)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 19

estava refugiado. Ele mandou então que fizessem trincheiras e barreiras ao redor da cidade, que impediram o avanço dos soldados (Revista ABIN, n. 1, p. 89).

Ainda na Idade Média, com a queda do regime feudal e com o contexto geopolítico da Europa em fase de estabilização, as chamadas cortes europeias transformaram-se em centros de disputas pelo poder, gerando uma série de intrigas. Consta que por essa época:

[...] muitos ministros e diplomatas foram responsáveis pela coleta de informações. O Cardeal Richelieu (1585-1642) fundou na França o Gabinet Noir, que monitorava as atividades da nobreza, e Sir Francis Walsingham (1537-1590) frustrou os empreendimentos de Mary Stuart e Felipe II, ambos católicos, contra a coroa inglesa de Elizabeth I, protestante, por meio do serviço de Inteligência. (Revista ABIN, n. 1, p. 89-90)

Na transição da Idade Média para a Idade Moderna ocorreu uma série de mudanças no mundo, notadamente quanto à busca da verdade sobre as coisas e explicações com fundamento científico dos fenômenos da vida e da maneira de pensar o mundo e suas múltiplas relações. O movimento iluminista foi um reflexo dessas mudanças paradigmáticas ocorridas durante essa época, as quais alavancaram uma série de transformações que tiveram repercussão na história das sociedades. Grande parte dessas mudanças implicou em conquistas para a humanidade, obtidas também com enfrentamentos e disputas, não se podendo olvidar da importância das atividades de inteligência nesse contexto.

Aliadas aos novos conhecimentos, surgiram novas tecnologias, que se tornaram grandes aliadas das atividades de inteligência daquela época, tais como a fotografia, o uso de balões e aeronaves, a comunicação criptografada, o Código Morse, o rádio, entre outras. Em nosso tempo, as novas tecnologias disponíveis e as possibilidades de construção de redes de conhecimento favorecem a atividade de inteligência e permitem uma maior efetividade nas estratégias e nas ações de segurança pública.

Cabe destacar que a importância das atividades de inteligência recai na necessidade de proteção e desenvolvimento das sociedades, eis que:

A instituição de sistemas nacionais de inteligência está inter-relacionada no lento processo de especialização e diferenciação organizacional das funções informacionais e coercitivas que faziam parte, integralmente, do fazer a guerra, da diplomacia, da manutenção da ordem interna e, mais tarde, também do policiamento da ordem interna. A sua formação é um reflexo de identidade nacional, da própria construção do Estado, da institucionalização democrática, da utilização de sistemas de informações e do uso de meios de força. (ANP, 2008, p. 9)

Nesse contexto, e para que se compreenda a dimensão da atividade de inteligência, acorre-se ao conceito disposto no art. 1º, § 2º, do Decreto n.

4.376/2002, que regulamentou a Lei n. 9.883/1999:

“Inteligência é a atividade de obtenção e análise de dados e informações e de produção e

difusão de conhecimentos, dentro e fora do território nacional, relativos a fatos e situações

de imediata ou potencial influência sobre o processo decisório, ação governamental, a

salvaguarda e a segurança da sociedade e do Estado. [...]”

(5)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 20

Depreende-se que a atividade de inteligência não está adstrita a questões que dizem respeito apenas à defesa do Estado, mas também da sociedade, o que inclui a busca de um conjunto de diagnósticos e prognoses no sentido de projetar cenários de risco e minimizar situações de conflito em prol da defesa do Estado, da sociedade e do cidadão.

No Brasil, a atividade de inteligência foi conhecida historicamente por

“atividade de informações”, a qual possui uma construção povoada de mistérios e, muitas vezes, questões nebulosas, isso em razão das relações de poder que a impulsionaram desde o seu início.

Em suas origens, a atuação da inteligência era orientada para atender à polícia política e prestar assessoramento aos Governos, o que ocorreu inicialmente com o advento do Conselho de Defesa Nacional (CDN), mediante o Decreto n.

17.999, de 29 de novembro de 1927, órgão diretamente subordinado ao Presidente da República e constituído por todos os Ministros de Estado e os Chefes dos Estados-Maiores da Marinha e do Exército, o qual teve como objetivo inicial o controle dos opositores ao regime então vigente, ou seja, numa perspectiva que se alinhava com a concepção de inteligência clássica ou de “Estado”.

Antes desse período, a atividade de inteligência era exercida apenas no âmbito dos dois Ministérios Militares então existentes, que se dedicavam exclusivamente às questões de Defesa Nacional e atuavam em proveito das respectivas forças, ou seja, em defesa do Estado. Nesta época ainda não existia o Ministério da Aeronáutica (MAer) e a Força Aérea Brasileira (FAB), que foram criados em 1941 (Revista Nossa História, 1996).

Com o advento da Constituição Outorgada em 1937, conhecida como

“Polaca”, o seu artigo 162 passou a definir o Conselho Superior de Segurança Nacional apenas como “Conselho de Segurança Nacional”. A atividade de inteligência passou a crescer em importância quando, em 14 de dezembro de 1949, o Decreto n. 27.583 aprovou o Regulamento para Salvaguarda das Informações de Interesse da Segurança Nacional.

O primeiro serviço de inteligência foi oficialmente criado no Brasil em 1956, por ordem do então Presidente da República, Juscelino Kubitschek, e chamava-se Serviço Federal de Informações e Contra-Informação - SFICI, o qual funcionou até o golpe de 1964. Durante o período ou regime militar, foi substituído pelo Serviço Nacional de Informações, que participou ativamente da repressão à esquerda e aos movimentos sociais. A partir daí outras estruturas foram criadas:

 Serviço Federal de Informações e Contra-Informação: 1956-1964;

 Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais: 1962-1964 (órgão particular que acumulava funções de inteligência e reunia informações para um grupo de empresas privadas);

 Serviço Nacional de Informações – SNI: 1964-1985;

 Centro de Informações do Exército – CIEx: 1967;

 Departamento de Inteligência: 1990-1992;

(6)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 21

 Subsecretaria de Inteligência: 1992-1999;

 Agência Brasileira de Inteligência – ABIN: 1999 até a atualidade.

A concepção da atividade de inteligência, ao longo das transformações históricas de suas estruturas, também sofreu um processo de evolução, sendo que na atualidade se aponta para uma perspectiva em que:

A Inteligência não tem poder de polícia, usa-se o cérebro para avaliar a informação. Esta pode ser classificada de diversas maneiras, tais como: informação militar, tática, geral, diplomática, política, econômica, social, biográfica, científica, tecnológica e informação sobre comunicações e transportes. O seu processo envolve as seguintes fases: necessidade de conhecimento; coleta de dados na imprensa ou outros similares, incluindo coleta de dados não disponíveis; processamento dos dados; disseminação do conhecimento ao usuário, para a tomada de decisão. A atividade deve ser centralizada e seu quadro de profissionais deve ser preenchido por pessoas íntegras e com bons propósitos. (REVISTA BRASILEIRA DE INTELIGÊNCIA. Brasília: Abin, v. 1, n. 1, dez. 2005. p. 85-86)

Cabe destacar que o Sistema Brasileiro de Inteligência tem como fundamentos, conforme a Lei n. 9.883, de 7 de dezembro de 1999, a

“[...] preservação da soberania nacional, a defesa do Estado Democrático de Direito e a dignidade da pessoa humana, devendo ainda cumprir e preservar os direitos e garantias individuais e demais dispositivos da Constituição Federal, os tratados, convenções, acordos e ajustes internacionais”.

Os paradigmas da pós-modernidade e os desafios diante dos novos conflitos impõem um modelo de inteligência em segurança pública que ultrapasse paradigmas e rompa preconceitos, reafirmando a importância das atividades de inteligência para o Estado e para a sociedade, e que auxilie na proteção dos cidadãos e na promoção da cidadania, com uma atuação em diversos campos inerente à sua complexidade.

Para se ter ideia da dimensão e complexidade do Sistema Brasileiro de Inteligência, destaca-se que é composto por:

 Casa Civil da Presidência da República, por meio do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia – CENSIPAM;

 Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, órgão de coordenação das atividades de inteligência federal;

 Agência Brasileira de Inteligência – ABIN, do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República – órgão central do Sistema;

 Ministério da Justiça, por meio da Secretaria Nacional de Segurança Pública, da Diretoria de Inteligência Policial do Departamento de Polícia Federal, do Departamento de Polícia Rodoviária Federal, do Departamento Penitenciário Nacional e do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, da Secretaria Nacional de Justiça;

 Ministério da Defesa, por meio do Departamento de Inteligência

Estratégica da Secretaria de Política, Estratégia e Assuntos Internacionais,

da Subchefia de Inteligência do Estado-Maior de Defesa, do Estado-Maior

(7)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 22

da Armada, do Centro de Inteligência da Marinha, do Centro de Inteligência do Exército e do Centro de Inteligência da Aeronáutica;

 Ministério das Relações Exteriores, por meio da Coordenação Geral de Combate aos Ilícitos Transnacionais da Subsecretaria Geral da América do Sul;

 Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria-Executiva do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, da Secretaria da Receita Federal do Brasil e do Banco Central do Brasil;

 Ministério do Trabalho e Emprego, por meio da Secretaria-Executiva;

 Ministério da Saúde, por meio do Gabinete do Ministro de Estado e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA;

 Ministério da Previdência Social, por meio da Secretaria-Executiva;

 Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio do Gabinete do Ministro de Estado;

 Ministério do Meio Ambiente, por meio da Secretaria-Executiva;

 Ministério da Integração Nacional, por meio da Secretaria Nacional de Defesa Civil;

 Controladoria-Geral da União, por meio da Secretaria-Executiva.

O Decreto-Lei n. 4.376, de 13 de setembro de 2002, que descreveu os órgãos integrantes do Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN), também permitiu que as Unidades da Federação pudessem compor o referido sistema, mediante ajustes específicos e convênios.

Como se pode perceber, existe um conjunto de órgãos que busca uma atuação de forma complexa e articulada, visando exatamente ampliar, com essa visão plural, o espectro de conhecimentos necessários às decisões estratégicas ou atuais para a preservação do Estado Democrático de Direito e a proteção da sociedade e dos cidadãos.

2. PLANOS NACIONAIS DE SEGURANÇA PÚBLICA

A Constituição brasileira de 1988, em seu artigo 5º, apresenta o direito à segurança como um dos direitos fundamentais, de igual importância ao direito à vida, à liberdade, à igualdade e à propriedade. O legislador constituinte também expressou a prioridade do tema da segurança enquanto preocupação da sociedade em geral.

Entretanto, os governantes, no sentido de responder a esta preocupação

relacionada com a segurança enquanto política pública apresentaram ações de

caráter restritivo e aporético aos demais direitos fundamentais, como: sistemas de

vigilância, leis penais mais severas, controle de imigração etc. Estas ações

polarizam duas reivindicações da sociedade, que são a garantia dos direitos

individuais e a emergência do direito à segurança.

(8)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 23

De certa forma, colocam-se como opostos aquilo que possuem a mesma essência. De um lado, tem-se a criação de uma série de mecanismos para garantia dos direitos individuais, como a inviolabilidade do domicílio, a proibição de prisões ilegais, o instituto do habeas corpus, a garantia de ampla defesa aos acusados etc. De outro lado, o direito à segurança enquanto política pública teve como principais ações a militarização do policiamento preventivo e ostensivo, transformando “os agentes policiais em uma facção deslocada da sociedade civil, exorbitando em sua prática de vigilância e defesa para a agressão e extermínio”

(BRAGA JÚNIOR, 2009, p. 453).

Todas as promessas de repressão à violência endêmica na sociedade brasileira não conseguem ir além do imediatismo eleitoreiro de fácil assimilação.

Braga Júnior cita a aplicação de penas mais severas, o aumento do policiamento ostensivo, a elevação dos sistemas de vigilância, entre outros exemplos que remetem a promessas de campanha eleitoral. Ou seja, são ações que vão de encontro aos direitos individuais. Assim, a situação social brasileira referente à segurança pública, divide as atividades do Estado em positivas e negativas, restando ao aparato policial somente as de caráter negativo (BRAGA JÚNIOR, 2009, p. 453).

Questões de segurança pública passaram a ser consideradas de fundamental importância para a sociedade nos últimos anos e têm recebido atenção especial do Governo Federal. A visibilidade pública que a segurança ganhou é inédita neste país; até então, não se tinha visto tamanha repercussão nem estado tanto em destaque na mídia e em debates como tem sido atualmente. O aumento considerável da criminalidade despertou o interesse de muitos estudiosos e colocou a segurança como principal desafio para o Estado. Os problemas a se resolver são muitos, e na tentativa de solucioná-lo, o governo cria planos e estratégias que visam reprimir a criminalidade e manter a segurança pública.

Trata-se, pois, a política pública, de uma estratégia de ação pensada, planejada e avaliada, guiada por uma racionalidade coletiva na qual tanto o Estado como a sociedade desempenham papéis ativos. Eis porque o estudo da política pública é também o estudo do Estado em ação (Meny e Toenig) nas suas permanentes relações de reciprocidade e antagonismo com a sociedade, a qual constitui o espaço privilegiado das classes sociais (Ianni) (PEREIRA, 2009, p. 96).

Outra definição ainda para política pública é a colocada por Souza, em que destaca:

Pode-se, então, resumir política pública como o campo do conhecimento que busca, ao mesmo tempo, “colocar o governo em ação” e/ou analisar essa ação (variável independente) e, quando necessário, propor mudanças no rumo ou curso dessas ações (variável dependente). A formulação de políticas públicas constitui-se no estágio em que os governos democráticos traduzem seus propósitos e plataformas eleitorais em programas e ações que produzirão resultados ou mudanças no mundo real (SOUZA, 2006, p. 26).

Assim, fica clara e exposta a ideia enraizada no Brasil de que o Estado é e

deve ser uma entidade que paira acima de todos, como um ser onisciente e

onipotente.

(9)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 24

3. A CRISE DO ESTADO

Já sido abordada algumas formas de o Estado vigiar e punir, como também da manutenção da segurança – ou não -, abordar-se-á agora a questão da crise no Estado em relação à segurança pública.

3.1 O ESTADO E O CRIME

O brasileiro vive com medo. Sair à rua gera medo. Ficar em casa gera medo. Todo esse medo graças aos enormes números do crime no Brasil.

Só no ano de 2012, mais de 50 mil pessoas foram assassinadas no país, e tivemos registro de mais de 556 mil casos de roubos e furtos a residências e comércios. Mas os números podem ser ainda maiores, pois o desânimo é tanto que a maioria dos crimes nem sequer vira ocorrência policial.

Ocupamos hoje a perigosa posição de 11º pais em número de homicídios a cada 100 mil habitantes. Segundo a Pesquisa Nacional de Vitimização, 21% dos entrevistados foram vítimas de algum tipo de crime nos últimos 12 meses. Das 50 cidades mais violentas do mundo, o Brasil tem 14 delas no ranking.

Uma área da ciência econômica chamada de Economia do Crime trata a ação criminosa da mesma forma que trata a ação econômica: como um ato racional de empreendimento que leva em consideração o custo e o retorno que, nesse caso, incide sobre o ato de cometer um crime.

Como dito por Mises em Ação Humana (2010), toda ação consciente efetuada por um indivíduo tem o objetivo de retirá-lo de uma situação de menor conforto e levá-lo para uma situação de maior conforto em relação à situação atual. Um investidor ou empreendedor sempre toma por base, para validar seus investimentos, o risco e o retorno esperado da ação. Da mesma forma, um criminoso avalia o cenário para cometer o crime, seja um assalto a banco ou, simplesmente, estacionar em local proibido. É isso mesmo: você empreendedor pensa da mesma forma que um assaltante.

Ícones da esquerda brasileira defendem que o aumento da criminalidade é resultado da desigualdade social e econômica do país, ou, ainda, Como escreve SAKAMOTO (2012), que a culpa é da vítima. Repito: da vítima. A solução seria uma reforma do sistema capitalista ou a implantação do socialismo. O que parece ser uma contradição quando se compara os resultados que o governo se vangloria de ter atingido e os grandes números na criminalidade.

Já o pessoal da direita diz que a causa da criminalidade é que todo criminoso é um pervertido, e que esse comportamento é intrínseco a pessoa.

O fato é que não existe uma causa única no fenômeno da criminalização,

muito menos existe uma única solução, ou uma solução simples. Gostaria de

parafrasear Bastiat e chamar a atenção para aquilo que não se vê: se existe algum

(10)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 25

"sistema" que deve ser reformado ou substituído, com certeza este seria o sistema de intervenção estatal ao qual estamos submetidos.

Seguindo a lógica da Economia do Crime podemos, facilmente, visualizar que o estado é o grande responsável pelo aumento da criminalidade. Como?

Agindo de duas formas: diminuindo os riscos e os custos de se cometer um crime, e aumentando os riscos e os custos de se empreender uma atividade lícita e moralmente aceita.

Muitos são os que defendem a existência do Estado para cuidar do sistema judiciário, do policiamento e da segurança. Mas esses são setores em que o governo falha miseravelmente.

As leis — sendo que algumas até preveem penas severas — sofrem fortes interveniências a favor do condenado. A maioria dos criminosos dos ditos

"crimes mais leves" não chega sequer a ir para prisão; e, quando vão, é com a certeza de que é por pouco tempo, devido à grande quantidade de brechas jurídicas que existem.

Sabendo disso, a pessoa que se aventura pelo crime o faz com ciência de que o custo de praticar a atividade ilegal (que nesse caso é a prisão) é reduzido.

Graças ao estatuto do desarmamento (dezembro de 2003), que praticamente proibiu o brasileiro de ter uma arma, o cidadão está cada dia mais vulnerável à ação criminosa. Todos sabem que os bandidos andam armados, e fortemente armados, enquanto o brasileiro de bem não pode portar arma de fogo, spray de pimenta ou arma branca para se defender, e defender sua família dos milhares de assaltos que ocorrem diariamente.

3.2 A PRODUÇÃO PRIVADA DE SEGURANÇA

Entre as crenças mais populares e importantes de nossos tempos está a crença na segurança coletiva. Nada menos do que a legitimidade do estado moderno se baseia nessa crença.

Irei demonstrar que a ideia de segurança coletiva é um mito que não oferece qualquer justificativa para o estado moderno, e que toda segurança é e tem de ser privada. No entanto, antes de chegar a essa conclusão, começo com o problema.

Primeiramente, apresentarei uma reconstrução em dois passos do mito da segurança coletiva e, a cada passo, irei suscitar algumas preocupações teóricas.

O mito da segurança coletiva também pode ser chamado de mito

hobbesiano. Thomas Hobbes , e incontáveis filósofos políticos e economistas

depois dele, sustentava que, no estado de natureza, os homens viveriam em pé de

guerra. Homo homini lupus est. Formulado no jargão moderno, uma

subprodução permanente de segurança prevaleceria no estado de natureza. Cada

indivíduo, entregue a seus próprios recursos e suprimentos, investiria muito pouco

em sua defesa, o que resultaria em conflitos interpessoais permanentes. A solução

para essa situação presumivelmente intolerável, de acordo com Hobbes e seus

(11)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 26

seguidores, é a instituição de um estado. A fim de instituírem uma cooperação pacífica entre si, dois indivíduos, A e B, exigem que uma terceira parte independente, S, atue como juiz de última instância e mediador. Contudo, essa terceira parte, S, não é apenas mais um indivíduo, e o serviço oferecido por S, isto é, o de segurança, não é apenas mais um serviço "privado." Na verdade, S é um soberano e, como tal, goza de dois poderes singulares. Por um lado, S pode insistir em que seus súditos, A e B, não busquem proteção de ninguém que não ele; isto é, S é um monopolista territorial compulsório de proteção. Por outro lado, S pode determinar unilateralmente quanto A e B têm de investir em sua própria segurança; isto é, S tem o poder de cobrar impostos a fim de oferecer a segurança "coletivamente."

Ao comentar esse argumento, não é de grande ajuda discutir se o homem é tão mau e parecido com um lobo como Hobbes supõe, mas, sim, notar que a tese de Hobbes obviamente não pode significar que o homem é movido por, e apenas por instintos agressivos. Se esse fosse o caso, a humanidade teria desaparecido há muito tempo. O fato de que ela não desapareceu demonstra que o homem também possui a razão e é capaz de refrear seus impulsos naturais. O debate deve se fixar apenas na solução hobbesiana. Dada a natureza do homem como animal racional, a solução proposta ao problema da insegurança é um avanço? A instituição do estado pode reduzir o comportamento agressivo e promover a cooperação pacífica e, assim, oferecer uma melhor segurança e proteção privadas?

Os problemas do argumento de Hobbes são óbvios. Primeiro, não importa quão maus sejam os homens, S — seja um rei, um ditador ou um presidente eleito — continua sendo um homem. A natureza do homem não é transformada ao tornar- se S.

De qualquer modo, como pode haver melhor proteção para A e B se S tem de cobrar impostos deles para oferecê-la? Não haveria uma contradição na própria visão de S como um protetor que expropria propriedades? Na verdade, isso não seria exatamente aquilo a que se refere — e mais apropriadamente — como uma máfia da proteção? S por certo promoverá a paz entre A e B, mas apenas para que ele possa, em seguida, roubá-los mais lucrativamente. S é sem dúvida mais bem protegido, mas quanto mais protegido ele é, menos protegidos estão A e B dos ataques de S. Pareceria assim que a segurança coletiva não é melhor do que a segurança privada. Na verdade, ela é a segurança privada do estado, S, obtida por meio da expropriação, isto é, do desarmamento econômico, dos seus súditos. Além disso, os estatistas de Thomas Hobbes a James Buchanan sustenta que um estado protetor S surgiria como o resultado de algum tipo de contrato "constitucional." No entanto, quem em seu juízo perfeito assinaria um contrato que permitisse a um protetor determinar unilateralmente — e inapelavelmente — a quantia que os protegidos têm de pagar por sua proteção; e o fato é que ninguém jamais assinou.

Ao se supor que, a fim de instituir uma cooperação pacífica entre A e B, é

necessário haver um estado S, segue-se uma conclusão de duas partes. Se houver

mais de um estado, S1, S2, S3, então, assim como presumivelmente não pode

haver paz entre A e B sem S, não poderá haver paz entre os estados S1, S2 e S3

(12)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 27

enquanto eles permanecerem em um estado de natureza (isto é, em um estado de anarquia) um em relação ao outro. Consequentemente, para alcançar-se a paz universal, a centralização política, a unificação e, por fim, o estabelecimento de um único governo mundial são necessários.

Ao comentar esse argumento, é útil, em primeiro lugar, indicar o que pode ser considerado não-controverso. Para começar, o argumento, como tal, é válido.

Se a premissa está correta, então segue-se o consequente apresentado. Os pressupostos empíricos envolvidos no relato hobbesiano parecem à primeira vista ser confirmados pelos fatos, também. É verdade que os estados estão constantemente em guerra um contra o outro, e uma tendência histórica em direção à centralização política e a um governo mundial parece de fato estar em operação. Discussões surgem apenas quanto à explicação deste fato e desta tendência e à classificação desse estado mundial unificado como um progresso na oferta de segurança e proteção privadas. Em primeiro lugar, parece haver uma anomalia empírica que o argumento hobbesiano não consegue explicar. A razão para as guerras entre os diferentes estados S1, S2 e S3, de acordo com Hobbes, é que eles estão em um estado de anarquia um vis-à-vis o outro. No entanto, antes do surgimento de um único estado mundial, não apenas os estados S1, S2 e S3 estão em um estado de anarquia um em relação ao outro, mas na verdade cada um dos súditos de um estado está em um estado de anarquia vis-à-vis cada um dos súditos de qualquer outro estado.

Ora, deveria haver tantas guerras e agressões entre os cidadãos dos vários estados quanto entre os diferentes estados. Empiricamente, no entanto, isso não ocorre. As relações privadas entre estrangeiros parecem ser significativamente menos conflituosas do que as relações entre governos diferentes. Isso tampouco parece ser surpreendente. Afinal, o agente estatal S, ao contrário de cada um dos seus súditos, pode se apoiar em impostos domésticos na condução de suas relações exteriores. Dada sua agressividade humana natural, não importa quão pronunciada ela seja de início, não é óbvio que S será mais ousado e agressivo em sua conduta perante estrangeiros se puder externalizar o custo de tal comportamento sobre terceiros? Certamente, fico disposto a me envolver em mais provocações e agressões e a correr riscos maiores se puder fazer terceiros pagarem por eles. E certamente há uma tendência a um estado — uma máfia de proteção — querer expandir seu monopólio territorial de proteção às custas de outros estados e assim trazer à tona, como o resultado final da competição interestatal, um governo mundial. Mas como isso poderia ser um progresso na oferta de segurança e proteção privadas? Parece que se dá o contrário. O estado mundial é o vencedor de todas as guerras e a última máfia de proteção sobrevivente. Isso não o torna especialmente perigoso? E o poderio físico de qualquer governo mundial não será esmagador em comparação ao de qualquer um de seus súditos individuais?

3.3 EM DEFESA DA SEGURANÇA PRIVADA

(13)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 28

Segundo Thomas Hobbes, graças à natureza do homem, a tendência da sociedade é a de estar em guerras constantes. Daí conclui-se a necessidade de um arbitrador soberano a fim de mediar todos os conflitos, controlando e monopolizando os serviços de segurança e justiça. Para isso, essa parte independente, o estado, deveria ter também o monopólio do território e do crime, em particular o direito de tributar. Mas a premissa hobbesiana é falsa e contraditória — e, mesmo se não fosse, a conclusão a que ele chega não faz sentido.

Note também que o governante — seja ele um monarca, um ditador, um político ou um senhor feudal — terá de ser um homem e, portanto, também terá inevitavelmente a "natureza perversa" prevista por Hobbes.

Na verdade, não há como saber a melhor resposta a essa questão se as pessoas não forem livres para escolher onde procurar serviços de segurança — caso não queiram, elas mesmas, defender suas propriedades.

Se há um soberano coercitivo — isto é, que não tem aceitação unânime —, tem-se também outra contradição: ele terá de decidir unilateralmente o preço de sua proteção, via impostos. Consequentemente, ele próprio já inicia todo o processo de agressão, coagindo seus súditos.

A ciência econômica já mostrou que não é necessário pressupor empatia entre os indivíduos para que haja interação pacífica na sociedade. Ao contrário:

os indivíduos são movidos pelo interesse próprio, e é por causa de seu interesse próprio que as pessoas cooperam, uma vez que elas são capazes de reconhecer que a divisão do trabalho é mais eficiente para a geração de prosperidade do que o isolamento autossuficiente ou a guerra (SMITH, 1765). A empatia — entendida como compartilhar um objetivo em comum — é bastante limitada para a solução dos problemas de mercado e praticamente se limita ao âmbito familiar.

Assim, consideremos um objetivo complexo, como a produção de uma camiseta. Seu processo produtivo envolve inúmeras etapas, como plantio e colheita de algodão, fiação, tricotagem, tingimento, acabamento e confecção — tudo isso sem contar os processos de aquisição de todo maquinário para fazer esses procedimentos. Naturalmente, não é razoável esperar que todas as pessoas envolvidas na fabricação de uma camiseta conheçam e tenham simpatia pelo consumidor final. Mais ainda, nem mesmo as pessoas direta e indiretamente envolvidas precisam se conhecer: basta reunir recursos e trabalho, e entrar em uma cadeia de cooperação. A divisão do trabalho é um fenômeno natural dentro da civilização; sem ela nos veríamos imediatamente em pleno estado de barbárie e miséria.

Há duas maneiras de se adquirir bens e serviços num regime de sociedade:

pela empatia e pelo mercado. A terceira e última é a ilícita, consistindo de meios

violentos: o saque, a espoliação e a escravidão. Não é necessário admitir a

existência de coisas como empatia ou amor entre as pessoas para explicar a

cooperação em sociedade. Então, assume-se possível uma cooperação também nos

serviços de defesa contra a alternativa agressiva.

(14)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 29

Como uma sociedade livre se organizaria espontaneamente para se defender de agressões? A natureza do serviço de proteção é, essencialmente, a de um seguro, pois qualquer gasto em defesa de uma propriedade representa uma espécie de apólice de seguro. Embora seja possível fazer seguro contra ataques não provocados — isto é, acidentais —, o foco aqui será naqueles seguros feitos contra ações perpetradas efetivamente por um agressor intencional, que objetivamente opta por agredir uma propriedade honestamente adquirida.

Para começar, qualquer criminoso conhecido teria sérias dificuldades em contratar serviços de seguradoras, já que para isso seria requerido que ele previamente tenha se comportado de maneira não-agressiva, o que leva a um natural boicote social aos agressores.

Já a indenização por parte da seguradora quando um cliente se torna vítima de um crime deve ser de tal forma a incentivá-la a: (1) evitar ao máximo crimes contra seus clientes, fornecendo sofisticados meios de proteção e prevenção de crimes; e, caso não consiga efetuar essa prevenção, (2) capturar o criminoso para puni-lo, afim de ressarcir a vítima e pagar os custos do serviço.

Como exemplos de sociedades antigas que presenciaram serviços de segurança 100% voluntários, destaque para dois casos.

No primeiro, a Islândia Medieval — de aproximadamente 860 a 1280 d.C.

—, onde a vítima de uma agressão era responsável pela execução legal, sozinha ou com o auxílio de outras pessoas — e, neste último caso, ela poderia procurar por pessoas mais poderosas, chefes de clãs, por exemplo, e repartir o ressarcimento com elas. O ressarcimento por um dano causado era considerado um bem transferível como qualquer outro.

Se, por exemplo, você houvesse me causado algum dano, e eu me considerasse fraco demais para forçá-lo a me ressarcir, eu poderia vender ou simplesmente dar o poder de cobrar o ressarcimento a alguém mais forte. A partir daí, seria do interesse dessa pessoa cobrar o ressarcimento, seja por seu valor econômico, seja pela possibilidade de estabelecer uma reputação como

"cobrador".

O segundo exemplo é o da pequena república de Cospaia — que, por aproximadamente quatrocentos anos, prosperou na Itália central sem governo algum. Lá, conflitos eram resolvidos pelos chefes das famílias ou pelo padre local. Os árbitros eram escolhidos pela sua integridade e não por suas conexões políticas. Não há indicação alguma de que Cospaia era um lugar violento.

Com efeito, não deve haver absolutamente nenhuma dúvida sobre a eficácia de um sistema de proteção baseado na disposição que as pessoas têm de se defenderem. Foi assim que a lei e a ordem foram mantidas pela maior parte da história da humanidade. É graças a séculos de doutrinação e ofuscação estatista que as pessoas deixaram de perceber essa obviedade.

Apesar dos avanças do estatismo, ainda hoje temos inúmeras evidências

empíricas da superioridade de um arranjo privado de segurança. Com efeito,

apenas o fato de esse arranjo ser largamente utilizado em todo o mundo —

(15)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 30

inclusive por políticos — já é uma demonstração praxeológica disso. Dois casos recentes de uso de serviços de defesa privados se destacam nos EUA.

O primeiro ocorre em Atlantic Station, Georgia: uma cidade privada dentro de outra cidade. Trata-se de uma cidade construída com capital privado no lugar da Usina Siderúrgica de Atlanta, fechada na década de 1970.

A comunidade de Atlantic Station tem regras privadas severas como não fumar em ambientes abertos e não portar armas, e as faz cumprir com uma segurança 100% privada de forma pacífica e funcional.

O outro caso ocorreu no Texas, na comunidade de Sharpstown, situada no sudeste da cidade de Houston. Em 2012, a comunidade, representada pela Associação Cívica de Sharpstown (no original Sharpstown Civic Association) resolveu demitir todo seu departamento público de policiamento e contratar a empresa privada de patrulhamento S.E.A.L. Security Solutions. Para quem já está acostumado com o básico de ciência econômica o resultado não deve surpreender:

em apenas 20 meses a taxa de crimes registrados na comunidade caiu 61%, segundo James Alexandre, o diretor de operações da S.E.A.L.

Dada uma breve descrição de agências privadas, bem como exemplos de algumas aplicações diversas em contextos históricos distintos, a pergunta natural que vem à mente é: seria esse sistema estável caso seja maciçamente acolhido hoje em dia? Ou, dito de outra forma, o que impediria as principais agências de segurança de se unirem para dominar coercitivamente territórios e assim formar um novo estado?

A resposta é que não há absolutamente garantia alguma de que isso não aconteça. Na verdade, hodiernamente, também não há tal garantia e, com efeito, a ameaça globalista está cada vez maior. Historicamente, vemos inúmeras agressões arbitrárias feitas por Estados mais belicamente poderosos sobre Estados mais fracos: além das famosas Guerras Mundiais e os inúmeros casos que ocorreram ao longo do século XX no Oriente Médio, podemos citar os casos mais recentes da invasão feita pela Rússia em território ucraniano e da subjugação que o governo Chinês vem fazendo com o povo tibetano.

Outro ponto inerente à instabilidade gerada pelo monopólio estatal da segurança e da justiça é o constante risco de abuso de poder por parte das autoridades, o que pode gerar desde uma prisão injusta até um golpe militar violento.

Pode-se, contudo, tecer alguns pontos a respeito do arranjo privado, os quais nos levam a crer que tal cenário será bem mais harmônico e satisfatório que o estatista. Em primeiro lugar, uma vez assegurado o direito absoluto sobre a propriedade, nada impedirá os cidadãos de se armarem em seus territórios.

Estatísticas mostram que civilizações mais armadas têm menores taxas de

criminalidade: eis um dos principais motivos práticos de se defender o armamento

civil. Como bem lembrou Benjamin Franklin, "quando todas as armas forem

propriedade do governo e dos bandidos, estes decidirão de quem serão as outras

(16)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 31

propriedades". A própria descentralização da segurança e do armamento já é, por si só, uma medida bastante eficaz de segurança.

Além disso, diferentemente do caso estatal, havendo livre entrada no setor de segurança, podemos trocar de agências sem precisar nos mudar de território, tornando mais difícil o abuso de poder por parte das seguradoras. Mais ainda, quanto mais agências existirem, menor será esse risco. E somente o livre mercado dará garantias que isso ocorra da forma mais eficiente.

Por conseguinte, uma agência que soluciona suas disputas concorrenciais na base da força terá sérios problemas financeiros, não importa quantas batalhas vença. Batalhas são caras, além de perigosas para os clientes cujos territórios de morada se tornassem zonas de guerra. Os clientes vão procurar um protetor menos audacioso e, sem eles, o dinheiro para financiar as guerras cessará.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A utilização da atividade de inteligência permeou a história das sociedades, tendo sido percebida como um poderoso instrumento para o estabelecimento de estratégias visando sobretudo à busca do poder e do controle sobre os outros. É evidente que o poder dos antigos não era tão difuso e desconcentrado como o de nosso tempo, em que as instâncias de poder se encontram dissolvidas, tendo, cada vez mais, pouca personalização, não obstante o uso da atividade de inteligência e de métodos na sua busca ter sido perene ao longo dos tempos.

Verifica-se que a evolução dos serviços de inteligência no país, bem como o aumento nos gastos com segurança pública só tem crescido, a despeito da diversificação dos mesmos. Mas, proporcionalmente, a escalada da criminalidade acompanha a escalada dos gastos. Dito de outro modo, o investimento estatal em segurança pública não só é ineficiente, como facilita a ação da criminalidade, pois toma como premissa incontestável o monopólio do Estado sobre a manutenção da segurança, e o cidadão comum como uma presa indefesa e incapaz de se defender e a sua família.

A intenção deste texto não é esgotar o assunto, mas sim chamar a atenção para o fato de que não existe uma única causa do aumento da criminalidade no Brasil, assim como não existe uma única solução. É necessário um projeto que possibilite às pessoas o acesso ao mercado, que permita que as oportunidades sejam mais equacionadas, e que faça com que aqueles que, tendo à disposição várias alternativas lícitas e eticamente válidas, sejam efetivamente punidos ao escolherem o caminho do crime. Para a criminalidade diminuir é necessário que o crime não compense.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(17)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 32

AGORIST, Matt. Texas Town Experiences 61% Drop in Crime After Firing Their Police Department. Disponível em: http://thefreethoughtproject.com/texas-town-sees-61- drop-crime-firing-cops-hiring-private-firm/#31ece5Db1wtBbCm1.99

ANTONAKOPOULU, Elene Nicolaos; AGUIAR, Olga Maria Boschi de. Informática jurídica: uma técnica ideológica a serviço de estados democráticos ou totalitários?

Uma proposta democrata para o Brasil. 1992. 217f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Ciências Jurídicas.

BASTIAT. Tópico de pesquisa. Disponível em:

https://www.mises.org.br/SearchByAuthor.aspx?id=203&type=articles

Blog do Sakamoto. Ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal.

Disponível em: https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2012/06/18/ostentacao- diante-da-pobreza-deveria-ser-crime-previsto-no-codigo-penal/

BRASIL, Instituto Mises. Em defesa do armamento da população - fatos e dados sobre as consequências do desarmamento. Disponível em:

https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2167

_______. A Ilusão de Segurança Jurídica. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2003.

BRASIL. Ministério da Justiça. Secretaria Nacional de Segurança Pública. MJ oferece vagas para pós-graduações em segurança pública. Brasília, DF, 2015.

Disponível em:<http://www.justica.gov.br/noticias/mj-oferece-vagas-para-pos- graduacoes-emseguranca-publica-oferecem-250-vagas-em-cinco-estados/>.

BUCHANAN, James M., The Limits of Liberty. Chicago: University of Chicago Press, 1975.

BUCHANAN, James M.; TULLOCK,Gordon The Calculus of Consent. Ann Arbor:

University of Michigan Press, 1962

CAPRIO, Anthony. A República Anarquista de Cospaia. Disponível em:

https://farollibertario.wordpress.com/2016/03/30/a-republica-anarquista-de-cospaia/

FRIEDMAN, David. Execução penal privada, islândia medieval e libertarianismo.

Disponível em:

http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/documentacao_e_divulgacao/doc_biblioteca/bi bli_servicos_produtos/bibli_informativo/bibli_inf_2006/Rev-CEJ_n.52.06.pdf

HOBBES, Thomas. Leviatã. Ed. Martin Clare>t, São Paulo, 2006.

HOPPE, Hans-Hermann, "The Trouble With Classical Liberalism," Rothbard-Rockwell Report 9, no. 4 (1998).

JORNAL O GLOBO. Disponível em: http://g1.globo.com/bom-dia- brasil/noticia/2013/11/taxa-de-homicidios-em-todo-o-brasil-aumentou-14-no-ano-

passado.html

PEREIRA, D. M.; SILVA, G. S. As Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs)

como aliadas para o desenvolvimento. Caderno de Ciências Sociais Aplicadas. Bahia,

n. 10, 2010.

(18)

Conhecimento em Destaque, v.7, nº18 33

REVISTA NOSSA HISTÓRIA, ano 3, n. 34, 1996.

ROTHBARD, Murray N. "Buchanan and Tullock's Calculus of Consent," em idem, The Logic of Action, vol. 2, Applications and Criticism from the Austrian School.Cheltenham, U.K.: Edward Elgar, 1995

ROTHBARD, Murray N. "The Myth of Neutral Taxation," apud HOPPE, Hans-Hermann.

The Economics and Ethics of Private Property .Boston: Kluwer, 1993.

SENASP. Pesquisa Nacional de Vitimização. 2013. Disponível em:

http://www.crisp.ufmg.br/wp-content/uploads/2013/10/Sumario_SENASP_final.pdf SMITH, A. A riqueza das nações. Rio de Janeiro: Abril Cultural, 1982.

SPANHOL, Fernando J.; LUNARDI, Giovani M.; DE SOUZA, Márcio Vieira. Tecnologias da Informação e Comunicação na Segurança Pública e Direitos Humanos.

Disponível em: http://www.labmidiaeconhecimento.ufsc.br/files/2014/11/TICSENASP.pdf SPOONER,Lysander .No Treason: The Constitution of No Authority (Larkspur, Colo.:

Pine Tree Press, 1996).

TUCKER, Jeffrey. Atlantic Station: a cidade privada onde tudo funciona maravilhosamente bem. Disponível em: http://www.ilisp.org/artigos/atlantic-station- cidade-privada-onde-tudo-funciona-maravilhosamente-bem/

VON MISES, Ludwig. Ação Humana. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil,

2010.

Referências

Documentos relacionados

A partir da junção da proposta teórica de Frank Esser (ESSER apud ZIPSER, 2002) e Christiane Nord (1991), passamos, então, a considerar o texto jornalístico como

Seu vampiro é um adolescente que frequenta salas de aulas, adora velocidade, não dorme em caixões, anda de dia, e, principalmente, irá amadurecer (mesmo tendo

A Parte III, “Implementando estratégias de marketing”, enfoca a execução da estratégia de marketing, especifi camente na gestão e na execução de progra- mas de marketing por

O grupo idoso frequenta mais atividades religiosas organizadas; Atitudes religiosas são mais expressas pelos mais velhos: Práticas de devoção e orações são mais frequentes na

Os principais objectivos definidos foram a observação e realização dos procedimentos nas diferentes vertentes de atividade do cirurgião, aplicação correta da terminologia cirúrgica,

Os principais resultados obtidos pelo modelo numérico foram que a implementação da metodologia baseada no risco (Cenário C) resultou numa descida média por disjuntor, de 38% no

Crisóstomo (2001) apresenta elementos que devem ser considerados em relação a esta decisão. Ao adquirir soluções externas, usualmente, a equipe da empresa ainda tem um árduo

E, quando se trata de saúde, a falta de informação, a informação incompleta e, em especial, a informação falsa (fake news) pode gerar danos irreparáveis. A informação é