CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA
DIRETORIA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA, PESQUISA E EXTENSÃO CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PROJETOS EDITORIAIS
IMPRESSOS E MULTIMÍDIA
A CAPA DO JORNAL
SUPER NOTÍCIA
:
o que se diz e o que de fato apresenta
ALUNA: Raíssa Maciel Teotônio Adorno
PROFESSOR ORIENTADOR: Maurício Guilherme Silva Jr.
RESUMO
Este artigo discorre, a partir da revisão das obras de alguns autores, sobre a transformação/adequação/edição que faz com que produtos jornalísticos se tornem populares e possam ser considerados como comunicação de massa, feita para um público vasto e com características peculiares. Propõe-se, por meio da análise da capa de sete edições consecutivas do jornal Super Notícia – diário popular editado em Belo
Horizonte, e por dois anos consecutivos o mais vendido do Brasil –, demonstrar quais são os principais assuntos abordados pelo jornal em suas primeiras páginas. Com isso, pretende-se comprovar a hipótese de que, apesar de focada no já propalado tripé “crime-sexo-escândalos”, a publicação segue além, de modo a apresentar, logo na capa, temas que impactam o cotidiano da população, e a demonstrar, assim, que busca ampliar o diálogo com seus leitores. Além disso, pretende-se analisar, a partir de revisão bibliográfica e da análise das primeiras páginas do jornal, o que ali seria cor-informação. Outro objetivo diz respeito à investigação da natureza dos sentidos estimulados pelas cores usadas pelo veículo, a partir de teorias de significação das cores em nossa cultura.
Palavras-chave: Jornalismo popular. Comunicação de massa. Super Notícia.
INTRODUÇÃO
Com dez anos de existência – sua primeira edição data de maio de 2002 –, o jornal Super Notícia, editado pela Sempre Editora, grupo sediado em Contagem (MG) e
que detém outros quatro jornais, vendeu uma média de 300.237 exemplares por dia em 2011, segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC). Focado no tripé “violência, mulher e futebol”, o veículo tem se consolidado à frente no mercado nacional, desbancando a supremacia da Folha de S. Paulo, líder de circulação por 24 anos
consecutivos – e que, em 2011, registrou média de 297 mil exemplares por dia.
“a Folha encerrou o ano de 2011 na liderança entre os jornais de prestígio do Brasil” (FOLHA DE S. PAULO, 2012), quando, na verdade, o líder do ranking foi o Super Notícia.
O objetivo deste artigo é identificar quais tipos de assuntos são selecionados para constar na capa do Super Notícia e, assim, confirmar ou refutar a ideia de que,
segundo Seligman e Cozer (2012), predominava, no jornalismo popular de décadas passadas, que “era veiculado sobre o tripé crime-sexo-escândalos, valendo-se de estratégias sensacionalistas, mensagens de duplo sentido que incitavam a curiosidade mórbida, fotos apelativas e exploração da tragédia alheia” (SELIGMAN; COZER, 2012, P. 2).
Para isso, buscou-se, por meio de um estudo teórico sobre o tema, com definições de comunicação de massa e do que seja o “popular”, compreender e identificar as estratégias do jornal. Para a análise, foram selecionadas capas do Super Notícia de sete dias consecutivos: de 2 a 8 de abril de 2012, tempo referente a uma
semana de circulação do veículo. O conteúdo editorial foi avaliado, excluindo-se da análise os anúncios, quase sempre da própria instituição, que tratam de promoções. Este trabalho visa, também, analisar o impacto das principais cores escolhidas para a capa do jornal e se elas revelam intenção e/ou pretendem ser relacionadas a assuntos específicos.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 Edição para adequar forma e conteúdo
acordo com Santaella (2003a, p. 66), “produziu um impacto até hoje atordoante na tradicional divisão da cultura em erudita, culta, de elite, de um lado, e popular, de outro”. Essa divisão da cultura causou dificuldade para definir o perfil popular e o erudito, principalmente devido à ilusão de que esses campos teriam de ser autônomos.
Neste sentido, Chartier (2002, p. 21) afirma que é “nas particularidades formais das edições e nas modificações que elas impõem às obras das quais se apoderam que se pode reconhecer o caráter ‘popular’”. Por popular, entenda-se, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o que é relativo ou pertencente ao povo, que é usado ou comum entre o povo, que é do agrado do povo. Essas modificações impostas pela
edição é que transformam o conteúdo erudito em notório, democrático, popular.
Há, ainda, nessa percepção, um pouco do que defendeu a teoria da Indústria Cultural, da Escola de Frankfurt, que ajudou a aumentar o fosso existente entre a chamada cultura erudita e as outras formas de produção de cultura, popular ou de massa. É perceptível, então, que a versão erudita de um conteúdo revela-se, prioritariamente, restrita a poucas pessoas; geralmente àquelas que têm acesso, ou seja, que são de classe econômica superior. Já o popular é massivo, de fácil compreensão, destinado, quase sempre, aos menos favorecidos social e economicamente.
Ainda em referência a Roger Chartier (2002), poderíamos comparar um jornal como o Super Notícia, enquadrado na categoria dos populares, à bibliotèque bleue,
que, na França dos séculos XVII a XIX, transformava as publicações eruditas clássicas, por meio de linguagem e formatos mais populares, levando a cultura de elite a um grupo maior de pessoas. Segundo Chartier,
Na comparação, os livreiros e impressores citados por Chartier são claramente representados pelos editores e redatores, que adaptam a uma linguagem e formato específico os textos que poderiam ser publicados com mais formalidade em outros periódicos. Quanto à linguagem utilizada pelos jornais populares, caberia outro estudo, que deixo para o futuro.
2.2 Crime, mulher, futebol – mas, também, prestação de serviço
De que forma o Super Notícia realiza a adaptação, para o seu contexto, dos
textos e assuntos que seriam veiculados em jornais mais formais? Primeiramente, é preciso tentar identificar a que tipo de leitor o jornal é destinado. De acordo com as definições de Santaella (2004), é possível afirmar que o leitor movente, também chamado de fragmentado, é o que mais se enquadra aos jornais. Trata-se daquele
[...] que nasce com o advento do jornal e das multidões nos centros urbanos habitados de signos. É o leitor que foi se ajustando a novos ritmos da atenção, ritmos que passam com igual velocidade de um estado fixo para um móvel. É o leitor treinado nas distrações fugazes e sensações evanescentes cuja percepção se tornou uma atividade instável, de intensidades desiguais. É, enfim, o leitor apressado de linguagens efêmeras, híbridas, misturadas. Mistura que está no cerne do jornal, primeiro grande rival do livro. A impressão mecânica aliada ao telégrafo e à fotografia gerou essa linguagem híbrida, a do jornal, testemunha do cotidiano, fadada a durar o tempo exato daquilo que noticia. Aparece assim, com o jornal, o leitor fugaz, novidadeiro, de memória curta, mas ágil. Um leitor que precisa esquecer, pelo excesso de estímulos, e na falta de tempo para retê-los. Um leitor de fragmentos, leitor de tiras de jornal e fatias de realidade. (SANTAELLA, 2004, P. 29)
Já na concepção do Super Notícia, é possível perceber a tentativa de atender a
Percebe-se que o padrão “crime-esporte-mulher” é, de fato, priorizado. Das sete edições, quatro apresentaram, como manchetes, casos de violência: “Ex-jogador agride a filha” (3 de abril), “8 assassinatos em 4 horas” (4 de abril), “Assaltante estrangulado em motel” (5 de abril) e “Garota é solta de cativeiro” (8 de abril). A manchete do dia 2 de abril, uma segunda-feira, apresenta o resultado de um jogo de futebol, ocorrido no dia anterior: “Galo retoma liderança com goleada”. Nas duas capas restantes, as manchetes referem-se a assuntos que impactaram a cidade: “Suspeita de Vaca Louca em BH” (6 de abril) e “Dilúvio na Sexta-feira Santa” (7 de abril).
Todas as capas apresentam a foto de uma mulher seminua, ou com roupas curtas, em poses provocantes. O mote das sete edições é o concurso “Musa do Mineiro”, que pretende eleger a torcedora mais bonita de Minas Gerais, tendo uma representante para cada time que disputa a primeira divisão do campeonato estadual. O esporte é assunto de todas as capas, tendo ou não relação com a mulher estampada na primeira página.
Chama a atenção, também, o fato de que, na maioria das edições analisadas (quatro), haja chamada de capa para um assunto de interesse amplo dos leitores, que impacta diretamente a vida da população. Essa opção sinaliza a preocupação do jornal com a prestação de serviço. “Semana Santa – Estação São Gabriel vira rodoviária temporária – Começa hoje e vai até o dia 9 de abril a operação de reforço para embarques e desembarques no feriado” é o texto que se vê no dia 2 de abril. Na edição do dia seguinte: “Seu bolso – Preço do gás de cozinha tem reajuste de 5% - Consumidores já estão pagando R$ 2 a mais pelo botijão de 13 quilos em Minas”. A chamada de serviço do dia 4 de abril foi “Seu bolso – Conta de luz fica 3.85% mais cara no domingo – Índice autorizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) foi maior que o solicitado pela Cemig”.
2.3 Forma: cores, fragmentos, tipologia
Especialmente no caso dos produtos populares, destinados a públicos que dispõem de diferentes “ferramentas intelectuais”, termo usado por Chartier (2002, p. 13), os editores sempre pensam a leitura como algo que exige sinais visíveis, chamativos e imagens destacadas. Essas características são percebidas em diferentes publicações, desde
[...] os livros ilustrados e, depois, com os jornais e revistas, o ato de ler passou a não se restringir apenas à decifração de letras, mas veio também incorporando, cada vez mais, as relações entre palavra e imagem, desenho e tamanho de tipos gráficos, texto e diagramação. (SANTAELLA, 2004, p. 17)
Não seria diferente com o Super Notícia. Se se considera o já descrito leitor
movente definido por Santaella (2004), assim como o caráter popular do jornal, pode-se concluir que o projeto gráfico do Super Notícia tem elementos que ajudam a reforçar
esse cunho popular e a criar vínculo com seu leitor: mistura de várias cores, tipos gráficos grandes, textos curtos, boxes e outros recursos que ajudam a fragmentar o texto, tornando a leitura fácil, interessante, chamativa.
2.3.1 A cor como informação e o papel do comunicador
Luciano Guimarães (2002) problematiza o conceito de cor-informação:
Considera-se a cor como informação todas as vezes que sua aplicação é responsável por organizar e hierarquizar informações ou lhes atribuir significado, seja sua atuação individual e autônoma, ou integrada e dependente de outros elementos do texto visual em que foi aplicada. (GUIMARÃES, 2002, p. 154)
designer de notícia”, analisa Guimarães (2002, p. 155). O autor comenta, ainda, que o comunicador responde às intenções embutidas nas diretrizes editoriais – intenções daqueles que detêm os meios de comunicação.
2.3.2 As cores no Super Notícia
A escolha das cores no Super Notícia não é aleatória e produz sentidos.
Percebe-se isso ao analisar o significado cultural das cores e sua aplicação no jornal.
Assim como outros códigos que a mídia utiliza, a própria expressão das cores deve ser pensada como uma estrutura que se adapta ao veículo/suporte da comunicação, aos objetivos e às intenções dos meios de comunicação e ao meio cultural no qual é gerada e no qual atua. (GUIMARÃES, 2001, p. 21)
A oposição entre vermelho e verde é citada por Guimarães (2004). O verde é a cor da esperança. Citando Rousseau, Guimarães explica que o vermelho se oporá ao verde, ou fará uma união de complementares. “Hefaísto (ou Vulcano), que é o fogo terrestre, em sua forja subterrânea do Olimpo, cria Pandora, a mulher que traz aos homens, em seu vaso simbólico, todos os males da humanidade, aos quais, felizmente, está intimamente ligada à esperança (o verde)” (2004, p. 115).
O verde também é considerado a cor do equilíbrio (por ser a mistura de duas cores simbolicamente opostas: amarelo e azul), da permissão e do jogo (dos esportes). Vemos isso, claramente, ao notar que o Super Notícia usa o verde para delimitar toda a
Figura 1: Capa do jornal Super Figura 2: Capa do jornal Super Figura 3: capa do jornal Super Notícia de 3/4/2012 Notícia de 7/4/2012 Notícia de 8/4/2012
Já o vermelho é o oposto. Trata-se da cor da violência, da paixão, do proibido. Por isso, provavelmente, o uso dessa cor em manchetes com assunto violento, conforme se pode perceber na edição do dia 5 de abril (“Assaltante é estrangulado em motel”), correspondente à Figura 4.
Figura 4: Capa do jornal Super Notícia de 5/4/2012
Clube Atlético Mineiro, time de futebol destacado na manchete (“Galo retoma liderança com goleada”).
Figura 5: Capa do jornal Super Notícia de 2/4/2012
Já na capa do dia 4 de abril (Figura 6), a escolha do preto pode ter relação com o luto, já que a manchete (“8 assassinatos em 4 horas”) retrata acontecimentos negativos e relacionados à morte, e ainda utiliza o branco e o amarelo como contraste.
O mesmo ocorre na Figura 7, primeira página do dia 6 de abril (“Suspeita de Vaca Louca em BH”), em que o contraste entre preto, amarelo e branco parece remeter à morte, visto que a doença citada é temida e leva ao óbito.
Figura 7: Capa do jornal Super Notícia de 6/4/2012
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao analisar sete capas do jornal popular Super Notícia, pôde-se constatar que,
de fato, os assuntos priorizados são polícia, esportes e mulheres em poses sensuais. Contudo, constatou-se a preocupação do veículo em fornecer informações de utilidade pública, que impactam a vida dos leitores diretamente. Em outros termos, trata-se do investimento nas chamadas informações de serviço. Pode-se dizer, com isso, que o jornal utiliza as informações de serviço como estratégia para ampliar o diálogo com seus leitores, aproximando-se das necessidades cotidianas desse público.
REFERÊNCIAS
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