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TRANSFORMAÇÕES E RUMOS NO DIREITO DO TRABALHO: INCIDÊNCIAS NO MERCOSUL

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Academic year: 2018

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

ELCIO NUNES DOURADO

TRANSFORMAÇÕES E RUMOS NO DIREITO DO

TRABALHO: INCIDÊNCIAS NO MERCOSUL

MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

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ELCIO NUNES DOURADO

TRANSFORMAÇÕES E RUMOS NO DIREITO DO

TRABALHO: INCIDÊNCIAS NO MERCOSUL

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE EM CIÊNCIAS SOCIAIS, sob a orientação do Professor Dr. LUIZ EDUARDO W. WANDERLEY.

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Banca Examinadora

_____________________________________

_____________________________________

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Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta Dissertação por processos de fotocopiadoras ou eletrônicos.

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DEDICATÓRIA

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AGRADECIMENTO

Agradeço ao Professor Dr. LUIZ EDUARDO W. WANDERLEY, pelo respeito e dedicação com que se prontificou em atuar como orientador nesta modesta pesquisa sobre as transformações e os rumos do Direito do Trabalho, como parte dos estudos sobre a dimensão social do MERCOSUL.

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RESUMO

O objetivo do presente trabalho é analisar as principais alterações nas relações de trabalho e no marco regulatório dos direitos sociais, procurando entender as tendências que vão se forjando no âmbito do MERCOSUL, tendo como pano de fundo os efeitos da globalização neoliberal, e como referencial para a análise o tratamento dado ao Direito do Trabalho nos países que integram esse bloco econômico ou gravitam em torno dele, com enfoque central no Brasil e na Argentina. Através de pesquisa bibliográfica, analisou-se as tendências de desregulação e precarização das relações de trabalho e de flexibilização das normas protetoras dos trabalhadores, como mecanismos e processos prejudiciais à formação dos instrumentos de inclusão social, de distribuição menos desigual do produto social do trabalho, na perspectiva da construção de um MERCOSUL que cumpra o objetivo de assegurar “desenvolvimento econômico com justiça social” e a “melhoria das condições de vida” dos povos abrangidos por esse Bloco regional, conforme previsto no Tratado de Assunção, e como esforço em prol dos direitos humanos e da justiça social.

(8)

ABSTRACT

This paper aims to analyze the main changes in the work relations and in the social rights’ macro regulatory. It’s trying to understand the tendencies being forged in the MERCOSUL scope. This paper’s background is the neoliberal globalization effects. The way the countries that are part of the MERCOSUL, as the others which are around it, deal with the Work Rights is the analysis’ reference of this paper, focusing on Brazil and Argentina. After a bibliographic research it was possible to analyze the modern tendencies of de-regulation and un-certification of work relations and the flexibilization of the rules that protect the workers, as an example, there are some mechanisms and processes which are harmful to the creation of the social including tools, of the less unequal distribution of the work social product. This flexibilization expects to construct a MERCOSUL that assure “economic development with social justice” and “the increasing of life conditions” of those who are in this regional group, as it’s written in the Asuncion Agreement, and as an effort toward the human’s rights and social justice.

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO... 11

2. GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL - NOVA ESTRATÉGIA DO CAPITALISMO MUNDIAL... 16 2.1 – Aspectos conceituais... 16

2.2 – A gênese liberal... 20

2.3 – Contexto Hegemônico... 25

2.4 – Contexto social... 33

2.5 – A crise atual... 35

3. NOVAS TECNOLOGIAS E AS DIRETRIZES TRABALHISTAS DO NEOLIBERALISMO... 40 3.1 – A questão tecnológica... 40

3.2 – Os Princípios Protetivos do Direito do Trabalho... 46

3.2.1 – “In dúbio pro operário”... 47

3.2.2 – Aplicação da norma mais favorável... 48

3.2.3 – Condição mais benéfica... 49

3.3 – A Constitucionalização do Direito do Trabalho... 50

3.4 – As diretrizes trabalhistas do neoliberalismo... 52

3.5 – Resistência às diretrizes trabalhistas neoliberais... 64

4. O MERCOSUL Estrutura e Dimensão Social... 67

4.1 – Blocos Regionais e Integração Social... 67

4.2 – MERCOSUL – Antecedentes... 70

4.3 – MERCOSUL – Concepção Jurídica Predominante... 71

4.4 – Estrutura Formal e Dimensão Social... 84

4.4.1 – Personalidade Jurídica Internacional... 88

4.4.2 – Conselho do Mercado Comum... 89

4.4.3 – Grupo do Mercado Comum... 91

4.4.4 – Comissão de Comércio do MERCOSUL... 94

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4.4.6 – Foro Consultivo Econômico-Social... 102

4.4.7 – Secretaria Administrativa... 104

4.4.8 – Tribunal Arbitral... 106

4.4.9 – Órgãos Complementares... 110

4.4.10 – Dimensão Social (sócio-laboral)... 111

5. DESAFIOS TRABALHISTAS DO MERCOSUL... 116

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS... 124

(11)

1. INTRODUÇÃO

Já se vão quase três décadas de globalização neoliberal, com largos e inusitados efeitos em todos os aspectos da vida humana no planeta Terra. Ela chegou galopando em um processo de incremento tecnológico aplicado aos meios de produção e à vida social, com destaque para a área da comunicação, e impôs uma acentuada alteração no papel do Estado nacional, como centro de poder regulatório (ou desregulatório) do mercado capitalista, chegando, para alguns teóricos, a constituir um típico Estado neoliberal, em inúmeros países.

Embora tenha provocado uma certa reestruturação do mundo, sobretudo no mundo ocidental, com a formação de blocos e estruturas regionais de poder e de articulações mercadológicas, a globalização neoliberal vem se desenvolvendo em marchas e contramarchas, sofrendo enormes sobressaltos como os da atual crise econômica mundial e, por vezes, encontrando revezes na aplicação do receituário representado pelo “Consenso de Washington”, dadas as desmesuradas conseqüências em termos de exclusão social e de reação da sociedade civil em escala planetária, mas de maneira particularmente acentuada em espaços geopolíticos como os da América Latina.

Como estratégia de sobrevivência e tentativa de perpetuação do sistema capitalista, em uma era de alta competição não apenas entre os Estados, mas também entre os indivíduos e entre as corporações produtivas e especulatórias do capital financeiro, a globalização neoliberal espalhou seus tentáculos também pelo mundo das relações de trabalho: alterando os marcos regulatórios estruturados numa ótica do Estado de bem estar social, e tentando impor a desregulação, a flexibilização e a precarização dos mecanismos protetivos da dignidade humana nas relações de trabalho, valendo-se, para isso, da fomentação de um incalculável e peculiar exército social de reserva, que vive desempregado ou ameaçado de desemprego, desamparado socialmente e empurrado para a exclusão social.

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num momento histórico particularmente fervilhante na América Latina, cuja edição de governos e de experiências políticas de poder destoantes do receituário clássico dos países centrais do sistema capitalista pós-industrial, demanda novas análises, ainda que se reconheça a “necessidade de muita cautela na formação de hipóteses e generalizações que sejam aplicáveis à essa parte da América tendo em vista a diversidade de espaços, tempos e forças sociais em cada Estado-Nação” (WANDERLEY, 2008).

Assim, o objetivo do presente trabalho é analisar as principais alterações nas relações de trabalho e no marco regulatório dos direitos sociais trabalhistas, procurando entender as tendências principais no campo social e suas incidências no âmbito do MERCOSUL, tendo como pano de fundo os efeitos da globalização neoliberal e a movimentação dos atores, estatais e não estatais, no seu enfrentamento, como forma de influir no debate em curso sobre o tema.

E como referencial para a análise o tratamento dado ao Direito do Trabalho nos países que integram esse bloco econômico ou gravitam em torno dele, com enfoque central no Brasil e na Argentina1, buscando entender qual o papel do Direito do Trabalho num futuro Mercado Comum e no processo de integração dos países latino-americanos, sob o prisma da adoção de normas comuns que assegurem a efetividade dos direitos sociais do trabalho, ao invés de sua precarização e desregulação, como parte dos instrumentos de inclusão social, de distribuição menos desigual do produto social do trabalho e como expressão dos direitos humanos e da justiça social.

Dada à relevância dessa temática no cenário interno e internacional, haja vista que a estruturação de um mercado comum latino-americano pode representar uma possibilidade de crescimento e desenvolvimento socialmente mais justo do Brasil e dos países componentes do MERCOSUL, contribuindo para a tão sonhada integração latino-americana, pretende-se analisar o assunto a partir de uma ampla pesquisa bibliográfica com os autores contemporâneos que lidam com a matéria,

1 Além do fato de se tratar dos dois países do bloco econômico com maior desenvolvimento

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sem perder o enfoque na realidade política, econômica e jurídica intrínseca à temática, para que se possa traçar um perfil da dimensão social desse processo de integração regional no âmbito do cone sul da América, dos seus desafios e possibilidades.

Tal pesquisa foi realizada basicamente a partir de algumas abordagens analíticas sobre o direito do trabalho no presente contexto mundial e dos dispositivos normativos contidos no ordenamento jurídico interno e também nos documentos constitutivos do MERCOSUL e resoluções posteriores, em artigos jurídicos contidos em revistas especializadas, além da realização de levantamento bibliográfico, fichamento, análise, interpretação e reflexão sobre a matéria.

A presente pesquisa se justificou, ainda, pelo interesse do autor no estudo do tema proposto, o qual se relaciona diretamente com sua atuação como advogado trabalhista que militou por mais de dez anos junto à Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado da Bahia (Fetag-BA), o Sindicato dos Mineradores de Brumado e Micro-região e ainda milita em favor de sindicatos e trabalhadores na região sudoeste da Bahia, bem como, com suas atividades acadêmicas, como professor de Direito do Trabalho dos Cursos de Direito da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e da Faculdade Independente do Nordeste (FAINOR), e como integrante do Núcleo Estudo e Pesquisa sobre Trabalho, Política e Sociedade (NETPS), experiência interdisciplinar que funciona na UESB.

Destarte, no primeiro capítulo dessa dissertação procura-se traçar um panorama da discussão teórica sobre as características da globalização neoliberal, sua gênese no liberalismo econômico, seus marcos estruturantes, os fatores objetivos e subjetivos que determinaram os rumos que a mesma vem tomando. Nesse primeiro capítulo, abordamos a crise atual do sistema capitalista, já que a mesma tem se revelado como um imenso laboratório para os estudiosos das ciências sociais no que diz respeito à temática tratada.

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mundo em busca do estado de bem estar social, ou do socialismo. Procura-se se vislumbrar, ainda, os rumos e as conseqüências da adoção de uma concepção puramente economicista do direito social do trabalho e dos demais mecanismos de proteção social em processo de formação, que indicam a persistência e o aprofundamento da precarização das relações de trabalho e de uma forte exclusão social, apesar de estarem sendo adotadas políticas sociais de distribuição de renda, em alguns Estados.

No terceiro capítulo, iniciamos com a discussão sobre a influência da globalização neoliberal no processo de formação de blocos econômicos, e do MERCOSUL em particular, com suas vicissitudes decorrentes das características peculiares da formação desigual dos Estados que o integram e das complexidades decorrentes de uma sociedade civil miscigenada, profundamente desigual, e ao mesmo tempo ativa e irrequieta, que vai construindo caminhos próprios dentro da globalização neoliberal, por vezes tidos como tortuosos (populistas, autoritários, etc.), mas com nítidos traços diferenciais, em comparação com outras experiências mundiais de integração regional, concluindo-se com a apresentação esquemática da estrutura do MERCOSUL, sua composição e a concepção predominante no processo histórico de sua formação. Também se analisa a constituição dos organismos e instrumentos especificamente voltados para o lado social. Para os chamados direitos sociais, com enfoque no direito social do trabalho, bem como a movimentação dos atores sociais no âmbito desse bloco regional em formação, tentando identificar suas perspectivas.

Já no quarto e último capítulo, estuda-se os desafios do direito do trabalho e as tendências para a evolução do processo de formação das normas comuns, no âmbito dos direitos sociais do trabalho, sobretudo como enfrentamento dos problemas relacionados com a instituição de garantias mínimas comuns aos trabalhadores que circularão entres os países do bloco, tentando identificar as perspectivas desses direitos no âmbito do MERCOSUL.

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serviços nos países membros, o que resultará também na livre circulação de trabalhadores nesses países, como já ocorre no âmbito da União Européia.2

O motivo das inquietações vem da constatação de que apesar do Tratado de Assunção ter incluído entre os objetivos do MERCOSUL o “desenvolvimento econômico com justiça social” e a “melhoria das condições de vida”, os atores institucionais e sociais estão pressionados a adotar uma visão economicista dos direitos sociais (inclusive as chamadas diretrizes do neoliberalismo para as relações de trabalho), retirando-lhes o conteúdo humanitário e de interesse público.

Corre-se o risco de uma integração de miseráveis, com acirramento das disputas internas e aceleração da exclusão social, que acabem enfraquecendo a formação de um bloco capaz de permitir o desenvolvimento dos países que o integram.

2

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2. CAPÍTULO I

GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL

NOVA ESTRATÉGIA DO CAPITALISMO MUNDIAL

2.1 – Aspectos conceituais

Muito se tem escrito sobre o neoliberalismo e sobre suas conseqüências para a economia do mundo nas duas últimas décadas do século XX e na primeira década desse século. É muito vasta a bibliografia com a preocupação de diagnosticar as conseqüências desse pensamento. E também muito se tem investigado sobre suas origens, sua gênese, como forma de entendê-lo em toda sua plenitude.

Poucos, no entanto, se arriscam numa tentativa de conceituá-lo, de defini-lo de forma precisa. E também não há unanimidade nessas tentativas. Revela bem essas divergências conceituais a própria discussão se trata de um fenômeno de conteúdo totalmente novo, como querem principalmente os defensores dos seus postulados, ou se o mesmo é apenas uma nova configuração de um mesmo sistema econômico, uma nova etapa do capitalismo, na fase imperialista, ou seja, se é apenas a roupa nova de um velho conhecido dos povos do planeta.

Por exemplo, Gomes (1995), comentando os debates travados com a participação de: Perry Anderson, Goran Therborn, Atílio Boron, Emir Sader e Pierre Salama, que resultaram no livro “Pós-neoliberalismo – as políticas sociais e o Estado democrático”, quando os organizadores do debate (Pablo Gentili e Luiz Fernandes) propuseram a discussão sobre a “própria definição do neoliberalismo e os significados atribuídos a esse conceito”, diz:

De certa forma, o que impressiona nas intervenções e nos debates contidos no livro [...] é a riqueza de observações e de citações de dados relevantes e importantes, combinada com a pobreza e a timidez no momento de definir conceitos e tirar conclusões (GOMES, 1995, p.21)

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nos últimos anos.

Há posicionamentos como o de Catharino (1997), que formula a indagação se o neoliberalismo existe mesmo, ou não. E relaciona entre os que respondem não, além dele próprio, Nelson Werneck Sodré, Darcy Ribeiro e Evaristo de Morais Filho.

Fala que o primeiro, numa monografia de 1995, diz que

O neoliberalismo não passa de uma farsa, o disfarce com que se apresenta uma forma de política que pretende, justamente, o “fim da história”, isto é os ricos ficarão mais ricos e os pobres ficarão mais pobres, e tudo será como um país das maravilhas (CATHARINO, 1997, p.17).

E Darcy Ribeiro chama de “malandrice neoliberal”, “de fato um neoconservadorismo”. Já Evaristo de Morais Filho, diz: “Todos os neo são sempre suspeitos em matéria social ou histórica à maneira de café requentado ou salvados de incêndio”. Por fim, ele próprio (Catharino), declara que “Não há “neoliberalismo”, a rigor, e sim liberalismo ou individualismo ressurgido das suas próprias cinzas, como fênix ou bennu.”.

Por outro lado, os defensores das idéias e das diretrizes do neoliberalismo, por exemplo, fogem dessa alcunha que relembra as matrizes do pensamento liberal e as práticas de opressão e exploração social que se tornaram sua marca registrada nos primórdios da revolução industrial, quando a jornada de trabalho, por exemplo, chegava a 15 ou 16 horas por dia, tanto para homens e mulheres adultos, como para crianças e idosos.

Estes preferem designá-lo sob o termo pouco preciso e bastante confuso, de “globalização”, que também não encontra definição unânime e que, na verdade, passou a ser utilizado mais como uma “bandeira” dos postulados neoliberais, para justificar todas as diretrizes da política econômica ditada pelo capitalismo financeiro central para os países periféricos.

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Na verdade, ninguém, que se debruce sobre o fenômeno com o mínimo de isenção e sem o compromisso de enaltecê-lo, se engana mais com as afirmações de que o neoliberalismo seja um conjunto de idéias e práticas inteiramente novas, surgidas nas condições de uma “nova ordem mundial” onde prevalece a globalização e a modernidade de um mundo totalmente adaptado à via única do capitalismo, sob a égide do “Deus” mercado.

A vida também vem se encarregando de desmascarar as aleivosias (ditas com pompa de grandes verdades acadêmicas) que apregoavam “o fim da história” ou o fim dos tempos, com a consagração do capitalismo e da democracia ocidental liberal como ponto culminante da evolução ideológica da história da humanidade e como única e última via possível para a organização econômica e sócio-política das nações do globo ou como a força final do governo humano, em oposição a qualquer outro sistema ou ideologia (FUKUYAMA, 1992).

A persistência de regimes não engajados na senda neoliberal, que apesar de também estarem envolvidos em crises econômicas e sociais das mais diversas matizes, sobrevivem e até registram índices de crescimento econômico e progressos sociais (caso da China e de parte dos países asiáticos e dos de orientação Islâmica), mas, sobretudo após a eleição de diversos defensores de uma “terceira via” em vários quadrantes do globo, como na cidade do México (para dar um exemplo latino americano) e na Inglaterra, por exemplo, vem contribuindo para a evolução de uma consciência mais ou menos generalizada de que não se pode curvar à receita neoliberal, geradora de recessão e de desemprego, apenas para falar nas conseqüências mais imediatas e evidentes.

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De igual maneira, a “globalização”, no presente trabalho, é tratada sempre para designar a vertente econômica desse pensamento, baseada na globalização do capital financeiro, fenômeno econômico realmente ocorrido e que ainda está em curso. Nunca com o sentido de que existe uma globalização da vida, como uma necessidade de submeter e transformar tudo e todos, do boteco da esquina às jazidas de petróleo, em coisas jungidas às necessidades e diretrizes econômicas globais, que precisam ser desnacionalizados para poder sobreviver e para permitir o progresso de qualquer país.

Nos aproximamos, assim, da visão de Wanderley (2008), para quem globalização é um conceito ao mesmo tempo complexo, ambíguo e ideológico, que apresenta duas dimensões interligadas, sendo uma a de um novo mito, de caráter ideológico e outra que representa uma tendência historicamente objetiva. Trata-se, portanto, de desmistificar a primeira e compreender a segunda dimensão do conceito. Vejamos suas palavras:

Algumas palavras sobre a globalização, que contextualiza o tema em tela. Trata-se de um conceito ao mesmo tempo complexo, ambíguo e ideológico. Comumente, ele é compreendido como um processo crescente de mudanças que mundializa os mercados, as finanças, a informação, a comunicação, os valores culturais, criando um sistema de vasos comunicantes entre os países e continentes. Parece consensual que o capitalismo, desde suas origens, desenvolveu um processo de internacionalização do capital, desigual e combinado, rompendo e integrando fronteiras geográficas. Nesse sentido, alguns sustentam que o movimento de mundialização ou globalização (termos para eles utilizados como sinônimos) é constante, adquirindo novas formas e conteúdos em conseqüência das transformações sócio-econômicas-políticas-culturais em curso.

(...)

Para outros grupos, no qual me incluo, o processo de globalização (que procuro distinguir de mundialização e internacionalização. Ver Wanderley, 2003), com a dupla face indicada, é um dado da realidade, mas que não pode ser demonizado e nem ser aceito naturalmente nos termos postos. Se há uma celebração do Mercado totalizador, o processo comporta a existência de fraturas e contradições, tais como áreas não totalmente atingidas (o próprio fluxo de capitais e de investimentos se concentra nos Estados Unidos, Europa e parte da Ásia),inconsistência de objetivos (os modelos de desenvolvimento dos países centrais e periféricos não estão trazendo modificações substantivas no ranking dos mesmos), diminuição da soberania dos Estados-Nações, mas, concomitantemente, revigoramento de seu poder em certas funções (com o risco da concentração de poder desproporcional nos executivos).

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nas relações internacionais, geradas pelos novos modelos tecnológicos; aumento do protecionismo nas políticas dos principais países ricos; e políticas de desregulação do Estado, privatizações, combate aos déficits públicos, por parte dos organismos internacionais; todo como forma de pressionar o Sul a se integrar nas regras do jogo impostas. E também acentua que outros defensores do fenômeno agregam traços à conceituação de globalização que incluiriam a passagem da acumulação fordista para a acumulação flexível, a supremacia do capital financeiro sobre o capital produtivo, a derrocada do chamado socialismo real, a hegemonia militar norte-americana, a aceitação do neoliberalismo como pensamento único, o impacto das teses dos pós-modernos, a crise dos paradigmas ocidentais, novas dimensões da exclusão social; restando a cada Estado-Nação simplesmente ver a melhor maneira de geri-lo.

Como pretendemos discutir a questão social no âmbito do MERCOSUL, contextualizada no que chamamos de “globalização neoliberal”, torna-se necessário deixar claro que estamos falando dessa etapa histórica do sistema capitalista, na qual vêm se operando profundas mudanças na gestão do Estado, no processo produtivo, nas relações entre capital e trabalho, nas políticas sociais e na própria configuração dos instrumentos e das lutas sociais dos que se debatem contra a lógica da prevalência dos interesses do capital sobre os interesses sociais e humanos na América Latina e em escala mundial.

Na busca desse entendimento, ou na tentativa de compreender o neoliberalismo e a “globalização neoliberal”, em sua essência, toma-se como ponto de partida a análise, ainda que de forma abreviada, do que foi o liberalismo clássico, como sistema de concepções econômico-políticas, ou seja, como pensamento e ideologia. Busca-se, também, a análise do contexto hegemônico, que entrelaçaram-se com as circunstâncias políticas da última metade do século XX, compondo o caldo de cultura que permitiu a formação do que designamos como “globalização neoliberal”.

2.2 – A gênese liberal

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circulação de mercadorias em larga escala. A concepção de mundo baseada na teologia católica, característica do feudalismo, já se fazia insuficiente para satisfazer as novas relações de produção e troca, ocorridas em escala social e que “engendra complicadas relações contratuais e regras universalmente validas”. Mas a luta contra essa concepção teológica, segundo F. Engels, percorreu todo o período histórico compreendido entre o século XIII e XVII, somente obtendo vitória na França, onde aparecia “sem disfarces, a nova concepção de mundo, fadada a se tornar clássica para a burguesia, a concepção jurídica de mundo.”. Com ela,

O dogma e o direito divino eram substituídos pelo direito humano, e a igreja, pelo estado. As relações econômicas e sociais, anteriormente representadas como criações do dogma e da igreja, porque esta a sancionava, agora se representam fundadas no direito e criadas pelo estado (ENGELS, 1995, p.24).

E como na relação de troca e circulação de mercadoria entre livres produtores, a concorrência assume aspecto crucial, a igualdade jurídica passa a ser fundamental para o equilíbrio e o progresso dessas relações, tornando-se o principal “brado de guerra” da Burguesia contra os senhores feudais e a monarquia absoluta, assentando-se ai as bases do pensamento liberal, pois essa luta desenvolveu-se como luta política pela posse do Estado, conduzida por meio de “reivindicações jurídicas”, segundo o mesmo Engels.

Como acentua Wolkmer (1997), o liberalismo surgiu como uma nova visão global do mundo, baseada nos valores e crenças da burguesia emergente, na sua luta contra o regime feudal, no continente europeu, entre os séculos XVII e XVIII. Em seu nascedouro o liberalismo assume papel revolucionário, baseado na tríplice bandeira de “liberdade, igualdade e fraternidade”, sob a qual a classe burguesa pode agasalhar em aliança amplos setores do campesinato e das demais classes intermediárias que também sofriam a opressão feudal e que, por esse motivo, também tinham interesses imediatos na derrocada do poder monárquico.

Essa tripla bandeira resumia uma visão calcada na liberdade individual e cujos traços essenciais, segundo o mesmo Wolkmer (1997, p.33),

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Lembra o mesmo autor que após galgar o poder político e consolidar a economia capitalista, que já evoluía para o capitalismo industrial, a burguesia abandonou em parte as bandeiras libertárias passando “a aplicar na prática somente os aspectos da teoria liberal que mais lhe interessam, denegando a distribuição social da riqueza e excluindo o povo do acesso ao governo”.

Na verdade, a própria dinâmica do capital, ao galgar sua fase monopolista acabou por forçar à burguesia o abandono das bases liberais calcadas na ausência de regulação econômica pelo Estado, (que deveria ser mínimo – fazendo apenas o papel de um “guarda noturno” do mercado livre). Nessa fase, a regulação econômica unicamente pelo livre mercado passou a ser mera retórica,

A dinâmica do capital na idade monopólica, anacroniza completamente as traves-mestras do pensamento liberal. Os eixos teórico-culturais que suportaram a vontade política da burguesia revolucionária perdem qualquer vigência na efetividade social: o “livre mercado” (que, de fato, jamais fora plenamente livre) passou ao estatuto de retórica, posto que o movimento do capital na era monopólica demande um complexo de regulações excludente

de toda referência à velha mão invisível – donde um Estado

necessariamente intervencionista que, remetendo a figura do “guarda noturno” ao reino da fábula, redefiniu largamente a relação público-privado, redimensionando a conexão política-econômica (NETTO, 1993, p.75 ).

Por outro lado, ao se afirmar como sistema dominante no mundo e, sobretudo ao alcançar sua fase imperialista, quando o capital financeiro ganhou importância e poder semelhante, (e depois superior) ao capital industrial. Mas, sobretudo, quando as contestações ao sistema liberal através das lutas operárias passaram a ganhar consciência e estrutura política, com a formulação de um projeto de poder que passou a ameaçar esse sistema, principalmente com a vitória da revolução soviética de 1917 e com a constituição de um “bloco socialista” no leste da Europa, o capitalismo foi obrigado a se afastar do discurso puramente liberal, e a adotar uma postura que pode se chamar de moderada, absorvendo e estimulando a social-democracia como uma via intermediária de convivência pacífica entre capitalismo e socialismo, cuja expressão concreta é a formação de um Estado de Bem Estar Social, como meio termo aceitável contra o fantasma do socialismo radical cuja matriz encontrava-se na União Soviética e disseminada como sonho e como organizações radicais de luta em todo o globo terrestre, nas fábricas e favelas.

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transformou-se em heterodoxo, ou relativo. Não mais apenas individualista, mas agora também social. Sendo o neoliberalismo portador do “gene dominante” desse liberalismo heterodoxo (CATHARINO, 1997).

Ou seja, na luta entre o socialismo e o capitalismo, este adotou a tática do “é melhor perder os anéis do que os dedos”, fazendo concessões sociais, aceitando uma distribuição mais flexível do produto social do trabalho através de um Estado assistencialista. Ao mesmo tempo, nutria portentosa máquina de luta no terreno das idéias, no terreno da disputa tecnológica, de mercado e mesmo na corrida armamentista, fomentando guerras e enfrentamentos sangrentos, por nações, territórios, espaços, matérias primas e mercados, subsidiada por uma vasta rede de espionagem que completava o porão da chamada guerra fria.

E isso foi possível também porque, mesmo tendo de se afastar dos pilares econômicos do liberalismo clássico, a burguesia nunca deixou de utilizar em seu favor o núcleo temático liberal relativo ao elenco de garantias e prerrogativas que Marshall denominou de direitos civis, semeando muitas vezes confusão e diversionismos propagandísticos. Até mesmo quando se utilizava da força, da aplicação de golpes militares e da implantação de ditaduras sangrentas, mas sempre sob a justificativa de estar salvando a democracia e garantindo a liberdade, contra a “ameaça” dos regimes socialistas, taxados de totalitários, com boa dose de razão, em muitos casos.

Acentua Netto (1993) que, como a crítica iniciada por Karl Marx aos limites da concepção liberal de liberdade não teve continuidade conseqüente no plano teórico, e, principalmente, levando em conta que, na prática, os regimes que se ergueram em alternativa ao capitalismo não resolveram satisfatoriamente o problema das liberdades individuais, e passou a sofrer severas críticas por isso, esse componente do pensamento liberal alcançou tal relevância, que o legado do liberalismo passou a ser confundido com a garantia da liberdade e da democracia.

A confusão e a prestidigitação ideológicas acabaram por reduzir

liberdade(s) a liberalismo e a identificá-lo com democracia, numa clara falsificação histórica que, apesar do seu caráter mistificador, não careceu de eficácia social. Aí reside muito da resistência ídeo-cultural da tradição liberal.

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E foi exatamente se utilizando dessa bandeira da liberdade, que as forças capitalistas fomentaram a mobilização para a derrocada do bloco socialista do leste europeu, cujo símbolo que ficará gravado na memória televisiva do mundo é a derrubada do Muro de Berlim, que a mídia se encarregou de transmitir ao vivo e em cores.

E, com a derrota política dessa matriz (nos últimos tempos muito mais simbólica do que mesmo radical) do projeto Socialista, foi possível à oligarquia financeira mundial retomar, em outro patamar, o núcleo filosófico do liberalismo, para novamente alardear a excelência da economia de mercado, agora revestida do triunfalismo da globalização do capital financeiro e da exacerbação do individualismo.

O neoliberalismo é, assim, a exacerbação daquela parte das idéias nucleares do liberalismo ortodoxo, adaptadas à nova conjuntura mundial. Exacerbação esta baseada principalmente na nova configuração política mundial, gestada com o fim da guerra fria e, entrelaçando-se como mecanismos dessa nova configuração política, os seguintes aspectos objetivos: a hegemonia do capital financeiro; a globalização desse capital, como vertente econômica dessa mesma estratégia e, por último, a evolução tecnológica das últimas décadas.

É que, como afirma Chesnais (1999), com o fim da guerra fria terminou um ciclo histórico no qual o mundo estava emulado pela crença na possibilidade de opor ao capitalismo um outro modelo de sociedade, com realizações e promessas sociais bastante superiores às deste e que, em dado momento, se colocou à altura de competir, até militarmente, com ele. “Foi também o período durante o qual, particularmente na Europa Ocidental, o capitalismo parecia ter sido “domesticado” (CHESNAIS, 1999, p. 486).

Na opinião de Gregório Iriarte, “O neoliberalismo é filho natural e legítimo do liberalismo do século XIX. Ninguém pode negar sua ‘marca de origem". Por sua vez, Carlos Ruiz Castilho, ambos citados por Catharino (1997, p.19), arremata:

O termo neoliberalismo designa uma doutrina que aspira a remover certas posições do velho liberalismo (o que chamei de ortodoxo ou típico), mas permanecendo fiel às raízes do mesmo.

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“Surgiu no século XX a reação que almejava retirar do liberalismo (do ortodoxo) sua excessiva carga de abstração e individualismo difuso, depurando-o mediante a incorporação da experiência social”. Para ele “O neoliberalismo, no entanto, já não desconhece a dimensão social do homem...(CATHARINO, 1997, p.19).

Debatida a gênese liberal do neoliberalismo, reafirmamos que este é, na verdade, o velho liberalismo adaptado aos novos tempos, ou seja, uma nova etapa estratégica do capitalismo mundial, para obter os mesmos objetivos nucleares que sempre lhe nutriu, quais sejam o da obtenção do máximo lucro, com a manutenção da apropriação privada do produto social da riqueza.

Cumpre agora adentrar na discussão dos contextos que determinaram sua ascensão ao estágio de sistema predominante no mundo, formando aquilo que chamamos de “globalização neoliberal”, para compreendermos as suas conseqüências atuais, e o movimento que provoca nas estruturas do Estado e no pensamento e na cultura jurídica, especialmente naquelas voltadas para a formulação e para a resolução das questões vinculadas às relações do trabalho e para a resolução dos conflitos daí decorrentes.

2.3 – Contexto Hegemônico

Mas a gênese das idéias neoliberais também remontam sobre as necessidades objetivas do sistema capitalista, cujo processo de acumulação vinha de prolongada estagnação, como demonstrado por Gomes (1995, p.27):

Todo esse movimento já era uma necessidade objetiva da acumulação capitalista, na tentativa de superação da crise que se agravou no início da década de 70, com a conjugação de aumento da inflação, estagnação econômica e diminuição da taxa de lucro das grandes corporações, como destacado nas intervenções de Perry Anderson e outros. A partir dessa época, a economia mundial ingressa num novo ciclo caracterizado, mais do que nunca, pelo crescimento das especulações financeiras puramente especulativas e parasitárias – um dos traços essenciais do imperialismo, como já apontara Lênin. Interligaram-se os mercados de câmbio, de ações, de seguros, de títulos da dívida, alimentados inclusive pelos governos dos grandes países imperialistas, com seus bancos centrais inteiramente dominados pela oligarquia financeira.

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conhecida do sistema capitalista, determinada pelo predomínio do capital financeiro sobre o capital industrial. Tendência esta que já se esboçava desde as primeiras décadas desse século XX.

O historiador inglês Perry Anderson estabelece como marco histórico do ressurgimento das idéias liberais, ou do novo liberalismo (neoliberalismo), o livro do economista austríaco Friederik A. Hayek, de 1944, de nome “O caminho da servidão”, no qual fez “um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercado por parte do Estado, denunciada como uma etapa letal à liberdade, não somente econômica, mas também política”. Observando ainda que as teses de Hayek permaneceram no terreno meramente teórico, até que, quando estourou a grande crise do modelo econômico do pós guerra, “a partir de 1973, quando, pela primeira vez, em quase todo o mundo capitalista, combinaram-se baixas taxas de crescimento com altas taxas de inflação” (GOMES, 1995, p. 16).

Hayek, a essa altura, já era professor da Universidade de Chicago, onde se juntara a Milton Friedman, na defesa das mesmas idéias neoliberais, tendo ambos recebido o Prêmio Nobel de Economia.

Nessa situação, as idéias neoliberais começaram a ganhar terreno. “As raízes da crise”, afirmavam Hayek e seus companheiros, “estavam no poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de maneira mais geral, no movimento operário, que havia corroído as bases da acumulação capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com sua pressão parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os gastos sociais”. E como remédio para tais males, segundo Perry Anderson, pregavam a necessidade de um “Estado forte”, no sentido de romper o poder dos sindicatos, controlar a expansão monetária, diminuir os gastos sociais e a intervenção estatal na economia de um modo geral (GOMES, 1995, p.16).

Ou seja, foi tentando buscar e formular respostas teóricas para “as raízes da crise”, que surgiram obras como a de Hayek, acima citada, como também outras, como descreve Netto (1993), o que configura um verdadeiro movimento formulador das teses neoliberais, mais adiante assumidas e postas em prática pela burguesia, exatamente no momento em que as condições políticas permitiram.

Penso que se podem tomar como marcos iniciais (...) as obras de Hayek e

de Popper, respectivamente O caminho da servidão, de 1944, e A

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a trilogia Lei, legislação e liberdade) quer com a divulgação de trabalhos que avançam numa linha de elaboração similar (é de 1962 Capitalismo e liberdade, de M e R. Friedman) (NETTO, 1993, p. 76).

E não é totalmente sem lógica que Hayek e os formuladores das teses neoliberais identificam entre as “raízes da crise” a elevação do poder reivindicatório do movimento operário e das organizações sindicais (e destilam todo o seu veneno ideológico contra estes) e não enfrentam as causas reais da estagnação e da dificuldade de reprodução do capital. É que, defensores do livre mercado, jamais admitem as deficiências estruturais do sistema, concentrando o foco de sua análise para as formas de “gestão” do capital, ou seja, para a chamada superestrutura e nunca para as reais causas da crise, que guarda relação com a contradição estrutural desse sistema, qual seja o descompasso entre a produção social e a apropriação privada concentrada, monopolista do produto social, cada vez mais convertido em capital especulativo, parasitário e não produtivo.

Embora o capital industrial seja como ensina Karl Marx, no Capítulo I, do Livro II, do O capital, “o único modo de existência do capital onde a sua função não consiste apenas em apropriação, mas também em criação de mais-valia, dito de outra forma, de sobreproduto”, na fase monopolista do capitalismo, iniciada desde os fins do século XIX e aprofundada cada vez mais no século que se findou, o capital passou cada vez mais a se valorizar na esfera financeira, onde se “frutifica” através de títulos de crédito (ações e obrigações) que se baseiam na expectativa da atividade econômica futura, relegando ao processo de produção capitalista o papel de “um intermediário inevitável, um mal necessário para fazer dinheiro” (CHESNAIS, 1999, p.488).

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precisavam ser rompidas para libertar as forças do mercado a praticarem a supervalorização especulativa.

E a solução neoliberal é assentada exatamente na retirada dessas amarras à liberdade especulativa do capital financeiro. Sugar o suor dos povos dos países pobres através do investimento no setor produtivo passou a ser desinteressante para a oligarquia financeira mundial. A necessidade da supervalorização do capital, do super lucro, para enfrentar a crise que batia às portas dos magnatas do mundo requeria soluções menos dispendiosas. Por isso é que,

Nesse final de século XX, a sociedade mundial encontra-se de novo sob o controle férreo de um capitalismo dominado por contratos de rendimentos, um capitalismo cuja avidez e ferocidade são tanto mais fortes quanto ele é parasitário (CHESNAIS, 1999, p.488).

Perry Anderson, também acentua o mesmo fenômeno da desregulamentação financeira como estratégia neoliberal para sair da crise, recuperando o lucro, sem a necessidade de incremento de investimentos:

Essencialmente, pode-se dizer, porque a desregulamentação financeira, que foi um elemento tão importante no programa neoliberal, criou condições muito mais propícias para a inversão especulativa do que produtiva. Durante os anos 80 aconteceu uma verdadeira explosão dos mercados de câmbio internacionais, cujas transações, puramente monetárias, acabaram por diminuir o comércio de mercadorias reais. O peso de operações puramente parasitárias teve um incremento vertiginoso nestes anos (ANDERSON, 1995).

Chesnais (1999, p. 466), também identifica como “preludio” da globalização econômica, uma estratégia evolutiva, comandada pelo Bird/FMI/Gatt, após a 2ª guerra mundial, na qual distingue quatro fases:

Numa primeira fase, fixou como objetivo a dependência técnica e financeira dos países pobres descolonizados através de uma política sistemática de ajuda ao desenvolvimento baseada no equipamento pesado, na concentração urbana, das grandes obras e na industrialização das zonas rurais.

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projetos megalomaníacos desde a construção de Brasília até a da transamazônica, emulando o slogan do “este é um país que vai prá frente” e tantos outros.

A segunda fase, que dura de 1968 a 1982, tem como ponto central o endividamento, “ano da grande crise da dívida, que se seguiu à moratória do México”. Os empréstimos foram multiplicados por seis vezes entre 68 e 71, ainda com McNamara à frente do Bird, quando se deu o fim da conversibilidade do dólar em ouro, decretada pelo então Presidente Nixon, “A esmola, uma vez emprestada ao mundo pobre, reencontrava valor como que por milagre: transformava-se numa dívida a pagar” (CHESNAIS, 1999, p. 466).

As crises do petróleo de 1973 e de 1979 contribuíram para agravar enormemente a situação da dívida externa dos países pobres, que marcou o início da terceira fase da estratégia gradativa das instituições de Bretton Woods, que, a partir de 1982, já com a ascensão de Ronald Regan ao poder central norte americano. Foi adotada uma ofensiva chamada de “ajuste estrutural”, com a qual o Bird e o FMI passaram também a garantir os empréstimos privados, para a eventualidade de um calote dos países devedores e, já associados oficialmente ao GATT, passou-se à política da “reconquista”, comandada pela equipe Reagan.

Buscava-se corroer as bases de sustentação da união Soviética, com a pressão sobre os países endividados para privá-los das relações comerciais com a URSS, que, enfraquecendo-se aos poucos, mesmo com as tentativas de reestruturar-se na linha capitalista, com a Perestroika e a Glasnost, mas não teve mais força de resistência interna e nem aliados externos, sucumbindo-se em seguida à queda do muro de Berlim, em 1989.

Inaugura-se aí a quarta fase da estratégia neoliberal, que é a implantação aberta de suas diretrizes, já bem formuladas e com experiências práticas de sua aplicação.

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No entanto, o Chile não podia servir como exemplo capaz de estimular a adoção da experiência neoliberal a nível planetário. Tanto por se tratar de um país periférico, na cadeia capitalista, como pelo desgaste da ditadura militar de Pinochet junto à opinião pública mundial.

Eis que galga o poder na Inglaterra a “Dama de Ferro”, Margaret Thatcher, em 1979 e, ai sim, implanta as diretrizes neoliberais num país central do capitalismo mundial, fazendo dobradinha com a equipe de Reagan (que chega ao poder em 1981) na adoção de intensa, agressiva e sistemática propaganda nos mais diversos meios de comunicação, e na pressão política e econômica, para que o mundo todo se engaje nessas diretrizes.

Perry Anderson sintetiza o que de prático significou a adoção do receituário neoliberal no modelo inglês:

Os governos Thatcher contraíram a emissão monetária, elevaram as taxas de juros, baixaram drasticamente os impostos sobre os rendimentos altos, aboliram controles sobre os fluxos financeiros, criaram níveis de desemprego em massa, sufocaram greves, impuseram uma nova legislação anti-sindical e cortaram gastos sociais. E, finalmente – esta foi uma medida surpreendentemente tardia – lançaram-se num amplo programa de privatização, começando por habitação pública e passando em seguida a indústrias básicas como o aço, a eletricidade, o petróleo, o gás e a água.3

Ainda segundo Gomes, para Anderson, a variante norte-americana foi bem distinta, mesmo porque nos Estados Unidos não existia um “Estado de Bem Estar” do tipo europeu (que o governo Thatcher se empenhara em desmontar). Para Reagan, a estratégia neoliberal consistia em se utilizar da competição militar para quebrar a economia soviética, e derrubar o regime socialista em seu principal país símbolo.

Mas a dobradinha Reagan/Thatcher funcionou e produziu resultados políticos portentosos. Um fornecendo o arcabouço teórico, gestado no ambiente da academia americana e assumindo o comando hegemônico dos organismos aplicadores das diretrizes em escala global. O outro apresentando ao mundo a fórmula prática da aplicação da receita perversa.

É no processo de construção dessa vitória do neoliberalismo sobre o bloco socialista do leste da Europa que se configuram as possibilidades concretas de se passar do terreno da formulação teórica e da aplicação dessa teoria numa

3

ANDERSON, Pery. In: SADER, Emir e GENTILI (orgs). Pós-neoliberalismo – as políticas sociais e o Estado

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experiência prática concreta, para a generalização da idéia, com a formulação de diretrizes concretas, ou de “receitas” mais ou menos genéricas, a serem aplicadas indiscriminadamente em todos os quadrantes do globo terrestre.

Essa formulação foi batizada por John Wiliamson, em 1990, pelo nome de

Consenso de Washington, que representa o que nós chamamos de estratégia de ação das idéias neoliberais. Ou seja, o neoliberalismo, chegou ao requinte de, além se constituir num projeto histórico próprio, chegar a formular um verdadeiro programa político com diretrizes e cronogramas para cada quadrante do planeta, sob a hegemonia mundial do capital financeiro norte americano, e com toda uma estrutura montada com base nas instituições que governavam a economia do mundo – Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e Organização Mundial do Comércio.

O “Consenso de Washington” também é a expressão de uma outra realidade brutal que resultou do processo de luta e da vitória política das forças do capital sobre a experiência socialista dirigida pela URSS. Essa realidade é a hegemonia total dos Estados Unidos da América, como a maior potência imperialista do planeta.

Tal é seu poder de colonização econômica, que fora dos países do centro do capitalismo, não há um único acontecimento político ou econômico em qualquer outro quadrante do planeta que não tenha sua interferência. Mesmo o império britânico, nem o império romano, em seus respectivos tempos, acumularam tanto poder.

Um de cada três dólares da riqueza em circulação no planeta são “gerados” pela economia americana. 73 centavos de cada dólar gerado no mundo, pelas empresas de computação e de Internet são americanos. Por outro lado, seus soldados podem intervir, em menos de 24 horas, em qualquer ponto do planeta (SIMONETTI, 2000).

Os Estados Unidos têm o poder da força, pois são os detentores do maior arsenal do planeta, têm o poder econômico, já que são os mais ricos e prósperos, e, para completar, ainda tem os artistas de Hollywood, que convencem a humanidade de que seu estilo de vida é o que há de mais sensacional (SIMONETTI, 2000, p.48).

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econômica forçou a submissão de nossas classes dirigentes à integralidade da receita neoliberal em tal grau que mesmo com a assunção dos governos Lula e com a adoção de uma política social e de transferência de renda mais arrojada ainda sentimos os efeitos da aplicação desse receituário.

Aqui, até os últimos dias do governo de FHC, fomos obrigados a aceitar a ingerência do FMI em todas as definições das políticas públicas. Da reforma constitucional (tributária, administrativa, previdenciária, judiciária, trabalhista), até a definição do valor do salário mínimo, passando pela política econômica e monetária/cambial, tudo teve que ser feito em atendimento das diretrizes traçadas pelo Consenso de Washington.

O entrelaçamento dos fatores políticos, econômicos e, como parte exponencialmente influente deste, a evolução tecnológica, é que permitiu ao capitalismo mundial alcançar um nível de liberdade de ação jamais conseguido, nem nos áureos tempos em que surgiam e predominavam as chamadas idéias liberais, calcadas exatamente na total liberdade econômica voltada para a super-exploração e para os mecanismos mais expropriativos de acumulação do capital como expressão portentosa da riqueza e do poder.

Com base nessa liberdade, é que tem sido possível ao mesmo, impor à imensa maioria das nações do globo, uma nova lógica de funcionamento, com diretrizes e mecanismos bem definidos, calcados na estrutura de poder das chamadas “Instituições de Bretton Woods” (FMI, Banco Mundial e GATT–OMC), não, é claro, sem tropeços momentâneos e sem sobressaltos ameaçadores, posto que suas contradições primordiais (concentração da riqueza e aumento vertiginoso da exclusão social) não apenas permanecem como se agravam em escala geométrica.

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No dizer de Bacelar (2008), “ao contrário do que a palavra sugere, a globalização é um processo seletivo, gerador de desigualdade.”, e que não anula as hierarquias, apenas as recria para servir aos interesses dos seus atores principais.

Um fato importante é que a globalização é, simultaneamente, um processo de homogeneização e de diferenciação. De homogeneização porque os agentes da globalização impõem seus padrões pelo mundo afora e tendem a tornar tudo parecido. (...) Embora a homogeneização seja hoje muito forte, ela não é a única tendência. Quando um agente global escolhe um lugar para ir, ele o escolhe a partir do que é diferente, daquilo que aquele lugar possui e outros lugares não. O critério dominante passa a ser a diferenciação. A globalização estimula isso, ao mesmo tempo que estimula também a valorização das escalas global e local.

E arremata seu pensamento com a seguinte indagação: por que, apegando-se às escalas global e local, a globalização contesta a escala nacional? Sua explicação é a de que:

Em grande parte, parte porque foi nela que a luta social conseguiu, ao longo de séculos, impor as regulações ao capitalismo. A legislação trabalhista é nacional; o salário mínimo é nacional; a moeda é nacional; o Estado é nacional. Isso explica a fúria dos agentes globais contra os Estados nacionais. Seu ataque se associou, nos últimos tempos, à ideologia neoliberal. Não é à toa que a escala de ataque seja a escala intermediária, a escala nacional. Os agentes globais não querem saber de regulações; querem ter total liberdade para atuar no espaço global e instalar suas unidades no espaço local. Daí a máxima “pensar globalmente e atuar localmente”, que é puro produto da ideologia neoliberal a serviço de uma globalização que não aceita limites.

Tal explicação nos remeteria, obviamente, para toda a discussão da questão do Estado nacional e as peculiaridades de sua formação nos países latino-americanos, o que, no entanto, fugiria ao objetivo do presente trabalho. Mas, como parte indissociável da análise que se pretende fazer, torna-se necessário tecer algumas palavras sobre o papel da dimensão nacional, latino-americana, como movimento que encarna, concomitantemente, adesão e resistência à globalização neoliberal.

2.4 – Contexto social

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única forma de articulação de movimentos sociais, sindicatos, centrais sindicais, entidades empresariais, governos locais, ONGs, etc., etc., em franca contraposição à “globalização neoliberal” e reclamando uma “globalização social”.

As inovações tecnológicas e do mundo da comunicação abriram imensuráveis possibilidades de articulações entre atores e redes sociais que se comunicam em tempo real e agem (e reagem) com uma velocidade antes inimaginável aos movimentos da elite financeira que comanda o mercado mundial.

E graças a toda essa movimentação vão se formando outros atores da globalização, a “sociedade civil global”, que também vem se gestando no rastro das alterações tecnológicas, que, paradoxalmente, incluíram numa rede global de comunicação, contados, articulações, organizações, encontros, como os do “Foro Social Mundial”, uma multidão informada, mobilizada, consciente, articulada, como jamais fora possível se ver.

E essas novas formações sociais globais vão permitindo também que fique cada dia mais clara a inexorável contradição do sistema capitalista em sua nova fase, que pode ser expressa no verso do poeta baiano: “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Ou seja, a cada dia, a cada contato, a cada rede de comunicação que se forma, uma parcela cada vez maior de pessoas no mundo vai se dando conta de que a “globalização neoliberal” gera, ao mesmo tempo, uma riqueza descomunal e esparrama miséria devido à apropriação cada vez mais monopolizada da produção social de bens, serviços e valores: materiais, culturais, científicos, tecnológicos, etc.

(...) Sem ignorar, de resto, a irrupção de movimentos de resistência, de forças anti-sistêmicas ainda que limitadas, de um pensamento crítico que permanece ativo. No conjunto dos aspectos contraditórios, vale lembrar que se, por esse processo, se busca impor em todas as regiões da Terra um único modelo de desenvolvimento baseado no capital e no mercado, cria-se uma base material para que todos os trabalhadores do mundo possam unir-se; (...) desenvolvem-se novos sistemas de informação e comunicação, com potencial participativo e ao alcance das comunidades. É a constatação de que há um novo emergente que a nega e cuja configuração pode ser considerada como ainda não-consolidada (WANDERLEY, 2008).

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2.5 – A crise atual

Não é sem razão, portanto, que menos de três décadas após o início de sua implantação, a receita neoliberal deu com os burros n`água, provocou a mais portentosa crise no sistema financeiro mundial após a famosa crise de 1929.

De repente, a ciranda financeira do centro nevrálgico do sistema capitalista, a economia norte-americana, começa a ruir, e com ela, vai carregando toda a economia mundial para a bancarrota. Provocando enorme quebradeira em bancos, instituições financeiras, bolsas de valores, seguradoras, etc. Impondo brutal queda na taxa de crescimento da economia mundial, causando desespero e aumentando acentuadamente o desemprego já em níveis insuportáveis. Numa palavra “da moda”, esparrama exclusão social. Não de forma uniforme para todos os países e blocos econômicos, mas de forma seletiva. De sorte que os habitantes dos países (ou “mercados” periféricos sofrem muito mais com os efeitos da crise, do que os “incluídos” dos países centrais, inclusive dos EUA, que detonou a bomba da crise.

Embora não seja totalmente surpreendente, dado que muitos teóricos já apontavam para a efemeridade da globalização econômica, em decorrência, sobretudo, de sua

...lógica férrea que é duplamente destrutiva. Não só não pode melhorar o nível de vida da esmagadora maioria da população mundial (pelo contrário, contribui para sua pioria), como não é sequer sustentável a médio prazo (SANTOS apud Jerry Mander, 1996, p. 18).

Mas o paradoxo é que novamente o Estado é que virou o pronto-socorro do capitalismo. Os trilhões (é isso mesmo, trilhões) de dólares, de euros, de libras, Ienes, mandarins, pesos, reais, etc., etc., que estão sendo disponibilizados aos autores da crise também são distribuídos de forma seletiva. Ou seja, os remédios para a estimular o consumo e salvar ou diminuir os efeitos da retração da atividade econômica também são distribuídos em conta gotas para os periféricos e aos borbotões para os que ainda detêm o poderio mundial em termos econômicos, financeiros, tecnológicos, militares e políticos. Mais uma vez, a dosagem do remédio é oferecida em proporção inversa aos enfermos. Os mais excluídos, os mais vitimados pelas moléstias decorrentes da crise, recebem doses infinitamente menores dos recursos públicos que estão sendo sangrados pelas torneiras dos cofres estatais.

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E isso também vem ocorrendo na América Latina, com quase metade dos seus habitantes com IDH abaixo da faixa de pobreza, e no âmbito MERCOSUL, em particular. Onde o “Deus” mercado também está sendo socorrido pelo Estado. Aquele mesmo, que até poucos dias atrás era taxado de ineficiente, pesado, inflacionário, gerador de custos e entraves para a liberdade econômica (como o tão propalado custo Brasil). O mesmo que deveria (e foi) depenado para: sair da atividade econômica; entregar seu patrimônio, sua base material, industrial, telecomunicações, energia, etc., etc., a troco de nada, porque a virtuosidade do desenvolvimento estava nas mãos zelosas do mercado. Quem não se recorda das piadinhas televisivas e dos blogueiros de plantão, referindo-se ao dinossauro, o anacrônico Estado. E, de repente, sem maiores explicações, ele está, de novo, saindo em socorro de mais uma quebradeira provocada pela suposta liberdade que fora conferida por mais de três décadas aos financistas gananciosos e inescrupulosos, como os Madoff4 da vida.

E a outra coisa inusitada disso tudo, é que, exatamente os países, os povos, os blocos que não foram a fundo na receita neoliberal, é que estão mais inteiros no vendaval da crise, dentre eles os emergentes, abrigados e reunidos (às pressas) no G-20, sobretudo os que compõem o denominado BRINC – Brasil, Rússia, Índia e China, em cuja última reunião, em Londres, na Inglaterra (sob vigorosos protestos da sociedade civil global), foram veementemente chamados a aportar recursos e injetá-los nas veias “fragilizadas” da mesma elite financista e poderosa do mundo, tentando lhe dar uma sobrevida igual à que ocorreu na virada do século IX para o XX (e durante muitas décadas deste).

Mas, se o socorro de outrora lhes custou os famosos “anéis”; cedidos sob a forma de tolerância à instauração de normas trabalhistas, sob a implementação de normas previdenciárias, sob a aceitação das liberdades coletivas, sob emergência dos direitos sociais, e até de sua constitucionalização, formando o Estado providência, e/ou prometendo o Estado de Bem Estar Social, na Europa ocidental e o Estado Desenvolvimentista, na América Latina; fica a indagação, quais serão os

4

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anéis a serem cedidos agora? Ou, na falta de uma ameaça real de substituição do sistema capitalista por outro, a elite mundial conseguirá impor um novo e mais perverso padrão de exploração e de apropriação do produto da riqueza mundial?

Não se está tentando dizer, com isso, que os BRINCS não estão inseridos no neoliberalismo. Já reconhecemos a “Iglobalização” como um dado da realidade e um mecanismo sistêmico de impor um modo de vida voltado para a manutenção do capitalismo, e que, como tal, atingiu a grande maioria dos países do globo (embora de maneira assimétrica), que foram se adequando, com maior ou menor profundidade ao receituário neoliberal. Mas, graças aos processos peculiares de suas formações, graças à resistência social, foram obrigados a se manterem numa vertente menos neoliberal. Ficaram na chamada “terceira via” ou mesmo fora dessa alcunha, elegendo governos menos neoliberais (ainda que com vieses populistas e autoritários, em alguns casos), formando blocos econômicos e outras formas de articulação e entrelaçamentos como vem ocorrendo na América Latina. Ou, de outro modo, adotando mudanças econômicas, sem abdicar totalmente da vertente socialista, como ocorre na China, propiciando-lhe ainda falar em crescimento econômico, em meio à recessão que solapa o capitalismo ocidental desde seu epicentro, a cidadela norte-americana.

Mas, como disse Boff (2009), tudo está a indicar que os encaminhamentos adotados na reunião do G-20 visam somente salvar o sistema, “mantendo a acumulação do capital como principal motor da economia e o mercado livre como lugar de sua reprodução”, dizendo ainda:

Cumpre, entretanto, reconhecer que ambas as soluções são intrasistêmicas e nada inspiradoras. pois de modo algum colocam em xeque o modo de produção capitalista e sua expressão política, o neoliberalismo. Curiosamente, Sarkosy, num artigo do dia 1 de abril, propunha um capitalismo cooperativo e solidário como forma de sair do caos. Parece entender pouco da lógica do capital, pois este se rege pela competitividade e não pela cooperação. A solidariedade não é categoria do capital, senão não teríamos tantos milhões de excluídos. Se alguém achar que o capitalismo é bom para os trabalhadores é um iludido. O capital é bom para os capitalistas que detém o ter, o saber e o poder. (...)

Tudo indica que se trata de uma crise do sistema. As duas externalidades maiores – a social e a ambiental – não ganham centralidade. Mas elas são de tal gravidade que põem em xeque as soluções propostas, possuindo somente sustentabilidade a curto e a médio prazo. Depois voltará a crise, possivelmente, sob a forma de tragédia ou de farsa (Marx).

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No rastro da crise já se fala até mesmo em substituir o dólar por outra moeda como principal componente das reservas mundiais, o que seria inusitado se cogitar até poucos dias atrás, já se falando, também, na adoção de suas próprias moedas nas transações comerciais bilaterais, como no caso do Brasil e da China, o que vai compondo um quadro de possível quebra da hegemonia norte-americana no campo das relações comerciais internacionais.

O Brasil sugeriu à China que os dois países financiem o comércio bilateral em suas respectivas moedas locais, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta sexta-feira (3). Lula fez a proposta ao presidente chinês Hu Jintao em encontro dos dois líderes durante a cúpula do G20, em Londres na quinta-feira (2). "Eu propus que a gente comece a discutir que as trocas comerciais entre o Brasil e a China sejam feitas nas moedas brasileira e chinesa", disse Lula a repórteres. O presidente disse esperar discutir o assunto com mais detalhes quando ele visitar a China mais tarde este mês. A iniciativa poderia representar mais um esforço no sentido de dar ao comércio mais independência em relação ao dólar em um momento em que aumentam as propostas para o estabelecimento de uma moeda de reserva global alternativa (BOFF, 2009).

E o próprio Presidente dos Estados Unidos, na reunião do G-20, admitiu a falência do “Consenso de Washington”, e aceitou a necessidade de novos mecanismos de regulação da economia mundial, o que revela drástica mudança no posicionamento norte-americano, que no passado era totalmente contrário a regulação internacional do sistema financeiro, e tendo como resultado a criação de um Conselho de Estabilização Financeira, integrado por todos os componentes do G-20 e se fala na criação de um novo órgão global de regulamentação financeira, bem como na necessidade de se regular os fundos HEGDE, os salários dos altos executivos e os paraísos fiscais, medidas também impensáveis antes da crise.

Da mesma forma, o Primeiro Ministro Britânico, Gordon Brow, segundo a agência de notícias AFP,

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se reunir novamente no fim deste ano em Londres para avaliar o desempenho do plano adotado hoje. O presidente francês Nicolas Sarkozy, que demonstrou anteriormente insatisfação com alguns pontos em discussão, ao final do encontro se declarou "feliz" com uma cúpula do G20 que superou suas expectativas (Copyright © 2009 AFP, In: http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5hlczkK3zC5nCKzy5G 6ipjKlnZIQ).

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3. CAPÍTULO II

NOVAS TECNOLOGIAS E AS DIRETRIZES TRABALHISTAS

DO NEOLIBERALISMO

3.1 – A questão tecnológica

Embora pudesse ser incluída, com alguma dose de aceitação, entre os chamados fatores que contribuíram para o surgimento e a ascensão do neoliberalismo, a questão do avanço tecnológico ocorrido, sobretudo, nas últimas três décadas do século XX e do início do século atual, merece tratamento separado, principalmente porque tem sido a partir das alterações tecnológicas que se tem implementado as mais profundas transformações nas relações de trabalho, o que para alguns chega a configurar uma verdadeira “terceira revolução industrial”, ficando difícil separá-la de forma mecânica do seu papel influenciador da formulação das diretrizes neoliberais.

Parece claro também, que os longos anos de guerra fria e de disputa entre o bloco socialista (dirigido pela URSS) e o capitalismo mundial (este sob o comando dos EUA), serviram de estímulo e fomentou uma elevação inusitada e totalmente imprevista do conhecimento científico.

A necessidade de aparelhar a máquina da guerra nuclear, da guerra espacial, da guerra comercial, da guerra territorial, da guerra cultural e de todas as demais guerras e guerrilhas legítimas ou fomentadas, fabricadas e alimentadas pelas superpotências mundiais, na disputa pela repartição do bolo, fazia brotar conhecimentos científicos e domínios de novos materiais a cada instante, com um processo cada vez mais veloz de aplicação prática dos conhecimentos gerados nas máquinas guerreiras, para tentar surpreender o inimigo.

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