UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO
VIVIANE BRIZANTE MEI
UNIVERSIDADE E EDUCAÇÃO SUPLETIVA EM
CAMPINAS
CAMPINAS
2015
VIVIANE BRIZANTE MEI
UNIVERSIDADE E EDUCAÇÃO SUPLETIVA EM
CAMPINAS
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Mestra em Educação, na área de concentração de Filosofia e História da Educação
Orientador: Prof. Dr. André Luiz Paulilo
ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO ALUNO VIVIANE BRIZANTE MEI E ORIENTADA PELO PROF. DR. ANDRÉ LUIZ PAULILO
CAMPINAS 2015
Ficha Catalográfica
Universidade Estadual de Campinas Biblioteca da Faculdade de Educação
Rosemary Passos - CRB 8/5751
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: University and adults education in Campinas Palavras-chave em inglês:
State Center for Supplementary Education Adult education
Teaching practice Public policy
Área de concentração: Filosofia e História da Educação Titulação: Mestra em Educação
Banca examinadora:
André Luiz Paulilo [Orientador] Débora Cristina Jeffrey
Ana Luiza Jesus da Costa
Data de defesa: 01-12-2015
Programa de Pós-Graduação: Educação Mei, Viviane Brizante, 1980-
M475u iUniversidade e educação supletiva em Campinas / Viviane Brizante Mei. –
Campinas, SP : [s.n.], 2015.
Me iOrientador: André Luiz Paulilo.
Me iDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade
de Educação.
Mei 1. Centro Estadual de Educação Supletiva. 2. Ensino supletivo. 3. Prática de ensino. 4. Políticas Públicas. I. Paulilo, André Luiz,1975-. II. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação. III. Título.
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
UNIVERSIDADE E EDUCAÇÃO SUPLETIVA EM
CAMPINAS
Autor : Viviane Brizante Mei
COMISSÃO JULGADORA: Prof. Dr. André Luiz Paulilo Prof.(a) Dr.(a) Débora Cristina Jeffrey Prof.(a) Dr.(a) Ana Luiza Jesus da Costa
A Ata da Defesa assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica do aluno.
As boas energias que me acompanharam e criaram condições para a realização dessa dissertação e, em especial, às seguintes pessoas:
Ao professor André Luiz Paulilo, pela orientação competente e enriquecedora para a realização desse trabalho, e, por acreditar em mim e me ajudar a trilhar um percurso de novos aprendizados.
As professoras Débora Cristina Jeffrey e Ana Luiza Jesus da Costa, pela disponibilidade de leitura e contribuições que enriqueceram o olhar sobre minha pesquisa.
Ao diretor do CEEJA Paulo Decourt José Fernando Petrini, pelo acesso ao acervo da documentação da escola.
A vice-diretora Maria Neusa Bueno de Camargo Cruz, pelos saberes que muito contribuiu para meu trabalho.
Aos funcionários do CEEJA Paulo Decourt, pelo apoio direto ou indireto, me auxiliando nessa dissertação.
Aos professores do CEEJA Paulo Decourt, em especial, ao professor Laurencie Salles Coelho pela ajuda e motivação, ao professor Alexandre de Oliveira Barbosa contribuindo com a revisão do texto e a professora Rosana Maudonnet pela revisão do texto em língua estrangeira.
A professora Eliane Aparecida Torres, pelo compartilhamento das suas experiências com a escola.
Ao meu marido David Fávaro Mei, pelo carinho, atenção, incentivo e pela compreensão nos momentos de inquietação.
Aos meus amigos, os presentes, os distantes e aos novos que fiz nesse percurso.
Aos meus pais, por serem exemplo de força e perseverança apesar das dificuldades.
A pesquisa objetivou – por meio da perspectiva histórica – compreender as ações operacionalizadas para o processo de estadualização da educação supletiva na Unicamp. O estudo abrangeu o período de 1987, ano de elaboração do documento de proposta de criação do curso supletivo no campus, até 2009, conforme publicação do decreto que alterou a denominação CEES para CEEJA. Para empreender a pesquisa, utilizou-se como fonte documentos produzidos no interior da escola como por exemplo os informativos de divulgação dos trabalhos realizados pela educação supletiva na Unicamp; os ofícios expedidos pela universidade e a ata de registro das reuniões realizadas com o corpo docente. A análise apoiou-se na literatura sobre a legislação que trata das diretrizes para a educação supletiva e nas normativas estaduais que nortearam a implantação da educação supletiva no campus. Outra perspectiva dessa análise, contribuiu para a compreensão de como o processo de estadualização da escola foi sentido e promovido pelos agentes envolvidos. O estudo histórico do processo de estadualização da educação supletiva na Unicamp, permitiu compreender, que o caminho percorrido pela instituição foi traçado pelas políticas de criação que foram operacionalizas pela Secretaria de Estado da Educação.
Palavras-chave: práticas escolares, políticas públicas para a educação supletiva, educação supletiva, centro estadual de educação supletiva.
The objective perspective is understanding process to adults governmental process to adults education at Unicamp. The study happened during the period from 1987 the elaboration year of the draft document of creation of the adults education at campus, until 2009, according to the publication of the decree that changed the name CEES to CEEJA. To develop the research, it was used as research source documents produced inside the school like glossy brochures of the work done by adults education at Unicamp, the official documents issued by the university and the record of the meetings accomplished with the teachers. The analyses relied on the literature about the legislation dealing with guidelines for adults education in federal level and the state norms that guided the implementation of adults education in campus. Another perspective of this analysis contributed for the comprehension of the governamental process of the school was noticed and promoted by the agents involved the historical study of the process of adults education at Unicamp allowed to understand the way taken by the institution by crating politics that were operationalized by the state department of education.
Keywords: school practices, public politics for adult education, adult education, state center of adult education.
Figura 1. Folheto de divulgação do NACES/UNICAMP(1987)...22
Figura 2. Planta do Ciclo Básico I (1988)...26
Figura 3. Planta ampliada do NACES/UNICAMP (1988)...27
Figura 4. Jornal Semanal (1989)...38
Figura 5. Jornal Semanal (1990)...40
Figura 6. Jornal Esparadrapo (1990)...42
Figura 7. Unicamp Notícias (1990)...45
Figura 8. Organograma (1988)...62
Grafico 1. Divisão dos professores por sexo (1989)...34
Grafico 2. Divisão dos professores por categoria (1989)...35
ASSUC... Associação dos Servidores da Universidade de Campinas DEDIC... Divisão de Educação Infantil e Complementar
CEES... Centro Estadual de Educação Supletiva
CEESA... Centro Estadual de Educação Supletiva de Americana. CENP... Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas CES... Centro de Educação Supletiva
CEE... Conselho Estadual de Educação
CIS... Centro Cultural de Inclusão e Integração Social da Unicamp MEC... Ministério da Educação
MCP... Movimento de Cultura Popular
MOBRAL... Movimento Brasileiro de Alfabetização
NACES... Núcleo Avançado do Centro Estadual de Educação Supletiva SINSAÚDE... Sindicato da Saúde de Campinas e Região
INTRODUÇÃO ... 11
CAPÍTULO 1 ... 19
O Núcleo Avançado do Centro Estadual de Educação Supletiva ... 19
1.1 Educação supletiva pensada e organizada na Unicamp ... 22
1.2 Dispositivos legais e divulgação da educação supletiva ... 33
CAPÍTULO 2 ... 49
Políticas de criação e organização institucional de Educação Supletiva na Universidade Estadual de Campinas...49
2.1 A criação do NACES/UNICAMP ... 50
2.2 Políticas de estadualização ... 57
CAPÍTULO 3 ... 71
A discussão da estadualização da educação supletiva na Unicamp ... 71
3.1 Forças de mudanças externas e as práticas internas ... 73
3.2 Processos de mudança: crenças e missões pessoais ... 85
FONTE ... 104
LEGISLAÇÕES E NORMAS ... 104
INTRODUÇÃO
“[...] o conteúdo da educação não está constituído somente pela “matéria” do ensino, por aquilo que se ensina, mas incorpora a totalidade das condições objetivas que concretamente pertencem ao ato educacional; assim, são parte do conteúdo da educação: o professor, o aluno, ambos com todas suas condições sociais e pessoais, as instalações da escola, os livros e materiais didáticos, as condições locais da escola”.
Pinto (2010)
Nas últimas décadas do século passado, as pesquisas em História da Educação Brasileira vêm-se reconfigurando a partir de novas análises. Parte da contribuição dessa perspectiva é resultado do trabalho de alguns dos pesquisadores da História da Educação como Marta Maria Chagas de Carvalho, Diana Gonçalves Vidal e Maria Lucia Spedo Hilsdorf cujas análises favoreceram um novo olhar e uma nova forma de interrogar as fontes disponíveis.
Conforme mostram as análises de Carvalho (1998), a convergência de interesses em torno de uma nova compreensão da escola, das práticas que a constituem e de seus agentes, reconfigura o campo das análises em História da Educação. Utilizar-se dessa compreensão requer do historiador pensar os dispositivos de organização, o cotidiano das práticas escolares e as perspectivas dos sujeitos envolvidos. Nesse sentido, o modelo de pesquisa em História da Educação Escolar passa a ser compreendido como construção histórica resultante da pluralidade desses diversos dispositivos.
Para Vidal (2005), o campo da Historiografia da Educação Brasileira vem interrogando a escola como instituição que produz uma cultura própria e original. O cotidiano institucional e a materialidade da escola têm emergido como novos problemas de pesquisa com o intuito de conferir sentido ao passado. Conduzir uma análise que assume a cultura escolar como objeto de investigação, é conferir atenção às ações dos indivíduos nas relações que estes estabelecem com os objetos culturais que circulam no interior das escolas. Esses objetos oferecem ao
pesquisador os indicativos sobre as relações pretéritas dos sujeitos com a materialidade escolar.
Hilsdorf (1999), indica que, quando se tem em mente construir uma interpretação abrangente e compreensiva da história de uma instituição escolar, as novas análises em História da Educação devem permitir aos historiadores tomar como fontes as séries documentais. Nesse sentido, alerta que essas séries documentais devem ser tratadas como fontes e objetos de pesquisa e não como ilustração. Quando convenientemente interrogadas, essas fontes são insubstituíveis na tentativa de reconstituição histórica das instituições escolares. Outra característica é que essa prática de pesquisa possibilita uma metodologia de trabalho baseada no diálogo contínuo entre texto e contexto.
De acordo com essas perspectivas de análise, novos interesses, novas interrogações e novos critérios de tratamento do arquivo têm permitido rehistoricizar a escola, particularizando os dispositivos constituintes dos modelos de escolarização (Carvalho, 1998, p. 32). Essas análises possibilitam uma investigação cujo objetivo é verificar como as práticas de uma instituição foram constituídas ao longo do tempo para a formação da sua identidade, e como essas mesmas práticas possibilitam historicizar o seu percurso.
Nesse sentido, essa pesquisa tem o objetivo de analisar algumas das práticas operacionalizadas durante o processo de estadualização da educação supletiva no campus da Universidade Estadual de Campinas, a partir da década de 1980 e indo até meados da última década do século passado. Tem o propósito de compreender as peculiaridades que constituiu sua identidade como educação supletiva e procura entender a trajetória da instituição identificada, incialmente, como NACES – Núcleo Avançado do Centro Estadual de Educação Supletiva.
Nos vinte e oito anos da história da escola, muitas peculiaridades, mudanças, rupturas e permanências podem ser observadas. Foram os movimentos de articulação política da Secretaria de Estado da Educação que formatou a trajetória dessa instituição, assim como, as legislações que regeram seu funcionamento. Como professora dessa instituição escolar, analiso essas mudanças ao longo desses anos como forma de buscar uma melhor compreensão da história.
Para que essa análise fosse viabilizada, foi preciso levar em consideração as relações construídas entre a Universidade, o NACES, o poder público e os sujeitos envolvidos durante a trajetória da instituição. Nesse sentido, a análise compreende o processo de estadualização da educação supletiva na Unicamp entre 1987, ano de fundação da escola, até o ano de 2009 quando ocorreu a desocupação do espaço físico do campus e, também, a publicação do decreto que alterou a denominação dos Centros Estaduais de Educação Supletiva, para Centros Estaduais de Educação de Jovens e Adultos.
Dessa forma, pretende-se analisar a história da educação supletiva na Unicamp a partir do corpus documental formado pelas atas das reuniões realizadas com o corpo docente, os ofícios expedidos pela Universidade Estadual de Campinas e encaminhados ao poder público para orientar sua organização, além da análise dos informativos produzidos para a divulgação do trabalho realizado na escola. Nessa pesquisa, utilizo também como fontes, a legislação produzida pelo Governo Federal (LDB 5692/71), o Parecer do Conselho Estadual de Educação – CEE e o decreto de criação da escola.
Procuro assim, analisar como se configurou a formação da educação supletiva no campus até chegar à sua configuração atual. Trata-se de uma instituição que passou por várias fases. Iniciou-se como NACES – Núcleo Avançado de Centro Estadual de Educação Supletiva (1987 a 1989), transformou-se em CEES – Centro Estadual de Educação Supletiva (1989 a 2009) até chegar à sua última fase, CEEJA – Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos (a partir de 2009).
Os documentos, encontrados no arquivo do CEEJA Paulo Decourt, são analisados no sentido de compreender as práticas dos sujeitos envolvidos, sejam eles individuais ou coletivos, na configuração do processo de estadualização dessa instituição escolar. Essa análise implica tratá-los como objeto cultural que, constitutivamente, guardam as marcas de sua produção, seus interesses e seus usos.
A história do CEEJA Paulo Decourt teve a peculiaridade de iniciar a implantação de cursos de suplência para os funcionários da Universidade Estadual
de Campinas a partir de uma amostragem1 realizada junto aos servidores da
universidade no ano de 1986. De acordo com Souza (1995, p. 16), a configuração inicial do Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos - CEEJA Paulo Decourt - pautou-se num programa do governo do estado que teve início com o Núcleo Avançado de Educação Supletiva - NACES - em meados da década de 1980. Na publicação deste parecer, as ideias defendidas para a autorização do curso supletivo foram apresentadas como tendo suas origens no trabalho já ocorrido dentro da Universidade Estadual de Campinas e justificados a partir dos trabalhos até então desenvolvidos.
Atualmente, o CEEJA Paulo Decourt, configura-se numa escola de Educação de Jovens e Adultos que pertence à Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, conforme Resolução SE 77. Essa normativa foi publicada no Diário Oficial do Estado em 2011 e teve como objetivo fundamentar o projeto de organização e funcionamento dos cursos de educação de jovens e adultos dos Centros Estaduais de Educação de Jovens e Adultos – CEEJAs - e informa algumas de suas características:
Artigo 2º - Os CEEJAs oferecerão atendimento individualizado a seus alunos, com frequência flexível, sendo organicamente estruturados com o objetivo de atender preferencialmente o aluno trabalhador [...] na modalidade presencial, referentes à(s) etapa(s) da educação básica que ainda não cursou.
Artigo 3º - Item III - o horário de funcionamento, de 2ª feira a 6ª feira, contemplando, no mínimo, 8 horas diárias, que deverão se estender aos três turnos: manhã, tarde e noite [...].
Artigo 4º - Os cursos referentes aos anos finais do Ensino Fundamental e ao Ensino Médio mantidos pelos CEEJAs terão, em cada nível de ensino, organização curricular abrangente de modo a contemplar todas as disciplinas que integram a Base Nacional Comum [...], cujos conteúdos deverão ser desenvolvidos com metodologias e estratégias de ensino
1Esta amostragem foi realizada pela educadora Eliane Aparecida Torres que, a partir de 1986, iniciou
suas atividades junto à Universidade Estadual de Campinas com a incumbência de implantar um curso de suplência para os funcionários. Realizou a pesquisa com a colaboração da ASSUC (Associação dos Servidores da Universidade de Campina), apontando o resultado para o projeto CES (Centro de Educação Supletiva) que se consolidou em meados de 1987 como NACES/UNICAMP (Núcleo Avançado do Centro Estadual de Educação Supletiva de Americana) (TORRES, 1997, p. 3).
adequadas à característica do curso de presença flexível, mediante atendimento individualizado do aluno e oferta de trabalhos coletivos ou aulas em grupo.
Artigo 5º - O CEEJA somente efetuará matrícula de candidato que comprove ter, no momento da matrícula, inicial ou para continuidade de estudos, em qualquer etapa do Ensino Fundamental ou do Médio, a idade mínima de 18 anos completos.
§ 1º - No ato da matrícula, o candidato deverá tomar ciência da necessidade de possuir: [...] o registro de, pelo menos, 1 comparecimento por mês, para desenvolvimento das atividades previstas para cada disciplina, objeto da matrícula.
Em todo o Estado de São Paulo configurou-se a formação de 31 escolas, todas com as características do CEEJA. Sua concepção de trabalho tem como princípio o atendimento de educação de jovens e adultos nos segmentos de ensino fundamental e médio, por meio do ensino com presença flexível onde o aluno pode iniciar ou concluir seu curso a qualquer momento. Nesse sentido, a organização curricular deste modelo de escola prevê avanços sequenciados de módulos de estudos. Os procedimentos didáticos dos educadores têm como princípio orientações de estudos para que os alunos possam organizar seus planos de estudo. Assim, quando necessário, os alunos podem recorrer aos educadores para tirar dúvidas e realizar as avaliações quando se sentirem preparados para isso. Nessa concepção de ensino, o aluno vai percorrendo o currículo escolar por eliminação das disciplinas.
Em certo sentido, a história do CEEJA Paulo Decourt, articula-se às transformações políticas advindas da reabertura democrática, aos processos de expansão e precarização dos serviços escolares e às contribuições dos movimentos populares na reivindicação por escolarização. O modo inicial de como ocorreu a implantação desta escola, partiu da reivindicação dos funcionários da Universidade Estadual de Campinas na conjuntura que se seguiu ao fim da ditadura no país. Ao longo de sua incorporação à Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, entre 1987 e 1989, respondeu às orientações de normativas em relação à educação da população adulta.
A análise do corpus documental relacionada ao processo de estadualização da escola, foi possível, porque tive condições de reunir uma documentação encontrada no arquivo da escola. Outros documentos se perderam durante as duas mudanças físicas que a instituição enfrentou, a primeira, que foi a saída da Unicamp para o CIS – Centro Cultural de Inclusão e Integração Social da Unicamp, prédio cedido pela própria universidade de forma provisória até sua instalação definitiva em prédio cedido pelo Governo do Estado de São Paulo, na Rua Amélia Bueno de Carvalho s/n Jardim Santana. Como professora da instituição, tive acesso ao acervo da escola e pude reunir a documentação produzida no seu interior e os documentos de ordem normativa.
A partir da análise dos documentos referentes as ações de implementação do projeto da educação supletiva na Unicamp, nos quais encontram-se os informativos, os ofícios expedidos pela escola, o decreto de criação da escola, a planta do prédio cujo espaço estava organizado a instituição, é possível verificar um primeiro movimento do processo de estadualização da escola. Focando na organização da documentação referente a ordem dos acontecimentos como, o Parecer do CEE sobre a criação do curso supletivo na Unicamp, o Projeto de transformação do NACES em CEES e a passagem do supletivo para EJA, permitiu identificar no âmbito institucional, a leitura das ações normativas operacionalizadas de cima para baixo. Por outro lado, a análise dos registros das atas de reuniões que envolveram o posicionamento dos agentes de transformação do processo histórico da instituição, permitiu entender como essas mudanças aconteceram na prática.
Nesse sentido, a relação construída entre a escola, a universidade, as normas implementadas pela Secretaria de Estado da Educação e a atuação dos agentes envolvidos, configurou-se na necessidade de uma análise histórica da instituição. Compreender o contexto dessa relação, a partir dos conflitos que se configurou entre as vertentes (normativas, agentes envolvidos, espaço físico ocupado pela instituição) permitiu entender o conjunto de práticas no interior da escola. Por fim, essa análise, identificou o modo como os agentes envolvidos atuaram para a materialização do processo de estadualização da educação supletiva na Unicamp.
No primeiro capítulo, inicio a pesquisa, a partir da análise das ações implementadas para a configuração da educação supletiva na Unicamp. Nesse momento, utilizo documentos que permitem verificar as primeiras ações com o objetivo de compreender o movimento inicial da organização da escola, pois tratam das suas orientações e regulamentação. A série documental utilizada para a pesquisa é composta de documentos como informativos que tratam da divulgação dos trabalhos realizados pela escola, planta utilizada para sua organização física dentro do campus e ofícios expedidos pela escola e pela universidade. Estes documentos fazem parte dos registros das mudanças, adaptações e, também, das concepções acerca da educação supletiva que subsidiaram a configuração do CEEJA Paulo Decourt. É a análise dessa documentação que inicialmente vai apresentar quais são as principais características e as práticas envolvidas na organização da educação supletiva na Universidade.
No segundo capítulo, busco compreender os percursos e caminhos da história do CEEJA Paulo Decourt durante o processo de estadualização da educação supletiva. Nesse sentido, organizo uma série documental composta pelo parecer de criação da escola, pelo projeto de transformação do NACES/UNICAMP em CEES/UNICAMP com o objetivo de verificar, neste último, a mudança dos princípios norteadores da formação da escola implícitos na passagem da ideia de educação supletiva para a educação de jovens e adultos. A organização dessas fontes oficiais, irá apresentar a ordem de acontecimentos e ações implementadas pela Secretaria de Estado da Educação para o processo de estadualização da escola.
No último capítulo, abordo a estadualização da educação supletiva na Unicamp durante o percurso da história da instituição a partir dos vestígios das opiniões dos agentes envolvidos. Analiso as atas das reuniões, realizadas entre equipe gestora e corpo docente, para entender o modo como os professores atuaram e perceberam os processos de mudanças descritos nos capítulos anteriores. A ênfase da historiografia dos processos de formação das práticas requer da pesquisa histórica de uma instituição escolar, além da interrogação das fontes disponíveis, considerar a perspectiva dos sujeitos envolvidos, de suas práticas, das práticas de outros agentes, de instituições e dos processos que a constituem
(CARVALHO, 1998, p. 33). Nesse sentido, o objetivo dessa parte da pesquisa é compreender como esses profissionais entenderam a estrutura normativa e como essas orientações legais formataram o processo de formação e configuração da escola CEEJA Paulo Decourt.
CAPÍTULO 1
O Núcleo Avançado do Centro Estadual de Educação Supletiva
“No que concerne a um estudo sobre as práticas escolares, o retorno à materialidade da escola envolve considerar os documentos para além do papel. Como já afirmou Roger Chartier (1990) não há leitura sem o suporte que se dá a ler. Da mesma forma, não há prática escolar desligada das condições materiais de sua efetivação”.
Vidal (2005)
O objetivo deste capítulo é compreender o processo de configuração e institucionalização do NACES - Núcleo Avançado do Centro Estadual de Educação Supletiva - que iniciou a implementação da educação supletiva dentro do campus da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, no ano de 1987. Trata-se de uma iniciativa que teve origem a partir do trabalho pedagógico que já ocorria na universidade, e que, atendendo ao pedido de funcionários da Unicamp viabilizou que alunos de graduação ministrassem aulas de alguns componentes curriculares com a finalidade de preparar candidatos a exames supletivos.
Inicialmente, o NACES/UNICAMP foi vinculado ao CEESA – Centro Estadual de Educação Supletiva de Americana. O embasamento legal para a instalação do NACES/UNICAMP se fundamentou no parágrafo do artigo do Regimento Escolar que diz “Poderão ser instalados Núcleos Avançados do Centro Estadual Supletiva de Americana, os quais estarão vinculados técnica, pedagógica e administrativamente ao CEESA, desde que autorizados previamente pelo Conselho Estadual de Educação”. Nesse sentido, o papel do CEESA seria favorecer a implementação do projeto de educação supletiva ao trabalho pedagógico que já ocorria na Unicamp. Sobretudo, a proximidade da cidade de Americana ao município de Campinas, também viabilizaria a locomoção da equipe do NACES/UNICAMP para o trabalho de formação a ser realizado no CEESA.
Os CEES – Centros Estaduais de Educação Supletiva do Estado de São Paulo - começaram a ser organizados em meados de 1978. De acordo com o depoimento de João Cardoso Palma Filho, um dos organizadores e autor do material didático direcionado a essas escolas, o MEC entrou em contato com a Secretaria de Estado da Educação para a criação de 18 CEES. Dos 18 CEES propostos pelo MEC, apenas um foi criado: o CEES Clara Matelli, localizado na capital. Em 1985, o professor Palma foi convidado para o cargo de coordenador da CENP – Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas - e propôs a abertura de 9 CEES, que até 1994, eram 18 (Souza, 1995, p. 13).
O processo de criação desses CEES passou por algumas questões políticas que envolveu o setor privado o qual argumentava serem os CEES herança do governo militar, possuírem baixa qualidade de ensino e falta de socialização entre os alunos, pois era uma educação que pautava-se no ensino individualizado. Segundo João Cardoso Palma Filho, que na época também fazia parte do Conselho Estadual de Educação, o setor privado temia que, ao abrir escolas estaduais, os supletivos particulares poderiam perder sua clientela (Souza, 1995, p. 14).
Esse discurso em relação aos CEES não impediu a criação de outras escolas. Hoje, a Secretaria Estadual de Educação mantém um total de 31 CEEJAS - Centros Estaduais de Educação de Jovens e Adultos. Essas escolas atendem os alunos que não concluíram o Ensino Fundamental e o Ensino Médio e podem se inscrever a qualquer momento do ano letivo. Esse modelo de ensino oferece presença flexível no qual o aluno é orientado a elaborar um plano de estudos, devendo comparecer ao menos uma vez por mês e, sempre que necessário, pode recorrer ao CEEJA para a realização das avaliações e tirar dúvidas com os professores que ficam à sua disposição. O estudante deve ter, no mínimo, 18 anos para efetuar sua matrícula no Ensino Fundamental e no Ensino Médio.
A análise da criação do NACES/UNICAMP permite verificar que a organização da educação supletiva, dentro do campus, respeitou alguns dispositivos da Lei 5692/71 e foi regulado de acordo com o acompanhamento do CEE – Conselho Estadual de Educação a partir da entrega de relatórios anuais.
A Lei 5692/71 estabelecia dois tipos de ensino, o regular e o supletivo. Em relação ao ensino supletivo e a criação do NACES/UNICAMP o respeito a Lei
5692/71 trazia alguns esclarecimentos (Brasil, Presidência da República, 1971, p. 2 a 3):
1. O ensino supletivo terá por finalidade: a) suprir a escolarização regular para os adolescentes e adultos que não tenham seguido ou concluído na idade própria; b) proporcionar, mediante repetida volta à escola, estudos de aperfeiçoamento ou atualização para os que tenham seguido o ensino regular no todo ou em parte (Art. 24);
2. Os cursos supletivos terão estrutura, duração e regime escolar que se ajustem as suas finalidades próprias e ao tipo especial de aluno a que se destinam (Art. 25, Parágrafo 1º).
A criação de escolas de educação supletiva como oportunidade para a conclusão de estudos, quer via curso, quer via exames, foi viabilizado a partir da publicação da Lei 5692/71. Esses cursos seriam organizados de acordo com as normas baixadas pelo Conselho Estadual de Educação e teriam como objetivo dar oportunidade de suprir a escolarização de adolescentes e adultos que não tinham seguido e concluído seus estudos na idade própria. É nessa perspectiva que as iniciativas para a criação da educação supletiva no campus deu origem ao NACES/UNICAMP – Núcleo Avançado do Centro Estadual de Educação Supletiva.
Neste capítulo, será analisada especificamente a criação do NACES/UNICAMP, sua estrutura organizacional e as transformações pelas quais passou a partir dos registros encontrados no arquivo do CEEJA Paulo Decourt. A análise desses documentos viabilizou um entendimento acerca da criação da instituição, em 1987. Foi possível ainda o acesso aos ofícios produzidos no interior do campus antes mesmo que a escola fosse inaugurada, o que levou ao entendimento de como se originou o projeto de criação do NACES/UNICAMP e a análise das experiências pelas quais esse projeto passou.
Este capítulo procura entender como se configurou a estrutura organizacional e administrativa do NACES/UNICAMP, seu funcionamento, as
propostas de organização do espaço escolar e a integração escola e universidade no desenvolvimento dos seus trabalhos pedagógicos.
A análise permitiu observar alguns aspectos da educação supletiva do NACES/UNICAMP, que permaneceram e se transformaram ao longo das suas diferentes fases. A análise do conjunto desses documentos permitiu o entendimento dos diferentes momentos em relação à sua organização administrativa. A educação supletiva na UNICAMP iniciou-se com o NACES -Núcleo Avançado de Centro Estadual de Educação Supletiva - funcionando entre 1987 e 1989. A partir de 1989, o NACES/UNICAMP, por meio de um projeto de transformação da sua nomenclatura, passou a funcionar como CEES - Centro Estadual de Educação Supletiva. O ano de 2009 marca a passagem para sua última fase, quando sua nomenclatura passa a ser CEEJA - Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos.
1.1 Educação supletiva pensada e organizada na Unicamp
O NACES – Núcleo Avançado do Centro Estadual de Educação Supletiva - foi criado em 1987, no campus da Unicamp, para atender os funcionários da universidade que ainda não tinham concluído o 1º grau. O seu método de ensino pautava-se numa proposta de estudo individualizado com orientação de estudos, individual ou em grupo, e com a aplicação de provas. Sua dinâmica de funcionamento permitia que o aluno iniciasse e concluísse o curso a qualquer momento, e o material didático utilizado pelos professores e alunos foi fornecido pela Secretaria de Educação do Estado.
As características da educação supletiva iniciada na Unicamp, podem ser encontradas no Parecer do CFE nº 699/72 que apresenta a introdução de normas para o ensino supletivo após a implantação da Lei 5692/71. Esse Parecer inclui a doutrina do ensino supletivo e detalha como um de seus objetivos: “Supletividade é, no fundo, ajustabilidade, flexibilidade, abertura que, de modo algum, excluí a escola regular, antes a vitaliza”. Nesse sentido, o Parecer assentaria as políticas a serem
implementadas para o processo de criação do NACES/UNICAMP que sustentaria a possibilidade de aplicar as características da ajustabilidade e flexibilidade da educação supletiva na Unicamp como uma alternativa ao ensino supletivo regular.
Conforme documentação disponível no arquivo do CEEJA Paulo Decourt, o primeiro registro foi apresentado a partir da análise do Ofício nº 006/87. Este documento foi encaminhado pela assistente técnica de direção, Eliane Aparecida Torres, encarregada da organização e criação da escola ao Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da Unicamp, Professor Doutor José Carlos Valladão de Mattos. No ano de 1987, Eliane Aparecida Torres, era funcionária da Unicamp e encontrava-se afastada, sem remuneração, do cargo de professora da Secretaria de Estado da Educação.
Neste documento, foi apresentado o resultado do número de inscritos da parte dos funcionários do Campus Universitário: 1194 funcionários interessados no oferecimento de 300 vagas do curso de 1º Grau no NACES – Núcleo Avançado de Centro Estadual de Educação Supletiva. O NACES pertencia ao setor de Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários da Unicamp. Segundo o documento, o levantamento foi realizado no período de 19 a 30 de outubro de 1987, e o mesmo seguiu, com uma solicitação de análise da viabilidade de atendimento a essa demanda para o ano seguinte, o ano de 1988.
No entanto, o apoio e o interesse da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP no projeto de criação da escola esteve presente antes mesmo que o projeto NACES viesse a oficializar-se como uma instituição vinculada à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Para isso, no ano de 1987, foram produzidos pela Assessoria de Eventos da UNICAMP folhetos de divulgação do curso supletivo.
Figura 1. Folheto de divulgação do NACES/UNICAMP (1987). Fonte: Arquivo do CEEJA Paulo Decourt.
O folheto de divulgação do período das inscrições apresentava a educação supletiva como uma oportunidade de ensino de 1º grau e ofertava o número de 300 vagas. Nesse sentido, percebeu-se o apoio da Universidade Estadual de Campinas ao projeto de criação de uma escola voltada ao atendimento da demanda de funcionários da universidade que necessitavam concluir seus estudos. Outra característica da escola era a proposta do horário de aula: duas vezes na semana, em horário noturno, o que possibilitaria a frequência dos funcionários em diferentes turnos.
No Relatório Supletivo - Unicamp publicado ainda em 1987, verificou-se que a assistente técnica de direção, Eliane Aparecida Torres, afirmava haver 187 candidatos frequentando o curso de suplência2. Isso nos possibilita observar que,
2Referente a uma página avulsa intitulada “Relatório Supletivo – Unicamp/87”, assinada e datada por Eliane
Aparecida Torres e que apresenta, em um item, o oferecimento de 300 vagas, o número de 1194 inscrições e a realização de 316 inscrições (sendo que estas 16 inscrições se referem àqueles que faltavam concluir uma ou
mesmo a escola ainda não tendo firmado convênio com a Secretaria da Educação do Estado, já havia uma organização para a educação supletiva no campus, com atendimento aos funcionários-alunos antes mesmo que a escola se configurasse enquanto uma instituição vinculada à Secretaria de Estado da Educação.
Dois trabalhos de dissertação, apesar de não tratarem especificamente da história dessa instituição, apresentam algumas justificativas para a criação do NACES/UNICAMP. Através da leitura dos mesmos, é possível perceber duas perspectivas em relação ao discurso de criação dessa instituição de educação supletiva.
O primeiro trabalho é da Suzani Cassiani de Souza. Conforme o livro de ponto3 do arquivo da escola, ela foi professora no ano de 1987 do
NACES/UNICAMP. A dissertação de mestrado da referente autora foi defendida no ano de 1995 junto à Universidade Estadual de Campinas, e intitulada “Supletivo individualizado: possibilidades, equívocos e limites no ensino de ciências”. Em um capítulo, a autora justifica a origem do NACES/UNICAMP a partir da reivindicação dos funcionários da Unicamp, efetivada através de um abaixo-assinado com 500 assinaturas, entregue à própria reitoria pela associação dos servidores da Universidade (Souza, 1995, p. 15).
Outro trabalho que informa sobre a origem do NACES/UNICAMP é a dissertação de mestrado de Eliane Aparecida Torres, na época também responsável pela criação do NACES/UNICAMP, apresentada à Universidade Estadual de Campinas no ano de 1997 e intitulada “Uma abordagem sobre o ensino supletivo: o Centro Estadual de Educação Supletiva no Estado de São Paulo”. Neste trabalho, a autora justifica sua pesquisa a partir da sua experiência, que iniciou-se no ano de 1986 junto à Universidade Estadual de Campinas, onde teve a incumbência de implantar um curso de suplência para os funcionários. Desse modo, a autora afirma ter tido contato com o ensino supletivo no início de 1984, quando trabalhou na assessoria técnica do Ensino Supletivo na Divisão Regional de Ensino de Campinas. Em relação à criação do NACES, relata que realizou uma pesquisa com a
duas disciplinas do 1º grau). Indica que estavam frequentando o curso 187 candidatos e que os candidatos ausentes teriam até o dia 12/02/1988 para terem suas matrículas canceladas.
3Referente ao controle de frequência dos professores do NACES/UNICAMP, no período de outubro de 1987 a
colaboração da ASSUC (Associação dos Servidores da Universidade de Campinas), apontando o resultado para a criação do projeto CES – Centro de Educação Supletiva -, e que a configuração da instituição escolar se consolidou, em meados de 1987, como NACES – Núcleo Avançado do Centro Estadual de Educação Supletiva de Americana (Torres, 1997, p. 3).
A partir dessas duas perspectivas de análise, observa-se que a primeira apresenta um caráter mais popular, pontuando como objetivo da criação da escola a iniciativa dos próprios funcionários da Unicamp para atender às necessidades de continuidade de seus estudos. Na segunda análise, percebe-se o papel da universidade na intenção de realização da pesquisa, da criação da escola e, consequentemente, na indicação da necessidade de implantação da educação supletiva a partir do convite realizado à Eliane Aparecida Torres para viabilizar esse trabalho.
Quando o ofício nº 006/87 explicita o número de 1194 funcionários interessados em cursar o ensino supletivo e que há capacidade para apenas 300 estudantes, observa-se também que a universidade procura realizar as adequações físicas necessárias para o atendimento à demanda de alunos para o próximo período letivo, o ano de 1988.
A operacionalização do espaço para o funcionamento e as possibilidades da educação supletiva do NACES/UNICAMP, a ser inaugurado no ano de 1988, não previa a elaboração de um projeto arquitetônico específico para a unidade escolar dentro do campus, mas a disponibilidade de um espaço localizado no 1º andar do Ciclo Básico I. Com formato circular e interligado por uma passarela, esse espaço é organizado por uma praça central cujo perímetro estão os edifícios dos institutos e faculdades. No seu prédio localizam-se anfiteatros, salas de aula e laboratórios. Verifica-se que a implementação da educação supletiva no campus, foi pensada a partir do aproveitamento dos espaços disponibilizados pela universidade. Ao longo do tempo, em virtude do seu modelo de ensino, os espaços sofreram adequações e transformações necessárias para o atendimento aos alunos.
As adaptações necessárias do espaço físico proporcionaram a execução do projeto de educação supletiva dentro do campus. A proposta de criação do NACES/UNICAMP trouxe consigo uma dimensão espacial e organizacional do
atendimento à educação supletiva, incluindo a possiblidade de um espaço organizado para o funcionamento da proposta de atendimento individualizado ao adulto. Essa proposta envolveu a organização física da escola e algumas orientações administrativas necessárias à formalização da educação supletiva do NACES/UNICAMP.
Segundo Frago e Escolano (2001, p. 26), o espaço escolar tem de ser analisado como um construto cultural que reflete para além de sua materialidade. Em acordo com essa perspectiva, apesar do NACES/UNICAMP não contar com um projeto arquitetônico específico, a proposta de criação do ensino supletivo fez com que a universidade adaptasse espaços para operacionalizar a educação supletiva no campus. Desse modo, a proposta de criação do NACES/UNICAMP indicou a necessidade de uma dimensão espacial própria ao atendimento da educação supletiva, incluindo a possiblidade de um espaço organizado para o funcionamento da proposta de atendimento individualizado ao aluno.
Devido a condições impróprias de funcionamento da escola no barracão do Instituto de Física, em fevereiro de 1988, o NACES passou a funcionar no 1º andar do Ciclo Básico I da universidade. O Ciclo Básico I é considerado o principal ponto de referência do campus, a chamada Praça do Básico, além da finalidade acadêmica, é o ponto de reunião de alunos, professores e funcionários em diferentes eventos de cunho cultural e político. Esse novo espaço educativo para o NACES só foi possível devido à desocupação de estudantes de graduação que reivindicavam moradia no prédio que seria destinado à escola (Souza, 1995, p. 16).
Dessa forma, a proposta de organização dos espaços e das atividades a serem oferecidas pelo NACES/UNICAMP se materializou a partir da viabilização do espaço físico e do apoio técnico da universidade. Como a proposta de criação do NACES/UNICAMP não incluía a construção específica de um prédio dentro do campus, a universidade viabilizou a organização de um espaço e essa organização previa a utilização dos espaços das salas de aulas do Ciclo Básico I.
Figura 2. Planta do Ciclo Básico I (1988).
Figura 3. Plantaampliada do NACES/UNICAMP (1988). Fonte: CPO - Coordenadoria de Projetos e Obras – Unicamp
A acomodação do NACES no prédio do ciclo básico I da Unicamp previa uma racionalização do espaço; sua localização delimitava e classificava sua clientela. Assim, sendo a escola localizada dentro do campus, o espaço ficava inicialmente restrito à frequência dos funcionários da UNICAMP. No aspecto físico, percebe-se a disposição do prédio organizado a partir da divisão das salas de aulas e outras dependências. Têm-se o espaço de entrada da escola distribuído entre a secretaria e a direção. Isso permite verificar a possibilidade de visibilidade da direção e dos funcionários para o controle dos que circulavam no interior e no exterior da instituição. Nesse sentido, observa-se que essa organização espacial tomou como base um espaço escolar dentro do local de trabalho, já que incialmente quem frequentava a escola eram os funcionários da Unicamp.
O espaço arquitetônico da escola foi dividido em salas de aulas que, por sua vez, estavam organizadas como uma espécie de cabines, dispostas em um único corredor onde cada sala era ocupada pelas disciplinas do currículo (Inglês, Ciências, História, Geografia, Matemática, Português, Educação Artística). Observa-se ainda que a organização física contava com espaços para biblioteca, laboratório, sala de multimeios, cozinha, sanitários e uma sala de avaliação. Nessa perspectiva, percebe-se uma aproximação com os estudos de Escolano (2001, p.27), quando este autor afirma que o espaço escolar é uma espacialização disciplinar que considera como parte da arquitetura escolar a separação das salas de aulas, pois elas têm a função de organizar a circulação e especificar os atributos de aprendizagem.
Sua estrutura física contava, também, com a divisão dos espaços em três salas de aulas para o atendimento aos alunos durante as fases 01, 02 e 03. A fase 01 localizava-se numa sala onde os alunos realizavam atividades de alfabetização e os conteúdos referentes à 1ª série do ensino fundamental. A fase 02 era o espaço físico onde os alunos cursariam a 2ª e a 3ª série. Nessa sala, dois professores, um de cada disciplina, realizavam o trabalho de alfabetização Matemática e de Língua Portuguesa. A terceira fase ocupava um espaço onde eram desenvolvidos os conteúdos de Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia e Ciências referentes à 4ª série do ensino fundamental. A seleção para a indicação de qual
série o aluno frequentaria era realizada a partir de um teste de sondagem nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática no ato da matrícula.
Sobre o momento em que se realizava a organização física da instituição, foram encontrados dois ofícios no arquivo da escola. O primeiro é o Ofício nº 61/88, elaborado pela responsável pela criação da escola, Eliane Aparecida Torres, e endereçado ao diretor do Centro de Comunicação da UNICAMP, Marcelo Costa Souza. Esse documento diz respeito à solicitação da instalação de uma televisão em cores, recebida da Secretaria de Estado da Educação, bem como a adaptação de aparelho de vídeocassete para a reprodução de vídeos. O segundo documento é o Ofício nº 62/88, onde a responsável solicita ao Diretor de Serviços Gerais, André Turcinelli, a instalação de um relógio de parede e um quadro de avisos também recebidos da Secretaria de Estado da Educação.
Esses documentos produzidos durante o processo de organização do espaço físico deixaram indícios de que a continuidade das práticas da educação supletiva apontava a necessidade da organização do uso dos espaços previstos para determinadas práticas pedagógicas e a separação do espaço escolar em relação ao espaço de trabalho, já que a instituição atendia incialmente os funcionários do campus.
Outra problemática em relação à organização e uso dos espaços se apresentou com as propostas de utilização dos ambientes do campus a partir do fornecimento de equipamentos tecnológicos e pedagógicos distribuídos pela Secretaria de Estado da Educação. Este fato possibilitou a verificação da implementação de um projeto que não somente era de interesse da universidade, mas também do interesse das políticas de implementação da educação supletiva por parte da secretaria de estado.
A articulação entre as possibilidades do espaço físico e a implementação desse projeto dentro do campus foram se constituindo a partir da elaboração dos documentos norteadores das práticas pedagógicas e, também, em relação à estruturação administrativa da escola. Nesse sentido, observa-se que a instituição procurou ampliar seus espaços a partir da utilização dos espaços da universidade para a realização de suas atividades pedagógicas. É nessa perspectiva que no ofício nº 016/88 a professora Suzani Cassiani de Souza, solicita ao professor Adão José
Cardoso, do Instituto de Biologia, um período de uma hora aula semanal para a utilização de um dos laboratórios de graduação do Instituto de Biologia. Percebe-se que os espaços oferecidos pela Universidade foram sendo apropriados de maneira a colaborar para a organização das práticas pedagógicas do projeto de formação do NACES.
O processo de institucionalização da escola estava previsto na elaboração de ofícios que propunham o início de sua organização administrativa. O primeiro documento encontrado no arquivo do CEEJA Paulo Decourt foi o ofício nº 27/88 encaminhado ao Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários, o Professor Doutor José Carlos Valladão de Mattos, o qual solicitava a revisão da situação funcional do responsável pela secretaria geral do NACES/UNICAMP desde setembro de 1987. O documento apresentava as funções executadas pelo funcionário Valdir Cassiano do Amaral como a responsabilidade pelo setor de expediente e arquivos, almoxarifado, multimeios e atividades complementares e apresentando outras funções como a gestão de funcionários, sendo eles: um escriturário, um auxiliar de recepção e um auxiliar de almoxarife.
Outro documento encontrado foi o ofício nº 64/88. Este documento teve o objetivo de informar à Pró-Reitora de Extensão e Assuntos Comunitários a nova equipe de professores especialistas que estava sendo selecionada para o atendimento aos alunos no período da manhã para o ano de 1989. A seleção dos professores foi realizada a partir de um processo seletivo, apresentando três fases: a primeira (inscrição e redação), a segunda (entrevista) e a terceira (a realização de estágio em um CES – Centro de Educação Supletiva) que, segundo o documento, deveria atender à determinação da Secretaria de Estado da Educação.
O terceiro ofício foi o de número 78/88. Ele foi encaminhado à senhora Edith Bonfim Checcia - Diretora de Serviços da Tomada de Contas -, afirmando já ter sido firmado um convênio entre a universidade e a Secretaria de Estado da Educação. O documento também solicitava a assinatura do Diário Oficial do Estado, bem como a entrega do mesmo na sede da escola.
Acerca do cumprimento dos protocolos de criação do NACES/UNICAMP foram encontrados, no arquivo da escola CEEJA Paulo Decourt, dois documentos para essa operacionalização. O primeiro deles é o ofício nº 015/88 onde a assistente
técnica de direção e responsável pela criação da escola, Eliane Aparecida Torres, solicita para a instalação do NACES/UNICAMP, a ser localizada no prédio do Ciclo Básico no dia 24 de março de 1988, equipamentos técnicos como microfone, som, registro em vídeo da cerimônia e um responsável pela operação de som. Outro exemplo em relação à inauguração do NACES/UNICAMP é o ofício nº 075/88, encaminhado ao professor Hermogenes de Freitas Leitão Filho, coordenador do parque ecológico da Unicamp, onde a requerente solicita o empréstimo de vasos para a ornamentação do ambiente.
Nesse sentido, todos esses documentos nos deixam indícios da necessidade de afirmação da escola enquanto instituição escolar. Sobretudo, esses documentos indicam o desafio e o que era a efetivação do NACES/UNICAMP, enquanto uma instituição de atendimento à educação supletiva.
Essa parte da pesquisa tratou das características iniciais que permearam a organização da educação supletiva na Unicamp, assim como os percursos para sua materialidade, sua organização espacial e a formalização da equipe de docentes e funcionários. Dessa forma, essas características culminaram na oficialização da educação supletiva no campus.
A próxima seção trata dos aspectos estruturais e organizacionais do NACES/UNICAMP, ocorridas entre os anos de 1989 e 1990. Apesar de parte desse período (1989 a 1990) apresentar a escola como NACES/UNICAMP e outra parte utilizar a nomenclatura CEES/UNICAMP, essa análise se faz importante, uma vez que a operacionalização do conjunto dessas ações constitui o processo de configuração dos primeiros anos da instituição. Enfim, o objetivo principal dessa seção é tratar de algumas das ações da escola para a continuidade de sua configuração e institucionalização.
1.2 Dispositivos legais e divulgação da educação supletiva
As definições para a configuração do NACES/UNICAMP podem ser encontradas em diversas fontes presentes no arquivo do CEEJA Paulo Decourt,
composta por documentos expedidos pela escola, decretos publicados em diário oficial, folhetos e informativos de circulação no campus e em locais externos. A partir da análise desses documentos, é possível perceber que a documentação produzida está carregada de informações que indicam a presença de interesses tanto da Secretaria de Estado da Educação, quanto da universidade na implementação da educação supletiva.
Verifica-se que a Secretaria de Estado da Educação, teve interesse na implementação do NACES, devido a possibilidade de ampliação do número de escolas com o formato dos CEES – Centros Estaduais de Educação Supletiva para sua rede de ensino. Por outro lado, a Universidade Estadual de Campinas, investiu na implementação do projeto de educação supletiva a partir do oferecimento de apoio tecnológico e acomodação com o intuito de formar seus funcionários, nos cursos de 1º e 2º graus.
O primeiro e o segundo documentos são o decreto de criação da escola, o de nº 30.558, de 1989, e o ofício nº 01/89. O ofício nº 01/89 transcreveu a solicitação de apostilamento dos professores no qual a justificativa utilizada foi a de que o Centro Estadual de Educação Supletiva – CEES/UNICAMP - havia sido criado a partir da publicação do decreto nº 30.558, de 1989, e que o mesmo localizava-se na Unicamp. Esse decreto foi publicado pelo Governador do Estado de São Paulo, Orestes Quércia, e considerou legalmente válido o convênio celebrado entre a Secretaria da Educação e a Universidade Estadual de Campinas, em 1987.
O decreto de criação da escola indica o interesse da Secretaria de Estado da Educação em formalizar a educação supletiva na Unicamp. Sua publicação respeitou alguns dos princípios da Lei 5692/71 quando indicou a necessidade de viabilizar a ampliação, a produção e a atualização de conhecimentos, a continuidade de estudos, o suprimento da educação regular de adolescentes e adultos e a orientação dos discentes acerca de suas oportunidades profissionais.
O ofício nº 01/89 foi um documento da Secretaria de Estado da Educação que confirmou a transcrição de alguns de seus interesses em relação à implantação da educação supletiva na Unicamp. A responsável pela criação da escola, Eliane Aparecida Torres, solicita à Divisão Regional de Ensino de Campinas o apostilamento dos professores que ficariam afastados de sua sede de frequência
para atuarem no Centro Estadual de Educação Supletiva de Americana para, dessa forma, prestarem serviços no NACES/UNICAMP até dezembro de 1989. Nesse caso, todos os profissionais foram convidados para comporem o corpo docente do NACES/UNICAMP. Após o afastamento, os mesmos passariam por uma formação junto ao Centro Estadual de Educação Supletiva de Americana.
De acordo com o ofício nº 01/89, a partir de outubro de 1989 esses professores ficariam afastados junto ao CEES/UNICAMP, a partir da data de publicação em diário oficial do decreto que fixou a utilização da nomenclatura CEES/UNICAMP. O processo de transformação das nomenclaturas de NACES/UNICAMP para CEES/UNICAMP será tratado no próximo capítulo, a partir da análise do documento intitulado “Projeto de solicitação de transformação do NACES/UNICAMP em CEES/UNICAMP”.
Em continuidade à análise da configuração do quadro de docentes, o ofício nº 01/89 aponta algumas características em relação ao gênero, ao campo de atuação e às Delegacias de Ensino as quais esses professores estavam vinculados. Nessa perspectiva, o mapeamento dessas informações se mostra importante no sentido de entender como se processou a organização do corpo docente e como o mesmo foi pensado pela responsável pela criação da escola.
A primeira característica analisada diz respeito ao afastamento dos professores dos gêneros masculino e feminino para atuação no CEES/UNICAMP. Em relação à essa divisão, a maioria dos profissionais afastados é composta por mulheres, que representam 89% do total de professores, totalizando 33 mulheres. Os demais 11% são do sexo masculino, totalizando 04 homens.
O próximo gráfico trata da seleção de professores conforme o campo de atuação, sendo eles P I e P III. A categoria P I é composta por professores alfabetizadores, que tinham a função de desenvolver com os alunos os conteúdos referentes à alfabetização em língua portuguesa e em matemática. A categoria P III era formada por professores de formação específica das disciplinas do currículo de 1º e 2º graus. Em relação à divisão dessas categorias, verifica-se que 84% dos professores pertence à categoria P III, sendo no total, 31 profissionais com licenciatura para atuar nas disciplinas dos currículos de 1º e 2º graus. Os 16% dos professores restantes compõem a categoria P I, totalizando 6 professores.
Todos esses professores atuavam nas salas de aula onde realizavam o atendimento aos alunos durante as fases 01, 02 e 03. Conforme analisado anteriormente, essas fases eram consideradas como pré-requisito para os alunos que não tinham como apresentar comprovante de escolaridade. Esse trabalho pedagógico era desenvolvido no sentido de verificar o estágio de conhecimento dos alunos em relação aos conteúdos do Currículo do 1º grau, incluindo as disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia e Ciências. Após esse estágio, seria realizado o direcionamento do aluno à série do 1º grau no qual ele seria matriculado.
A partir da análise do gráfico 2, pode-se considerar que o trabalho pedagógico desenvolvido nas três fases de alfabetização prepararia esses alunos para ingressar nas séries finais do 1º grau, o que resultaria do aumento no número de alunos matriculados. Dessa forma, percebe-se que essa ação tinha como objetivo a preparação dos alunos para o ingresso no CEES/UNICAMP e, consequentemente,
a necessidade de ampliação do espaço escolar, o que legitimaria o projeto educacional da instituição.
O próximo gráfico apresenta a origem das Delegacias de Ensino onde estavam vinculados os professores afastados para atuar no CEES/UNICAMP.
A partir da análise desse gráfico, percebe-se que o maior número de professores afastados para atuar junto à educação supletiva da Unicamp pertencia à 1ª e à 2ª Delegacia Regional de Ensino de Campinas, totalizando 35%, sendo 13 professores de cada Delegacia. A origem do restante dos professores que compunha o corpo docente estava organizada da seguinte forma: 11% de professores pertenciam à 3ª D.E, totalizando 4 professores; 13% de professores da 4ª D.E, totalizando 5 professores; 3% de Americana, totalizando 1 professor, e 3% de professores da D.E de Sumaré, totalizando 1 professor.
Esses dados evidenciam uma presença maior de professores das regiões que compunham Delegacias de Ensino do município de Campinas. Apenas 2 professores que compunham a equipe pertenciam às Delegacias de Ensino de Sumaré e de Americana. Nessa perspectiva, o ofício nº 01/89 apresenta dados importantes no sentido de compreender as principais características do corpo docente, o gênero predominante desse corpo, o segmento de atuação profissional e a região (Delegacia de Ensino) de atuação desses professores.
Uma outra pista para a compreensão do cenário de configuração do NACES/UNICAMP como educação supletiva e da necessidade de se ampliar o seu espaço físico, são os informativos que tratam do trabalho realizado na escola. Um desses informativos foi produzido pela Unicamp e, em outros casos, a produção foi realizada por empresas e sindicatos. Constata-se que esses informativos não são exclusivamente relacionados à educação supletiva da Unicamp, mas de assuntos de interesse das empresas e que os mesmos circulavam na comunidade em geral.
Portanto, há que se considerar que os impressos de divulgação da educação supletiva no campus são vistos como um corpus documental analisado e indica parte da intenção dos produtores dos informativos e dos sujeitos interessados na divulgação do projeto de educação supletiva da Unicamp. Em conformidade a essa ideia, esses informativos distribuídos dentro e fora do campus podem ser entendidos como produções cujos textos procuram impor uma determinada leitura do papel da educação supletiva da Unicamp direcionada à sociedade.
Por outro lado, apesar desses informativos utilizarem-se de uma série de estratégias para a legitimação do papel da educação supletiva na Unicamp, uma interpretação cuidadosa não pode deixar de perceber os jogos de forças e as lutas que foram travadas no processo de configuração da instituição, e que, de um jeito ou de outro, esses informativos silenciam, a partir do momento em que selecionam a forma como a educação supletiva deverá ser divulgada (Chaves, 2003, p. 74).
No que diz respeito aos principais elementos abordados na divulgação da educação supletiva na Unicamp, pode-se dizer que cada informativo tratou de um aspecto. Foram encontrados 3 informativos de origens e com estratégias editoriais diferentes, assim como duas considerações. A primeira afirmava que as diferentes origens de publicação tinham como objetivo ampliar as comunidades atingidas,
estando elas dentro ou fora do campus, para a divulgação da educação supletiva. A segunda afirmava que a estratégia de propaganda de cada informativo procurou tratar de aspectos que envolviam textos de divulgação do trabalho realizado no campus desde as parcerias com empresas e sindicatos, até a apresentação de concluintes do curso como elementos de motivação àqueles que ainda não tinham concluído seus estudos.
O primeiro informativo analisado é o Jornal Semanal de circulação no Parque Industrial da cidade de Jaguariúna – SP. O Jornal Semanal foi um informativo produzido pela empresa Johnson & Johnson, com circulação no Parque Industrial. Esse documento indica que a circulação do informativo diz respeito ao período de 11 a 17 de agosto de 1989. Uma característica interessante do texto é a divulgação da abertura de matrículas, pela primeira vez, para a comunidade em geral.
Figura 4. Jornal Semanal (1989). Fonte: Arquivo do CEEJA Paulo Decourt
O texto apresentado pela notícia tem como objetivo informar aos trabalhadores que o setor de recrutamento e seleção da empresa Johnson & Johnson inscreveu 95 funcionários no supletivo da Unicamp mediante um acordo firmado entre a empresa e a universidade, e que na data marcada (14 de agosto de 1989) seria realizada pela escola uma prova de sondagem para determinar qual etapa do supletivo o aluno iria dar início a seu curso. Além disso, o informativo apresenta a data para a realização das matrículas (21 de agosto de 1989), determinando o horário por turno de trabalho. Sendo assim, esses protocolos deveriam ser cumpridos da seguinte forma: o 1º e 3º turnos e administrativo se matriculariam das 18h00 às 21h00 na Unicamp, o 2º turno se matricularia no mesmo dia às 9h00. Outra característica interessante desse informativo, é que ele apresenta os itinerários e horários de ônibus que a empresa ofereceria aos funcionários nos dias da realização da prova de sondagem e da matrícula.
Todas essas informações apontam para a legitimidade que a educação supletiva da Unicamp passou a ter fora do campus. A partir dos indicativos que os informativos trazem é possível perceber a organização, por parte da escola, de um movimento para a ampliação do oferecimento no número de vagas, representando também um esforço para a divulgação da instituição além dos limites internos do campus. Outro aspecto interessante é pensar no produtor desse informativo que, sendo a empresa Johnson & Johnson, reforçaria o papel social que a continuidade dos estudos de seus funcionários poderia representar.
Ainda nessa perspectiva da formalização da educação supletiva na Unicamp, outro documento foi encontrado no arquivo do CEEJA Paulo Decourt: uma segunda edição do informativo Jornal Semanal, divulgado entre os dias 23 a 29 de março de 1990. Este fato, possibilitou verificar a continuidade do esforço de divulgação dos trabalhos realizados pelo CEES/UNICAMP. A publicação serve-se da divulgação de depoimentos de alguns alunos concluintes do 1º grau no ano de 1989, assim como suas experiências com a trajetória escolar e o funcionamento do ensino supletivo que, nesse momento, funcionava a partir de um convênio de cooperação entre a universidade e o Parque Industrial de Jaguariúna para a ampliação da demanda de alunos e a necessidade dos trabalhadores das empresas darem continuidade à sua formação escolar.
Segundo o texto do informativo, para a participação no curso supletivo, era necessário o aluno ter idade mínima de 14 anos. Ele receberia gratuitamente o material didático da Unicamp, deveria estudar em casa e tirar suas dúvidas com os professores que se revezavam em regime de plantão. Além dessas informações, o texto observava que, por meio do estudo em casa do material cedido e do contato com os professores, os estudantes se preparariam para os exames. A partir da análise desse trecho é possível perceber que o fragmento do texto legitimava as ações da escola, os modos de regulação e, em certa medida, os ideais da Unicamp em relação à educação supletiva.
Figura 5. Jornal Semanal (1990). Fonte: Arquivo do CEEJA Paulo Decourt.