PEF-101–Termodinˆ
amica e Mecˆ
anica
Estat´ıstica
Prof. Jos´e Kenichi Mizukoshi
Sistemas Interagentes
Sistemas interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ No intuito de se entender o fluxo de calor
e processos irrevers´ıveis, vamos considerar
um sistema formado por dois s´olidos de
Einstein que podem trocar energia entre si (vide figura ao lado).
S´olido B S´olido A
Energia
■ Por simplicidade, vamos assumir que os dois s´olidos est˜ao fracamente
acoplados, i.e., a troca de energia entre eles ´e muito mais lenta do que a troca
de energia entre os ´atomos de um mesmo s´olido. Desta forma, UA e UB
mudam lentamente.
■ Num per´ıodo longo de tempo, UA e UB devem mudar, contudo
Utotal = UA + UB
Sistemas interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ No intuito de facilitar a compreens˜ao, vamos considerar primeiro dois s´olidos
com trˆes osciladores cada e uma energia total de seis unidades (~ω): NA = NB = 3; qtotal = qA + qB = 6.
■ Cada valor de qA ou qB descreve um determinado macroestado do sistema.
Como qA = 0, 1, · · · , 6, h´a um total de 7 macroestados poss´ıveis. Cada um
desses macroestados possui multiplicidades ΩA e ΩB, relacionadas aos s´olidos A e B, que podem ser calculadas por (i = A, B)
Ωi = qi + Ni − 1 qi
■ A multiplicidade total de qualquer macroestado, Ωtotal, ´e dada pelo produto
das multiplicidades individuais, visto que os dois sistemas s˜ao independentes um do outro:
Sistemas interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ Temos assim os seguintes resultados:
qA ΩA qB ΩB Ωtotal = ΩAΩB 0 1 6 28 28 1 3 5 21 63 2 6 4 15 90 3 10 3 10 100 4 15 2 6 90 5 21 1 3 63 6 28 0 1 28 462 = 6+6−1 6
■ O n´umero total de microestados (soma da ´ultima coluna) ´e
NA + NB + qtotal − 1
qtotal
Sistemas interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ Considere uma suposi¸c˜ao grande: a energia circula aleatoriamente dentro de
uma escala de tempo muito grande, tal que todos os 462 microestados sejam igualmente prov´aveis.
■ A suposi¸c˜ao acima, de que todos os microestados de um sistema sejam
igualmente prov´aveis, ´e conhecida como a suposi¸c˜ao fundamental da
mecˆanica estat´ıstica, que diz que
“Em um sistema isolado em equil´ıbrio t´ermico, todos os microestados acess´ıveis s˜ao igualmente prov´aveis”.
■ Como todos os microestados s˜ao igualmente prov´aveis, temos que alguns
macroestados (aqueles que possuem multiplicidades grandes) s˜ao mais
prov´aveis do que outros. No caso deste exemplo, com NA = NB = 3 e
qtotal = 6, o macroestado mais prov´avel ´e aquele com qA = qB = 3. A
Sistemas interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ Vamos ilustrar agora um exemplo para dois s´olidos de Einstein com algumas
centenas de osciladores harmˆonicos cada e um n´umero compar´avel de unidades
de energia. Mais especificamente, vamos tomar
NA = 300, NB = 200, qtotal = qA + qB = 100.
■ Para esse sistema, o n´umero de macroestados ´e 101, visto que
qA = 0, 1, 2, · · · , 100.
■ Uma r´apida inspe¸c˜ao mostra que se N e q forem da ordem de uma centena,
nos deparamos com n´umeros muito grandes. De fato, mesmo para o
macroestado com uma multiplicidade pequena, como aquele com qA = 0
(portanto qB = 100), a multiplicidade total ´e
Ωtotal = ΩAΩB = 300 + 0 − 1 0 200 + 100 − 1 100 = 2,8 × 1081
Sistemas interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ A tabela abaixo exibe as multiplicidades para alguns macroestados
representativos, assim como a distribui¸c˜ao da multiplicidade total em fun¸c˜ao do n´umero de unidades de energia qA.
Sistemas interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ Observamos que o macroestado com maior multiplicidade ´e aquele com
qA = 60 (pois d´a qA/qB = NA/NB = 3/2), que ´e 6,9 × 10114. Como o
n´umero total de microestados ´e 9,3 × 10115, a probabilidade de se encontrar o sistema no macroestado mais prov´avel ´e
6,9 × 10114
9,3 × 10115 ≈ 0,07 = 7%
■ Conforme mostra a figura, macroestados com qA em torno de 60 possuem
multiplicidade compar´avel `aquele com qA = 60, mas ela decai muito
rapidamente `a medida que qA se afasta desse valor. Por exemplo, a
probabilidade de se encontrar um macroestado com qA < 30 ou qA > 90 ´e
menor do que 10−6
, enquanto que para qA < 10, ´e menor do que 10−20
.
■ Suponha que inicialmente qA seja muito pequeno, ou seja, quase toda a
energia do sistema esteja no s´olido B. Com o passar do tempo, o sistema
tender´a a atingir o macroestado com maior multiplicidade. Ou seja, a energia flui espontaneamente de B para A, e n˜ao o contr´ario.
Sistemas interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
◆ Encontramos assim uma explica¸c˜ao f´ısica para o calor: ele ´e um fenˆomeno
probabil´ıstico.
■ O fluxo de energia ir´a parar quando o sistema atingir o macroestado mais
prov´avel (ou chegar bem pr´oximo dele), que ´e aquele com maior multiplicidade.
A “lei do aumento da multiplicidade” ´e uma das vers˜oes da segunda lei da
termodinˆamica.
■ Numa situa¸c˜ao real´ıstica, onde se observa a validade dessa lei, devemos
considerar sistemas n˜ao somente com algumas centenas de part´ıculas
(osciladores, neste caso), mas com algo em torno de 1023. Isto exigir´a uma
manipula¸c˜ao matem´atica envolvendo o fatorial de um n´umero grande, que ´e
Sistemas interagentes – Problema
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
Probl. 1 Considere um sistema com dois s´olidos de Einstein, A e B, cada um
contendo 10 osciladores, compartilhando um total de 20 unidades de energia.
Assuma que os s´olidos sejam fracamente acoplados e que a energia total seja
mantida fixa.
(a) Quantos diferentes macroestados est˜ao dispon´ıveis para este sistema? (b) Quantos diferentes microestados est˜ao dispon´ıveis para este sistema?
(c) Assumindo que o sistema esteja em equil´ıbrio t´ermico, qual a probabilidade
de encontrar toda a energia no s´olido A?
(d) Qual a probabilidade de encontrar exatamente metade da energia no s´olido
A?
Sistemas Grandes
Sistemas grandes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ No caso de um sistema com dois s´olidos de Einstein interagindo entre si, certos
macroestados s˜ao muito mais prov´aveis do que os outros (possuem uma
multiplicidade grande). `A medida que o sistema vai se tornando cada vez
maior, e.g., N ≈ NA, verifica-se que somente uma pequena fra¸c˜ao dos
microestados ´e razoavelmente prov´avel, conforme pode-se observar pela figura abaixo: M u lt ip lic id ad e M u lt ip lic id ad e O(1000) O(100)
No intuito de se analisar sistemas com n´umeros muito grandes, vamos
N´
umeros muito grandes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Basicamente h´a trˆes tipos de n´umeros que ocorrem em mecˆanica estat´ıstica,
que s˜ao os n´umeros pequenos, grandes e muito grandes.
■ N´umeros pequenos. S˜ao aqueles tipicamente da ordem de uma dezena ou
centena, e.g., 23.
■ N´umeros grandes. S˜ao aqueles tipicamente da ordem do n´umero de
Avogadro (∼ 1023). Neste caso,
1023 + 23 ≈ 1023
◆ Um n´umero pequeno pode n˜ao ser desprez´ıvel se envolver uma subtra¸c˜ao
de n´umeros grandes: 1023 + 42 − 1023 = 42.
■ N´umeros muito grandes. Tipicamente, s˜ao produzidos a partir da
exponencia¸c˜ao de n´umeros grandes, e.g., 101023 [note que xyz = x(yz)]. A
seguinte propriedade multiplicativa se observa para esses n´umeros:
N´
umeros muito grandes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Um truque bastante comum em manipular n´umeros muito grandes ´e tomar o
seu logar´ıtmo. Esta opera¸c˜ao transforma um n´umero muito grande em um
N´
umeros muito grandes – Problema
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal EntropiaProbl. 2 A fun¸c˜ao logar´ıtmo natural, ln, ´e definida tal que eln x = x, para x positivo qualquer.
(a) Esboce o gr´afico do logar´ıtmo natural.
(b) Prove as identidades ln ab = ln a + ln b e ln ab = b ln a. (c) Prove que d dx ln x = 1 x. (d) Derive a aproxima¸c˜ao ln(1 + x) ≈ x
que ´e v´alida quando |x| ≪ 1. Utilize uma calculadora para checar a precis˜ao desta aproxima¸c˜ao para x = 0,1 e x = 0,01.
Dica: a s´erie de Taylor de ln em torno de x = 0 ´e dada por
f (x) = f (0) + d dxf (x) x=0 x + 1 2 d2 dx2f (x) x=0 x2 + . . .
Aproxima¸
c˜
ao de Stirling
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Para N ≫ 1, o fatorial de N pode ser aproximado por
N ! ≈ NNe−N√
2πN
cuja express˜ao ´e conhecida como aproxima¸c˜ao de Stirling.
◆ Esta aproxima¸c˜ao pode ser obtida a partir da fun¸c˜ao gama, ou fun¸c˜ao
fatorial. Para um n´umero real p > 0: Γ(p + 1) = p! = Z ∞ 0 xpe−x dx Para p ≫ 1, Γ(p + 1) = p! ≈ ppe−pp 2πp
■ Em mecˆanica estat´ıstica, ´e comum nos depararmos com o logar´ıtimo natural de
N . Para N ≫ 1, tem-se que
Aproxima¸
c˜
ao de Stirling – Problema
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal EntropiaProbl. 3 Utilize uma calculadora de bolso para checar a aproxima¸c˜ao de Stirling.
Para N = 0, 10 e 100, obtenha ln N !, N ln N − N e o erro relativo entre as duas express˜oes.
Multiplicidade de um grande s´
olido de
Einstein
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ Utilizando-se a aproxima¸c˜ao de Stirling, vamos escrever a multiplicidade de um
s´olido de Einstein contendo um grande n´umero de osciladores e unidades de
energia. Particularmente, vamos considerar o limite q ≫ N, que ´e conhecido como o limite de altas temperaturas.
■ Temos que para q, N ≫ 1,
Ω(N, q) = q + N − 1 q = (q + N − 1)! q! (N − 1)! = N (q + N )! q! (q + N )N ! ≈ (q + N )! q! N !
■ Tomando o logar´ıtmo natural de Ω(N, q) e utilizando a aproxima¸c˜ao de
Stirling, obtemos ln Ω(N, q) = ln (q + N)! q! N ! = ln(q + N )! − ln q! − ln N! ≈ (q + N) ln(q + N) − (q + N) − q ln q + q − N ln N + N = (q + N ) ln(q + N ) − q ln q − N ln N
Multiplicidade de um grande s´
olido de
Einstein
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ Vamos usar agora a suposi¸c˜ao de que q ≫ N. Neste caso,
ln(q + N ) = ln q 1 + N q = ln q + ln 1 + N q ≈ ln q + N q onde usamos o fato que ln(1 + x) ≈ x, para x ≪ 1.
■ Temos portanto que
ln Ω ≈ (q + N) ln q + N q − q ln q − N ln N ⇒ ln Ω ≈ N ln q N + N + N2 q
■ Observando que no limite q ≫ N, o termo N2/q acima ´e desprez´ıvel em
rela¸c˜ao a N , obtemos
eln Ω = eN ln Nq eN ⇒ Ω = eq
N
N
Multiplicidade de um grande s´
olido de
Einstein – Problema
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
Probl. 4 Utilize o m´etodo similar ao caso de altas temperaturas (q ≫ N), para
derivar a f´ormula da multiplicidade de um s´olido de Einstein no limite a baixas temperaturas, q ≪ N.
A largura da fun¸
c˜
ao multiplicidade
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Vamos agora fazer uma an´alise quantitativa da largura do pico da fun¸c˜ao
multiplicidade para um sistema com dois s´olidos de Einstein, cada um com N
osciladores (N ≫ 1) e energia total qtotal ≡ q = qA + qB, onde q ≫ N.
■ Utilizando-se o resultado da p´agina 20, a multiplicidade total do sistema ´e
dada por Ω = eqA N N eq B N N ⇒ Ω = e N 2N (qAqB)N
■ A fun¸c˜ao Ω possui um pico em qA = q/2 (mostre!), i.e., quando a energia ´e
distribu´ıda igualmente entre os dois s´olidos:
Ωmax = e N 2N q 2 2N
A largura da fun¸
c˜
ao multiplicidade
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Vamos analisar o comportamento de Ω em torno do pico. Para isto, vamos
fazer
qA = q
2 + x, qB =
q
2 − x
onde x ≪ q. Temos assim,
Ω = e N 2N q 2 + x q 2 − x N ⇒ Ω = e N 2N q 2 2 − x2 N
■ Vamos simplificar o termo acima entre colchetes, tomando o seu logar´ıtmo:
ln q 2 2 − x2 N = N ln q 2 2 − x2 = N ln q 2 2 1 − 2x q 2 = N ln q 2 2 + ln 1 − 2xq 2
A largura da fun¸
c˜
ao multiplicidade
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal EntropiaUtilizando ln(1 + x) ≈ x, obtemos ln q 2 2 −x2 N ≈ N ln q 2 2 − 2xq 2 ⇒ q2 2 −x2 N ≈ eN ln q22− 2x q 2 ■ Obtemos, finalmente Ω = e N 2N eN ln q2 2 | {z } = q22N e−N 2qx 2 ⇒ Ω = Ωmaxe −N 2x q 2
■ A fun¸c˜ao acima ´e conhecida como gaussiana. Definimos a largura do pico
como sendo 2x0, onde x0 ´e o valor de x tal que a multiplicidade cai de
1/e ≈ 0,368 do seu valor m´aximo: N 2x0
q
2
= 1 ⇒ x0 = q
A largura da fun¸
c˜
ao multiplicidade
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ A figura abaixo mostra a multiplicidade em fun¸c˜ao de qA = q/2 + x. Se
N = 1020, e se tomarmos a escala em que a largura seja de 1 cm, temos que a
escala completa do gr´afico seria da ordem de 105 km.
Largura Escala completa
■ Pr´oximo `a borda da figura acima, onde x ≈ 10x0, tem-se que
Ω
Ωmax ∼ e
−100
A finura da fun¸
c˜
ao multiplicidade
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ O resultado mostra que para dois s´olidos de Einstein grandes em equil´ıbrio
t´ermico, quaisquer flutua¸c˜oes fora do macroestado mais prov´avel ´e absolutamente imensur´avel.
O G´
as Ideal
O g´
as ideal
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ O resultado obtido para o sistema formado por dois s´olidos de Einstein grandes
– i.e. somente uma min´uscula fra¸c˜ao de macroestados possui uma
probabilidade razo´avel de ocorrer – ´e um resultado bastante comum.
■ Comportamentos similares ocorrem para quaisquer sistemas envolvendo pares
de objetos com um grande n´umero de part´ıculas e unidades de energia. Em
especial, ´e verdadeiro tamb´em para os gases ideais.
■ Vamos a seguir obter a multiplicidade de um g´as ideal. Posteriormente, vamos
discutir um sistema formado por dois gases ideais, de forma similar a um sistema com dois s´olidos de Einstein.
◆ A multiplicidade de um g´as ideal ´e bem mais complexa do que a de um
s´olido de Einstein, visto que ela depende do seu volume, da sua energia
A multiplicidade de um g´
as ideal
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Por simplicidade, vamos considerar nas nossas an´alises somente o g´as ideal
monoatˆomico. Al´em disto, vamos tomar inicialmente uma amostra com uma mol´ecula de g´as (N = 1), ocupando um volume V e energia cin´etica U .
■ Por inspe¸c˜ao, pode-se esperar que a multiplicidade (que ´e proporcional ao
n´umero de estados) de um g´as ideal ´e da forma
Ω1 ∝ V Vp (✻)
onde V ´e o volume ordin´ario ocupado pela mol´ecula e Vp ´e o “volume” no
espa¸co de momentos.
■ Para se determinar Vp, ´e preciso considerar o
seguinte v´ınculo: U = 1 2m(v 2 x + vy2 + vz2) = 1 2m(p 2 x + p2y + p2z)
o que leva a p2x + p2y + p2z = 2mU
A multiplicidade de um g´
as ideal
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Observa-se que o “volume” VP no espa¸co dos momentos ´e na verdade a ´area
da superf´ıcie de uma esfera de raio √2mU nesse espa¸co tridimensional.
■ Para que se possa contar o n´umero de microestados para um dado
macroestado, ´e preciso encontrar a constante de proporcionalidade na Eq. (✻)
da p´agina anterior. Para isto, vamos considerar que o sistema seja quˆantico.
◆ Na mecˆanica quˆantica, o estado de um sistema ´e descrito por uma fun¸c˜ao
de onda, que ´e espalhada tanto no espa¸co de posi¸c˜ao como no do momento, o que ´e quantificado pelo princ´ıpio de incerteza de
Heisenberg:
∆x∆px ≈ h
onde ∆x ´e a incerteza na posi¸c˜ao x, ∆px a incerteza no momento px e h
a constante de Planck. Uma rela¸c˜ao similar se mant´em para as componentes y e z.
A multiplicidade de um g´
as ideal
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia◆ Considere uma part´ıcula numa “caixa” unidimensional (po¸co infinito), de
comprimento L. Neste caso, h´a L/∆x estados distintos no espa¸co da posi¸c˜ao e Lp/∆px estados distintos no espa¸co do momento.
Espa¸co da posi¸c˜ao Espa¸co do momento
◆ Temos, portanto que o n´umero total de estados distintos ´e
L ∆x Lp ∆px = LLp h
■ O resultado acima pode ser estendida para uma caixa tridimensional, o que
leva a
Ω1 = V Vp h3
A multiplicidade de um g´
as ideal
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Para N = 2, em princ´ıpio ter´ıamos Ω2 = Ω21. Contudo, a contagem de Vp ´e
mais complicada, visto que o v´ınculo nos momentos fica
p21x + p21y + p21z + p22x + p22y + p22z = 2mU
A equa¸c˜ao acima define uma hiperesfera hexa-dimensional num espa¸co de momento hexa-dimensional. Logo,
Ω2 = V
2
h6 × (´area da hiperesfera no espa¸co do momento).
■ Se as duas mol´eculas forem indistingu´ıveis, a troca das mol´eculas, uma com a
outra, leva ao mesmo estado. Logo, ´e preciso descontar a contagem dupla. Portanto,
Ω2 = 1
2 V 2
A multiplicidade de um g´
as ideal
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Para um g´as ideal com N mol´eculas indistingu´ıveis, a multiplicidade ´e dada por
ΩN = 1
N !
V N
h3N × (´area da hiperesfera no espa¸co do momento).
O termo 1/N ! ´e para compensar a sobrecontagem de N part´ıculas idˆenticas, enquanto que a ´area da hiperesfera ´e a ´area da superf´ıcie de uma hiperesfera
3N –dimensional no espa¸co do momento, cujo raio ´e √2mU . Pode-se mostra
que “´area” = 2π d/2 (d2 − 1)!r d−1 onde d = 3N e r = √2mU .
A multiplicidade de um g´
as ideal
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Temos portanto que
ΩN = 1 N ! V N h3N 2π3N/2 (3N2 − 1)!( √ 2mU )3N −1
■ Como ΩN geralmente ´e um n´umero muito grande, podemos aproximar a
express˜ao acima por
ΩN ≈ 1 N ! V N h3N π3N/2 (3N2 )!( √ 2mU )3N,
o que pode ser escrita como
Ω(U, V, N ) = f (N )V NU3N/2
Gases ideais interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Considere um sistema formado por dois
gases ideais, cada g´as com N mol´eculas do
mesmo tipo, separados por uma divis´oria
que permite a passagem da energia, con-forme mostra a figura ao lado.
■ A multiplicidade total do sistema ´e
Ωtotal = [f (N )]2(VAVB)N(UAUB)3N/2
Como somente as energias UA e UB mudam, podemos comparar a express˜ao
acima com o resultado obtido para o sistema com dois s´olidos de Einstein, cuja
multiplicidade ´e
Ω = e
N
2N
Gases ideais interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Utilizando-se o mesmo racioc´ınio dos dois s´olidos de Einstein grandes
interagentes, pode-se mostrar que o sistema com dois gases ideais tamb´em possui um pico bem agudo, cuja largura ´e
Largura do pico = pUtotal 3N/2 onde Utotal = UA + UB.
■ Se permitirmos que a divis´oria possa se mover, os volumes VA e VB mudam.
De forma an´aloga ao caso da troca de energia, a fun¸c˜ao multiplicidade possuir´a um pico bem agudo, cuja largura ´e
Largura do pico = V√total N onde Vtotal = VA + VB.
Gases ideais interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ A figura abaixo mostra a multiplicidade de um sistema com dois gases ideais
em fun¸c˜ao da energia e do volume do g´as A. Tanto a energia total como o volume total s˜ao mantidos fixos e o n´umero de mol´eculas em cada g´as, N , ´e considerado como sendo grande.
Gases ideais interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Em algumas situa¸c˜oes, ´e poss´ıvel se calcular a probabilidade dos v´arios arranjos
das mol´eculas no interior de uma caixa de volume V , atrav´es da fun¸c˜ao multiplicidade,
Ω(U, V, N ) = f (N )V NU3N/2.
◆ Por exemplo, qual a probabilidade de se
encontrar o g´as na configura¸c˜ao abaixo, onde as mol´eculas do g´as ocupam so-mente a metade esquerda?
Pela express˜ao acima, se fizermos V → V/2, a multiplicidade reduz por um
fator 2N. Podemos interpretar o resultado da seguinte forma: de todos os
microestados poss´ıveis, somente um em 2N possui todas as mol´eculas na
metade esquerda. Mesmo para N = 100, a probabilidade j´a ´e muito
pequena (∼ 8 × 10−31
Gases ideais interagentes
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal EntropiaProbl. 5 Em vez de insistir que todas as mol´eculas estejam na metade esquerda
do recipiente, suponha que n´os requeremos que elas estejam em 99% do volume `a
esquerda (1% restante do volume fica completamente vazio). Qual a probabilidade de encontrar tal arranjo se h´a 100 mol´eculas no recipiente? E se houver 10000
Entropia
Entropia
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ Conforme visto, para uma variedade de sistemas grandes, as part´ıculas e a
energia tendem a se rearranjar at´e que a multiplicidade atinja um valor m´aximo
(ou muito pr´oximo dele). Conforme j´a comentado, este resultado probabil´ıstico
´e uma proposi¸c˜ao da segunda lei da termodinˆamica.
■ Como a multiplicidade ´e tipicamente um n´umero muito grande, ´e mais
conveniente trabalhar com o seu logar´ıtmo natural. Fazendo isto, definimos a quantidade chamada entropia,
S ≡ k ln Ω,
onde k ´e a constante de Boltzmann. Como a unidade de k no SI ´e J/K, a entropia tamb´em possui essa mesma unidade.
◆ Por exemplo, para um s´olido de Einstein grande, onde Ω = (eq/N )N, com
q ≫ N, a entropia ´e dada por S = k ln eq
N N
Entropia
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
Para N = 1022 e q = 1024, obtemos S = 0,77 J/K.
■ Existem v´arias formas de se aumentar a entropia do sistema, dentre elas
◆ adicionar mais part´ıculas e energia;
◆ expandir o volume do sistema ao sistema;
◆ quebrar as mol´eculas grandes em mol´eculas menores;
◆ misturar substˆancias que se encontram separadas.
■ E comum as pessoas associarem a entropia com desordem. A quest˜ao ´e, o que´
se entende por um estado desordenado? Por exemplo, cartas embaralhadas s˜ao mais desordenadas do que cartas mantidas em sequˆencia. O embaralhamento
Entropia
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ A entropia total de um sistema ´e a soma das entropias das partes. Para um
sistema com duas partes, A e B, temos que
Stotal = k ln Ωtotal = k ln(ΩAΩB) ⇒ Stotal = k ln ΩA + k ln ΩB = SA + SB
■ Como a fun¸c˜ao logar´ıtimo natural ´e uma fun¸c˜ao monotonicamente crescente
do seu argumento, o macroestado com maior multiplicidade possui maior
entropia. Logo, podemos enunciar a segunda lei da termodinˆamica como
“Qualquer sistema grande em equil´ıbrio t´ermico ser´a encontrado no
macroestado com a maior entropia (exceto pelas pequenas flutua¸c˜oes, que s˜ao
pequenas demais para serem medidas)”.
Em outras palavras, a entropia tende a aumentar.
■ Ser´a que existe algu´em ou algo que possa diminuir a entropia do universo? Em
1867, J. C. Maxwell projetou um experimento mental em que um ente
Entropia
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ Considere um g´as em equil´ıbrio t´ermico, separado por uma divis´oria com uma
porta. O demˆonio de Maxwell poderia permitir que as mol´eculas mais r´apidas
passassem de A para e B e as mais lentes, de B para A. Ap´os algum tempo, TA < TB, o que viola a segunda lei da termodinˆamica.
■ O fato ´e que a segunda lei da termodinˆamica n˜ao ´e violada, pois o demˆonio
precisa gerar entropia para processar a informa¸c˜ao necess´aria para separar as mol´eculas.
Entropia de um g´
as ideal
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Conforme visto, para um g´as monoatˆomico ideal,
Ω ≈ N !1 V N h3N 2π3N/2 (3N2 )! ( √ 2mU )3N
Temos portanto que
S = k ln 1 N ! V N h3N π3N/2 (3N2 )!( √ 2mU )3N ⇒ S = k ln V π 3/2(2mU )3/2 h3 N − ln N! − ln(3N/2)!
Utilizando a aproxima¸c˜ao de Stirling para os dois ´ultimos termos, obtemos S = N k ln V N 4πmU 3N h2 3/2 + 5 2
Entropia de um g´
as ideal
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Como pode-se ver pela equa¸c˜ao de Sackur–Tetrode, a entropia de um g´as ideal
depende do volume, da energia e do n´umero de part´ıculas. Vamos supor um
processo em que o volume muda de Vi para Vf, enquanto que U e N se
mantˆem constantes. Neste caso, a varia¸c˜ao da entropia ´e dada por
∆S = N k ln Vf
Vi (U e N fixos)
■ A f´ormula acima se aplica, por exemplo, para a expans˜ao isot´ermica
quase-est´atica de um g´as. H´a trabalho realizado pelo g´as (W < 0), mas o calor ´e adicionado ao sistema, de forma que U se mantem constante.
■ Um outro exemplo onde a f´ormula acima pode ser
apli-cada ´e a expans˜ao livre do g´as, ilustrada na figura ao lado. Para esse processo, temos que
∆U = Q + W = 0 + 0 = 0
V´acuo Parede isolante G´as
Entropia de um g´
as ideal
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Observe que W = 0 na expans˜ao livre, pois o g´as n˜ao empurra nada, pois do
outro lado ´e o v´acuo.
Como Vf > Vi, conclui-se que ∆S > 0, ou seja, houve o aumento na entropia do g´as.
Entropia de um g´
as ideal – Problema
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal EntropiaProbl. 6 Mostre que durante uma expans˜ao isot´ermica quase-est´atica de um g´as
ideal monoatˆomico, a mudan¸ca na entropia ´e dada por
∆S = Q
T , onde Q ´e o calor adicionado ao sistema.
Entropia de uma mistura
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Vamos considerar um sistema formado por dois
gases monoatˆomicos diferentes, A e B, com as
energias, os n´umero de part´ıculas e os volume
iguais. Inicialmente, cada g´as ocupa a metade de
uma caixa, separada por uma divis´oria, conforme
mostra a figura ao lado.
G´as A G´as B
O que ocorre com a entropia do sistema quando a divis´oria ´e removida?
■ Para o c´alculo da varia¸c˜ao da entropia, podemos considerar cada g´as como um
sistema separado, mesmo ap´os a mistura. Como os volumes dos gases A e B expandem at´e atingir o dobro dos volumes iniciais, tem-se que
∆SA,B = N k ln
Vf
Vi ⇒ ∆SA,B = N k ln 2
■ A entropia da mistura, que ´e o aumento na entropia total, ´e dada por
Entropia de uma mistura
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Uma importante observa¸c˜ao ´e que o resultado acima se aplica somente `a
mistura de dois gases ideais monoatˆomicos diferentes. Se iniciarmos com gases
iguais em ambos os lados, a remo¸c˜ao da divis´oria n˜ao causa o aumento na
entropia.
■ Vamos analisar esse caso diretamenta da equa¸c˜ao de Sackur-Tetrode,
S = N k ln V N 4πmU 3N h2 3/2 + 5 2
Suponha que se tenha um mol de h´elio ocupando um volume V e possua energia U . Se adicionarmos um mol de argˆonio com a mesma energia U , a entropia dobra aproximadamente (n˜ao exatamente, pois as massas dos dois gases s˜ao diferentes):
Entropia de uma mistura
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ E se ao inv´es de argˆonio, adicionasse um segundo mol de h´elio, o que ocorre
com a entropia? Como N → 2N e U → 2U, temos que S′ = 2N k ln V 2N 4πm2U 3(2N )h2 3/2 + 5 2 = 2S − 2Nk ln 2 Ou seja, o g´as puro ´e menor por um termo 2N k ln 2, que ´e justamente a entropia da mistura.
■ O termo respons´avel pelo termo adicional vem do N , no denominador do V .
Este surge de 1/N ! devido ao fato de que as mol´eculas de um mesmo g´as s˜ao indistingu´ıveis. Sem esse termo, obter´ıamos
S = N k ln V 4πmU 3N h2 3/2 + 3 2
Entropia de uma mistura
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Vamos supor que a ´ultima express˜ao esteja correta. Se colocarmos uma
divis´orio no meio da caixa, a entropia passa a ser S′ = 2N 2 k ln V 2 4πmU/2 3(N/2)h2 3/2 + 3 2 = S − Nk ln 2 Ou seja, a entropia do sistema diminuiu, o que viola a segunda lei da
termodinˆamica. A viola¸c˜ao simplesmente ocorreu porque uma divis´oria foi
colocada na caixa.
■ O resultado acima ´e conhecido como paradoxo de Gibbs. O paradoxo ´e
Processos revers´ıveis e irrevers´ıveis
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Se um processo f´ısico aumenta a entropia do universo, esse processo n˜ao pode
ocorrer em reverso, pois violaria a segunda lei da termodinˆamica. Logo, tal processo ´e dito irrevers´ıvel.
■ Por outro lado, um processo f´ısico que deixa a entropia do universo inalterada,
´e revers´ıvel.
◆ Na pr´atica, nenhum processo macrosc´opico ´e perfeitamente revers´ıvel,
embora alguns possam ser considerados revers´ıveis para os nossos prop´ositos. Por exemplo, uma expans˜ao ou compress˜ao adiab´atica quase-est´atica de um g´as.
■ Por que numa expans˜ao adiab´atica quase-est´atica de um g´as n˜ao h´a aumento
da entropia?
Podemos utilizar argumentos qualitativos, para entender a raz˜ao da entropia permanecer constante. Para isto, vamos evocar a vis˜ao quˆantica das mol´eculas de um g´as em uma caixa.
Processos revers´ıveis e irrevers´ıveis
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia■ Em uma “caixa” unidimensional, a energias permitidas s˜ao dadas por
En = h
2n2
8mL2, n = 1, 2, 3, · · · onde L ´e a largura da caixa.
◆ Se a compress˜ao ocorre quase-estaticamente, a mudan¸ca de L para L′
(L′
< L) n˜ao faz com que a part´ıcula mude o seu estado quˆantico (n n˜ao muda), portanto o sistema mant´em o mesmo n´ıvel de energia. Embora E′
n > En, como n˜ao houve mudan¸ca no n´umero quˆantico, o n´umero de
maneiras de arranjar as mol´eculas na caixa continua sendo a mesma. Logo, a entropia permanece constante.
Bibliografia
Sistemas Interagentes Sistemas Grandes O G´as Ideal Entropia
■ Daniel V. Schroeder, An Introduction to Thermal Physics, Addison Wesley
Longman, 1999.