Tramas familiares: a ilegitimidade sob uma perspectiva comparada
Resumo: É notório que as ondas migratórias oriundas da região minhota com destino a América portuguesa modificou sensivelmente o cotidiano das famílias que se constituíram no Brasil, principalmente durante o período áureo da extração mineradora, mas pouco se sabe sobre essa influência para outras regiões mineiras em períodos posteriores à mineração. Por entender que esta afirmação possa ter variações diferenciadas em diferentes comunidades e em diferentes temporalidades, este trabalho procura analisar em sentido comparado o perfil da ilegitimidade em algumas freguesias da região do Minho, em Portugal e a freguesia de São Paulo do Muriahé, na Zona da Mata mineira. Para a pesquisa estaremos utilizando de registros de batismos relacionados a toda população entre os anos de 1848 a 1888. Entendemos que esta dominação atravessou o Atlântico marcou definitivamente os modelos da população além-mar, numa sociedade com características totalmente diferentes do ponto de vista ético, social, econômico e cultural, porém, muitas vezes tomadas como modelo-padrão para definir a formação da família brasileira do século XIX. Hoje, através de alguns estudos de História da População, sabe-se que estes modelos europeus não são únicos para a Europa, muito menos para o Brasil, visto que existem diferenças regionais que se refletem, de maneira intensa, nas especificidades territoriais, tanto para Portugal, como para o Brasil.
Tramas familiares: a ilegitimidade sob uma perspectiva comparada Vitória Schettini de Andrade
Afirmamos que, no Brasil, as condições econômicas e demográficas eram completamente diferentes das portuguesas. De maneira específica, em São Paulo do Muriahé predominava uma produção agrícola diversificada e terra abundante. No Minho as fronteiras já teriam sido fechadas e havia falta de terra para o cultivo, o que levou vários homens a migrar para o Brasil influenciando definitivamente o modelo familiar.
Muito embora haja uma preocupação da Igreja após Concílio de Trento de organizar o matrimônio ao considerar o concubinato entre solteiros e casados falta grave, esta prática existia a olhos vistos. Apesar de todos os impedimentos estabelecidos pela Igreja de Roma, muitas formas ilegais de casamentos permaneceram sendo predominantes em alguns grupos étnicos como, por exemplo, as práticas de concubinato e mancebia. A fim de pensar com mais profundidade a formação das famílias estabelecidas, este trabalho procura analisar em sentido comparado o perfil da ilegitimidade em algumas freguesias da região do Minho, em Portugal e a freguesia de São Paulo do Muriahé, na Zona da Mata mineira, por acreditar que adentrar pelos caminhos da organização familiar em solo brasileiro não é possível, sem fazer uma reflexão e análise a partir da matriz portuguesa.
Alguns trabalhos são desenvolvidos envolvendo a temática da ilegitimidade para o Norte português, principalmente na cidade de Guimarães. Dentre alguns autores que desenvolvem o tema destacam-se, Maria Norberta Amorim Guimarães (1999), Ana Sílvia Volpi Scott (1999), Ana Luíza Castro Pereira (2010) volta-se para uma localidade vizinha a Guimarães tendo como foco os residentes na Paróquia São João do Souto, pertencente à área urbana da Cidade de Braga em análise comparativa com a Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Sabará, no século XVIII.
Professora do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Salgado de Oliveira. Professora da
Os trabalhos desenvolvidos para Guimarães apresentam um nível de ilegitimidade muito alto se comparado à Paróquia de São João do Souto, em Braga. O fato de ser Braga a sede do Arcebispado, ou no dizer de Pereira (2010), o coração
religioso do Norte de Portugal, pode ser um motivo da dita moralidade existente na
documentação, na qual são registrados apenas 6% de nascimentos ilegítimos. Com um recorte de 1700 a 1799, para a Paróquia São João do Souto, uma paróquia pertencente a Braga, Ana Luíza Castro Pereira afirma que cerca de 90% dos filhos legítimos eram domiciliados na paróquia. Até mesmo entre os filhos naturais, a maioria dos casos (3,9%) se refere aos batismos de crianças em que pelo menos um dos progenitores era residente na Paróquia São João do Souto. Em todos os locais de domicílio, os filhos legítimos são em proporção acentuada se comparados aos filhos naturais, expostos, pai incógnito e sem nenhuma natureza de filiação. Cerca de 92,7% do total de domicílios pesquisados apresentam crianças derivadas de casamentos legitimados.
Tais dados aproximam muito dos dados coletados para outras Paróquias Bracarences. Consultamos todos os livros de batismo listados no catálogo do Arquivo Distrital de Braga, relacionados a meados e finais dos anos do século XIX. Nota-se uma pequena diminuição nos dados alcançados por Pereira (2010) para os filhos legítimos, ao qual corresponde um leve aumento na proporção de filhos naturais, expostos e filhos em que não consta a natureza de filiação. Porém, tais mudanças pouco alteram o quadro de predominância de filhos que são batizados declarando-se o nome do pai e da mãe.
Em Minas Gerais, muito embora os estudos desenvolvidos apontem para alta taxa de ilegitimidade, principalmente envolvendo a população escrava e liberta, alguns indicam uma difusão das relações consensuais e uma pequena proporção para o casamento legal entre os homens e mulheres brancas. A própria desigualdade dos sexos entre brancos, associada às dificuldades de casarem brancos e negros foi um dos grandes responsáveis por casamentos ilegítimos, numa sociedade marcada pelo preconceito e alto estigma racial.
Dentre alguns autores que estudam o tema se destacam Iraci Del Nero da Costa (1982), Vila Rica; Maria Luíza Marcílio (1984), para São Paulo; Sheila Castro Faria (1998), Campos dos Goitacazes; Jonis Freire (2004), para Argirita; Sílvia Jardim Brügger (2007), São João Del Rei e mais especificamente para a freguesia em foco, Rômulo Andrade (1995) e Vitória Schettini de Andrade (2006).
Claro que, no caso brasileiro, a presença de africanos fez com que toda a estrutura familiar fosse alterada se comparada a Portugal. Por apresentar uma estrutura familiar diferenciada, mesmo que sejam os escravos minoritários se comparado à população branca, mas que observado juntos a toda população pode mascarar a realidade existente.
Mesmo não utilizando metodologicamente o mesmo critério adotado por Ana Luíza de analisar alguns assentos de localidades vizinhas a Paróquia por ela analisada, percebemos que os números de filhos legítimos encontrados na Paróquia São Paulo, em Muriaé, no que se refere a toda população, (branca, escrava, liberto, mestiço) são bem similares aos encontrados em São João do Souto.
Tanto para Sheila Castro (1998), quanto para Sílvia Brügger (2007), a maior concentração de filhos legítimos estaria concentrada em áreas rurais, predominando em áreas urbanas a ilegitimidade. Neste sentido, se relacionarmos São João do Souto, freguesia urbana, com várias outras freguesias bracarenses e São Paulo do Muriahé, mesmo sendo áreas diferenciadas no que tange ao espaço urbano e rural, notamos que os dados para toda a população se aproximam. Enquanto, na Paróquia São João do Souto, os filhos legítimos estavam na percentagem de 88,4%, para demais paróquias bracarenses 82,35%, na Paróquia São Paulo, os legítimos encontravam-se na casa de 82,5%.
Retirando os batismos de escravos nos dados alcançados notamos uma inversão nos valores, provocada pela superioridade dos filhos ilegítimos nascidos de mães escravas, numa proporção até certo ponto alta se comparada a outras localidades de Minas Gerais. Cerca de 77,62% notificações de batismos são registrados como filhos naturais, ou ilegítimos.
Como visto anteriormente, que apesar de existir certo equilíbrio entre a população branca e escrava, a freguesia era caracterizada como a maioria dos estudos para época e região, pela superioridade de nascimentos ilegítimos, sendo o comportamento contrário relacionado com a população branca ou livre.
Neste breve ensaio percebemos que a grande diferenciação nos dois lados relacionados à legitimidade estava pautada à presença, na América portuguesa, de brancos e negros, e não uma predominância de brancos como no caso europeu, que de fato influenciou definitivamente nas relações sociais estabelecidas, o que seria algo justificável por possuírem perfis populacionais muito díspares.
Mesmo sendo continentes diferentes, locais sócioculturais distintos, foi possível perceber que a maneira organizacional da família minhota viver ou sobreviver, não era colada ou copiada aos modelos do interior mineiro, muito ao contrário, cada paróquia adequou suas regras e normas de acordo com as situações enfrentadas cotidianamente. A categoria social à qual pertencia influenciou definitivamente na maneira organizacional, tanto nas margens de lá como nas margens de cá.
Referencias Bibliográficas
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BRÜGGER, Sílvia Maria Jardim. Minas patriarcal: família e sociedade ( São João
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COSTA, Iraci Del Nero da & LUNA, Francisco Vital. Minas Gerais Colonial: economia e sociedade. Estudos Econômicos – FIPE/ Pioneira, 1982.
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