Gdi~ao
SeculoXXI
COMPRA
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JEDITORIAL VERBO
DEPARTAMENTO DE ENCICLOPEDIAS E DICIONARIOS DIRECTOR
JoAo BIGOTTE CHOMO cia Academia das Ciencias de Lisboa
SECRETARlA-GERAL ANTONIO LEITAo COORDENA(:AO EDrroRlAL JORGE COLA\=O GEORGE VICENTE TRATAMENTO INFORMATICO EM BAsE DE DADOS SANDRA MONTEIRO COORDENA(:AO GRAFICA MAGDA MACIEIRA COELHO
PESQUISA ICONOGRAFICA MAGDA MACIEIRA COELHO
FONTES ICONOGRAFICAS ARQuIVo VERBO • EUROPEDIA
BONNIER'S LEXICON CAMARA MUNICIPAL DE MIRANDELA CAMARA MUNICIPAL DE MOIMENTA DA BEIRA
CAMARA MUNICIPAL DE MONDIM DE BASTO CAMARA MUNICIPAL DIi MouRAo
COMIssAo NACIONAL DO EURO REV/SAO LiDIA VINTEM CAPA E GUARDAS
JosE BRANDAo PAGINA(:AO E PRE-IMPRESSAO
MARIA ESTHER - GABINETE DE ARTES GRAFICAS, LOA. lMPREssAO E ACABAMENTO
TILGRAFICA - BRAGA SETEMBRO DE 2001
© EDITORIAL VERBO . LISBOA / SAo PAULO
NUMERO DE EDIc;:Ao: 2653 DEPOSITO LEGAL N.o 135 126/99 ISBN 972-22-1850-6 (OBRA COMPLETA)
ISBN 972-22-2078-0 (VOLUME XX)
NOTA
PREvIA.
Editar uma Enciclopedia implica uma clara consciencia de que 0 momenta cia edi0io representa urn corte nurn processo que continua, imperturbavel, a desenrolar-se. Preparar uma edi0io pro-fundamente revista e actualizacia dessa Enciclopedia - resultado de uma tal consciencia - impli-ca, por sua vez, a n~ao de que uma actualiza0io nao constitui necessariamente urn corte com 0 mundo dos valores e dos saberes a que 0 brilho e 0 esfo~o de muitos dera anteriormente expressao. Empreender a actualiza0io dessa Enciclopedia constitui, antes de mais, uma home-nagem a esse labor colectivo, dando-lhe continuidade.
Nesta renovada edi0io, a ENOCLOPEDIA VERBa tomou corpo animada pelo mesmo sopro de alma com que a anterior se apresentou. Mas nela esta presente, merce de centenas de contribui~6es de espe-cialistas, urn desejo de aperfei~oamento e de aten0io ao mundo que agora vivemos, ferido de imprevisibilidades, mas triunfante de transforma~6es e novas conhecimentos.
Os ritmos da vivencia cultural e cientffica adqui.ri.ram-Oma tal velocidade, tal diversiciade e tais ca-racterlsticas de interdisciplinariciade, que nao podiam senao ter determinado urn elevado grau de
mudan~. NeSse sentido, a ENOCLOPEDIA VERBa, sendo a mesma, e hoje outra. Urn intenso trabalho
-editorial ao longo de anos impulsionou as mecanismos de uma renova~o que se traduz num apuro de criterios e de sistematicidade e numa significativa percentagem de texto novo, consubs-tanciada em alguns milhares de novas entradas e na actualiza0io au substitui0io das existentes.
o manuseamento e consulta da ENCICLOPEDIA
VERBa e intuitivo e extremamente simples. Imp6em--se, no entanto, algumas explica~6es.ActuaiizCl{:i5es e Bibliograftas
Entre os aspectos que contribuiram para 0 prestigio e credibiliciade da Verbo-Enciclopedia Lusa--Brasileira de Cultum, desde 0 lnicio da publica0io e durante os anos que levou a completar-se a 1.' edi0io, foi a facto de os verbetes nela contidos serem assinados por grandes names da cul-tura e da ciencia de Portugal e do Brasil, alem da colabora0io de ilustres autores de outros paises, e, regra geral, conterem uma bibliografia. Ora, a circunstancia desta edi0io ser realizada a uma consideravel distancia no tempo daquela 1.' edi0io, levantou dificuldades no que diz respeito ao equilibria entre a necessidade de actualiza0io e a preserva0io do importante patrim6nio de textos e autores, muitos deles infelizmente ja desaparecidos. Neste sentido, foram utilizados dais proce-dimentos que se toma necess:irio esclarecer. 0 primeiro consiste em assinalar, por meio da sua coloca~o entre parenteses rectos, breves actualiza~6es em textos cuja qualidade supera urn ou outro aspecto inactual. 0 segundo, visou libertar a bibliografia da assinatura do autor, de modo a permitir a sua actualiza0io. Este procedimento, traduzido na coloca~o da bibliografia depois da assinatura, destinado a textos de autores que as circunstancias impedem de rever, converteu-se em regra, para manter uma identidade estrutural da Enciclopedia. No Ultimo volume da Enciclopedia serna contemplados verbetes omissos e outras actualizapSes.
Remissi5es
A ENCICLOPEDIA VERBa utiliza urn sistema de remiss6es - atraves da coloca0io do simbolo 71 imedia-tamente antes do vocibulo remetido - que envia a consulente para informa~6es complementares e the permite ir tra~do percursos de descoberta e aprofundamento, construindo a partir do tenD procurado, urn outro texto maior, multifacetado.
Nesta nova edi0io eliminaram-se, contudo, as remiss6es para names pr6prios e apelidos, sobretu-do porque se considerou redundante juntar qualquer outra distin0io
a
que a nome, pela sua propria natureza,;a
contem. Assim, qualquer indica0io de 1}Qme no interior de uma dada entrada constitui, por si sO, uma potencial remissao, desde que procurada segundo as criterios de orde-na0io utilizados, nomeadamente a da ordeorde-na0io alfabetica do apelido.No caso das freguesias, agora incluidas em artigos mais extensos sabre os respectivos concelhos, sera publicada, no final da obra, uma lista de todas elas com indica0io do concelho a que per-tencem, .sua popula~ao e area.
Nefr
nefrose - Neftiso
primeiro manifesta-se por largos anos exclu-sivamente pelo quadro hipertensivo C;"'Hiper-tensao essencial) e s6 tardia ou raramente reve-la sinais de insuficiencia funcional do rim, mor-rendo antes os doentes de acidente congestivo cerebral (edema, hemorragia) ou de insuficiencia cardfaca (edema pulmonar agudo, insufici(~ncia cardiaca congestiva). S6 numa variedade menos frequente, denominada .hipertensao maligna., a doen~a tama uma marcha acelerada e reves-te-se precocemente de sinais de insuficiencia renal. Se a sobrevida 0 permite, as altera~Oes vasculares arteriolo-capilares glomerulotubulares conduzema
esclerose e hialiniza~ao dos glome-rulos e 0 rim retrai-se, exibindo uma superficie granulosa, cortical delgada e aderentea
capsula. Na segunda forma, rim retraido secundario ma-ligno, 0 doente ja era urn nemtico com as carac-teristicas anatomo-clinicas do mal, cujo progresso conduza
esclerose secundaria, com desapari~o de muitos glomerulos e hipertrofia dos rema-nescentes e as consequencias funcionais: isos-tenuria, uremia - 0 rim deixa de ser urn pa-renquima para ser urn f.tltro (71 Isostenuria). Nas fases avan~adas do mal, 0 anatomo-pato-logista nao pode, sem 0 auxllio da hist6ria clinica, pronunciar-se sobre uma ou outra das formas que convergiram para 0 quadro final do rim retraido.MARIo MOREIRA
BIBL.: A. M. Fishberg, Hypertension and Nephritis, Fila-delfia, '1954.
nefrose - MED. Introduzido por F. Muller, divulgado por Volhard e Fahr, 0 termo .nefrose. visou definir, dentro do conjunto heterogeneo do mal de Bright, as nefropatias de natureza degenerativa em oposi~ao as inflamat6rias (ne-frites). As suas caractensticas seriam a fei~ao degenerativa tubular com inclusoes celulares e cilindros lip6ides, a integridade do sistema vas-cular e uma expres~ao clifiica constituida por edema, intensa albuminuria sem hematUria, hi-poproteinemia, hipercolesterolemia, sem hiper-tensao. A N. perdeu progressivamente a sua individualidade para dar lugar ao .sindrome nefr6tico •. Bell (1947) decreve a .glomerulone-frite membranosa., fazendo do engrossamento da membrana basal dos capilares glomerulares a lesao fundamental do estado nefr6tico. Mas s6 a microscopia electr6nica viria a explicar a excessiva permeabilidade desta membrana, revelando-Ihe uma estrutura porosa constituida por Himinas densas e fenestradas, com nucleos endoteliais esparsos no interior e, no exterior, celulas epiteliais pediculadas-pod6citos. 0 sin-drome nefr6tico surge como uma das conse-quencias de uma longa lista de infeq:oes, em que, alem de urn conjunto de doen~as esped-ficas do proprio rim, sao relevantes a diabetes, a hipertensao, 0 lupus eritematoso dlsseminado, diversas formas de cancro e algumas infec~oes bacterianas ou virais.
MARIo MOREIRA! ARMANDO BRlTO DE SA BIBL.: E. T. Bell, Renal Diseases, Filadelfia, 1947; A. M. Fishberg, Hypertension and Nephritis, ibid., 1954; Ho-mer W. Smith, Principles oj Renal Physiology, Nova Iorque, 1956. M. H. Beers, R. Berkow (eds.), The Merck Manual oj Diagnosis and Therapy, 1865-1875, New Jersey, 1999.
nefrostomia - MED. Do grego nifros, -rim-, e stoma, .boca-: interven~ao cirurgica que con-siste em incisar 0 parenquima renal e fazer comunicar as cavidades caliciais ou pielicas com o exterior, a fim de que a urina para ai saia. Talvez tenha sido D. de Marchetti quem tenha executado uma das primeiras N. Em 1633, num celebre Mr. Hobson, consul da Inglaterra em Veneza, procedeu a uma nefrolitotomia, e 0 doente ficou com uma fistula urinaria lombar permanente. A N. tern duas indica~oes princi-pals: . a drenagem de uma pionefrose, e a deri-va~ao temporaria ou permanente da urina, 0 que se toma necessario em diversas situa~Oes.
CANDIDO SILVA nefrotifo - MED. Febre tif6ide de invulgar sintomatologia renal revelada principalmente por hematUria e albuminuria sem hipertensao, devida a uma nefrite focal trombo-emb6lica bac-teriana de progn6stico reservado. Outras
infec-~oes podem originar fen6meno identico:
pneu-mococo, estreptococo viridans, etc.
MARIo MOREIRA nefrotoxina - MED. Substancia soluvel de
composi~ao complexa proteica elaborada pelo
metabolismo bacteriano - estreptococo, pneu-mococo, etc. - com afinidade electiva para 0 rim, como a estreptolisina 0, p. ex., responsavel pela reac~o antigenica causadora da g1omerulo--nefrite aguda escarlatinosa. Os autores de lingua inglesa empregam -nefrotoxina· para designar os sais de metais pesados causadores da nefrose t6xica necrosante, 0 que na nossa lingua e im-proprio.
MARIo MOREIRA Neftali (Tribo de) ~ ESCR. Uma das 12 tri-bos de Israel; 0 seu territ6rio muito fertil era situado na Galileia e confinava a E com 0 rio Jordao e 0 lago de Genesare, ao N com a Feni~ cia e a 0 com os territ6rios de Zabulao e Aser. 7ICafamaum ficava no territ6rio des~ tribo:
o
comandante Barac, do tempo dos Juizes, e 0 piedoso Tobias sao os homens mais ilustres desta tribo.BALDuiNO KIpPER Neftis - Deusa do antigo Egipto pertencente ao grupo de divindades de Heli6polis (Eneade).
o
seu nome em egipcio, Nebet-Hut, significa -Senhora da Mansao', e e reconhecida apenas pelos hier6glifos que a identificam sobre a suacabe~a. Ocupa 0 papel de irma e esposa de
Set, mas 0 facto de ser tambem irma de Osiris e Isis retira-Ihe a negatividade que poderia advir da sua liga~ao ao deus Set. Mais tarde, e tida como mae de Anubis, resultado de uma pouco clara uniao com Osiris. No Imperio Novo, devido
a
sua associa~ao ao mundo dos mortos (tanto pela sua liga~ao com Set como com Anubis), e representada na iconografia dos sarc6fagos juntoa
cabe~a do morto. Era tambem a protectora de Hapi, 0 fIlho de Horus encarregue de guardar os pulmoes do morto.As faixas que protegiam a mumia representa-yam 0 cabelo de N., dos quais 0 morto tinha de se libertar para atingir a vida etema.
CLAlJDIA SOFIA MONTE FARIAS
BIBL.: G. Hart, A Dictionary oj Egyptian Gods and God-desses, Londres, 1986; S. QUirke, Ancient Egyptian Reli-gion, Londres, 1992; l. Shaw e P. Nicholson, The British Museum Dictionary oj Ancient Egypt, Londres, 1995.
nega~ao - FILOS. Ac~ao ou opera~ao
16gi-ca de negar (processo judi16gi-cativo), ou efeito dessa mesma ac~ao (resultado: juao, doutrina). De uma perspectiva ontol6gica aN. assume 0 sentido de uma ausencia ou nao-entidade determinada a contrario por rela~ao
a
positiva actualidade de algo.Em grego, a nega~ao e 'o,1toq>o,vmc; (apofansis), .negar, dizer que nao-. Estas sao, porem, formas linguisticas tardias, ja dependentes de uma gra-matica e de uma sintaxe 16gica, qual organon do bern pensar que, desse modo, procura dar conta do verdadeiro e do falso nas proposi~oes, e da adequa~ao entre sujeito e predicado ao nivel dos conteudos proposicionais. AN., contudo, nao fala exclusivamente grego ou latim, sobre-tudo hoje, superado que esta 0 modele classico da 16gica binaria (ou e ou nao e; 0 terceiro e excluido) pelo surgimento de modelos 16gicos e semanticos polivalentes (d. Colloque La Ne-gation, La negation sous divers
aspects,
Acte5 du Colloque, Neuchatel 22-23 octobre 1987, Neu-chatel, s.d.).Tal como a interroga~ao, tambem aN., ou pelo menos a sua possibilidade, traz consigo uma despropor~ao que assombra e maravilha quem, ainda que por uma vez apenas, a leva verda-deiramente a serio. Tomada no seu sentido ab-soluto, ela tern algo de horrendo e abissal, a r~ar 0 impensavel. Neste sentido, nao hi po-si~ao primeira para perspectivar a possibilidade da nega~ao absoluta, aquela que envolve em si aN. da linguagem,a N. do homem, do mundo, de Deus, dos deuses, de todos os deuses, de toda a realidade e de todos os possiveis. To-mada no seu sentido relativo (.negar algo., .dizer que nao-, ... ), atesta ainda a grandeza de uma vontade que pode resistir sempre. Nesta perspectiva hii sempre alga de absoluto numa N.: revela a presen~a de urn poder capaz de resis-tir a todos os poderes, de uma liberdade capaz de se abrir ou de se fechar a outra liberdade. A genese da-possibilidade de N. e urn dos pro-blemas mais complexos da teologia e uma vexa-ta quaestio da reflexao filos6fica, ou nao fosse o prindpio a grande questao da filosofia. Para a gnose e para outras leituras esotericas, todas as nega~oes remontam ultima mente a urn pri-meiro acto de nega~ao que aconteceu no seio do pr6prio Deus: a cria~ao (cf. Sto. Ireneu, Ad-versus Haereses). Esta posi~ao sobre a N., alias, tern muita relevancia para a hermeneutica do pensamento portugues. Certas leituras dolentes e nostalgicas da saudade galaico-portuguesa re-levam de uma visao gn6stica que perpassa de modos diferentes certos pensadores portugueses (de Sampaio Bruno a Jose Regio) chegando
a
afuma~o de uma elsao extrema no proprio Deus,
qual paradigma de todas as cisoes e' nega~oes. De uma maneira geral, a posi~o fIlos6fica que recolhe algum consenso e· a que reconduz a genese da N. no espfrito
a
experiencia do de-vir e da multiplicidade. Deste modo, a N. aca-ba por ser vista como urn caso particular da questao rna is ampla do Uno e do Multiplo,negac;:iio
Nega
do Mesmo e do Outro, da Identidade e daDi-feren~a. A reflexao teol6gica judaica e crista
or-todoxa, porem, sempre entendeu a cria~ao, nao como N. de Deus (0 negocio divinO, par opo-si~ao a urn suposto etemoocio), mas como sua
afirma~ao, i. e, como manifesta~ao da sua
su-perveniencia, da sua gloria e do seu poder. Por isso conduziu sempre a questao da N. do hori-zonte ontol6gico para 0 horizonte etico: a N. e o acto de uma vontade pode -dizer que nao·, e assim erigir-se contra 0 seu autor. Etiologica-mente, isso e representado pela posi~ao de Luci-fer (0 Portador da Luz) que nao aceita subme-ter-se: -nao servirei!- (.non serviam!') Alias, entre os primeiros cristaos negar e confessar nao sao
proposi~oes logicas, mas categorias religiosas e
teoI6gicas: 0 negator e 0 ap6stata e opoe-se di-rectamente ao confessor, 0 martir. A exegese neotestamentaria e patristica, contudo,
a
luz da economia da salva~ao, cujo centro e a Encama-~ao do Verbo, desenvolve urn sentido positivo da N. de Deus entendida agora como -oculta-mento- de Deus na figura de Cristo, ou .. esva-ziamento. da forma divina na figura do servo. S. Paulo, na Carta aos Filipenses (2,7), pergunta: -Com efeito, como nao se tomou inferior a si pr6prio quem se aniquilou [esvaziou] a si mes-mo assumindo a forma de servo?Ao longo do pensamento ocidental cruzaram-se amiude elementos de ambas as posi~oes, e nem sempre e facil determinar 0 valor exacto da N. nas visoes filos6ficas, teologicas ou misticas dai emergentes. Seja como for, e inquestionavel 0 lugar central que a N. assume, p. ex., na Filosofia Neoplat6nica, na Teologia Apofatica (negativa) dos escritos do Pseudo-Dionisio, no pensamento de Miiximo, 0 Confessor, na obra magna de Joao Escoto Eriugena, De divisione naturae, assim como na mfstica especulativa dos Vitorinos, ou dos mestres renanos como Sto. Alberto Magno e Mestre Eckhart.
A expressao mistica utiliza a N. sobretudo como uma forma de exaltar a absoluta alteridade do divino. Nesta 6ptica, a N. aparece numa dupla perspectiva: linguistica e ontol6gica, pois e pre-ciso negar tudo 0 que se diz da deidade par-que
e
sempre dito ii maneira humana; nem Deus nem a experiencia mistica sao diziveis senao por uma continua N., -nada disto! .. , 0 que tern tambem urn alcance ontol6gico, visto que Deus esta para alem de todas as realidades. Curiosa-mente, certas formas de agnosticismo e ateismo modemos e contempocineos pode ser vistas em continuidade com aquela .teissima. N. A modemidade, todavia, de modo particular 0 Idealismo Alemao e 0 Romantismo, valorizam profundamente a N. e a negatividade como for-mas de progresso do Espirito na Hist6ria Uni-versal. De acordo com Hegel, a lei intima de toda a realidade em devir, a dialectica, e urn processo de nega~ao ontoteoegologica, onde a verdade de urn momento esta no momenta posterior que supera-recupera 0 anterior. A His-t6ria e triigica porque as diferentes e sucessivas figuras do Espirito devem morrer necessaria-mente para que advenha 0 Espirito Absoluto. Ha pois uma positividade na negatividade. Esta afirma~ao relativa ao processo da Hist6ria Universale
valida tambem para a hist6ria de cada indivIduo, dizem as investiga~oespsico-Nega
nega¢.io - negativismo16gicas. Urn sadio processo de constituic;;:ao e afumac;;:ao da personalidade implica uma relac;;:ao de N., quer desde as esradios elementares de constituic;;:ao doobjecto, na crianc;;:a, quer mais tarde na contraposic;;:ao com as instituic;;:oes pa-rentais, grupais, sociais, etc. Se isso nao aconte-ce, ha riscos pato16gicos cuja psicoterapia sup6e urn complexo processo de actualizac;;:ao,:-N.
o
existencialismo (v. g., J.-P. Sartre, L'Etre et Ie Neant) trouxe justamente para a centro do pen-samento contempocineo esse quase infinito pa-der de negar, au de neantiser, como preferia di-zer Sartre, atestando tal poder, ao mesmo tempo, um paradoxa: um desejo absoluto de ser (como Deus) e uma impossibilidade de (0) ser. A N. revela, pois, 0 homem como paixao imltil, anjo decaido sem possibilidade de redenc;;:ao au re-torno a qualquer unidade primeira. Neste sentido, a N. existencialista e uma gnose falhada. Longe daquele Conhecimento que, contra a primeira N., nega, par seu tumo, a mundo e a materia para se salvar, a .lucidez· existencialista reconhece a mundo e a materia como as unicas realidades em que, afinal, vale a pena insistir, apesar da nausea ultima que tal existencia absurda pro-voca (v. g., Le Mur, La Nausee).Deste breve periplo fica a 6bvia conclusao de que a estudo e a compreensao da noc;;:ao de ·ne-gac;;:ao. requerem a convergencia de diferentes disciplinas. Com efeito, alem dos assertos acima salientados, exigir-se-ia ainda uma particular atenc;;:ao a importfulcia da N. na literatura, na Arte (-a obra acabada e a negac;;:ao do artista.), na Aritrnetica, na Matematica, e assimpor diante; seria outrossim muito enriquecedor para a noc;;:ao de «negac;;:ao-, ocidentalmente pensada, averiguar a sua presenc;;:a e importancia no pensamento oriental (no advaitismo, p. ex.) e islamico.
JOSE ROSA. BIBL.: Plotino, Enneaties (texto estabeleddo e traduzido por Emile Bremer!, Paris, 1925; Fernando Tavares Dias,
A negtlfiio para a matematica: palestra, 1939, V. N. Fa-rnalido, s.d.; G. W . .f. Hegel, La pbenomenologie de l'esprlt Ctrad. de J~n ~yppolite), 2 vols., Paris, 1941; Jean-Paul Sartre, L 'Eire et Ie Neant: essai d'ontologie phe-nomenologique, Paris, 1943; Pseudo-Dionisio, Oeuvres completes du Pseudo-Denys l'Areopagite (trad., prefado e notes de Maurice Gandillac), Paris, 1947; Arist6teles,
Organon, (trad. e notas de J. Tricot), 5 vols., Paris, 1959--1974; Jose Marinho, Teoriad()Sereda Verdade, Lx., 1961;
1. P. Sheldon-Williams (ed., em colab. com Ludwig Bieler),
Eriugenae lohannis Scotti, De divisione naturae, 2 vols., Dublin, 1968; Teresa Seruya, ·Da negatividade positiva ao sorriso de Mona Lisa: algumas reflex6es sobre Kurt Tucholsky., in Revista da Faculdade de Letras 3 0979--1980), pp. 179-223; Werner Beierwaltes, ldentitat und DijJerenz, FrankfurtiMunique, 1980 Orad. italiana: Iden-tita e DijJerenza, Millio, 1989); Fernando Gil, Mimesis e
nega~iio, Lx., 1984; Alain de Libera, Introduction ii la mystique rhenane, Paris, 1984; Maria Ant6nio Ferreipl Horster, .Poesia e negatividade - Alberto Caeiro e Al-varo de Campos>, Cadernos de Literatura 20 (985), pp. 55-67; Ireneu Santo, Conlre les heresies: denonciation et refutation de la gnose ... (trad. fro de Adolin Rousseau), Paris, 1985; Colloque La Negation, La negation: fa nega-tion sous divers aspects / actes du Colloque, Neuchiitel 22--23 octobre 1987, Neuchatel, s.d.; Laurence R. Horn, A
natural history of negation, Chicago, 1989; Maria Clara Abelho Amante Nunes Correia, A negafiio como elemen-to de teatrafidade na obra de Raul Brandiio, Lx., 1988;
Endre von lvinka, Plato Christianus. La reception critique du platonisme chez les
Peres
de l'Eglise, Paris, 1990; Henry Corbin, Historia de la Filosofia /sliimica, Madrid, 1994; Ant6nio Barreira Moreno, lndefinidos, determina¢o enega~iio: contribui~ii.o para 0 estudo dos marcadores nenhum, ninguem, nada e nunca [texto poHcopiadoJ, Lx., 1997.
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negac;ao (via da) - TEOL. Urn dos cami-nhos para a .falar· de Deus dentro de uma teo-logia natural. Encontrando-se Deus, naquilo que e, muito para alem do que alcanc;;:am as tentati-vas humanas para 0 encerrar dentro das suas teias de conceitos, a modo humanamente mais correcto de falar d'Ele e ainda a negac;;:ao, i.
e,
a afirmac;;:ao daquilo que Ele nao e .• Nas ques-toes teol6gicas, as negac;;:oes sao verdadeiras e as afirmac;;:oes insuficientes» (Nicolau de Cusa,De docta ignorantia, I, 26). Assim, se afirmar-mos a ser de tudo 0 que e objecto pr6prio dos sentidos e do entendimento, teremos de afir-mar a nao-ser de tudo a que os ultrapassa pela exce1encia da sua natureza (Escoto Eriugena,
De divisione naturae, I, 3; PL, 122, 443 A-C). Trata-se, com efeito, por urn lado, de acentuar a radical transcendencia de Deus - esta para alem dos entes e nao e limitado por eles, 0 que nao significa que lhes permanec;;:a par isso incomunicavel - , por outro, de subtrair a dizer acerca de Deus a uma esfera simplesmente 16-gico-dedutiva, procurando traze-Lo para urn pla-no mais vivencial, nao raro aberto a uma mistica (Mestre Eckhart, Predigten, 9). Em S. Tomas, com uma intenc;;:ao diferente da dos sentidos de inspirac;;:ao neoplat6nica (Plotino, Pseudo-Dinis o Areopagita, etc.), a V. N. pretende apenas, na atribuic;;:ao anal6gica das perfeic;;:6es das criatu-ras a Deus, negar 0 camcter finito daquelas, per-manecendo Ele contudo urn ente, embora e
suma~ente perfeito (S. Th., I, q. 13; Summa contra Gentiles, I, 1, 14). Mais recentemente, a V. N. representa tambem um importante papel no pensamento de K. Barth quando, p. ex., re-futa a analogia entis, assente num conhecimen-to aproximado de Deus por conceiconhecimen-tos huma-nos, para privilegiar uma analogia fidei pela qual a grac;;:a divina funda no homem uma se-melhanc;;:a com Deus (Die ktrchliche Dogmatik, III, 2, § 45, 1), e ate entre alguns representan-tes do movimento da -morte de Deus> para quem a linguagem humana acerca d'Ele e sempre antropom6rfica, provis6ria e culturalmente de-terminada, a ponto de se negar qualq'uer conhe-cimentosimb6lico au anal6gico de Deus (G. Va-hanian, Wait without Idols, Nova Iorque, 1964;
J.
A. T. Robinson, Exploration into God, Londres, 1%7). Nas classificac;;:6es sistematicas tradicionais, a V. N. vem enquadrada pela via da afrrmac;;:ao, que enuncia analogicamente de Deus (71ana-logia), e pela via da 71eminencia (que usa urn dizer superlativo). A V. N. nao tern, portanto, nada a ver com 0 71agnosticismo, mas sim com uma teologia negativa.J. BARATA-MoURA BIBL.: v. Lossky, .La thealogie negative dans la doctrine de Denys l'AreopaSite-, em Revue des Sciences
pbiiosophi-ques et theologiques, Paris, 1939, pp. 204-221; Ch. Journet,
Connaissance et inconnaissance de Dieu, ibid., 1947; Ch. de More-Pontgibaud, Du fini
a
l'infini, ibid., 1956; F. Van Steenberghen, Dteu cache, Lovaina, 1961; J. H. Nicolas, Dieu connu comme inconnu. Essai d'une criti-que de fa connaissance theologicriti-que, Paris, 1966.negativlsmo - MED. Perturba~ao da activi-dade que consiste na resistencia automatica, pas-siva ou activa, a todas as solicitac;;:6es, intemas, au externas. Manifesta-se por inercia motora, por desobediencia a ordens ou falta de respos-ta a pergunrespos-tas; ou, enrespos-tao, por uma contracc;;:ao
1176
negativo - negligencia
Negl
dos musculos antagonistas na mobilizac;;:ao pas- Assim,siva dos membros. E costume adrnitir varios ti-pos de N.: palpebral, resistencia automatica ao levantamento das palpebras; segmentar,
resis-3 - 2 = 3 + (-2) = (1 + 2) + (-2) = = 1 + [2 + (-2)] = 1 + 0 = 1, tencia que se estende aos movimentos dos mem- e
bros, da cabec;;:a, etc.; generalizado ou univer- 5 - 7 = 5 + (-7) = 5 + (-5 -2) =
= 0 + (-2) =-2
sal, se abrange todos os movimentos corporais, inclusive as de deglutic;;:ao dos alimentos e da saliva; de ernissao de urinas au de fezes. ON. e um sintoma sobretudo frequente na es-quizofrenia, especialmente nas suas formas he-befrenica ou catat6nica. Mas encontra-se,. tam-bern, em certos debeis mentais desconfiados, em maruacos com reac~6es de hostilidade, e em melanc6licos medrosos. Se a resistencia que ca-racteriza 0 N., activa ou passiva, nao e automa-tica, antes representa uma atitude do individuo, tem 0 nome de oposi~ao.
FERNANDO lLHARco BIBL.: Andre Barbe, Psychiatrie,. Emilio Mira, Manuel de Psychiatrie,-Sollier e Courbon, Pratique semiologique des Maladies Mentales.
negativo - MATEM. Quando, entre as ca-racteres dos elementQs de um conjunto C, exis-te um que:
a) admita somente duas opc;;:oes;
b) permita dividir C em tres subconjuntos, Z, P e N, tais que os elementos de Z nao possuam esse camcter, e as de PeN se possam agrupar por forma que a cada elemento de P corres-ponda um elemento de N(dito 0 seu simetrico) que the seja igual em todos os outros caracte-res excepto naquele, e reciprocamente, costu-mam usar-se as palavras positivo (simbolo +) e negativo (simbolo -) para designar as elemen-tos, respectivamente, de um e OUtro destes dois subconji.mtos. Assim, os sistemas de tres 71eixos coordenados do espac;;:o sao desigp.ados como positivos au N. conforme a disposic;;:ao dos res-pectivos eixos. Por vezes, aplica-se a palavra ao pr6prio camcter determinante (p. ex., a sentido positivo da 71normal a urna superficie). Mas nao e 0 geral. Assim, como uma recta tem dois sen-tidos opostos, cada segmento marcado sobre ela tem a corresponder-lhe outro que the e igual mas de sentido contrario: consideram-se posi-tivos uns, e as outros N. Os segmentos nulos nao sao positivos nem N. 0 conceito, porem, nunca se desprendeu de todo do ponto de par-tida [71Numeros (Teoria dos)].
Definido a conceito de 71 ordem e de cresci-mento, e as operac;;:6es 71adic;;:ao e 71subtracc;;:ao sobre as numeros naturais, importava tamar a subtracc;;:ao possivel no caso de 0 diminuidor ser igual au maior do que 0 diminuendo, dado que sao maiores do que /lzero todos os numeros naturais. Para a caso da igualdade r~sponde 0 zero. Para os restantes criaram-se os numeros inteiros menores do que zero (negativos). Tambem os numeros reais podem ser positivos (sinal +) ou N. (sinal -). Dois numeros que s6 difiram no sinal tem soma igual a zero. A escolha das palavras positivo e -negativo-, e dos sinais e convencional, mas a destes proveio do pr6prio processo de operar, redu-zindo a subtracc;;:ao
a
adic;;:ao, pe1a conven-c;;:aoa-b = a + (-b)
A soma mantem a sinal das parcelas (quando todas tiverem a mesmo). 0 produto de dois fac-tores sem positivo se eles tiverem sinais iguais, mas sem N. se os sinais forem contrarios. Dai a regra: mais par mais d:'i mais, menos por menos da mais, e mais por menos d:'i menos. A medi-da de /I grandezas que, pela sua ordenac;;:ao, cresc;;:am indefmidamente nos dois sentidos, s6 pode fazer-se com estes numeros, chamados relativos.
JosE BAYOLO PACHECO DE AMORIM TECN. Imagem sobre uma pe1kula, placa au papel, na qual as zonas claras ou transparentes representam os tons escuros do assunto origi-nal e as zonas escuras ou opacas traduzem os tons claros.
N. ampliado - Ampliac;;:ao de urn N. para utili-zac;;:ao em c6pias par contacto. Dispensa a am-pliac;;:ao constante. Obtem-se pe10 metoda de transparencia positiva au por inversao directa.
N. area-Iris - Pelicula negativa ortocromatica, sensivel ao verde e contendo vermelho, utilizada como primeiro N. no processamento fotogcifico multicolor.
N. catatr6pico - Papel revestido com uma emul-sao preparada e processada pelo fot6grafo. Ori-ginal criado por Talbot, em 1841, no qual quan-to maior for 0 N. me1hor sera a qualidade da imagem.
N. duplicado- C6pia, par contacto, de urn N., utilizando a sistema ·cara a cara· e novamente sua c6pia, emp.lsao a emulsao. Modificando ade-quadamente a exposic;;:ao e a revelac;;:ao, pode conseguir-se uma duplicac;;:ao melhorada entre limites bastante amplos. Os N. duplicados tem grande importiincia em cinematografia, na pre-parac;;:ao de efeitos especiais, como fundidos e transparencias, no tratamento de N. deteriorados ou mal impressos e na duplicac;;:ao de material reversivel de 8 mm a 16 mm utilizado pelo ama-dor cinematogr:'ifico para tiragem de c6pias.
N. invertido - Sistema utilizado na reproduc;;:ao fotomecanica para produzir uma imagem de espelho, i. e, uma imagem que foi invertida da esquerda para a direita.
N. de separafao - N. a preto e branco, a partir de urn N. a cores. Utilizam-se filtros para con-seguir, em pelicula pancromatica, N. represen-tando os vermelhos do objecto, os verdes e os azuis. Estes tres N. constituem os N. de separa-c;;:ao de cores, porque ne1es 0 espectro foi sepa-rade em tres partes.
Ruy DE MEllo
negligencia - DIR. . Entre as sin6nimos de N. apontados por Pedro Jose da Fonseca (Dic-cionatio Portuguez e Latino ... , 1771, p. 497) encontra-se a palavra -indiligentia.; essa e uma boa base para indicar 0 sentido geral do con-ceito aqui em causa, opondo-o a diligencia ena acepc;;:ao comurn e antiga deste termo, e nao evidentemente na acepc;;:ao derivada e modema