AO JUÍZO DA ____ VARA JUDICIAL DA COMARCA DE SÃO ROQUE/SP
EMENTA. COMUNIDADE QUILOMBOLA DO CARMO,
OFICIALMENTE RECONHECIDA PELA FUNDAÇÃO
CULTURAL PALMARES. ÁREA RETOMADA QUE COMPÕE O TERRITÓRIO TRADICIONAL DO QUILOMBO DO CARMO. PROCESSO DE REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA NO INCRA INICIADO NO ANO DE 2006. SENTENÇA QUE OBRIGOU O
INCRA A ELABORAR RELATÓRIO TÉCNICO DE
IDENTIFICAÇÃO E DELIMITAÇÃO. ENERGIA ELÉTRICA. SERVIÇO PÚBLICO ESSENCIAL. CONTEXTO DE PANDEMIA EM RAZÃO DO NOVO CORONAVÍRUS (COVID-19) QUE EXIGE ISOLAMENTO EM DOMICÍLIO. RISCO À SAÚDE PÚBLICA. PEDIDO LIMINAR E DE MÉRITO DE FORNECIMENTO ADEQUADO, EFICIENTE, REGULAR E CONTÍNUO DE ENERGIA ELÉTRICA EM TERRITÓRIO
TRADICIONAL PARA COMUNIDADE QUILOMBOLA
OFICIALMENTE RECONHECIDA.
A DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO, por meio de seu NÚCLEO ESPECIALIZADO DE DEFESA DA DIVERSIDADE E DA IGUALDADE RACIAL (NUDDIR), presentada pelas/os Defensoras/es Públicas/os signatárias/os, com endereço funcional na Rua Teixeira da Silva, 217, 4º andar, São Paulo/SP, CEP: 04002-905, telefone (11) 94221-0426, email: [email protected], com as prerrogativas de intimação pessoal e concessão de prazo em dobro nos termos do artigo 128, I, da Lei Complementar Federal nº 80/94 c/c Lei Complementar Estadual nº 988/06, vem, à presença de Vossa Excelência, com fundamento no artigo 1º, e 5º, inciso II, ambos da Lei nº 7.347/85, propor a presente
AÇÃO CIVIL PÚBLICA, com pedido liminar, para fornecimento adequado de serviço público de energia elétrica à Comunidade Quilombola do Carmo,
em face da CPFL Energia S.A., CNPJ/MF 04.172.213/0001-51, com sede na Rodovia Engenheiro Miguel Noel Nascentes Burnier, nº 1755, Km 2,5, Parque São Quirino, Campinas/SP, CEP 13088-140, pelos motivos de fato e de direito a seguir expostos.
I - SÍNTESE DA AÇÃO CIVIL PÚBLICA
Trata-se de pedido formulado pela Defensoria Pública em face da CPFL para que a concessionária de energia elétrica preste serviço público adequado, regular e contínuo à Comunidade Quilombola do Carmo, situada na cidade de São Roque. Atualmente, parte da Comunidade do Carmo vive em área retomada, com ocupação consolidada, que compõe o território tradicional reconhecido até mesmo pelo INCRA, responsável pelo processo de regularização fundiária iniciado no ano de 2006. Condenado no ano de 2011, até o momento o INCRA não logrou concluir o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação da Comunidade Quilombola. As famílias quilombolas dispõem apenas de um ponto de energia, utilizado de forma coletiva por 47 moradias, totalmente insuficiente para o abastecimento regular e contínuo, o que acarreta sobrecarga da rede, falta de luz, constantes danos a bens e riscos de acidentes. A Defensoria Pública provocou a CPFL, enviando ofícios, solicitações e pautando em reunião realizada em fevereiro do corrente ano, antes da pandemia do novo Coronavírus, os prejuízos e a violação a direitos fundamentais que a ausência do serviço público ocasionava. Além disso, pontuou que a legitimidade da presença quilombola na área era reconhecida pelo INCRA, órgão responsável pela política de regularização fundiária quilombola. Não obstante a recepção e análise do problema, a CPFL, reiterando manifestações anteriores, à revelia de normas constitucionais, convencionais, legais e até infralegais, respondeu no sentido de que a comprovação da propriedade ou da regularidade da ocupação, não bastando o posicionamento do INCRA, era condição para a ampliação do fornecimento de energia elétrica no local. Por essa razão, e também considerando o contexto de exceção com a pandemia decorrente do novo Coronavírus, que impõe quarentena e política de isolamento no ambiente doméstico, inevitável pedido judicial para que a CPFL seja obrigada a fornecer energia elétrica à Comunidade Quilombola do Carmo, sob pena de perpetuação de padrão de ofensa inadmissível a direitos fundamentais e de risco potencial à saúde das famílias quilombolas e de toda a sociedade.
II BAIRRO DO CARMO: NOME DE SANTA E TERRA DE QUILOMBO
O Bairro do Carmo, em São Roque, é território que acolheu uma das primeiras comunidades quilombolas existentes no estado de São Paulo. A pesquisa empreendida pelo setor de Antropologia do Ministério Público Federal em decorrência do Inquérito Civil Público nº 08123.001448/99-15, instaurado no ano de 1999, desvelou que se trata de quilombo ativo desde o século XVIII.
A maior parte das/os atuais moradoras/es possuem como ancestrais pessoas escravizadas pela Ordem de Nossa Senhora do Carmo, pertencente à Província Carmelita Fluminense, que possuía, desde 1723, uma fazenda de 2.175 alqueires de extensão no local hoje conhecido como Bairro do Carmo.
A fazenda era uma espécie de centro de produção agrícola e criação de animais, abastecendo diversos conventos da Ordem Carmelita. Como não havia convento no local nem presença de religiosos, o quilombo gozou de certa autonomia, servindo não somente à ordem, mas também para o sustento de suas famílias além de inserir-se no mercado local.
1
As ordens religiosas, a partir de 1850, passam a sofrer restrições e controles impostos por leis imperiais, como, por exemplo, a proibição de ingresso de novos frades. Como consequência, a Ordem Carmelita em São Roque adota política de arrendamento da propriedade e da força de trabalho escravizada, cedendo-as ao Barão de Bela Vista, dono de terras na região do Vale do Paraíba.
Com o fim formal do regime escravocrata, as/os quilombolas se libertam e recebem autorização para uso das terras da fazenda da Ordem Carmelita, não sem antes quitarem dívidas da própria Ordem religiosa na região do Bananal, por meio da prestação de serviços.
1STUCCHI, Deborah & FERREIRA, Rebeca Campos. Os Pretos do Carmo diante do possível, porém improvável: uma analise sobre o processo de reconhecimento de direitos territoriais. In: Revista de Antropologia, 53 (2), 2010, p. 751.
Na perspectiva da comunidade, esse episódio, de grande impacto simbólico, político, afetivo e religioso, significou o início do domínio quilombola, cujas/os integrantes se autodenominam filhas e filhos da Santa, de quem são devotas/os e protetoras/es, sobre o território onde se encontra hoje o Bairro do Carmo.
Mas o domínio não selou a paz, muito pelo contrário. Em 1890, a Ordem passou a exigir o pagamento de aluguel. Não satisfeita, a Ordem planeja, em 1912, lotear a terra com pretensão de vendê-la, ingressando com ações judiciais para expulsão das/os quilombolas, que se defendem sob o argumento de que tinham recebido a terra após pagarem a dívida da Santa. A resistência quilombola possibilitou que fossem ouvidas/os em juízo, mas a solução adotada para o fim do conflito foi extremamente desfavorável e abusiva:
Após dois séculos de presença escrava e de décadas de permanência dos seus descendentes ocupando praticamente toda a extensão da Fazenda do Carmo em base ao trabalho familiar, para efeito da celebração dos contratos de compra e venda com a Província Carmelitana Fluminense, a área ocupada por cada família foi reduzida à quarta parte. A maioria foi despejada, migrando para municípios próximos ou continuou a ocupar áreas em família independentemente dos respectivos títulos de propriedade. Os lotes titulados aos negros foram demarcados nas faixas marginais da Fazenda, após a obrigação de abandonar outras benfeitorias existentes e os cultivos estabelecidos em outras áreas, o que reestruturou definitivamente a ocupação das Terras da Santa. Desse modo, grande área fora liberada para venda aos interessados, o que se dera principalmente a partir da década de 1920. Assim, segundo a lógica da quarta parte e no contexto das iniciativas de liberação de áreas para comercialização das terras, o total de 384,5 alqueires, equivalente a 930,49 hectares, foi efetivamente titulado aos descendentes de escravos em 1919, extensão de terras que fora mantida até 1932.2
A partir da década de 1930, inicia-se novo processo de expropriação do território, por meio de invasões de terceiros e expulsões violentas, que repercutem nos jornais locais e até no Sistema de Justiça.
Com a valorização imobiliária da área somada à insegurança fundiária, grupos econômicos se impõem, construindo condomínio de alto padrão que reduz o
território tradicional à área em torno da capela, totalizando apenas 03 alqueires de terra, titulados em 1932 em nome da Igreja.
Nesse momento, relatam os moradores, ainda houve a tentativa frustrada de abarcamento dos limites da pequena vila aos domínios da área que formaria o condomínio vizinho que recebe o emblemático nome de Patrimônio do Carmo. Na década de 1970 esse novo ator inserido no cenário, após negociação realizada com fazendeiro, denominado pelos moradores de a firma, compra porção significativa de terras na área de entorno da capela. O bairro do Carmo, então, encontrava-se cercado, de um lado, pela Fazenda Icaraí e, de outro, pelo novo empreendimento, o condomínio de alto padrão que atualmente representa significativa fonte de renda aos descendentes de escravos da Santa. O residencial consolida-se na década de 1980, estabelecido em meio a crescentes pressões contra as terras ocupadas pelos moradores negros. Relatos atuais indicam que, mesmo o patrimônio restante da Santa, com seus diminutos três alqueires para onde confluíram todos moradores que resistiram no Carmo, foi alvo dos tratores enviados para deitar abaixo as casas. No entanto, a demolição deveria abater somente as casas. Nas propagandas da época destinadas a anunciar os lotes, a Capela do Carmo seria divulgada como atrativo cultural e bem de valor histórico integrante do Condomínio Patrimônio do Carmo disponível ao desfrute dos novos proprietários.3
A trajetória percorrida pelo Quilombo do Carmo até o presente foi permeada por violência e processos de expropriação do território tradicional, reduzido a menos de 1% da área original.4 Sem dúvida essa história marca a memória coletiva e certamente fragilizou laços comunitários, explicando, ao menos em parte, a existência de conflitos internos e as dificuldades de organização política e representação externa.
Apesar de toda violência a que foi submetida a comunidade, a identidade quilombola está presente e o espírito comunitário se manifesta especialmente nas atividades e celebrações religiosas, fornecendo elo e sentido à vida coletiva.
Após ser vítima de agentes que, aproveitando-se da descendência negra, aplicam ações ilícitas e fraudes que foram apuradas e punidas, a comunidade quilombola desperta para a necessidade de organizar-se politicamente, de conquistar credibilidade 3Idem, p. 755.
4 Idem, p. 756:
Como resultado dos processos de expropriação aqui indicados, praticamente a mesma população estimada no início do século XX ocupa, atualmente, 16 hectares oficialmente declarados, equivalentes a pouco mais de 6 alqueires, o que representa área 300 vezes menor do que a efetivamente ocupada em 1900 e 58 vezes menor do que a titulada em 1919 em nome dos descendentes de escravos de Nossa Senhora do Carmo.
externa e de dialogar com instituições e entidades para acesso a direitos fundamentais e políticas públicas específicas.
Em agosto de 2000 a Fundação Cultural Palmares reconhece a Comunidade Quilombola do Carmo e o patrimônio socioambiental a ela associado, expedindo a certidão, entretanto, apenas em março de 2007.
O procedimento no INCRA para regularização fundiária do território quilombola pleiteado, que abarca a área retomada pela comunidade em 2017, iniciou-se em 2006, ganhando o número 54190.002991/2006-06.
Trata-se da 33ª comunidade quilombola na ordem de processos do estado São Paulo no INCRA, num universo total de mais de 1.749 ainda em trâmite,5 o que demonstra a omissão do poder público no cumprimento do preceito constitucional inscrito no artigo 68 do ADCT.
Por esse motivo, o Ministério Público Federal em Sorocaba, que acompanhava a questão desde 1999, ingressa, no ano de 2010, com a Ação Civil Pública nº 0007250-19.2010.403.6110, em face do INCRA, requerendo a conclusão do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação da Comunidade Quilombola do Carmo.
A ação foi julgada procedente em 2011 para condenar o INCRA, o qual, por sua vez, utilizou todos os recursos e medidas possíveis e frequentou todas as instâncias existentes, mas a sentença foi definitivamente mantida após a decisão do Supremo Tribunal Federal em maio de 2017 no Agravo em Recurso Extraordinário nº 1022166/SP. A despeito da determinação judicial que condena o INCRA, até o momento o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação não foi oficialmente concluído.
As condições de vida são insuportáveis para as/os quase 700 quilombolas que resistiram e vivem em torno da capela, situação que gerou, ao longo das décadas, migrações involuntárias de parentes e abandono de atividades tradicionais, como a 5Disponível em: http://www.incra.gov.br/pt/quilombolas.html
agricultura, em razão da falta de espaço e da pressão e assédio externos que desmobilizam a organização comunitária e a luta por direitos.
A partir da década de 1970, o quilombo do Carmo estava cercado, de um lado, pela grande Fazenda Icaraí e, do outro, por um condomínio fechado de luxo. A única terra que restou aos negros foi a área em volta da capela, que totaliza cerca de 3 alqueires (cerca de 7 hectares) de terras. Essa usurpação das terras dos negros provocou, entre outras coisas, a perda da principal fonte de renda e subsistência dos remanescentes de quilombo a agricultura -, visto que, sem terra o suficiente para o cultivo, tiveram que trabalhar em outros setores recebendo salários extremamente baixos.6
III - FÉ CEGA, FACA AMOLADA: DE TERRA DA SANTA A TERRITÓRIO TRADICIONAL QUILOMBOLA
Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia Beber o vinho e renascer na luz de todo dia A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada
O chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada Milton Nascimento e Beto Guedes
Diante da insegurança e da indefinição da situação fundiária, mesmo depois de ordem judicial que obriga o INCRA a regularizar a área, cerca de 45 famílias quilombolas do Carmo, dispersas na região por migração forçada, iniciam, no ano de 2017, processo de retomada de porção, abandonada e desprovida de qualquer função social, que compõe o território tradicional,7
como confirmou o próprio órgão federal.
Abaixo, registros feitos entre 2017 e 2018 por pesquisadores do Instituto Federal de São Paulo da área retomada por famílias do Quilombo do Carmo, localizada às
6MAPA DE CONFLITOS ENVOLVENDO INJUSTIÇA AMBIENTAL E SAÚDE NO BRASIL. SP
Quilombolas do Carmo lutam para que seja concluído o RTID e seus direitos territoriais sejam respeitados de fato. In: http://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/?conflito=sp-quilombolas-do-carmo-lutam-para-que-seja-concluido-o-rtid-e-seus-direitos-territoriais-sejam-respeitados-de-fato. Acesso em 15 de abril de 2020.
7Sobre o processo de retomada da área pertencente ao território tradicional quilombola do Carmo, conferir em: https://www.youtube.com/watch?v=hGG9iqYWAoU&feature=share
margens do quilômetro 48 da Rodovia Bunjiro Nakao:8
8 BASTOS, Guilherme J. O.; OLIVEIRA, Rafael Fabrício de. Patrimônio cultural do Quilombo do Carmo: demarcando no território a memória a partir da cartografia social. In: Scientia Vitae, volume 7, número 23, jan./mar. 2019, p. 57.
O mapa em seguida retrata a ocupação atual do território por famílias quilombolas. A área retomada em 2017 está identificada como número 10.9
O mapa que segue estampa a dimensão do território tradicional do Quilombo do Carmo em fase final de elaboração de RTID pelo INCRA e a área retomada no ano de 2017 está descrita como Ocupação :
10
9Idem. Figura 12 - Mapa social do Quilombo do Carmo e os espaços representativos da memória coletiva. Fonte: Produzido pelos autores, 2018, p. 64.
10Idem. Figura 13 - Mapa social do Quilombo do Carmo e os espaços representativos da memória coletiva. Fonte: Produzido pelos autores, 2018, p. 65.
Em que pese o processo relativamente recente de retomada, trata-se da antiga Fazenda do Carmo (ou Sorocamirim), sem dúvida território tradicional quilombola, em vias de ser regularizado em favor da Comunidade do Carmo.
Forte nesses fundamentos, o INCRA interveio em processos de reintegração de posse ajuizados pela Prefeitura de São Roque e pelo representante do Condomínio Patrimônio do Carmo contra as famílias quilombolas, informando que
estudos preliminares fornecidos pela UFSCar indicam que a área objeto da presente
ocupação integra o território da Comunidade Remanescente de Quilombo do Carmo e será incluída na proposta territorial a ser formalizada pelo RTID, como se pode observar da INFORMAÇÃO/INCRA/SR(08)/F4/Nº 17/2017.
Com base nessa manifestação, o Juízo da 1ª Vara da Comarca de São Roque remeteu os autos nº 1001459-18.2017.8.26.0586 e nº 1002431-85.2017.8.26.0586 à Justiça Federal, que, por sua vez, negou, em 2018, os pedidos liminares formulados pelos autores, nos seguintes termos:
Na descrição do projeto, fl. 106 (ID 2806056) dos autos principais, consta que: A Comunidade Remanescente de Quilombo de Nossa Senhora do Carmo (São Roque/SP), formada por cerca de 170 famílias, ocupa atualmente área de apenas 16 hectares e sua sobrevivência está ameaçada por grandes empreendimentos e especulação imobiliária. Nesse contexto, entendo, em cognição sumária, que
os elementos trazidos os autos não são suficientes para demonstrar que a ocupação se deu na área de posse da Parte Autora, bem como para evidenciar a
área que seria destinada à comunidade quilombola, conforme informação apresentada pelo INCRA. Assim, há evidente litígio coletivo, dependente de procedimento administrativo para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação da propriedade definitiva da terra.
O Processo, que tramita perante a 2ª Vara Federal de Barueri, sob o nº 5002779-25.2017.4.03.6110, conta com a atuação da Defensoria Pública da União em favor da Comunidade Quilombola do Carmo. Em consulta realizada em fevereiro do corrente ano, a Defensoria Pública da União informou à Defensoria Pública Estadual que a situação permanece a mesma e que a presença quilombola na área retomada em 2017 está sólida.
O INCRA, ao apresentar, em abril de 2018, manifestação no referido processo, defendeu a presença quilombola no local, considerando que não provocou nenhum prejuízo ao loteamento Patrimônio do Carmo, porque a demanda de
reintegração recai em parte sobre áreas que foram projetadas para terem destinação pública, não particular, acrescentando, ainda, os seguintes argumentos:
Diante do histórico de perdas do território tradicionalmente utilizado pelos descendentes dos escravos da Província Carmelita, da condição atual da Comunidade do Carmo (superadensamento populacional na Vila do Carmo, dispersão de parte da Comunidade do Carmo por municípios vizinhos...), e constatando que a ocupação dos aproximadamente 4 (quatro) hectares objeto da ação de reintegração de posse em tela possibilita a reaproximação de integrantes da Comunidade do Carmo que moram na Vila com núcleos familiares dispersos no município vizinho de Vargem Grande Paulista/SP, entendemos que a demanda possessória deva ser confrontada. Esse reagrupamento é fundamental para que toda Comunidade Quilombola participe do estudo de Identificação e Delimitação territorial, e retirá-los dessa área, principalmente durante os trabalhos técnicos que compõem o RTID, prejudicaria o andamento desse estudo e atrasaria sua
conclusão. Por todos estes elementos, o interesse da intervenção judicial do INCRA no presente feito, de modo a resguardar o pleito possessório em favor da comunidade remanescente de quilombo do Carmo sobre a área objeto da ação de reintegração de posse, tendo em vista sua pertinência para o território que está em processo de identificação através do TED INCRA/UFSCar.
Para melhor compreensão da situação fática, vale a pena transcrecer excertos da INFORMAÇÃO/INCRA/SR(08)/F4/Nº 17/2017, de 11 de maio de 2017:
De tudo que se pôde depreender até agora dos levantamentos realizados pela equipe da UFSCar, da trajetória histórica de expropriação que afligiu as famílias remanescentes do Carmo e restringiu sua ocupação territorial presente ao espaço da vila, e das demandas apresentadas pelos moradores locais, endossadas pelas famílias que tomaram à frente da ocupação, a área objeto da presente ocupação integra o território da comunidade remanescente de quilombo do Carmo e será incluída na proposta territorial a ser formalizada pelo RTID.
(...)
a) A Vila onde estão concentradas as moradias dos quilombolas do Carmo tem aproximadamente 14 hectares, e sua expansão está limitada ao norte pela Ferrovia e ao sul pelo Loteamento Condomínio Patrimônio do Carmo. A área onde se localiza a ocupação de membros da Comunidade Quilombola do Carmo abrange 9 hectares e é contígua à porção sudeste da Vila, conforme ilustrado ao lado, apresentando forte aptidão para viabilizar a reprodução física, social, econômica e cultural dessa Comunidade, seja como área de expansão habitacional da própria Vila, ou destinada a outras atividades produtivas.
b) Essa área onde foi instalada a ocupação faz parte do processo histórico de expropriação que reduziu o território ocupado e utilizado pelos remanescentes de quilombo do Carmo, de seus mais de 2.000 hectares originais, para os atuais 14 hectares compreendidos pela vila do Carmo. Este processo de expropriação também resultou na dispersão de parte da Comunidade para Vargem Grande Paulista/SP. A área ora ocupada pelos remanescentes, e objeto da ação de
reintegração, tem sido importante para fomentar o reagrupamento da Comunidade, com o estabelecimento de moradias dos integrantes que deixaram a Vila, mas ainda assim integram ao pleito territorial das famílias do Carmo. Esse histórico de expropriação está detalhadamente descrito no Laudo Antropológico sobre a comunidade do Carmo, produzido pelo Ministério Público Federal e juntado ao processo administrativo de reconhecimento e titulação do quilombo do Carmo (nº
54190.002991/2006-06) (...).
c) Os integrantes da Comunidade Quilombola do Carmo formam uma população rural negra, social e economicamente vulnerável, sendo que as moradias estabelecidas na ocupação garante, mesmo que provisoriamente, algum local para habitarem enquanto não se finaliza o RTID do território. Ademais, a área tem
sido utilizada para o cultivo de hortaliças em canteiros comunitários e também como espaço de convivência, sociabilidade e agregação entre as famílias da vila do Carmo e as famílias que estavam fora do território (...).
d) Mesmo com o RTID em fase de elaboração, já é perceptível a importância das áreas radiais à vila do Carmo para a demarcação futura do território quilombola. Os levantamentos de maio deste ano foram concentrados sobre uma área de aproximadamente 350 hectares (mapeados abaixo), e tiveram por foco a construção preliminar de uma proposta dos limites do território condizente com
as informações já levantadas e consolidadas pela equipe da UFSCar. A área da ocupação está inserida nesses 350 hectares, sendo verificado o seu vínculo com a trajetória histórica do grupo e a necessidade de incorporação dessa parcela de 9 hectares na composição do Território Quilombola da Comunidade do Carmo a ser reconhecido.
IV - AS CONDIÇÕES DE VIDA NO TERRITÓRIO TRADICIONAL RETOMADO PELO QUILOMBO DO CARMO E A DEMANDA URGENTE POR ENERGIA ELÉTRICA
A Defensoria Pública, a pedido da comunidade, visitou, no dia 20 de janeiro de 2019, o território quilombola retomado em 2017, instaurando, em seguida, Procedimento Administrativo de Tutela Coletiva no âmbito do Núcleo Especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial. Na ocasião, recebeu informações das lideranças da Comunidade Quilombola sobre a existência de conflitos fundiários e ausência de políticas públicas e direitos sociais, como energia elétrica.
A demanda prioritária é o adequado fornecimento de energia elétrica, pois a Comunidade utiliza apenas um ponto de luz e um relógio para fornecimento de
energia elétrica convencional para todas as 47 famílias hoje no local (conforme fotografia abaixo, enviada pela liderança quilombola Isaque da Cruz), o que provoca sobrecarga no sistema, queima de eletrodomésticos, perda de alimentos perecíveis e riscos de acidentes.
As famílias quilombolas reivindicam a expansão dos pontos de distribuição de energia e a instalação de um relógio para cada moradia, estando dispostas a arcar com o serviço, sem prejuízo da aplicação de tarifa social a quem possui o direito.
A Comunidade também narrou que, por diversas vezes, requerimentos foram enviados por famílias quilombolas e pela associação que as representa, mas a empresa sequer explicitou as razões do indeferimento dos pedidos e da postura de negar a prestação do serviço público. Também chegaram a provocar a ANEEL, que respondeu, por email, que a Resolução nº 414/2010 exige a apresentação de documento de reconhecimento do INCRA da área como quilombola.
Diante do problema, a Defensoria Pública enviou, em fevereiro de 2019, o ofício nº 39/2019 - NUDDIR, no qual requisitou informações sobre a possiblidade de visita de agentes da CPFL à Comunidade Quilombola para realizar a ampliação dos pontos de distribuição de energia elétrica e a instalação de relógios individualizados.
A CPFL retorquiu explicando que recebeu 03 solicitações, recusadas após as vistorias constatarem que se trata de área ocupada. Alegou ainda que os requerimentos descumpriam o artigo 27 da Resolução Normativa nº 414/2010 da ANEEL.
Expedido em março de 2019 novo ofício à CPFL com informações atualizadas sobre a questão fundiária prestadas pela DPU e pelo INCRA, a Defensoria argumentou que, comprovada a ocupação do local por membros de comunidade quilombola, independentemente do reconhecimento oficial da área como território tradicional, deverá o poder público cumprir deveres e prestar serviços essenciais à existência digna da comunidade, não havendo motivo para a negativa de direitos fundamentais, como é o caso do fornecimento de energia elétrica, especialmente em área que já possui rede instalada.
Alegou a Defensoria, nesse sentido, que o Ministério Público Federal consolidou entendimento, por meio do enunciado 24 da 6ª CCR, de que cabível a atuação do MPF pela implementação de políticas públicas destinadas às comunidades tradicionais, independentemente da regularização fundiária e de qualquer ato oficial de reconhecimento.
Todavia, continuou sustentando a concessionária que é imprescindível a apresentação de Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) fornecido pelo INCRA para que a solicitação seja atendida.
Novo ofício à CPFL foi enviado em setembro de 2019, requerendo-se a abertura de processo de diálogo e o agendamento de reunião para pautar o conflito e tentar resolvê-lo extrajudicialmente.
A reunião ocorreu na sede da CPFL em Sorocaba, no dia 17 de fevereiro de 2020, contando com a participação das/os Defensoras/es subscritoras/es, de lideranças do Quilombo do Carmo e dos representantes da concessionária Murilo Rosa e Edson Amaral.
Na oportunidade, a Defensoria Pública reiterou a necessidade de fornecimento adequado de energia elétrica às famílias quilombolas que estão na área retomada, considerando que se trata de ocupação consolidada. Isaque, liderança comunitária, relatou que todas as famílias são quilombolas provenientes do Carmo e que as construções são de alvenaria e madeira, não havendo barracos precários.
A CPFL externou que tem interesse em fornecer o serviço, mas que há formalidades a serem seguidas, como a necessidade de declaração do INCRA de que se trata de território quilombola. A Defensoria reafirmou que o processo de reconhecimento do território está em fase final e que o INCRA já informou formalmente que o local pertence ao território de 350 hectares em processo de regularização fundiária, não havendo dúvidas de que se trata de terra quilombola do Carmo. Sugeriu a Defensoria, por consequência, que poderia obter do INCRA certidão nesse sentido. Por fim, sustentou que a Lei Federal nº 13.645/2017 (Reurb) garante a instalação de serviços básicos mesmo antes do procedimento de regularização fundiária.
Como encaminhamento, a CPFL pediu prazo para consultar o setor jurídico da empresa e fornecer resposta. Em 24 de março de 2020, apresentou posição no sentido de que seria inviável promover o serviço, tendo em vista os conflitos fundiários existentes sobre a área.
Por tudo isso, o presente pedido é inevitável, não podendo a comunidade quilombola, detentora de direitos especiais que estão sendo violados, aguardar, sem qualquer perspectiva de prazo, a boa vontade do poder público e de concessionária de serviço público para ter acesso a direito básico e fundamental à vida digna.
V - LEGITIMIDADE ATIVA DA DEFENSORIA PÚBLICA, PERTINÊNCIA TEMÁTICA E COMPETÊNCIA
A Lei de Ação Civil Pública é instrumento de proteção a direitos difusos e coletivos de qualquer natureza, como dispõe o artigo 1º, inciso IV, da Lei de Ação Civil Pública.
A violação do direito ao mínimo existencial e de gozar de vida digna ocorre na Comunidade Quilombola do Carmo, situada na cidade de São Roque, razão pela qual competente para processar e julgar a causa, nos termos do artigo 2º da Lei de Ação Civil Pública, a Comarca de São Roque.
A Defensoria Pública está expressamente arrolada entre os entes que possuem legitimidade para a propositura deste tipo de ação. Segundo o artigo 134 da Constituição Federal:
A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados.
A Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública, em seu artigo 4º, elenca, como funções institucionais, dentre outras:
VII promover ação civil pública e todas as espécies de ações capazes de propiciar a adequada tutela dos direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos quando o resultado da demanda puder beneficiar grupo de pessoas hipossuficientes;
X promover a mais ampla defesa dos direitos fundamentais dos necessitados, abrangendo seus direitos individuais, coletivos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, sendo admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar sua adequada e efetiva tutela.
A Lei Complementar Estadual nº 988/2006, por sua vez, pontua, no artigo 5º, atribuições institucionais, cabendo destacar a representação em juízo dos necessitados,
na tutela de seus interesses individuais ou coletivos, no âmbito civil ou criminal, perante os órgãos jurisdicionais do Estado e em todas as instâncias, inclusive os Tribunais Superiores.
Vale sublinhar também, como atribuições, a de promover: a tutela dos direitos humanos em qualquer grau de jurisdição, inclusive perante os sistemas global e regional de proteção dos Direitos Humanos; a tutela individual e coletiva dos interesses e direitos da criança e do adolescente, do idoso, das pessoas com necessidades especiais e das minorias submetidas a tratamento discriminatório; ação civil pública para tutela de interesse difuso, coletivo ou individual homogêneo; a tutela dos direitos das pessoas necessitadas, vítimas de qualquer forma de opressão ou violência.
Frise-se que o Núcleo Especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial (NUDDIR) é órgão que compõe a estrutura da Defensoria Pública do Estado de São Paulo que tem por missão adotar medidas, judiciais e extrajudiciais, para o enfrentamento das diversas formas de discriminação, sejam elas interpessoais, estruturais ou institucionais, desde que motivadas por pertença étnico-racial, identidade de gênero, orientação sexual ou condição sorológica, bem como desempenhar ações que possibilitem o exercício pleno da cidadania por negras/os, povos indígenas, comunidades tradicionais, LGBTs e pessoas que vivem com HIV-Aids.
Com vistas à consecução dessa finalidade, o NUDDIR tem atribuição para
propor medidas judiciais e extrajudiciais, para tutela de interesses individuais, coletivos e difusos, e acompanhá-las, agindo isolada ou conjuntamente com os Defensores Públicos, sem prejuízo da atuação do defensor natural!, e para "propor medidas judiciais e extrajudiciais para a tutela de interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos, ou, interesses individuais socialmente relevantes relativos à temática do combate a discriminação, racismo e preconceito#, nos termos, respectivamente, dos incisos II e XVIII, do art. 2º, do seu
Regimento Interno.
Não há dúvida de que a Defensoria Pública tem por escopo promover o acesso à justiça de comunidades vulneráveis.
As comunidades quilombolas ainda são afetadas pelos efeitos duradouros do tráfico transatlântico de africanas/os e da escravização em larga escala de homens, mulheres e crianças afrodescendentes, situação que perdurou por três séculos, até a promulgação da Lei nº 3.353, em 13 de maio de 1888, que aboliu legalmente a escravidão no Brasil. A conquista da liberdade, contudo, veio desacompanhada de medidas estatais de cunho reparatório e voltadas à promoção da justiça distributiva, motivo pelo qual a simples mudança de status legal não impediu que se erguessem diversas barreiras estruturais e institucionais, as quais têm sido responsáveis, ao longo das gerações, por obstruir o gozo de direitos humanos básicos pela população negra, o acesso equitativo a políticas públicas e o exercício pleno da cidadania.
Pode-se dizer que a exclusão socioeconômica, associada ao legado da escravidão e do colonialismo, bem como à omissão histórica do Poder Público brasileiro no que tange à adoção de medidas reparatórias e ao enfrentamento do racismo institucional, têm sido determinantes para a situação degradante a que estão submetidas a maioria das comunidades quilombolas no Brasil, as quais enfrentam obstáculos cotidianos para garantia da sua reprodução física, social , econômica e cultural.
Um estudo promovido pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS)
em 2012, a partir de 169 territórios quilombolas titulados, demonstrou, de forma alarmante, que apenas 5% das famílias quilombolas têm acesso às políticas públicas de financiamento da agricultura familiar, acesso à água e à assistência técnica. Dados do inquérito também revelaram que 47,8% de seus domicílios conviviam com insegurança alimentar grave, o que significa viver com a experiência da fome. 11
Para além da exclusão histórica, tais dados são explicados pelo isolamento geográfico, aliado a baixos rendimentos, analfabetismo, baixo ou mesmo falta de acesso a políticas públicas estruturantes, como o financiamento da agricultura familiar e ausência de assistência técnica, e a situação tende a se agravar em comunidades quilombolas que
11 http://www4.planalto.gov.br/consea/comunicacao/noticias/2017/julho/quilombolas-ainda-enfrentam-situacao-de-inseguranca-alimentar-grave
ainda não têm sequer o seu território titulado, como é o caso do Quilombo do Carmo, que ainda precisa lidar com as fortes pressões e disputas envolvidas no reconhecimento de suas terras, processo que envolve, frequentemente, confronto com poderosos interesses políticos, econômicos e especulativos.
A Comunidade Quilombola do Carmo é grupo historicamente marginalizado e abandonado pela sociedade envolvente e pelo poder público, apresentando concretamente padrão de vida simples, típico de comunidades tradicionais, praticando atividades de subsistência e de baixo impacto ambiental, além de não acessar, atualmente, serviços públicos essenciais à vida digna.
VI - REGIME TERRITORIAL QUILOMBOLA E DEVER DE PROMOÇÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS MESMO ANTES DA TITULAÇÃO
Inegável que a terra e o espaço constituem dimensões integrantes do ser humano, em que desenvolve cultura, modos de existência; estabelece relações com os outros e com o meio ambiente; e de onde retira alimento, subsistência, força e vida. A despeito da inquestionável relevância destas dimensões para a existência humana, a questão territorial e espacial, para as comunidades quilombolas, assume ares dramáticos, de luta por sobrevivência.
Daniel Sarmento salienta que a terra adquire significado especial, condição para a existência étnica, sem a qual $o grupo tende a se dispersar e a desaparecer, tragado pela sociedade envolvente%, afirmando que &quando se retira a terra de uma comunidade quilombola, não se está apenas violando o direito à moradia dos seus membros. Muito mais que isso, se está cometendo um verdadeiro etnocídio'.
12
12
SARMENTO, Daniel. A garantia do direito à posse dos remanescentes de quilombos antes da
desapropriação. Disponível em: file:///C:/Users/mac54/Downloads/Dr_Daniel_Sarmento.pdf. Rio de
Resta evidente que não se trata de instituto com caráter meramente patrimonial, ao gosto da tradição civilista. A discussão vai muitíssimo além do direito individual de propriedade, ou mesmo do direito social à moradia, mas tem conotação imaterial e indisponível, pois envolve direito fundamental de manutenção da cultura, das tradições, dos costumes, dos modos de ser, da existência étnica. Argumenta Cesar Baldi tratar-se de uma (territorialidade cultural), heterodoxo instituto de Direito
Constitucional, que transcende as barreiras do ortodoxo Direito Civil.13
A inserção de direitos quilombolas no texto constitucional (artigo 68 do ADCT e artigos 215 e 216 da Constituição Federal) suscitou celeumas, a começar pela necessidade de ressemantização do conceito congelado de quilombo, passando pela emergência de sujeitos coletivos de direitos e culminando no reconhecimento e afetação de territórios étnico-culturais aos aquilombamentos.
Em texto que retrata momento inaugural do debate, Lucia Andrade e Girolamo Treccani relatam que a *problemática ganha espaço na imprensa; é o objeto de uma série de estudos científicos; gera proposições legislativas em instância federal e estaduais; suscita portarias e iniciativas do Poder Executivo e também as primeiras titulações a partir do ano de 1995+.
14
Desde o início, trabalhou-se com a perspectiva de autoaplicabilidade do artigo 68 do ADCT, o que acabou por se refletir em procedimentos administrativos levados a cabo pelo INCRA e pelos órgãos estaduais para a regularização fundiária de terras quilombolas. Por outro lado, também se percebeu que a concretização dos direitos quilombolas envolvia poderosos interesses antagônicos externos e ,uma série de
negociações internas à comunidade-, tornando o processo extremamente complexo.
15
13
BALDI, Cesar Augusto. A proteção jurídica da territorialidade étnica: as comunidades quilombolas. Revisitando o instituto da desapropriação. Belo Horizonte: Fórum, 2009, p. 35.
14
ANDRADE, Lúcia; TRECCANI, Girolamo. Terras de Quilombo. In: LARANJEIRA, Raymundo (Organizador).
Direito agrário brasileiro. São Paulo: LTr, 1999, p. 595. 15
De fato, a afetação constitucional retira definitivamente a terra da esfera comercial e, portanto, da lógica do capital, atribuindo-a de forma coletiva aos quilombolas. Além disso, empodera grupos historicamente marginalizados e discriminados e que ostentam modos tradicionais de criar, fazer e viver ricos em cultura e em biodiversidade, colocando em xeque o modelo de desenvolvimento imposto pela sociedade hegemônica e pela civilização moderna ocidental.
Ao regulamentar o direito territorial quilombola previsto no artigo 68 do ADCT, em obediência à Constituição Federal e inspirado na Convenção nº 169 da OIT, o Decreto nº 4887/2003 adota como premissa a autoaplicabilidade do artigo 68 do ADCT e a autoatribuição como determinante ao reconhecimento da condição quilombola. Registre-se que autoidentificação é critério, conquanto não exclusivo, determinante para o reconhecimento da comunidade como quilombola, como previsto na Convenção nº 169 da OIT e reiterado no próprio Decreto acima citado, engendrando presunção favorável de veracidade.
É inconcebível que, no âmbito da construção da identidade, sobrelevem critérios heterônomos, estabelecidos por .estrangeiros/ para caracterizar comunidades humanas de que não fazem parte. 0Devemos encontrar alguma outra maneira de assegurar a legitimidade, uma maneira que não continue a definir grupos excluídos em função de uma identidade que outros criaram para eles.1 2 adverte Will Kymlicka (...). O art. 68 ADCT deve ser interpretado como adotante de um critério de autodefinição, a partir das 3práticas dos próprios interessados ou daqueles que potencialmente podem ser contemplados4 (Alfredo Wagner B. de Almeida). Significa que o Direito acata o modo como a própria comunidade implicada estabelece relações de pertinência e 5regula quem faz e quem não faz parte do grupo6 (Arruti, 2003).
16
O procedimento se conclui com a titulação das terras, que será outorgada de forma coletiva e indivisível às comunidades quilombolas, as quais serão representadas por suas associações. O Decreto prevê, para fins de titulação, a desintrusão e a regularização fundiária da área quilombola, indenizando-se benfeitorias em posses de
16ROTHENBURG, Walter Claudius. Direitos dos Descendentes de Escravos. In: SARMENTO, Daniel; IKAWA, Daniela; PIOVESAN, Flavia (Organizadores). Igualdade, Diferença e Direitos Humanos. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008, p. 458.
terceiros de boa-fé e desapropriando-se imóveis quando existentes domínios legítimos por terceiros.
O modelo adotado no Decreto foi avaliado pelo Supremo Tribunal Federal na ADIN 3239 e considerado constitucional, conforme ementa que segue:
ADI 3239 / DF. EMENTA. AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. DECRETO Nº 4.887/2003. PROCEDIMENTO PARA IDENTIFICAÇÃO, RECONHECIMENTO, DELIMITAÇÃO, DEMARCAÇÃO E TITULAÇÃO DAS TERRAS OCUPADAS POR REMANESCENTES DAS COMUNIDADES DOS QUILOMBOS. ATO NORMATIVO AUTÔNOMO. ART. 68 DO ADCT. DIREITO FUNDAMENTAL. EFICÁCIA PLENA E IMEDIATA. INVASÃO DA ESFERA RESERVADA A LEI. ART. 84, IV E VI, "A", DA CF. INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL. INOCORRÊNCIA. CRITÉRIO DE IDENTIFICAÇÃO. AUTOATRIBUIÇÃO. TERRAS OCUPADAS. DESAPROPRIAÇÃO. ART. 2º, CAPUT E §§ 1º, 2º E 3º,
EART. 13, CAPUT E § 2º, DO DECRETO Nº 4.887/2003.
INCONSTITUCIONALIDADE MATERIAL. INOCORRÊNCIA. IMPROCEDÊNCIA DA AÇÃO.
1. Ato normativo autônomo, a retirar diretamente da Constituição da República o
seu fundamento de validade, o Decreto nº 4.887/2003 apresenta densidade normativa suficiente a credenciá-lo ao controle abstrato de constitucionalidade.
2. Inocorrente a invocada ausência de cotejo analítico na petição inicial entre o ato
normativo atacado e os preceitos da Constituição tidos como malferidos, uma vez expressamente indicados e esgrimidas as razões da insurgência.
3. Não obsta a cognição da ação direta a falta de impugnação de ato jurídico
revogado pela norma tida como inconstitucional, supostamente padecente do mesmo vício, que se teria por repristinada. Cabe à Corte, ao delimitar a eficácia da sua decisão, se o caso, excluir dos efeitos da decisão declaratória eventual efeito repristinatório quando constatada incompatibilidade com a ordem constitucional.
4. O art. 68 do ADCT assegura o direito dos remanescentes das comunidades dos quilombos de ver reconhecida pelo Estado a propriedade sobre as terras
que histórica e tradicionalmente ocupam 7 direito fundamental de grupo
étnico-racial minoritário dotado de eficácia plena e aplicação imediata. Nele definidos o titular (remanescentes das comunidades dos quilombos), o objeto (terras por eles ocupadas), o conteúdo (direito de propriedade), a condição (ocupação tradicional), o sujeito passivo (Estado) e a obrigação específica (emissão de títulos), mostra-se apto o art. 68 do ADCT a produzir todos os seus efeitos, independentemente de integração legislativa.
5. Disponíveis à atuação integradora tão-somente os aspectos do art. 68 do ADCT
que dizem com a regulamentação do comportamento do Estado na implementação do comando constitucional, não se identifica, na edição do Decreto 4.887/2003 pelo Poder Executivo, mácula aos postulados da legalidade e da reserva de lei. Improcedência do pedido de declaração de inconstitucionalidade formal por ofensa ao art. 84, IV e VI, da Constituição da República.
6. O compromisso do Constituinte com a construção de uma sociedade livre, justa
e solidária e com a redução das desigualdades sociais (art. 3º, I e III, da CF) conduz, no tocante ao reconhecimento da propriedade das terras ocupadas pelos remanescentes das comunidades dos quilombos, à convergência das dimensões da luta pelo reconhecimento 8 expressa no fator de determinação da identidade
distintiva de grupo étnico-cultural 9 e da demanda por justiça socioeconômica, de caráter redistributivo : compreendida no fator de medição e demarcação das terras.
7. Incorporada ao direito interno brasileiro, a Convenção 169 da Organização
Internacional do Trabalho ; OIT sobre Povos Indígenas e Tribais consagra a "consciência da própria identidade" como critério para determinar os grupos tradicionais aos quais aplicável, enunciando que Estado algum tem o direito de negar a identidade de um povo que se reconheça como tal.
8. Constitucionalmente legítima, a adoção da autoatribuição como critério de determinação da identidade quilombola, além de consistir em método autorizado pela antropologia contemporânea, cumpre adequadamente a tarefa de trazer à luz os destinatários do art. 68 do ADCT, em absoluto se prestando a inventar novos destinatários ou ampliar indevidamente o universo daqueles a quem a norma é dirigida. O conceito vertido no art. 68 do ADCT não se aparta do fenômeno objetivo nele referido, a alcançar todas as comunidades historicamente vinculadas ao uso linguístico do vocábulo
quilombo. Adequação do emprego do termo <quilombo= realizado pela
Administração Pública às balizas linguísticas e hermenêuticas impostas pelo texto-norma do art. 68 do ADCT. Improcedência do pedido de declaração de inconstitucionalidade do art. 2°, § 1°, do Decreto 4.887/2003.
9. Nos casos Moiwana v. Suriname (2005) e Saramaka v. Suriname (2007), a Corte
Interamericana de Direitos Humanos reconheceu o direito de propriedade de comunidades formadas por descendentes de escravos fugitivos sobre as terras tradicionais com as quais mantêm relações territoriais, ressaltando o compromisso dos Estados partes (Pacto de San José da Costa Rica, art. 21) de adotar medidas para garantir o seu pleno exercício.
10. O comando para que sejam levados em consideração, na medição e
demarcação das terras, os critérios de territorialidade indicados pelos remanescentes das comunidades quilombolas, longe de submeter o procedimento demarcatório ao arbítrio dos próprios interessados, positiva o devido processo legal na garantia de que as comunidades tenham voz e sejam ouvidas. Improcedência do pedido de declaração de inconstitucionalidade do art. 2º, §§ 2º e 3º, do Decreto 4.887/2003.
11. Diverso do que ocorre no tocante às terras tradicionalmente ocupadas pelos
índios > art. 231, § 6º ? a Constituição não reputa nulos ou extintos os títulos de terceiros eventualmente incidentes sobre as terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos, de modo que a regularização do registro exige o necessário o procedimento expropriatório. A exegese sistemática dos arts. 5º, XXIV, 215 e 216 da Carta Política e art. 68 do ADCT impõe, quando incidente título de propriedade particular legítimo sobre as terras ocupadas por quilombolas, seja o processo de transferência da propriedade mediado por regular procedimento de desapropriação. Improcedência do pedido de declaração de inconstitucionalidade material do art. 13 do Decreto 4.887/2003.
Ação direta de inconstitucionalidade julgada improcedente. ACÓRDÃO.
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, por maioria, em conhecer da ação e julgar improcedentes os pedidos, nos termos do voto da Ministra Redatora do acórdão, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas. Vencidos, quanto ao conhecimento, os Ministros Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski, e, quanto ao mérito, os Ministro Cezar Peluso, Relator, e, em parte, os Ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Votaram, no mérito, os Ministros Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski. Não votou o Ministro Alexandre de Moraes, por suceder ao Ministro Teori Zavascki, que sucedera ao Ministro Cezar Peluso. Sessão plenária presidida pela
Ministra Cármen Lúcia. Brasília, 08 de fevereiro de 2018. Ministra Rosa Weber, Relatora do acórdão.
Rosa Weber discorre que o regime jurídico do território quilombola apenas espelha o modo de vida tradicional exercido pelos grupos quilombolas, no qual @a própria ideia de um território fechado, com limites individualizados, parece estranha aos moradores dessas comunidadesA (p. 41). O Decreto 4.887/2003, deste modo, em respeito a
esse modo de ser e viver, não cuida de Bapropriação individual pelos integrantes da comunidade, e sim da formalização da propriedade coletiva das terras, atribuída à unidade sociocultural C e, para os efeitos específicos, entidade jurídica D que é a comunidade quilombolaE, tratando-se de título Fcoletivo, pró-indiviso e em nome das associações que legalmente representam as comunidades quilombolas.G (p. 42).
O Ministro Luiz Fux destaca em seu voto (pp. 18-19) que o direito fundamental territorial quilombola cumpre diversas funções, possuindo dimensão social (direito à moradia), cultural (perpetuação da comunidade) e transindividual (interesse da sociedade):
Com efeito, o art. 68 das Disposições Constitucionais Transitórias prevê autêntica norma de direito fundamental, cuja essência sobressai por uma série de fatores.
Primeiramente, o direito das comunidades quilombolas às suas terras representa importante mecanismo de garantia do direito à moradia, plasmado no art. 6º da Constituição, com redação dada pela EC nº 26/00. Assegura-se, com isso, espaço físico indispensável para adequada sobrevivência e desenvolvimento do grupo social. Mais além: para comunidades tradicionais, a terra possui um significado completamente peculiar, insuscetível de reduzir-se às ordinárias feições de mercadoria dotada de valor econômico. A terra é o elemento de unidade e coesão do grupo, que permite sua continuidade e preservação no tempo, através de sucessivas gerações, possibilitando a manutenção da cultura, dos valores e do modo peculiar de vida da comunidade étnica. A terra integra a própria
identidade coletiva do grupo e é indispensável para sua perpetuação. Daí por
que o direito resguardado pelo art. 68 do ADCT consubstancia, em verdade, além de direito social elementar (moradia), importante direito fundamental cultural, protegido pelos arts. 215 e 216 da Constituição da República. Diante disso, a preservação da cultura e do modo devida das comunidades quilombolas revela-se interesse público de elevada magnitude, integrante do patrimônio cultural da nação brasileira (CRFB, art. 215, caput e §1º c/c art. 216 caput e §5º). Tal
circunstância confere ao direito previsto no art. 68 do ADCT incontestável dimensão transindividual, voltada para a conservar as múltiplas identidades étnicas formadoras da sociedade brasileira. Esses elementos são suficientes para demonstrar a patente jusfundamentalidade material de que se reveste
o direito à terra titularizado pelas comunidades quilombolas. De fato, embora
encartado em dispositivo formalmente estranho ao catálogo de direitos fundamentais(previsto no Título II do texto constitucional brasileiro), o direito assegurado pelo art.68 do ADCT insere-se naquele rol pela previsão de abertura consagrada no art. 5º, §2º, da Constituição, segundo a qual Hos direitos e garantias
expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parteI.
Não obstante a disciplina normativa que tutela as comunidades quilombolas, inclusive na esfera estadual, o movimento quilombola, que estima a existência de mais de 3.000 comunidades no Brasil, avalia Jque a atuação governamental ainda está muito aquém do necessário para garantir o direito à terra, previsto nos artigos 13 e 14 da Convenção K 169 da OITL.
17
Diante de tão cruel realidade, não causa espécie a manifestação do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em voto proferido pelo Desembargador Federal Johonsom Di Salvo, no agravo de instrumento nº 2006.03.00.029172-9/SP, envolvendo a Comunidade Quilombola de André Lopes, situada no Vale do Ribeira:18
No Estado de São Paulo são contabilizadas 48 áreas quilombolas, mas ao que se sabe apenas cinco delas receberam títulos de terra regularizando documentalmente aquilo que a Constituição assegura. É que a burocracia governamental sofre pressão dos agronegócios para negar ou retardar a regularização fundiária dos quilombos; isso alia-se ao racismo declarado da sociedade brasileira que, paradoxalmente, embora miscigenada, discrimina os negros.
17 JESUS, Jhonny Martins de. Governo federal entrega quilombolas aos leões. In: Direitos Humanos no
Brasil M Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. São Paulo, 2008, p. 123.
18 TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 3ª REGIÃO. Revista TRF 3ª Região, nº 98, nov. e dez./2009. Disponível em: http://www.trf3.jus.br/trf3r/fileadmin/docs/revista/re/Rev-98.pdf. Acesso em: 20 de janeiro de 2017, p. 239-257. O acórdão aprecia questão relativa a projeto de turismo empresarial na Caverna do Diabo, território quilombola de André Lopes, que seria implementado pelo governo do Estado de São Paulo em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, à revelia da comunidade. A estimativa do Banco Interamericano, que investiria 15 milhões de dólares para concretizar o projeto, era de que a região receberia 300 mil turistas por ano. O Tribunal manteve decisão do Juízo da 4ª Vara Federal de Santos no sentido de impedir o prosseguimento do projeto, em função da ausência de participação das comunidades quilombolas afetadas e envolvidas com o turismo de base comunitária, hoje importante fonte de renda. Questiona o Tribunal: NE o que será da rica cultura dos descendentes de escravos que moram na zona rural da região, as comunidades quilombolas de Ivaporunduva, Pedro Cubas, André Lopes (ora agravada), São Pedro, Sapatu, Nhunguara? A Secretaria do Meio Ambiente e o Banco Interamericano de Desenvolvimento não pensaram neles, como se observa do documento de fls. 60/81, redigido no espanhol próprio dos atos desse último organismoO.
O território ocupado por quilombos merece proteção independentemente de reconhecimento oficial do território como pertencente à comunidade e de indenização e desapropriação das terras de particulares, potencializando-se a concretização do direito fundamental dos quilombolas aos seus territórios étnicos, na perspectiva da força normativa da Constituição, da aplicação direta (artigo 5º, parágrafo 1º, da CF), do reconhecimento da dimensão objetiva, da eficácia irradiante e horizontal dos direitos fundamentais.
Além do exercício do direito territorial, necessária a concretização de direitos fundamentais quilombolas mesmo na ausência de regularização fundiária do território:
A afirmação escapa da obviedade, se encerrar a advertência de que os direitos fundamentais independem da regularização fundiária. Enquanto essa regularização não vier e mesmo que ela não aconteça, os direitos fundamentais constituirão exigência autônoma e impostergável. Por isso, é inválido o
estabelecimento da condição de regularização da propriedade das terras ocupadas pelas comunidades remanescentes de quilombos, para que elas sejam contempladas com saneamento básico ou escola pública, por exemplo.
Mencione-se ainda o direito metaindividual, pertencente a todos, de desfrute cultural, representado pela singularidade das comunidades remanescentes de quilombos. (...) Todos esses direitos das comunidades remanescentes de quilombos trazem a memória da injustiça passada, mas sobretudo carregam a esperança da justiça futura.19
Daniel Sarmento é muito feliz e certeiro ao se valer da figura da afetação, instituto do Direito Administrativo, para PenquadrarQ juridicamente a situação que se
coloca com a previsão constitucional do direito fundamental à preservação da cultura e dos territórios pertencentes às comunidades de quilombos, que podem, assim, Rse valer de todos os instrumentos processuais adequados à efetivação e à proteção do seu direito à posse do território étnico, mesmo antes da desapropriação, e até independentemente dela, contra o proprietário ou contra terceirosS.
20
Essas ideias reforçam a tese defendida neste pedido, de que o instituto da afetação, que é utilizado para impedir a retomada por particulares de
19ROTHENBURG, Walter Claudius. Ob. cit., 2008, p. 468-469. 20SARMENTO, Daniel. Ob. cit., 2006, p. 03.
áreas que tenham sido empregadas pelo Estado em finalidades públicas, pode ser aplicado para proteger a posse dos quilombolas antes do advento da desapropriação, uma vez que não há finalidade mais importante, sob a perspectiva constitucional, do que a garantia de direitos fundamentais e da dignidade humana de um grupo vulnerável como os quilombos.21
Trata-se, no caso, de destinação pública de bem determinada pelo Poder Público, ao positivar a garantia prevista no artigo 68 do ADCT, cristalizando-se domínio que não pode ser revertido ou questionado por particulares. A afetação constitucional criada em 1988, quer por imposição do artigo 68 do ADCT, quer em razão de tombamento previsto no artigo 215, parágrafo 5º, da Constituição Federal, veda a prescrição aquisitiva por meio da usucapião, pois transforma o território em bem público.
O INCRA, com fulcro em parecer do Ministério Público Federal, expediu a nota técnica nº 01/2007,22
em que assim recomenda:
NOTA TÉCNICA/GAB/PFE/INCRA N° 01/2007. INTERESSADO: PRESIDENTE DO INCRA.
ASSUNTO: COMUNIDADES REMANESCENTES DE QUILOMBOS. DIREITO À POSSE DAS TERRAS ANTES DA EFETIVA DESAPROPRIAÇÃO.
SÍNTESE: Comunidades remanescentes de quilombos. Análise do parecer do Ministério Público Federal. Direito à posse das terras antes da efetiva desapropriação. Intervenção do INCRA nas ações possessórias. Aplicação do art. 15 do Decreto n° 4.887/2003. Recomendações.
(...)
17. O instituto jurídico da afetação, utilizado no âmbito do Direito
Administrativo, pode ser aplicado, da mesma forma, para proteger a posse das áreas quilombolas, uma vez que se entende que são áreas afetadas pelo constituinte originário.
(...)
23. Em suma, a proposta do MPF é tratar a questão da posse das terras quilombolas da mesma forma que se trata o direito possessório na desapropriação indireta. O particular não poderia reivindicar as terras ocupadas pelos quilombolas, uma vez que sua destinação pública já fora conferida pelo poder constituinte originário, restando apenas ao mesmo o direito de receber indenização do Estado pela privação do uso dessas terras.
24. A interpretação que se deve conferir ao art. 68 do ADCT é a de que as
comunidades remanescentes de quilombos têm o direito à ocupação de suas
21Ibidem, p. 08.
22 INCRA. Nota Técnica/GAB/PFE/INCRA nº 01/2007. Disponível em:
terras, independentemente de haver ação de desapropriação ajuizada, podendo utilizar todos os instrumentos de defesa possessória contra o próprio proprietário e contra terceiros.
25. Ademais, se os títulos em nome dos particulares forem inválidos, deve-se garantir o direito à posse das terras quilombolas, mesmo que não haja ajuizamento de ação desconstitutiva de títulos registrados, não cabendo, por óbvio, qualquer indenização ao TproprietárioU.
Nesse sentido, o Ministério Público Federal consolidou entendimento institucional, por meio do enunciado 20 da 6ª CCR, de que as Vcomunidades remanescentes de quilombos têm direito à proteção possessória de suas terras independentemente de processo administrativo correlato, cabendo ao MPF defender esse direito.W
Mais específico, o enunciado 24, da mesma 6ª CCR, determina Xa atuação do MPF pela implementação de políticas públicas destinadas às comunidades tradicionais, independentemente da regularização fundiária e de qualquer ato oficial de reconhecimento.Y
Comprovada a ocupação do local por membros de comunidade quilombola, independentemente do reconhecimento oficial da área como território tradicional, deverá o poder público cumprir deveres e prestar serviços fundamentais à existência digna da comunidade, não havendo motivo para a negativa de direitos fundamentais, como é o caso do fornecimento de energia elétrica, especialmente em área que já possui rede instalada e processo de regularização fundiária em fase avançada.
Em outras palavras, considerando que o direito previsto no art. 68 do ADCT possui incontestável dimensão transindividual voltada para a conservação das múltiplas identidades étnicas e manifestações culturais formadoras da nação brasileira Z o
que milita a favor não apenas das comunidades quilombolas, mas também do próprio povo brasileiro, que vê preservado o patrimônio histórico-cultural do país-, do que decorre a patente jusfundamentalidade material de que é revestido o direito à terra titularizado pelas comunidades quilombolas, não havendo como justificar-se a negativa de
fornecimento de energia elétrica à Comunidade do Carmo, por se tratar, tal serviço público essencial, de condição indispensável para a reprodução física, cultural e social da comunidade, sem o qual resta inviabilizado não apenas o seu desenvolvimento, como a sua própria existência. Assim, a negativa de fornecimento de energia elétrica pela CPFL não pode deixar de ser enquadrada como uma forma de etnocídio.
Para além dos fundamentos constitucionais e convencionais elencados, cumpre sublinhar que a legislação infraconstitucional vigente não condiciona o fornecimento de um serviço básico e essencial à emissão de RTID pelo INCRA ou à titulação do território, desde que haja cobrança dos serviços prestados.
Assim, a ausência de finalização do procedimento que visa a expedição de título de propriedade em favor da Comunidade Quilombola do Carmo não impede o fornecimento de energia elétrica. Para obtenção do serviço, basta apenas que a posse seja exercida de forma pública, mansa e sem oposição válida. Desnecessário discorrer longamente para atestar a presença de tais atributos no presente caso.
Os elementos técnicos trazidos à tona pelo INCRA, após pesquisa antropológica, demonstram o caráter centenário e público da posse, eis que sua origem remonta ao século XVIII, sucedendo-se um processo histórico, amplamente documentado, de expropriação que reduziu o território ocupado e utilizado pelo Quilombo do Carmo, de seus mais de 2.000 hectares originais, para os atuais 14 hectares compreendidos pela Vila do Carmo.
O ânimo de ser dono (animus domini) é evidente, já que a posse exercida coletivamente pelos quilombolas sobre o imóvel está fundamentada na relação ancestral mantida especificamente com aquele território, a qual é constitutiva da identidade étnica e cultural do grupo. Assim, há um vínculo pretérito com o território, registrado através da memória coletiva, que se projeta necessariamente para o futuro, assumindo caráter definitivo, vez que a terra é elemento sem o qual não é possível a reprodução física, social, cultural e econômica do quilombo, constituindo-se como recurso indispensável a sua
própria sobrevivência enquanto grupo etnicamente diferenciado. Tal vínculo goza, como já dito, de guarida constitucional (ADCT, art. 68; CF, art. 215 e 216) e convencional (Convenção 169 da OIT).
Para além dos aspectos ressaltados, o ânimo de ser dono também está exteriorizado por meio dos atos de posse exercidos pelos quilombolas, que vêm descritos na INFORMAÇÃO/INCRA/SR(08)/F4/Nº 17/2017, de 11 de maio de 2017, a qual assinala:
[a área ora ocupada pelos remanescentes tem sido importante para fomentar o
reagrupamento da Comunidade, com o estabelecimento de moradias dos integrantes que deixaram a Vila, mas ainda assim integram ao pleito territorial das famílias do Carmo\, e
](...) tem sido utilizada para o cultivo de hortaliças em canteiros comunitários e também
como espaço de convivência, sociabilidade e agregação entre as famílias da vila do Carmo e as famílias que estavam fora do território^.
Ademais, a posse é mansa e pacífica, inexistindo qualquer tipo de oposição válida em relação ao seu exercício, seja porque o INCRA informou que _(...) a área objeto da
presente ocupação integra o território da Comunidade Remanescente de Quilombo do Carmo e será incluída na proposta territorial a ser formalizada pelo RTID (...)`, seja porque,
forte nesses fundamentos, foram indeferidos os pedidos liminares para que fosse expedida ordem de reintegração de posse ajuizados tanto pelo Município de São Roque quanto pelo Condomínio Patrimônio do Carmo contra as famílias quilombolas.
A decisão proferida pelo Juízo da 2ª Vara Federal de Barueri, prolatada em 19 de janeiro de 2018, consignou, de forma escorreita, aque os elementos trazidos os autos não são suficientes para demonstrar que a ocupação se deu na área de posse da Parte Autora[Município de São Roque], bem como para evidenciar a área que seria destinada à comunidade quilombola, conforme informação apresentada pelo INCRA. Assim, há evidente litígio coletivo, dependente de procedimento administrativo para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação da propriedade definitiva da terra.b