REVISIONISMO HISTÓRICO E JURIDICIZAÇÃO DO PASSADO
Fernando Santana de Oliveira Santos*
O recente veto presidencial à lei que regulamenta a profissão de historiador é sintomático do incômodo provocado pelo trabalho de historiadores ao atual governo. O motivo alegado para o veto foi uma possível ofensa à liberdade de expressão. Não parece que a razão tenha sido mesmo esta, afinal, estamos falando do governo que mais promoveu ataques à imprensa no Brasil em contexto democrático. É mais provável que o veto tenha relação com o fato de que historiadores honestos têm enfrentado o desafio de retrucar “revisões” à historiografia apoiadas e institucionalizadas pelo bolsonarismo, que, a bem da verdade, são mentiras. Felizmente, o veto foi derrotado e a lei nº 14.038, de 17 de agosto de 2020, foi promulgada. Mas, os desafios profissionais não se encerram aí. Defender nosso campo de trabalho e combater o desvirtuamento da finalidade de pesquisar, escrever e ensinar a história são, permanentemente, imperativos profissionais, compromissos públicos e exigências éticas. Assim como profissionais da saúde não podem tolerar que a propagação de desinformações ponha em dúvida a existência de uma pandemia e os perigos de um vírus, historiadores também não devem tolerar que mentiras sejam produzidas e divulgadas sob o rótulo de história.
Os fatos passados, sobre os quais se debruçam os historiadores, segundo Hobsbawm (2013, p. 11), podem se tornar matéria-prima para ideologias nacionalistas ou étnicas e fundamentalistas; e, mesmo quando não há um passado satisfatório ao seu desenvolvimento, sempre é possível inventá-lo. O passado pode cumprir uma tarefa legitimadora do presente, fornecendo “um pano de fundo mais glorioso a um presente que não tem muito o que comemorar”. Logo, discutir os usos do passado é também discutir a estruturação do poder por meio da elaboração de memórias. Não se trata apenas de inventar ou negar uma realidade, mas de construir uma memória histórica que possa ser compartilhada por uma coletividade. Para tanto, as manipulações do passado precisam se afirmar como verdade e não como ficção ou uma interpretação possível; são apresentadas como verdade “nova”, jamais revelada ao público, ou como correção às “mentiras” ditas por quem, geralmente, está no campo político oposto.
Hoje, falar em uma verdade histórica, em determinados âmbitos da teoria da História, soa como uma tentativa de retirar das catacumbas um cadáver que fora trancado e esquecido para que não pudesse mais assombrar a “Ciência nova”. As necessárias críticas ao positivismo,
à crença de que, por meio da aplicação de técnicas, seria possível isolar sujeito e objeto e neutralizar as subjetividades na produção do conhecimento, reiteradas pelas gerações de historiadores que sucederam o grupo dos Annales, parecem ter levado embora a preocupação da História com a verdade. Para historiadores como Hayden White, por exemplo, seria possível construir verdades a partir da eficácia da narrativa, ou seja, da possibilidade de justificar um texto de modo que fosse legitimado por uma comunidade de leitores/ouvintes. Assim, a distinção entre verdade e ficção não operaria fora da linguagem; seria delineada pela capacidade de argumentação e convencimento. No entanto, conforme ressalta Ginzburg (2007, p. 12-13), se por um lado, os historiadores precisam lidar com fontes permeadas por subjetividades, por outro, o dever de escavar “os meandros do texto, contra as intenções de quem os produziu” é, justamente, o que torna capaz refutar esse ceticismo radicalmente antipositivista.
O fato é que, na História, a noção de verdade parece ter se tornado incômoda a ponto de que falar dela, sem realizar inúmeras ressalvas, provoca mal-estar. É um contrassenso, pois aqueles que falseiam e manipulam o passado não se constrangem em dizer que enunciam verdades. Se a verdade como dogma não se sustenta diante do contínuo trabalho de pesquisa, crítica e revisão, que é próprio de qualquer Ciência, isso não significa dizer que a ideia de verdade deve ser abandonada. O status que a ela era atribuído é que perdeu sentido, diante do reconhecimento das limitações humanas e da provisoriedade da interpretação de fenômenos. Historiadores não podem prescindir de usar a ideia de verdade quando produzem ou falam sobre o seu trabalho, pois os falsificadores da história não se sentem tolhidos a abandoná-la e, certamente, não é possível combater essas supostas verdades com apenas “discursos” pinçados do saco de retórica dos pesquisadores. A verdade precisa ser compreendida como um compromisso ético do historiador e a aceitação de um conjunto de regras que permitem afirmar a autenticidade de seu trabalho. Se essas regras necessitam ser atualizadas e discutidas, que o faça sem suprimir aquilo que separa a honestidade de um pesquisador do ardil de um mentiroso. Segundo Hobsbawm (2013), nas universidades ocidentais, tem ocorrido a ascensão de “modas intelectuais” que consideram todos os fatos como construções intelectuais, sem distinguir fato e ficção. No entanto, para o historiador britânico, os historiadores, inclusive antipositivistas mais intransigentes, precisam ser capazes de diferenciá-los, pois é regra básica de seu ofício não inventar os fatos com que trabalham. Todo o impasse se resolve pela existência de evidências confiáveis: quando elas existem, é possível escrever a história; quando não, pode-se apenas construir narrativas romanescas. As tentativas de substituir a história pelo mito e a
invenção não são apenas piadas intelectuais de mau gosto. Elas servem a políticas de identidades que, historicamente, definiram etnias, religião e fronteiras nacionais e legitimaram discursos da superioridade de uns sobre os outros. É, justamente, nesse ponto que se pode situar a historiografia dita revisionista.
Para Vidal-Naquet (1988), o revisionismo histórico presta-se à elaboração de versões alternativas a interpretações históricas consagradas. Há casos em que essas versões, ainda que discutíveis, são orientadas por uma ética e prática histórica. No entanto, não é o que ocorre, por exemplo, com os negacionistas do genocídio hitlerista, que buscam tão só substituir uma verdade dolorosa por uma mentira “tranquilizadora”. A atitude revisionista tal qual apresentada consiste na reelaboração de evidências históricas e mesmo na falsificação de uma “verdade histórica”, com o objetivo de “privar ideologicamente uma comunidade do que representa sua memória histórica” (VIDAL-NAQUET, 1988, p. 40).
O empreendimento revisionista, no seu sentido anticientífico, não está de fato preocupado com “outra explicação”, mas em criar um mundo de ficção e apagar acontecimentos históricos incômodos (VIDAL-NAQUET, 1988). Por isso, talvez seja mais adequado, inclusive, falar em negacionismo ao invés de revisionismo, mesmo nos casos em que o falseamento da história não chega a negar todas as evidências sobre uma realidade. Assim, é possível distinguir o trabalho legítimo de revisão da historiografia daquele que se presta a falsificá-la. Ademais, o revisionismo que se tem criticado aqui, antes de “revisar” fatos históricos, negam princípios que subsidiam a própria Ciência. Serão utilizados aqui os dois termos com um mesmo sentido: o de falseamento intencional do passado. Deixarei para fazer em outra oportunidade uma definição mais precisa de por que a opção pelo conceito de negacionismo se mostra mais adequada.
No Brasil recente, o uso político do passado se acentua com o bolsonarismo no poder. A política obscurantista, que também nega os riscos da pandemia de Covid-19 e relativiza a devastação ambiental, propõe-se a reescrever a história nacional e a criar um contraponto à historiografia academicamente produzida, que, na visão bolsonarista, se reduziria a um viés ideológico das esquerdas brasileiras. A negação de que, entre 1964 e 1985, o Brasil viveu uma ditadura que perseguiu, torturou e matou milhares de pessoas é uma das mentiras mais alimentadas pelo presidente da República e por muitos de seus aliados. Ao invés de crimes, os governos que se sucederam nesse período, segundo essa versão, teriam garantido desenvolvimento econômico, paz social e uso correto do dinheiro público. Não se trata,
evidentemente, apenas de criar outra interpretação dos fatos, mas de falsear a história para, a partir de um passado supostamente ordeiro e sem corrupção, mitificar no presente a figura de um militar que pretende ser o baluarte da moralidade e livrar o Brasil de governos de esquerda que estariam assaltando os cofres públicos.
Outro exemplo do revisionismo patrocinado pelo bolsonarismo é a relativização da escravidão no Brasil e de seus efeitos para o aprofundamento da desigualdade social entre negros e brancos no presente. Ainda na campanha presidencial, em entrevista ao programa Roda Viva, na TV Cultura, ao criticar as cotas nas universidades, Bolsonaro afirmou que não havia dívida histórica a reparar com a população negra e ainda: “Se for ver a história realmente, os portugueses nem pisavam na África, eram os próprios negros que entregavam os escravos”. A fala do presidente se alinhava à insatisfação de boa parte de seu eleitorado com os programas de ações afirmativas desenvolvidos pelos governos anteriores. De acordo com pesquisa etnográfica realizada pela Fundação Escola de Sociologia e Política, sob a coordenação de Isabela Kalil (2018), que acompanhou grupos em mobilizações e redes sociais entre 2016 e 2018, a insatisfação com as cotas universitárias se repete entre diferentes perfis de apoiadores de Bolsonaro, que acusavam a política pública de desrespeitar a meritocracia e estimular a vitimização.
Os usos do passado não é um fenômeno que importa apenas a historiadores. Em geral, servem à construção de hegemonias e ao estabelecimento de domínios políticos, em detrimento de comunidades socialmente marginalizadas, a exemplo de negros e indígenas. As interferências no jogo político e a deslegitimação de políticas públicas, conforme se exemplificou, sugerem que o problema precisa ser debatido em outras esferas além dos círculos de pesquisadores da história. Uma alternativa é enfrentá-lo por meio da juridicização do revisionismo histórico nos casos mais graves, ou seja: usar leis e decisões judiciais para combater um revisionismo que se destina a desqualificar a trajetória histórica dessas comunidades ou ainda a negar fatos dolorosos, que podem ser caracterizados como crimes contra a humanidade, a exemplo do holocausto judeu, do genocídio indígena, da diáspora africana e da tortura praticada pelos governos militares. A questão é controversa e divide opiniões de juristas e de historiadores.
Nesse sentido, distinguem-se dois tipos principais de legislação: leis memoriais e leis antinegacionistas. As do primeiro grupo são as mais comuns, definem eventos a serem lembrados, datas e acontecimento considerados importantes para uma sociedade; o seu
conteúdo oscila entre o simbólico e o comemorativo. Já leis antinegacionistas visam reprimir a produção e a divulgação de discursos que negam ou relativizam acontecimentos históricos dolorosos e, geralmente, são estabelecidas sob a forma de norma penal. De certo modo, estas últimas são espécies das do primeiro grupo, pois também cumprem a tarefa de impedir que eventos históricos importantes sejam esquecidos. Ambas podem ser utilizadas para produzir um efeito reparador às vítimas de violação de direitos, decorrentes de processos de exclusão e de tragédias do passado (SPIGNO, 2017).
As leis antinegacionistas tornaram-se frequentes na Europa a partir da última década do século XX. Em países como Alemanha, França, Bélgica, Áustria, Portugal e Suíça, foram instituídas leis voltadas a coibir a propagação do negacionismo histórico (FRONZA, 2011). A mais conhecida talvez seja a Lei Gayssot (Lei 90-615, de 13 de julho de 1990), da França, que incluiu o art. 24bis à Lei de Liberdade de Imprensa (Lei de 29 de julho de 1881) e pune com um ano de prisão e multa de € 45.000 quem nega e banaliza crimes contra a humanidade (FRANÇA, 1990). A legislação foi criticada por um grupo de historiadores franceses, que publicaram um manifesto afirmando que não caberia ao parlamento nem ao judiciário definir a verdade histórica e que, mesmo com a melhor das intenções, a política de Estado não pode ser a mesma política da história. Leis como essa, na análise dos subscritores, restringem a liberdade dos historiadores, ao dizer quais análises históricas são legítimas (AZÉMA et. al., 2005).
No Brasil, há um projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados sob o nº 987, de 8 de março de 2007, de iniciativa do deputado federal Marcelo Itagiba, que equipara à prática de racismo a negativa do holocausto e de outros crimes contra a humanidade (BRASIL, 2007). A matéria versada no projeto de lei, no entanto, já foi objeto de análise pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento do habeas corpus nº 82.424, concluído em 2003. Por oito votos a três, a Corte confirmou a condenação do escritor e editor Siegfried Ellwanger pela prática de racismo por divulgar ideias antissemitas mediante a negação de fatos históricos tidos como incontroversos (referentes ao holocausto), com o intuito de inferiorizar e desqualificar o povo judeu. A maioria dos ministros concluiu que a liberdade de expressão não consagra o “direito” à incitação ao racismo (BRASIL, 2003).
Segundo o historiador Enzo Traverso (2012), as revisões do passado destinadas a obscurecer a luta dos subalternizados e a recuperar a imagem de ideologias nefastas como a do nazismo e a do fascismo devem ser combatidas, pois ultrapassam os limites da historiografia como disciplina científica e questionam uma consciência histórica compartilhada, influindo na
relação que cada país estabelece com seu passado. Porém, sobre as formas de combate, Traverso duvida da efetividade das leis antinegacionistas. Segundo ele, elas podem se revelar perigosas, sob o ponto de vista de que instituem uma verdade histórica oficial a ser protegida pelos tribunais. Assim, ao invés de somente combater “assassinos da memória”, cria-se o risco de transformá-los em vítimas de censura.
No mesmo sentido, a jurista Emanuela Fronza (2011) argumenta que não cumpre ao direito penal construir e reconstruir uma versão da história, conflitando com a autonomia individual. Assente que são graves e deploráveis as intenções dos negacionistas, visto que atacam os fundamentos da democracia. No entanto, considera que buscar a verdade por meio da verdade legal é uma solução falsa, visto que cria o risco de seguir o mesmo mal que pretende combater (a agressão aos fundamentos da democracia). O enfrentamento ao negacionismo, para a autora, exige um longo caminho, um compromisso em nível de consciência política e civil, e não um caminho breve, como o ofertado pela via criminal.
Irene Spigno (2017) também reputa inadequada a juridicização do conhecimento histórico como meio de repressão ao negacionismo. Embora reconheça que a liberdade de expressão não deve funcionar como meio de difusão de uma determinada versão da história com o intuito de discriminar e ofender, avalia que as leis antinegacionistas obrigam juízes a atuarem como juízes da história, decidindo qual versão do passado é mais fidedigna. Além do risco de os julgadores utilizarem categorias contemporâneas do direito para ler fatos do passado, essas leis poderiam impor a eles o dever de lidar com uma metodologia que está fora de seus domínios. Ademais, argumenta que essa alternativa reduz a autonomia do historiador, criando o risco de predeterminar arbitrariamente resultados que são próprios da pesquisa histórica. Para a jurista, mesmo as leis memoriais, que não preveem sanção criminal à sua violação, aparentemente inofensivas, podem ser fortemente limitantes das liberdades de expressão, pois, ao exigirem o dever de lembrar certos eventos históricos, limitam a liberdade de investigação e ensino.
Das discussões apresentadas até aqui, podemos extrair três principais argumentos contrários à juridicização do revisionismo histórico: risco de restrição à liberdade de expressão; inabilidade de juízes para usarem o método historiográfico e assim decidirem sobre a versão mais fidedigna do passado; risco de que memórias oficiais sejam instituídas. Esses argumentos, no entanto, ainda não parecem suficientes para que rejeitemos a possibilidade de juridicização do revisionismo anticientífico nos casos mais graves, em que o conhecimento histórico é
utilizado para veicular discursos de ódio, fortalecer pautas antidemocráticas e acobertar crimes contra a humanidade.
Quanto à liberdade de expressão, o argumento utilizado com maior frequência por historiadores e juristas, compreendo que, em nenhum sentido, seja como norma de direito positivo ou como valor estimado em uma sociedade democrática, ela se traduz como preceito absoluto. Direitos fundamentais como este não devem ser entendidos como dádiva de governantes e legisladores, mas como conquistas decorrentes de lutas iniciadas no passado que continuam ativas no presente. Portanto, precisam ser compreendidos historicamente. No Brasil recente, apenas a título de exemplo, na transição de um regime ditatorial para o democrático, a liberdade de expressão foi reivindicada como direito que precisava funcionar como um dos pilares do novo regime, sobretudo porque o período anterior foi marcado por graves violações a legítimas manifestações de opinião e pensamento. Jamais se reivindicou o direito de manifestar mentiras e falsas acusações nem de veicular discursos de ódio. Sendo assim, a liberdade de expressão não deve funcionar como escudo para proteger mentiras e intolerâncias, nem mesmo quando elas se apresentam sob o rótulo de história.
A inabilidade de juízes para decidir sobre a verdade histórica é um argumento forte e pertinente. Pelo menos, a grande maioria dos juízes não domina adequadamente técnicas de pesquisa para validar interpretações históricas. Porém, não é essa a hipótese criada pelas leis e decisões judiciais que reprimem o revisionismo anticientífico. Em todos os casos citados aqui, partiu-se da compreensão de que está suficientemente provado que eventos e processos históricos ocorreram e que a sua negação intenta produzir discursos de ódio ou acobertar crimes contra a humanidade. São situações que juízes têm o dever funcional de reprimir, pois ultrapassam os limites da livre manifestação de pensamento, independentemente de serem produzidos ou não sob uma fachada historiográfica. Não se trata de juízes decidirem se o golpe de 1964 foi militar, civil-militar ou empresarial-militar, por exemplo. Esse é um debate profícuo e uma disputa política que historiadores devem promover de modo saudável, por meio da crítica historiográfica. Por outro lado, juízes têm o dever institucional de não concordar que a dor de familiares de vítimas dos horrores da ditadura possa ser banalizada através de homenagens a ditadores patrocinadas pelo Estado.
Sobre o terceiro argumento, o de que a juridicização do revisionismo anticientífico promove o risco de oficializar versões da história, é preciso matizá-lo, pois apenas de um certo modo pode expressar algum perigo real ao livre debate historiográfico. Todas as sociedades
humanas, em alguma medida, selecionaram eventos e processos históricos para serem lembrados na posteridade, seja por meio de datas comemorativas, monumentos, currículos escolares etc. É uma situação que historiadores não podem resolver; mas podem e devem criticar e desmascarar oficializações indevidas da história pelos governos. Digo indevidas porque precisamos reconhecer que nem todas as oficializações são inadequadas. A lei de diretrizes e bases da educação (lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996), por exemplo, estabelece em seu art. 79-B que “O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’” (BRASIL, 1996). Assim, a norma oficializa a data atribuída à morte de Zumbi dos Palmares como marco importante a ser incluído no calendário escolar. Evidentemente, historiadores e educadores em geral devem evitar a “folclorização” do 20 de novembro, mas, dificilmente, poderão rejeitar a importância de lembrar marcos históricos como esse. Penso, inclusive, que a presença de historiadores na seleção dessas “lembranças oficiais” é mais interessante do que o simples abandono do debate.
Considero que os argumentos contrários à juridicização do revisionismo anticientífico até então conhecidos são frágeis ou, pelo menos, não foram suficientemente explorados. No caso das leis antinegacionistas, aquelas que instituem penas à negação ou relativização de crimes contra a humanidade, um debate à luz da ineficácia de políticas criminais parece mais pertinente, especialmente se considerarmos quem são os principais alvos do direito penal. Essa é uma crítica possível e que, inclusive, pode ser desenvolvida por historiadores, pois conhecem os processos históricos que explicam o fato de grupos subalternizados serem mais acessíveis ao braço repressor do Estado, enquanto uma elite consegue mobilizar meios para se esquivar de punições. Aqui se pode falar de um risco potencial, pois a própria história o demonstra. Ao contrário de riscos improváveis, pelo menos em contextos em que a democracia ainda suspira, como a violação da liberdade de expressão e da liberdade de pesquisa de historiadores honestos. Por outro lado, as leis memoriais, aquelas que criam marcos de lembrança para uma sociedade, podem ser potentes veículos de promoção de uma memória democrática e de mobilização de frentes contra o negacionismo. A título de exemplo, recentemente, o Conselho de Ministros espanhol aprovou um projeto de lei, denominado Lei da Memória Democrática, que pretende promover reparação moral às vítimas do franquismo, recuperar a memória desse período, repudiar e condenar o golpe de 18 de julho de 1936 e a consequente ditadura. Para tanto, entre outras ações, prevê a proibição de associações e fundações realizarem apologia ao ditador Francisco Franco ou incitarem ódio contra as vítimas de sua ditadura (ESPANHA,
2020). Não há dúvida de que leis como essa, de alguma forma, oficializam uma verdade: a de que a ditadura de Franco cometeu crimes que devem ser reparados. Algum historiador honesto discordaria dessa interpretação histórica? Creio que não. E, nesse sentido, a legislação ainda dificulta que absurdas negações do processo histórico e de suas consequências possam ser utilizadas politicamente.
Quanto ao uso de decisões judiciais como meio de enfrentamento ao revisionismo histórico que pode configurar crime de ódio ou atentado contra o regime democrático, considero que elas são necessárias, pois, nessas situações, como adiantei, juízes não avaliam a veracidade de interpretações históricas. Acontecimentos como o holocausto, a escravização de negros, a matança de indígenas, os crimes da ditadura iniciada em 1964, entre outros, já foram suficientemente provados por historiadores e pesquisadores de outras áreas. Não há verdade a ser “descoberta” por juízes, portanto. Nesses casos, juízes, após a devida provocação, devem agir porque é dever funcional deles cumprir leis e, nesse sentido, já existem normas que punem racismos, injúrias, intolerâncias religiosas e outras discriminações e segregacionismos, assim como existem leis que punem atos atentatórios ao regime democrático.
É tentador concordar com Fronza (2011) em relação à afirmação de que o combate ao negacionismo exige um longo caminho, construído pela conscientização, e não um caminho breve, como o ofertado pela via criminal. Não duvido de que o caminho longo, que envolve o combate historiográfico, o trabalho educativo, a promoção de debates qualificados e a ocupação de espaços públicos como redes sociais, plataformas de streaming, publicações não academicistas e outros veículos de comunicação por historiadores honestos, produz resultados efetivos e duradouros. No entanto, também estou convencido de que apenas promover a educação, fortalecer a autoridade pública de historiadores ou promover espaços especializados e qualificados de debates (assim como qualquer alternativa isolada) não são suficientes para enfrentar um fenômeno perigoso e, por vezes, criminoso como a manipulação do passado, conforme a política obscurantista no Brasil atual tem demonstrado. A gravidade dos riscos sociais e políticos, que começaram a ganhar concretude em face do bolsonarismo, exige a sensibilização de mais combatentes e a construção de novas frentes de luta. Ademais, apostar apenas em um “caminho longo” pode ser demorado e angustiante demais para os familiares das vítimas da ditadura e para grupos minoritários desrespeitados e oprimidos pelas mentiras proferidas pelos negacionistas. Os ofendidos têm pressa, pois, nem sempre, o tempo cura.
Apesar das eventuais falhas dos mecanismos da democracia liberal para a implementação de direitos, historiadores não devem rejeitá-los sem antes analisar verdadeiramente as suas consequências, pois os negacionistas da história não abdicam nem mesmo desses mecanismos para promover suas mentiras. Não participar dessa discussão pode permitir que ela se encaminhe da pior forma possível para a História e os historiadores. O conhecido caso da historiadora Deborah Lipstadt, que originou o livro e o filme Negação ilustra essa preocupação. Lipstadt, após publicar um livro criticando trabalhos que negavam o holocausto, foi interpelada judicialmente, sob a acusação de difamação, pelo inglês David Irving, um dos autores revisionistas desmentidos na obra. A historiadora e seus advogados decidiram, como meio de defesa, promover a exceção da verdade, ou seja, demonstrar que a verdade estava do lado da acusada. Irving saiu derrotado após provarem que ele usava mentiras sobre o holocausto para disseminar ódio contra os judeus (LIPSTADT, 2017). Se Lipstadt e seus advogados tivessem se limitado a dizer que um tribunal não é espaço adequado para discutir uma evidente verdade histórica, haveria grandes chances de que ela fosse condenada e que uma mentira prevalecesse.
Nesse sentido, estou firme de que a possibilidade de juridicização dos usos indevidos do passado não pode ser abandonada de forma apriorística pelos historiadores. Menos ainda deve ser rejeitada com base apenas em argumentos fatalistas, que, sem qualquer aprofundamento, preveem que historiadores serão demitidos da tarefa de pesquisar e escrever sobre o passado. Rejeitei argumentos apressados e fatalistas, mas não descarto que outros debates mais densos possam vir a invalidar a alternativa discutida. Acredito que somente podemos descartá-la se restar suficientemente demonstrado que os ganhos no enfrentamento ao revisionismo anticientífico são onerosos demais para serem suportados pela Ciência histórica. Conhecer a história da juridicização do negacionismo e suas consequências concretas parece um bom ponto de partida para aprofundar esse debate.
REFERÊNCIAS
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*
Mestre em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana e doutorando em Estado e Sociedade pela Universidade Federal do Sul da Bahia.