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Secretaria multidisciplinar municipal: necessidade ou utopia

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TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO – RELATÓRIO TÉCNICO

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SECRETARIA MULTIDISCIPLINAR MUNICIPAL:

Necessidade ou Utopia

Sérgio Azevedo dos Santos – [email protected] – UFF/ICHS

Resumo

Este trabalho parte da visualização da necessidade de se existir uma Secretaria Multidisciplinar, dentro de uma estrutura de governo municipal. O modelo utilizado de Secretarias Especializadas (Ensino, Saúde, Educação, etc.) delimita as necessidades dos cidadãos de baixa renda, em especial, dentro do seguinte questionamento: quando houver a necessidade da atuação de mais de uma Secretaria Especializada, como o cidadão deve se orientar? Utilizando-se como laboratório a Cidade de Belford Roxo, verificou-se a existência de uma quantidade significativa de pessoas que necessitam do suporte emergencial de mais de uma Secretaria de Governo ao mesmo tempo, o que acarreta uma sobrecarga nos serviços, além de uma satisfação parcial das necessidades dos munícipes nessa situação. Partindo dessa premissa, utilizando como metodologia básica a entrevista semiestruturada, verificou-se a necessidade da existência de uma Secretaria, no nível municipal, que atenda a mais de um segmento concomitantemente, de modo a suprir os anseios dos chamados “cidadãos multiproblemas”, qual sejam, aqueles que precisam do suporte de mais de um órgão governamental simultaneamente. Este Relatório Técnico visa demonstrar a viabilidade da existência desse tipo de Secretaria que atenda a mais de um segmento dentro de uma estrutura governamental.

Palavras-chave: Secretaria; Multidisciplinar; Munícipes; Belford Roxo. 1 - Introdução

É fato que o crescimento ordenado das cidades brasileiras, sejam elas de pequeno, médio ou grande portes, não acompanha o ritmo de crescimento da população. De igual modo, o atendimento aos munícipes é enormemente prejudicado por essa defasagem, mormente no tocante aos serviços básicos oferecidos pelos governos, dentre os quais a habitação, a saúde e a educação.

“A dimensão da tragédia urbana brasileira está a exigir o desenvolvimento de respostas que devem partir do conhecimento da realidade empírica para evitar a formulação das ideias fora do lugar tão características do planejamento urbano no Brasil”. (Maricato et al., 2000).

Segundo Maricato (2000), a desigualdade social é um dos males que acompanham o crescimento urbano. Independente do porte do município e de sua qualidade média de vida sempre existirão pessoas que necessitarão de um cuidado especial e diferenciado. No entanto, por determinação legal, a obrigatoriedade de prestação desse serviço é pelo governo. Em que pese inúmeras Organizações Não Governamentais (ONG) se prestarem a serviços socioassistenciais nas áreas em que um governo não cumpra totalmente sua obrigação, a responsabilidade pelo bem-estar social sempre será debitada do governo.

E nesse contexto os problemas se multiplicam de tal modo que, mesmo com a existência dessas ONG, cresce assustadoramente o número de pessoas que estão necessitadas e mesmo

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2 até dependentes dos serviços prestados pelos entes públicos. E, pior, as necessidades não são sentidas em apenas uma área social, mas em várias ao mesmo tempo. E o poder público, como se situa? O Administrador Público deve pensar e formular modelos de sociedade, onde a igualdade nas ações e preservação da dignidade humana sejam metas e não utopias. Como deve agir o cidadão que, em dado momento de sua vida, necessite do apoio governamental concomitantemente em área distintas como moradia, educação, saúde e trabalho? Esses questionamentos fizeram o autor refletir e a buscar uma solução para não apenas amenizar, mas tentar resolver as dificuldades e transtornos causados por idas e vindas das pessoas necessitadas aos diversos órgãos municipais, no afã de alcançar uma solução para seus anseios. Dessa forma, o problema de pesquisa, razão de ser deste trabalho, é: Qual a melhor gestão municipal para auxiliar os chamados cidadãos “multiproblemas”, quais sejam, aqueles que precisam do suporte de mais de um órgão governamental simultaneamente.

A população de Belford Roxo é constituída basicamente por pessoas de classe média baixa, com bolsões de pobreza, com aproximadamente 7,5% dos habitantes vivendo sem nenhum tipo de renda mensal (IBGE, 2010).

Outro dado importante é a classificação do município dentro do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB. Segundo essa classificação, Belford Roxo ocupava, no biênio 2007/2009, a 4.091ª posição dentre os 5.564 municípios reconhecidos no território nacional. (Ministério da Educação – INEP – 2010).

Importante ressaltar que, segundo o IBGE em seu Censo de 2010, o município possuía aproximadamente 25% de seus domicílios sem acesso à rede de água e 18% sem nenhuma forma de esgoto sanitário.

Um fato de fácil observação é o cidadão perder sua noite de descanso enfrentando filas para conseguir ser atendido em uma determinada Secretaria de Governo. É comum que esse mesmo cidadão tenha que comparecer a diversas Secretarias na tentativa de resolver os problemas que o afligem. Existe a possibilidade de que, fruto de avaliação, a raiz dos demais problemas seja uma só e, uma vez atacada essa causa, as consequências deixem de existir.

Assim, existindo apenas uma única frente assistencial, o “cidadão multiproblemas” poderia a ela recorrer, reduzindo o acúmulo de solicitações de um único munícipe a diversos órgãos, ao passo que permite também ao governo manter um controle assistencial mais precisa e atuante.

Diante do exposto o objetivo geral do trabalho é identificar a necessidade da implantação de uma Secretaria Multidisciplinar no município, com gerência nas áreas de moradia, educação, saúde e trabalho. Para alcançar o objetivo geral desse trabalho os objetivos específicos foram perseguidos:

- Identificar os ”cidadãos multiproblemas” e suas necessidades;

- Relacionar as necessidades identificadas junto aos “cidadãos multiproblemas” com os respectivos Órgãos do Governo responsáveis por sua condução; e

- Demonstrar a importância e a adequabilidade da criação de uma Secretaria Multidisciplinar para o atendimento do cidadão com múltiplos problemas.

Seguindo os ensinamentos de Minayo (1992), o trabalho de campo será baseado em entrevistas e observações “in loco” nas áreas detectadas como de “abaixo da linha de pobreza”. A entrevista não será a simples aplicação de um questionário, mas sim o desenvolvimento de conversa entre o entrevistador e entrevistado, de modo a se conseguir informações que a simples resposta em um questionário não seria suficiente, enquadrando-se,

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3 então, como uma “entrevista semiestruturada”. Como complemento ao levantamento de dados, tenciona-se utilizar a técnica da “observação participante” como meio de agregar valores aos dados colhidos por meio de entrevistas.

2 – Apresentação do Caso

Já faz parte do senso comum dizer que um trabalho de pesquisa inicia-se com a percepção de certo desconforto por parte do pesquisador. É dever do governo – e será focado aqui o governo municipal – a oferta de serviços à população. Contudo, cresce exponencialmente o número de pessoas que necessitam, para a solução de seus problemas, de mais de um serviço concomitantemente.

E o desconforto parte da seguinte indagação: Por que não existe uma única Secretaria para o acompanhamento e resolução dos problemas dos munícipes que necessitam, ao mesmo tempo, da interveniência de mais de duas secretarias governamentais concomitantemente?

No Município de Belford Roxo há uma demanda cada vez maior de pessoas com necessidades assistenciais diversas; contudo, não existe nenhuma Secretaria Multidisciplinar para tais situações, como também não há implantado – e nem idealizado – programa conjunto entre as Secretarias de Governo para o atendimento psicossocial da população.

A Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SEMASDH) acompanha casos de pessoas que necessitam, ao mesmo tempo, de amparo social, pois estão abaixo da linha de pobreza; de moradia minimamente decente, pois moram em barracos sem saneamento, água potável ou iluminação; de assistência médica, pois todos estão com doenças as mais variadas; de apoio educacional, pois as crianças estão fora de escolas/creches.

Contudo, essa Secretaria não tem competência legal, nem aporte financeiro, para solucionar esses casos. Tão logo identificados e cadastrados, esses cidadãos são encaminhados para as demais Secretarias, a quem competem, dentro da atual estrutura administrativa, equacionar esses casos.

Este Relatório tem como pretensão fazer com que haja uma reflexão quanto à necessidade da existência, dentro de uma estrutura governamental a nível municipal, de uma secretaria com multifunção, ou seja, um órgão com poderes não apenas para propor programas e projetos afins, que continuariam a cargo da secretarias-tipo, mas com poder decisório e com o instrumental necessário para a concreta resolução dos casos a ela direcionados.

A finalidade desse novo órgão governamental seria também a do atendimento propriamente à parte mais fragilizada da população, evitando idas e vindas desse cidadão aos diversos órgãos em que resida sua necessidade, assim como permitiria um acompanhamento mais preciso da resolução desses problemas, amenizando, ou mesmo acabando, com os fatores que desencadeiam tais necessidades, propiciando uma vida mais digna a essa pessoa ou família.

Com uma população estimada em mais de 500.000 habitantes distribuídos em 79 km² (cerca de 6.400 hab/ km²), Belford Roxo faz parte da região Metropolitana do Rio de Janeiro, tendo como vizinhos os municípios de Nova Iguaçu, São João de Meriti, Mesquita e Duque de Caxias. O atual Prefeito é o Sr. Dennis Dauttmam, eleito no último pleito em 2012. A estrutura de Governo está montada com as seguintes Secretarias Municipais: Governo; Administração; Obras; Assistência Social e Direitos Humanos; Esporte e Lazer; Cultura e Turismo; Serviços Públicos; Habitação e Urbanismo; Captação de Recursos; Educação; Meio

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4 Ambiente; Saúde; Fazenda; Controle; Ciência e Tecnologia; Assuntos Especiais; Políticas Públicas; Comunicação; Comunicação Social; Trabalho e Juventude; e Desenvolvimento Econômico.

A Economia ainda está, em grande parte, pautada no comércio local, a Indústria Química Bayer do Brasil figurava como a grande empresa da cidade. Todavia em março de 2015 a empresa informou que irá fechar uma das três unidades que mantém no município – a Material Science. Mesmo com esse desfalque, observa-se, contudo, uma entrada de grandes empresas varejistas (Casas Bahia, Ponto Frio, entre outras), além da existência atual de um Shopping Center, recém-inaugurado, no centro comercial de Belford Roxo.

O Município possui inúmeros “bolsões de pobreza”, sendo essas áreas as potencialmente merecedoras de atenção especial por parte do governo municipal, no que diz respeito à gestão social.

Como exemplo, nos bairros de Albuquerque, Aldeia da Felicidade, Apolo 12, Bacia, Buraco da Onça, Foice, Itaipu, Jardim do Ipê, Jardim Maringá, Jardim Xavante, José da Planície, Parque Boa-Sorte, Parque Maringá, Parque Pica-Pau, Recantus e Três Setas, há necessidade premente da presença mais marcante do Setor Público.

Figura 1 – Mapa de Belford Roxo – Caracterização de Áreas de Favelas - 2010 Fonte: http://www.achetudoregiao.com.br/rj/Belford_Roxo/mapa.htm

3. Referencial Teórico

A criação de uma secretaria multidisciplinar é baseada na ideia da intersetorialidade dentro da esfera governamental. A intersetorialidade “... tem como objetivo atender o cidadão e a família de forma integral, assim como visualizar a “administração pública como um todo”” (NAVARRO, 2011). Não há como o administrador público se preocupar apenas com uma parcela da população sob sua responsabilidade. Toda a comunidade (município, estado,

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5 nação) tem que dispor dos mesmos serviços ofertados, em quantidade e qualidade idênticas. O que ocorre com frequência é a dificuldade maior com que a população de baixa renda tem em usufruir desses serviços.

A intersetorialidade é considerada como um modelo ainda embrionário de gestão pública. A dificuldade maior de sua efetiva implementação decorre não apenas do desconhecimento do governo das reais necessidades da parcela da população com menor capacidade aquisitiva, mas também dos atuais moldes de gestão político-partidária. Essa proposta requer um aprofundamento nas raízes dos problemas e, de início, de grande investimento do Setor Público, tanto no esquadrinhamento dos fatores geradores dos problemas como, também, da cooperação entre os setores governamentais envolvidos, principalmente no compartilhamento de metas e recursos, cada vez mais escassos.

O assunto já foi alvo da composição de um documento por parte da Câmara dos Deputados, em 2008. O entendimento desse tema por parte do Legislativo Nacional é que há a necessidade de “Discutir formas de ampliar e aperfeiçoar a responsabilidade da gestão pública é uma exigência da sociedade. Mais ainda quando se focaliza o município, lugar por excelência de exercício da cidadania.” (BRASIL, 2008).

Ainda, segundo Navarro (2011), há de se atentar para a problemática da falta de comunicação entre os setores governamentais para se implantar os conceitos de intersetorialidade, pois, com baixa informação, a qualidade dos serviços tende a se empobrecer. O grande – senão único – problema da intersetorialidade é que ela:

(...) deve ser entendida como um modelo de gestão que tem como valor fundamental a totalidade do cidadão e da família quanto à oferta a serviços públicos e acesso a direitos sociais. Sua definição quanto às estratégias e metas em uma política pública precisa estar definida claramente. Caso contrário, corre-se o risco de incorrer em uma “guerra de inimigos” caminhando em direção oposta a proposta da intersetorialidade. (NAVARRO, 2011, pag. 27)

Dessa forma, vislumbra-se que o problema da intersetorialidade poderia ser resolvido com a cultura de uma secretaria multidisciplinar. O entendimento é de que, uma vez constituído, esse órgão passa a ter total gerência sobre os casos a ele responsabilizados. Esses casos poderiam ser advindos ou por triagem feita pelas secretarias afins ou pelo simples acesso dos “cidadãos multiproblemas”.

Contribuindo também de forma significativa para o desenvolvimento deste estudo estão os escritos de Frey (1996). O uso da emoção como instrumento político levou ao entendimento de que a administração pública pode – e deve - ter uma real preocupação (emocional) com os munícipes situados abaixo da linha de pobreza, gerando com isso um bem-estar social que poderá ser mensurado pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Município. Hoje Belford roxo ocupa a 71ª posição entre as 92 cidades que compõem o Estado do Rio de Janeiro, segundo o Censo de 2010 (BRASIL, 2010).

3.1 – Órgãos Envolvidos

As peculiaridades deste Relatório implicam no contato direto com as seguintes secretarias de governo:

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6 b) Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos;

c) Secretaria de Habitação e Urbanismo; d) Secretaria de Educação;

e) Secretaria de Políticas Públicas; f) Secretaria de Trabalho e Juventude; e g) Secretaria de Desenvolvimento Econômico.

O contato com esses órgãos diz respeito principalmente à montagem de um Grupo de Estudos que busque o mapeamento dos “cidadãos multiproblemas”, além de delinear a operacionalidade da secretaria a ser criada, de modo a se encontrar uma harmonia funcional dentro da estrutura de governo.

3.2 – Considerações Gerais

Observa-se nos dias atuais um número cada vez maior de favelas – ou como é socialmente correto mencionar, as “comunidades” – aparecerem e passarem a fazer parte do contexto social, situação essa que pode provocar um crescimento urbano desordenado e, com isso, o aumento de casos em que ficam caracterizadas desigualdades sociais. É fato conhecido que os serviços oferecidos pelos governos municipais atingem mais diretamente àqueles que estão na chamada “classe média” da sociedade.

Segundo Frey (1996), não é por falta de crescimento que existem as desigualdades, mas sim a existência de uma “estrutura social singularmente perversa e desigual”. E isso em parte se dá pela exclusão política de boa parte da população, exclusão essa que se estende às demais áreas da vida social – educação, moradia, saúde, etc.

O Município de Belford Roxo apresenta grande desigualdade social, assim como o restante do país. O número de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza, além de grande, tende a aumentar face às dificuldades enfrentadas por aquelas que, sem oportunidades decentes de emprego e com baixa escolaridade, encontram local para fixar suas residências nas ruas ou em áreas não saneadas.

Rebouças (2014) afirma que 15,1% da população brasileira vive abaixo da linha de pobreza, percentual esse não muito distante da realidade belforroxense. Mesmo com o incremento de programas sociais, como o Bolsa Família não há uma melhora significativa em qualidade de vida para essa parcela da população que, nessa mesma matéria, a Presidente Dilma esperava acabar até ao final do ano de 2014, o que não ocorreu.

Cabe aqui relembrar que o “Bolsa Família” é um programa social com o intuito de ajudar as famílias com um valor que medeia entre R$ 32,00 até R$ 306,00, balizados pela renda familiar, idade e quantidade de filhos (BRASIL, 2013). Agregados a esse programa estão outros, como o Bolsa Escola, Auxílio Gás e Cartão Alimentação.

O Censo realizado pelo IBGE em 2010 divulgou que impressionantes 16,27 milhões de pessoas estavam, àquela época, em situação de extrema pobreza em nosso país (BRASIL, 2010).

Segundo esse Censo, a população parda e negra é maioria absoluta nessa situação. Fica evidente que a desigualdade social passa obrigatoriamente pela desigualdade racial, tão combatida em nosso país. Não é diferente hoje em nosso Município.

A situação da saúde dessa parcela da população também é merecedora de atenção. Existe em Belford Roxo um programa de cunho nacional chamado de Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ-AB). Em síntese, esse

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7 programa tem o objetivo de estabelecer um padrão de qualidade na assistência básica na saúde. Todavia, não basta apenas dar à população abaixo da linha da pobreza uma assistência médica básica, se os fatores que propiciam essa condição de vida permanecem.

De que adianta essa assistência confrontada com a realidade dessa parcela da população, com moradias inadequadas, sem saneamento e água encanada? Essa é a realidade, por exemplo, das pessoas que vivem em lixões ou aterros sanitários, em busca de algo que possa ser convertido em dinheiro para poder se alimentar, ou infelizmente, saciar seus vícios. Belford Roxo tem habitantes nessas condições. O Lixão no Bairro Recantus é um exemplo que o Poder Público deve trabalhar – e muito – para a mudança desse quadro de pobreza absoluta.

Figura 2 – Catadores de lixo em aterro sanitário

Fonte: http://www.aspasiacamargo.com.br/v2013/midia/noticias/422-lixo-ilegal-em-belford-roxo

Há um consenso que o crescimento das despesas públicas ligadas às políticas sociais é inferior ao necessário. Contudo, a aplicação dessa verba também não é direcionada aos mais necessitados.

O governo se preocupa em manter uma Unidade de Saúde em determinado bairro, mas não se preocupa, a priori, se todos daquele bairro estão sendo atendidos, independente da situação social em que se encontram.

Observa-se com muita frequência que os bairros mais favorecidos financeiramente são, também, os de melhores condições de salubridade e, por extensão, os de maior investimento governamental na manutenção dessa infraestrutura, em detrimento aos bairros menos abastados que padecem no esquecimento.

Para ilustrar, no Município de Belford Roxo existem mais de 32.631 residências sem abastecimento de água (26,82%) e outras 23.874 (19,63%) sem esgoto sanitário. Há, também,

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8 dado mais alarmante, mais de 250.000 pessoas (cerca de 53,4%) sobrevivendo sem renda fixa ou com até 1 salário-mínimo vigente. (BRASIL, 2010).

O quadro que se apresenta é o crescimento vertiginoso de famílias que necessitam de diversos serviços ofertados pelo governo e, por não haver um acompanhamento individual por família necessitada, acabam por não consegui-los em sua plenitude.

4 – Plano de Ação

Vislumbra-se que as Secretarias de Saúde; de Assistência Social e Direitos Humanos; de Habitação e Urbanismo; de Educação; de Políticas Públicas; de Trabalho e Juventude; e de Desenvolvimento Econômico, existentes na atual estrutura de governo do município de Belford Roxo, podem fazer parte da proposta de criação de uma Secretaria Multidisciplinar, principalmente oferecendo a demanda, para a que pretensiosamente poderá ser chamada de “Secretaria da Cidadania”.

O foco desse elemento organizacional estará justamente na chamada “faixa cinzenta”, onde as áreas de atuação das outras secretarias tangenciam, mas não se aprofundam, acarretando com isso soluções parciais que em pouco ajudam a mudar o quadro de desigualdade social no município.

Essa Secretaria, apesar de não ter ingerência nas outras, teria total liberdade de ação com os casos comprovados de famílias abaixo da linha da pobreza, amparando-as e auxiliando-as visando promover a mudança desse quadro.

Para tanto, deve-se criar um Grupo de Estudos com esse objetivo, visando especificamente:

- Demonstrar a necessidade da existência de uma Secretaria Multidisciplinar no nível de governo municipal.

- Identificar os problemas mais comuns que afligem a população de baixa renda no Município de Belford Roxo;

- Relacionar os problemas identificados com os respectivos Órgãos do Governo;

- Estudar a possibilidade da criação da Secretaria da Cidadania para o atendimento do cidadão com múltiplos problemas;

- Propor soluções para uma adequabilidade da criação desse novo Organismo, como, por exemplo, a disponibilização de recursos financeiros, de material e de pessoal para as ações coordenadas, além da alocação de verba orçamentária para a sua operacionalidade.

Importa frisar que a criação desse novo elemento na estrutura organizacional do município não implicaria na extinção dos demais. Seria um órgão a mais, atuando junto às demais secretarias, liberando-as dos casos mais complexos afetos aos “cidadãos multiproblemas”.

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TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO – RELATÓRIO TÉCNICO 9 O que fazer (what) Onde (where) Por quê (why) Quando (when) Quem (who) Como (how) Quanto irá custar (how much) Reunião de crítica com o Governo Municipal. Gabinete do Prefeito Necessidade de concordância do Prefeito. Pelo menos 30 dias antes de se iniciar o trabalho de campo. Líder da Equipe do Projeto. Apresentação multimídia. R$ 300,00 para confecção material de apresentação, deslocamento e refeições. Levantamento das necessidades sociais mais comuns. Bolsões de pobreza no Município. Confrontar a teoria com a realidade. Pelo menos 30 dias após a aprovação do Prefeito. Equipe do Projeto. Utilização de questionários e/ou entrevistas, além de registro fotográfico e filmagens. R$ 2.000,00 para deslocamentos e refeições. Identificação das Secretarias envolvidas. Gabinete do Prefeito Levar ao conhecimento a apresentação do detalhamento feito em campo para aprovação do Prefeito. 60 dias após o término do trabalho de campo, para elaboração do Relatório final. Equipe do Projeto Apresentação multimídia R$ 500,00 para confecção do material de apresentação, deslocamento e refeição para a equipe do projeto. Apresentação da Proposta de Criação da Secretaria da Cidadania. Câmara Municipal Aprovação legal. Necessidade real da população. Imediatamente após o “aprovo” do prefeito. Gabinete do Prefeito Apresentação de Projeto de Lei para criação da nova Secretaria e suas atribuições. R$ 100,00 para confecção do material de apresentação e deslocamento.

Tabela 1 – Plano de Ação para Desenvolvimento do Projeto de Criação da Secretaria da Cidadania – 5W2H

Elaborada pelo Autor 5 – Resultados da Pesquisa de Campo

Foi realizada uma pesquisa de campo em dois bairros do Município de Belford Roxo, Jardim do Ipê e Recantus, totalizando 100 entrevistas, 50 de cada bairro. A escolha foi uma opção pessoal do autor, devido ao fato de ser morador dos arredores dessas localidades e identificar nelas a essência desse trabalho, qual seja a influência dos bolsões de pobreza nos serviços oferecidos pelo governo. Foi dada preferência a pessoas adultas, no ápice da idade produtiva (30 anos). Do universo de amostragem citado, alguns dados merecem destaque:

a. Apesar de o nível de instrução da maioria dos entrevistados ser o ensino fundamental incompleto (70%), foram encontradas 5 pessoas (5%) com o ensino superior, das quais 3 incompletos e 2 completos (Licenciatura).

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10 Grau de Instrução Quantidade %

Superior Completo 2 2%

Superior Incompleto 3 3%

Ensino Médio Completo 2 2%

Ensino Médio Incompleto 5 5%

Ensino Fundamental Completo 10 10% Ensino Fundamental Incompleto 70 70%

Alfabetizado 8 8%

Analfabeto - -

TOTAL 100 100%

Tabela 2 – Nível de Escolaridade dos Entrevistados Elaborada pelo Autor

b. Propositalmente, 100% dos entrevistados eram homens. A intenção se deveu ao fato de a grande maioria dos postos de trabalho no município, para pessoas sem qualificação, serem para esse sexo.

c. 80% dos entrevistados afirmaram serem dependentes de álcool, 60% também possuem envolvimentos com drogas (usuários).

d. A esmagadora maioria (95%) afirmou que a situação em que se encontram deveu-se, principalmente, à falta de oportunidades de trabalho, e que esse foi o motivo que deu início ao vício (bebidas, drogas, etc) que possuem. Nenhum dos entrevistados está regularmente trabalhando, sendo a fonte de renda advinda de biscates e coleta de material reciclável (garrafas pet, papelão, etc).

e. A média familiar encontrada foi de 5 pessoas na família, existindo nessa amostragem 3 famílias com mais de 10 membros ocupando o mesmo espaço físico.

f. Dado alarmante: todos os entrevistados, e seus familiares, possuem um ou mais tipos de doenças que se enquadram na falta de saneamento e asseio corporal, como sarna, doenças diversas de pele, outras respiratórias. 75% dos entrevistados alegam que nunca conseguiram atendimento ambulatorial nos hospitais e postos de saúde da rede pública, sendo que aqueles que tiveram algum tipo de atendimento foram em caráter emergencial.

g. 80% das crianças menores de 10 anos estão em escola pública.

h. 100% dos entrevistados declararam que, apesar de dependerem dos serviços públicos, sempre encontraram grandes dificuldades em acessá-los.

As entrevistas ocorreram em dias aleatórios ao longo da semana. Observou-se que aquelas pessoas que se disseram viciadas em álcool estavam realmente com forte cheiro etílico, levando o entrevistador a se perguntar como se consegue dinheiro para a manutenção dos vícios, em detrimento das condições materiais mínimas de conforto para as famílias. Verificou-se que as Secretarias que mais seriam acionadas seriam as de Trabalho e Juventude, Saúde, Educação, Políticas Públicas, Assistência Social e Direitos Humanos, e Habitação e Urbanismo.

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11 6 - Conclusão

Os dados levantados em amostragem mapeiam uma realidade: quanto menor o grau de instrução, maior a gama de problemas enfrentados pelo cidadão. As drogas – lícitas ou ilícitas – também contribuem para a deterioração dos laços de família e a sociabilidade do homem, acarretando, também, um aumento significativo nos problemas de saúde delas advindo.

A sociedade brasileira busca freneticamente uma resposta do Setor Público aos problemas que lhe acometem. A imprensa falada ou escrita nos informa diariamente sobre pessoas de bem, chefes de família, que por uma circunstância emergencial utiliza de métodos ilícitos e pouco sociais para sanar problemas em seu lar. O furto de uso, por exemplo, é o mais comum, onde o cidadão furta alimentos por total falta de condições financeiras para obtê-lo. Ou então a criança que se abstém de ir à Escola para conseguir dinheiro para ajudar na alimentação de sua família. É dever do Setor Público proteger também essa parcela da população. Não há como negar que os índices de violência crescem assustadoramente e, de princípio, colocamos as drogas – lícitas ou ilícitas – como a principal vilã desse crescimento. Mas também se observa que os envolvidos são pessoas que, se identificadas e cuidadas pelo governo, não terão motivos para trilhar esse caminho implacável para com a dignidade humana e de difícil retorno.

Fica evidenciado que um combate isolado pelas Secretarias Especializadas não surtirá efeito continuado. Há de se criar uma estrutura que mapeie e atue indistintamente nas diversas áreas sociais, de modo a se diminuir os óbices entre cidadão e governo no tocante ao atendimento de suas necessidades existenciais.

7 - Referências

BELFORD ROXO. Plano Diretor do Município de Belford Roxo. Lei Complementar nº 84, 12 jan. 2007.

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BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2010. Rio de Janeiro, RJ, 2010.

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BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Brasília, DF. 2010.

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Referências

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