UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO FACULDADE DE LETRAS
PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS NEOLATINAS
OS MEANDROS DA TRADUÇÃO JURÍDICA
ROSANE MAVIGNIER GUEDES
OS MEANDROS DA TRADUÇÃO JURÍDICA
ROSANE MAVIGNIER GUEDES
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do Título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos – Opção Língua Francesa).
Orientadora: Professora Doutora Márcia Atálla Pietroluongo
GUEDES, Rosane Mavignier.
Os Meandros da Tradução Jurídica/ Rosane Mavignier Guedes. – Rio de Janeiro: UFRJ/ Faculdade de Letras, 2011.
x, 124f.; 30 cm.
Orientadora: Márcia Atálla Pietroluongo.
Dissertação (Mestrado) – UFRJ/ Faculdade de Letras/ Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas, 2011.
Referências Bibliográficas: f. 135-139. Anexo: f.140-149.
“Seja qual for o seu sonho, comece. Ousadia tem genialidade, poder e magia.”
(Goethe) AGRADECIMENTOS:
Agradeço a minha orientadora, Profa. Dra. Márcia Pietroluongo. Como disse Goethe: “ousadia tem genialidade”, e ela ousou “navegar por mares nunca dantes navegados”. É preciso ter ousadia para mergulhar em um campo novo quando se tem a vida profissional estruturada, vitoriosa e reconhecida. Obrigada por ter-me aceito como orientanda, por ter abraçado, com dedicação, o meu desafio e por ter-me inserido no “adorável mundo da pesquisa”.
Agradeço ao meu orientador, Prof. Dr. Renato Venâncio Henrique de Sousa, no curso de especialização em Tradução do Francês, UERJ. Primeiramente por ter aceitado o desafio de me dar sua orientação no trabalho de final de curso – O Desafio da Tradução Jurídica. Em segundo lugar, por ter-me apontado o “adorável mundo da pesquisa”, orientando também nesse caminho.
Agradeço aos meus filhos – Daniel e Thiago – pelo impulso inicial e pelos conselhos de como organizar a retomada dos estudos acadêmicos. Mas, sobretudo, porque EXISTEM. Agradeço ao meu marido por sua compreensão e por seu incentivo, guardados “no silêncio”. Pelas consultas dadas, sempre com prazer. E também pela sua EXISTÊNCIA.
Agradeço ao meu irmão pela contribuição dada com prazer e sem medir esforços para a elaboração deste trabalho. E também pela sua EXISTÊNCIA.
Agradeço ao funcionário da secretaria de Pós-Graduação da Faculdade de Letras, Sr. Laelson da Rocha Luiz, pela gentileza – que muitas vezes passa invisível – em ter me dado a orientação inicial de como participar do concurso para ingressar no curso de mestrado. Sem essa orientação básica, incluindo a explicação de como elaborar um pré-projeto, eu teria desistido ainda na porta.
Agradeço a minha nova amiga Andréia, pelos ouvidos emprestados, pelas confabulações e pela solidariedade. Foi uma valiosa aquisição para meu “pequeno círculo de amizades”. Agradeço a minha amiga Neide Macher, pela imensa gentileza e espírito de despojamento ao me ceder peças de seu processo judicial, para que pudessem compor meu corpus. Apesar de não terem sido utilizadas, fica minha eterna gratidão e minha admiração.
Agradeço a minha amiga Sônia, como também a minha querida mestre e professora Monique Roberte Louise Hermsdorff, que acompanharam todo esse processo. Agradeço pelas palavras de incentivo que valem ouro.
Agradeço os conselhos e as informações dadas por minha nova amiga Profa. Dra. Ida Ferreira Alves.
DEDICATÓRIA
A minha mãe, que tantas vezes tentou me convencer de que meu lugar estava na faculdade de Letras;
A meu pai, que sempre me viu nos bancos da faculdade de Direito, seguindo seus passos no exercício da profissão que tanto amava – “Advogar é a melhor coisa da vida”.
Pois bem, hoje estou aqui, na faculdade de Letras, trabalhando o discurso do Direito.
Dedico este trabalho aos dois, d esenc ar nad o s há mais de trinta anos, esperando contribuir, de alguma forma, com as pesquisas nas duas disciplinas, tão belas!
Sem esquecer...
“O tradutor é obrigado a caminhar sem cessar por um caminho estreito e deslizante que não é de sua escolha, tendo, às vezes, que se jogar de lado para evitar o precipício”. ( D’Alembert)
“O tradutor jurídico depara-se constantemente com ... a diferença. Disponibilizar as noções de uma língua .... jurídica por meio de outra língua jurídica é confrontar dois sistemas, duas condutas, duas culturas jurídicas”.
RESUMO
GUEDES, Rosane Mavignier. Os meandros da tradução jurídica. Rio de Janeiro, 2011. Dissertação (Mestrado em Letras Neolatinas – Estudos Linguísticos Neolatinos – Opção Língua Francesa) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.
Esta pesquisa visa mostrar que a tradução do discurso jurídico não se restringe a passar um texto de uma língua para outra, mas também de um Sistema Jurídico para outro. Para tanto, este estudo propõe uma metodologia tradutória constituída em três etapas: a primeira corresponde a um trabalho linguístico de desconstrução do discurso; na segunda, o discurso é atravessado pelo contexto jurídico da língua-fonte, determinado pela lógica da Instituição à qual pertence; por fim, a terceira etapa consiste na reconstrução linguística em outro idioma e adaptação a outro Sistema Jurídico, da língua-alvo. Importa dizer que tal proposta se fundamenta, principalmente, na teoria de Claude Bocquet, cujo preceito estrutura o discurso jurídico sobre três pilares: Instituição, discurso e língua. Quanto ao corpus, este estudo se debruça sobre o discurso normativo/ legislativo, tendo como foco os Atos Jurídicos Internacionais (Tratados, Acordos e Convenções) bilaterais, assinados entre Brasil e França, cuja lógica atende as necessidades da Instituição do Direito Internacional Público e do Legislativo. Dessa forma, partindo da premissa de que cada Sistema Jurídico pertence a uma cultura, e como cada cultura tem um espírito jurídico próprio, acredita-se que essa metodologia conduza à elaboração de um discurso que seja, acima de tudo, o reflexo de uma prática cultural.
Palavras-chave: Discurso Jurídico, Instituição, Lógica, Cultura, Tradução.
RÉSUMÉ
GUEDES, Rosane Mavignier. Os meandros da tradução jurídica. Rio de Janeiro, 2011. Dissertação (Mestrado em Letras Neolatinas – Estudos Linguísticos Neolatinos – Opção Língua Francesa) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.
Cette recherche a pour but de démontrer que la traduction du discours juridique ne se borne pas à transposer un texte d’une langue dans une autre, mais aussi d’un Système Juridique dans un autre. À cet effet, cette étude présente une méthodologie de traduction structurée en trois étapes : d’abord, le travail linguistique de déconstruction du discours source ; ensuite, ce discours est traversé par le contexte juridique de la langue-source, déterminé par la logique de l’Institution à laquelle il appartient ; enfin, la troisième étape est la reconstruction linguistique dans une autre langue et son adaptation au Système Juridique de la langue cible. Il faut remarquer que telle proposition est fondée, surtout, sur la théorie de Claude Bocquet, dont les préceptes bâtissent le discours juridique sur trois piliers : l’Institution, le discours et la langue. En ce qui concerne le corpus, cette étude se penche sur le discours normatif/ législatif, en se centrant sur les Actes Juridiques Internationaux (Traités, Conventions, Accords) bilatéraux, signés entre la France et le Brésil, dont la logique répond aux besoins de l’Institution du Droit International Public et du Législatif. Ainsi, partant de la prémisse que chaque Système Juridique appartient à une culture donnée, et que chaque culture a un esprit juridique propre, cette méthodologie propose l’élaboration d’un discours qui est, avant tout, le reflet d’une pratique culturelle.
Mots-clés : Discours Juridique, Institution, Logique, Culture, Traduction.
ABSTRACT
GUEDES, Rosane Mavignier. Os meandros da tradução jurídica. Rio de Janeiro, 2011. Dissertação (Mestrado em Letras Neolatinas – Estudos Linguísticos Neolatinos – Opção Língua Francesa) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.
The purpose of this research is to show that translating the judicial discourse is not restricted to transferring the text from one language into another, as it also includes transferring it from one judicial system into another. In this way, the present study proposes a translation methodology with three stages: the first one corresponds to a linguistic work of discourse deconstruction; in the second stage, the discourse is permeated with the judicial context of the source language being determined by the logics of the Institution to which it belongs; and finally, the third stage consists both of the linguistic reconstruction in the other language and the adaptation into another judicial system, in the target language. It is important to say that such a proposition is particularly based on the theory of Claude Bocquet, whose premise structures the judicial discourse on three pillars: Institution, discourse and language. As far as the corpus is regarded, this study turns to the normative/ legislative discourse, focusing on bilateral International Judicial Acts (Treaties, Agreements and Conventions) signed between Brazil and France, whose logics covers the needs of both the International Public Law Institution and the Legislative. Therefore, considering that each Judicial System belongs to a different culture, and that each culture has its own judicial spirit, it is believed that this methodology may lead to the elaboration of a discourse which reflects, above all, a cultural practice.
Key words: Judicial discourse, Institution, Logics, Culture, Translation
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...11
1. O DISCURSO JURÍDICO...17
1.1A Cada Gênero, Uma Lógica...21
1.2O Discurso Legislativo...37
2. A TRADUÇÃO JURÍDICA...43
2.1 O Discurso Normativo e o Discurso Legislativo...43
2.2 A Instituição do Discurso Legislativo...49
2.2.1 Prescrição...51
2.2.2 Coerção: Marca de Poder...53
2.2.2.1 Lógica...54
2.2.2.2 Estética...63
2.3 Os Aspectos Discursivos...70
2.3.1 Os Sujeitos do Discurso...86
2.3.2 A Voz Passiva do Legislador...95
2.3.3 Discurso Indireto...99
2.4 Os Elementos Linguísticos do Discurso Jurídico...103
2.4.1 Verbos...104
2.4.2 Pronomes...108
2.4.3 Advérbios...115
2.4.4 Preposição...116
2.4.5 Conjunções...119
2.4.6 Problemas...122
2.4.7 Soluções...125
CONCLUSÃO...131
BIBLIOGRAFIA...135
INTRODUÇÃO
“Na França, o redator quer antes de tudo um texto coerente a fim de fixar o contexto. Não se fala de espírito das leis? Essa manifestação cultural não remonta a Montesquieu?
O importante no texto francês é o espírito do texto, e, no texto brasileiro, evitar qualquer outra utilização que
provoque algum desvio”. Jean-Luc ORSONI
A palavra de ordem do momento, no universo jurídico, é a Internacionalização do Direito. Debatida em todos os seus campos, visa harmonizar a diversidade de Sistemas Jurídicos nacionais aplicados em uma esfera internacional, mas essa ideia não pode ser vista como algo recente. Olhando um pouco para trás, a criação da União Europeia e a pretensão de se constituir como uma nação, um Estado-Continente, incluía a existência de uma Constituição para esse novo modelo de Estado; entretanto esbarrou na questão da diversidade cultural e institucional. Como poderia existir uma Constituição para reger vários povos de diversas línguas e culturas, instituindo um único Sistema Jurídico? Embora a diversidade e a pluralidade linguística, manifestação maior da cultura de um povo, não tenham sido empecilho, pois o multilinguismo é superado graças ao intermédio do trabalho dos tradutores,
o mesmo não ocorreu no âmbito institucional. Diante do fracasso do estabelecimento de uma Constituição para reger várias nações, a regulamentação continuou a ser praticada a partir de um conjunto de Atos Jurídicos Internacionais – Tratados, Acordos, Convenções – com força de Constituição. Se dificuldades existem nos limites de um pequeno continente, imaginemos em um patamar global. Com o propósito de aproximar e não de unificar os diversos sistemas, Mireille Delmas-Marty1 (2007, pp. 249-251), jurista e professora do Collège de France, propõe que, em razão das diferenças institucionais, compatíveis ou incompatíveis, os principais textos internacionais – nos quais se incluem os Acordos, Tratados e Convenções –
1
DELMAS-MARTY, Mireille. Les Forces Imaginantes du Droit (III) - La Refondation des Pouvoirs. Paris : Seuil, 2007.
devam ser submetidos a uma aplicação sistemática das diversas versões linguísticas, e fala sobre o milagre da tradução:
Milagre, pois a tradução “cria a semelhança onde só parecia haver pluralidade”. Ela não produz identidade, apenas equivalências. Em outras palavras, longe de fazer desaparecer a diversidade, a tradução seria a mediadora entre a diversidade cultural e o universalismo do saber. (2007, pp. 249-251, tradução nossa)
Diante da globalização e da discussão em torno de temas de interesse internacional, acordados em documentos jurídicos escritos nas línguas pátrias dos Estados envolvidos, torna-se iminente a discussão sobre a matéria: a tradução jurídica, tanto em uma dimensão científica quanto pragmática. Assim, cabe ao tradutor mediar a comunicação entre os representantes de nações idiomaticamente diferentes. Mas a tarefa do tradutor, sobretudo do tradutor jurídico, requer critérios bem definidos estabelecidos também no conhecimento do percurso histórico da linguagem jurídica das línguas em questão.
A história explica o porquê de o Discurso Jurídico ter peculiaridades que, ao olhar daqueles que são externos ao seu ambiente, parecem bizarras. É certo que essa tipologia
discursiva sempre esteve em um carrefour de críticas, alguns alegam que a complexidade inerente ao texto deve-se ao fato de ter permanecido encerrado em suas tradições, tornando-se quase intocável ao longo dos séculos. A explicação para esse fato está nas palavras de Michel Fromont2, professor da Université Paris-I Panthéon-Sorbonne, ao prefaciar a obra sobre o Direito Francês: “O caráter antigo dos textos é flagrante. Até mesmo a Constituição atualmente em vigor já tem cinquenta anos, e para evitar chocar os cidadãos franceses, ela tem se esforçado em conservar, na medida do possível, fórmulas antigas, que tomam, assim, feições quase sacrossantas”. A razão está na história, visto que o Direito constituiu-se na Idade Média, a partir do latim, de forma autônoma e sem necessidade de um modelo de
2
discurso emprestado de outra disciplina (BOCQUET, 2008, p. 13, tradução nossa) . Ora, foi
a partir do século XII, com a redescoberta dos textos jurídicos dos Romanos, que na Europa Continental, Europa Românica, começou a despontar uma Ciência do Direito sistematizada, sob forte influência do Direito Romano.
Embora o Brasil não tenha vivido a Idade Média, entre nós também há uma herança cultural que explica as características do discurso do Direito brasileiro. Primeiramente, encontramos marcas dessa herança em sua formação, o direito brasileiro é resultado de uma hibridação particularmente notável de vários sistemas jurídicos, o português, o francês, o
americano, o alemão, o suíço e o italiano (FROMONT In: ALMEIDA, Paiva de, 2006, p.7,
tradução nossa). Essa hibridação está nos alicerces de nossa cultura jurídica, o que, aliado a outros aspectos, justifica o espírito de nossa língua, de nosso Discurso Jurídico. E m se gu nd o lu gar , enco ntr am o s em Venâncio Filho3 a identificação de duas causas históricas que também explicam as peculiaridades da linguagem jurídica brasileira em seu perfil linguístico e discursivo, conhecido como “juridiquês”: a tradição lusitana — a Escola de Coimbra — e a influência de Rui Barbosa. E cita o Prof. Thiers Martins (apud VENÂNCIO FILHO, 2005, p. 155) ao explicar que Rui Barbosa marcou com a opulência da fundamentação bibliográfica, e com sua forma rica, farta, abundante, certo barroquismo
verbal que lhe emprestava aos escritos. Tal comportamento é justificado pela necessidade de
fundamentar seus pontos de vista nos mentores do positivismo [...], apoiando-se em
documentos muito numerosos, uns de cunho meramente informativo e outros que lhe
permitissem evidenciar a coerência das próprias concepções (REALE apud VENÂNCIO
FILHO, op. cit.).
Notamos, então, que o universo jurídico se constrói abraçado a uma linguagem própria, esta, por sua vez, está intrinsecamente ligada a sua bagagem cultural. Entretanto, a
3
diferença cultural pode ser um abismo, por essa razão ela deve ser observada pelo tradutor ao escolher as fórmulas a serem utilizadas no discurso-alvo, sempre levando em conta o espírito da língua-alvo, que no francês tem a tendência a ser objetivo e conciso, enquanto que no português do Brasil tende a ser prolixo e redundante, com a finalidade de evitar desvios de interpretação.
Apesar dos entraves causados pelo juridiquês (no Brasil), pela jurilinguistique (no Quebec) e pela linguística jurídica (na França), estes não representam o maior obstáculo enfrentado pelo tradutor, pois a tradução do discurso jurídico não comporta apenas a passagem de uma língua para outra, ela vai além, é preciso transpor a mensagem construída em um Sistema Jurídico para outro Sistema Jurídico. Assim, nesse terreno minado, o tradutor tem de encontrar os recursos necessários para contornar “Os meandros da Tradução Jurídica”.
Ora, a prática do Direito se fundamenta na língua, sendo que mesmo no seio da linguagem jurídica as palavras podem adquirir sentidos diferentes, da mesma forma ocorre com o discurso, obedecendo à lógica da Instituição à qual pertencem. Desse modo, não obstante o aspecto linguístico e discursivo existe o componente institucional definindo a lógica do discurso. Eis porque Claude Bocquet4 explica que a grande dificuldade da tradução jurídica está no aspecto flutuante do significado, devido à natureza das diferenças
institucionais, o que constitui o principal problema da tradução jurídica. Sendo assim, a
tríade fundadora do discurso jurídico é constituída pela língua, discurso e Instituição. Estes são os três pilares que sustentam a tradução jurídica.
Neste contexto, este trabalho versará sobre as técnicas de tradução jurídica à luz da teoria de Claude Bocquet, para quem a tradução jurídica deve partir dos tipos de discurso determinados pela lógica do Direito na Instituição à qual pertence, classificando-o em:
4
BOCQUET, Claude. Traduction Juridique et Apropriation par le Traducteur. L’Affaire Zachariae, Aubry et
Rau. p.2. Disponível em http://www.infotheque.info/cache/9601/www.tradulex.org/Actes2000/bocquet.pdf.
jurisdicional, doutrinário, ou normativo. Este último, sobre o qual nos curvaremos, é aquele que determina, por meio de Ato Legislativo, as normas que, em nosso trabalho, pertencem ao ramo do Direito Internacional Público.
É importante ressaltar que diante do fato de nosso teórico, Claude Bocquet, se servir da nomenclatura “tipologia” tanto para classificar o Discurso Jurídico numa concepção ampla, como também para classificar os discursos numa concepção restrita, os modos do discurso, determinados pelo “tipo da mensagem” que é a lógica da Instituição, faremos uma distinção usando a classificação de “tipologia” para todo discurso que for produzido no campo jurídico, e “gênero” para os discursos existentes dentro dessa tipologia, segundo a nomenclatura usada pelos jurilinguistas Gérard Cornu e Eduardo Bittar.
Para tanto, no percurso deste trabalho, contaremos com o estudo sobre a linguagem do Direito elaborado por Gérard Cornu, professor de Direito da Université Paris II – Panthéon-Assas, cuja obra Linguistique Juridique (Montchrestien, 2005. 3 ed.) ganhou peso de bíblia
sobre a matéria, em dimensão internacional. Em outro patamar, tomaremos emprestadas as análises de Eduardo Bittar, doutor e professor do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da USP, com sua obra Linguagem Jurídica (Saraiva, 2009. 4 ed.); de Tércio S. Ferraz Jr., jurista e professor da Faculdade de Direito da USP e da PUC/SP, com sua obra Direito, Retórica e Comunicação (Saraiva, 1997. 2 ed.); de Jean–Louis Sourioux, jurista, professor de Direito, membro da comissão de terminologia do Ministério de Justiça da França, e Pierre Lerat, especialista em linguagem jurídica, professor da Universidade Paris XIII, com as obras Le Langage du Droit (PUF, 1975) e L’Analyse de Texte, Méthode Générale et Aplications au Droit (5 ed., Dalloz, 2005).
relações dos Estados entre si5. No cenário da negociação bilateral, em um processo histórico de colaboração, encontramos Brasil e França a assinar Atos Jurídicos bilaterais – Acordos, Tratados, Convenções (a partir desse momento serão denominados, neste trabalho, pela sigla AJI) –, regulamentando assuntos diversos e de interesse das duas nações. No entanto, apesar de ambas as nações adotarem o Direito Romano, os próprios conceitos jurídicos são diferentes nos dois sistemas, o que causa dificuldades para que o tradutor encontre o equivalente adequado. Da mesma forma, a lógica do Direito que dá sustentação aos textos a traduzir varia de acordo com as Instituições que a estabelecem. Por esse motivo, é importante que o tradutor se fixe na compreensão e no domínio da lógica do Direito, naquela Instituição, nos dois idiomas: a língua-fonte e a língua-alvo.
A importância da tradução jurídica, sobretudo no contexto mundial atual, justifica esta investigação, cujo propósito é contribuir, através da pesquisa, com uma reflexão sobre a metodologia aplicável na tradução jurídica. Para atingir esse objetivo, desenvolveremos no primeiro capítulo um panorama do discurso jurídico e de seu desmembramento, concentrando-nos no discurso normativo, melhor explicando, no discurso legislativo do qual fazem parte os Atos Jurídicos Internacionais – AJI –, explicando em pormenores a sua formação e a sua estruturação.
Após, mostraremos a linha teórica que permeia este trabalho, debruçados sobre nosso corpus, apontando “os meandros da tradução jurídica” através da análise do material escrito
em português e em francês.
Sendo assim, nossa intenção é analisar os documentos escritos nos dois idiomas e publicados no Diário Oficial da União (Brasil) e no Journal Officiel (França), apontando as questões linguísticas, discursivas e institucionais, com a finalidade de propor soluções ou confirmar as soluções existentes.
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1. O DISCURSO JURÍDICO
Por que nossa língua comum, tão fácil para qualquer uso, torna-se obscura e ininteligível em contrato e testamento.
MONTAIGNE, Essais, III, 13
“A palavra é irrevogável. Ela sai de forma irreversível da boca de quem a pronuncia. O que foi dito, está dito. Quem se arrepender do que disse pode tentar tudo para anular seus efeitos. Mas se foi dito, não há como fazer que não disse. É um ato feito” (Cornu, 2005, p. 249, tradução nossa).
A irrevogabilidade da palavra existe tanto na expressão oral quanto na expressão escrita do Direito. Seja na tribuna ou no papel, a palavra é usada no Discurso Jurídico para articular o conjunto das regras que regem as condições de convivência dos homens em sociedade, isto é, o Direito.
A prática do Direito, tal qual a conhecemos nos dias de hoje, foi estabelecida durante o Império Romano tardio, por volta do século VI, quando o imperador romano Justiniano mandou elaborar o Codex com a reunião das várias leis promulgadas em seu governo e a adaptação de princípios já praticados. No período anterior, na Grécia, foyer da retórica e da eloquência, o discurso era oral, tendo em Aristóteles seu grande representante, a quem devemos a retórica como técnica de argumentação jurídica, colaboradora da operação da lógica do Direito. Assim, explica Cornu: “O fato é que a retórica orienta tão bem a expressão escrita quanto a expressão oral do Discurso Jurídico. Uma arte de bem pensar” (2005, p. 258, tradução nossa).
Os jurisconsultos possuíam a mesma autoridade do imperador, pois eram pessoas estudiosas que “ditavam as regras” aos juízes e às partes, cujos pareceres tinham força de lei. Aqui vislumbramos o antecedente remoto da jurisprudência.6
Assim, sob o Império de Justiniano, os romanos codificaram o Direito, organizando em quatro partes o Corpus Juris Civilis: “Códice”, “Digesto”, “Institutas” e “Novelas”. 1- O “Códice” era composto da coleção de constituições imperiais, dividida em doze livros, subdivididos em títulos. Continha a compilação de suas Constituições como também aquelas
dos outros imperadores romanos que lhe tinham antecedido. Assim explica o mestre De Plácido e Silva em sua obra Vocabulário Jurídico (2009, p.302): “Calcados nos códigos romanos, surgiram os demais códigos, inspirados geralmente nos princípios instituídos pelas sábias regras contidas no Direito Romano. Dele não se afastaram os Códigos de Napoleão, Afonsino, Manuelino e outros que lhe seguiram”. Em nosso trabalho, o Códice corresponde à Legislação, cujo discurso será classificado de Discurso Normativo. Note-se que a organização em livros e títulos, ainda permanece em prática;
2- O “Digesto”, também chamado de Pandectas, é a compilação dos fragmentos de notáveis jurisconsultos, constando de cinquenta livros, subdivididos em títulos. Podemos ver o Digesto
como a atual Jurisprudência, a qual, no decorrer deste trabalho, será classificada como Discurso Decisório;
3- As “Institutas” eram manuais contendo lições de Direito, constituía-se de quatro livros, subdivididos em títulos, trata-se da Doutrina, ou seja, de um conjunto de ideias, opiniões e
conceitos com a finalidade do ensino da matéria, servindo também de sustentação para a interpretação e para a aplicação da norma jurídica. Iremos estudá-la como Discurso Científico, visto que firmam teorias do Direito e interpretações sobre a ciência jurídica;
6
4- As “Novelas”, trata-se de constituições promulgadas posteriormente por Justiniano e dois de seus sucessores, que foram compiladas e acrescidas às partes anteriores7. Sua legislação
tratava de vários assuntos referentes ao Direito Eclesiástico, ao Direito Público, Administrativo, Criminal e ao Direito Privado. Sendo Legislação, também iremos classificá-la como Discurso Normativo.
Apesar de toda a organização jurídica dos Romanos, com a queda de seu Império, ele deixou de ser amplamente aplicado; enquanto que no norte da França era empregado o Direito Germânico, devido às invasões bárbaras; no sul, a França românica, permanecia com o uso do Direito Romano, entretanto deturpado. Foi preciso esperar até o século XII para que os textos jurídicos romanos conservados nas bibliotecas dos mosteiros fossem redescobertos8. Paralelamente, os reis da França procuravam estabelecer uma língua com personalidade própria, independente do latim; assim, a língua do Direito foi usada como veículo para o estabelecimento de uma língua nacional, isso se deu no período da Renascença, sob o reinado de François Ier, com a promulgação da ordenança de Villers-Cotterêts, em 1539, estabelecendo a obrigação de redigir os atos jurídicos em françoys, com a finalidade de evitar as imprecisões de interpretação dos textos oficiais.
Entretanto, apesar da unificação do Direito no território francês, estruturado sobre o Direito Romano, restou alguma influência de origem germânica, como ainda explica Michel Fromont: “[...] por exemplo, a comunhão dos bens entre os cônjuges” (2009, p.11). Essa situação nos mostra que o cruzamento cultural está na base da formação do Direito nacional, consequentemente, do discurso desse Direito. Como afirma Jean-Claude Gémar, professor e pesquisador em língua e tradução jurídica da Université de Génève, “Cada povo, segundo a sua cultura, seus usos e costumes, forjou sua própria tradição de redação dos textos
7
SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 28 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2009. 8
jurídicos”9. Dessa forma, verificamos que a própria formação dos Sistemas Jurídicos dependeu do trabalho dos tradutores; neste caso, dos tradutores do latim para as novas línguas ainda jovens, sem os quais os juristas não poderiam ter trabalhado.
Embora o discurso do Direito tenha se constituído na Idade Média, isto quer dizer que ele, ao criar suas estruturas, não se apoiou em outras ciências, as quais se formaram ao longo do século XIX – a economia, a psicanálise, a sociologia, dentre outras –, e tendo se formado independentemente de outro formato discursivo veio a facilitar o trabalho do tradutor; apesar disso, encontramos outros elementos como a terminologia e a fraseologia que criam empecilhos à tarefa do tradutor. O conjunto desses elementos, como vimos, está inscrito em uma cultura, em um Sistema Jurídico. Ora, se a tradução comporta não apenas a passagem de uma língua para outra, mas também a transposição da mensagem de um sistema de
Direito para outro10, logo, o processo de tradução, para evitar as armadilhas criadas pela
polissemia e pela ambiguidade da linguagem jurídica, liga o discurso a um gênero discursivo. Este é determinado pela Instituição que lhe deu origem, atendendo a lógica do Direito naquela Instituição. Vale lembrar que, devido a uma relação de metonímia, o sentido primário de Instituição – fundação ou criação de alguma coisa com finalidade própria, conjunto de regras – confunde-se com a entidade jurídica que por ela se fundou, a qual também se diz “instituto” (SILVA, 2009, p.753). Neste contexto, a concepção de gênero obedece aos
critérios concebidos pela Linguística: um objetivo pertinente, um lugar e um momento pertinentes, sujeitos participantes cujo status é pertinente. Este cenário compõe a lógica da Instituição.
Sabemos que a expressão “instituição” tem uma definição vaga e abrangente, pois cobre diversas realidades. Entretanto, em se tratando da especificação “jurídica” o
9
GEMAR, Jean-Claude. De la traduction à la jurilinguistique. Fonctions proactives du traductologue. In: META: Journal des Traducteurs. Atas... Montréal : Les Presses de l’Université de Montréal, Vol.50, n°4, 2005. Disponível em: http://id.erudit.org/iderudit/019840ar. Acesso em 05 maio 2009, tradução nossa.
10
KERBY, Jean. La traduction juridique, un cas d’espéce. In: GÉMAR, J. –C. (Dir.). Langage du Droit et
entendimento fica mais restrito, como podemos verificar na explicação dada pelo professor e jurista Jean Brèthe de La Gressaye, citada pelo também jurista e professor de Direito de Aix-Marseille Jean-Louis Bergel (2003, p. 193, tradução nossa): “As instituições jurídicas são
‘conjuntos de regras de Direito organizadas em torno de uma ideia central, formando um todo sistematicamente ordenado e permanente’”. Dessa forma, Bergel (op. cit. p.194, tradução nossa) acrescenta esclarecendo que para os juristas as instituições não são corpos sociais, mas “corpos de regras”, como vimos anteriormente, e completa: “Todas as instituições
jurídicas se articulam entre si para formar o conjunto da ordem jurídica”. Compreende-se por ordem jurídica o complexo das normas obrigatórias, ditadas pelo Poder Público, em prol da ordem social.
Nesta conjuntura, ao pensar o Discurso Jurídico com uma reflexão sob o prisma da prática da tradução, é preciso observar o seguinte aspecto: os diferentes Sistemas Jurídicos muitas vezes impedem a equivalência entre as Instituições da língua-fonte e da língua-alvo.
O recurso à teoria das “instituições jurídicas” deve-se à necessidade de organizar coerentemente o Sistema Jurídico, dividido em ramos, pois é preciso compreender que cada ramo do Direito tem sua estrutura, formada a partir de uma realidade particular, ou seja, de uma ideia central em torno da qual são organizados seus elementos com a finalidade de sua aplicação.
1.1 A CADA GÊNERO, UMA LÓGICA
O jurista Jean-Louis Sourioux e o linguista Pierre Lerat11 explicam que é impossível tratar as palavras-atos do Direito sem levar em conta, ao mesmo tempo, uma tipologia, os
aspectos linguísticos e as condições institucionais de seu funcionamento. É verdadeiramente
inconcebível decidir o sentido do que é dito sem preestabelecer a origem do dito, eis porque
11
Claude Bocquet apresenta uma tipologia de textos jurídicos composta de três modos de discurso: “performativo”, cuja lógica é a prescrição e a coerção, é o caso do discurso normativo, o qual preceitua e coage para que seja cumprido; “silogístico”, procedimento lógico que aplica a norma ao fato jurídico em questão, ao confrontar esses dois elementos desenvolve o silogismo jurídico, esse é o discurso jurisdicional; “descritivo”, é o discurso doutrinário, cuja lógica é instruir, elucidar pontos controvertidos do Direito, firmando teorias ou interpretações sobre a ciência jurídica. Não obstante essa classificação, não há unanimidade entre os juristas, jurilinguistas e tradutores com relação à classificação dos discursos jurídicos. Temos, como exemplo, as categorias de Discurso Jurídico apresentadas por Gérard Cornu (2005, p.211, tradução nossa): discurso legislativo, discurso jurisdicional e discurso costumeiro. Embora adotemos a teoria de Claude Bocquet, apresentamos um panorama com outras classificações de Discursos Jurídicos.
Sendo assim, o professor e pesquisador Eduardo Bittar classifica os Discursos Jurídicos em quatro: normativo, burocrático, decisório e científico (2009, p. 89). Entretanto, apresentaremos uma quinta modalidade de Discurso Jurídico: discurso consuetudinário (discours coutumier), este é exclusivo dos estudos do jurilinguista Gérard Cornu (op. cit.). 1 ─ Discurso Normativo: O discurso normativo é o discurso do Legislador, agente investido de competência e de poder para a realização de uma tarefa social, a de regulamentação de condutas. Explica Bittar (2009, p.194) que “o legislador tem uma tarefa social que motiva outra prática, a jurídica, exercendo seu papel discursivo e dirigindo-se à comunidade de súditos”; para tanto, o discurso normativo atua por marcas funcionais e estilísticas. Estas são vistas como uma estética jurídica, como explica o acadêmico e professor Silvio de Macedo12:
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MACEDO, Silvio de. Curso de Filosofia da Arte. Rio de Janeiro: Elo Editora, 1987, pp. 94-95.
“A “Ars Legis” é a ciência instrumental, lógica jurídica, fundamento da construção jurídica, mas também arte, que cuida da forma estética. [...] A arte jurídica revoluciona primeiro o substrato linguístico, criando um paralelismo de linguagem técnica e de linguagem artística, esta de maior apuração e potencialidade afetiva, o que justifica a conotação de um estilo jurídico florindo na linguagem técnica”.
As marcas funcionais asseguram a soberania do legislador e o caráter obrigatório daquilo que edita, daquilo que representa sua ideologia, isto é, a produção normativa. Toda norma nasce com pretensão ao não descumprimento, embora tenha a ilusão de que com seu enunciado potestativo irá resguardar seu discurso da paradiscursividade social. Ferraz Júnior (1997, p.116) nos ensina que “todo direito estabelece uma ordem e a coloca fora de discussão. A lei, em princípio, impõe e exige obediência: não se pode aceitar parcialmente uma lei, desejar cumpri-la apenas em parte”.
As ferramentas específicas usadas para assegurar a ideologia própria ao Discurso Jurídico, em especial do jurídico-normativo, são as marcas que estão incorporadas no teor do texto da lei, e entram no enunciado da regra com peso de enunciados performativos, elaborando um discurso coercitivo: proíbe, permite, obriga; no entanto,
a imperatividade do comando normativo não decorre da sanção em si, e sim do sistema jurídico que a impõe, que a faz eficaz, que lhe dá subsídio. Assim, é certa ação no mundo, certo contexto, engajamento da norma jurídica em seu “entorno” que lhe garante validez, eficácia, vigor e legitimidade. Esses conceitos estão, portanto, todos na dependência da contextualidade que sustenta a norma jurídica. (BITTAR, 2009, p. 190)
Bittar explica que o discurso normativo é constituído de “funtores”, elementos linguísticos responsáveis pela modalização da asserção. O termo funtor13 vem da lógica e está ligado à concepção de silogismo, inerente ao Discurso Jurídico. Esses funtores normativos são o núcleo prescritivo do enunciado da norma. A sanção, seja permissiva seja proibitiva, decorre de uma ordem prefixada no contexto da norma, que será modalizada pelas expressões funtoriais.
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Sendo o Discurso Legislativo um Discurso Normativo, encontramos em Gérard Cornu ideia semelhante a de Bittar, dado que define o discurso normativo como portador de marcas de soberania, e esta soberania está presente tanto naquele que a pronuncia quanto em seu caráter coercitivo, aliado ao fato de ser um discurso à distância. O que é explicado pela condição de o legislador, enquanto representante do Povo, estar legitimado para legislar. É um poder /fazer combinado com um saber/fazer. Vemos que atrás da ideia de juridicidade está a de legitimidade. A juridicidade é definida como a palavra geralmente empregada para indicar o caráter ou a qualidade do jurídico. É o Direito com D maiúsculo, na sua
objetividade, em distinção ao direito com d minúsculo, que o considera subjetivamente
(SILVA, 2009, p.801).
Cornu, ao relacionar os verbos que formam o núcleo da coerção, cita verbos de obrigação e de sanção.Mesmo sendo portadores das marcas de soberania, de generalidade e de determinação da lei, ocorre que nem sempre as marcas linguísticas são explícitas, existem convenções de linguagem que determinam a condição invisível de autoridade. Dessa forma ele cita como exemplo o presente do indicativo: “O Presidente da República, [...] DECRETA...”; “Le Président de la République,[...] Décrète...”.
Além disso, apesar de o jurilinguista enfatizar o papel dos verbos em todos os seus usos (vozes do verbo, tempos e modos verbais, pessoa) como os principais responsáveis pela personalidade performativa do texto legislativo, ele também apresenta outras marcas, de igual importância.
As marcas de soberania incorporadas ao teor da lei são aquelas que entram no enunciado da regra. Nesse caminho, a escolha e o emprego dos verbos representam um papel primordial. A soberania do legislador está no “verbo”. Mas os verbos que expressam a força legal não o fazem sempre da mesma forma, certas convenções de linguagem também desempenham seu papel. (CORNU, 2005, p.264, tradução nossa)
Sendo assim, quando os verbos não trazem marcas explícitas, estas são manifestadas
de linguagem em duas: o uso do presente do indicativo e a referência implícita à figura do legislador; reproduzindo suas palavras: “[...] todo enunciado legislativo tem por autor um
emissor [sujeito-enunciador] que não se mostra, que não se declara como sujeito falante” (2005, p.269, tradução nossa). Se no segundo caso situação semelhante ocorre no texto legislativo brasileiro, no primeiro podemos encontrar diferenças na estrutura da língua. Essa questão é abordada por Claude Bocquet quando analisa a prática da tradução dos textos normativos, ressaltando que o discurso normativo
está submetido, quanto a sua linguagem e sua expressão, a múltiplas regras específicas próprias de cada língua, e o tradutor encontra-se, imediatamente, confrontado a um dos problemas mais importantes da tradução jurídica, o qual podemos logo ver que não concerne nem à terminologia nem à fraseologia (BOCQUET, 2008, p.10, tradução nossa, grifo nosso).
Bocquet é enfático ao afirmar que todos os textos normativos pertencem ao que os linguistas chamam de modo performativo (op. cit., grifo nosso), ou seja, aquele cujo enunciado tem, em
si, a força de expressar o valor de uma ação – “decreta”, “décrète”.
Partindo da afirmação de que o discurso legislativo é um discurso performativo, Bocquet discrimina suas três finalidades: ordenar, definir e criar instituições. Ora, como a finalidade do discurso – a ideia central, a ideologia – determina a lógica da Instituição à qual pertence, em torno dela (lógica) são organizados seus elementos e suas regras, como já vimos anteriormente, cada uma dessas finalidades será atingida com recursos específicos. Assim, a finalidade de “ordenar” será alcançada na língua francesa usando os verbos preferencialmente no presente do indicativo14, por ser uma fórmula mais clara, e, como diz Bocquet (2008, p.24, tradução nossa): “O francês dispõe de várias formas de expressão, seja com o presente do indicativo, que constitui a fórmula mais clara e mais elegante, seja com o futuro do indicativo em um uso mais antigo, correspondente à prática adotada no tempo do Código Napoleônico,
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Cornu explica que o indicativo afasta o imperativo no enunciado legislativo, pois, paradoxalmente, o
imperativo não é o modo apropriado do discurso normativo, pelo menos na lei. E continua: “Nessa forma de
em 1804”. Esse uso é praticado na oração principal, pois a subordinada será construída com verbo dever (devoir) ou com a expressão ser obrigado a (être tenu de), principalmente nas orações temporais e condicionais; como podemos verificar no exemplo
“Les actes publics établis sur le territoire de l’un des deux États sont dispensés de légalisation ou de toute formalité analogue lorsqu’ils doivent être produits sur le territoire de l’autre État.” (Anexo 3–F)
“Os atos públicos expedidos no território de um dos dois Estados serão dispensados de legalização ou de qualquer formalidade análoga, quando
tiverem que ser apresentados no território do outro Estado.” (Anexo 3–P)
Porém a prática no texto legal brasileiro é diferente, visto que utilizamos o futuro jussivo e o futuro do subjuntivo. Na oração principal temos o futuro com valor de imperativo, é o futuro jussivo, o tempo-aspecto, usual nos mandamentos, códigos, regulamentos, leis em geral15; na segunda oração temos o subjuntivo marcando a ação subordinada à primeira, são fatos simultâneos marcados pela partícula denotadora de tempo – quando. A diferença está na escolha do tempo verbal (presente / futuro) e do modo (indicativo/indicativo – indicativo/subjuntivo).
Vale lembrar que a língua francesa não possui o futuro do subjuntivo, logo para
marcar a simultaneidade é preciso manter as duas ações no indicativo, além do aspecto histórico que envolve a escolha do tempo futuro nos textos legais (o Código Napoleônico).
Em segundo lugar, temos a finalidade de “definir”, esta se apresenta por um “texto definitório”, que em francês pede o verbo no presente do indicativo. Como vemos
“Les décisions rendues par les tribunaux de l’un des deux Etats sont reconnues et peuvent être déclarées exécutoires sur le territoire de l’autre si elles réunissent les conditions suivantes:” (Anexo 3–F)
“As decisões proferidas pelos tribunais de um dos dois Estados serão reconhecidas e poderão ser declaradas executórias no território do outro Estado, se reunirem as seguintes condições:” (Anexo 3–P)
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Vemos nesse exemplo como se apresenta um texto definitório, ele tem a finalidade de estabelecer as condições de validade do ato. Temos a oportunidade de encontrar, mais uma vez, o uso diferenciado do tempo verbal – presente (em francês: sont) e futuro (em português: serão). Porém, no terceiro caso: “texto de princípio” a situação é diferente, apesar de ser um
texto normativo, tem a finalidade de estabelecer princípios. O qual, assim como o anterior, também pede o verbo no presente do indicativo, como vemos
“Le procédure de reconnaissance et d’exécution de la décision est régie par le droit de l’État requis.” (Anexo 3–F)
“O processo de reconhecimento e execução da sentença é regido pelo direito do Estado requerido.” (Anexo 3–P)
A explicação está na própria definição: texto de princípio. Logo, se é um texto de princípio, é a instituição de uma norma. Assim, não há dúvidas quanto à afirmação, o que justifica o uso do verbo no presente do indicativo.
Ainda no âmbito do discurso normativo, encontramos três ângulos de observação, anunciados por Sourioux e Lerat como marcas que constroem o caráter impessoal desse gênero, são elas: as construções passivas inacabadas, as construções pronominais de sentido passivo e as transformações impessoais (1975, pp. 45-46, tradução nossa), cuja abordagem com profundidade será desenvolvida no segundo capítulo, quando estudaremos a “Voz Passiva do Legislador” (2.3.2).
como uma “mise en abîme” (“un récit en abîme”)16, isto é, incrustar uma imagem da justiça na própria imagem da justiça. Sendo o juiz a imagem da lei, nesta imagem ele incrusta a imagem da própria lei com a citação do texto legal que é a égide de sua decisão.
Deve o juiz, antes que julgue formar seu convencimento, pela apreciação calma e refletida de todos os fatos, de todas as circunstâncias, de todas as alegações, constantes do processo. (SILVA, 2009, p.789)
Dessa forma, a expressividade do discurso tende a se tornar “norma”. [...] Não podendo ser desacreditada senão em virtude de motivos especiais (FERRAZ JÚNIOR, 1997, p.82).
Logo, esse gênero discursivo opera por uma questão (a demanda das partes da ação) e uma resposta (obra do juiz), o juiz incorpora a sua resposta na questão que lhe foi solicitada. Como vimos, uma das marcas desse discurso é o raciocínio lógico, que se manifesta pelo silogismo, são as premissas que estabelecem os fatos da causa e a norma legal aplicável ao caso; em outros momentos, há marcas linguísticas de valor performativo, manifestadas por uma categoria de verbos que ao serem pronunciados expressam o valor da ação, demonstrando a autoridade e a força da Justiça (decretar [Decreto a perda dos...], declarar [Declaro aberta a sessão], julgar [Julgo procedente a...], condenar [Condeno o réu a...]); em outros, há um desenvolvimento demonstrativo, lembrando o discurso legislativo. Neste momento, cita Cornu (2005, p.349, tradução nossa): « Toda decisão toma emprestado da norma legal, aplicada ao caso, o enunciado da consequência jurídica prevista em lei ». A intertextualidade está aí presente para dar sustentação legal ao discurso decisório, tem a
função de dar coerência à decisão. Porém, a coerência do discurso decisório depende de outros fatores cuja sequência é determinada por lei17, sem a qual o gênero não será identificado, pois irá desconfigurar a situação de comunicação. Entretanto, em se tratando da prática da tradução, é importante salientar a advertência feita por Bocquet a respeito das
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A “mise en abîme”, “colocação em abismo”, ou “récit en abîme”, “narração em abismo”, é um procedimento que consiste em integrar uma imagem dentro de outra maior e semelhante. No caso da narração, significa uma narração no interior de outra narração maior e semelhante.
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diferenças de usos das regras aplicadas em cada Sistema Jurídico, e que são responsáveis pela apresentação do silogismo judiciário, pois essa apresentação obedece a regras particulares de cada Sistema Judiciário. Bocquet (2008, p.53, tradução nossa) explica que o raciocínio lógico nunca é apresentado da mesma forma nos Sistemas Judiciários das línguas envolvidas na tradução, alertando que o tradutor deve encontrar esse formato na língua de chegada. Na França, essa organização é regida pelo Arts. 454–456 do Nouveau Code de Procédure Civile.
Outro ingrediente do discurso decisório é a « síntese », como explica Bittar : « A capacidade de síntese é importante nas práticas dos tribunais, sobretudo quando se trata da elaboração de ementas para acórdãos » (2009, p.380). A ementa constitui um resumo da questão decidida. Localizada em destaque no corpo da sentença ou do acórdão, proporciona ao leitor a antecipação do conhecimento da norma criada, determinada pelo juiz para regular certo caso concreto, com a exposição dos princípios e fundamentos. No Brasil, as ementas constituem-se de duas partes : verbetação e dispositivo.
Na França, recebe o nome de « chapeau », sendo geralmente seguido da lista dos textos legais aplicados e do nome das partes do processo, como explica Bocquet (2008, p.55, tradução nossa)
Esse pequeno parágrafo lembra formalmente uma lei, pois, sobre o plano linguístico, pertence, como os textos normativos legais e regulamentares, ao modo performativo. Os juristas franceses dão o nome de « chapeau » a essa parte da decisão, que é colocada em destaque por um procedimento tipográfico, como negrito ou caixa alta.
Destacamos que, em se tratando de norma, sua redação obedecerá ao modo performativo.
“Décret n°2000-940 du 18 septembre 2000 portant publication de la convention d’entraide judiciaire en matière civile entre le Gouvernement de la République française et le Gouvernement de la République fédérative du Brésil, signée à Paris le 28 mai 1996.”
(Anexo 3–F) “DECRETO N° 3.598, DE 12 DE SETEMBRO DE 2000.
Promulga o Acordo de Cooperação em Matéria Civil entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Francesa, celebrado em Paris, em 28 de maio de 1996.”
(Anexo 3–P)
Seja na ementa, seja no corpo da sentença, a disposição das informações não são iguais na França e no Brasil. Deve o tradutor atentar para o estilo apresentado em cada cultura. Na França nenhuma decisão pode ser publicada sem estar acompanhada de uma “note”, redigida por um jurista especializado no assunto em questão, chamados de “arrêtistes” (pareceristas). Assim, a organização é constituída por: chapeau, décision e por fim note (BOCQUET, 2008, p.54, tradução nossa), o Brasil não adota essa prática. Entretanto, no Brasil, como explica Elpídio Donizetti, “a sentença é um texto composto de relatório, fundamentação, dispositivo ou conclusão. Apesar de apenas o relatório, a fundamentação e o dispositivo figurarem como requisitos essenciais da sentença, considero de grande valia a inserção do preâmbulo e da ementa na estrutura do texto18”. A França não adota essa prática.
Como vimos, o tradutor não pode falsear, ele deverá ter mais uma preocupação: estar atento ao estilo da organização discursiva dada a esse gênero em determinada Instituição na língua-alvo.
3 ― Discurso Burocrático: trata-se da linguagem utilizada nas relações jurídicas, fundada na
prática institucional e tendo o Estado como protagonista. É um discurso que leva a crer ser isento de interferências ideológicas. Desta forma, ele se dá a ler como discurso neutro.
Uma de suas marcas é seu caráter performativo, que aparece desde o momento de sua enunciação, estabelecendo obrigações, criando condições para produzir efeitos jurídicos. Deverá também ter um ingrediente semelhante à “síntese”; visto que há pouco espaço
18
procedimental para manifestações de discurso burocrático, é precípuo que seja eficiente na
transmissão da informação. Esta é fruto de uma interpretação e de uma decisão, eis porque não devemos ver o discurso como neutro e isento de interferências ideológicas.
Deve-se acentuar que a repetição de locuções vazias e a frieza das expressões formulares do discurso burocrático servem somente a expedientes ideológicos, mascarando realidades presentes e indisfarçáveis aos olhos de todos, a saber, a de que o burocrata também decide, e que, para decidir, também interpreta. (BITTAR, 2009, p.375)
Meramente burocráticos, transmitem, com eficiência, ao leitor o que deve ser feito para que o ato jurídico tenha andamento. Reproduzimos alguns exemplos dados pelo professor Eduardo Bittar : “Cumpra-se a medida determinada” ; “Junte-se o documento determinado, sob pena de extinção” ; “Retornem os autos à instância de origem” ; “Dê-se andamento ao despacho de fls.” ; “Providencie o pleiteante a regularização...”. Ou, como consta na redação dos textos legislativos :
“La présente convention entrera en vigeur le 1er octobre 2000.”
(Anexo 3–F)
“Este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação.”
(Anexo 3–P)
Podemos constatar que são enunciados curtos, objetivos e, principalmente, de cunho informativo; porém seus verbos nem sempre estão na forma imperativa, essa função está implícita no contexto.
os franceses, “un vide juridique”. Jean-Louis Bergel diz que “les vides juridiques” são o paraíso dos juristas. De qualquer forma, este é o recurso apresentado em nosso sistema
jurídico19: “Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito”.
Sendo a doutrina um Discurso Científico, obedece às normas para trabalhos científicos, firmando teorias ou estabelecendo interpretações sobre a ciência jurídica; dessa forma, desenvolvendo uma reflexão contínua. Tem como premissa a atividade de fazer persuadir. As marcas são aquelas utilizadas para construir a própria imagem dentro dos padrões necessários para ser legitimada. Explana Bittar que “as técnicas persuasivas variarão de acordo com o auditório envolvido, adequando-se discurso e destinatário numa só pretensão de aproximação entre a realidade textual da produção e a realidade textual da interpretação” (2009, p.361).
Na realidade, a doutrina cumpre a função de clarear e organizar o Direito, apresentando soluções que serão consagradas. Em razão disso, visualizamos seu aspecto normativo, apesar de que
para muitos representantes da Filosofia Analítica, os enunciados científicos são descritivos e nunca normativos. Mas as teorias da Ciência do Direito, como hoje é praticada, não escondem enunciados de natureza prescritiva. [...] a intenção não é apenas conhecer, mas conhecer tendo em vista as condições de aplicabilidade da norma enquanto modelo de comportamento obrigatório. (FERRAZ JÚNIOR, 1997, p.150)
Assim, podemos admitir que os discursos doutrinários existem com a finalidade de descrever certa situação, como uma reflexão científica, mas acabam tendo outra finalidade na medida em que servem para elucidar dúvidas, sendo citadas na lógica da argumentação do discurso decisório. Por conseguinte, a doutrina acaba por adquirir natureza prescritiva, pois, ao preencher uma lacuna na lei, ganha força de lei, tornando-se norma para casos semelhantes.
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Por esse motivo, Bocquet classifica o Discurso da Doutrina como de gênero híbrido, “às vezes é a paráfrase do discurso performativo [legislativo], às vezes é a paráfrase do discurso silogístico [decisório], às vezes um discurso puramente descritivo, que só tem de jurídico o uso de uma terminologia e de uma fraseologia particular” (2008, p.64). E conclui esclarecendo que, sob o ponto de vista da tradução, essa hibridez causa inúmeras dificuldades, devendo levar o tradutor a navegar com perícia por todos os gêneros do Discurso Jurídico. 5 ― Discurso Consuetudinário: Na técnica do Direito, essa expressão indica tudo o que se
funda no hábito, no costume ou na tradição. Herdados da Antiguidade, as máximas ou adágios são grandes sentenças portadoras de uma grande verdade ou de um preceito moral. Diferem dos ditados ou provérbios que são ensinamentos de sabedoria popular.
Os adágios são enunciados linguísticos uma vez que anunciam o Direito, de forma concisa e, geralmente, com poucas palavras, ex. “In dubio pro reo”.
Do latim adagium. Enunciação breve, sintetizando uma regra de direito ou um princípio legal de grande alcance. Por vezes, é trazido ao texto legal para formar o preceito ou a norma obrigatória. (SILVA, 2009, p.58)
Dessa forma, esses curtos enunciados ganham a força de um discurso, com marcas específicas: “concisão”, com palavras curtas e de sentido profundo, com elipse do artigo e do verbo, com substantivação dos adjetivos; “balanço”, com oralidade e ritmo; “generalidade”. Podemos visualizar nesses exemplos dados por Gérard Cor nu (2005, p.360): Nemo (ninguém), semper (sempre), nullus (nulo), omnis (todos). Tais discursos são usados como valioso recurso estilístico com objetivo de dar ênfase à ideia do autor.
Haja vista ser o adágio, ou máxima, um discurso de origem sábia – a genialidade da linguagem em sua brevidade, uma palavra de ouro –, ele simboliza “poder” para aqueles que dele se servem. Eis porque continua em prática na linguagem do Palácio de Justiça.
Pelo exposto, concluímos que a classificação do Discurso Jurídico em gêneros ganha uma dimensão muito ampla, por isso apresentamos um quadro de equivalência.
O Discurso Jurídico, assim como todo discurso, tem seus participantes que são os sujeitos do discurso: o sujeito-emissor e o sujeito-receptor. Ocorre que fatores ligados ao “conhecimento de mundo”, mais especificamente do mundo do Direito, podem interferir nessa comunicação. Essa comunicação deve-se à apreensão de três elementos, classificados
por Sourioux e Lerat (1975, p.12, tradução nossa): vocabulário; enunciação (conjunto de marcas formais que caracterizam linguisticamente o emissor) e enunciados; e componente da
significação, cujo estudo mostra a lógica do Direito, apontando as dificuldades de
comunicação entre iniciados e não-iniciados (1975, p.12).
Gérard Cornu (2005, p.229), ao abordar a questão, apresenta um esquema com duas distinções: mensagem de iniciado a iniciado e mensagem de iniciado a não-iniciado. No primeiro caso predomina a presunção de compreensão, partindo do princípio de que ambos
20
Eduardo Bittar explica (2009, p.174) que não compartilha com Cornu a ideia de que o Discurso Costumeiro deva ser incluído e analisado conjuntamente com os outros (normativo, burocrático, decisório e científico), e diz: “Analisar o discurso costumeiro é abrir a investigação para a amplitude dos domínios das normas morais, num estudo de caráter jurídico”. Ainda se refere a Ferraz Júnior: “Ferraz Junior também propõe a divisão do discurso jurídico em discurso judicial, discurso da norma e discurso da ciência do Direito”.
Bittar Ferraz Jr. Cornu Bocquet Justiniano
Discurso Normativo Discurso da Norma
Discours Législatif
Textes Normatifs são todos aqueles que pertencem ao modo performativo
Códice e Novelas
Discurso Decisório Discurso Judicial Discours Juridictionnel Textes Juridictionnels Digesto
Discurso Científico Discurso da Ciência do Direito
--- Doctrine Institutas
Discurso Burocrático --- --- --- ---
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são membros de um mesmo campo, logo conhecem a linguagem de especialidade inerente àquele ambiente, levando a uma compreensão por meias-palavras, manifestada na redução das frases com a eliminação de algumas palavras, no emprego de abreviações ou de siglas, e de outras formas que aceleram a comunicação.
No segundo caso, temos uma possibilidade de compreensão de risco, visto que de um lado, temos o sujeito-emissor do Discurso Jurídico, alguém “iniciado” na matéria e com domínio da linguagem do Direito; do outro lado, temos uma pessoa “não iniciada” que pode ou não compreender a mensagem do discurso. Este é o caso do “gênero normativo”, representado pelo discurso legislativo. Diante dessa possibilidade, diz Cornu, o legislador enfrenta o desafio de neutralizar o risco, sem desqualificar sua mensagem. [...] Guardar a
precisão que é uma das virtudes do Direito e encontrar a clareza que a finalidade da
mensagem exige (2005, p.230, tradução nossa).
Tomando como exemplo o texto do Art. 3° da Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro: “Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece”, esta norma legal “ninguém pode alegar o desconhecimento da lei” é frequentemente tomada como premissa nas questões jurídicas, visto que presume que todo cidadão brasileiro tem conhecimento das leis em vigor no país. São os discursos para “todo entendedor”, ou seja, para a massa da população. “Seus destinatários são milhões de ouvidos. [...] Se a lei fala para todos, ela fala para cada um, supondo que cada destinatário é único” (CORNU, 2005, p.228, tradução nossa).
tradução jurídica?21, no qual ele aponta dois obstáculos, o primeiro está no Sistema Jurídico,
este é resultado das condições socioculturais de cada povo; o segundo obstáculo está na lógica do Direito, ou seja, na lógica da Instituição Jurídica, que, atendendo a suas necessidades, determina o gênero. Em outras palavras, os obstáculos são: o Sistema Jurídico e o gênero (determinado pela lógica da Instituição). Ora, nesse caso o tradutor deve com mestria superar os obstáculos a partir dos outros componentes enumerados por Sourioux e Lerat: vocabulário, enunciação e enunciados, ou seja, a partir do seu conhecimento linguístico e discursivo, os
quais também estão subjugados à lógica da Instituição.
Cada Instituição de Direito se manifesta por meio de certas “situações de comunicação” que existem a partir de um contexto anterior a sua formação, criando outro contexto secundário. Podemos exemplificar com a Instiuição do casamento, que existe a partir de um contexto histórico feudal, religioso, político e econômico; ora, essa situação de comunicação anterior cria outro contexto que é a situação de comunicação derivada: a cerimônia civil e/ou religiosa, cujo discurso aí produzido obedece a uma lógica. A partir dessa lógica, fica estabelecido o modo (ou os modos) como ele será adotado, que na concepção de Claude Bocquet (2008, pp.10,11,23) podem ser três: o modo performativo (dos discursos normativos), o modo silogístico (dos discursos jurisdicionais) e o modo descritivo (dos discursos doutrinários).
O Discurso Normativo/Legislativo, ao determinar normas de conduta, traz em suas entidades linguísticas as marcas do poder do sujeito-emissor, são os critérios intelectuais que definem a regra e que estão impressos em seu enunciado, explicitando as marcas de soberania
daquele que edita a norma a ser cumprida, mesmo que ele permaneça invisível. Aliás, explica Ferraz Jr. que a situação comunicativa pode ser acrescida de mais um comunicador: o árbitro,
21
Disponível em:
o juiz, o legislador, mais genericamente, a norma, tornando-se triádica (1997, p.60). Para exemplificar essa situação, transcrevemos as seguintes fórmulas:
“O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
CONSIDERANDO que o Congresso Nacional... CONSIDERANDO que o referido Tratado...
DECRETA...”
(Anexo 1–P)
“Le Président de la République
Sur le rapport du Premier ministre et du Ministre des relations extérieures,
Vu les articles 52 à 55 de la Constitution ;
Vu les décret nº 53-192 […] souscrits par la France.
Décrète... »
(Anexo 1–F)
Nesse cenário, nos perguntamos como se formam os AJI, que são Atos Legislativos. Em que consiste seu discurso enquanto gênero, estruturado a partir da lógica do Direito na Instituição22 do Direito Internacional Público.
1.2 O DISCURSO LEGISLATIVO
Quando lançamos o olhar sobre o Discurso Jurídico normativo, deparamo-nos com o Ato Legislativo, pois é através dele que a norma é estabelecida, impondo os elementos de fundo e de forma. Pode emanar tanto do Poder Executivo – quando este expede um decreto ou um regulamento de caráter legislativo, seja por autorização da Constituição ou do
Legislativo – quanto do Poder Legislativo, este elabora uma lei a fim de que seja adotada e
reconhecida como norma jurídica obrigatória (SILVA, 2009, p.164).
Mas quem são os responsáveis pela elaboração do texto legislativo? E quem são os que assinam? A quem se dirigem? Enfim, quem são os sujeitos do Ato Legislativo?
Inicialmente, é bom diferenciar os dois atos que trazem à luz a Norma: a elaboração e
a sanção. A elaboração é feita pelo Corpo Legislativo, ou seja, pelos deputados e senadores
22