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2005; 8(3): 228-30
EDITORIAL
EDITORIAL
Richard Doll
(1912-2005)
Perdemos Richard Doll.
Nunca saberemos com certeza que no-mes serão lembrados no futuro como refe-rências no campo das idéias e da produção de conhecimento nas esferas da Epidemio-logia e da Saúde Pública, mas além de John Snow, seguramente Richard Doll estará en-tre eles.
Seus trabalhos sobre a associação entre o tabagismo e câncer de pulmão são pre-sença obrigatória nos livros texto de Epidemiologia e uma constante nas ativida-des de formação de profissionais de saúde e pesquisadores nestas áreas.
Embora os aportes de sua trajetória ci-entífica transcendam em muito o estudo dos efeitos do tabagismo na saúde humana, não é sobre estes que gostaria de comentar, mas sim do ser humano de olhar doce e franco que tive o privilégio de conhecer e conviver durante alguns poucos, mas sempre lembra-dos dias.
Durante os preparativos do IV Congres-so Brasileiro de Epidemiologia, o EPI-RIO realizado em agosto de 1998, o nome de Richard Doll veio imediatamente à mente na estruturação da relação de palestrantes convidados. Ao contrário de alguns outros nomes – felizmente poucos, e imediatamente desconsiderados- que ao serem convidados, responderam-nos perguntando quanto re-ceberiam como pagamento para apresenta-rem conferências no Congresso, Doll pron-tamente aceitara o convite com satisfação. Cabe lembrar que então, com cerca de 85 anos de idade, tinha o compromisso já assu-mido de vir ao Rio de Janeiro no seguinte mês de setembro para dar uma conferência durante o Congresso Mundial de Câncer, igualmente aqui realizado duas semanas após o término do EPI-RIO.
Naqueles dias tivemos oportunidade de conversar bastante, e assim, conhecer um pouquinho do homem que se tornara o mito da Epidemiologia do século 20. Figura amá-vel e de muito fácil conversação, dissera que fora como estudante de medicina que en-trara em contato com o intenso debate ideo-lógico entre as ideías liberais, socialistas e fascistas já presentes na sociedade inglesa
We lost Richard Doll.
We will never know for sure which names will be remembered in the future as land-marks in the field of ideas and production of knowledge in the realm of Epidemiology and Public Health, but in addition to John Snow, Richard Doll will certainly be one of them.
His work on the association between smoking and lung cancer is always included in textbooks of Epidemiology and in the train-ing of health professionals and researchers in these areas.
Although his contributions to science go beyond the study on the effect of smoking on human health, I would not like to talk about that, but rather about the human be-ing with a sweet and candid gaze who I had the honor to meet and to share a few, but always memorable days.
During the preparation for the IV Brazil-ian Congress of Epidemiology, EPI-RIO, which was held in August 1998, the name of Richard Doll came immediately into mind when defining the list of guest speakers. Un-like other names – fortunately not many and immediately rejected – who asked how much they would receive for speaking at the Con-gress, Doll readily accepted the invitation with satisfaction. It should be mentioned that then, at the age of 85, he already had a prior commitment to come to Rio de Janeiro the following month of September to speak at a conference in the World Cancer Congress, to be held two weeks after the end of EPI-RIO.
At the time, we had the chance to talk a lot, and in this manner, know a little about the man who had become a myth in 20th cen-tury Epidemiology. Friendly and pleasant to talk to, he told us he was a medical student when he got in touch with the intense ideo-logical debate between liberal, socialist and fascist ideas already present in the English society of the 1930’s. It was also as a newly graduated physician that he voluntarily en-listed in the English army to participate in the fight against Nazism.
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na década de 30. Fora tambem como médi-co recém-formado, que se alistara volunta-riamente no exército inglês para participar na luta contra o nazismo.
Finalizada a 2ª Guerra, ganhava força o debate entre trabalhadores e os dirigentes conservadores na Inglaterra para a criação do Sistema Nacional de Saúde, a primeira experiência dessa natureza no mundo capi-talista. É no meio deste debate, que Doll é convidado por Bradford Hill – um dos gran-des nomes da Bioestatística naquele perío-do –, para ajuda-lo na análise da crescente elevação de casos de câncer de pulmão em homens que estavam sendo diagnosticados no país.
O que Doll então nos comentou era que tanto ele como Bradford Hill acreditavam piamente que a causa daquele fenomêno era a crescente poluição urbana decorrente da ampliação da frota de automóveis circulan-do por Londres e demais grandes cidades inglesas. Esta convicção era tão marcada que seus estudos inicais foram realizados anali-sando a distribuição do câncer de pulmão em guardas de trânsito, em comparação com aquela verificada entre os demais trabalha-dores.
Para sua surpresa, a similitude de resul-tados em ambos grupos, levou-os a ampliar o espectro de possiveis fatores de risco, o que acabou conduzindo aos clássicos resul-tados dos estudos revelando a associção da-quela neoplasia com o hábito de fumar, hi-pótese então considerada inusitada e sur-preendente. Na Inglaterra dos anos 40, cer-ca de 80% dos homens adultos eram fuman-tes, hábito de vida então considerado como sofisticado e de bom gosto. As contra-capas de importantes revistas médicas daquele período apresentavam propaganda da indús-tria do tabaco com pretensos diálogos nas quais os personagens centrais eram profis-sionais de saúde, como médicos e enfermei-ras, destacando suas preferências pelas di-ferentes marcas de cigarro, assim associa-das à imagem de credibilidade e aceita-bilidade social daqueles profissionais. Com os trabalhos de Doll e a contundência de seus resultados, o tabagismo sofre um de seus
Health System gained momentum; it was the first experience of this nature in the capital-ist world. It was amidst this debate that Doll was invited by Bradford Hill – one of the great names of Biostatistics at that time – to help him analyze the growing number of men being diagnosed with lung cancer in the coun-try.
Doll told us that he and Bradford Hill strongly believed that the cause of that phe-nomenon was the growing urban pollution resulting from the expansion of the auto-mobile fleet circulating in London and in other large English cities. This conviction was so deep-seated that their initial studies were based on the analysis of the distribution of lung cancer among traffic wards, in com-parison with other workers.
To their surprise, the similarity in both groups led them to widen the scope of pos-sible risk factors, which eventually resulted in the classical studies revealing the associa-tion of the tumor with smoking, a hypoth-esis then considered unexpected and sur-prising. In the England of the 1940’s, about 80% of men were smokers, a life habit then seen as sophisticated and of good taste. The back covers of leading medical journals of the time printed advertisements of the to-bacco industry with conversations whose main characters were healthcare profession-als. These physicians and nurses were men-tioning their preferences for different ciga-rette brands and in this manner associating them to the image of credibility and social acceptance of those professionals. With the studies of Doll and the power of their re-sults, smoking suffered one of its first major blows, and in a few years, the prevalence of smokers in the social brackets with more education and higher income in England dropped sharply. Its overall impact on pub-lic health and in health promotion activities was so great that Doll was knighted by the English royalty, and his name was suggested many times as a nominee for the Nobel Prize of Medicine, which never happened.
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primeiros grande golpes, e em poucos anos, diminui a prevalência de fumantes nas ca-madas socais de maior escolaridade e renda na Inglaterra. Seu impacto geral para a saú-de pública e nas atividasaú-des saú-de promoção da saúde foi tão marcado que Doll recebe da realeza inglesa o grau de “Sir”, sendo seu nome várias vezes sugerido posteriormente na indicação para Premio Nobel de Medici-na, o que acabou nunca se materializando.
Daquela figura de homem alto e magro, simples mas majestoso, restou a imagem de um verdadeiro cientista, de bem com a vida, e para quem a aposentadoria não fazia parte de seu vocabulário. Sua curiosidade nao ti-nha limites, abarcando desde os segredos da culinária brasileira, até os desafios contem-porâneos do conhecimento, como o estudo da associação entre os campos eletromag-néticos e a ocorrência de câncer na infância. Como cientista, deixa como poucos um exemplo de vida, envolvido na produção do conhecimento e com um claro posicio-namento e compreensão sobre a natureza de sua atividade na sociedade.
Como indivíduo, era uma pessoa sem-pre atenta à vida que lhe circundava, e a úl-tima imagem de que dele guardo lembrança foi ao nos despedirmos no Riocentro du-rante o Congresso Mundial de Câncer. Esta-va apressado, pois não queria atrasar-se para tomar o vôo de regresso, já que ao chegar a Londres, a esposa o estaria esperando no aeroporto, para dali dirigirem-se diretamente a uma sessão de teatro ...
Sergio Koifman Editor Associado
who did not have retirement as a word in his vocabulary. His curiosity was limitless, from the secrets of Brazilian cuisine to the cur-rent challenges of knowledge, as the study on the association of electromagnetic fields and cancer in children.
As a scientist, he was a role model like few others, involved in the production of knowl-edge and with a clear position and understand-ing of the nature of his role in society.
As an individual, he was always aware of the life surrounding him, and the last image I have of him in my memory was when we said goodbye at Riocentro during the World Cancer Congress. He was in hurry, because he did not want to be late for the return flight, as his wife would be waiting for his arrival at the London airport for them to go straight to the theater...