Magia, Alquimia Tântrica, Ocultismo Experimental, Espiritualidade das Sombras, Corrente Shaitan-Aiwass, Hermetismo & Tantrismo

Texto

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Sabedoria Oculta

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Voolluummee II,, NNúúmmeerroo 11 MaMaggiiaa,, AAllqquuiimmiiaa Tânnttririccaa,, OOccuultltiissmmoo EExxppeerriimmeennttaall,, EEssppiirriittuuaalliiddaaddee ddaas s

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Soommbbrraass,, CCoorrrreennttee SShhaaiittaann--AAiiwwaassss,, HHeerrmmeettiissmmoo && TTaantntrrisismmoo

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Revista Sabedoria Oculta, Vol. I, No. 1.

© Fernando Liguori

© Helio Monteiro Realização:

Śrīkulācāra

srikulacara@gmail.com Editor: Fernando Liguori Conselho Editorial:

Fernando Liguori Helio Monteiro Kamila Celeste

Publicação registrada sob o nº 159.235 no Escritório de Direitos Autorais do Mi- nistério da Cultura/Biblioteca Nacional.

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Ilustração: Alexandre Araújo

Contribuições e comunicações com o edi- tor podem ser enviadas para o e-mail acima.

A Revista Sabedoria Oculta é uma publi- cação quinzenal que aborda temas sobre Ocultismo, Magia, Experimentos Mágicos, Caminho da Mão Esquerda, Alquimia Tântrica, Corrente Shaitan-Aiwass, Biop- sicologia, Espiritualidade das Sombras, Tradição Draco-Tifoniana, Alquimia, Hermetismo, Gnose. Os artigos são de responsabilidade de quem os assina e não refletem, necessariamente, a opinião da revista.

Os recursos gerados com a venda de exemplares são integralmente reinvesti- dos no projeto, promovendo seu desen- volvimento organizacional e técnico, buscando sempre oferecer melhor con- teúdo.

Citações de trechos desta publicação podem ser usadas, desde que menciona- da à fonte e que tenham autorização escrita dos autores.

Sabedoria Oculta é um trabalho que tem como objetivo tornar acessível, a todas as pessoas que buscam com o coração, in- formações valiosas para seu aperfeiçoa- mento espiritual de forma integral e harmoniosa.

Os textos que compõem a Revista Sabe- doria Oculta são traduções autorizadas, extratos de livros que versam sobre os temas abordados pela revista e artigos produzidos por autores que desejam contribuir. Eles abordam aspectos histó- ricos, filosóficos, teóricos e práticos do ocultismo.

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Conteúdo

A Serpente de Fogo nos Ritos de Alta Magia 05 Helio Monteiro

Homem, dome a Kuṇḍalinī 07

Fernando Liguori

Explodindo a Kuṇḍalinī 11

Swāmi Satyānanda Saraswatī

O Significado da Doutrina da Mão-Esquerda ou Kaulamārga 19 Fernando Liguori

Espíritos & Forças 23

Kenneth Grant

Jack Parsons & a Operação Babalon 32 Antônio Vicente

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A Serpente de Fogo

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A Serpente de Fogo nos Ritos de Alta Magia

Helio Monteiro

s ritos de Alta Magia da Ordem do Lotus Negro (O.L.N) estão alinhados aos Misté- rios da Serpente de Fogo, a «Kuṇḍalinī Universal», da qual nosso Logos Solar é, ao mesmo tempo, a alma e o corpo. Kuṇḍalinī é o poder mágico supremo simboliza- do pela energia Ígnea adormecida na base da espinha a qual, após o seu desper- tar, ativa as zonas de poder sutis do corpo humano.

Para nós, o Sol é a kuṇḍalinī in excelsis, no qual vivemos, nos movemos e temos o nosso ser.

A kuṇḍalinī, a Serpente de Fogo, é uma projeção da Força Solar de nosso Logos. Ela ficou conhecida como Ruach Ha Kodesh nos textos hebreus e também como Espírito de Deus ou Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Trindade Cristã. Para muitos gnósticos (antigos e mo- dernos) o Espírito Santo é de natureza feminina e pode ser personificado como uma Deusa.

O Espírito Santo é o Fogo de Pentecostes que desceu para inspirar os discípulos, em Atos II.

É semelhante à kuṇḍalinī, a Força Solar ou ao Fogo da Serpente que falam os tântricos. To- dos esses são os nomes para o mesmo princípio.

No microcosmo humano a kuṇḍalinī, o Fogo Serpentino ou a Mãe do Mundo, é a energia Ígnea adormecida no cakra fundamental «mūlādhāra», a qual após o seu despertar, ascende pela suṣumnā-nāḍī (coluna espinhal) e ativa as zonas de poder «cakras» do corpo humano.

Se os cakras inferiores estiverem devidamente lacrados a energia ascende e força seu ca- minho para cima através da coluna espinhal e, desta maneira, sua elevação é marcada por visões e aquisições de poderes latentes até sua culminância no centro do cérebro.

Na ascensão da kuṇḍalinī sobre os diferentes níveis de realidade «planos invisíveis» a ener- gia pode também assumir inúmeras manifestações de seres espirituais os quais o mago exercerá seu controle. Ele deve de fato evocá-las e exercer sua autoridade espiritual sobre elas. Essas forças são uma manifestação da corrente mágica universal que deve ser absor- vida ou «aterrada» pelo mago.

Como já dito nossos ritos de Alta Magia estão alinhados aos Mis- térios da kuṇḍalinī. Estes ritos visam fazer subir a kuṇḍalinī ou energia divina através de práticas astrais de maneira que o po- der, embora desperto, permaneça no mūlādhāra-cakta. Proce- dendo dessa forma existe uma menor quantidade de perigo e problemas da energia ser desviada ou tomar uma direção erra- da, cujo resultado é obsessão.

Na prática do yoga a energia deve elevar-se através da escala de todas as aparências até o ponto culminante em que o yogī identi- fica-se com o Uno Transcendental além de toda imaginação. Ao

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contrário do puro misticismo do yoga na Alta Magia o trabalho com a kuṇḍalinī exige o aterramento da corrente mágica. Isto significa que na Alta Magia o mago tem que atrair as forças do Não-Manifesto à Terra, revivendo o processo divino da Criação, onde ocorre a encarnação do Espírito no Reino de malkuth «matéria». Parafraseando Dion Fortune: «Deve haver, em nós, um circuito entre o Céu e a Terra, não basta tirar kuṇḍalinī da base da espi- nha, fazendo-a subir, mas também devemos fazer descer a Luz Divina através do Lótus de Mil Pétalas.»

É a sacerdotisa devidamente treinada que serve como portal vivo através da qual as forças cósmicas podem ser canalizadas. Nos ritos mágicos de natureza polarizada é a sacerdotisa que traz o poder para o Templo e o sacerdote o direciona.

Para isso utilizamos os portais de energia do corpo «cakras» para a criação de vórtices capazes de atrair as forças cósmicas desejadas, para realização de propósitos específicos.

Em termos práticos isso inclui abrir um portal no espaço-tempo onde as energias extrater- restres possam ser canalizadas para se manifestarem na Esfera da Terra, ou no corpo do Adepto. Como resultado deste método novos portais podem ser criados facilitando a pene- tração da consciência em dimensões alienígenas, e a comunhão voluntária e consciente com Entidades Transcendentais.

Também as memórias mortas e esquecidas de nosso passado antropológico e espiritual podem ser ressuscitadas no corpo «ressurgência atávica» através de certos ritos utilizando o poder da Serpente de Fogo sob alta emotividade. Um ser humano que ativa essa memória espiritual torna-se um Tulku: um aparelho orgânico que processa informações dos Planos Ocultos do Universo ou de Inteligências Superiores Não-Físicas.

A experiência comprova que através deste método novos portais podem ser criados facili- tando a penetração da consciência em dimensões metafísicas, e, como resultado, a comu- nhão voluntária e consciente com inteligências e entidades não-humanas.

Helio Monteiro «Dharmagupta» é estudioso de Filosofia Yogī, Ocultismo Hermético e Budismo Tântrico desde a dé- cada de 1980. Em 2010 recebeu iniciação mística nos Ritos Tântricos da Escola Uttarāmnāya. Helio foi consagrado co- mo sacerdote da Igreja Gnóstica da linhagem apostólica de Krumm Heller «Huiracocha», Jorge Adoum, Paulo de Paula e Khaled Khan, 777. Fundador do Espaço Amitabha de Cultura Oriental e Terapias Holísticas. Exerce a função de Sumo Sa- cerdote na Ordem do Lótus Negro «O.L.N.», uma fraternida- de iniciática de caráter hermética, gnóstica e teúrgica. Suas formações na área terapêutica incluem EFT «Acupuntura Emocional Sem Agulhas», Yoga Terapia e Reiki Master em di- versos sistemas: Reiki Xamânico «Amadeus e Ma'Heo'o», Cosmo-Ascensional «Sete Pérolas», Gendai Dentho Reiki

«Tradicional Japonês» etc. Atualmente trabalha como Con- sultor Metafísico e Bionergético utilizando técnicas combi- nadas de terapias vibracionais e ocultismo moderno em di- versos casos: mudanças de comportamento, investigação de fenômenos ocultos, harmonização energética de ambientes, resgate da autoestima, desenvolvimento do potencial interi-

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Homem, dome a Kuṇḍalinī

Fernando Liguori

esde a publicação dos artigos Kuṇḍalinī & Esquizofrenia, A Alquimia da Kuṇḍalinī &

Transmutação Sexual, Gṛhastha Brahmacarya & o Despertar da Śakti e por último Kuṇḍalinī Yoga Terapia & os Segredos Espirituais da Āyurveda (partes 1 e 2), recebi inúmeras cartas e e-mails de pessoas que pediam mais informações acerca daquilo que podemos definir como o fenômeno da kuṇḍalinī. São profissionais da área do Yoga (pro- fessores e praticantes) e pessoas que, segundo elas mesmas, passam por inúmeras experi- ências devido ao despertar espontâneo da kuṇḍalinī. Todas essas comunicações e troca de experiências são muito gratificantes, pois em meu trabalho recebo muitas pessoas que descrevem as mesmas experiências, necessitando de ajuda e auxílio para se curar. Na ver- dade, meu trabalho é de cura e foram poucas as pessoas que me procuraram com outros objetivos. Quando recebo essas pessoas, primeiro tento encontrar a raiz dos seus desequi- líbrios nos doṣas (biotipos constituintes) e traço um sādhanā (prática espiritual) especial para sanar estes desequilíbrios, dependendo da natureza de cada indivíduo. Este sādhanā ou dinacharya (conduta diária) inclui práticas yogīs como āsanas, prāṇāyāmas, mudrās e bandhas. Para aqueles que são ritualisticamente inclinados, oriento um upāsana que envol- ve a adoração de deidades tântricas e védicas, assim como a execução de mantras e medita- ções. Portanto, meu trabalho alia uma terapia com o kuṇḍalinī-yoga e os aspectos espiritu- ais da Āyurveda.

Por estar associado ao Projeto de Pesquisa sobre a Kuṇḍalinī [Kuṇḍalinī Research Project] da Associação Internacional de Pesquisa sobre a Kuṇḍalinī [Kuṇḍalinī Research Association International], fundada por Georg Tompkins, que por muitos anos esteve associado ao pândida Gopī Kṛṣṇa e a Bihar School of Yoga, oriento pessoas e formulo estudos, tanto práticos quanto teóricos, acerca do fenômeno kuṇḍalinī. Para empreender um trabalho como este, parto do ponto de vista que a kuṇḍalinī-śakti é um mistério, pois para cada um de nós ela se manifesta de uma maneira distinta. É óbvio que os sinais de uma kuṇḍalinī desperta ou parcialmente trabalhada são visíveis, tanto positivamente quanto negativamente.

Mas separar esse véu de manifestação é muito difícil;

é como tentar traçar a distinção entre a genialidade e a loucura. Portanto, meu trabalho parte do ponto de vista de minha experiência, tanto pessoal quando

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adquirida através da sabedoria milenar do Tantra, do Yoga e da Āyurveda.

É uma conduta quase que geral dos médicos Āyurveda na Índia diagnosticarem problemas e doenças mentais como uma manifestação ou ligeiro despertar da kuṇḍalinī. Esse é o ponto de vista de muitos mestres também. Pessoas que não possuem conhecimento de Yoga e não-iniciados, ao escutarem as descrições das experiências com a kuṇḍalinī chegam a pen- sar que são relatos de surtos psicóticos. Muitas das descrições sobre essa experiência tra- zem relatos de pessoas que passaram pelo despertar suspeitando que estavam ficando loucas. É fácil compreender que uma pessoa que passa pela experiência de uma espontânea suspensão da respiração (kevala-kumbhaka) ou a sensação de ausência total de corpo físico possa ter medo de estar ficando louco. Agora, contudo, a comunidade médica está vagaro- samente se tornando consciente das diferenças entre loucura e expansão das faculdades mentais. São muitos os médicos que, lançando mão das pesquisas sobre a kuṇḍalinī e os estados alterados de consciência que sua experiência produz, auxiliam inúmeras pessoas a tomarem o rumo certo na jornada da serpente de fogo.

Se por um lado finalmente a comunidade médica já está conseguindo admitir a existência dos estados alterados de consciência promovidos pelo despertar da kuṇḍalinī, por outro existem as pessoas que se enganam ou que, muitas vezes, são enganadas. Grande parte das pessoas que alegam estar passando ou já terem passaram por experiências conectadas a kuṇḍalinī na verdade apresentaram um problema mental genuinamente físico. Geralmente, elas não querem admitir que seu problema seja real e que não tem nada a ver com a kuṇḍa- linī. Mas existem aqueles que demonstram uma experiência verdadeira com a serpente de fogo. Portanto, uma avaliação criteriosa é muito importante, principalmente por aqueles que passam pela experiência. Existe uma tendência quase unânime de o ego mascarar a experiência, prejudicando a evolução no despertar espiritual.

Infelizmente, existe também a má orientação. Em 2004, a revista Vogue publicou um artigo sobre uma ex-modelo que, durante uma aula de Yoga, sentiu muitas dores na cabeça. Sua famosa professora de Yoga, no entanto, disse-lhe com animação que as dores eram um sintoma do despertar da kuṇḍalinī. Exames posteriores revelaram que era um sintoma de tumor cerebral. A professora fingia ter um conhecimento que não possuía. Muitas vezes isso é um produto dos mestres e pseudo-mestres ocidentais que de alguma maneira utiliza- ram os segredos do kuṇḍalinī-yoga de forma distorcida. Foram divulgadas informações sobre a kuṇḍalinī, os cakras, as nāḍīs etc. que confundiram a cabeça de muitos buscadores.

Grande parte destes mestres ocidentais estiveram envolvidos com organizações ocultas, maçônicas ou para-maçônicas e seus ensinamentos, deturpações adaptadas do conheci- mento esotérico Oriental, serviu apenas aos seus propósitos. A história da Tradição Esoté- rica Ocidental está cheia de relatos de pessoas que se apropriaram indevidamente do co- nhecimento Oriental para fins escusos. Mas não vamos nos iludir aqui. O Oriente também produziu muitos mestres de caráter duvidoso.

Concernente ao despertar da kuṇḍalinī, existem mais dois pontos importantes que todo aspirante deve manter em mente. Primeiro, há um grupo de pessoas que se lançam nas práticas com a kuṇḍalinī fazendo a utilização de substâncias alucinógenas. Isso porque os sintomas descritos nos relatos de pessoas que passaram pelo despertar da kuṇḍalinī po-

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ponto, ressalto mais uma vez a importância da honestidade ao se examinar as experiências com a kuṇḍalinī. Existe uma ciência tântrica conhecida como auśadhī. É o método de se despertar a kuṇḍalinī através do uso de ervas específicas. Auśadhī não deve ser interpreta- do como a utilização de drogas como maconha (cannabis), ácido, etc. Auśadhī é o mais po- deroso e rápido método de despertar a kuṇḍalinī, mas ele não é para todos e poucas pesso- as conhecem esse método. Existem ervas que podem transformar a natureza do corpo e seus elementos e trazer um parcial ou completo despertar, mas elas nunca devem ser usa- das sem um guru ou um guia qualificado. Isto ocorre porque certas ervas despertam iḍā ou piṅgalā, e outras suprimem ambas as nāḍīs, levando o praticante rapidamente a loucura.

Por esta razão, auśadhī é um método muito arriscado e pouco confiável.

Segundo, o despertar da kuṇḍalinī envolve determinados fenômenos psíquicos, mas primordialmente, é uma experiência espiritual. Portanto, muitas pessoas presumem que o despertar da kuṇḍalinī garante habi- lidades psíquicas e poderes sobrena- turais. Embora isso possa ser verda- de em certa medida, é perigoso de- mais supervalorizar os poderes psí- quicos ou até mesmo brincar com eles. Habilidades psíquicas não são um pré-requisito para despertar a

kuṇḍalinī e o crescimento e evolução da consciência.

Portanto, existem alguns pontos a serem considerados quando lidamos com as manifesta- ções da kuṇḍalinī:

 Experiências genuínas são raras.

 Quando o aspirante está sob a orientação de um guru ou um guia preparado, suas experiências são determinantemente colocadas em perspectiva, o que garante o controle total do processo.

 Executar uma sequencia de práticas apropriadas, treinar sob a orientação de um guru e percorrer vagarosamente o caminho espiritual, faz com que o processo de purificação física ocorra com mais facilidade. Assim, as experiências que acompa- nham o despertar podem ser amenizadas para que proporcionem paz e sabedoria.

 Após a experiência genuína, o que fica é um estado de bem-aventurança, paz e ele- vado nível de consciência.

O resultado desta experiência é o suficiente para incinerar todas as dúvidas. Seu corpo se torna leve como o ar. Você passa a ter uma inesgotável energia para o trabalho, uma mente equilibrada em meio às provações e tribulações da vida. Mas para kuṇḍalinī ascender, o corpo deve ser capaz de suportar a energia que se manifesta e o sistema nervoso deve ser forte, saudável e perfeitamente desenvolvido. Isso é conquistado através das práticas do

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Yoga. Quando o corpo e a mente estiverem preparados, a kuṇḍalinī ascenderá espontanea- mente, liberando e expandindo a consciência.

Carl G. Jung, eminente psiquiatra suíço, sumarizou essa experiência em seu Psychological Commentary on Kundalini Yoga, onde ele declara: Quando você for bem sucedido no desper- tar da kundalini, quando ela começar a se mexer e demonstrar sua potencialidade, você expe- rimentará um mundo completamente diferente, o mundo da eternidade.

Portanto, tenha sempre em mente que essa energia é a chave para o renascimento espiritu- al e que seu despertar provoca uma mudança dramática em sua vida. É uma força que deve ser respeitada e reverenciada, pois por incontáveis milênios foi o tesouro secreto conside- rado como o elixir da imortalidade que esteve indisponível para as massas. Hoje em dia, com a disseminação da informação espiritual, este tesouro está à disposição de muitas pes- soas, pois a ciência do kuṇḍalinī-yoga está mais acessível ao buscados moderno. A kuṇḍalinī é a chave oculta da realização da natureza essencial de cada um de nós e pode ser colocada em movimento pelas práticas do kuṇḍalinī-yoga.

Em Kundalini: The Evolutionary Energy in Man, Gopī Kṛṣṇa diz: O mecanismo conhecido como kundalini é a causa real de todo fenômeno espiritual, a base biológica da evolução e o desenvolvimento da personalidade, o segredo original de todas as doutrinas ocultas e esotéri- cas, a chave mestra do mistério indecifrado da criação, a inexaurível fonte da filosofia, arte e ciência e a origem de todas as religiões do passado, presente e futuro.

Fernando Liguori é ocultista há mais de vinte anos.

Membro sênior da O.L.N., responsável pelo Círculo Kaula, uma célula da O.L.N. estabelecida como uma zona de po- der com a finalidade de explorar e transmitir o vāma- mārga. É Professor de Yoga e Tradição Tântrica «tantra e yoga-śāstrācārya). É adepto da Tradição Bihar Yoga e do Śaivismo Trika da Caxemira «Anuttara Trika Kula». For- mado em Enfermagem, é terapeuta Āyurveda e Mestre Reiki. Iniciou sua jornada espiritual com o Xamanismo.

Auxilia buscadores no despertar da Śakti com Rituais Sa- grados, Mantras, Meditações, Yoga e Āyurveda. Trabalha com grupos de Yoga Terapia aplicando a metodologia te- rapêutica da yoga-nidrā e prāṇ-nidrā em pacientes com fibromialgia e portadores de deficiência mental (esquizo- frenia e bipolaridade). Membro da Green Yoga Associati- on, fundou o MYA «Movimento Yogī Ambiental» com a fi- nalidade de introduzir a consciência ecológica entre os praticantes de Yoga.

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Explodindo a Kuṇḍalinī

Swāmi Satyānanda Saraswatī

tema kuṇḍalinī-yoga se tornou muito popular na Índia, bem como no exterior e por isso é necessário para todos nós compreendermos tanto seus aspectos práticos quanto seus aspectos filosóficos em termos claramente definidos. Assim como Ananta, o rei serpente, é o apoio de toda a terra, também é a serpente kuṇḍalinī o apoio do Tantra e do Yoga. O conceito de kuṇḍalinī e sua ascensão através da suṣumṇā, o caminho real, foi simbolizado em muitas histórias e parábolas de várias religiões em todo o mundo.

Uma das maiores histórias simbolizando a kuṇḍalinī é encontrada nos contos do Senhor Hanuman, o deus macaco. A história de Hanuman simboliza o sādhanā de quem luta para despertar este poder inerente. Diz-se que uma vez, como uma criança, ele estava vendo o sol nascer. De repente, sentiu fome e saltou para o céu e comeu o sol, acreditando que fosse uma maçã enorme. Imediatamente todos os três mundos ficaram escuros e os deuses se estabeleceram em pânico. Hanuman definitivamente não comeu o sol. Isso é meramente uma expressão simbólica que representa a retirada do prāṇa ou a força solar de seu corpo para suṣumṇā. Este é o entendimento secreto da kuṇḍalinī.

Kuṇḍalinī-yoga é uma parte da tradição tântrica. Embora a palavra kuṇḍalinī signifique literalmente espiralada, de acordo com o Tantra, ela deriva da palavra kunda, que significa um lugar mais profundo. Kuṇḍalinī é mahā-śakti; ela residente em um lugar muito profundo, o mūlādhāra-cakra. O Tantra incorpora muitos ramos em seu tronco, como o haṭha-yoga, mantra-yoga, laya-yoga, āsanas, prāṇāyāmas, kriyā-yoga, yoga-nidrā, bhakti-yoga e acima de tudo, kuṇḍalinī-yoga. O principal objetivo do Tantra tem sido sempre o despertar deste grande potencial adormecido e evoluir a consciência humana para além das fronteiras da mente, do tempo e do espaço.

A mente é limitada por certas barreiras e suas funções estão confinadas ao espaço e tempo.

A palavra Tantra é uma composição de duas idéias: expansão e liberação. Seu objetivo é expandir a consciência e, finalmente, liberá-la de sua união com a matéria no microcosmo, assim como no macrocosmo. A consciência humana está evoluindo constantemente, nunca pode ser desintegrada totalmente. A morte do corpo não mata a consciência. A doença do corpo não a afeta. O Tantra é a ciência da consciência.

As duas grandes forças no homem

É dito na Gītā que há duas forças eternas conhecidas como puruṣa e prakṛti. Elas são as forças sem começo nem fim por trás de todo o cosmos e nossa existência humana. Prakṛti é a matéria, a totalidade ou manifestação. Puruṣa é a consciência que se manifesta mais no

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reino da mente, manas, buddhi, citta e ahaṃkāra. Existência e o ser individual surgem quando puruṣa e prakṛti se unem.

Por eras e eras durante todo o ciclo de reencarnação e evolução, essas realidades gêmeas passaram a viver juntas como uma unidade inseparável. Ainda hoje, em nossa existência individual somos uma composição de matéria e consciência. A união eterna entre esses dois aspectos da criação tem sido tão grande que não é possível para um homem comum, com uma mente bruta e intelectual, separá-los. A filosofia e as práticas do Tantra objetivam romper essa inseparabilidade. Portanto, Yoga envolve um processo de separação (viyoga) e quando a consciência pura é desconectada de seu entrelaçamento com a mente e o mundo manifestado, a união (yoga) ocorre.

Em relação à unidade microcósmica, dentro do nosso corpo físico existem duas forças: citta e prāṇa. Prāṇa é a força da vida e citta é a totalidade da consciência – os estados consciente, subconsciente e inconsciente da mente. Combinadas, elas são responsáveis pelo nosso conhecimento e ação. Elas controlam os karmendriyas (sentidos de ação), os jñānendriyas (sentidos de cognição) e as funções da mente e da consciência.

Prāṇa e citta são canalizados através de nosso corpo físico por duas nāḍīs conhecidas como iḍā e piṅgalā, que fluem na estrutura do corpo prânico ao redor da medula espinhal. Da mesma forma como as ondas radioativas passam através de diferentes linhas em um rádio transistor, mas não são perceptíveis aos nossos olhos nus, o fluxo de consciência mental e

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prânica em iḍā e piṅgalā não é perceptível, mesmo depois da dissecção anatômica da medula espinhal. Apesar disso, elas são realidades.

Iḍā flui através da narina esquerda e piṅgalā pela narina direita. Iḍā representa frieza, a lua, as funções mentais e psíquicas. Piṅgalā representa o calor, o sol, energia e atividade.

Recentes investigações científicas têm mostrado que a temperatura da narina esquerda é ligeiramente menor do que a narina direita, apoiando a velha teoria do Yoga.

A palavra nāḍī é geralmente traduzida como canal nervoso, mas a definição do Yoga é diferente. Nāḍī vem da raiz nad, que significa fluir. Não é um veículo ou um canal nervoso, o que indica uma parte física do corpo. Iḍā-nāḍī é o fluxo de consciência mental e piṅgalā- nāḍī é o fluxo de consciência prânica. Prāṇa e citta fluem por todo o corpo, controlando cada parte dele, cada órgão, atividade, impulso, cada ação e reação, sutil e causal.

Estas duas nāḍīs emanam a partir da base da medula espinhal no cakra mūlādhāra e terminam no topo da medula espinhal no cakra ājñā. No corpo masculino, o cakra mūlā- dhāra está situado na área do períneo entre o sistema excretor e o sistema urinário. No corpo feminino o cakra mūlādhāra é encontrado no lado posterior do colo do útero. O o cakra mūlādhāra é conhecido como a sede da kuṇḍalinī, a mahā-śakti. O ājñā-cakra corresponde à glândula mais importante no corpo humano, conhecida como glândula pineal. Está situado na parte superior da medula espinhal, diretamente atrás do centro entre as sobrancelhas na área do bulbo. De mūlādhāra, piṅgalā vai para a direita e iḍā para a esquerda, se entrecruzando no swādhisṭhāna, maṇipūra, anāhata, viśuddhi e finalmente terminando no ājñā.

Encontrando o equilíbrio

O terceiro e mais importante canal que flui no centro da medula espinhal é conhecido como suṣumṇā, a nāḍī síntese ou espiritual. A força de suṣumṇā é a kuṇḍalinī. No Tantra, a kuṇḍalinī é dito estar dormindo no mūlādhāra-cakra, em nidrā eterna, em potência eterna, envolta em tamoguna. Enquanto a suṣumṇā e a kuṇḍalinī estão neste estado dormente, elas são consideradas forças tamásicas. Mas quando iḍā e piṅgalā são equilibradas, esta força tamásica é ativada e desperta. Se o despertar da kuṇḍalinī tem lugar antes do balanceamento de iḍā e piṅgalā, no entanto, o sādhaka pode sofrer graves distúrbios físicos, mentais e emocionais.

Iḍā e piṅgalā-nāḍīs são de primordial importância quando falamos de kuṇḍalinī-yoga.

Todos os karmas, saṃskāras, frustrações e ciúmes, e tudo o que a mente e o pāṇna são compostos, estão contidos no fluxo de iḍā e piṅgalā. Isso significa que tudo o que você tem experimentou no passado permanece no sistema de iḍā e piṅgalā de uma forma microcósmica. A menos que esses saṃskāras e karmas, bons e maus, dolorosos e agradáveis, sejam esgotados e purificados, o despertar de suṣumṇā pode resultar no desequilíbrio total do sistema nervoso e em casos extremos, uma pessoa pode sofrer demência ou se tornar um criminoso.

O despertar psíquico em um indivíduo não necessariamente ocorre com o despertar da suṣumṇā. Suṣumṇā é um sistema independente e não se estende além de iḍā e piṅgalā.

Muitas experiências que os aspirantes têm podem corresponder ao despertar do prāṇa em

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piṅgalā ou a consciência em iḍā. Os śāstras do haṭha-yoga explicam claramente que a harmonia e o equilíbrio entre as forças mentais e prânicas são absolutamente necessárias antes do despertar da suṣumṇā e a experiência do samādhi.

Quando iḍā flui, o lado direito do cérebro funciona; quando piṅgalā flui o lado esquerdo do cérebro opera. Quando o fluxo na suṣumṇā é ativado, todo o cérebro participa nas actividades da vida. Suṣumṇā é o caminho para a subida da kuṇḍalinī, que não flui através de qualquer outra nāḍī.

Quando iḍā e piṅgalā fluem ao mesmo tempo, quando suas temperaturas são iguais, quando as diferenças entre prāṇa e consciência são discriminadas e todos os vários aspectos estão em perfeito equilíbrio, a kuṇḍalinī é obrigada a subir através de suṣumṇā-nāḍī para o brahmarandhra, o maior centro no cérebro.

É claramente escrito no śāstras que não se deve despertar a kuṇḍalinī sem que a suṣ- umṇā tenha sido despertada. Se você possui um carro, mas não há estrada para dirigí-lo, o que você vai fazer? Da mesma forma, quando a kuṇḍalinī acorda você tem que dar-lhe uma passagem, um caminho seguro por onde possa viajar. A abertura da suṣ- umṇā se torna o meio de comunicação entre os mundos inferiores e superiores.

A necessidade das práticas

Antes do despertar da suṣumṇā as práticas de haṭha-yoga, incluindo āsanas, prāṇāyāmas, mantra-yoga e assim por diante são essenciais a fim de purificar a forma funcional e estrutural de iḍā e piṅgalā. É importante para o aspirante entender que o processo de despertar da consciência divina necessita de um planejamento minucioso, completo e perito. Isso deve ser feito gradualmente, sob a orientação de alguém que tenha tomado conhecimento prévio do caminho.

A palavra haṭha no Tantra é composta de duas sílabas, ha e ṭha, representando as duas forças: prāṇa e mente, Śiva e Śakti, sol e lua, Gaṅga e Yamunā e assim por diante. O haṭha- yoga tem sido mal compreendido e sua definição mal traduzida como práticas físicas, mas é um sistema esotérico destinado a equilibrar essas forças e despertar a personalidade mais profunda do homem. Āsanas não são meramente exercícios físicos para a saúde. Eles são projetados para dar um estímulo leve aos cakras para que, quando o despertar ocorra não

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haja surpresa. Agora podemos compreender isso mais claramente à luz da investigação científica moderna.

Da mesma forma, as práticas de prāṇāyāma não são exercícios de respiração profunda para aumentar a capacidade de oxigênio no corpo. Oxigênio por si só não é a força prânica que o ajuda no Yoga. O que é importante são os íons que são liberados a partir do oxigênio após um processo de separação induzida pelas práticas de prāṇāyāma. Por exemplo, em nāḍī- śodhana-prāṇāyāma, uma concentração destes íons, ou energia prânica, ocorre em torno de iḍā e piṅgalā-nāḍīs, aumentando em intensidade de acordo com o número de ciclos executados. Na respiração normal, isso não acontece. Com a prática contínua da respiração alternada, durante um longo período de tempo, essa concentração é harmonizada e a suṣ- umṇā desperta.

Algumas pessoas que não estão familiarizados com o sânscrito compreendem prāṇāyāma como controle da respiração, mas prāṇāyāma é uma palavra composta de prāṇa e ayama.

Ayama é uma dimensão ou campo. Assim como existem campos eletromagnéticos e radioativos, também existem campos de energia prânica no corpo físico. Até agora, no esquema da nossa evolução, temos sido capazes de estender o prāṇa apenas nas três primeiras dimensões da nossa existência: os corpos denso, sutil e causal, correspondentes aos estados de vigília, sonho e sono. No entanto, existem sete corpos: um que podemos ver, dois que podemos sentir e outros quatro que não podemos ver e nem sentir. Eles correspondem aos cakras e aos sete planos de consciência: bhū, bhūvāḥ, swāhā, mahā, jana, tapa e satyam. O objetivo do prāṇāyāma é estender a permeação do prāṇa para esses outros corpos, para o reino do samādhi e além.

Quando o prāṇa que agora está controlando os karmendriyas e os jñānendriyas é retirado de todas as partes do corpo e não mais está restringido ao mūlādhāra-cakra, a kuṇḍalinī irrompe. Hanuman, quando comeu o sol, parou o fluxo de piṅgalā-nāḍī, também conhecida como sūrya-nāḍī. Como resultado, em função do prāṇa parado, o coração e o cérebro deixaram de funcionar, bem como outros órgãos nominalmente existentes. Ele transcendeu os estados de vigília, sonho e sono, e os três mundos ficaram na escuridão. Sentimentos, sensações e as funções da mente cessaram. Isso se consegue através das práticas de mūla- bandha, uḍḍīyāna-bandha e jālaṃdhara-bandha. Quando você pratica estes três bandhas em combinação com prāṇāyāma, está dirigindo o prāṇa para outra ayama, no campo da kuṇḍalinī. Prāṇāyāma irá estimular o prāṇa e os bandhas irão direcioná-lo para os centros requeridos, evitando dissipação.

Práticas do haṭha-yoga como āsanas e prāṇāyāmas inicialmente servem para preparar o sādhaka para suportar, tolerar, explorar e compreender as experiências de kuṇḍalinī-yoga.

O despertar da kuṇḍalinī influencia os elementos físicos do corpo, por isso compreende-se no kuṇḍalinī-yoga que o corpo físico deve ser purificado dos elementos tóxicos. O corpo que foi purificado pelo fogo do Yoga será a base mais permanente e mais confiável para o despertar da kuṇḍalinī. Para que a kundalini erga-se efetivamente, o corpo deve ser capaz de lidar com sua força e o sistema nervoso deve ser forte, saudável e maduro. Quando estas preparações são completadas a prática de dhyāna começa.

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Alguns praticantes de Yoga acreditam que dhyāna é um método de concentração, mas no Tantra e em kuṇḍalinī-yoga diz-se que a concentração é uma injustiça ao livre fluxo da mente. A natureza da mente é se expandir e fluir. Você pode direcionar a mente, mas não pode controlá-la. No kriyā-yoga você notará que nenhum esforço é feito para forçar a mente ou concentrá-la em um único ponto. O despertar supremo não depende de concentração. Não tem nada a ver com as funções da mente inferior. O objetivo não é mudar a natureza da mente porque a mente não é uma entidade ética, moral ou religiosa.

Sua vida é uma força; a mente é um vṛtti, uma formação. Portanto, em kuṇḍalinī-yoga, não perdemos tempo brigando ou interferindo no comportamento natural da mente.

Então, o que fazemos? Por alguns anos trabalhe com haṭha-yoga, kriyā-yoga e pratyāhāra. Pratique nāḍī-śodhana- prāṇāyāma até que seja aperfeiçoado.

Então, o mantra gāyatrī pode ser incorporado a prática. Por exemplo, execute pūraka, antaraṅga-kumbhaka, rechaka e bahiraṅga-kumbhaka com o mantra na relação 1:2:2:1. Mantenha esta relação, sem falhar. Além disso, a prática jālaṃdhara e mūla-bandha em antaraṅga-kumbhaka e jālaṃdhara, uḍḍīyāna e mūla-bandha em bahiraṅga-kumbhaka.

Depois de um ciclo de nāḍī-śodhana- prāṇāyāma, pare por algum tempo em cin-mudrā e fixe o olhar, com olhos fechados, na ponta do nariz, executando nasikagra-mudrā. Quando os seus prāṇas se tornarem quietos e tranquilos, inicie outro ciclo de nāḍī- śodhana-prāṇāyāma. Após o segundo ciclo, mais uma vez pare e execute cin e nasikagra-mudrā. Continue por cinco ciclos de nāḍī-śodhana- prāṇāyāma junto com bandhas, executando seu mantra pessoal ou o gāyatrī-mantra. Se você usa o gāyatrī- mantra, deixe que um mantra forme um ciclo. Da mesma forma, se você usar algum outro mantra, ajuste a relação de acordo com sua capacidade.

Prepare-se

A acensão da kuṇḍalinī é um evento histórico na vida, quando um homem se afasta de seu

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de entendimento. Na evolução da consciência tem havido definitivos marcos históricos. Um deles foi quando o homem saiu da inconsciência para a consciência no reino vegetal; outro foi quando ele partiu da vida vegetal para a vida sensual no reino animal, e outro foi quando ele se afastou da vida animal e veio à vida humana. Agora o homem vive na mente pela lógica e pela matemática. O despertar da kuṇḍalinī é o marco mais importante na história da humanidade, quando o homem fará uma partida absoluta do reino da razão para o reino da intuição. O kuṇḍalinī-yoga pretende revolucionar a consciência da humanidade para a total compreensão dos conceitos anteriormente conhecidos somente através de nosso intelecto. Kuṇḍalinī é a abertura da era na vida humana quando a mente comum se torna uma mente superior.

Hoje as pessoas que pensam, pertencentes a qualquer religião no mundo, estão se tornando mais e mais conscientes. Elas querem saber como fazer para sair de sua existência presente e superar suas limitações. Elas querem conhecer o propósito de suas vidas e no final elas estão trabalhando para isso. Em todo o mundo as pessoas estão buscando a verdade. Ela pode ser encontrada na igreja, no templo ou na mesquita? Ela pode ser lida nas escrituras?

Ela é o despertar da kuṇḍalinī?

Tenho buscado por um longo tempo e de tudo o que tenho visto e experimentado na vida, não posso aceitar qualquer outra coisa além do aspecto prático do Yoga. É o único caminho que está aberto a todos. As práticas estão disponíveis e você não é solicitado a alterar a sua vocação, a renunciar à sua família ou a acreditar que a vida conjugal é pecaminosa. O Tantra é uma das poucas filosofias ao longo da história que considera a vida conjugal como o mais sagrado relacionamento que um homem pode ter com uma mulher. Ele é conhecido como dharma e é a filosofia principal do Tantra e do Yoga. A vida conjugal é a base, a rocha sobre a qual o kuṇḍalinī-yoga está fundamentado.

Os yoga-śāstras são dedicados a um único propósito: como preparar as milhões e milhões de pessoas diferentes em todo o mundo – pessoas de natureza sensual, animalesca, pessoas apaixonadas, temíveis, intelectuais ou sattvicas para o despertar da kuṇḍalinī. É com este propósito que os conceitos de karma e dharma evoluíram, que aśrams e templos foram construídos, que a ordem do guru e śiṣya foi criada.

Como um chefe de família com envolvimentos e responsabilidades, com as dificuldades mentais, morais, emocionais e físicas da vida diária, mantenha um propósito em mente.

Prepare-se para o despertar desse grande poder. Com este objetivo, você vai conseguir sucesso na vida.

Finalmente, por favor, não tenha pressa para que esta experiência ocorra. Primeiro treine sua mente. A fim de descobrir se você está pronto para a experiência do além, teste a si mesmo para ver se pode suportar a raiva, preocupação, amor, paixão, decepção, inveja, ódio, memórias do passado, sofrimentos e tristezas pelos mortos com equanimidade. Se você pode manter um equilíbrio em face desses pequenos conflitos mentais e emocionais, se ainda pode sentir alegria quando a vida lhe impõe obstáculos intransponíveis, então esteja certo que que é o aspirante certo para as práticas de kuṇḍalinī-yoga. Quando todos os seus preparativos foram feitos, sente-se, pratique seus kriyās e aguarde a explosão da

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bomba. A kuṇḍalinī irá despertar de seu sono, provocando uma mudança histórica em sua vida.

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O Significado da Doutrina da Mão-Esquerda ou Kaulamārga

Fernamdo Liguori

omo um corolário lógico para a segunda característica comum a todas as formas de tantrismo, i.e. a atitude positiva em relação à vida e ao mundo, assim como a filoso- fia de se transformar o gozo mundano «bhoga» em um meio de auto-realização, o que se segue é uma introdução – em palavras claras – ao que denominou-se dou- trina Kaula da mão-esquerda «vāma-sādhanā»,1 no qual os aspirantes espirituais fazem uso do Ritual dos 5Ms ou pañca-makāra: o consumo de carne «māṃsa», vinho «madya», a cópu- la sexual orientada «maithuna», grãos tostados «mudrā» e peixe «matsya» com o objetivo de mudar sua atitude para com estas substâncias e realizar o sāmarasya2 de Śiva e Śakti no interior de cada kaulika.3 Aquilo que é falso e egoisticamente tido como profano e portanto ignorado pela ortodoxia hindu, é utilizado na prática espiritual da Tradição Kaula «kaula- sādhanā» como objeto de adoração. O Tantra ofereceu esta prática para o propósito especi- al de libertar a mente do aspirante «sādhaka» das falsas distinções de bem e mal artificial- mente criadas pela sociedade.

O Tantra enfatiza não a utilização física dos 5Ms, mas a mudança de atitude perante os ele- mentos que compõem o ritual. Por exemplo, os praticantes da tradição dakṣṇācāra, que seguem a linha rājasika-sādhanā, substituem as cinco coisas proibidas – ou 5Ms – por outros elementos.4 Portanto, uma pessoa pode mudar sua atitude para com estes assim chamados elementos profanos sem mesmo utilizá-los, seja no contexto ritualístico ou não. De fato, a utilização dos 5Ms é expressamente proibida – segundo a tradição – ao paśu «homem ordi- nário dominado pela rotina e pela cobiça» que ainda não mudou sua atitude perante eles. O

1 Vāma significa esquerda. Sādhanā significa prática espiritual. Portanto, pratica espiritual do caminho da mão-esquerda. A Tradição Kaula (que encontra-se no ápice das escolas tântricas) foi genericamen- te denominada como doutrina da mão-esquerda porque o termo vāmā tanto significa mulher quanto vāma significa esquerda, uma clara referencia a posição da mulher a esquerda do homem na hora do ritual.

2 O equilíbrio de Śiva e Śakti, os princípios masculino e feminino. No Budismo, upāya e prajñā. Fre- quentemente este equilíbrio é concebido em termos sexuais, mas ele é sentido dentro do próprio kaulika. A tradição tântrica ensina que a completa compreensão deste equilíbrio leva a não- dualidade.

3 Adepto Kaula. Para uma descrição das características dos adeptos Kaulas veja Mahānirvāna-tantra, XI e Kulārṇava-tantra, II: 17.

4 O vinho é substituído por água de coco, a carne por gengibre, os grãos torrados por arroz ou trigo, o peixe por incenso e o coito por duas espécies de flores: keravī, símbolo do linga «falo» e aparājitā, símbolo da yoni «vulva».

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Kulārṇava-tantra (II: 124) diz: A pessoa ignorante «paśu» não deveria cheirar, ver, tocar ou beber vinho e carne; o uso [destas substâncias] é eficaz apenas aos kaula-sādhakas.

Entre os 5Ms do caminho da mão- esquerda, o sādhanā que envolve a união sexual «maithuna» é o mais significante, pois a transformação ou transmutação da energia sexu- al desempenha o papel mais im- portante no desenvolvimento saudável das faculdades internas do sādhaka. Este sādhanā muito mal compreendido – e muito u- surpado – requer um espaço con- siderável para uma explanação plena de seu significado. Eu discu- ti detalhadamente esse sādhanā em meu artigo Kaula Sādhanā & a Sublimação Sexual. Aqui, uma breve referência a este aspecto da prática será suficiente. De acordo com o Tantra, desejo «kāma» é a principal forma de energia «śakti»

nos seres humanos. Não é possí- vel, muito menos desejável, des- truir essa energia. A energia libi- dinosa «kāma-śakti», sublimada ou canalizada de forma a fluir para canais mais elevados, pode ser direcionada para mais alta expressão de amor, criatividade estética e auto-realização. Portan- to, o Tantra, conforme exposto pela doutrina Kaula, apresenta um método ou yoga para sublimação deliberada da energia sexual.

Este yoga tântrico capaz de sublimar as energias sexuais, resumidamente, consiste de dois princípios. Primeiro, o sādhaka deve cultivar uma atitude saudável em relação à atividade sexual que, para ele, deve ser algo sagrado e divino. Esta mesma atitude deve ser cultivada em relação a sua parceira sexual «sādhika, nāyikā, dūtī, dombī, suvasini etc.) e seu órgão sexual «yoni». Em outras palavras, o sādhaka deveria ver sua parceira como a encarnação divina da Śakti; a sādhika, por sua vez, deveria ver seu parceiro como a encarnação divina de Śiva. A adoração fálica do śaivismo – a adoração do linga como um símbolo divino – tam- bém se destina a cultivar esta atitude. Essa mudança de comportamento em relação ao sexo

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e perigoso. Este é um passo essencial no processo de sublimação sexual. Segundo, o sādha- ka deve sentir um intenso amor por sua parceira sexual e executar o coito «maithuna» co- mo uma expressão deste amor, e não uma atividade sexual com gozo deliberadamente sensual «bhoga». Através da prática ritualística contínua, é possível separar a atividade sexual de sua sensualidade instintiva e torná-la um veículo da verdadeira e mais elevada expressão do amor. Isso, por um lado, aumenta a alegria sexual e por outro, transforma o sexo em amor. A prática do amor em direção ao parceiro sexual é um meio de se dominar o sexo por sublimação.

Os tântricos vaiṣṇavas, contudo, utilizam apenas o maituna, o intercurso sexual, evitando os outros makāras, especialmente a carne e o vinho em suas práticas. Eu me refiro a Tradição Sahajiyā. Isso se dá ao fato de que a tradição vaiṣṇava é inclinada a conduta puritana, asso- ciando o consumo de carne ao conceito de ahiṃsā «não-violência». Neste sentido, sua con- duta também inclui alimentação pura «sattivica», evitando alimentos impuros «tamasicos».

Vinho e carne são um exemplo. Por um lado, enquanto o adepto vaiṣṇava se encontra incli- nado ao ideal de pureza sexual e celibato no usual sentido dado ao termo, não retirando o sexo da lista puritana, como estamos acostumados a ver, por outro, o tântrico vaiṣṇava não está capacitado a adotar a utilização de carne e vinho, muito provavelmente porque ele ainda se encontra condicionado pelas proibições vaiṣṇavas. Esta atitude discriminativa adotada pelos tântricos vaiṣṇavas pode obstruir o processo de ascensão completa acima das barreiras egoístas e artificiais do bem e mal. Os sādhakas das tradições tântricas cuja orientação é śaiva-śakta não possuem esta desvantagem ao utilizarem todos os cinco makāras.

A utilização dos quatro makāras, i.e. o consumo de carne (que simboliza o controle da pala- vra), vinho (que simboliza o conhecimento intoxicante), grãos tostados (que representam à conquista do estado de concentração e o domínio sobre a mente) e peixe (que simboliza o controle das correntes vitais – vāyus – que fluem pelas nāḍīs do sādhaka) cumprem a fun- ção de eliminar a distinção artificial e egoísta entre o divino e o profano, entre o bem e o mal. Mas a cópula sexual (que representa a conquista das vibrações primordiais do ato de criação), além de ser benéfica acima de qualquer caminho, cumpre a tarefa de sublimar as energias sexuais dinamizadas pelos outros makāras. Os ṛṣis1 tântricos perceberam que, sendo a energia sexual sublimada, maravilhas poderiam ser feitas e é por isso que o tan- trismo vāmācāra – e em especial a Escola Śrīkulācāra2 – coloca ênfase neste aspecto espe- cial do sādhanā. Portanto, em relação aos outros makāras, o maithuna tem especial rele- vância.

Abhinavagupta (975 – 1025 d.C.), um dos maiores adeptos tântricos da Índia, fez uma con- siderável modificação nas práticas da Tradição Kaula, retirando o consumo de peixe e grãos tostados do maior ritual desta escola, denominado cakra-pūjā, dando ênfase ao con- sumo de carne, vinho e a cópula orientada.

1 literalmente, aquele que vê.

2 A mais celebrada Escola Kaula ativa até os dias de hoje.

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Espíritos & Forças

Kenneth Grant

crença em espíritos e seres sobrenaturais, sob várias concepções, tem sido comum aos homens em todas as épocas e em todo o mundo: este artigo refere-se a essas entidades ou forças em termos da moderna teoria ocultista. Entre os universalmente reconhecidos, e mais temidos, estão os espíritos dos mortos, e alguns ocultistas acreditam que a primeira consciência de um mundo dos espíritos se deu quando o homem primitivo, um sensitivo natural, observou as aparições ou duplos dos mortos. Ele os temia e propiciava porque eles rondavam a Terra em busca de renovadas formas de vida. Sendo intangíveis, exigiam formas sutis de alimentação, como as emanações do sangue recém-derramado, onde ainda permanecia o elemento vital. Isso levou a uma antiga associação mental entre as idéias de espíritos, morte, sede de sangue e vampirismo.

Os espíritos dos mortos eram portanto propiciados com sacrifícios de sangue e a fumaça de oferendas queimadas. Que o sangue é a fonte da vida, ou espírito, é uma crença extremamente antiga e generalizada. Pode estar por trás do nome dado ao primeiro homem no Gênese, pois Adão pode ser literalmente interpretado como significando ‘terra vermelha’, ou, na verdade, sangue coagulado, ou carne. Também segundo a tradição judaica, quando o Rei Salomão, o protótipo do Mago, expulsou os espíritos que invocara, eles fugiram para o Mar Vermelho e lá se afogaram, o que é uma forma de dizer que foram reabsorvidos em sua fonte.

No antigo Egito, a base da vida era representada pelo ankh, que tem a forma de um aro, nó ou laço, e tem-se conjeturado que se baseou na faixa de tecido com nós que formava a primeira roupa necessitada pela mulher após o início da puberdade. Foi a natureza feminina que deu origem ao signo ankh, quando o espírito foi igualado ao sangue gerador de vida da mãe, e nele baseado. O signo ainda sobrevive em forma estilizada como o signo astrológico de Vênus, deusa do amor e manifestação.

Um conceito diferente e posterior atribuiu o espírito ao ar, ou alento. No Gênese, por exemplo, Deus sopra em Adão para dar-lhe vida, e há paralelos em muitas outras

A

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tradições. A transição do sangue para o alento, ou, em termos simbólicos, da água para o ar como fonte de vida e veículo do espírito, está por baixo da mudança do sacrifício de sangue para a queima de incenso. Na China, até hoje, a fumaça do incenso é conhecida como o fragrante repasto dos espíritos.

A propiciação dos espíritos dos mortos evoluiu inevitavelmente para a adoração dos ancestrais. Depositavam-se oferendas nos túmulos, realizavam-se rituais e consultavam-se os espíritos ancestrais antes de atividades importantes. Esse culto dos mortos atingiu sua apoteose na religião do antigo Egito, onde os ‘mortos’ eram julgados infinitamente mais vivos que os seres que povoavam a Terra. A múmia, longe de ser uma imagem de inércia última, era um símbolo de consciência eterna, do espírito que reside no Amenta, o submundo, ou ‘terra da eternidade’. No Amenta, ele se purgava de todo desejo de rondar a terra superior e seus prazeres, antes de ascender ao céu como um espírito glorificado, na presença de estrelas que nunca se põem, no ‘céu da eternidade’.

Estas e algumas outras estrelas eram tipificadas na terra por pássaros, feras e répteis, que se acreditava possuírem poderes sobre-humanos. Eram esses poderes, e não os animais, que se deificavam e identificavam com determinados corpos celestes. Certas criaturas que

‘enxergam no escuro’ — por exemplo, o chacal, o gato, a coruja — eram assimilados a determinadas estrelas e planetas, que então se concebiam como concentrando a influência representada pelo animal, e este era considerado como a ‘forma divina’ ou o veículo de sua influência. Uma das formas divinas de Anúbis, que guiava as almas nas trevas do submundo, era o chacal, ou cão do deserto. Sua constelação era o conjunto de estrelas hoje conhecidas como Canis Major, e seu veículo planetário, Mercúrio.

A forma divina de Sekhmet, a deusa do prazer sexual e da bebida embriagante, era a leoa, típica do calor solar em sua fase feminina, que, como leão sem juba, ela representava.

Sekhmet pode portanto ser interpretada como o poder do sol em seu aspecto de fermentação e estro, sendo seu aspecto mais delicado formulado como a deusa Bâst, cuja forma divina era o gato, e cuja imagem celeste era a lua. Quanto aos seus aspectos feroz e suave, Sekhmet e Bâst tinham em grande parte a mesma relação entre si, no Egito, que Kali e Bhavani na Índia.

Assunção de formas divinas

AS orações, ou invocações religiosas, não eram dirigidas ao animal, mas à divindade, ao poder especifico, que a criatura representava. Os Sacerdotes-Magos Egípcios buscavam adquirir esse poder, mesmo que temporariamente, simulando a forma da fera que o possuía. Faziam isso assumindo astralmente a forma divina deles, e usando fisicamente os chifres, pelos ou a pele do animal. O processo é conhecido para os iniciados como a Fórmula do Macaco Divino, porque a mímica ou macaqueamento do deus tinha profundo efeito sobre a psicologia do mago, despertando poderes adormecidos vedados nas camadas pré-humanas da consciência.

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O homem evoluiu dos animais, e portanto naturalmente, embora sem o saber, incorpora esses poderes. Uma das formas divinas de Thoth, a divindade egípcia da transformação, é o macaco, porque este é o elo entre o homem e o animal. Entre outras coisas, representa o Mundo do Poder Mágico, segundo a teoria de que as primeiras formas da expressão vocal humana se basearam em suas primitivas articulações.

A vaca era uma forma divina de Hator, a deusa da terra egípcia, cuja estrela, Sothis, anunciava a inundação anual do rio Nilo, que trazia fertilidade ao Egito. A deusa do céu, Nuit, era descrita como uma multidão de estrelas, consideradas elas próprias símbolos elementais dos espíritos humanos que tinham alcançado a beatitude. Mas há aqui implicações quando levamos em consideração O Livro da Lei. O assunto foge a necessidade deste texto. Hator e Nuit eram retratadas no interior dos esquifes que continham os mortos. Hator, no chão ou fundo do esquife, acolhia o espírito dos mortos no Amenta. Nuit, curvada sobre o cadáver na tampa do esquife, acolhia-o finalmente no paraíso último, simbolizado pelas estrelas circumpolares que nunca se punham ou morriam. A múmia, estendida horizontalmente, representava a sombra ou fantasma no Amenta, ainda presa por desejos à existência mundana. Quando a múmia era posta de pé, durante os ritos sagrados, representava o espírito despertado ou ressuscitado, exaltado até os céus.

Espíritos guardiões

Dois componentes sutis do organismo humano, reconhecidos no ocultismo, são representados pela múmia prostrada e a múmia de pé, respectivamente: a sombra astral e a inteligência espiritual. Esses mesmos componentes voltam a aparecer no antigo conceito do Demônio sedutor e do Sagrado Anjo Guardião que acompanham cada ser humano pela vida. O último é o Espírito de Luz, e o primeiro, sua Sombra e Gêmeo, o Espírito das Trevas.

A sombra negra obcecava a imaginação primitiva e engendrou as lendas do lobisomem, do vampiro e do gênio do mal. O espírito luminoso gerou as crenças em anjos, ‘anjos da guarda’, os gênios do bem que guiam a humanidade e inspiram suas mais louváveis criações.

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O Sagrado Anjo Guardião era um conceito comum a todos os grandes cultos da Antiguidade.

Os egípcios referem-se a ele como Asar-Un-Nefer, [Eu mesmo sendo Perfeito]; os chineses chamam-no de a ‘Grande Pessoa’; os hindus conhecem-no como Ishvadevata, ou ‘Deus Eleito’; os qabalistas chamam-no de Jechidah, o ‘Eu Superior’; os budistas o denominam Adi-Buda, a ‘Raiz da Luz ou Iluminação’; os gnósticos referem-se a ele como o Augoeides, o

‘Eu Luminoso’. Mais recentemente, os teósofos popularizaram a idéia do Sagrado Anjo Guardião como o Vigilante Mudo ou o Grande Mestre.

O culto do Sagrado Anjo Guardião atingiu sua apoteose na literatura mágica no “O Livro da Magia Sagrada que Deus deu a Moisés, Aarão, Davi, Salomão e outros Santos Patriarcas e Profetas”. Esse Grimório, ou manual mágico, supostamente escrito por Abraão o Judeu e por ele entregue ao seu filho Lamech, em 1458, inspirou Bulwer Lytton, Éliphas Lévi e Aleister Crowley, entre outros. Crowley descreveu-o como “o melhor e mais perigoso livro já escrito” e acrescentou: “É de longe o mais convincente documento medieval mágico existente.” Foi traduzido para o inglês como O Livro da Magia Sagrada de Abramelin o Mago por MacGregor Mathers, um adepto da Golden Dawn.

Dion Fortune, que compartilhava da opinião de Crowley sobre o Livro, descreveu o sistema de magia de Abramelin como o

“mais forte e completo que possuímos. O operador, após um prolongado período de purificação e preparação, evoca não apenas as forças angelicais, mas também as demoníacas.” E ela diz que muita gente queimou os dedos ao usá-lo.

Os quadrados mágicos, incluídos na terceira parte do livro, contêm as palavras de força e nomes de espíritos sombrios como Kobha, que aparece em forma de macaco; Alampis, que torna a pessoa invisível; Catan, que arranja adultérios; Qaqah. que destrói cidades. Os próprios quadrados, inteiramente à parte do seu uso pelo operador, são tidos como impregnados de uma vida demoníaca que atua através deles automaticamente. Segundo Crowley, os talismãs de Abramelin “são tão fáceis de explodir como iodeto de nitrogênio, e bem mais perigosos”. Ele cita o caso de um seu amigo, o Capitão J.F.C. Fuller, que certa vez marcou o lugar que estava lendo com a conta do açougueiro. Dois dias depois, o açougueiro estava trabalhando; a faca escorregou, trespassou-lhe a coxa e matou-o. Como Fuller

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observou na época: “Pode ter sido apenas coincidência, mas é igualmente ruim para o açougueiro!”

Philip Heseltine, compositor musical mais conhecido como Peter Warlock, evocou certa vez um Demônio de Abramelin para induzir sua esposa a voltar para ele. Fez isso desenhando o quadrado apropriado em seu braço. Foi simplesmente mais que eficaz; a mulher voltou e ele se suicidou logo depois.

O sistema de Abramelin só pode ser usado com segurança por um Adepto que tenha concluído com sucesso o curso preliminar de purificação espiritual que resulta na

“obtenção do Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião”. Em outras palavras, o duplo astral, a sombra negra, deve ter sido transformada e exaltada ao status de entidade espiritual.

Formas e elementais

A capacidade de operar conscientemente no mundo espiritual é fruto de uma cultura mística concentrada, e de um autêntico ‘espiritismo’ originado nas atividades dos mortos glorificados, que demonstraram imortalidade aparecendo a espíritos afins na Terra. Mas o termo ‘espiritismo’ nem sempre é utilizado no sentido correto, e não há nada de muito espiritual em relação à maioria dos visitantes espectrais. A verdadeira ciência dos espíritos deve portanto ser diferenciada do tráfico com as simples formas físicas dos mortos. Estas incluem-se no folclore qabalístico num grupo de entidades conhecidas como Qliphoth; suas aparições são enganosas, e suas palavras falsas; estão diretamente relacionadas com espíritos demoníacos que, como o vampiro, se alimentam da decrescente substância vital que permanece nos mortos recentes. Como as sombras dos que acabam de morrer estão em decomposição, atraem os habitantes larvães dos Qliphoth; portanto, não é bom despertar essas sombras do torpor em que seu processo de corrupção as imerge, a não ser por um Adepto treinado na arte da necromancia, própia ao que chamamos no ocultismo de Túneis de Seth, uma rede de túneis interconectados nas costas da Árvore da Vida.

Agir conscientemente na sombra, ou corpo astral, é uma das mais antigas práticas mágicas, e os primeiros médiuns foram aqueles que conseguiram controlar e projetar o corpo sutil.

Tais pessoas eram (e em algumas sociedades primitivas ainda são) grandemente reverenciadas por sua capacidade de comunicar-se com espíritos e com elementais, ou espíritos não-humanos.

Os elementais, na teoria ocultista, são de várias espécies, das quais três particularmente importantes. A primeira são os espíritos ou essências sutis dos elementos água, ar, terra e fogo. Esses espíritos foram classificados como Ondinas (Água), Sílfides (Ar), Gnomos (Terra), e Salamandras (Fogo). A segunda são os espíritos elementais das árvores e bosques (Driades); lagos e poços (Naiades); montanhas e cavernas (Cthonianos), e outras características naturais. O terceiro grupo, e talvez o mais importante do ponto de vista da magia prática, são as energias da mente subconsciente, que adquirem forma sensível quando adequadamente evocadas. Representam os poderes da consciência em épocas anteriores à sua incorporação em forma humana. Pertencem, portanto, à natureza dos

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Atavismos, e são conjuradas por Adeptos que desejam exercer atividades sobre-humanas;

são então conhecidas como servidores, famuli ou espíritos familiares.

Os elementais não devem ser confundidos com os elementares, que Madame Blavatsky descreveu como as “almas desmaterializadas dos depravados; essas almas tendo em algum momento anterior à morte se separado de seus espíritos divinos, e desse modo perdido a chance de imortalidade”. Os elementares representam a sombra negra divorciada de sua contraparte de luz ou Angélica.

Formas mentais

A supressão do instinto natural imposta pelas tendências ascéticas na Europa medieval deu origem a um lúgubre complexo de idéias sobre monstruosidades astrais. Íncubos e Súcubos, ou Demônios sexualmente insaciáveis, gerados por poluçôes noturnas, obcecavam os moradores de comunidades religiosas e atacavam sexualmente devotas insatisfeitas.

Paracelso menciona vários grupos desses demônios, um dos quais consiste de elementares, ou almas de pessoas mortas que têm relações sexuais com homens ou mulheres amorosamente dispostos. Paracelso afirmava que feiticeiras e bruxas podiam gerar Íncubos e Súcubos, ou projetar de si os organismos necessários ao gozo consciente do prazer sexual com seres humanos adormecidos de qualquer um dos sexos. O último tipo de demônio, que ele chama de aquastor, é criado manipulando-se na imaginação a substância astral para que assuma várias formas mágicas: um elemental para contatos sobre-humanos, um Íncubo ou Súcubo para o prazer sexual, um vampiro para a satisfação da sede de sangue, e assim por diante. Segundo Franz Hartmann, em seu A Vida de Paracelso, “essas formas imaginárias, mas apesar disso reais, podem obter vida da pessoa em cuja imaginação são criadas, e em certas circunstâncias podem mesmo tomar-se visíveis e tangíveis”.

A vontade humana aliada a uma imaginação brilhante e controlada, ou faculdade de criar imagens, pode engendrar vários tipos de formas mentais. Alguns ocultistas afirmam que toda idéia possui uma forma característica própria. Mas embora se exija muito pouco esforço mental para sugerir idéias ou pensamentos a outras pessoas, sem o uso de um meio físico é preciso uma grande capacidade de concentração para transferir uma verdadeira forma mental à mente de outra pessoa.

Annie Besant e C.W. Leadbeater, dois teósofos infatigáveis, colaboraram num livro intitulado Formas Mentais, no qual sustentam que todo tipo de pensamento tem sua cor característica e seu modelo linear, dependendo do raio de vibração que a informa.

Pensamentos lascivos, raivosos, amorosos, ambiciosos, avarentos, idealistas têm cada um seu próprio veículo ou forma mental. O problema do mago é como animar essas formas mentais e projetá-las nas mentes de outras pessoas para causar os resultados desejados. A resposta com certeza está na mesma direção que a da animação das formas divinas praticada pelos antigos Egípcios.

Um dos mais curiosos tipos de força oculta é o fenômeno conhecido como poltergeist, palavra alemã que significa um ‘fantasma barulhento’. O poltergeist é tido como responsável por violentos distúrbios como móveis que voam, queda repentina e

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