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Selma Maria de Assis O PROCESSO DE TERCEIRIZAÇÃO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NOS SERVIÇOS PÚBLICOS

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(1)

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

(PUC-SP)

Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social

Selma Maria de Assis

O PROCESSO DE TERCEIRIZAÇÃO DO TRABALHO DO

ASSISTENTE SOCIAL NOS SERVIÇOS PÚBLICOS

Mestrado em Serviço Social

(2)

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

(PUC-SP)

Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social

Selma Maria de Assis

O PROCESSO DE TERCEIRIZAÇÃO DO TRABALHO DO

ASSISTENTE SOCIAL NOS SERVIÇOS PÚBLICOS

Dissertação apresentada à Banca Examinadora

da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

como exigência parcial para a obtenção de Título

de Mestre em Serviço Social sob a orientação da

Professora Doutora Maria Lúcia Martinelli.

(3)

BANCA EXAMINADORA

_____________________________________________

_____________________________________________

(4)

A todos (as) que, ao longo de suas vidas, se dedicam a livrar o homem de toda

forma de opressão seja ela pela falta de acesso à informação, à educação, ao

trabalho, de caráter religioso, à segregação, ao racismo, à homofobia, ou seja, a

toda forma de limitação do homem pelo homem.

Enfim, àqueles que fazem de sua vida o exercício pleno do amor ao próximo, pois,

para mim, não existe prova de amor maior, do que permitir ao outro ser livre, ser a

mais pura expressão de si mesmo, e viver com dignidade.

Á minha mãe, Maria de Assis Mendes, que dedicou sua vida

(5)
(6)

AGRADECIMENTOS

A Deus, pela vida e pela oportunidade de estar onde estou, realizando este trabalho.

Ao meu pai, por me apoiar e incentivar a buscar os estudos.

À minha família, meus irmãos e irmãs, por estarem sempre por perto em todos os

momentos.

Aos amigos, pelo apoio e incentivo.

À querida Professora Orientadora Maria Lúcia Martinelli, que me mostrou que o rigor

acadêmico pode ser exercido com respeito, carinho e com valorização das

subjetividades de cada aluno. Suas contribuições foram importantes para a minha

vida profissional e pessoal.

Às companheiras e companheiros de trabalho do Centro Comunitário do Alto da

Ponte, que me apoiaram em todos os momentos, principalmente naqueles em que

estive ausente devido aos estudos.

À Professora Maria Carmelita Yazbek, pelas contribuições teóricas que foram

essenciais para o desenvolvimento da minha dissertação.

À Professora Maria Lúcia Carvalho, pela generosidade, simplicidade e a partilha de

(7)

À Professora Elza Koumrouyan, pela disponibilidade e as contribuições no processo

de qualificação e construção da minha pesquisa.

A Maria Conceição Silva, Ana Carla Meirelles Roberto e Lindamar Faermann, que

me incentivaram, estimularam e apoiaram em minha vinda para a PUC e na

realização do curso de mestrado.

A Ana Lúcia de Barros Silva, grande companheira de curso e de viagem a São

Paulo, vivemos muitas emoções nesse percurso.

A Maria Quitéria de Freitas, por viabilizar a minha liberação pela Secretaria de

Desenvolvimento Social.

A Vanessa Fortes, pela atenção, compreensão e apoio para a minha liberação no

local de trabalho, Centro Comunitário do Alto da Ponte.

A Fernanda de Castilho Rodrigues, pela grande ajuda na formatação e digitação do

trabalho.

Aos alunos, companheiros de curso. Não posso citar nomes, pois cada um, em sua

(8)

RESUMO

Título

: O Processo de Terceirização do Trabalho do Assistente Social nos Serviços

Públicos

Autora

: Selma Maria de Assis

Esta dissertação de mestrado estuda as transformações sociais vividas na Brasil e

no mundo a partir da década de 1970 e sua influência no mundo do trabalho,

principalmente no fenômeno da terceirização na esfera pública, em especial na

relação estabelecida entre os assistentes sociais contratados pela Fundação Hélio

Augusto de Souza (Fundhas)

e que são cedidos para trabalhar na Secretaria de

Desenvolvimento Social (SDS) da Prefeitura do Município de São José dos Campos

(SP). O propósito deste trabalho é explicitar como as transformações decorrentes do

capital globalizado afetam a gestão do trabalho, nas empresas e no âmbito do

Estado, que busca diminuir sua atuação e passa a terceirizar parte de seus serviços.

Contextualiza os cenários contemporâneos da crise a partir da década de 1970, em

especial o Golpe Militar de 1964, que trouxe várias implicações para a sociedade

brasileira e, em especial, no serviço social que passa a atuar em bases teóricas

críticas. Explicita como a terceirização se torna um ajuste para o capital neoliberal

obter mais lucros, os indicadores de precarização, e suas implicações nas

identidades dos profissionais, e, na esfera pública, como a Prefeitura do Município

de São José dos Campos tem se utilizado dessa forma de contratação, na SDS e a

repercussão dessa relação nas identidades profissionais e no trato com a

população. O conhecimento dessa nova forma de contrato de trabalho se faz

necessário para que não se caia nas tramas complexas de alienação/coisificação do

trabalhador com o conhecimento de que somos profissionais inseridos na divisão

social do trabalho e na totalidade do processo social.

(9)

ABSTRACT

This dissertation aims to conduct a study on the social changes experienced in Brazil

and the world from the 70s and its influence in the changing world of work, focusing

on the phenomenon of outsourcing in the public sphere, particularly in relation

established among social workers employed by Foundation Helio Augusto de Souza

(Fundhas), and are assigned to work in the Social Development Secretariat (SDS) of

the Municipality of São José dos Campos

The purpose of this paper is to explain how the changes resulting from global capital

affect labor management in enterprises and within the state that seeks to reduce its

operations and is to outsource part of their service.

We seek to contextualize the contemporary settings of the crisis from the 70's,

especially the military coup of 1964, which brought several implications for the

Brazilian society and especially in social service who sought the re-conceptualization.

We seek to explain how outsourcing becomes an adjustment to neoliberal capital

more profits, the indicators of precariousness and its implications on the identities of

professional and public sphere as the City of São José dos Campos has used this

form of recruitment, the Ministry of Social Development and the repercussions of this

relation in the professional identities and in dealing with the population.

The knowledge of this vicious new form of employment contract, it is necessary not to

fall in the complex plots of alienation / reification of the worker with the knowledge

that professionals are inserted in the social division of labor and total social process.

(10)

LISTA DE ABREVIATURAS

CIBs = Comissões Intergestores Bipartite

CIT = Comissões Intergestores Tripartite

CLT = Consolidação das Leis do Trabalho

CNAS = Conselho Nacional da Assistência Social

CNPq = Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

Dieese = Departamento Intersindical de Estudos Econômicos Sociais e Estatísticos

DOU = Diário Oficial da União

FGTS = Fundo de Garantia do Tempo de Serviço

Fundhas = Fundação Hélio Augusto de Souza

IBGE = Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

INSS = Instituto Nacional de Seguro Social

Loas = Lei Orgânica da Assistência Social

MDS = Ministério do Desenvolvimento Social

MTe = Ministério do Trabalho e Emprego

Munic = Pesquisa de Informações Básicas Municipais

NOB = Norma Operacional Básica

(11)

OIT = Organização Internacional do Trabalho

ONGs = Organizações Não Governamentais

Oscips = Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público

OSs = Organizações da Sociedade Civil

Pnad = Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio

PNAS = Plano Nacional da Assistência Social

SDS = Secretaria de Desenvolvimento Social

Seade = Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados

(12)

LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1

Mapa do município e divisas distritais ... 21

FIGURA 2

Mapa da posição e extensão do município ... 23

FIGURA 3

Mapa das regiões administrativas ... 28

FIGURA 4

Mapa das regiões geográficas ... 35

(13)

LISTA DE TABELAS

TABELA 1

População do município de São José dos Campos ... 27

TABELA 2

Comparativo entre número de funcionários efetivos e CLT ... 36

(14)

LISTA DE FOTOGRAFIA

(15)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

... 14

CAPÍTULO 1 - BREVE CARACTERIZAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SÃO JOSÉ DOS

CAMPOS

... 20

1.1 Indústrias e centro de compras ... 23

1.2 Fundação Hélio Augusto de Souza (Fundhas): a instituição empregadora .... 30

1.3 Secretaria de Desenvolvimento Social

SDS : o local de trabalho ... 32

Capítulo 2

CENÁRIOS CONTEMPORÂNEOS DA CRISE - ORIGENS

... 41

2.1 Revisitando a história do Brasil nos anos 70 ... 48

2.2 Transição dos anos 1990/2000 ... 52

2.3 Indicadores de precarização ... 56

Capítulo 3

TERCEIRIZAÇÃO: UM AJUSTE DO CAPITAL

... 62

3.1 Marco Legal ... 68

3.2 As diferentes formas de expressão da terceirização ... 76

3.3 Contratos precarizados de trabalho e as repercussões nas identidades

profissionais e no trato com a população ... 78

CONSIDERAÇÕES FINAIS

... 89

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

... 93

(16)
(17)

INTRODUÇÃO

Na presente dissertação, trabalhamos com a temática da terceirização como

forma de precarização do trabalho. Esse tema vem ao encontro de minha

experiência profissional como assistente social concursada na Fundação Hélio

Augusto de Souza (Fundhas), localizada no Município de São José dos Campos,

São Paulo, e contratada em 2005

mas cedida, desde então, para trabalhar na

Secretaria de Desenvolvimento Social (SDS) do município.

Como parte de uma equipe de 32 técnicos, vivenciando o mesmo cotidiano de

trabalho, encontramos desafios profissionais inerentes a essa condição, em relação

aos outros técnicos que possuem vínculo de trabalho efetivo, à chefia imediata, à

direção da SDS e em relação à população atendida, visto que esse estado causa um

rebatimento na ação dire

ta com a população, pois a falta de autonomia, de “fé

pública” nos coloca em situações em que não podemos dar resposta a algumas

demandas apresentadas por essa população.

Diante dessa complexa situação, indagações surgiram em nossa prática

cotidiana: A terceirização precariza o trabalho? A terceirização reforça e cria

estruturas ainda mais complexas de alienação/coisificação? Como esse processo

repercute na identidade profissional e no cotidiano? Foi em busca de respostas para

essas indagações que realizamos a pesquisa.

Martinelli (1995) afirma que a identidade profissional,

(18)

movimento configuravam, então, variáveis intrinsecamente relacionadas com a construção da identidade, o que tornava impossível aprisioná-la em esquemas rígidos e imutáveis, ou mesmo apreendê-la apenas a partir de sua representação aparente (p.17).

E, como ainda diz, sabiamente, Martinelli (1995),

Assim, refletindo um pouco sobre a dialética da escolha e perguntando-me se eu escolhera realmente aquela temática ou se ela é que me havia escolhido, resolvi assumi-la criticamente (...) (p.16)

A partir daí, iniciamos nossas reflexões sobre a situação posta em nossa

prática diária.

No Capítulo 1 apresentamos o Município de São José dos Campos,

realizando uma breve caracterização da cidade. Apresentamos a instituição que é

nossa empregadora, a Fundhas, e o local onde atuamos, qual seja, a SDS.

Realizamos a análise institucional à luz de uma consciência crítica para

compreendermos a dinâmica do local e as forças políticas implícitas.

No Capítulo 2, contextualizamos, ao longo do percurso teórico, os cenários

das crises capitalistas desde a década de 1970, quando o capital apresenta nova

crise e busca, por meio de um novo arranjo, novas formas de exploração do lucro,

com a abertura dos mercados internacionais, a desregulamentação do trabalho e a

não intervenção estatal na economia.

No Brasil, iniciamos o resgate histórico a partir da década de 1950, quando a

industrialização no País dá um salto, em detrimento da abertura da economia para o

(19)

contundente da história do Brasil, e que até hoje é controverso, pois muitos

segmentos, como os militares, até hoje o consideram uma revolução.

Caracteriza-se como momento controverso, porque, por um lado, havia o

Estado Militar autoritário, repressor, que se utiliza da coerção e da tortura para impor

a sua ideologia e, por outro, a força dos movimentos estudantis, do movimento

operário, e dos movimentos organizados da Igreja Católica, como as comunidades

eclesiais de base, a juventude católica, e tantos outros.

Nesse contexto da ditadura militar, que se inicia em 1964 e vai até a década

de 1980, situamos como o serviço social se posiciona perante todo esse movimento

da sociedade brasileira, e o marco na história do serviço social brasileiro

O III

Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS) realizado em São Paulo em

1979

O Congresso da Virada , momento em que se buscou repensar as bases

teóricas conservadoras em que se sustentava o trabalho.

Abramides (2009), afirma,

É nesse contexto que o processo de ruptura incide sobre a objetividade dos profissionais, em sua inserção nos espaços sócio-ocupacionais da profissão, na condição de trabalhador assalariado, partícipe do trabalho coletivo socialmente combinado, que vende a sua força de trabalho como todo trabalhador. De outro lado, esse processo recai sobre a subjetividade da categoria profissional que se manifesta em sua organização político-sindical, na formação e no exercício profissional e na representação estudantil, que imprime uma direção social à profissão, expressa no compromisso com os interesses imediatos e históricos da classe trabalhadora.

(20)

Dando prosseguimento ao estudo dos cenários contemporâneos das crises,

contextualizamos brevemente a década de 1990, quando, nos países denominados

de terceiro mundo, inclusive no Brasil, a ofensiva neoliberal aporta com todo o seu

arsenal.

Segundo Mota (2009),

(...) o processo de reestruturação produtiva (...) se intensifica sob o influxo da acumulação flexível e do modelo japonês o toyotismo quando a produtividade é potenciada pela implantação de formas diversas de subcontratação e terceirização da força de trabalho, além da descentralização das unidades de produção, cujas fábricas são transferidas para regiões sem tradição industrial. De certa forma, essas mudanças somente se tornam possíveis pela ofensividade do capital para construir outra subjetividade do trabalho (...) (p. 60)

As transformações vividas no mundo do trabalho criam situações de

precarização, as novas formas de organização e gestão da força de trabalho

desequilibram até mesmo os setores que historicamente ofereciam estabilidade,

como a esfera pública. O neoliberalismo trouxe em seu bojo o ideário da

desconstrução do Estado. Tudo o que é estatal não é mais valorizado, vide a

privatização de várias empresas estatais que ofereciam os serviços básicos, como

energia elétrica, água, saneamento básico, e outros. Assistimos à terceirização de

vários setores do Estado, em todas as esferas. Dados de pesquisas, como a

Munic/IBGE, dão conta do aumento significativo das contratações por tempo

determinado, pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), e outros informais.

A terceirização no setor público ocorre com a justificativa de obter menores

(21)

refletem na perda de direitos, salários e benefícios e, especialmente, no aumento do

trabalho degradado.

No Capítulo 3 focamos a terceirização e os arranjos do capital para a sua

implementação, o marco legal que a institucionaliza e as possibilidades legais para

conter os abusos. As diferentes formas de expressão dessa terceirização e seus

impactos na vida do trabalhador e na sociedade.

No item 3 desse capítulo destacamos os contratos precarizados de trabalho

dos assistentes sociais da Fundhas, que são cedidos à SDS. Em questionário de

entrevistas respondidos por quatro assistentes sociais,procuramos dar visibilidade a

essa situação de precarização através do relato que fazem a respeito das

implicações cotidianas no trato com a população e na construção de suas

identidades profissionais.

Ao final dessa trajetória, fica latente o que afirma Martinelli (1995)

(22)

Nossa intenção, com a realização deste trabalho, é compreender as novas

(23)

CAPÍTULO 1

BREVE CARACTERIZAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SÃO JOSÉ DOS

CAMPOS

As origens de São José dos Campos remontam ao final do século 16, quando

se formou a Aldeia do Rio Comprido, uma fazenda jesuítica que usava a atividade

pecuarista para evitar incursões de bandeirantes. Porém, em 10 de setembro de

1611, a lei que regulamentava os aldeamentos indígenas orientados por religiosos

fez com que os jesuítas fossem expulsos e os aldeãos espalhados.

Os jesuítas voltaram anos mais tarde, estabelecendo-se em uma planície a 15

quilômetros de distância, onde hoje está a Igreja Matriz de São José, no centro.

Esse núcleo, que deu origem à cidade, tinha clima agradável e ficava numa posição

estratégica em caso de invasões. Novamente a missão passava aos olhares

externos como fazenda de gado. Nesse período, a aldeia apresentou sérias

dificuldades econômicas por causa do grande fluxo de mão de obra para o trabalho

nas minas.

Em 1759, os jesuítas foram expulsos do Brasil, e todas as posses da ordem

confiscadas por Portugal. Na mesma época, Luís Antônio de Souza Botelho Mourão,

conhecido como Morgado de Mateus, assumiu o governo de São Paulo, com a

incumbência de reerguer a capitania, mera coadjuvante num cenário em que Minas

Gerais se destacava pela atividade mineradora. Uma das primeiras providências foi

elevar à categoria de vila diversas aldeias, entre elas São José, com o objetivo de

(24)

Mesmo antes de se tornar freguesia, a aldeia foi transformada em vila, em 27

de julho de 1767, com o nome de São José do Paraíba. Foram erguidos o

pelourinho e a Câmara Municipal, símbolos que caracterizavam a nova condição.

Entretanto, a emancipação política não trouxe grandes benefícios, até meados do

século 19, quando o município passou a exibir sinais de crescimento econômico,

graças à expressiva produção de algodão, exportado para a indústria têxtil inglesa.

(25)

Depois de ocupar posição periférica no período áureo do café no Vale do

Paraíba, São José dos Campos ganhou destaque nacional na chamada fase

sanatorial, quando inúmeros doentes procuravam o clima da cidade em busca de

cura para a tuberculose. Gradativamente, já estava sendo criada uma estrutura de

atendimento, com pensões e repúblicas.

Em 1924, foi inaugurado o Sanatório Vicentina Aranha, o maior do País, cujo

atendimento era na sua maior proporção privado, sendo reservadas algumas vagas

para atendimento de pacientes carentes. Somente em 1935, com os investimentos

do governo de Getúlio Vargas e a transformação do município em estância climática

e hidromineral, o município pôde investir em infraestrutura, principalmente na área

de saneamento básico, que no futuro viria a ser um trunfo a mais para a atração de

(26)

1.1 Indústrias e centro de compras

MAPA 2

O processo de industrialização de São José dos Campos tomou impulso a

partir da instalação, em 1950, do então Centro Técnico Aeroespacial (CTA) - hoje

Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) - e inauguração da Via

Dutra, em 1951. Nas décadas seguintes, com a consolidação da economia

industrial, a cidade apresentou crescimento demográfico expressivo, que também

(27)

próximas, atraídas pelo ideário de desenvolvimento existente na sociedade da

época, refletidos no crescimento da própria cidade.

Em 1980, o quadro urbano do município sofre grande transformação, devido à

intensa industrialização ocorrida nas décadas de 1960/70, ocasionada por fatores

diversos e, principalmente, pela instalação da Refinaria Henrique Laje (Revap), bem

como pela implantação de indústrias de grande porte, ocupando grandes áreas de

expansão urbana.

Desse modo, o processo de urbanização de São José dos Campos dá-se em

patamares descontínuos. É uma cidade que, segundo os migrantes e imigrantes,

proporciona fácil adaptação; seu desenvolvimento trouxe muitas pessoas à procura

de emprego. No entanto, essas instâncias tecnológicas precisavam de mão de obra

qualificada, e, assim, muitas dessas empresas não conseguiram preencher seus

quadros com os profissionais da região, nem com os que vinham em busca de

trabalho, pois nem sempre atendiam às demandas técnicas.

Foi necessário estabelecer, em muitos casos, intercâmbio internacional e

também produzir cursos técnicos que dessem conta de munir a mão de obra com

qualificação específica para atender à necessidade das empresas instaladas no

Município de São José dos Campos.

Nos anos 90 e início do século 21, São José dos Campos passa por um

importante incremento no setor terciário. A cidade é um centro regional de compras

e serviços, que atende a aproximadamente 2 milhões de habitantes do Vale do

Paraíba e sul de Minas Gerais

No atendimento social, observa-se um número grande de pessoas, que

(28)

sua maioria vindas de várias regiões do País, como Nordeste, Sul e Sudeste

(principalmente Minas Gerais e Rio de Janeiro) e que, ao chegar à cidade, se

deparam com a dura realidade.

A assistência social na cidade é realizada pela prefeitura, através da SDS,

bem como pelas entidades sociais conveniadas, dentre essas a Fundhas, uma

autarquia da prefeitura que prioriza o trabalho com crianças e adolescentes do

município.

A

Fundhas

1

é criada como resposta do governo municipal para a questão

social da criança e do adolescente no município, pelo acolhimento e atendimento

dos problemas ligados à infância e adolescência pobre e abandonada da cidade,

resultante das contradições de seu desenvolvimento econômico (ROSSIM, 1997).

São José dos Campos tem a marca da industrialização, em destaque,

caracterizada pelas mudanças radicais na infra-estrutura econômica, gestada a

partir da década de 1950.

A supremacia da política econômica, que se evidencia através do

beneficiamento das grandes indústrias promovido pela isenção fiscal, cessão de

terrenos gratuitamente, créditos de longo prazo e juros negativos privilegia o

processo de concentração de renda e fortalecimento da grande burguesia industrial,

comercial, associada ao capital internacional.

1

(29)

Burguesia, segmentos da classe trabalhadora e forças militares configuram a

correlação de forças no município, com maior ou menor peso político, em cada

época. Historicamente, a hegemonia política no município pertenceu às forças

conservadoras.

O fim do predomínio da burguesia agrário-comercial (1930) dá lugar a

lideranças políticas que representavam a velha oligarquia, combinadas, a partir de

1964 até 1978, a representantes de forças militares, designados para o exercício do

Executivo, prevalecendo essa aliança durante todo o período de transição

agrário-industrial.

A instalação do CTA, uma área militar, amplia o papel do Estado na

sociedade local.

A cidade de São José dos Campos é excluída do processo de eleições

diretas municipais, sob o pretexto de reafirmar sua condição de estância

hidromineral, quando, na verdade, a preservação era de segurança nacional. Os

governantes municipais eram nomeados pelo governo estadual. A cidade

reconquista sua autonomia política em 1963, perdendo-a novamente em 1964.

A participação de segmentos da classe trabalhadora dá-se sempre pela via da

mobilização e organização sindical, articulando movimentos sociais. A Associação

para a Defesa dos Trabalhadores (ADT), entidade criada por líderes sindicais,

desempenha papel significativo no processo de organização popular no período

pré-1964 (MINAMISAKO

apud

ROSSIM,

1997).

O desenvolvimento industrial, o crescente fluxo migratório e a mobilização

sindical determinaram o perfil de cidade de trabalhadores, contudo, sem a

(30)

de mão de obra, conformaram as bases materiais das relações sociais que se

constituíram sob o signo do trabalho e que acabaram por corresponder à sua

valorização ideológica, escamoteando a força do capital.

A configuração política do município esteve sempre sob o predomínio de

forças conservadoras. Passa pela ditadura militar, seguida pela perspectiva de

democratização e pelo fluxo e refluxo de forças contra-hegemônicas, de segmentos

da classe trabalhadora. Apesar das forças contra-hegemônicas, o poder local

caracteriza-se pela retomada constante do projeto conservador (ROSSIM, 1997).

No final da década de 1980, São José dos Campos sofre sua pior fase

industrial. Falências e fechamento de indústrias de grande porte, especialmente a

crise da indústria bélico-aeronáutica, provocam desemprego de aproximadamente

30 mil trabalhadores de uma população máxima de 440 mil habitantes.

TABELA 1: População do Município de São José dos Campos

Região

População

Centro

70.863

Norte

56.187

Leste

136.180

Sudeste

38.761

Sul

199.913

(31)
(32)

A Tabela 1 demonstra o número da população no município, por regiões

administrativas,

demonstrando

as

regiões

mais

populosas.

(Fonte:

www.sjc.sp.gov.br/planejamento

).

O Mapa 3 apresenta a divisão das regiões administrativas do município sua

extensão e localização, essa divisão também é utilizada no trabalho da Secretaria de

Desenvolvimento Social da Prefeitura Municipal de São José dos Campos.

Conforme Silva (2007),

É uma cidade que, segundo os migrantes e imigrantes, proporciona fácil adaptação. Seu desenvolvimento trouxe muitas pessoas à procura de emprego. No entanto, essas instâncias tecnológicas precisam de mão de obra qualificada, e, assim, muitas dessas empresas não conseguiram preencher seus quadros com os profissionais da região, nem com os que vêm em busca de trabalho, pois nem sempre atendem às demandas técnicas. Foi necessário estabelecer em muitos casos intercâmbio internacional [...] é uma cidade com déficit habitacional bastante acentuado e com grandes conglomerados populacionais, vivendo em condições insalubres e de miserabilidade. (p. 30)

O município representa um grande pólo tecnológico do País, mas a

distribuição de renda não é justa, a desigualdade fica explícita quando se conhece a

região periférica da cidade: são bairros distantes, sem nenhuma infraestrutura; as

pessoas que adquirem os lotes nesses locais são enganadas pelos vendedores,

pois em sua maioria são pessoas de pouco ou nenhum esclarecimento. Para serem

atendidas em suas necessidades recorrem a bairros que possuem atendimento com

(33)

1.2 Fundação Hélio Augusto de Souza (Fundhas)

A Instituição Empregadora

A Fundhas é criada a partir de uma perspectiva de autonomia

técnica-financeira, mas não política. Continuísmo e “cristalização” ideo

-política

caracterizaram a proposta institucional; prevenir ou reparar os males sociais é sua

tarefa, através de métodos e técnicas que ajudem a

“provocar”

mudanças

comportamentais dos indivíduos, com vistas à adaptação social (ROSSIM, 1997).

Helio Augusto de Souza foi uma personalidade atuante no campo da política

de atendimento á criança e ao adolescente no município de São José dos Campos,

assistente social, foi professor universitário na Fundação Vale Paraibana de Ensino,

em 1979 foi eleito vice- prefeito e assumiu a prefeitura após a renúncia do então

prefeito Robson Marinho, vem a falecer em 1986. Devido seu envolvimento e

sensibilidade quanto ás questões sociais do município em especial, á questão da

criança e do adolescente a instituição recebe o seu nome.

O Clubinho

2

e o Centro de Orientação Socioeducativa do Menor Trabalhador

(Cosemt)

3

são os programas que antecederam a criação da Fundhas, e que trazem

em suas atividades o objetivo de propiciar a adaptação social dos menores

atendidos.

2

Fundado em 04/09/1972 com o objetivo de trabalhar com os menores desassistidos por suas famílias e a caminho da marginalidade, promovendo o convívio em grupos, educação moral e cívica, escolaridade, saúde, etc. (ROSSIM, 1997: 32)

3

(34)

O Clubinho foi criado em 1973, para realizar a abordagem de menores que

perambulavam pelas ruas da cidade, oferecendo-lhes atividades de recreação e

orientação social.

Com isso, pretendia-se „tirar a criança da rua e prepará-la para o convívio social‟. A formação de atitudes – hábitos pessoais e de conduta, convívio grupal e fortalecimento moral – e o desenvolvimento de habilidades – manuais e reflexivas – apresentavam-se como condicionantes desse preparo para o convívio social e, por conseguinte, de seu „ajustamento social‟.

A perspectiva é de legitimação do modelo socioeconômico adotado, tendo como objetivo final a adaptação social dos indivíduos. O trabalho, enquanto inserção dos indivíduos no modo de produção apresenta-se como uma necessidade pessoal e social para o desenvolvimento também nesses dois níveis. (ROSSIM, 1997: 49)

O Cosemt é criado com a proposta de atender crianças na faixa etária de 9 a

14 anos, com atividades de engraxate, artesanato, horta, e adolescentes com idades

entre 14 a 18 anos, iniciando-os como varredores e

a seguir „promov

endo-

os‟ para

mensageiros e encaminhando-os para cursos profissionalizantes,

A proposta de intervenção do Cosemt pautava-se por uma concepção de sociedade a partir de uma realidade considerada subdesenvolvida, em virtude de uma estrutura político-social desorganizada. Tal concepção é própria da época na qual o Estado de Segurança Nacional buscava maior estabilidade conjugada ao ideal desenvolvimentista. Os „menores‟ atendidos pelo Centro eram vistos como vítimas da falta de estrutura social, concebida como ausência de ocupação com atividades socialmente úteis e pessoalmente sadias, as quais a estrutura social não proporcionava (obstacularizada inclusive pela legislação vigente). A estrutura de vida dos „menores‟, caracterizada pelo ócio, pela baixa aspiração pessoal e pela desestruturação familiar, colocava-os ‟em vias de marginalização‟. (ROSSIM, 1997: 51)

(35)

potencialidade e da re

sponsabilidade, pois começando por “baixo” a criança deveria

procurar, por mérito pessoal, galgar posições mais altas na hierarquia ocupacional,

ou seja, uma perspectiva de ascensão.

A criação da Fundhas significou autonomia técnica e financeira para a instituição, ampliando sua área de abrangência, possibilitando a „ realização de estudos e pesquisas, formação de pessoal, articulação com entidades, celebração de convênios, cooperação técnica e de material‟. (Estatuto da Fundhas – anexo ao Decreto 6.966/90). (...) essa herança histórica permite-nos identificar na proposta institucional, pelo seu processo de constituição e desenvolvimento, a persistência de um mesmo projeto, balizado pelos vetores socioeconômico-político e técnico-profissional. (ROSSIM,1997: 57)

1.3 Secretaria de Desenvolvimento Social

O Local de Trabalho

O trabalho social na Prefeitura do Município de São José dos Campos tem

início em 1969, com o Departamento Municipal de Bem-Estar Social (Debens),

criado por Projeto de Lei Municipal elaborado pelo assistente técnico do

Departamento Regional do

Serviço Social do Comércio (Sesc), Prof. Geraldo Vilhena

de Almeida Paiva, que assume a direção do referido departamento, extinto em 1971,

por ocasião da perda de autonomia de segurança do município.

A retomada do trabalho de Assistência Social se dá a partir de 1973, com a

implantação da Comissão de Promoção Social, ligada ao Departamento de

Educação e Cultura da Prefeitura do Município de São José dos Campos. Em 1975,

essa comissão é desvinculada do departamento e elevada á condição de Divisão de

(36)

Em 1978, o Município de São José dos Campos conquista a autonomia

política, a Divisão de Promoção Social é transformada em Departamento de

Promoção Humana, órgão composto por três divisões: Ação Comunitária,

Equipamentos de Recursos Sociais, e Bem-Estar do Menor. Esse departamento era

vinculado à Secretaria Municipal de Saúde. No período de 1983-84, o Departamento

de Promoção Humana assume o caráter informal de Assessoria para o

Desenvolvimento Social, com enfoque no trabalho de organização social, através

dos projetos de trabalho social comunitário, e trabalho social com menores, o

Cosemt.

Em 1985, a organização interna dessa assessoria passa a ser construída a

partir de Políticas Sociais, mantendo-se o método de trabalho por objetivos, porém

de forma regionalizada. A ação prioritária para a Assessoria de Desenvolvimento

Social era a Política do Menor.

A transformação da Assessoria de Desenvolvimento Social em Secretaria de

Desenvolvimento Social foi efetivada em 30 de julho de 1986 através da Lei

3.155/86, com o objetivo de dar visibilidade à referida ação prioritária

(desenvolvimento social). Para tanto, foi realizado o Congresso Paulista da Questão

Social, enfocando o tema O Menor na Realidade Social, com a criação posterior da

Frente Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Dando continuidade a

essa ação prioritária, em abril de 1987, o Cosemt é elevado à condição de fundação

de atendimento à criança e ao adolescente, a Fundhas.

(37)

Comunitária, estruturação da coordenação de estágio, implantação do Centro de

Convivência Rural e ampliação do quadro de profissionais na área de psicologia,

visando à ação interdisciplinar.

Nesse mesmo período, é formulada a Lei Orgânica do Município, e elaborado

o Projeto de Lei que constitui o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do

Adolescente.

Através da Lei 3.931/1991, de 21 de março, a secretaria assume a seguinte

composição: Departamento de Desenvolvimento Social, com as Divisões de

Organização Comunitária, Apoio Técnico às Entidades e Programas

Complementares, e Departamento de Integração Comunitária, com as Divisões de

Habitação e Defesa Civil.

A organização atual da Secretaria de Desenvolvimento Social estrutura-se

conforme as quatro regiões administrativas que dividem a cidade de São José dos

Campos: norte, sul, leste e centro. Algumas contam com Centros de Referência da

Assistência Social (Cras), quais sejam:

1.

Sul: Cras Dom Pedro.

2.

Leste: Cras Vila Industrial e Eugênio de Melo.

3.

Centro: Cras Parque Santa Rita.

4.

Norte: Não há até o momento o Cras, a região atua como unidade

(38)
(39)

Buscamos levantar na Secretaria de Desenvolvimento Social o número de

técnicos da Fundhas e da prefeitura em cada região, mas não foi possível obtê-lo

pois não tivemos acesso a dados oficiais do setor. Sendo assim, apresentamos na

Tabela 2 o número total de técnicos que estão lotados na SDS. Essa informação foi

obtida durante a VIII Conferência de Assistência Social realizada no município em 13

de agosto de 2011.

TABELA 2:

Número total de técnicos lotados na SDS

Funcionários com vínculo efetivo com a prefeitura

Funcionários da Fundhas, com vínculo CLT

64 32

Fonte: Censo IBGE 2009.

Vale ressaltar que esse número expressivo de técnicos da Fundhas é reflexo

de 15 anos consecutivos sem realização de concurso público para o provimento dos

cargos, o último aconteceu em 1996. Dentre esses números há alguns técnicos que

desempenham função na Secretaria de Habitação do município e no programa

Aquarela que visa atendimento á criança e ao adolescente em situação de violência

doméstica e de exploração sexual comercial

.

Dessa maneira, fica explícita a direção assumida pela Administração

Municipal que vê na terceirização do trabalho do assistente social uma alternativa

para a não contratação direta. Por meio do questionário aplicado e respondido por

(40)

impressão e a opinião delas a respeito dessa realidade da terceirização do trabalho

do assistente social.

Quanto à política da assistência do município, Silva (2007) afirma,

Muito tem sido feito para que o município assuma a assistência social enquanto política pública, mas a visão dos gestores desta pasta volta-se para a perspectiva do empreendedorismo sem se preocupar com a formação cultural dos envolvidos. Esse tem sido um dos impasses, no trato da assistência social, que não está reconhecida, de fato, como de direito, mas como benemerência. (p. 32)

Hoje, as demandas que chegam ao atendimento social, dizem respeito ao

cumprimento, ou não, das condicionalidades do Programa Bolsa-Família, o

desemprego, as queixas por não conseguir um trabalho por falta de escolaridade e

(41)
(42)

Na Foto 1, ilustra-se a equipe de assistentes sociais e chefia de divisão da

região norte, trata-se da região de nossa atuação, conforme informado anteriormente

a região não possui um Centro de Referencia da Assistência Social- CRAS

implantado,no momento a equipe vem buscando através de reuniões e discussões

de equipe prestar os atendimentos dentro da metodologia estabelecida pela PNAS.

Destacados com a cor amarela, os assistentes sociais funcionários da Fundhas, e

com a cor branca os assistentes sociais que mantém vínculo efetivo com a

prefeitura, e com a cor verde está identificada a chefia de divisão.

Atuamos na região norte do município, nosso espaço é o Centro Comunitário

do Alto da Ponte. A região se caracteriza por grandes espaços rurais, dispersos, e

alguns pontos de concentração de vulnerabilidade; a maior parte dos moradores são

provenientes do Estado de Minas Gerais, e de cidades do nordeste, em nossos

atendimentos constatamos essa realidade.

(43)
(44)

CAPÍTULO 2

CENÁRIOS CONTEMPORÂNEOS DA CRISE

ORIGENS

Segundo Mota (2009), para compreender as mudanças no capitalismo e de

toda a sua dinâmica torna-se necessário identificar o significado histórico de suas

crises em seu desenvolvimento.

Essas crises expressam um desequilíbrio entre a produção e o consumo, que

comprometem a realização do capital, a transformação da mais-valia em lucro, o que

só acontece mediante a venda das mercadorias produzidas. E quando é produzida

uma quantidade de mercadorias maior do que a população pode comprar, o

processo de acumulação é afetado, pois estoques de mais-valia não produzem

lucro, que é o objetivo do capitalista. Não basta, portanto, produzir mercadorias, elas

devem ser transformadas em dinheiro, e retornar ao processo de acumulação,

produção/circulação/consumo.

As expressões mais contundentes das crises são: redução de operações

comerciais, acúmulo de mercadorias estocadas, redução ou paralisação da

produção, falências, queda de preços e salários, crescimento do desemprego e

baixo poder aquisitivo dos trabalhadores.

E, conforme a autora, as causas das crises podem ser diversas, entre elas, o

descontrole da produção, a concorrência e a consequente queda da taxa de lucros,

o subconsumo, ou podem ser potencializadas por algum incidente econômico ou

geopolítico.

As crises são a expressão das contradições do modo de produção capitalista,

(45)

Conforme Mota (2009),

Isso significa que as crises não ocasionam, mecanicamente, um colapso do capitalismo. Elas deflagram um período histórico de acirramento das contradições fundamentais do modo capitalista de produção que afetam sobremaneira o ambiente político e as relações de força entre as classes. Por ocasião das crises, deflagra-se um processo no qual mudanças significativas ocorrem sejam elas no interior da ordem, sejam em direção a um processo revolucionário, dependendo das condições objetivas e das forças sociais em confronto.(...) Vale salientar que os impactos das crises apresentam-se diferenciados para os trabalhadores e os capitalistas.Para os capitalistas, trata-se do seu poder ameaçado;para os trabalhadores, da submissão intensificada.Estes últimos são frontalmente penalizados na sua materialidade e subjetividade posto que afetados pelas condições do mercado de trabalho, com o aumento do desemprego, as perdas salariais, o crescimento do exército industrial de reserva e o enfraquecimento das suas lutas e capacidade organizativa (p. 54).

Como já citado, dentro de sua dinâmica perversa, o capitalismo promove um

rearranjo e mesmo diante das crises sofre uma metamorfose, apresentando novas

formas de exploração e de extração do lucro.

Prossegue a autora,

(46)

Do período do pós-guerra até os anos 1970, nos países centrais, houve

expansão do capitalismo, pois foi uma fase caracterizada por altas taxas de

crescimento econômico, ampliação de empregos e salário e forte intervenção do

Estado, definido como período fordista-keynesiano (HARVEY

apud

MOTA, 1995).

Os fatores políticos que o ampararam,

- A intervenção do Estado que, no lastro das políticas Keynesianas, criou mecanismos estatais voltados para a reprodução ampliada dos trabalhadores, socializando com o patronato parte dos custos de reprodução da força de trabalho.

- A construção do pacto fordista-keynesiano (BIHR apud MOTA, 1998), marcado pelas mobilizações sindicais e partidárias dos trabalhadores que , em torno de reivindicações sociais legitimas, pressionaram a incorporação, pelo capital, do atendimento de parte de suas necessidades sociais, operando mudanças nas legislações trabalhistas e nas medidas de proteção social.

Essa conjunção de fatores foi responsável pela constituição do Welfare State, que se tornou um dos principais pilares de sustentação institucional daquela fase expansiva do capitalismo, ao integrar à sua dinâmica econômica parte das demandas operárias por melhores condições de vida e salário. (MOTA, 2009: 56)

Com a intervenção do Estado, que passa a alocar recursos do fundo público

para a constituição de políticas econômicas e sociais, amplia-se o consumo por

parte dos trabalhadores.

O atendimento de algumas necessidades sociais era feito através dos salários

indiretos, via políticas públicas, a ação estatal permitia a remuneração com salários

reais, consequentemente, aumentando a demanda por consumo de mercadorias,

criando assim o consumo de massa, típico do regime fordista de produção.

(47)

a produção em aumento e o consumo; promovendo uma relação negociada entre

Estado, capital e trabalho.

Nos países europeus, esses propósitos foram alcançados e permitiram alguns

ganhos materiais para os trabalhadores; contudo, a periferia mundial assistia à

defesa desse desenvolvimento como forma de integração à ordem econômica

mundial.

Conforme Antunes (2009):

Após um longo período de acumulação de capitais, que ocorreu durante o apogeu do fordismo e da fase keynesiana, o capitalismo (...) “começou a dar sinais de um quadro crítico, cujos traços mais evidentes foram:

1. Queda da taxa de lucro, dada, dentre outros elementos causais, pelo aumento do preço da força de trabalho, conquistado durante o período pós-45 e pela intensificação das lutas sociais dos anos 60, (...) A conjugação desses elementos levou a uma redução dos níveis de produtividade do capital, acentuando a tendência decrescente da taxa de lucro;

2. O esgotamento do padrão de acumulação taylorista/fordista de produção (que em verdade era a expressão mais fenomênica da crise estrutural do capital), dado pela incapacidade de responder à retração do consumo que se acentuava. Na verdade, tratava-se de uma retração em resposta ao desemprego estrutural que então se iniciava;

3. Hipertrofia da esfera financeira, que ganhava relativa autonomia frente aos capitais produtivos, o que também já era expressão da própria crise estrutural do capital e seu sistema de produção, colocando-se o capital financeiro como um campo prioritário para a especulação, na nova fase do processo de internacionalização;

4. A maior concentração de capitais graças às fusões entre as empresas monopolistas e oligolopolistas;

(48)

6. Incremento acentuado das privatizações, tendência generalizada às desregulamentações e à flexibilização do processo produtivo, dos mercados e da força de trabalho, entre tantos outros elementos (...) (p. 31-32)

Para compor o cenário, que possibilitou a gênese do neoliberalismo, é

necessário remeter-nos à Inglaterra, no período do governo de Margareth Thatcher,

que se caracterizou por um processo de reorganização do capital e de seus

sistemas ideológico e político, constituído pela privatização do Estado, o desmonte

do setor produtivo estatal e a desregulamentação do trabalho.

Esse período também teve como característica uma ofensiva do capital e do

Estado contra a classe trabalhadora, o setor financeiro ganhava autonomia, dentro

das relações complexas existentes entre a liberação e a mundialização dos capitais

e do processo produtivo.

Tudo isso num cenário de expansão do comércio, da tecnologia, e da

desregulamentação das condições de trabalho e emprego.

Afirma Antunes (Ib.),

(49)

Como se pode constatar, a ofensiva neoliberal toma corpo na Inglaterra, e nos

países capitalistas centrais, que experimentam o seu franco desenvolvimento, nas

décadas de 1970/80 esses países viviam intensamente e em ritmo acelerado a

reestruturação produtiva e o ideário político neoliberal.

Nos países do Terceiro Mundo, somente ao final dos anos 80 e início dos

anos 90, é que essas novas medidas serão adotadas

.

No Brasil, a reestruturação do capital acontece sobremaneira a partir da

década de 1990, de acordo com Antunes (2009), um

capitalismo recente e

hipertardio

, pois, anteriormente, as formas de exploração pelo capital se davam

dentro da exploração do café, sendo que o advento da industrialização dá um salto

significativo a partir da década de 1950.

Transformações ocorridas no capitalismo, a partir da década de 1990

definidos pelo Consenso de Washington

4

desencadearam uma série de

consequências na reestruturação produtiva e um novo desenho na divisão do

trabalho.

Tendo como base a análise de estudiosos das ciências sociais, buscamos

compreender como, no Brasil, o capitalismo no século XX tem seu desenvolvimento

tardio e num ritmo lento em relação aos países centrais.

Conforme Mota (2009),

4

(50)

(...) se dá a integração do Brasil à ordem econômica mundial, nos anos iniciais da década de 90, sob os imperativos do capital financeiro e do neoliberalismo, responsáveis pela redefinição das estratégias de acumulação e pela reforma do Estado. Na prática isso se traduz em medidas de ajuste econômico e retração das políticas públicas de proteção social, numa conjuntura de crescimento da pobreza, do desemprego e do enfraquecimento do movimento sindical, neutralizando, em grande medida, os avanços e conquistas sociais alcançados pelas classes trabalhadoras nos anos 80. (p. 58)

O processo de acumulação industrial acontece a partir do getulismo

5

, que

rompe com o processo de acumulação feita através da exportação do café, principal

atividade industrial do País.

Com Juscelino Kubitschek, em meados de 1950 a 1960, a industrialização dá

um grande salto, pois o objetivo era alinhar a economia brasileira à americana. Na

prática, JK propôs e fez empréstimos nos centros financeiros americanos, o que

endividou o país; trouxe empresas estrangeiras para o Brasil, como a Ford. Na teoria

era um projeto bom, mas na prática não foi tanto assim. O governo de JK também se

destaca pelo desenvolvimento da Região Centro-Oeste do País e pela construção

da capital, Brasília, retirando do Rio de Janeiro o posto de centro político-financeiro

do Brasil.

A partir de 1964, com o período após o golpe militar se aceleraram fortemente

a industrialização e a internacionalização do Brasil. O período após o golpe militar de

64 foi um momento paradoxal da história do Brasil

5

(51)

2.1 REVISITANDO A HISTÓRIA DO BRASIL NOS ANOS 70

A ditadura militar, instaurada pelo golpe de 1

o

de Abril de 1964, durou cerca

de 20 anos, terminando na entrada dos anos 1980, quando não apresentou mais

condições de se reproduzir e foi derrotada politicamente pela pressão do movimento

popular.

Os grandes empresários e proprietários rurais e os servidores de empresas

norte-americanas e militares se uniram para, através de uma

contra-revolução

preventiva

(NETTO, 2009

)

, parar e reverter a efervescência dos movimentos sociais

organizados e a ameaça comunista.

Desde o segundo governo de Getúlio Vargas, o padrão de acumulação

implantado começou a dar sinais de esgotamento e, sob o governo de João Goulart,

a partir de 1961, os confrontos de classe e as lutas sociais se intensificaram, o

movimento operário-sindical estava sob intensa movimentação, favorecido pela

sensibilidade de Goulart às demandas populares.

A população exigia, de acordo com Netto (2009)

(...) a erradicação do latifúndio, o enquadramento rígido do investimento estrangeiro e a penalização do grande capital, com o reforço do papel econômico-interventivo do Estado na plasmagem de um amplo e vigoroso mercado interno. (p. 18-19)

Mesmo que essas demandas não fossem explicitamente comunistas ou

socialistas, elas ameaçavam a forma de dominação burguesa vigente, sendo assim,

criou-se uma campanha destinada a propagar que o comunismo ameaçava a família

e os costumes, esta era veiculada pelas emissoras de rádio e TV, revistas,

(52)

Todas essas condições foram favoráveis para criar um clima ideológico, que

agudizou os conflitos de classe, agravados pela crise econômica e, então, em 1

o

de

abril de 1964, instaura-se a ditadura no Brasil, e o Ato Institucional n. 5, o temido

AI-5, foi o marco dessa ditadura, pois foi um instrumento legal utilizado para a prática

do terrorismo, a intimidação e a repressão política de quem, ou do que, se opusesse

ao regime da ditadura.

Segundo Martinelli (2009):

A orientação dada às políticas sociais pelos governos da ditadura repercutia fortemente nas condições de vida da classe trabalhadora, pois eram grandes as dificuldades de inserção no mercado de trabalho, além de uma queda geral nos salários praticados pela indústria e pelo comércio, sobretudo nos setores de média e baixa qualificação. (p. 97)

De acordo com a autora, ocorria a retomada das lutas sociais por meio dos

movimentos sociais organizados, apesar das condições adversas para tal; os

trabalhadores, em especial os operários das fábricas, através dos sindicatos, os

movimentos eclesiais de base, de luta pela saúde, e contra a carestia, também são

expressivos.

O País estruturava-se, tendo como base produtiva, por um lado, voltado para

a indústria de bens de consumo duráveis, como automóveis, eletrodomésticos, etc.;

por outro, permanecia tanto a produção de produtos primários quanto de produtos

industrializados.

Em sua dinâmica interna, o padrão de acumulação industrial apresentava um

processo de exploração da força de trabalho representada pelos baixos salários,

(53)

econômico

6

, foi marcada por altas taxas de acumulação e grande expansão da

economia, pois o País vivia uma ditadura e todas as suas consequências. Foi um

período em que se buscou exaltar a imagem do Brasil potência, em especial com a

terceira vitória do time de futebol brasileiro na Copa do Mundo, em 1970, no México,

o País inteiro cantava:

"Noventa milhões em ação,

pra frente, Brasil

do meu coração (...)

Salve a seleção."

A ditadura buscou se legitimar por meio do milagre econômico. Entre 1967 e

1973, a taxa de crescimento anual foi de 11,2%, considerada uma das mais altas do

mundo, mas essa acumulação se fez com o arrocho salarial, os investimentos

estatais, e a abertura para a exportação. Por outro lado, o custo de vida, de 1962 a

1969, registrou um aumento de 100 para 1.492, e o salário real passou de 100 para

122 (SINGER

apud

FALEIROS, 2009) constatando-se que essa acumulação

favoreceu muito mais as classes média e alta do que as populares.

O governo militar começa a perder a hegemonia, e perde legitimidade devido

à brutalidade da repressão às manifestações populares, às guerrilhas e à oposição

de setores progressistas da igreja católica, que apoiavam as greves e as

mobilizações sociais. Aliada à crise econômica, existia uma crise política:

6

(54)

A oposição passou a controlar as Assembleias Legislativas de SP, RJ, RS e Paraná. Em 1976 continuou o avanço da oposição. Em 1977 o Governo editou o Pacote de Abril, que impôs um retrocesso na liberalização política, proibindo a eleição direta de governadores que estava prescrita e criou o cargo de „senador biônico‟, um por Estado, escolhido indiretamente. No entanto, a oposição continuou avançando. Em 1978 a razão de voto entre MDB/Arena em SP aumentou para 7.11, contra 3.72 em 1974 (LAMOUNIER apud FALEIROS, 2009, p.44,45). Em 1979 começou a inscrição de novos partidos, mas somente em 1980 é que a Emenda Constitucional n. 15, de 19 de novembro estabeleceu o sistema de voto direto nas eleições para senador da República e para governador de Estado.

A crise militar se agudizou em 1977 (GAPSPERI apud FALEIROS, 2009) com o confronto entre Geisel e o General Frota, que é demitido, mas com a insatisfação da linha dura. Segundo Oliveira apud Faleiros (ibidem) o processo de distenção/abertura é uma busca de legitimidade institucional diante da crise da própria ditadura, que passou substituir a dominação militar por uma tutela militar (chamada de entulho autoritário), desmontada mais tarde na Constituição de 1988.

A crise do regime foi aprofundada com as mobilizações sindical (pela negociação e contra o arrocho), popular (contra o custo de vida e inflação), de bairro (pelos serviços públicos) e estudantis (contra a repressão nas universidades).

O novo sindicalismo emergiu de forma expressiva no ABC paulista, numa onda grevista, em maio de 1978 (...)

As CEBs articularam muitas dessas lutas de bairro, contribuindo para formar sujeitos políticos na luta por condições de vida na própria comunidade, fazendo a formação política dos seus participantes no processo de reivindicações por creches, postos de saúde, pronto-socorros e moradias. (Faleiros 2009,p.44,45)

Não se pode deixar de citar a organização político-sindical dos assistentes

sociais nesse cenário, que segundo Abramides e Cabral ( 2009):

(55)

sindical, na formação e no exercício profissional e na representação estudantil, que imprime uma direção social à profissão, expressa no compromisso com os interesses imediatos e históricos da classe trabalhadora. (p. 55)

E é nesse contexto que acontece o III Congresso Brasileiro de Assistentes

Sociais

O Congresso da Virada, momento em que o Serviço Social busca discutir

a sua prática assumindo um projeto ético-político comprometido com a classe

trabalhadora e rompendo com o conservadorismo.

Foi um momento decisivo, na história do serviço social brasileiro, que passou

por uma reformulação, na sua base teórica, possibilitando à categoria uma

perspectiva de apreensão da realidade em sua complexidade. O pensamento crítico

de Marx favoreceu o enfrentamento ao conservadorismo e superação de análises

simplistas da sociedade capitalista; e, sobremaneira, contribuiu para a construção do

projeto ético-político da categoria dos assistentes sociais.

2.2 Transição dos Anos 1990/2000

Em meados de 1980, com o fim da ditadura militar e sob a chamada Nova

República, período do mandato do Presidente da República José Sarney, é que o

padrão de acumulação assentado no tripé setor produtivo estatal - capital nacional -

capital internacional começa a sofrer alterações.

(56)

alterações aconteçam de forma mais lenta do que nos países de capitalismo

avançado, que viviam intensamente a reestruturação do capital e o ideário

neoliberal.

As indústrias nacionais brasileiras começam a adotar novas formas de

organização social do trabalho, e novos padrões tecnológicos; inicia-se a utilização

da informatização e dos programas de qualidade total, e a difusão da

microeletrônica.

A elevação da produtividade ocorre por meio da reorganização da produção

com a redução do número de trabalhadores e a intensificação da jornada de trabalho

dos empregados.

Conforme Antunes (2006)

Depois de um primeiro ensaio, sob o governo Collor, significativo mas logo estancado pela crise que se abateu sob seu governo, o processo de reestruturação produtiva deslanchou novamente, por meio do Plano Real, a partir de 1994, sob o governo Fernando Henrique Cardoso. (p. 20)

A partir dos anos 90, a reestruturação produtiva desenvolve-se intensamente

no Brasil. O país adota o modelo de acumulação flexível, com forte influência do

ideário japonês, através dos sistemas Kanban e

Just-in-time

, qualidade total e

subcontratação de mão de obra e terceirização da força de trabalho. São

implantadas novas medidas flexíveis de contratação da força de trabalho, de acordo

com,

Antunes (2005)

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