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Comunicar para (r)existir : a voz que vem dos quilombos

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM

LABORATÓRIO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM JORNALISMO

PAULA CAROLINA BATISTA

COMUNICAR PARA (R)EXISTIR:

A VOZ QUE VEM DOS QUILOMBOS

CAMPINAS,

2019

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PAULA CAROLINA BATISTA

COMUNICAR PARA (R)EXISTIR:

A VOZ QUE VEM DOS QUILOMBOS

Dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem e Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Mestra em Divulgação Científica e Cultural, na área de Divulgação Científica e Cultural.

Orientador (a): Prof(a). Dr(a)

Márcia Maria Tait Lima.

Este exemplar corresponde à versão final da dissertação defendida pela aluna Paula Carolina Batista e orientada pela Prof.ª Dr.ª Márcia Maria Tait Lima.

CAMPINAS,

2019

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BANCA EXAMINADORA

Márcia Maria Tait Lima

Alessandra Ribeiro Martins

Sônia Aparecida Fardin

IEL/UNICAMP

2019

A ata da defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora,

consta no SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertação/Tese e na

Secretaria de Pós-Graduação do IEL.

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Dedico este trabalho a todos os meus ancestrais que construíram o chão para que eu pudesse caminhar com dignidade.

Dedico-o também a todos aqueles que virão – que possam encontrar um chão mais bem preparado para a longa jornada.

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Agradeço Fábio Fonseca de Melo, meu companheiro de jornada, que esteve comigo neste projeto desde a primeira intenção de escrita, até a última vírgula. Muito obrigada pelos incentivos, apoio e por estar ao meu lado nesta caminha, algumas vezes enxugando minhas lágrimas, outras dando aquele empurrãozinho na confiança de que tudo daria certo.

Agradeço à minha família, às minhas crianças e meus amigos, por me fazerem acreditar que é possível conquistar espaços que nem sempre estão de portas abertas para nós.

Agradeço aos coordenadores e frequentadores dos quilombos Terça Afro e Aparelha Luzia por me receberem de portas abertas em seus espaços e me concederam valiosas entrevistas. Sou imensamente grata pelo aprendizado, afeto recebido de vocês.

Agradeço à minha orientadora, Márcia Tait, pela paciência e amorosidade, foi uma grande alegria encontrar você nessa caminha. O seu respeito para com o meu modo de ser mestranda tranquilizou o meu coração para que eu chegasse aqui.

Agradeço também, você que lê esse trabalho que é parte da minha trajetória e contém partes preciosas da minha vivência como mulher negra caminhando por esse mundo.

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Esta dissertação investiga como dois espaços autodenominados quilombos urbanos na cidade de São Paulo estão comunicando história, identidade, cultura e memória negra em suas atividades.

Identificados neste projeto como “novos quilombos”, os espaços Terça Afro, localizado na zona norte de São Paulo, e Aparelha Luzia, na região central da cidade, estão organizados com a proposta de serem focos de resistência negra. Esses dois espaços têm características em comum: são coordenados por negros e oferecem uma programação que aborda cultura, identidade, literatura, arte e questões que envolvem a negritude, sempre garantindo que o negro esteja em evidência e tenha seu espaço de fala assegurado.

A comunicação abordada nesta pesquisa compreende manifestações culturais, manifestações artísticas, turismo histórico e cultural, espaços de visitação, formas de comunicação tradicionais e digitais, além de outras práticas que façam com que o espaço, as ações e as ideias que ali circulam sejam conhecidas e reconhecidas.

A autodenominação desses espaços como “quilombos urbanos” recupera um evento muito característico do período dos negros escravizados que legitima e reafirma a história de resistência dos ancestrais e enaltece a identidade negra. Para sustentar essa identidade, é preciso que as memórias, a cultura e as histórias sejam recordadas constantemente.

Nesse sentido, o esforço desses espaços em encontrar formas de comunicar suas próprias pautas e contar suas histórias faz-se extremamente necessário para a construção da identidade negra, já que é na transmissão da memória e das histórias que a cultura e a identidade são preservadas e valorizadas por seus integrantes e pela sociedade.

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This thesis investigates how two self-denominated 'urban quilombo' cultural venues in the city of Sao Paulo are communicating black history, identity, and culture in their activities.

Identified in this project as new quilombos, the venues Terça Afro ('Afro Tuesday') and Aparelha Luzia ('Apparatus Luzia'), respectively located in the city of Sao Paulo's northern region and downtown, are organized under the goal of being focuses of black resistance. Both venues share common features: they are coordinated by black people and offer a programme addressing culture, identity, literature, art, memory, négritude-related matters – always furnishing blacks with evidence and ensuring them a space for free speech.

For our purposes, ‘communication’ includes cultural manifestations, artistic events, cultural-historical tourism, visitation spots, traditional and digital communication forms, as well as practices to make the venue and their actions and ideas known and recognized.

The venues’ self-denomination as urban quilombos recovers a very characteristic event from enslaved blacks period that legitimates and reaffirms the history of resistance of the ancestors and aggrandize black identity. To support that identity, memories, culture, and history must be continually propagated. On that count, those venues’ effort to find how to communicate their own agendas and tell out their histories is extremelly necessary, since it’s by transmitting memory and history that culture and identity are preserved and valorized by their members and society.

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Figura 1: Eu, de cabeça coberta, no bar Milord Taverna em Campinas, SP. Crédito: arquivo pessoal. ... 60 Figura 2: Salão do quilombo Aparelha Luzia pronto para receber as atrações e os

frequentadores na noite do sábado, 15 de junho de 2019. Crédito: arquivo pessoal. ... 65 Figura 3: Frase fixada na parte superior do salão onde são guardados os instrumentos do Ilu Inã - Bloco Afro-afirmativo do Aparelha Luzia. Crédito: arquivo pessoal. ... 66 Figura 4 e Figura 5: Fotos de itens da decoração do quilombo Aparelha Luzia. Crédito: arquivo pessoal. ... 67 Figura 6 e Figura 7: Fotos de itens da decoração do quilombo Aparelha Luzia. Crédito: arquivo pessoal. ... 68 Figura 8 e Figura 9: Fotos de itens da decoração do quilombo Aparelha Luzia. Crédito: arquivo pessoal. ... 68 Figura 10: Destaque para as paredes e chão de tons avermelhados. Crédito: arquivo pessoal. ... 70 Figura 11: Erica Malunguinho no dia de sua diplomação como deputada estadual da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Crédito: Divulgação no perfil de Erica Malunguinho no Instagram. ... 72 Figura 12: Eu e Erica no quilombo Aparelha Luzia na noite do dia 16 de novembro de 2018. Crédito: arquivo pessoal. ... 74 Figura 13: Mesa de lanchinho e participantes da Roda de Conversa do Terça Afro com o tema “Bem Viver: estratégias de luta, sobrevivência e cuidado para a população negra”, com Juliana Gonçalves, em 19 de março de 2019. Crédito: arquivo pessoal. ... 77 Figura 14: Pessoas reunidas no pátio de entrada do quilombo Terça Afro durante o evento Sambada, em 9 de fevereiro de 2019. Créditos: arquivo pessoal. ... 80 Figura 15: Pessoas reunidas no pátio de entrada do quilombo Terça Afro, assistindo à atração musical Samba Rock Shine durante o evento Sambada, em 9 de fevereiro de 2019. Crédito: arquivo pessoal. ... 80 Figura 16: Arte com o rosto de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em 2018, exposta no pátio de entrada do quilombo Terça Afro. Crédito: Arquivo pessoal. ... 81 Figura 17: Espaço no quilombo Terça Afro dedicado às crianças, onde há livros infantis e almofadas que convidam para uma contação de histórias. Crédito: arquivo pessoal. ... 81 Figura 18: Grupo Samba Rock Shine se apresentando no evento Sambada realizado no quilombo Terça Afro. Crédito: arquivo pessoal. ... 81 Figura 19: Cozinha do Terça Afro onde estava sendo preparada a feijoada no dia da Sambada. Crédito: arquivo pessoal. ... 83 Figura 20 e Figura 21: Fotos da lembrancinha de aniversário de 60 anos da minha tia. Crédito: arquivo pessoal. ... 88 Figura 22: Grupo da tribo Kariri Xocó durante apresentação no Centro Cultural Casarão, em Barão Geraldo, Campinas – SP, no dia 13 de abril de 2019. Crédito: Ione Cadengue. ... 96

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de abril de 2019. Crédito: Ione Cadengue. ... 96 Figura 24: Apresentação da comunidade Jongo Dito Ribeiro no 2º Fórum pela Paz,

realizado no dia 1º de maio de 2019, na Praça Arautos da Paz, em Campinas. O evento foi promovido pela Secretaria Municipal de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos da cidade. Crédito: Foto de divulgação da prefeitura de Campinas/SP ... 100 Figura 25: Comunidade Jongo Dito Ribeiro no 2º Fórum pela Paz, Crédito: Foto de divulgação da prefeitura de Campinas/SP ... 100 Figura 26: Apresentação do Ilú Obá De Min no 15º Arraial Afro Julino do Jongo Dito Ribeiro, na Casa de Cultura Fazenda Roseira, em julho de 2018. Fotos: divulgação na página do Ilú Obá De Min no Facebook. ... 102 Figura 27: Ilú Obá De Min no 15º Arraial Afro Julino do Jongo Dito Ribeiro, na Casa de Cultura Fazenda Roseira, em julho de 2018. Fotos: divulgação na página do Ilú Obá De Min no Facebook. ... 103 Figura 28: Os palestrantes da mesa Alessandra Ribeiro, Hugo Canuto e Fernanda Piccolo (respectivamente, 3ª, 4º e 5ª a partir da esquerda) com as coordenadoras da mesa Luana Campos, Paula Batista e Andressa Menezes (1ª, 2ª e 6º, no mesmo sentido), na Casa de Cultura Fazenda Roseira. Crédito: arquivo pessoal. ... 105 Figura 29: Café da tarde na Casa de Cultura Fazenda Roseira, após o evento. Crédito: arquivo pessoal. ... 105 Figura 30: Imagens da exposição A Costura da Memória, de Rosana Paulino, na

Pinacoteca do Estado. Crédito: arquivo pessoal. ... 108 Figura 31: Imagem da exposição A Costura da Memória, de Rosana Paulino, na

Pinacoteca do Estado. Imagem de mulher muito parecida com uma de minhas tias. Crédito: arquivo pessoal. ... 108 Figura 32: Eu e meu grupo de amigas contemplando a natureza na chegado ao Quilombo Ivaporunduva em 12/10/2017. Crédito: arquivo pessoal ... 110 Figura 33: Conexão com nossos ancestrais durante visita ao rio onde escravizados

trabalharam na mineração. ... 111 Figura 34: Foto da esquerda: Sr. Dito (Benedito Alves da Silva, presidente da associação do Quilombo Ivaporunduva), contando a história do quilombo e da construção da Capela de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos, durante a visitação. Crédito: arquivo pessoal ... 111 Figura 35: Eu e o Sr. Dito em frente ao altar da capela após sua palestra sobre a história do quilombo Ivaporunduva e da construção daquela igreja. Crédito: arquivo pessoal. .. 112 Figura 36: Post no Twitter, após o anúncio da Disney com a imagem da atriz Halle Bailey ao lado do personagem lhama, do filme “A nova onda do Imperador” que diz: "Isso seria perfeito para você!!! Você nunca será Ariel!!!!" Fonte: site Omelete

https://www.omelete.com.br/filmespor-que-halle-bailey-nao-pode-interpretar-a-sereia-ariel; acessado em 7 de julho de 2019. ... 117 Figura 37: Comentário no Facebook no post sobre o anúncio da atriz Halle Bailey que dará vida a Ariel no live-action de “A Pequena Sereia”. Fonte: site Omelete.

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Introdução... 19

Capítulo 1: O dia seguinte à Abolição ... 24

A primeira lei. ... 24

O início da luta militante ... 28

Capítulo 2: De abrigo a espaço de resistência... 38

Ressignificando os quilombos ... 40

Teóricos do quilombo ... 42

Clóvis Moura ... 42

Beatriz Nascimento ... 45

Abdias do Nascimento ... 49

Quilombagem, quilombo e quilombismo ... 55

Capítulo 3: Quilombos ... 57

Afeto ... 57

Dois quilombos ... 64

O quilombo urbano Aparelha Luzia ... 64

O quilombo urbano Terça Afro ... 75

Contextualização sobre nosso tempo ... 84

Capítulo 4: Comunicar para (r)existir ... 88

Por uma outra comunicação ... 89

Primeira experiência – ancestralidade indígena ... 93

Segunda experiência – o jongo ... 97

Terceira experiência – os Orixás ... 101

Quarta experiência – memória ancestral... 106

Para refletir ... 114

Capítulo 5: A voz que vem dos quilombos ... 116

Sereia preta ... 116

Voz que vem de fora versus voz que vem de dentro ... 118

A voz da ancestralidade ... 122

A voz que vem da programação ... 127

A voz que não é de todos os negros ... 131

Conclusão ... 138

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Apresentação

Minha intenção, ao iniciar esta pesquisa, foi compreender os elementos presentes na divulgação da cultura negra em espaços dedicados a abordar temas da negritude. Porém, com o passar do tempo, compreendi que esta pesquisa foi um grande presente que recebi, pois, para além da investigação acadêmica que realizei, acabei, também, por descobrir e me aproximar mais da minha ancestralidade, da minha história. Quando iniciei o projeto, não tinha dimensão de que, estudando as raízes negras do meu país, também investigaria com tanta vivacidade a minha própria ancestralidade.

Essa experiência foi extremamente rica porque, durante 30 anos da minha vida, estive apartada desse conhecimento. A verdade é que boa parte da população negra do nosso país não conhece a própria história, com exceção, é claro, daqueles que têm grande contato com as religiões de matriz africana ou com a cultura afro-brasileira desde cedo. Ao realizar as investigações deste projeto, senti-me descobridora da minha própria história.

Em diversos momentos, deparei-me com outras versões sobre a história e trajetória do negro em solo brasileiro. Infelizmente, o que se aprende na escola não dá conta de nos ensinar sobre a nossa grandiosidade e de como não só os braços dos nossos antepassados, mas também sua cultura e sua resistência ao cativeiro, foram de extrema importância para gerar o Brasil que conhecemos hoje. Compreendi que essa falta de conhecimento da própria história, somado ao racismo estrutural da sociedade, é o que muitas vezes faz com que a população negra ande de cabeça baixa, acredite e internalize o próprio racismo que imputam à nossa existência, tornando a cor da nossa pele, para alguns, um fardo pesado de carregar a ponto de causar vergonha, já que a ela relacionam tudo de ruim que uma população pode ser. É a falta de conhecimento de nossa potência que nos faz acreditar em tudo que se conta de negativo sobre o nosso povo.

O acesso a essa herança ancestral, não foi possível em nenhum momento do período em que vivi numa cidade marcadamente racista, no interior do estado de São Paulo, onde o negro é visto como um mal a ser eliminado; tampouco por todo o tempo em que cultuei uma religião que não tinha nenhuma relação com a minha cultura ancestral e que, nas entrelinhas, dizia que o que vem da cultura afro-brasileira era de envergonhar. Carregando essa vergonha de ser negra na cidade de Itatiba, e a repulsa por religiões de matriz africana, foi que desde pequena eu aprendi a me orgulhar em dizer que eu era budista. Eu, de pele retinta, muitas vezes a única negra em sala de aula, sentia orgulho em dizer que a minha prática religiosa vinha do oriente, dos japoneses. Não havia, necessariamente, um problema

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na minha prática religiosa, mas sim no fato de desde pequena aprender e reproduzir que o que vem dos meus ancestrais não é de se orgulhar e sim de se envergonhar. O mais grave é que essa visão continua se reproduzindo. Nunca escapei do racismo advindo da cor da minha pele, mas do racismo religioso eu buscava sempre me proteger: quando gritavam “a’ lá a neguinha macumbeira”, eu logo respondia “macumbeira não; eu sou budista!” Para alguns, o ato de ostentar uma religião não negra, e ainda mais de uma origem valorizada socialmente no Brasil, como é a japonesa, pode ser considerado um ato racista de minha parte, o que na verdade era um ato para escapar àquela inferiorização de tudo que é negro de que nos conta bell hooks:

A visão de homogeneidade cultural que tenta desviar a atenção ou criar desculpas para o impacto opressor e desumanizante da supremacia branca ao sugerir que pessoas negras também são racistas indica que a cultura permanece ignorante a respeito do que é realmente o racismo e de como ele funciona. Mostra que as pessoas estão em negação. Por que é tão difícil para tantas pessoas brancas entender que o racismo é opressor não porque as pessoas brancas têm sentimentos preconceituosos em relação aos negros (elas poderiam ter esses sentimentos e nos deixar em paz), mas porque é um sistema que promove a dominação e a submissão? (HOOKS, 2019, p. 54)

Ensinaram-me a ter orgulho de ser budista, ensinaram-me a ter orgulho de morar no interior de São Paulo, de ter uma família estruturada, de ter acesso à educação (pública) e incentivo aos estudos, de ter amigos brancos e poder transitar com certa segurança na sociedade branca da cidade. Mas restava a pele: nunca, em momento algum, na escola, na religião, nas amizades, ensinaram-me a ter orgulho de ser negra, a ter orgulho da minha ancestralidade, da memória e raiz negras que carrego.

Esta escrita fez aflorar o meu orgulho de ser mulher negra, de pertencer a uma população que foi escravizada e que sempre resistiu, sem jamais esmorecer face às atrocidades que nos foram impostas. Eu e tantos outros negros orgulhosos do que somos, dos mais diversos tons de pele afrodescendentes, somos prova disso. Somos, também, resultado de um movimento social ativo para o despertar dessa consciência, captado e explicado por Elisa Larkin Nascimento:

A falta de conhecimento sobre suas origens contribui para que muitos afrodescendentes tenham baixa autoestima, o que impede seu acesso pleno às oportunidades e mina sua capacidade de lutar por direitos. Essa situação levou o movimento social afro-brasileiro a exercer forte pressão política. (NASCIMENTO, 2008, p. 22)

Assim, foi por meio deste trabalho que comecei a olhar com mais carinho para o que chamo de “ancestralidade presente1”: minhas tias e mãe. Para meu espanto, descobri

1 Dentre as acepções registradas no Grande Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, constam os seguintes

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algo que ninguém nunca havia dito, nunca havia contado ou mencionado abertamente em conversas familiares, e que chamo aqui de “maldição das escravas modernas2”. Minhas avós, tanto a materna quanto a paterna, ante a ausência do marido – uma por abandono e a outra por viuvez – viram-se diante da tarefa de sustentar a casa e os filhos sozinhas. Algumas famílias, vendo a dificuldade das minhas avós em sustentar as crianças, ofereceram que estas últimas (minha mãe e suas irmãs), mesmo pequenas, fossem viver em suas casas, nas quais teriam comida e moradia em troca de fazerem a limpeza da casa, cozinharem e cuidarem das outras crianças da casa.

Minha mãe e algumas de minhas tias desconfiam, embora não tenham certeza, de que minhas avós recebiam uma pequena quantia pelo trabalho árduo que elas, suas filhas (minhas tias), realizaram – porque, elas mesmas, não eram diretamente remuneradas. O trauma é tanto que, antes, o que pouco se falou sobre isso se resumiu a relatos dispersos de minha mãe, sempre en passant e sem dar muita importância; talvez numa tentativa de apagar essa memória, elas nunca haviam aberto o baú doloroso desse passado recente. Esta pesquisa me deu a oportunidade de abri-lo: conversei com umas e outras, com cuidado, com afeto e respeito, muito atenta a todos os detalhes. Elas viveram uma infância e juventude traumática e violenta, que incluem casos de agressão que vão de queimaduras ao estupro.

Falar e denunciar essas histórias, como faço aqui, é uma tentativa de nos libertar dessas mazelas e de não mais encobrir as atrocidades que tradicionais famílias brancas fizeram com a minha e tantas outras famílias majoritariamente de pele negra. Tal “costume” se espraiou (se espraia?) por todas as classes sociais brancas, da classe média às elites políticas e financeiras. A família Villas Boas, dos irmãos antropólogos, por exemplo, “empregou” minha mãe; a 8ª família mais rica do Brasil3 hoje – os herdeiros do fundador

do banco Bradesco, a família Aguiar – “adotou” uma de minhas tias, em sua infância, para seus trabalhos domésticos.

antecessores, a antepassados. S. 2 g. 2. Indivíduo do qual descendem outros indivíduos, ou grupos biológicos ou sociais; antecessor, antepassado. (HOLANDA, 1999, p. 133). Ou seja, “ancestral” remete a antepassados. Logo, o que chamo de “ancestralidade presente” são aqueles, dentre meus familiares vivos, que vieram antes de mim e são reconhecidos como detentores dessa memória ancestral transmitida para os mais novos.

2 O trabalho de crianças (geralmente, de meninas negras) em casas de família, nas décadas de 1950 a 1970,

que, em muitos casos, não era assalariado, mas “pago” com comida e abrigo. Coloco essa forma de escravidão como maldição por acreditar que esse destino, dessas meninas negras, foi (é ainda) um dos responsáveis pelo baixo nível de escolaridade, sujeição à violência doméstica e pela grande maioria das mulheres negras continuarem na base da pirâmide social em empregos e/ou subempregos formais ou informais como empregadas domésticas, babás etc. com baixos salários e poucos (ou nenhum) direitos trabalhistas. É uma maldição que continuar a assombrar os dias atuais.

3 Fonte: https://exame.abril.com.br/negocios/quem-sao-as-15-familias-mais-ricas-do-brasil-segundo-a-forb/,

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O silêncio pode até fazer com que elas não revisitem, nem em memória, esse passado sombrio, mas não nos livra de continuar perpetuando esse passado em nossas vidas, ou seja, na relação de trabalho dos mais jovens da família, na maioria das vezes de grande subserviência, mesmo que inconscientemente. Devo não obstante agradecer toda a luta dessas mulheres, que sobreviveram a todas essas violências e ainda nos transmitiram força e coragem para continuar. Mais do que isso, conseguiram se reerguer, reconstruindo-se nessa mesma sociedade, e oferecer uma vida tranquila e digna para mim e meus primos – e longe, muito distante da realidade que elas viveram. Tais percursos aumentam a minha alegria de ser uma mulher negra, descendente dessas mulheres negras guerreiras que me dão a oportunidade de hoje me orgulhar de quem sou e de onde vim.

Se eu fosse uma mulher branca, hoje teria vergonha de olhar para trás e saudar meus ancestrais escravizadores, ou aqueles que se beneficiaram dos privilégios oferecidos pelas circunstâncias da época para explorar os meus antepassados. Eu me sentiria constrangida de ser descendente de pessoas que concordaram e propagaram socialmente um racismo tão estrutural a ponto de acharem normal, nas décadas de 1950 a 1970, terem minhas tias, ainda crianças, em suas casas, sem nem mesmo pagar um salário, mantendo-as como escravas modernas, limpando a sujeira que faziam. Eu teria vergonha, mas é chocante o orgulho que ostentam, em negação de tais flagelos, logrando, ainda outra vez, que sintamos vergonha de quem somos.

Isso, agora, acabou. Hoje, eu, tão orgulhosa de quem sou, decidi me aquilombar. Além de olhar com mais afeto para a cultura ancestral africana, rica e potente, também aproveitei a oportunidade de olhar para os meus ancestrais que chamo de “próximos”: meus pais, minhas tias e tios, meus avós. Em uma vivência de constelação familiar, sugeriram-me: “olhe para os seus avós e pais, pense em tudo que eles passaram para que você esteja viva hoje”. Essa experiência foi muito impactante e me fez refletir profundamente.

Por tudo isso, escrevo este trabalho em agradecimento e homenagem a todos aqueles que vieram antes de mim, por toda a luta e resistência em que se empenharam, pela dignidade que me transmitiram, e o dedico aos do futuro, a todos aqueles que virão. De onde viemos e ao que vivemos, só há um sentimento a cultivar: orgulho!

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Carta para aqueles que ainda se sentem constrangidos, mesmo que por alguns segundos, com a cor da própria pele.

Meu caro preto, minha cara preta, entenda: esta sociedade foi construída justamente para que você se sinta assim. Tentam a todo momento nos diminuir, desqualificar a nossa cultura e a nossa arte, inferiorizar a nossa produção intelectual e banalizar a nossa caminhada, pois tamanho é o medo de que tomemos consciência de nossa herança ancestral, de nossa potência e de nossa capacidade. Nos libertamos das correntes; agora é o momento de nos libertarmos do preconceito. Dicas de por onde começar:

1. Comece conhecendo a trajetória da sua família, das dores e das vitórias. Aqui começa um processo poderoso de cura.

2. Depois, estude, leia autores negros, siga influenciadores digitais negros que falam da nossa negritude com potência, assista filmes que falam das nossas vitórias e que contem a nossa versão das histórias. Aproxime-se da cultura religiosa de matriz africana – não é necessário professá-la, mas conheça, estude e entenda, não tenha vergonha ou medo – ela faz parte da sua cultura ancestral, não a negue nem se envergonhe dela. Visite quilombos, exposições e apresentações culturais ou artísticas que tratem da nossa cultura. Ouça nossos músicos e músicas que exaltam a nossa cultura e negritude.

3. Caso tenha filhos, fale com eles sobre racismo, ensine a seus filhos desde pequenos a potência e o orgulho de serem negros. Tenha ou não filhos, ensine seus amigos brancos sobre a nossa cultura e os encoraje a combaterem o racismo, pois, como diz a filósofa Angela Davis, “Numa sociedade racista não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”.

4. Por último, mas não menos importante, aquilombe-se! Reúna-se com famílias e amigos pretos, fale da nossa cultura, da nossa ancestralidade, troquem informações, fale da alegria de ser negro, conte suas histórias, descubra as histórias deles, celebrem a nossa ancestralidade, dance!

Aos poucos, você vai sentir o seu corpo mais leve, suas roupas podem até mudar, sua autoestima aumentará, sua relação com seu cabelo se tornará positiva, seus argumentos para combater o racismo diário ganharão mais peso e você se sentirá mais livre.

Não pretendo servir de exemplo, mas aprendi uma lição comigo mesma: manter-me distante das minhas raízes ancestrais por tanto tempo manter-me causou profundos danos, como baixa autoestima, falta de confiança na minha capacidade como pessoa, mulher e como

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profissional. Mas isso tudo vem sendo curado ao me aquilombar com os meus, assim como em terapias, no estudo, na escrita deste trabalho. Não quero dizer, com isso, que há apenas uma forma de ser negro no Brasil, nem estou querendo impor uma forma única de ser e ver o mundo, mas acredito – e por isso escrevo este trabalho – que precisamos pelos menos conhecer quem somos e, assim, não fazermos parte dos que reproduzem o racismo, mas dos que o combatem.

A caminhada foi longa e árdua. Nunca fui uma mestranda que me dediquei somente aos estudos: sem bolsa, não pude me dar ao luxo de tal percurso. Em meio aos trabalhos (às vezes como empregada, às vezes como empreendedora), família, marido, amigos, férias, compromissos etc. fui trilhando a minha jornada com grande apoio e paciência daqueles que me cercam. E, enfim, a jornada terminou.

Finalizo esta apresentação com uma citação de Olhares negros: raça e representação, de bell hooks, a título de clamor e convocação para transformarmos nosso olhar sobre nós mesmos:

Ao abrir uma revista ou um livro, ligar a TV, assistir um filme ou olhar fotografias em espaços públicos, é muito provável que vejamos imagens de pessoas negras que reforçam e reinstituem a supremacia branca. Essas imagens podem ser construídas por pessoas brancas que não se despiram do racismo, ou por pessoas não brancas ou negras que vejam o mundo pelas lentes da supremacia branca – o racismo internalizado. É claro, aqueles entre nós comprometidos com a luta da libertação dos negros, com a liberdade e a autonomia de todas as pessoas negras, precisam encarar todos os dias a realidade trágica de que, coletivamente, realizamos poucas revoluções em termos de representação racial – se é que fizemos alguma. (...) A menos que transformemos as imagens da negritude, das pessoas negras, nossos modos de olhar e as formas como somos vistos, não poderemos fazer intervenções radicais fundamentais que alteram a nossa situação. (HOOKS, 2019, pp. 32; 40)

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Introdução

As comunidades quilombolas são importantes grupos de resistência cultural e étnica no país. No Estado de São Paulo, são consideradas parte do patrimônio afro-brasileiro. Denominados “novos quilombos” ou “territórios negros”, espaços nas periferias e no centro da cidade de São Paulo estão organizados para difundir e comunicar a cultura negra4 como ato de resistência. São espaços que acolhem artistas negros, projetos de temáticas negras, onde os negros podem falar de suas questões e ter acolhimento. Alguns os chamam de “territórios de afeto” por serem locais em que, como nos quilombos da época da escravidão, o negro pode livremente ser negro.

Esses espaços, neste trabalho denominados “novos quilombos”, transformaram-se em “territórios de afetos”, mas também os territórios negros se transformaram em novos quilombos, onde as tradições5 afro-brasileiras florescem apesar de perseguidas e malvistas pela sociedade. É necessário salientar a importância das agremiações e escolas de samba, além dos centros de religiões de matriz africana, que, durante todo esse período, tiveram papel relevante na união do povo negro. Considero que essas organizações negras mais antigas – Escolas de Samba, terreiros de candomblé, os bailes black, dentre outros fenômenos sociais do povo negro no Brasil – foram os primeiros “aquilombamentos” urbanos. Com base nos autores que veremos adiante e que delimitam o conceito de “quilombo urbano” como fenômeno moderno de nosso país marcado pela discriminação racial, ao investigar especificamente os quilombos Terça Afro e Aparelha Luzia, busco analisar as especificidades que, de certa forma, atualizam o conceito de quilombo urbano em seu fenômeno contemporâneo, bem como as dessemelhanças e similitudes entre estes dois quilombos estudados nesta pesquisa.

Dessa forma, manifestações culturais, manifestações artísticas, turismo histórico e cultural, espaços de visitação, formas inusitadas de comunicação, além de tecnologias

4 A rigor a própria ideia de cultura, da forma como se estabeleceu na Modernidade ocidental – implica

produção de sentido para a ideologia do Homem Universal – é inadequada às estratégias de relacionamento com o real como as desenvolvidas pelos grupos étnicos na diáspora escrava. Na verdade, o simbolismo negro é antitético àquilo que o Ocidente chama de “cultura”. Mas hoje esta palavra tem circulação obrigatória. Por isso empregamos a expressão “cultura negra”, sempre entendendo “cultura” como o modo pelo qual um agrupamento humano relaciona-se com o seu real (isto é, a sua singularidade ou aquilo que lhe possibilita não se comparar a nenhum outro e, portanto, lhe outorga identidade) e não como um botim de significações universais, a exemplo do bolo acumulado pelo do capital. (SODRÉ, 1988, p. 156)

5 A tradição é mesmo um conjunto de "regras", de princípios simbólicos sem projeto Universal implícito,

conhecidos é vivenciados pelos membros da comunidade, com o objetivo de coordenar grupos negros na diáspora escravizada. A regra vige por força do consenso, não pela imposição de uma essência transcendente. (ibidem, p. 92)

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sociais, comunicações populares e sociais, entre outros diversos formatos de comunicação, podem fazer parte do caminho encontrado por esses espaços para comunicar e manter a cultura negra viva. A própria denominação “quilombo urbano” adotado por esses espaços já diz muito em termos de comunicação.

Utilizamos, aqui, a palavra comunicação porque ela “implica diálogo. É um intercâmbio de mensagens com a possibilidade de retorno não-mecânico. Daí ser um termo privativo das relações dialógicas inter-humanas.” (Gomes, 2004, p. 14)

O tipo de comunicação adotado por esses quilombos revela a forma que esses espaços encontraram para comunicar a potência ancestral negra. Nesse comunicar para (r)existir não cabe a comunicação ou a informação produzida pela mídia de massa, já que são, como classifica GOMES (2004): “o envio de mensagem sem possibilidade de retorno não-mecânico (...), relação que se estabelece entre polos com baixo coeficiente de comunicabilidade. É um processo de veiculação unilateral do saber entre um transmissor institucionalizado e um receptor-massa” (p. 14 e 15). Já o comunicar para (r)existir ressalta o envolvimento entre emissor e receptor da comunicação.

Nesta pesquisa, desconsidero a comunicação produzida pelas mídias de massa por observar que o negro, nessas mídias, sempre é visto de modo distorcido e retratado de maneira pejorativa. Há uma construção midiática “que apoia e mantém a opressão, a exploração e a dominação de todas as pessoas negras em diversos aspectos” (HOOKS, 2019). Logo, esses espaços, os novos quilombos, que enaltecem o “ser negro” e mantêm o negro em evidência, não encontraram possibilidades na veiculação das mídias de massa.

O racismo constitui todo um complexo imaginário social que a todo momento é reforçado pelos meios de comunicação, pela indústria cultural e pelo sistema educacional. Após anos vendo telenovelas brasileiras, um indivíduo vai acabar se convencendo de que mulheres negras tem uma vocação natural para o trabalho doméstico, que a personalidade de homens negros oscila invariavelmente entre criminosos e pessoas profundamente ingênuas, ou que homens brancos sempre têm personalidades complexas e são líderes natos, meticulosos e racionais em suas ações. E a escola reforça todas essas percepções ao apresentar um mundo em que negros e negras não têm muitas contribuições importantes para a história, literatura, ciência e afins, resumindo-se a comemorar a própria libertação graças à bondade de brancos conscientes. (ALMEIDA, 2019, p. 65)

Essa forma de nos representar, de como nos olham, reforça o racismo estrutural da nossa sociedade e, consequentemente, o apagamento de nossa cultura, identidade e ancestralidade. Essa imagem colonizada que fazem dos negros destrói a autoestima. “Parece-nos que depois da abolição, a ideologia racista reforçou acentuadamente uma imagem deformante do negro – sempre caminhando no sentido de marginalizá-lo de uma maior participação nos destinos da sociedade global” (LUZ, 2010, p. 25).

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Como, então, fugir desse estereótipo que se faz do negro na sociedade brasileira para reforçar a estrutura racista, e desfazê-lo? Silvio Almeida, em seu livro Racismo Estrutural, relata sua experiência pessoal da naturalização do racismo que não questionamos:

(...) eu, sendo um homem negro, só fui "despertado" para a desigualdade racial ao meu redor pela atividade política e pelos estudos. O que me impedia de perceber essa realidade? O que me leva a "naturalizar" a ausência de pessoas negras em escritórios de advocacia, tribunais, parlamentos, cursos de medicina e bancadas de telejornais? O que nos leva – ainda que negros e brancos não racistas – a "normalizar" que pessoas negras sejam a grande maioria em trabalhos precários e insalubres, presídios e morando sob marquises e em calçadas? Por que nos causa a impressão de que as coisas estão "fora de lugar" ou "invertidas" quando avistamos um morador de rua branco, loiro e de olhos azuis ou nos deparamos com um médico negro? (ALMEIDA, 2019, pp. 62-63).

Os quilombos Terça Afro e Aparelha Luzia têm se mostrado exemplares na construção de uma outra imagem do negro. E este trabalho tem o intuito de apresentar, por meio das minhas experimentações e vivências em diversos espaços, da visitação a esses quilombos, das entrevistas realizadas com coordenadores e frequentadores dos espaços, além da pesquisa bibliográfica, as maneiras que esses quilombos encontram para acolherem corpos e sujeitos negros, operarem como repositório e divulgadores da cultura negra, constituírem-se em espaço de liberdade e de construção de outras possibilidades para negras e negros a partir da compreensão de si e da própria história, promovendo o orgulho de serem quem são, a sensação de estarem plenamente vivos, ainda que, talvez, apenas naquele intervalo de espaço-tempo em que circulam nesses quilombos.

Como metodologia para a pesquisa de campo de caráter qualitativo, entrevistei dois coordenadores e dois frequentadores de cada quilombo. Por meio das entrevistas, foi possível também compreender, pela perspectiva dos entrevistados, como se opera essa comunicação, ou seja, a voz que vem desses quilombos. Devido a exigências do Comitê de Ética ao qual esta pesquisa foi submetida e aprovada, nesta dissertação os oito entrevistados aparecerão identificados por meio de siglas, da seguinte forma: Coordenador do Quilombo Terça Afro 1 (CQTA1); Coordenador do Quilombo Terça Afro 2 (CQTA2); Frequentador do Quilombo Terça Afro 1 (FQTA1); Frequentador do Quilombo Terça Afro 2 (FQTA2); Coordenador do Quilombo Aparelha Luzia 1 (CQAL1); Coordenador do Quilombo Aparelha Luzia 2 (CQAL2); Frequentador do Quilombo Aparelha Luzia 1 (FQAL1); Frequentador do Quilombo Aparelha Luzia 2 (FQAL2).

É preciso compreender que o racismo que naturalizamos é fruto de um processo político e histórico que se reflete nas práticas sociais; portanto, essa visão que nos fazem ter dos negros “não é a realidade, mas uma representação do imaginário social acerca de

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pessoas negras. A ideologia, portanto, não é uma representação da realidade material, das relações concretas, mas a representação da relação que temos com essas relações concretas” (ibidem, pp. 65-66).

Na contramão do sistema e da ideologia dominante, esses dois espaços, Terça Afro e Aparelha Luzia, configurando-se como quilombos, estão construindo um repertório de atividades e conteúdo para colocar a cultura, a arte, a história, a memória e a ancestralidade negras num lugar de exaltação. Nesses espaços, os corpos negros comunicam o que é ser negro de forma avessa ao que faz a mídia e as instituições. Por esse motivo, durante a realização deste trabalho, foi muito viva a impressão dos frequentadores de que esses espaços os acolhem, bem como, enaltecem o que, na sociedade, é inferiorizado.

Nesta pesquisa, o termo (r)existir – aglutinação referencial das palavras “existir” e “resistir” – está ligada tanto à existência do negro na sociedade, quanto à resistência da cultura afro-brasileira. E este existir/resistir está diretamente relacionado aos quilombos pesquisados, já que eles se mantêm nessa função de proporcionar a livre existência do negro e apoiar a resistência de sua cultura.

Enfrentando toda esta ordem de pressões, especificamente resistindo ao encarceramento do estereótipo, as comunidades negras se enraizaram no Brasil dando continuidade ao processo civilizatório herdado de seus antepassados africanos e, desta forma, marcam na atualidade indubitavelmente sua forte e maciça presença no contexto da cultura nacional. O valor da cultura negra que tanto enriquece o património cultural brasileiro ainda é praticamente desconhecido pela sociedade oficial. Sua riquíssima visão sagrada do mundo, com suas formas específicas de comunicação, sua dimensão estética peculiar, seus conhecimentos científicos, de medicina, de matemática, de botânica, seu saber filosófico, psicológico e pedagógico sofrem a ação de recalcamento do estereótipo e a ele resistem e reagem. (LUZ, 2010, p. 27)

Para melhor compreensão desse conceito de comunicar para (r)existir e essa voz que vem dos quilombos, a pesquisa foi dividida em cinco capítulos. No primeiro capítulo, faço uma recapitulação da história do Brasil pós-escravidão, contada por autores negros, para entendermos como foi construída a imagem racista do negro e de como tem sido a luta para fugirmos desses estereótipos e dessa condição de base da pirâmide social. No segundo capítulo, apresento alguns autores que escreveram sobre a nossa herança quilombola e como podemos utilizar esse importante fato histórico para o resgate e o fortalecimento da cultura negra brasileira. No terceiro capítulo, apresento os dois quilombos estudados neste trabalho. No quarto capítulo, abordo e exemplifico o comunicar para (r)existir por meio de experiência pessoais. E, no quinto e último capítulo, mostro a voz que vem dos quilombos estudados, ou seja, como esse comunicar para (r)existir é aplicado e vivenciado pelos coordenadores desses espaços e seus frequentadores.

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Em variados momentos desta dissertação, lanço mão de vivências e experiências pessoais para retratar e explicar conceitos a partir das minhas próprias explorações. Como este trabalho trata de aspectos da negritude, e sendo eu negra, coloco-me como parte diretamente envolvida ou atingida pelos acontecimentos relatados.

Como parcela de contribuição pessoal para a descolonização do pensamento acadêmico e científico, busquei, nesta pesquisa, selecionar em maior quantidade autores afro-brasileiros e latino-americanos a fim de ratificar que é possível construir conhecimento a partir do que é produzido por nós e sobre nós.

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Capítulo 1: O dia seguinte à Abolição

A primeira lei.

Começo a escrever estas linhas em maio de 2018. O noticiário do país volta-se ao icônico maio de 1968. Este ano, completam-se 50 anos da onda de protestos populares e manifestações estudantis na França que culminou, no dia 13 de maio, numa greve de trabalhadores, balançando o governo do então presidente francês Charles De Gaulle. Reconhecida como a maior greve geral da Europa, teve repercussão mundial.

Esse mesmo 13 de maio, aqui, no Brasil, tem outro significado. Antes e durante 1888, houve muita luta também, mas frequentemente se atribui a data apenas à simples assinatura benevolente de um documento. Esse acontecimento completa este ano 130 anos, mas não teve a mesma repercussão que o maio francês.

Por isso, é preciso elucidar que a lei Áurea foi conquistada pelas mãos de negros escravizados, que organizaram fugas assíduas e resistiram em quilombos cujo número só fez aumentar. O primeiro censo brasileiro, realizado em 1872 – o único a censear a população escrava – contabilizou pouco menos de 10 milhões de habitantes, dos quais 84,7% eram cidadãos livres e 15,3%, escravos, sendo que o número de negros e pardos chegava a 62% da população: “dezesseis anos antes da Abolição, havia 4,2 milhões de negros e mestiços livres e apenas 1,5 milhão de escravos” (KLEIN, 2012, p. 107).

Tal luta é chamada por Clóvis Moura de “quilombagem”, o movimento de resistência criado pelos escravizados que enfraqueceu o regime escravista da época.

Quilombagem é um movimento emancipacionista que antecede, em muito, o movimento liberal abolicionista; ela tem caráter mais radical, sem nenhum elemento de mediação entre o seu comportamento dinâmico e os interesses de classe senhorial. Somente a violência, por isto, poderá consolidá-la destruí-la. De um lado, os escravos rebeldes; de outro, os seus senhores e o aparelho de repressão a essa rebeldia. (MOURA, 1992, p. 23)

Nesse movimento, o negro “estabelecia uma fronteira social, cultural, militar contra o sistema que oprimia o escravo” (ibidem); porém, a quilombagem não se resumiu à constituição de quilombos e, sim, em diversas manifestações de rebeldia e resistência, individuais e coletivas, realizados pelos escravos.

Esse movimento de resistência foi o verdadeiro estopim para que no dia 13 de maio fosse assinada a Lei Áurea. Essa resistência que antecedeu à Abolição foi essencial para que, ao raiar o outro dia, os negros continuassem resistindo e lutando para sobreviver num

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país que lhes relegou às condições mais inóspitas a fim de limitar o alcance de realização de sua liberdade na vida nacional.

O Movimento Negro – que está em alta atividade em 2018 por conta das diversas redes digitais e do aumento de grupos e espaços que têm se organizado para discutir temas caros aos negros e possibilitam maior aproximação e discussão dos temas – afirma que vivemos uma abolição que só existiu no papel, pois não representou a liberdade dos negros, mas, sim, o abandono dessa grande fatia da população. Por isso, a luta continuou mesmo após a Abolição – não mais organizados como negros fugidos, mas, desta vez, como sobreviventes.

Essa resistência para a sobrevivência foi necessária porque, no período que sucedeu o 13 de maio de 1888, ideias ligadas ao eurocentrismo permeavam diversas áreas, dentre as quais a do trabalho assalariado, que privilegiava os trabalhadores não negros. Segundo essas ideias, as diversas fugas dos escravizados evidenciava que a mão-de-obra negra era inapta ao trabalho assalariado, mesmo após mais de 300 anos de exploração bem-sucedida do trabalho escravo.

Os ideais de embranquecimento da população brasileira e a difusão do pensamento racista próprio da época só colaboraram para o abandono da população negra após a assinatura da Lei Áurea, que nunca igualou negros e brancos em termos políticos e civis, e além disso, ainda criou ações que dificultaram o estabelecimento da população negra no país surgiram então para demarcar, a partir dali, o tratamento que os não-brancos teriam na sociedade brasileira. Por exemplo:

• A Lei de Terras, nº 601 de 18 de setembro de 1850, que regulamentava a posse de terras e definia a compra como única forma legal de aquisição de terras. Essa lei foi uma resposta à Lei Euzébio de Queiroz, que proibia o tráfico de escravizados vindos do continente africano ao Brasil e já anunciava a aproximação do fim da escravidão no país. A Lei de Terras impossibilitou que os trabalhadores pobres, os ex-escravizados e seus descendentes tivessem acesso à terra após a abolição.

• Já a política de imigração, que incentivou a vinda da mão-de-obra europeia para o país, extinguiu a possibilidade da estabilização digna dos recém-libertos, já que esses imigrantes chegaram no país para substituir a mão de obra negra. “O período mais intenso do processo de imigração foi o que ocorreu nos anos que se seguiram à Abolição, 1888 a 1900, quando se observa a entrada de 1,5 milhão de imigrantes, em sua maior parte italianos,

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que se dirigiram ao estado de São Paulo e, os demais, ao então Distrito Federal. O governo subvencionou quase 60% do total dos imigrantes que chegaram” (THEODORO, 2008, p. 35).

Então, a apregoada “superioridade branca” tomou forma. Após a Proclamação da República, havia muito o que se fazer no país; do ponto de vista dos desenvolvimentistas havia, literalmente, um país a se construir. Isso geraria diversas oportunidades de trabalho remunerado, mas, com a vinda dos imigrantes europeus, principalmente italianos, que deixaram a Itália para fugir da crise econômica e social pela qual muitos países europeus passavam, os negros libertos foram dispensados desse trabalho – não por falta de qualificação, mas por serem considerados indisciplinados, irresponsáveis e menos inteligentes que os imigrantes brancos (ibidem, p.37), ideia racista que perdura até hoje.

Ou seja, nosso 13 de Maio ocorreu por meio de muita luta e resistência, e principalmente da resistência quilombola. Tudo o que aconteceu no dia seguinte à assinatura da Lei Áurea, ou seja, o total abandono do negro pela sociedade, embasado em ideias de superioridade branca e eugenia, que ganhavam força na época, resultou na sociedade que temos hoje: maioria negra de moradores das favelas, na grande massa negra reclusa nos presídios, no extermínio da juventude negra. MOURA retrata muito bem a decepção do dia seguinte:

A áspera entrada do negro pela conquista da cidadania começava. Julgando-se cidadão, pensando poder invocar seus direitos, o egresso das senzalas teve uma grande decepção. A sua cidadania nada mais era do que um símbolo habilmente elaborado pelas classes dominantes para que os mecanismos repressivos tivessem possibilidades de elaborar uma estratégia capaz de colocá-lo emparedado num imobilismo social que dura até os nossos dias. (MOURA, 1992, p. 64)

Podemos afirmar, inclusive, que as investidas para que haja a gradual extinção da população negra persistem ainda hoje no país: agora não pela via do embranquecimento articulado àquela época, mas pela via da explícita violência com que essa população ainda é tratada. Exemplo disso são os dados do Atlas da Violência 20176, lançado pelo Instituto

de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, onde mostra que a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras, ou seja, a população negra corresponde a maioria (78,9%) dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios, e é 23,5% maiores as chances de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças. As principais vítimas de morte violenta no país são homens, jovens, negros e de baixa escolaridade.

6 Disponível em http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf; acessado em

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Para os que sobrevivem à violência, as condições de vida são precárias e os subempregos ainda são realizados pelas mãos negras. É o que mostra o levantamento do portal de notícias G17 com base em dados do Ministério do Trabalho em relação às ocupações mais frequentes de profissionais brancos e negros. Segundo esse estudo, em 2016, os negros ocupavam 45,2% das vagas para ensino fundamental; 44,7% das que requeriam ensino médio, ainda que incompleto; e apenas 27% dos empregos que exigiam ensino superior no Brasil. “A gente ainda guarda um retrato muito parecido com esse período pré-emancipação, pré-Lei Áurea nesse sentido de que a sociedade continua delegando as ocupações de maior exploração e de menor remuneração à população negra”, afirma Guillermo Etkin, coordenador da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI-BA), entrevistado pelo G1.

Com o passar do tempo, essas diferenciações que se faziam e ainda se fazem entre negros e brancos fez surgir uma sociedade que desqualifica os não-brancos e, consequentemente, reserva a estes os últimos lugares determinados em posições desvalorizadas ou subalternas no mercado de trabalho e nas posições sociais, legitimando uma hierarquia cujo “código racial das sociedades define como ‘seus lugares apropriados’” (HASENBALG, 1979, p. 83).

Em Itapetininga, como retrata NOGUEIRA, os imigrantes italianos ascenderam economicamente de forma rápida; os negros, no entanto, continuaram na mesma situação ou pior. Isso propiciou que as barreiras encontradas em decorrência da cor também se refletissem em diferenças de classe. (NOGUEIRA, 1985, 1998)

Por meio desse mecanismo, hoje os negros têm maior probabilidade de nascerem nos níveis mais baixos da pirâmide econômica e permanecerem nela, já que as estruturas do racismo impedem que essa população mude essa realidade. Os negros em fase escolar sofrem com a desvantagem educacional do sistema de ensino público em comparação ao privado, o que se refletirá nas oportunidades de trabalho e na diferenciação salarial. Uma pesquisa realizada em 2017 pelo Instituto de Pesquisa Locomotiva e publicada na revista Época Negócios mostrou que “negros com curso superior ganham, em média, 29% a menos que brancos na mesma posição. Para as mulheres, essa diferença é de 27%”8.

A realidade atual tem raízes históricas, ou seja, é fruto do abandono que os negros sofreram desde o dia seguinte ao fim da escravidão no país. Para mudar tais condições, é

7 Disponível em

https://g1.globo.com/economia/noticia/brancos-sao-maioria-em-empregos-de-elite-e-negros-ocupam-vagas-sem-qualificacao.ghtml; acessado em 29 de julho de 2018.

8 Disponível em

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preciso avançar nas políticas públicas e nas ações afirmativas de reparação que se iniciaram na Constituição de 1988, bem como naquilo que, metaforicamente, propõe OSÓRIO:

A discriminação racial funciona para os brancos como calçados que usam para correr contra negros descalços. Torna a corrida tranquila para os primeiros e extenuante para os últimos. Para que a equalização racial ocorra no Brasil, em um horizonte de tempo aceitável, é preciso, primeiro, tirar os calçados dos brancos. Depois, deixá-los correrem descalços por algum tempo e calçar os negros para que os alcancem. No Brasil, faltam ainda políticas mais eficientes de combate à desigualdade racial, baseadas em evidências, que aproveitem os conhecimentos existentes sobre a reprodução da desigualdade racial, dotadas de orçamento adequado e com ampla cobertura. Essas políticas são os calçados que os negros brasileiros merecem receber. (OSÓRIO, 2008, p. 91)

O início da luta militante

Em todo o período escravista a ideologia racista imperava e, após 1888, isso não mudou. Desde a Abolição, a culpa pelo insucesso e falta de prosperidade dos negros tem sido atribuída a sua falta de capacidade de mudar a situação posta, naturalizando, assim, as desigualdades. A crença de que somente um país branco pudesse lograr os ideais de progresso e liberalismo cresceram, intensificando a discriminação e a luta da população negra para continuar existindo em um país que não os queria mais em seu território.

Diante do abandono sofrido, os negros libertos viram na cor da pele, no sofrimento e no abandono do Estado motivos suficientes para se unirem em um projeto comum de ação. Nasce, então, um movimento social e político de mobilização racial. Diversos grupo de luta negra, chamados, coletivamente, de Movimento Negro, começaram a surgir no país para amparar a população negra livre no vazio instituído pelo Estado.

Essa visita à história é importante para compreendermos como esse movimento veio se desenvolvendo desde a abolição da escravatura até abarcar as militâncias que deram origem à importante participação do Movimento Negro nas discussões da Constituinte de 1988. Chamada de Constituição Cidadã e promulgada 100 anos após a Abolição, é a primeira a apresentar o negro como parte integrante da nação.

Para traçar essa cronologia, vou me valer do texto “Movimento Negro no Brasil: alguns apontamentos históricos”, de Petrônio Domingues, em que o autor relata, de forma detalhada, quatro importantes fases do Movimento Negro no país, e define que “Movimento Negro é a luta dos negros na perspectiva de resolver seus problemas na sociedade abrangente, em particular os provenientes dos preconceitos e das discriminações raciais, que os marginalizam no mercado de trabalho, no sistema educacional, político, social e cultural” (DOMINGUES, 2007 p. 101).

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O primeiro indício do Movimento Negro remonta a 1889, logo após a Abolição. “Para reverter esse quadro de marginalização no alvorecer da República, os libertos, ex-escravizados e seus descendentes instituíram os movimentos de mobilização racial negra no Brasil, criando inicialmente dezenas de grupos (grêmios, clubes ou associações) em alguns estados da nação”(DOMINGUES, 2007, p. 103). Segundo o autor, essas primeiras iniciativas voltavam-se a ações assistencialistas, mas também recreativas e/ou culturais. Havia, ainda, organizações de trabalhadores de mesma classe que se organizavam numa espécie de sindicato.

Na luta pela cidadania, o negro trouxe de sua tradição oral a primeira forma de resistir, desta vez transportando-a para a escrita, ao fundar a chamada Imprensa Negra. “Em São Paulo, o primeiro desses jornais foi A Pátria, de 1899, tendo como substituto o Órgão dos Homens de Cor” (DOMINGUES). Um dos objetivos da Imprensa Negra era combater o preconceito de cor, além de abordar temas como trabalho, habitação, educação e saúde, questões que atingiam e desafiavam diretamente a vida dos negros na época e, podemos dizer, até hoje. Outro jornal de vanguarda que também ganhou destaque foi O Manelick, que começou a circular em 1915, “fenômeno dos mais significativos para se analisar o comportamento e a ideologia desse segmento negro urbano” (MOURA, 1992, p. 70).

As reivindicações políticas mais resolutas vieram com a Frente Negra Brasileira (FNB), fundada em 1930: “foi a mais importante entidade negra do país, (...) desenvolveu um considerável nível de organização, mantendo escola, grupo musical e teatral, time de futebol, departamento jurídico, além de oferecer serviço médico e odontológico, cursos de formação política, de artes e ofícios, assim como a publicação do jornal A Voz da Raça” (DOMINGUES, 2007, p. 106).

Em 1936, a FNB se tornou um partido político. Na ocasião membros do grupo conseguiram uma audiência pública com o presidente Getúlio Vargas e tiveram algumas de suas reivindicações atendidas. Segundo Moura (1992), foi o movimento que mais profundamente marcou a consciência do negro, não apenas em São Paulo, mas também em outros Estados, e “elevou o nível de tomada de consciência de sua identidade étnica” (1992, p. 71).

Da segunda fase do Movimento Negro, definida por Domingues como o período entre 1945 e 1964, podemos destacar o surgimento da União dos Homens de Cor (UHC). Essa entidade tinha objetivos diferentes das anteriores, como relata Domingues: “Já no primeiro artigo do estatuto, a entidade declarava que sua finalidade central era ‘elevar o

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nível econômico, e intelectual das pessoas de cor em todo o território nacional’” (DOMINGUES, 2007, p. 108).

Outro movimento negro importante que nasceu na mesma época (1944) foi o Teatro Experimental do Negro (TEN). Liderado por Abdias do Nascimento, que desenvolveu o conceito contemporâneo de quilombagem, seu objetivo inicial era ser um grupo de teatro somente com atores negros. O grupo ampliou seus objetivos e “publicou o jornal Quilombo; passou a oferecer curso de alfabetização, de corte e costura; fundou o Instituto Nacional do Negro, o Museu do Negro” (Ibidem, 2007, p. 108). Tinha como influência os pensamentos do Movimento Negro francês que, mais tarde, serviu de base para o movimento de libertação dos países africanos. A intenção era propor, em suas atividades, “um conteúdo de elite cultural negra. Sob sua influência foi convocada a Conferência Nacional do Negro, em 1949.” (MOURA, 1992, p. 75.)

A Imprensa Negra sempre esteve em atividade “com a publicação de diversos jornais de protesto pelo país. Em São Paulo, surgiram o Alvorada (1945), O Novo Horizonte (1946), Notícias de Ébano (1957), O Mutirão (1958), Níger (1960); em Curitiba, o União (1947); no Rio de Janeiro, o Redenção (1950) e A Voz da Negritude (1952). Registrou-se, ainda, o aparecimento da revista Senzala (1946), em São Paulo” (DOMINGUES, 2007, p. 110).

Mesmo com os retrocessos da época, o movimento negro logrou uma conquista: o racismo sofrido por uma bailarina negra norte-americana se tornou um escândalo, o que fez ser aprovada pelo Congresso Nacional, em 1951, a lei batizada de Afonso Arinos (Lei 1390/51, de 3 de julho de 1951) – primeira lei antidiscriminação do país, que passou a punir estabelecimentos comerciais que se recusassem a atender pessoas por preconceito de raça ou cor.

Após 1964, com a instauração da ditadura militar, o TEN e o UHC, assim como diversos movimentos sociais, foram obrigados a interromperem suas atividades pela opressão da ditadura civil-militar. Abdias do Nascimento teve que se exilar em 1968 e, com isso, o Teatro Experimental do Negro quase foi extinto. Durante todo o período do regime militar, os movimentos negros foram impedidos de atuar e, muitas vezes, até acusados de criarem um problema que não existia: o racismo no Brasil.

O que o autor chama de terceira fase do movimento negro é o período empreendido entre 1978 e 2000. Um novo avanço das ações dos movimentos negros só pôde ser visto no fim da década de 1970. Nesse período, diversos grupos começaram a se rearticular e

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pautas continuaram sendo desenvolvidas em torno dos assuntos que tratavam da discriminação racial da população negra e a miséria em que essa população vivia.

Tais articulações resultaram na criação do Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial (MUCDR). O grupo solicitava, em seu programa de ação inicial, que os negros formassem “‘Centros de Luta’ nos bairros, nas vilas, nas prisões, nos terreiros de candomblé e umbanda, nos locais de trabalho e nas escolas, a fim de organizar a peleja contra a opressão racial, a violência policial, o desemprego, o subemprego e a marginalização da população negra” (DOMINGUES, 2007, p. 114).

As discriminações sofridas por jovens em um clube da cidade de São Paulo e a tortura seguida de morte impingida a Robson Silveira da Luz, trabalhador e pai de família negro, foram o estopim para que o grupo organizasse um ato público. No dia 7 de julho de 1978, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, o MUCDRreuniu cerca de duas mil pessoas, ocasião que marca o lançamento público9 do MNU (Movimento Negro

Unificado).

(...) Em 7 de julho de 1978, surge na frente das escadarias do Teatro Municipal de São Paulo o Movimento Negro Unificado, que naquele momento convoca os Negros e Negras e a população em geral a Reagir à Violência Racial à qual estávamos submetidos (sic). Havia naquele momento um silêncio por conta do Período de Ditadura Militar, mesmo assim negros que encamparam o espírito de Zumbi dos Palmares, Steve Biko, Malcom X, Nzinga, Dandara, Acotirene, Luiza Mahin e tantos outros Líderes do Povo Negro no Brasil e no mundo, não silenciaram.

Tomaram as ruas e fizeram ecoar seu grito: denunciaram a tortura e o assassinato de Robson Silveira da Luz, no 44˚ Distrito Policial de Guaianazes, além da discriminação racial que sofreram jovens negros do Clube de Regatas Tietê. ( https://www.geledes.org.br/mnu-as-lutas-e-bandeiras-ainda-sao-as-mesmas-de-1978/, acessado em 8 de junho de 2019).

No mesmo mês, aconteceu a 1ª Assembleia Nacional de Organização e Estruturação da entidade, em cuja ocasião a palavra “Negro” foi adicionada ao nome do MUCDR, que passou a se chamar Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR), tendo o nome sido reduzido mais tarde para Movimento Negro Unificado (MNU), uma vez que as ações do movimento visavam, prioritariamente, o combate à discriminação racial.

Já em 1982, o Programa de Ação do MNU elaborava ainda outras reivindicações, sendo que algumas delas fizeram parte das discussões para a composição do texto da

9 De acordo com o website oficial do MNU, a fundação do movimento ocorreu em 18 de junho de 1978, mas

o lançamento público do movimento se deu em 7 de julho do mesmo ano em vista da convocação para o referido protesto.

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Constituição de 1988, como, por exemplo, a luta pela introdução da História da África e do Negro no Brasil nos currículos escolares.

A palavra de ordem desse movimento era o “negro no poder”; diversas ações de contestação da situação vigente e a denúncia da discriminação eram pautas constantes. “O culto da Mãe Preta, visto como símbolo da passividade do negro, passou a ser execrado. O 13 de Maio (...) transformou-se em Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo. A data de celebração do MNU passou a ser o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares” (DOMINGUES, 2007, p. 115). Mais recentemente, o 20 de novembro foi alçado ao Dia Nacional de Consciência Negra, com decretação de feriado em algumas cidades brasileiras, para proporcionar discussão das questões raciais do país e dar-lhes visibilidade. “A partir daí, várias outras opções de militantes agiram no Brasil inteiro e atualmente reivindicam o fim do racismo e da exploração econômica, social e cultural do negro.” (MOURA, 1992, p. 79)

O termo “negro” deixou de ser considerado pejorativo pelos ativistas e se tornou uma palavra de orgulho para designar os descendentes de africanos e escravizados no país, criando assim uma identidade comum entre os negros.

Nessa terceira fase, a Imprensa Negra voltou à ativa e diversas publicações, entre jornais e revistas, entraram em circulação no país: “SINBA (1977), Africus (1982), Nizinga (1984), no Rio de Janeiro; Jornegro (1978), O Saci (1978), Abertura (1978), Vissungo (1979), em São Paulo; Pixaim (1979), em São José dos Campos/SP; Quilombo (1980), em Piracicaba/SP; Nêgo (1981), em Salvador/BA; Tição (1977), no Rio Grande do Sul, além da revista Ébano (1980), em São Paulo” (DOMINGUES, 2007, p. 114). Aqui já se percebe que a Imprensa Negra, desde o período pós-libertação, mostrou-se um meio potente de comunicação da população negra, com foco principalmente nas denúncias de discriminação racial – ação essencial, já que a lei que classifica o racismo como crime inafiançável, punível com prisão, só passou a existir em 1989.

No processo de lutas sociais para derrotar a ditadura civil-militar e redemocratizar o país, houve uma crescente mobilização social pela retomada dos direitos civis e políticos e demandas por maior justiça social. A temática das desigualdades sociais, naquilo que Jaccoud (2008) chamou de “ideia-força”, se firma. O movimento negro também se reorganizou e trouxe para o debate o tema da discriminação racial e da valorização da cultura negra. É também nesse contexto que, na esfera federal, se dá a criação da Fundação Cultural Palmares – FCP, em 1988, vinculada ao Ministério da Cultura – um importante órgão para o reconhecimento de terras quilombolas no país.

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O combate à pobreza, a promoção da democracia, a participação nas decisões do país e o acesso aos direitos sociais davam o tom dos debates que antecederam a criação da Constituição de 1988 – pautas essas que vislumbravam o desenvolvimento econômico e social do país. Nesse mesmo contexto, o negro é associado a uma condição de miséria, “o enfrentamento das condições de pobreza e a oferta de melhores condições de educação, de trabalho e de cidadania definem uma pauta importante das demandas do Movimento Negro” (JACCOUD, 2008, p. 57).

O texto aprovado na Constituição de 1988 garantiu muitos avanços no que diz respeito às reivindicações da época e ao desenvolvimento social do país, como a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Assistência Social, a gratuidade e obrigatoriedade do ensino fundamental, e a ampliação dos direitos previdenciários com a Previdência Rural. Após 100 anos da Abolição da escravatura, em 1988 foi possível considerar que algumas demandas do Movimento Negro estavam sendo acolhidas pelas esferas governamentais do país. O fato de o racismo passar a ser considerado crime inafiançável e imprescritível ajudou a evidenciar e a desnaturalizar a discriminação experimentada pelo povo preto no país. No ano seguinte, a chamada Lei Caó, que “definia como crimes de preconceito as ações que impedissem ou dificultassem o acesso ou o atendimento em espaços públicos, comerciais e a empregos, em função da cor ou raça, determinando penas de reclusão para os diversos casos que tipifica” (Ibidem, p. 139), veio para reforçar as determinações constitucionais. Uma terceira geração de políticas nesse mesmo sentido surgiu nos anos de 1990, como, por exemplo, a criação de delegacias especializadas em crimes raciais, a primeira das quais tendo sido inaugurada em 1991, no Rio de Janeiro.

A quarta fase do Movimento Negro descrita por Domingues trata dos acontecimentos posteriores ao ano 2000 até o ano de publicação do texto (2007). O autor dá destaque apenas para o surgimento da cultura hip-hop, que, em suas letras, expressa as mazelas vividas pelo povo negro nas periferias do país. Junto com esse movimento, o orgulho de ser negro foi estampado em camisetas com a frase “100% Negro”.

Mas podemos igualmente salientar a participação do Brasil na III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, promovida pela ONU em Durban, na África do Sul, em 2001, que fez efervescer a visão do atraso em que o país ainda se encontrava. As reflexões promovidas pela Conferência resultaram na criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – Seppir, em 2003, e, desde então, ações efetivas, de âmbito nacional, com foco no combate ao preconceito e à discriminação, começaram a ser planejadas, bem

Referências

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