Afeto
Quilombo, para mim, é o espaço onde eu posso ser negra; e poder ser negra, ser eu, em um espaço, não é pouco, pois não é em todos os espaços que isso me é permitido. Inicio este capítulo falando de territórios ou espaços de afetos, termo que até pouco tempo eu desconhecia, mas já sentia na pele.
Compreendi o que implica ser negra na nossa sociedade por volta dos 16 anos, quando comecei a frequentar o cursinho pré-vestibular da Educafro, destinado a afrodescendentes e pessoas de baixa renda. Dentre as aulas que nos preparavam para o vestibular, havia a aula de Cidadania, onde aprendi o que era racismo e entendi que muitas das situações que eu passei, oportunidades que perdi – e cuja culpa atribuí à minha falta de capacidade de ser melhor, não eram necessariamente culpa minha, e, sim, do racismo estrutural que permeia a sociedade.
Convivi a vida inteira com pessoas brancas, no bairro, na escola, nas festas. Eu não me achava uma pessoa branca, mas também não questionava por que não havia mais negros ali e porque me tratavam por diferente. Mesmo tendo acesso a músicas como as dos Racionais MCs, e considerando o que eles relatavam um retrato cruel e revoltante da sociedade, eu não conseguia fazer um paralelo direto das músicas com a minha vida, pois o cenário cantado por eles não fazia parte do meu cotidiano. Por um lado, os privilégios que tive na minha infância e adolescência foram excelentes para que eu tenha hoje condições de escrever estas linhas; mas, por outro lado, me alienaram quanto a fenômenos sociais racistas que permeiam a vida de uma criança ou uma jovem negra – o que não me deu oportunidade nem de me defender, nem de me revoltar. Essa minha vivência não é uma experiência isolada, e, sim, parte da estrutura social em que vivemos, como pontuam os autores de Racismo Preconceito e Intolerância:
Entretanto, como todos sabemos, o racismo não desapareceu, e hoje se expressa de duas formas interligadas: individualmente e institucionalmente.
No primeiro caso, manifesta-se por meio de atos discriminatórios perpetrados por indivíduos contra indivíduos; podem atingir níveis extremos de violência, como agressões, destruição de bens ou propriedades e assassinatos.
A segunda forma implica práticas discriminatórias sistemáticas fomentadas pelo Estado ou com o seu apoio implícito. Elas se manifestam sob a forma de segregação no espaço urbano, particularmente na escola e no mercado de trabalho. Manifestam-se também em manuais escolares, livros filmes e novelas de televisão que retratam de maneira inadequada as minorias étnicas ou os
grupos raciais menosprezados. (BORGES, MEDEIROS, ADESKY, 2002, p. 49)
O fato de eu não ter conhecimento quanto ao racismo na minha vida, e de meus pais não tocarem no assunto dentro de casa, não me privou de passar por situações constrangedoras, de provar do racismo na pele, de viver a solidão da mulher negra. O que acontece nesses casos como o meu é que atribuímos tais acontecimentos a uma suposta incapacidade de ser melhor, de ser mais inteligente, mais habilidosa, mais bonita, mais popular, entre outros requisitos que fazem parte do sucesso de uma adolescente. E isso tudo destrói a autoestima e nossa capacidade de enxergar que somos muito mais do que os limites que nos são impostos por outras pessoas.
Quando, enfim, descobri os efeitos do racismo na sociedade, e que eu havia sofrido com o racismo minha vida inteira sem me dar conta, isso me causou muita angústia e, então, me afastei de muita gente que não me fazia bem. Também comecei a ver as situações do cotidiano com outro olhar.
Doeu quando tive que avisar à colega de trabalho que, quando ela dizia que um professor branco havia feito uma “negrice” ao rabiscar o plano de aula, era racismo e ela não devia usar aquele termo. Doeu quando tive que denunciar ao RH que um colega de trabalho fazia piadas racistas cotidianamente. Neste último caso, ele foi demitido. Ocorridos como esses haviam passado desapercebidos por mim até então e, por isso, não tive a oportunidade de me indignar, de me defender, nem de alertar as pessoas sobre seus atos racistas. Portanto, acredito que é muito importante falarmos de racismo com as nossas crianças e frequentarmos, desde pequenos, espaços que exaltem a nossa cultura, a nossa história e, principalmente, nossa autoestima.
[E foi lá que eu comecei] a me soltar mais, e a ressignificar algumas coisas, “enquanto mulher preta”, como você colocou. Por exemplo, essa questão da solidão, que é tão debatida, a “solidão da mulher preta”... mas o que é solidão? No mundo Ocidental, onde a gente vive, o que é solidão? É algo ruim? É algo bom, nesta conjuntura? Enfim...! Eu vivo sozinha com meu filho e, neste momento, estou bem! Teve momentos em que isso, para mim, era péssimo; eu ficava pensando: “meus Deus, vou morrer sozinha?” E, hoje, se eu morrer sozinha, “O.K.”. Estou muito bem mesmo! Esse foi um dos temas que já foi abordado, e foi uma ressignificação, me “curou”. Claro que eu passei por uma psicoterapia também, foram dois anos de terapia. Não foi a psicoterapia oferecida pelo Terça, porque esse serviço é recente; foi uma terapia com um psicólogo do AMMA Psiqué14. E também essa descoberta do [tema do]
autocuidado – enquanto mãe, inclusive, enquanto mãe solteira, de cuidar do outro, estar sempre ali, à disposição; mas, se não estou bem, como vou cuidar de
14 O Instituto AMMA Psiqué e Negritude é uma organização não governamental cuja atuação é pautada pela
convicção de que o enfrentamento do racismo, da discriminação e do preconceito se faz necessariamente por duas vias: politicamente e psiquicamente.
você? Então, trazer primeiro esse autocuidado. E aí, fui ressignificando várias coisas. (FQTA1)
O fato é que, quando descobrimos que a sociedade é racista e que sofremos racismo, independentemente de como agimos na sociedade, o nosso olhar para o mundo muda e torna-se desconfortável viver e circular nos espaços. Nunca mais assimilei da mesma forma o olhar que as pessoas me lançam nos espaços que frequento.
A importância de um espaço onde cada pessoa possa se expressar e desenvolver suas potencialidades é um desejo de muita gente. A referência do Quilombo marca mais esse sonho. Existem vários quilombos: um Quilombo real, um quilombo imaginário, um quilombo jurídico, um Quilombo antepassado e um quilombo porvir. Todos convivem e nos instigam a seguir pensando sobre o tema, em busca de novas experiências para tentar responder a nossas inquietações e desafios. (Programa VAI: Quilombos Urbanos – Semeando em concreto, http://spcultura.prefeitura.sp.gov.br/projeto/1336/; acessado em 16 de fevereiro de 2018.)
Relatei minha experiência para dizer que não me sinto confortável em todos os espaços – na verdade, na maioria deles. Os territórios de afeto existem para ampliar um pouco esse conforto com os nossos corpos, vestimentas, cabelos, comportamento:
[O Quilombo Terça Afro] é um ambiente em que me sinto acolhida, em que me sinto bem; é um lugar em que eu me sinto à vontade para falar – eu sou muito tímida para falar, e ali eu me sinto à vontade (...) É justamente por eu ver os meus iguais ali, é por isso que eu me sinto à vontade. Até mesmo o olhar: eu vejo aquele olhar de irmandade. Não é aquele olhar de avaliação, de julgamento. Pelo menos eu nunca percebi isso com ninguém. Acho que é isso, essa acolhida que eu sinto no olhar, desde a chegada até a hora de ir embora. (FQTA1)
O termo “territórios de afetos” me foi apresentado pelos integrantes do quilombo Terça Afro em meu primeiro contato presencial com o coletivo. Após esse momento, fiquei atenta para encontrar mais sobre o tema. E na programação do V Quem Tem Cor Age15 – promovido pelo Núcleo de Consciência Negra da Unicamp, que vem discutindo, em todas as suas edições, os efeitos do racismo na sociedade brasileira – houve uma mesa com o tema “Espaços de afetos”. Nessa ocasião, entendi o que são esses espaços, como eles são essenciais em nossas vidas e como, fora deles, nos sentimos desconfortáveis. Os quilombos Aparelha Luzia e Terça Afro são espaços que proporcionam esse conforto de que nos fala hook:
E num contexto de pobreza, quando a luta pela sobrevivência se faz necessária, é possível encontrar espaços para amar e brincar, para se expressar criatividade, para se receber carinho e atenção. Aquele tipo de carinho que alimenta corações, mentes e também estômagos. No nosso processo de resistência coletiva é tão importante atender as necessidades emocionais quanto materiais. (HOOKS, 2010.)
15 Evento organizado pelo Núcleo de Consciência Negra da Unicamp e realizado de 15 a 18 de outubro de
2018. Informações disponíveis em https://www.facebook.com/events/889566601241839/; acessado em 5 de janeiro de 2019.
Uma das vivências que fiz para sentir ainda mais intensificada a importância desses espaços e o conceito de territórios de afeto foi utilizar um turbante colorido em espaços que não são os de afeto para as pessoas negras. Nunca havia usado um turbante em lugares em que não me sentia segura, mas, até então, não tinha me dado conta de que eu escolhia lugares para usar esse símbolo da cultura africana e afro-brasileira. Nesse dia, num bar de temática medieval, senti ainda mais insistente os olhares para a minha presença – e isso é normal, pois é uma imponente amarração, incomum, principalmente naquele lugar.
Figura 1: Eu, de cabeça coberta, no bar Milord Taverna em Campinas, SP. Crédito: arquivo pessoal.
Mas o que mais me chamou a atenção foi a rigidez do meu corpo, a minha tensão. Um colega que estava no local veio me abordar e eu fiquei muito assustada quando ele veio por trás de mim e pousou sua mão sobre meu ombro. Eu olhei para ele por alguns segundos e não o reconheci. Meu coração ficou acelerado e eu fiquei com o corpo rígido: era medo. Medo de ser discriminada em local público, medo ser julgada por estar usando um turbante, medo de estar em um espaço onde “não era para eu estar” – e esse sentimento não permeia somente os meus pensamentos, mas de muitos que deixam de se vestir como gostariam ou de usar o cabelo na sua forma natural. Esse medo não me acompanhou somente naquele lugar; ele está comigo em muitos outros espaços, menos nos espaços de afeto, onde a minha cultura, minha história e minha ancestralidade são enaltecidas. Os espaços dos velhos quilombos agora se reconfiguram nos novos quilombos estudados aqui:
Os velhos quilombos viraram os quartéis- generais da cultura africana. Com o fim da escravidão, os quilombos urbanos não desapareceram da paisagem das cidades. Só se transformaram. Segundo a urbanista Raquel Rolnik, do Ministério das Cidades, os antigos redutos de resistência à escravidão viraram “territórios negros”, onde as tradições herdadas dos africanos floresceram. Manifestações como a
É uma visão de mundo, é uma construção de um projeto político de vida. Então, o afeto ele também... com tanta dor que essa grande estrutura do racismo impõe sobre os nossos corpos, o afeto é uma forma de revolucionar, o acolher é uma forma de transformar, é uma contrarresposta, é uma forma de contra-ataque. Mas isso não é novo! Por isso que o Aparelha é importante, ele nos remete a algo que é ancestral,
capoeira, o batuque, as danças de roda e o culto aos orixás, práticas malvistas pela sociedade, encontraram nesses locais um porto seguro. “A organização espacial do terreiro, da família matriarcal, unicelular, era vista pelas autoridades como cortiços que precisavam ser eliminados. Os espaços dos quilombos continuaram sendo estigmatizados”, diz Rolnik. (CASTRO, 2009)
algo que o Quilombo dos Palmares, que talvez seja o quilombo a que a gente mais se remeta, mas que não foi o único, já fazia – no sentido de acolher, de construir estratégias. Essas estratégias, elas são de guerra, dizem respeito à artilharia, mas elas dizem também sobre o viver, como vamos nos organizar, como vamos nos tratar. Porque também é sobre isso, né?! (FQAL2)
Relatei essa experiência para afirmar que os espaços de afeto são importantes para que nosso corpo se sinta leve. Não tem só relação com as pessoas, com os olhares, com o racismo, mas também com o nosso conforto. Ao colocar um turbante, aumentei o grau de tensão, mas essa tensão existe no cotidiano nos espaços que frequento fora da minha casa e que não são espaços de afeto negro. O corpo enrijece, pela consciência de que:
Os brancos ricos não estão acostumados a conviver com negros de igual para igual nesses ambientes e alguns reagem a isso externando o seu racismo.
Há um velho ditado que diz que “no Brasil não existe racismo porque o negro conhece o seu lugar”. Que lugar seria esse? O dos pobres e dos humildes. Sempre que um negro entra num lugar que se imagina ser exclusivo dos brancos, ocorre, no mínimo, um estranhamento: “Que é que esse negro está fazendo aqui? Será um artista ou um jogador de futebol? Ou será apenas um preto que não conhece o seu lugar?”. (BORGES; MEDEIROS; ADESKY; 2002, p. 67)
Para além das consequências que o racismo ao qual somos submetidos tem sobre nossa forma de estar no mundo, não podemos nos esquecer que somos descendentes de escravizadas e que, por séculos, nossos antepassados sobreviveram a torturas e maus tratos, o que deixou sequelas em nossa forma de dar e receber afeto.
Uma vida dura, desprovida de reconhecimento e afeto torna as relações enrijecidas. Por muito tempo, a preocupação em simplesmente sobreviver ou colocar comida na mesa se sobrepôs e, de certa forma, oprimiu a afetividade.
Muitos negros foram criados e cresceram aprendendo a reprimir seus sentimentos. Isso causou na população negra marcas emocionais gigantescas. Na época da escravidão no país, e por muito tempo após seu fim, em vez de amor, carinho e afetividade, os negros deviam cultivar força, resistência e a capacidade de atropelar os sentimentos em prol da sobrevivência.
As mulheres negras que escolhem (e aqui enfatizo a palavra “escolhem”) praticar a arte e o ato de amar devem dedicar tempo e energia expressando seu amor para outras pessoas negras, conhecidas ou não. Numa sociedade racista, capitalista e patriarcal, os negros não recebem muito amor. E é importante para nós, que estamos passando por um processo de descolonização, perceber como outras pessoas negras respondem ao sentir nosso carinho e amor. Outro dia minha amiga T. me contou que faz questão de visitar e conversar com o senhor de idade que trabalha numa loja perto de sua casa. E recentemente ele expressou sua gratidão pelo carinho que recebe dela. Anos atrás, quando ela passava por um processo de autodestruição, não tinha “vontade” de mostrar seu carinho. Hoje
ela passa para ele o mesmo carinho que espera receber de outras pessoas. (HOOKS, 2010)
Os espaços e territórios de afeto têm, ainda, a capacidade de abrigar um espaço- tempo para construirmos essa afetividade. Como canta Dona Ivone Lara em Sorriso Negro, “um sorriso negro, um abraço negro, traz felicidade”. Tais espaços proporcionam essa afetividade e têm o desafio de buscar ensinar aos que os frequentam como transportar essa afetividade para a vida cotidiana.
Talvez eu esteja romantizando, mas eu acho que essa questão é importante, que não é classe, é raça! Mas isso tudo são abstrações, sabe? Aqui é um território de afeto. Acho que a importância é por ser um território de afeto preto. (...) É um território político, é um território cultural, mas é um território de afeto, em que a gente se encontra, a gente se olha, se observa. Se afrocentra, né? Principalmente! (CQAL2)
Outra importante função desses espaços é o de dar a oportunidade de protagonismo e a palavra às pessoas negras. Na sociedade em geral, as pessoas negras estão sempre em segundo plano; aos brancos é que estão reservados o protagonismo, o pensamento, o conhecimento, e as oportunidades.
Em seu livro O que é lugar de fala, Djamila Ribeiro afirma a produção de conhecimento de autoria negra e assevera sua falta de reconhecimento como epistemologias válidas nos lugares de produção de conhecimento e divulgação de informação, como universidades e mídia:
Essas experiências comuns resultantes do lugar social que ocupam impedem que a população negra acesse certos espaços. É aí que entendemos que é possível falar de lugar de fala a partir do feminist standpoint16: não poder acessar certos
espaços acarreta não ter produções e epistemologias desses grupos nesses espaços; não poder estar de forma justa nas universidades, meios de comunicação, política institucional, por exemplo; impossibilita que as vozes dos indivíduos desses grupos sejam catalogadas, ouvidas, inclusive, até, de quem mais acessa a internet. O falar não se restringe ao ato de emitir palavras, mas de poder existir. Pensamos lugar de fala como refutar a historiografia tradicional e a hierarquização de saberes consequente da hierarquia social. (RIBEIRO, 2017, p. 64)
Ter permissão para falar, para expressar os pensamentos, poder compartilhar suas vivências, falar das questões que envolvem o racismo e os traumas causados por ele, enaltecer a produção de conhecimento de pessoas negras, assim como a cultura, a história, a identidade e a ancestralidade afro-brasileira – isto tudo deveria estar em toda parte franqueado sem embaraços à população negra, mas não é o que acontece. Devido ao preconceito e à discriminação sofrida, a população negra aprendeu a falar sobre suas questões e expressar suas angústias em lugares seguros, onde não será ridicularizada, onde sua fé, suas danças, vestimentas, cabelos e formas de ser não serão julgadas inferiores. Por
existirem espaços seguros como os territórios de afeto, essa genuína expressão de quem somos têm encontrado brechas para florescer e se afirmar:
Eu vou ter que usar a frase do Terça, (...) um território de afetos. Eu acredito muito na potencialidade daquele espaço, que é acolhedor, é um aconchego, questionador... e também dolorido, porque a gente começa a ter alguns outros questionamentos... essas descobertas. E juntos, coletivamente, eu acho que [o espaço] traz força; potencializa a gente e um vai puxando o outro – quando é dolorido, tem outro ali pra [gente] se apoiar, né? E eu acho muito potente esse nome, território de afetos! É isso, é muito agregador. (FQTA1)
Entendo, então, território ou espaços de afeto como lugares onde um corpo negro não é previamente julgado pejorativamente pela cor da pele que possui. E que pessoas negras se sintam confortáveis como são, com suas roupas, cabelos e forma de ser no mundo, e que, principalmente, possam se expressar, viver a negritude e a ancestralidade negra sem ressalvas.
“Quilombo”, para mim, é o que era na minha infância, quando eu ia ou para a casa da família – mas aí eu coloco o “quilombo-aldeia”17... eu coloco “quilombo-
aldeia” porque é onde você tem o “bença, vó”, “bença, tia”, você tem a comida farta, porque isso é muito nosso. É onde você ouve nossas músicas – mesmo na adolescência, quando você não quer ouvir aquilo... eu tenho essa questão de referência, da música. A música sempre esteve na minha vida.. E aí, isso é quilombo. Quando eu fui para a favela [morar], “opa!”, eu saí de um bairro que é Casa Grande total, o Planalto Paulista18, quando saio de lá e vou para a favela,
estou vivenciando o quilombo. E aí eu vivencio relações afetivas, as minhas amigas... relações de diferença mesmo. Então, quilombo, pra mim, é essa junção – “quilombo-aldeia” – é essa junção dos nossos, de estarmos conectados com os nossos, de vivenciar as dores, a afetividade, o cuidado. (...) Mas então, isso é um quilombo, quando eu estou no Aparelha Luzia, eu estou aquilombado mesmo! (...) Quando estou na minha companhia de teatro, não tenho isso. Por mais que seja um lugar que eu goste, em que preciso estar, eu não sinto esse quilombo. Onde eu me sinto aquilombado é (...) aqui no Aparelha”. (FQAL1)
Um lugar onde o afeto é compartilhado, onde essas pessoas podem compartilhar conhecimento e serem protagonista das ações. Lançando o olhar para além dos quilombos que constituem o objeto de estudo desta pesquisa, podemos citar como espaços de afeto para a população negra as escolas de samba, os terreiros de religiões de matriz africana, os diversos quilombos urbanos existentes na cidade de São Paulo que valorizam a cultura negra e dão ao negro protagonismo e evidência. Meu desejo é que possamos construir mais espaços como os que abordo nesta dissertação, que espaços de trocas, “em que muitas dimensões que estão na composição do ser negra ou negro no Brasil, na diáspora ou no continente africano, possam encontrar no projeto [territórios de afeto] um espaço em que o
17 O entrevistado é descendente de negros e indígenas brasileiros.