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A comunicação pode se dar de muitas formas, e pode causar diferentes compreensões, ações e reações nas pessoas. Neste capítulo, pretendo apresentar algumas experiências de comunicação que me transformaram. E, já de início, vou relatar uma experiência muito pessoal.

Minha tia/madrinha completou 60 anos em agosto de 2018 e, para celebrar, fez uma festa de aniversário à altura. A família toda estava presente e o tema da comemoração foi “Orixás”. Eu nunca imaginei que pudéssemos chegar nesse momento em que nossa ancestralidade seria tema de festa, ainda mais na minha família.

No bolo de aniversário, havia elementos como espada e machados, característicos de alguns orixás, como Ogum e Xangô. Como lembrancinha da festa, cada um recebeu um chaveiro de bonequinha abayomi29 – cada uma representava um orixá. Dentro do saquinho, havia o chaveiro e um papelzinho contando a história das bonecas abayomi e especificando as características do orixá representado pela bonequinha correspondente.

Figura 20 e Figura 21: Fotos da lembrancinha de aniversário de 60 anos da minha tia. Crédito: arquivo pessoal.

29 Para acalentar seus filhos durante as terríveis viagens a bordo dos tumbeiros – navio de pequeno porte que

realizava o transporte de escravos entre África e Brasil – as mães africanas rasgavam retalhos de suas saias e, com eles, criavam pequenas bonecas, feitas de tranças ou nós, que serviam como amuleto de proteção. As bonecas, símbolo de resistência, ficaram conhecidas como abayomi, termo que significa “encontro precioso” em iorubá – língua de uma das maiores etnias do continente africano, cuja população habita parte da Nigéria, Benin, Togo e Costa do Marfim. Fonte: http://www.afreaka.com.br/notas/bonecas-abayomi-simbolo-de- resistencia-tradicao-e-poder-feminino/; acessado em 25 de maio de 2019.

Ter contato com a minha cultura ancestral de forma tão leve, divertida e lúdica foi um grande aprendizado. Fiquei muito confortável naquela festa. Ter tido contato com os elementos que minha tia expôs na festa, e ter familiaridade com eles, me deu imensa alegria, já que, até pouco tempo atrás, eu não compreenderia a importância daquele tema e até trataria tudo aquilo com muito preconceito e vergonha.

Vivenciar algumas experiências que relato no decorrer desse capítulo foram de extrema importância para a minha formação como mulher negra, possuidora de uma memória ancestral, da qual hoje me orgulho. As manifestações artísticas compartilhadas aqui são verdadeiros atos de resistência que comunicam para contagiar aqueles que se abrem para elas.

Por uma outra comunicação

O campo da comunicação é central neste trabalho. Esta pesquisa trata, porém, de uma outra comunicação; portanto, é preciso delimitar o que é comunicação e em quais de suas áreas poderíamos enquadrar as experiências vivenciadas nos quilombos aqui analisados.

A palavra comunicação tem como raiz a palavra latina communis, de onde se originou o termo comum em nosso idioma. Communis significa pertencente a

todos ou a muitos. Do mesmo desdobramento latino surge a palavra comunicare,

origem de comungar e comunicar. Ainda no latim, em outro vértice de significado, chegamos a comunicatio-onis que indica a ideia de tornar comum. (CUNHA, 1999, p. 195)

Segundo Jakobson (2003, p. 18), para que haja comunicação, ou seja, para que seja possível “tornar comum”, é preciso que os seguintes elementos estejam presentes: emissor; receptor; mensagem; meio, que também pode ser chamado de canal ou mídia; e código. O emissor é aquele que inicia a comunicação, emitindo a mensagem. A mensagem, por sua vez, é o conteúdo a ser emitido. O código é o signo (palavras/imagens) compartilhado pelo emissor e pelo receptor. O meio é o veículo da mensagem. E o receptor é quem recebe a mensagem.

Esquema comunicacional de Jakobson (2003, p. 122).

Apesar de considerar os elementos desse esquema clássico de interpretação e descrição do processo comunicacional, o interesse da pesquisa e os elementos analisados serão outros que nem sempre estão aparentes ou são considerados nesses enfoques clássicos.

Não abordo aqui a comunicação publicitária desses espaços, voltada para o mercado. Porém, é importante dizer que os dois quilombos utilizam os meios digitais para divulgar suas programações, mas não será desse aspecto que iremos tratar. “Comunicar para (r)existir”, aqui, tem outro enfoque.

Dentro do comunicar para (r)existir a atenção não está voltada à análise de como esses espaços atuam para atrair mais frequentadores, nem para a chamada comunicação midiática, que envolve os meios de comunicação de massa, como TV, rádio, jornais, revistas etc., ou como esses quilombos são abordados por essas mídias, apesar de ter observar que os dois espaços já circularam pontualmente por esses canais. Também não tem como foco a atuação desses quilombos nas mídias sociais ou a divulgação nos meios digitais, isso porque, como trabalho cotidianamente com os meios digitais e com marketing digital, compreendo que a divulgação realizada por esses meios passa por várias camadas, como, por exemplo, os algoritmos, o que impede que uma análise profunda e concisa possa ser feito nesses a partir desses meio. Consideramos então que os dados fornecidos pelos meios digitais são restritos e muitas vezes duvidosos para se considerar em uma pesquisa acadêmica.

No estudo bibliográfico aprofundado sobre comunicação, o que mais se aproximou dessa ideia de “comunicar para (r)existir” foram os estudos desenvolvidos por Cicilia Peruzzo, no que tange ao termo comunicação popular:

A comunicação popular representa uma forma alternativa de comunicação e tem sua origem nos movimentos populares dos anos de 1970 e 1980, no Brasil e na América Latina como um todo. (...) A comunicação popular foi também denominada de alternativa, participativa, participatória, horizontal, comunitária, dialógica e radical, dependendo do lugar social, do tipo de prática em questão e

EMISSOR

MENSAGEM

RECEPTOR

CÓDIGO CANAL

da percepção dos estudiosos. Porém, o sentido político é o mesmo, ou seja, o fato de tratar-se de uma forma de expressão de segmentos empobrecidos da população, mas em processo de mobilização visando suprir suas necessidades de sobrevivência e de participação política com vistas a estabelecer a justiça social. No entanto, desde o final do século passado passou-se a empregar mais sistematicamente, no Brasil, a expressão comunicação comunitária para designar este mesmo tipo de comunicação, ou seja, seu sentido menos politizado. (PERUZZO, 2009, p. 47)

Por se tratar, na perspectiva dos teóricos, de uma prática que “implica a quebra da lógica da dominação e se dá não a partir de cima, mas a partir do povo, compartilhando dentro do possível seus próprios códigos” (GIMENEZ, 1979, p. 60) é que se buscou compreender mais a fundo como se dá a comunicação popular e suas variações. Nessa perspectiva, essa nomenclatura, principalmente no que diz respeito a uma comunicação horizontal, se aproxima um pouco do “comunicar para (r)existir”, já que de camadas populares e negras da cidade de São Paulo é que nascem esses quilombos, e sua prática visa aproximar-se e comunicar-se com seus semelhantes.

Adentramos então a área do jornalismo alternativo para compreender se essa nomenclatura daria conta da comunicação que queremos abordar nesta pesquisa.

O que caracteriza o jornalismo como alternativo é o fato de representar uma opção enquanto fonte de informação, pelo conteúdo que oferece e pelo tipo de abordagem. Mas, como já ressaltado, também os pequenos jornais, boletins informativos e outras formas de comunicação (como panfletos, alto-falantes, carro de som, literatura de cordel, slides etc. – do circuito dos movimentos populares) eram chamados de alternativos pela força do sentido do seu conteúdo, porém, sem dispensar a leitura de jornais convencionais. Em suma, há uma comunicação alternativa no âmbito dos movimentos populares que extrapola jornais e o jornalismo. (PERUZZO, 2009, p. 54)

Apesar deste último conceito empregar canais diversos e diferentes dos tradicionais, fugindo da lógica das mídias de massa para comunicar, ainda não há, para esta pesquisa, um convencimento de que é somente disso que trata essa comunicação.

Retorna-se, assim, a Peruzzo (2009), ao termo popular no que se refere ao “popular- folclórico, abarcando as manifestações culturais tradicionais e genuínas do povo presentes em manifestações de folkcomunicação (literatura de cordel etc.)” (p. 54). Apesar de considerar o termo folclórico reducionista para descrever o todo contexto comunicacional que envolve o objeto de pesquisa investigado - “comunica para (r)existir” nos novos quilombos -, a folkcomunicação permite algumas aproximações teóricas interessantes.

O conceito de folkcomunicação, criado em 1965 por Luiz Beltrão de Andrade Lima (Recife, 1918 – Brasília, 1986) e definido como “o conjunto de procedimentos de intercâmbio de informações, ideias, opiniões e atitudes dos públicos marginalizados urbanos e rurais, através de agentes e de meios direta ou indiretamente ligados ao folclore" (BELTRÃO, 1980, p. 24).

Em seus estudos, Beltrão associou ao conceito de folkcomunicação até manifestações dos primórdios da comunicação, como os desenhos rupestres. Uma pesquisa publicada por estudantes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, UNESP, intitulada Folkcomunicação: análise das influências do conceito desde sua gênese até a contemporaneidade, analisa o conceito de Beltrão da seguinte forma:

Na Folkcomunicação, verifica-se como se processa a difusão de informações na comunicação popular. Nela, o todo é mais do que a soma das partes, pois cada detalhe é importante. Não é possível fazer comunicação popular exclusivamente com equipamentos sofisticados, mas com seres humanos, animais e objetos. Esse modo de comunicação é também essencial ao se estudar a cultura de determinado país, visto que há expressões que só podem ser compreendidas em determinados contextos. Além do que, a língua deve ser estudada a partir de seu espaço social e seu universo simbólico de significações. (FERNANDES; FALCHETTO; VIEIRA; NOGUEIRA e CARVALHO, 2013, p. 5)

Por meio desse conceito, Luiz Beltrão alarga as possibilidades do que se correlaciona à comunicação e associa a esse conceito também “gestos e símbolos (como desenhos no chão, frases dos para-choques, tatuagens etc.).” Logo, esse conceito se aproxima bastante do “comunicar para (r)existir”, já que, segundo Beltrão, é na comunicação interpessoal e grupal que a comunicação informal tem alto poder de persuasão (ibidem, p. 4).

Ou seja, considera-se então, neste trabalho, canais possíveis por onde se opera a forma de “comunicar para (r)existir”: manifestações culturais, manifestações artísticas, deslocamentos, espaços de visitação no território, formas de comunicação tradicionais e digitais, além de tecnologias sociais, comunicações populares e sociais, entre outros diversos formatos de comunicação.

Por meio da compreensão da folkcomunicação, empreende-se uma abordagem ao meio, ou seja, ao canal utilizado pela comunicação, num esforço de continuar expandindo esse ponto de articulação pelo qual se estabelece a comunicação.

Aqui, é possível manter, também, um diálogo com os estudos sobre epistemologia da comunicação para alargar ainda mais o espectro de sua abrangência. Nas avaliações de DINIZ, pode-se classificar a abrangência da comunicação em quatro tendências:

1- Seria restrita a somente objetos midiáticos; 2- Abarcaria objetos midiáticos, mas também outros meios de comunicação, estando, no entanto, cada um em uma categoria distinta de estudos; 3- Possuiria objetos midiáticos ou outros meios de comunicação, com os dois pertencentes ao mesmo núcleo; 4- Estenderia-se a todo o universo, com a comunicação se fazendo presente desde a vida celular, com as trocas existentes entre as estruturas organizativas. (...) [Torna-se] possível verificar que em qualquer uma das tendências apresentadas, a comunicação sempre é um meio ou um veículo através do qual mensagens/informações são passadas. (DINIZ, 2005, p. 6-7)

Apesar de alguns estudiosos da área considerarem a quarta tendência como “afirmações generalizantes, incapacitando a compreensão desse direcionamento e fazendo com que sejam descredenciados ante aos que veem a comunicação como uma necessidade de maior rigor em suas proposições” (ibidem), a visão proposta por este trabalho considera a quarta categoria como a tendência em que se enquadra a comunicação aqui investigada, ou seja, tudo comunica, e não estamos assim banalizando o termo comunicação, mas sim exaltando-a, como também faz Ciro Marcondes Filho:

Comunicação não é qualquer coisa, me disseram os fatos, não é qualquer ocorrência ou qualquer manifestação. Passamos pelo mundo sofrendo a ação de incontáveis sinais, os feixes de luz, som, energias e intensidades. Nem todos nos incomodam, nem todos nos despertam, passamos bem sem eles. Mas o fascínio da vida está exatamente nas coisas que nos desarranjam, que nos retiram da indiferença, que nos obrigam a pensar e a rever nossas posições. Na comunicação.

Assim como na teoria, na vida prática os feixes atravessaram este objeto, o meu corpo, para fazerem notar que, afinal de contas, comunicação é um episódio incomum, especial, um tranco produzido pela contingência do próprio existir. Somos, enquanto objetos, abalados continuamente por outros seres que nos observam, “nos fotografam”, como dizia Bergson, pois, afinal de contas, tudo percepciona... (MARCONDES FILHO, 2016, p. 113)

É com essa comunicação que este trabalho dialoga, com essa comunicação que provoca e faz refletir. Para tanto, vou compartilhar alguns relatos pessoais em que a comunicação me tocou e me fez olhar de outra forma para a minha ancestralidade negra; fez com que eu me conectasse com as minhas raízes afro-brasileiras, compreendesse a minha cultura.

Primeira experiência – ancestralidade indígena

A primeira experiência do “comunicar para (r)existir” que posso relatar foi vivenciada com a tribo indígena Kariri-Xocó30. A aldeia indígena kariri-xocó está localizada no município de Porto Real do Colégio, a 180 quilômetros da capital Maceió, em Alagoas. Segundo a Fundação Nacional do Índio - Funai, lá vivem 2.011 pessoas. No site do órgão governamental, há a demarcação de 699,3580 ha com registro de território regularizado e 4.694,8823 ha com registro apenas de território declarado31.

30 Conheça mais sobre a tribo em http://www.karirixoco.com.br/2006/index.php; acessado em 19 de maio de

2019.

31 Fonte: http://www.funai.gov.br/index.php/indios-no-brasil/terras-indigenas; acessado em 19 de maio de

Com o passar do tempo, os saberes tradicionais são cada vez mais ameaçados em nome da modernização e do progresso; esse é um dos motivos pelo qual comunidades como as indígenas passam constantemente por ameaças em seus territórios. O status quo da ciência como única avalista do conhecimento frequentemente deslegitima os saberes tradicionais, menosprezando e, muitas vezes, banalizando a importância das comunidades tradicionais que os portam e preservam.

A demarcação e regularização das terras de comunidades tradicionais – como indígenas, quilombolas, ribeirinhos, entre outras – é sempre uma pauta que envolve muita batalha no Brasil. Essas comunidades travam lutas constantes com posseiros, fazendeiros, governos e órgãos com diferentes interesses a fim de permanecerem em suas terras, sendo que, para essas comunidades, a permanência no território seja, talvez, a única forma de manter viva e transmitir as tradições e a cultura que receberam de seus ancestrais.

Após décadas de luta para permanência em suas terras, a liderança da comunidade indígena percebeu que a melhor forma de resistir em seu espaço seria comunicar a existência do grupo para fora do território. Com esse objetivo, desde 1997 eles promovem ações para que pessoas de fora da aldeia conheçam a comunidade e todas as dificuldades que enfrentam. Uma dessas ações é o deslocamento de um grupo de integrantes da tribo para outras localidades do país no intuito de cumprir uma agenda de atividades visando tornar a aldeia conhecida para fora de seu território.

Todos os anos, para realizar a viagem, alguns integrantes da tribo Kariri-Xocó são escolhidos para acompanhar o cacique nessa missão. No ano de 2017, eles saíram da aldeia no mês de março e só retornaram no final de abril. Nessa viagem, permaneceram alguns dias na cidade de São Paulo e o restante da jornada na cidade de Campinas, interior de São Paulo. Nessa trajetória, visitaram escolas, centros culturais, universidades, pontos de cultura, entre outros espaços, para se fazerem percebidos e comunicar as lutas e o esforço de resistência dos kariri-xocó. Reunindo-se nesses espaços de encontro, eles contam as histórias da tribo, a forma de vida da comunidade, apresentam o toré32 (um ritual de dança e canto) e falam sobre a importância que o território tem para eles, bem como das dificuldades e ameaças que vêm enfrentando para nele permanecerem.

No mês de abril de 2017, em meio às diversas atividades realizadas pelo grupo em Campinas, tive a oportunidade de conversar com o cacique Pauanã, que liderou o grupo

32 Ouça o Toré e a entrevista completa com o Kacique Pauanã em

nessa missão. Nessa entrevista, ele falou sobre as atividades que realizam, as dificuldades que encontram e como esse deslocamento tem ajudado a comunidade a resistir no território:

Este grupo nasceu na aldeia para fazer um papel de levar a nossa realidade para quem não tem um conhecimento totalmente da gente, porque nós percebemos que na cidade o conhecimento sobre a nossa cultura, a cultura indígena em geral, não é conhecida. Então, nós mostramos a nossa realidade e temos percebido que isso tem melhorado muitas coisas para nós, e também para quem está recebendo, seja em qualquer parte do Brasil e do mundo33.

Esse trabalho de comunicação da tribo, que eles chamam de missão, faz com que mais pessoas conheçam a comunidade e a luta que eles travam. Dessa forma, mais pessoas se unem ao objetivo da comunidade de garantir a demarcação e a permanência no território. Nessas oportunidades de encontro com as pessoas da cidade, eles aproveitam para conscientizá-las sobre a importância da natureza e do convívio harmonioso com ela. Quando vão às escolas, o cacique conta que realizam o que eles chamam de educação patrimonial: “educação na forma de ensinar nossos costumes e deveres e patrimonial ao fazermos com que entendam que somos patrimônio deste país e do mundo” (ibidem).

Ao longo desses deslocamentos, com o passar dos anos o grupo formou uma rede de auxílio e solidariedade. É por meio da união e da colaboração financeira dessas pessoas, consideradas por eles “irmãos e irmãs da tribo”, que essa divulgação se torna possível. Foi saindo da aldeia para buscar ajuda que eles conseguiram apoio para poderem reivindicar as terras que sempre lhes pertenceram. Hoje, eles são conhecidos e recebem apoio e orientação dessa rede para a resistência no território.

Por onde passa, o grupo realiza o que, aqui, denomino de “comunicar para (r)existir”: após uma palestra sobre os saberes indígenas, a educação patrimonial termina com integrantes da tribo convidando a plateia a dar-se as mãos para formar uma roda. Com todos de mãos dadas, eles entoam o toré, um canto forte liderado por uma voz e seguida pelas demais, acompanhado por instrumentos musicais indígenas. Nesse momento, onde todos cantam e dançam de mãos dadas, é que a comunicação se estabelece; nesse exercício de comunicação, a tribo consegue envolver os participantes fisicamente no que significa ser kariri-xocó e no que eles querem comunicar. “Em todos os lugares em que a gente vai levar essa realidade, nós mostramos um pouco do nosso ritual, que são os nossos cantos e

33 A entrevista foi realizada para o trabalho de conclusão da disciplina Tópicos Atuais em Ciência e Cultura,

que tinha como proposta a realização de uma publicação. Como resultado desse trabalho, foi apresentado em sala de aula uma produção “sensorial” por meio de áudio e textual, atualmente disponíveis em

https://paulacomcarol.wordpress.com/2018/04/20/sair-para-permanecer-a-missao-dos-kariri-xoco/; acessado em 5 de maio de 2019.

nossas danças, chamados de toré. É onde as pessoas participam e acabam se encontrando consigo mesmas”, afirmou o cacique.

Por meio dessas ações, a tribo tem resistido em seu território e tem conectado muitas pessoas aos ancestrais indígenas, ensinando danças e canções34.

Figura 22: Grupo da tribo Kariri Xocó durante apresentação no Centro Cultural Casarão, em Barão Geraldo, Campinas – SP, no dia 13 de abril de 2019. Crédito: Ione Cadengue.

Figura 23: Grupo da tribo Kariri Xocó em integração com os participantes durante apresentação no Centro Cultural Casarão, em Barão Geraldo, Campinas – SP, no dia 13 de abril de 2019. Crédito: Ione Cadengue.

34 Veja o vídeo em https://www.facebook.com/watch/?v=944524705690476 (acessado em 30 de maio de

Agora, gostaria de chamar a atenção para o meio pelo qual essa comunicação se estabelece. Mesmo não compreendendo exatamente o código, ou seja, o que eles estão dizendo no canto, a comunicação se estabelece pelo estar de mãos dadas em roda, e a mensagem é transmitida ao acionar a parte indígena que existe dentro de grande parte da população brasileira.

Quando eu ouvi o som do toré pela primeira vez, eu me senti transportada para a

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