UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CAA – CENTRO ACADÊMICO DO AGRESTE
NÚCLEO DE DESIGN
Ariani Andrade Araújo Santos
Projeto de Mobiliário, a partir de encaixe e refugos de madeira
Ariani Andrade Araújo Santos
Projeto de mobiliário a partir de encaixes e refugos de madeira
Monografia apresentada à Universidade Federal de Pernambuco CAA, como pré- requisito para obtenção do título acadêmico de Bacharel em Design.
Professor Manoel Guedes
Catalogação na fonte:
Bibliotecária - Simone Xavier CRB/4-1242
S237p Santos, Ariani Andrade Araújo.
Projeto de mobiliário, a partir de encaixe e refugos de madeira. / Ariani Andrade Araújo Santos. - Caruaru: O Autor, 2015.
90f. il. ; 30 cm.
Orientador: Manoel Guedes Alcoforado Neto
Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso) – Universidade Federal de Pernambuco, CAA, Design, 2015.
Inclui referências bibliográficas
1. Design. 2. Sustentabilidade. 3. Mobiliário. 4. Reaproveitamento (Sobras, refugos, etc.). I. Alcoforado Neto, Manoel Guedes. (Orientador). II. Título
740 CDD (23. ed.) UFPE (CAA 2015-261)
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO ACADÊMICO DO AGRESTE
NÚCLEO DE DESIGN
PARECER DE COMISSÃO EXAMINADORA DE DEFESA DE PROJETO
DE GRADUAÇÃO EM DESIGN DE
ARIANI ANDRADE ARAÚJO SANTOS
“Projeto de mobiliário, a partir de encaixe e refugos de madeira”
A comissão examinadora, composta pelos membros abaixo sob a presidência do primeiro, considera a (o) aluna (o) Ariani Andrade Araújo Santos
APRAOVADA(O)
Caruaru, 24 de Julho de 2015
Prof. Dr. Manoel Guedes Alcoforado Neto
Prof. Msc. Paulo Roberto Silva
À minha mãe,
pela paciência e persistência diante da minha formação.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus, pelas inúmeras provas do seu grande amor por mim.
Agradeço a meus pais, Ailton e Rosimere, pelos incansáveis esforços, em busca de uma melhor educação para mim.
Aos meus avós Lindalva e Antonio, por me ensinarem a importância do amor e da família. Ao meu esposo João Paulo, por sua compreensão, bondade e dedicação, durante os muitos obstáculos dessa caminhada.
Ao Professor Doutor Manoel Guedes pela amizade, disponibilidade, e incentivo
E a todas as pessoas que não foram citadas, mas que de alguma forma contribuíram para a conclusão deste trabalho.
“A eternidade se antecipa cada vez que do tempo nos esquecemos.”
RESUMO
Diante dos problemas ambientais enfrentados pelo planeta na atualidade, em grande parte consequência dos impactos causados pela produção industrial e seus processos, formas inovadoras de tecnologia e design podem amenizar os distúrbios provocados pelo consumo de produtos. Aplicando modernos conceitos de design para sustentabilidade, a idealização e manufatura de novos artefatos pode se adequar, e respeitar os princípios da equidade e do desenvolvimento sustentável. Este trabalho tem por objetivo desenvolver uma linha de mobiliários a partir de refugos de produção de uma empresa de móveis e objetos em madeira maciça, utilizando para tal, técnicas de junções por encaixe, excluindo outros componentes, como colas, pregos ou parafusos. Empregando a Metodologia de Design Mediada por Protótipos, a conclusão demonstra que além de eco eficientes, os encaixes e mobiliários projetados são funcionais e dispõem de valor simbólico e estético, servindo de base para propostas futuras e novas possibilidades.
Palavras Chave: Design. Sustentabilidade. Mobiliário. Encaixe.
ABSTRACT
In front of the environmental problems faces by the world at the present days, largely a result of the impacts caused by industrial production and processes, innovative forms of technology and design can minimize disturbances caused by the consumerism. By applying modern design concepts for sustainability, idealization and manufacturing new artifacts can fit, and respect the principles of equity and sustainable development. This work aims to develop a line of furniture from scrap production of a furniture company and objects in solid wood, using such techniques for fitting joints, excluding other components such as glue, nails or screws. Using the Design Methodology Mediated by prototypes, the conclusion demonstrates that in addition to eco-efficient, designed the fittings and furnishings are functional and have symbolic and aesthetic value, providing the basis for future and new possibilities offered. Keywords: Design. Sustainability. Furniture. Joint.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO... 10
PARTE 1 – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 1 DESIGN E SUSTENTABILIDADE... 12
1.1 CONCEITO... 12
1.2 PRINCÍPIOS PARA O DESENVOLVIMENTO SUST. DE PRODUTOS... 14
1.2.1 A minimização de Recursos... 15
1.2.2 Escolha de materiais e processos de baixo impacto... 16
1.2.3 Otimização da vida útil do produto... 17
1.2.4 Facilitar montagem / desmontagem... 18
1.2.5 O ciclo de vida do produto ... 19
2 A MADEIRA COMO MATÉRIA PRIMA APLICADA A MOBILIÁRIOS... 21
2.1 MOBILIÁRIO MADEIRA E SUSTENTABILIDADE... 21
2.2 MADEIRA E IDENTIDADE NACIONAL... 23
2.3 TIPOS DE MADEIRAS BRASILEIRAS... 24
2.4 CICLO DE VIDA DO MOBILIÁRIO EM MADEIRA... 29
2.4.1 Pré-produção... 29
2.4.2 Produção... 31
2.4.3 Distribuição... 32
2.4.4 Uso... 33
2.4.5 Descarte... 33
2.5 PRODUÇÃO LOCAL DE MOBILIÁRIOS EM MADEIRA... 35
3 TÉCNICAS DE ENCAIXES PARA PRODUÇÃO DE MOBILIÁRIOS... 37
3.1 SISTEMAS DE FIXAÇÃO DA MADEIRA... 37
3.1.1 Colagem... 37
3.1.2 Pregos e Parafusos... 38
3.1.3 Com uso de madeira... 39
3.2 TIPOS DE ENCAIXES... 39
3.2.1 União em meia madeira... 40
3.2.2 Espiga... 40
3.2.3 Malhete... 42
PARTE 2 - PROJETO
4 METODOLOGIA DE PESQUISA E PROJETUAL... 46
5 METODOLOGIA DE DESIGN MEDIADA POR PROTÓTIPO... 48
5.1 PREPARAÇÃO... 49
5.1.1 Compreensão do Cenário, do mercado e dos competidores... 49
5.1.2 Compreensão da empresa e da Indústria... 50
5.1.3 Compreensão do Produto... 53
5.1.4 Compreensão do Usuário... 56
5.1.5 Definição dos requisitos projetuais e de performance... 57
5.2 DESENVOLVIMENTO... 58
5.2.1 Geração... 58
5.2.1.1 Sketches... 58
5.2.1.2 Mockups de baixa fidelidade... 62
5.2.1.3 Protótipos Virtuais Apreciativos... 63
5.2.2 Construção... 67 5.2.3 Testes / Avaliação... 68 5.2.4 Seleção / Aprovação... 70 5.3 REALIZAÇÃO... 71 5.3.1 Detalhamento... 71 5.3.2 Construção... 72 5.3.3 Testes / Avaliação... 72 5.3.3.1 Avaliação do Usuário... 72
5.3.3.2 Avaliação da redução de impactos... 74
5.3.4 Documentação / Aprovação... 76
5.3.4.1 Desempenho perante os requisitos... 77
5.3.4.2 – Custos de Execução do Projeto... 77
5.3.5 – O produto... 79 5.3.5.1 – Design Gráfico... 79 5.3.5.2 – Apresentação do produto... 80 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 84 7 REFERÊNCIAS... 86 8 APÊNDICE... 88
INTRODUÇÃO
Afirmação:
Projetarei um mobiliário, a partir da reutilização de madeira e utilização de encaixes, por que quero descobrir formas de utilizar refugos da produção moveleira local, afim de incentivar o uso desse material por empresas da região.
Problematização:
A produção moveleira local, gera refugos de madeira que são incinerados.
A falta de alternativa para utilização desses refugos leva os fabricantes de moveis a descartarem esse material.
Problema de Pesquisa:
A falta de alternativas para a reutilização desse refugos, tem como consequências, não só o prejuízo matéria para o fabricante, como grandes prejuízos ao meio ambiente.
Objetivo Geral:
Desenvolver uma linha de mobiliário com reaproveitamento de madeira e uso de encaixes, como proposta para a redução de componentes e aproveitamento de refugos da produção moveleira local.
Objetivos Específicos:
- Definir os requisitos da sustentabilidade.
- Levantar informações sobre os refugos da produção madeireira local.
- Pesquisar e aplicar no mobiliário, processos de racionalização do uso de materiais e tecnologias de encaixes.
Pergunta da pesquisa:
É possível projetar um mobiliário doméstico, a partir das estratégias sustentáveis como, utilização de encaixe, e utilização de refugos?
Objeto de estudo:
Justificativa:
Incentivar o uso de encaixes e refugos de madeira, gerando benefícios ambientais e econômicos através de uma produção mobiliária sustentável.
Metodologia:
Método de Abordagem escolhido é o Método Dedutivo, pois parte de princípios reconhecidos como verdadeiros, e definidos a nível geral, para uma conclusão a nível particular.
Os princípios verdadeiros são a reutilização de materiais, como estratégia para sustentabilidade, e utilização de encaixes em madeira, como forma de redução de componentes. A fim de aplicar esse princípios em um projeto de mobiliário em madeira.
Métodos de procedimentos escolhidos foram o Experimental neste tipo de pesquisa o investigador analisa o problema, constrói suas hipóteses e trabalha manipulando os possíveis fatores, as variáveis, que se referem ao fenômeno observado.
Partindo da investigação e analise dos refugos de madeiras descartados da produção local, propor possíveis formas de utiliza-lo a partir da tecnologia de encaixes, afim de conceber um novo produto. E o Método Comparativo, “ Este método realiza comparações com a finalidade de verificar similitudes e explicar divergências” (LAKATOS, 1981p.32 apud LAKATOS,
2010 p.89). A utilização desse método visa a análise de diversos tipos de encaixes, avaliando
1 DESIGN E SUSTENTABILIDADE
Estes dois termos Design e Sustentabilidade, estão sendo propagados e explorados a todo instante nas mídias informativas ao redor do mundo, em alguns casos juntos e muitas vezes usados individualmente. Levantando os significados para uma explicação técnica das duas palavras temos, segundo Manzini (2008, p.18) que: “O termo design diz respeito ao conjunto de atividades projetuais que compreende desde o projeto territorial, também o projeto gráfico, passando ainda pelo projeto de arquitetura até os bens de consumo”; E Sustentabilidade ainda para o mesmo autor é um conceito sistêmico, relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade.
Entendendo estes termos, observou-se a conscientização acerca da problemática global sobre os impactos ao meio ambiente sob as custas de um sociedade de consumo desordenado, essa nova ótica de raciocínio, fez surgir uma demanda por produtos que respeitem o meio ambiente, as políticas que tendem a neutralizar os efeitos ambientais negativos, a interferência nos processos produtivos que geram poluição, enfim levou a reorientação de novos comportamentos sociais. Segundo Manzini (2008, p.19), tal progresso acarretou uma transformação na natureza das variáveis do processo de produção, entende-se que o desenvolvimento de produtos limpos, certamente requer uma nova capacidade projetual. Nesse ponto estreitou-se a relação entre o design e a sustentabilidade. Dentro desse quadro geral, o papel do design pode ser sintetizado como a atividade que liga o tecnicamente possível com ecologicamente necessário, assim faz nascer novas propostas que sejam social e culturalmente apreciáveis.
1.1 CONCEITO
Em 1987, o termo desenvolvimento sustentável foi usado pela primeira vez pela norueguesa Gro Brundtland, ex-primeira ministra de seu país, como presidente de uma comissão da ONU, quando publicou um documento chamado Our Common Future (Nosso Futuro Comum), que relacionava meio ambiente com progresso. A este termo quando escrito pela primeira vez se deu o seguinte explicação: "Desenvolvimento sustentável significa suprir as necessidades do presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprirem as próprias necessidades" (BRUNDTLAND, 1987).
A partir desse inicio na década de 90 este termo tem sido muito explorado e aperfeiçoado. Sobre o desenvolvimento sustentável o pesquisador Manzini afirmou que:
Com esta expressão referimo-nos às condições sistêmicas segundo as quais em nível regional e planetário, as atividades humanas não devem interferir nos ciclos naturais em que se baseia tudo o que a resiliência do planeta permite, e ao mesmo tempo não devem empobrecer seu capital natural, que será transmitido às gerações futuras (MANZINI, 2008).
Para Kazazian (2005, p.27), desenvolvimento sustentável caracteriza-se como: “Um crescimento para todos, assegurando ao mesmo tempo a preservação dos recursos para as futuras gerações”.
Já Segundo Sachs (1993, apud FERREIRA, 2006, p.16) o conceito de sustentabilidade não deve ser limitado à visão de estoque e fluxos dos recursos naturais, outras dimensões devem ser consideradas: A Sustentabilidade social, que visa a melhora das condições de vida e dos direitos da população, preocupando-se com temas a exemplo de habitação, mobilidade urbana, estilos de vida com valores relativos à preservação do meio ambiente; A Sustentabilidade econômica, promove a gestão eficiente de recursos e investimentos, inclusive através ações e produtos mais eficientes; A Sustentabilidade ecológica, que visa redução no consumo de materiais, principalmente os não renováveis, também a redução na produção de resíduos e o reaproveitamento destes, a busca por energias limpas; A sustentabilidade espacial, que busca mais equilíbrio entre a zona rural e a zona urbana e melhoria de problemas gerados pelo crescimento demográfico; e por fim a Sustentabilidade Cultural, que busca o respeito às particularidades de cada ecossistema que é único em cada lugar e o cuidado na preservação da cultura local material e imaterial.
Diante dessas definições de sustentabilidade, entende-se que: A sustentabilidade é um objetivo a ser atingido e não, uma direção a ser seguida. Ou seja, nem tudo que apresenta algumas melhorias em temas ambientais pode ser considerado realmente sustentável, (MANZINI, 2008, p.28), no entanto são passos importantes em direção ao objetivo final. Para ser sustentável, segundo Manzini (2008, p.28), cada nova proposta apresentada deve responder aos conceitos seguintes: Basear-se fundamentalmente em recursos renováveis, levando em consideração o nível de extração, a garantia e tempo para renovação; Otimização e preservação de recursos não renováveis, como a ar e água e ambiente; Não acumular resíduos, seja da produção ou do descarte, que o ecossistema não possa renaturalizar; e respeitar os limites dos princípios da equidade, cujo conceito proposto em 1987, que afirma que cada pessoa tem direito ao mesmo espaço ambiental, ou seja, a quantidade de energia,
água, território e matérias-primas não renováveis a mesma disponibilidade de recursos naturais, incluindo também as gerações futuras.
Esses requisitos demonstram com clareza o quanto, o sistema de produção e de consumo da sociedade industrial contemporânea esta distante de uma realidade satisfatoriamente sustentável.
Contudo e ao analisar o contexto atual em que há uma enorme interferência da produção industrial e do estilo de vida contemporâneo, nas questões abrangentes da sustentabilidade, observou-se que o design poderia e deveria operar e colaborar para projetos e serviços intrinsecamente sustentáveis e propor ambientes que atendam e estimulem o estilo de vida sustentáveis. Para Manzini, esse gênero de atividade do design, deve ser referido como Design para a Sustentabilidade. Ainda afirmou que:
Propor o desenvolvimento de design para a sustentabilidade significa, portanto, promover a capacidade do sistema produtivo de responder a procura social de bem-estar, utilizando uma quantidade de recursos ambientais drasticamente inferior aos níveis atualmente praticados (MANZINI, 2008, p.23).
Por fim, o design para a sustentabilidade pode ser entendido como uma espécie de design estratégico. Contudo para que o design para a sustentabilidade, seja eficiente, deve-se avaliar constantemente, as implicações ambientais, as inúmeras soluções técnicas, econômicas e sociais, devendo considerar ainda durante o processo projetual do produto, todas as condicionantes do ciclo de vida do produto ou serviço.
1.2 PRINCÍPIOS PARA O DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS SUSTENTÁVEIS Novas combinações e soluções mais eficientes, entre a demanda e a oferta de produtos e serviços, são necessárias para que o desenvolvimento sustentável de produtos seja mais um aliado na redução dos impactos ambientais. Para isso, é necessário analisar e avaliar todo o percurso desse produto, desde a concepção até o descarte, investigando o processo da extração, a fabricação e utilização desse produto, observando quais impactos ambientais esse produto ou processo podem causar. Para Kazazian (2005, p.53), essa análise do ciclo de vida, é fundamental para a economia leve, por que cada uma dessas etapas geram troca (input e output) que terão impactos sobre o meio ambiente, cada uma dessa permuta, pode conter um potencial de otimização ambiental.
“Assim o design assume uma abordagem sistêmica, passando do produto ao sistema-produto como um todo.” (Manzini 2008, p. 100). A tarefa inicial para desenvolver novos produtos sob os requisitos da sustentabilidade será, consequentemente, a de projetar por inteiro o ciclo de vida do produto, com isso surgiu o conceito Life Cycle Design. O conceito de ciclo de vida, “refere-se às trocas (input e output) entre o ambiente e o conjunto de processos que acompanham o “nascimento”, “vida” e a “morte” de um produto. Em outras palavras, o produto é interpretado em relação aos fluxos – de matéria, energia e emissão – das atividades que o acompanham durante toda sua vida.” (idem, 2008, p.91).
Este processo esta esquematizado nas seguintes fases: Pré-Produção, Produção, Distribuição, Uso e Descarte.
A partir do desenvolvimento do Life Cycle Design, surgiram outras estratégias para reduzir os impactos do ciclo. São elas: A Minimização dos recursos, a escolha de materiais de baixo impacto ambiental, a otimização da vida do produto, a Extensão da vida dos materiais e a Facilidade de desmontagem. Estas estratégias serão explicadas a seguir:
1.2.1 A minimização de recursos
Em outras palavras, a redução de consumos de matérias e energia para um determinado
produto. Essa redução de consumo é possível a partir das seguintes ações:
a) Minimizar o conteúdo da matéria do produto, a proposta dessa estratégia, vai desde a redução da espessura da parede de um componente do produto, a miniaturização, os recursos da multifuncionalidade, até mesmo a desmaterialização, e digitalização de parte de um produto;
b) Minimizar as perdas e os refugos, escolher processos produtivos que diminuam o consumo de materiais e simular os componentes finalizados com auxilio de sistemas computadorizados, são articulações que possibilitam essa estratégia no processo de produção do produto;
c) Minimizar a energia necessária para a produção do produto, nesta fase o designer pode intervir na escolha de processos produtivos com menor consumo energético bem como na escolha por energias alternativas, utilizando instrumentos produtivos mais eficientes, otimizando o processo e o ambiente de produção;
d) Minimizar o consumo de recursos no desenvolvimento de produtos, diminuindo o consumo de matérias como papeis e embalagens, utilizando instrumento informático
para o projeto, modelagem e prototipagem digitais, aperfeiçoando sistemas de iluminação, aquecimento e iluminação do local de trabalho;
e) Minimizar o uso de recursos na distribuição, facilitando o agrupamento de embalagens e buscando estratégias de transporte mais eficiente;
f) Minimizar embalagens, para potencializar essa estratégia é necessário evitar excesso de embalagem quando, a mesma não for realmente útil, já que a garantia da integridade do produto no armazenamento e transporte, acarretam vantagens ambientais, prevenindo danos, além de, projetar as embalagens como parte integrada do produto;
g) Minimizar o consumo de recursos durante o uso, algumas da hipótese para essa estratégia são, projetar produtos de uso coletivos, e priorizar a eficiência e durabilidade do produto.
1.2.2 Escolha de materiais e processos de baixo impacto
Na concepção de produtos a escolha dos materiais é um momento fundamental, já que a
escolha de materiais e processos vai influenciar todas as outras fases do ciclo de vida do produto. Algumas ações devem ser consideradas pelo designer nessa etapa crucial, elas são: Evitar inserir materiais tóxicos e danosos, sejam eles em aditivo, ou em acabamentos do produto; Utilizar materiais renováveis, como por exemplo, a madeira. Da perspectiva do desenvolvimento sustentável, existe uma grande vantagem no âmbito ambiental, sobre outros materiais, sendo as reservas dos outros materiais (os não renováveis) limitadas, deve-se cada vez mais evitar a sua utilização para o mínimo possível, ou para produtos cuja sua utilização é insubstituível. Mais uma grande característica dos materiais renováveis, é que em sua maioria estes são biodegradáveis este é mais um dos pontos positivos para a escolha de materiais de baixo impacto; Ainda é possível promover o aproveitamento de refugos do processo produtivo de outros produtos, assim como componente que provenha de produtos descartados, materiais reciclados.
Também cabem a essa estratégia ações como: A escolha de tecnologia de manipulação dos materiais que minimizem os impactos; Escolha de fontes energéticas renováveis, locais, e que reduzam as emissões nocivas durante as fases de pré- produção, produção, distribuição, e uso.
1.2.3 Otimização da vida do produto
Quando se fala em otimização da vida útil do produto, existem dois extremos a serem
seguidos, o aumento da durabilidade do produto, ou de componentes, e a intensificação de uso do produto ou componentes. Para Manzini (2008,p.182): “Um produto que é mais durável que outro, exercendo a mesma função, determina um impacto ambiental menor. Ainda segundo o mesmo autor (2008, p.185), um produto, em função de sua serventia, quando usado mais intensamente que outro, proporciona a redução da quantidade de produtos em um determinado momento e local, e isso também determina uma redução de impacto ambiental.
Segundo Mazini (2008, p.188) as linhas guias para a otimização da vida dos produtos, são as seguintes:
a) Projetar durabilidade apropriada: Para isso é necessário escolher os materiais duráveis considerando a serventia e a vida útil do produto, projetar vida útil igual para todos os componentes do produto;
b) Projetar confiabilidade: O baixo impacto de um produto é ligado a este principio, já que produtos não confiáveis, mesmo duráveis, são rapidamente descartados. Para projetar produtos seguros e confiáveis, propõe-se minimizar o número de partes e componentes evitando reparos contínuos, simplificando o produto, e evitando junções frágeis;
c) Facilita atualização e adaptabilidade: A possibilidade de atualizar, substituir, ou adaptar componentes obsoletos de um produto. Como alternativa para a diminuição de impacto ambiental, pois reduz a quantidade de lixo a ser descartado. Apenas substituindo, atualizando e adaptando componentes, é possível aumentar a vida útil do produto como um todo;
d) Facilitar a manutenção: Por manutenção entende-se o conjunto de prevenção periódica do produto, esta manutenção pode evitar custos econômicos de um conserto, e o impacto tanto da eliminação de um componente como da produção de um substituto. Para isso soluções projetuais como facilitar a limpeza, substituição, de partes que necessitem de manutenção e limpeza periódica e projetar procurando reduzir e facilitar a manutenção periódica do produto torna-se eficientes para alongar a vida útil do produto;
e) Facilitar a reutilização: Entende-se por reutilização um segundo uso de um produto ou componentes, anteriormente descartados. Com isso, ações como, projetar prevendo um segundo uso desse produto, utilizando componentes intercambiáveis
e modulares, facilitando a remoção de partes que possam ser reutilizadas, são ações de podem minimizar o impacto ambiental, já que evita o descarte e as custas da fabricação de um novo produto;
f) Facilitar a refabricação: Este é um processo industrial de renovação de produtos estragados durante o uso, por meio desse processo o produto é novamente posto em condições iguais às iniciais, no entanto, para isso é importante planejar de maneira oportuna, tanto a atividade de marketing como a logística do retorno, para a recuperação de produtos já eliminados, exemplos dessa ação, já podemos observar na indústria automobilística, com o remanufaturamento de peças e pneus para automóveis. Esta estratégia se aproxima do que Kazazian (2005, p.52) chamou de fluxo fechado;
g) Intensificar o uso: Projetar buscando intensificar o uso dos produtos implica em orientar o projeto para produtos duráveis, multifuncionais, que tenham componentes substituíveis em comum, e conceber produtos para o uso compartilhado e coletivo.
1.2.4 Facilitar a montagem / desmontagem
A possibilidade de separar facilmente as partes facilita consequentemente, a manutenção, a
atualização e a refabrição dos produtos, além disso, é possível separar os materiais, visando a reciclagem (quando os materiais forem incompatíveis entre si) e o isolamento (quando os materiais são tóxicos ou danosos).
Segundo Manzini, as razões para se adotar essa estratégia, são portanto, a extensão da vida útil do produto, a extensão da vida útil dos materiais e a possibilidade de tornar inerte os materiais tóxicos e danosos. As indicações a seguir são algumas das providencias que podem ser tomadas durante os processos de concepção do produto, para facilitar a desmontagem:
a) Facilitar operação para desmontagem e separação: Para isso, as indicações que devemos seguir, dizem respeito à estrutura geral do produto, à forma dos seus componentes e à acessibilidade dos elementos de junção. Com isso, as ações como: Tornar desmontável principalmente, os componentes que contenham materiais tóxicos e nocivos, as peças de maior valor econômico, e partes mais sujeitas ao desgaste; Adotar estruturas modulares; Minimizar as dimensões do produto e componentes; Facilitar a extração dos componentes e subconjuntos; Adotar estruturas de desmontagem em forma de “sanduiche”, posicionadas na direção vertical e que
contenham elementos de fixação de fácil acesso; Evitar partes assimétricas e difíceis de movimentar; Minimizar número e tipo diferenciados de fixações; Projetar vias acessíveis e identificáveis para a operação de desmontagem;
b) Usar sistemas com junções reversíveis: As junções reversíveis contrariamente às permanentes podem sem removidas e reintroduzidas ao sistema sem que os componentes ou a própria junção sejam comprometidos ou estragados.
Todas essas segundo Manzini, são referências que o designer deve seguir para projetar, produtos, otimizando o ciclo de vida do produto. E Para Kazazian (2005, p.67), o designer deve se esforçar para elaborar a melhor interface entre o homem e o objeto, a mais simples e eficiente possível.
1.2.5 Ciclo de vida do produto
Mesmo diante das informações aqui apresentadas, é de suma importância ainda o estudo do ciclo de vida de um produto, e suas interações e impactos, causados ao meio ambiente.
A relação entre as fases do produto e o meio ambiente, pode ser melhor compreendida com a observação da Figura 1, que representa o ciclo de vida do produto.
Figura 1 – O Ciclo de vida do Produto
Observa-se que em cada fase da vida do produto, há utilização de recursos naturais, e emissões no meio ambiente, chamados de inputs e outputs respectivamente. Esse processo gera certos impactos ambientais e, portanto, devem ser considerados na fase de concepção de produtos, para que esses recursos sejam otimizados, ou ainda, para que se chegue ao ideal de emissão zero, quando os resíduos são comercializados com empresas que utilizem aquele material em sua produção, o que torna o ciclo de vida do produto mais ecológico através de uma produção mais limpa.
Para Kazazian (2005, p. 54) integrar a visão do ciclo de vida na fabricação de um produto, induz aos poucos que os produtos tornem-se cada vez mais “valorizáveis”, pois serão consideradas questões como reciclagem, reutilização do produto, recuperação de energia. Ainda segundo Kazazian, “Idealmente, todos os elementos de um produto deveriam poder circular indefinidamente – ou pelo menos durante um período tão longo quanto possível”. Como já citado anteriormente, o termo em inglês Life Cycle Design (LCD), designa essa forma de projeto, em que considera-se todo o sistema-produto (MANZINI, 2008, p.100). O ciclo de vida do produto permite ainda observar melhor cada fase do produto, que são divididas em: Pré-produção, Produção, Distribuição, Uso e Descarte. Levando em conta o conhecimento a respeito do ciclo de vida do produto, o próximo passo no âmbito do design para o desenvolvimento sustentável de produtos, é projetar o ciclo de vida, e não apenas o produto.
Por esse motivo, os princípios citados acima, a minimização de recursos, a escolha dos materiais, a facilidade de montar e desmontar, e a otimização do ciclo de vida, são guias o para o desenvolvimento de um novo produto, que atenda aos parâmetros estabelecidos para a sustentabilidade.
2 MADEIRA COMO MATÉRIA PRIMA APLICADA A MOBILIÁRIOS
A madeira é o material mais antigo utilizado pelo homem, e por sua facilidade de obtenção, ainda hoje é muito empregada (LIMA, 2006, p.86). Sabe-se que a madeira como material, é utilizada conjuntamente em eras históricas demarcadas pelos materiais, como a idade da pedra, do metal e do bronze. Portanto se houvesse uma “idade da madeira” ela permearia eras históricas e chegaria até a idade contemporânea (JUNIOR, 2006, p.1). Sua importância para fabricação de artefatos é inegável. Um material versátil, que é utilizado em diversas áreas, desde a construção civil, decoração, revestimento, estruturas e mobiliários, além de tudo, com alta capacidade de renovação.
Este capítulo abordará a madeira como matéria-prima, em diversas relações, para que se entenda melhor sua aplicação na fabricação de mobiliários e sua ligação com a sustentabilidade.
2.1 MADEIRA, MOBILIÁRIO E SUSTENTABILIDADE
Segundo o Dicionário Michaelis, mobiliário, mobília ou móveis são os objetos que equipam uma casa. Muito mais que isso, os móveis não são apenas objetos funcionais, pois também estão carregados de valores estéticos e simbólicos que os diferenciam de maneiras incontáveis. Uma poltrona pode ser apenas um objeto para acomodar pessoas, mas também pode ser uma obra de arte, um ícone do design mundial, um móvel-denúncia, ou tudo isso. E ainda mais. Segundo Marcelinni (1999), por conta das tecnologias egípcias de produção mobiliária que datam de até 5 mil anos antes de Cristo, a História não se utiliza apenas da observação das edificações, esculturas ou literatura, mas também da observação da tecnologia de produção e adorno do mobiliário utilizado por este povo, utilizam inclusive este fator para medição do grau de civilização dos povos.
A versatilidade da aplicação da madeira, já citada anteriormente, pode ser destacada pela variação de espécies comercialmente exploráveis, que proporcionam densidades, resistências, cores, desenhos e texturas variados, e estas características são apreciadas e avaliadas para melhor aplicação em diversas áreas. No setor mobiliário este é o material mais utilizado, seja na forma de madeira maciça ou em madeira processada, portanto o design de mobiliário e a madeira como matéria prima estão intimamente ligados.
Entretanto, no mundo atual, em que problemas ambientais se apresentam na forma de aquecimento global, degelo polar, catástrofes climáticas, extinção de animais e outros
desequilíbrios ambientais, a extração de madeira para produção mobiliária pode parecer mais uma grande vilã do sistema produtivo atual. Porém, esta é uma visão apenas superficial e errônea do tema.
A madeira vem ganhando destaque por seu potencial de renovação. Se explorada corretamente, a madeira pode ser considerada inesgotável, pois é encontrada em todo planeta em um processo contínuo de formação aos milhões de metros cúbicos, sejam em florestas naturais ou por reflorestamento ( HELLMEISTER, 1983). Outra vantagem a ser explorada é a bio-compatibilidade do material, que quando descartado tem absorção facilitada na natureza reduzindo impactos no descarte de materiais, que é outro grande problema atual, causa de desequilíbrio ambiental principalmente da fauna e da flora (LIMA 2006).
Observando os princípios para o desenvolvimento sustentável de produtos citados no capítulo 1 deste trabalho, identificamos que a madeira, principalmente a maciça, e não processada, tem grande potencial como uma matéria-prima sustentável, e deverá ser considerada um dos materiais do futuro, justamente pelo crescimento destes problemas ambientais.
Como demonstrado acima, a madeira maciça, é um material de baixo impacto, e seu processo de extração se feito corretamente também tem pouco impacto. Principalmente se compararmos com a extração de outros materiais como o metal, ou a produção de polímeros, a madeira mostra-se muito mais eco-eficiente para produção de móveis.
Mobiliários de madeira podem ter a vida útil otimizada, por alguns fatores. A durabilidade é um deles, pois se fabricados de maneira correta, estes artefatos podem durar séculos, a exemplo da cadeira Savonarola, feita de madeira de nogueira, data do século XVI, tendo até aqui, uma vida útil de 500 anos (VEZZOLI, 2010, p.47). Outro fator que otimiza a vida útil é o valor simbólico do produto, e o mobiliário de madeira constitui uma identidade cultural, como será demonstrado adiante, e ainda, segundo Lima, o ser humano sente-se mais confortável na utilização de materiais naturais (2006, p. 86).
Estes móveis podem ter também a desmontagem facilitada como será demonstrado no próximo capítulo, com a utilização de processos de produção corretos. Outro fator de eco-eficiência que podemos utilizar, é escolher as madeiras maciças em detrimento às madeiras processadas, reduzindo assim utilização de recursos de produção, necessários para a formação de blocos de madeiras processadas. O fator simbólico também em sua maioria depende do uso da madeira maciça na fabricação do mobiliário.
Por estes fatores, a madeira constitui um material adequado para fabricação de móveis, por questões funcionais, estéticas e ambientais, podendo e devendo ser explorada no âmbito do design em direção ao desenvolvimento sustentável.
2.2 MADEIRA E IDENTIDADE NACIONAL
No Brasil, esse material está também ligado a uma identidade nacional, pois no território há uma grande variedade madeiras com cores, texturas, e características próprias de cada região e únicas no mundo. A riqueza das florestas é inclusive representada no retângulo verde da bandeira brasileira.
Esta relação cultural começa no ano de 1503, quando a terra chamada de Ilha de Vera Cruz, começou a ser chamada de Brasil, referência à sua principal riqueza: o Pau-brasil, madeira de cerne vermelho, usada como corante, e também por sua grande resistência, empregada na fabricação de móveis e navios. A madeira foi muito explorada, a ponto de os europeus “comercializarem” por escambo com indígenas para obtenção do pau-brasil (FAUSTO, p. 42, 1930).
Posteriormente, em 1627, o frei Vicente de Salvador, historiador da época, descrevendo o Brasil, escreveu:
Há no Brasil grandíssimas matas de árvores agrestes, cedros, carvalhos, vinháticos, angelins e outras não conhecidas em Espanha, de madeiras fortíssimas para se poderem fazer delas fortíssimos galeões(...) as há de todas as cores, brancas, negras, vermelhas, amarelas, roxas, rosadas e jaspeadas(...) são estimados por sua formosura para fazer leitos, cadeiras, escritórios e bufetes. (PALHA, 1918)
Relatos como estes comprovam que do descobrimento ao século XVII, a Europa identificava o Brasil como uma terra de madeiras valiosas e únicas. Também sobre isto, o escritor francês Charle Ribeyrolles, no século XIX, sobre a costa brasileira escreveu: “ Ela fornece (...) as mais ricas madeiras de construção que se possam encontrar em estaleiros do mundo.” (1980, p.178).
Admiradas por estrangeiros, a madeira nativa brasileira também é inspiração para projetos nacionais de notoriedade mundial, principalmente após a semana de arte moderna de 1922. Destacam-se na utilização da madeira, e na construção desta identidade nacional o “Mestre da madeira” José Zanine Caldas, a princípio na empresa Móveis Z e posteriormente com seus
móveis-denúncia com proposta ecológica. Também com fama mundial o brasileiro Sérgio Rodrigues, que teve o auge da sua carreira entra as décadas de 50 e 60,quando conseguiu forjar o conceito o brasilidade do design de móveis, foi generoso no traço e no emprego das madeiras nativas, conseguiu resgatar o espírito da mobília tradicional e aspectos indígenas do Brasil, criando assim a empresa Oca. Os produtos com mais destaque internacional, são poltrona Mole, antes chamada de poltrona Scherif (figura 2), premiada na IV Bienal do Móvel, Cantu, Itália 1961, e exposta no Museu de Arte moderna de Nova Yorque, e a Poltrona Aspas, tampem chamada de “chifruda” (Figura 3).
Figura 2 – Poltrona Mole Figura 3 – Poltrona Aspas
Fonte: http://www.sergiorodrigues.com.br/ Fonte: http://www.sergiorodrigues.com.br/
Através destes dados, identifica-se a formação de uma identidade nacional brasileira mesmo a nível mundial, a respeito da utilização de suas madeiras principalmente em mobiliários, reconhecidas como de alta qualidade, beleza e versatilidade.
É fato, que a extração predatória destas madeiras provoca sua escassez, causando desequilíbrio ambiental, entretanto, a extração planejada por manejo florestal pode tornar viável e sustentável sua utilização, conforme será demonstrado nos tópicos a seguir.
2.3 TIPOS DE MADEIRAS BRASILEIRAS
Seguindo a classificação proposta por Lima (2003), podemos classificar as madeiras em dois tipos: A madeira maciça, caso em que o tronco é serrado para comercialização em bitolas padronizadas ou não, e madeira transformada, quando os troncos são submetidos a processos diversos, que transformam a estrutura da madeira, para só então ser comercializada.
Neste trabalho, abordaremos apenas a utilização de madeiras maciças, que dispensam maiores processos, visando a escolha de materiais e processos de baixo impacto como um dos princípios para sustentabilidade, já abordados no primeiro capítulo.
Este tópico abordará algumas espécies de madeira nativas do Brasil e por fim algumas espécies estrangeiras que estão sendo utilizadas por reflorestamento no país.
• Angelim Pedra (Hymenolobium Petraeum Ducke):
Madeira nativa da Amazônia, de cor castanho-avermelhada, com manchas mais escuras. A densidade média do Angelim pedra permite boa trabalhabilidade, com uma textura grossa e aspecto fibroso, permite bom acabamento. Resistente cupins, tem grande durabilidade. De grã reta a reversa, pode ser suscetível a empenos. Muito utilizada no pólo madeireiro de Gravatá-PE, na fabricação de diversos tipos de móveis, marca registrada das marcenarias dessa cidade. Também é utilizada na construção civil para fabricação de portais e esquadrias (NAHUS, 2013).
• Angelim Vermelho (Dinizia excelsa): Também nativa da
Amazônia, de cerne castanho-avermelhado escuro. Possui alta densidade, portanto, difícil trabalhabilidade. Muito utilizada pela sua alta resistência a organismos xilófagos, e por permitir um bom acabamento, entretanto apresenta cheiro característico desagradável. O Angelim vermelho é menos predisposto a empenos que o Angelim pedra. Na construção civil pode ser utilizado em linhas e caibros para cobertas. Em mobiliários internos, o uso é desaconselhado, devido o cheiro característico, entretanto pode ser utilizado em mobiliários urbanos, pela sua alta resistência (MENEZES, 2012).
• Cumaru (Dypterix Odorata): Nativa da Amazônia e com a cor do
cerne Castanho-claro amarelado, o cumaru em algumas peças é facilmente confundido com o ipê. Possui alta densidade, e por isso é dura à serra, e apresenta trabalhabilidade ruim, porém um bom acabamento. Muito durável inclusive em contato com o solo, durabilidade superior a 12 anos nesta exposição (NAHUS, 2013). Na região agreste de Pernambuco, o cumaru geralmente é comercializado em lambris pré-fabricados, e por sua semelhança, às vezes é vendido como ipê por má fé dos comerciantes.
• Garapa (Apuleia Leiocarpa): Nativa da Amazônia e da Mata
Atlântica, tem cor variável entre bege amarelado a castanho amarelado, possui uma superfície lustrosa e agradável ao tato. Com densidade média é fácil de ser trabalhada, e proporciona bom acabamento, inclusive para móveis de alta decoração, mas também é possível utilizá-la em esquadrias vigas e caibros, entretanto para estes fins possui resistência moderada.
• Jatobá (Hymenaea spp): Pode ocorrer na Amazônia e na Mata
Atlântica, o jatobá possui cor castanho-avermelhado, com listras mais escuras, mas tende a escurecer quando exposta ao sol, assemelhando-se a algumas espécies de ipê. De trabalhabilidade moderada, o jatobá proporciona um ótimo acabamento, e por sua alta resistência, é muito utilizada na construção civil, mas também na fabricação de móveis finos.
• Muiracatiara (Astronium Lecointei Ducke): Espécie Nativa da
Amazônia, possui cor de bege-rosado ao castanho-escuro avermelhado, e estrias mais escuras muito características. De alta densidade, é dura ao corte, mas de boa trabalhabilidade e acabamento. Possui boa durabilidade. É muito utilizada em móveis de alto padrão e em laminados decorativos. Há alguns anos era encontrada no comercio de nossa região, mas não está mais disponível atualmente.
•Oiticica Amarela (Clarisia Racemosa Ruiz & Pav): Nativa da
Amazônia, a oiticica amarela também pode ser conhecida por gameleiro ou tatajuba. Possui cor amarela quando cortada, mas passando com o tempo para o castanho amarelado. Madeira de densidade média, geralmente é de fácil trabalhabilidade, entretanto requer ferramentas bem afiadas. Pode ser utilizada em esquadrias, e outras áreas da construção civil, e também para fabricação de móveis de alto padrão.
• Timborana (Piptadenia suaveolens): Nativa da Amazônia, de cor
castanho-claro amarelado, é uma madeira de durabilidade e densidade moderada, também é média sua resistência a organismos xilófagos. É suscetível a empenos, quando de grã reversa. Proporciona bom acabamento, mas requer atenção especial nesta fase (MENEZES, 2012).
• Ipê (Tabebuia Serratifolia): Espécie presente na Mata Atlântica e
na Amazônia, o ipê tem uma cor oliva-amarronzado escuro, às vezes também tendendo ao castanho escuro avermelhado. Madeira de alta resistência, e alta densidade. De textura fina, proporciona ótimo acabamento, mas por sua resistência sua trabalhabilidade exige muito do profissional e do maquinário. Muito utilizada na construção civil em portais e esquadrias, também é utilizada na fabricação de móveis finos, pois é considerada de grande valor. Atualmente a oferta no comercio da região gradativamente torna-se mais escassa e com valores cada vez mais altos.
• Pau Roxo (Peltogyne spp.): Espécie presente na Mata Atlântica e
na Amazônia, o pau roxo, como o nome sugere, cerne roxo podendo escurecer com o tempo, alburno bege claro; brilho moderado a acentuado; cheiro e gosto imperceptíveis; densidade alta; dura ao corte; grã direita a irregular; textura fina a média.
• Maçaranduba (Manikara ssp.): Espécie presente na Amazônia
cor, castanho avermelhado.
Madeira de alta durabilidade a organismos xilófagos, muito densa, de dureza elevada. De grã direita, há poucos desenhos na textura visual. Seu cheiro é característico, quando está sendo usinada. Proporciona bom acabamento. Muito empregada na construção civil, por suas características, principalmente em madeiramento para cobertas.
• Eucalipto Grandis ( E u c a l y p t u s g r a n d i s ) :
Originário da Africa e Oceania, porém cultivados em diversas regiões do Brasil , destaque para Espírito Santo, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Bahia e Paraná. O cerne é castanho-rosado-claro, e o alburno é bege-rosado. É uma madeira de baixa densidade, de grã direita, com pouco brilho e de textura fina. Apresenta baixa durabilidade a organismos xilófagos e intempéries. Oferece bom acabamento e fácil usinagem.
É muito utilizada na construção civil para estruturas temporárias. Para mobiliários de uso interno, como cadeiras ou mesas, ainda assim o ideal é que a madeira receba tratamento de preservação devido à baixa resistência.
• Pinus (Pinus Elliottii): Originaria da Europa e Estado Unidos,
porém cultivada nas Regiões Sul e Sudeste do Brasil. Cerne e alburno ambos são branco-amarelados. Possui cheiro característico, mas não é desagradável. É uma madeira de baixa densidade, de grã direita, textura fina e brilho moderado.
O pinus tem baixa resistência, a organismos xilófagos, inclusive a cupins, e a intempéries. Em contrapartida, pode ser tratado de forma satisfatória devido à sua baixa densidade. Por essa razão é muito facilmente processado, e proporciona um bom acabamento.
É muito utilizado em mobiliários de média qualidade, torneados, todos para ambientes internos. É também muito usado na fabricação de peças para alguns mobiliários fabricados com placas de madeira transformada. Outras aplicações são embalagens, paletes, palitos de fósforo, são algumas possibilidades.
Estes são apenas alguns exemplos de madeiras existentes no território brasileiro, pois há grande variedade de espécies e o país é reconhecido mundialmente pela riqueza de sua biodiversidade (FERREIRA, 2003). Algumas espécies como Louro, Mogno Jacarandá, Peroba-Rosa, Cedrinho, e outras não foram citadas por estarem cada vez mais raras devido ao desmatamento predatório.
A utilização destes tipos de madeira deve ser avaliada caso-a-caso, considerando a escolha do material uma decisão importante na fase projetual do ciclo de vida do produto que será estudado no tópico seguinte.
2.4 CICLO DE VIDA DO MOBILIÁRIO EM MADEIRA
Como demonstrado no capítulo anterior, no desenvolvimento de produtos sustentáveis é importante observar o ciclo de vida dos produtos, e como sugere Corcuera (2009) analisar cada etapa deste ciclo de vida, a partir dos impactos ambientais e sociais causados por cada uma delas. Para tal, é necessário analisar as seguintes etapas: Extração, Transporte, Produção, Transporte, Instalação, Utilização, Descarte, Reciclagem. Sob a ótica dos seguintes aspectos: Funcionalidade, Desempenho, Durabilidade, Estética, Custos, Prazos de entrega e execução, Manutenção e reposição dos materiais, Domínio de tecnologia, Sustentabilidade. Como exemplifica a Figura 4.
Figura 4 – Análise do ciclo de vida
Fonte: Corcuera, 2009
No entanto Manzini (2008) reagrupa o ciclo de vida do produto de acordo com as seguintes fases, Pré Produção, produção, distribuição, uso e descarte. Neste trabalho, para descrever o ciclo de vida do mobiliário de madeira em geral, será utilizada a definição deste autor conforme apresenta o gráfico da Figura1 (p. 14).
2.4.1 Pré Produção
Para Manzini, (2008 p. 93) a pré-produção, é a fase em que sãos produzidos as matérias primas, utilizadas para a produção dos componentes, Manzini ainda descreve como momentos fundamentais dessa fase, a aquisição dos recursos, ou como Corcuera (2009) a extração da matéria, transporte do lugar da aquisição ao da produção, e a transformação do recurso em materiais.
Observa-se que grande parte da madeira maciça utilizada no Brasil é originaria da Floresta Amazônica e da Mata Atlântica. E são obtidas de três formas distintas: A extração predatória,
o manejo florestal, e extração de madeira plantada. Deve-se entender estes processos de extração para melhor projetar o ciclo de vida do produto.
A extração predatória é uma grande fonte obtenção dessa matéria prima, segundo FERREIRA (2003), estima-se que de 43% a 80%, da madeira extraída da Amazônia, é obtida de forma ilegal, ou seja advinda de áreas desmatadas ou extraída de forma predatória e insustentável. Além de desequilibrar o meio ambiente, neste sistema, populações indígenas são descaracterizadas, oprimidas ou corrompidas pelo comércio, o que modifica também o panorama cultural e social da região (BARROS & VERÍSSIMO, 2002).
Em contrapartida o manejo florestal é uma técnica economicamente viável, que reduz o dano da extração e aumenta sua produtividade de madeira, por meio de um rodízio de área planejado, a exploração pode acontecer a cada 30 ou 40 anos, e neste período de “descanso”, atividades de silvicultura que compõem o manejo, e a extração de sub-produtos e serviços florestais preservam a integridade do ambiente (idem, 2002). Sobre o conceito de manejo florestal Ferreira (2003) afirma:
É a forma correta de utilizar estes recursos naturais, por partir do princípio de sustentabilidade, ou seja, prevendo uma utilização que permita a recomposição da floresta de uma determinada área, viabilizando-a econômica, socialmente e ambientalmente. (FERREIRA, 2003)
Enquanto a extração da madeira reflorestada, ou seja, originárias de floresta plantada, cuja implantação, manutenção e exploração seguem projetos previamente aprovados pelo IBAMA. Neste processo na maioria das vezes são priorizadas espécies com crescimento mais rápido para retorno mais eficaz dos investimentos, inclusive espécies estrangeiras são utilizadas neste sistema de extração.
Desnecessário afirmar que o design para sustentabilidade deve determinar para projetos de produtos, madeiras provenientes de manejo ou de reflorestamento, que garantem a diminuição dos impactos ambientais da extração.
Depois da extração, o tronco da árvore é desgalhado, torado em peças de 6 metros aproximadamente, descascado e enviado em caminhões para as chamadas serrarias que de acordo com a geometria do tronco, executará o falquejo e desdobramento, processos que cortam o tronco, transformando-o em peças com bitolas comerciais (LIMA, 2006).
A madeira serrada pode ser encontrada nas formas de:
a) Vigas: São peças na forma retangular com espessura maior do que 40mm, largura entre 110mm e 200mm o comprimento pode variar de acordo com o tipo de madeira;
b) Tabuas: apresentam-se na forma retangular, com espessura entre 10 e 40 mm, largura
superior a 100mm e comprimento variável. Estes produtos são gerados a partir de toras, pranchas e pranchões;
c) Caibros, ripas e sarrafos: Tem múltiplas aplicações, geralmente são empregadas na
construção civil em madeiramentos de cobertas, entretanto podem ser empregadas na fabricação de móveis;
d) Outros formatos: Podem ser comprados por meio de encomenda.
Depois desses processos, a madeira segue por caminhões para o local de comércio, muitas vezes milhares de quilômetros distantes do local da extração, como é o caso das madeiras comercializadas no estado de Pernambuco, que em sua maioria são provenientes do Maranhão e do Pará. O designer deve reconhecer que este transporte também gera impactos ambientais como a emissão de gases poluentes, mesmo se a extração ocorre por manejo ou reflorestamento, sendo este um problema do sistema de transportes brasileiro que prioriza a rodovia.
2.4.2 Produção
Segundo Manzini, 2008 (p. 94) existem três momentos fundamentais para esta fase do ciclo de vida: A transformação dos materiais, a montagem, e o acabamento.
Mobiliários em madeira estão incluídos nesta definição e passam por esses três processos. As etapas para a produção de móveis podem ser sintetizadas no esquema representado na figura 5, que apresenta os processos de uma marcenaria, entretanto com uma ressalva, pois na maioria das vezes a montagem vem antes do acabamento, assim como propõe Manzini.
Figura 5 – Sequência teórica do trabalho sobre madeira sólida dentro de uma marcenaria
Fonte: LIMA, 2006, p. 109
As peças são adquiridas em bitolas comerciais, representadas no esquema no quadro “Matéria-prima”. Em seguida se inicia a transformação dos materiais que passam pela serra
para melhor dimensionamento, logo após, empenos e distorções são corrigidos na desempenadeira e desengrossadeira. Quando são necessários desenhos, rasgos e molduras, estes são feitos na tupia. Furadeira e respigadeira são máquinas que preparam encaixes. Começando então uma fase de pré-acabamento, a lixadeira é utilizada em algumas áreas das peças. Seguem para montagem, e só então o produto é lixado completamente. Segue-se a fase de acabamento, em que são utilizados seladores, vernizes, lacas, tintas ou outros materiais de acordo com o projeto do móvel.
Apesar da necessidade de um maquinário específico, o marceneiro, principalmente o de madeira maciça, ainda é considerado artesão pelo SEBRAE (Serviço Nacional de apoio às micro e pequenas empresas), o processo de produção dos móveis em relação aos operadores das máquinas, é caracterizado por um trabalho dinâmico, que requer habilidade manual e conhecimento em diversas áreas, como desenho, matemática aplicada e de ergonomia. Pois a produção deve se adequar para cada tipo de mobiliário fabricado, como por exemplo, camas, cadeiras, mesas, cômodas e etc.
2.4.3 Distribuição
Para Manzini (2008, p.95) esta etapa, é caracterizada por três momentos fundamentais; A embalagem; o transporte; a armazenagem.
O consumo nacional de móveis é praticamente todo suprido pelas indústrias domésticas. Quando os móveis são feitos por encomenda, geralmente em empresas próximas à instalação do móvel, a embalagem geralmente é dispensada. O transporte feito em veículos pequenos ou médios, e não há armazenagem, pois passa direto ao local do uso.
Também pode ocorrer do móvel ser comercializado e enviado a grandes distâncias. Geralmente as peças são envolvidas em plástico, e protegidas por uma caixa de papelão, ou de madeira processada em alguns casos que requeiram mais segurança. Móveis grandes, como guarda-roupas, por exemplo, são enviados desmontados, e são montados já no local de uso. Este transporte é feito por caminhões e o armazenamento é pelo empilhamento destas caixas em locais protegidos de umidade e do sol.
O Brasil tem incentivado a exportação de móveis por meio de ações da APEX (Agência de Promoção de Exportações e Investimentos do Brasil) e da ABIMÓVEL (Associação Brasileira das Industrias de Mobiliário), entretanto em estudos realizados demonstram que 87,3% das exportações estão concentradas nas empresas da região sul do país, e mais 7,2% para o estado de São Paulo (SILVA, 2006). Estes também passam por um invólucro de plástico, e são postos em caixas de papelão ou de madeira processada. Transportados em
caminhões, e dependendo do destino, são enviados por navios ou aviões de carga, até o destino final.
2.4.4 Uso
Aqui o móvel é usado por um período de tempo de acordo com sua função. Como já foi demonstrado anteriormente, a fase de uso do produto pode ser estendida com ações que aumentem sua durabilidade. Os móveis de madeira maciça tendem a durar mais que os móveis feitos em madeira processada, portanto tem período de uso maior se projetados corretamente. Um bom projeto deve ter informações ao consumidor, e inclusive, quando possível prever o mau uso do produto, tornando-o resistente e confiável.
Esta fase também inclui atividades de reparo e manutenção do funcionamento do produto, que infelizmente, pelo modelo atual de comércio de móveis o reparo é negligenciado. O comércio é priorizado, e os móveis são produzidos com materiais de baixa qualidade, e quando necessitam de reparos, o custo de comprar um novo móvel torna-se mais atraente que o conserto principalmente para os móveis de madeira processada.
No caso do reparo de móveis de madeira maciça, que muitas vezes possuem valores simbólicos para o seu proprietário, o reparo é um pouco dificultado pelo processo de produção que não previa manutenção, composto com junções permanentes. Entretanto na maioria das vezes é possível a substituição de peças e o reparo das funções. Não é difícil ouvirmos histórias de móveis de madeira maciça que são passados de geração em geração para as famílias, o que dificilmente ocorre com os móveis de madeira processada, que quando precisam de consertos são simplesmente descartados.
2.4.5 Descarte
Para Manzini, 2008 (p, 96), este é o momento de eliminação do produto, e uma série de opções se abre sobre esse destino final:
• Pode-se recuperar a funcionalidade do produto ou de alguns componentes. Uma ótima opção para colocar o produto de volta ao ciclo de vida, evitando a produção de um novo móvel. Há um leque de alternativas para essa finalidade, como é o caso da pátina, retrofitting ou reforma, decoupage, entre outros. Como mencionado acima, a maioria dos móveis de madeira maciça descartados podem ser consertados, entretanto o sistema produtivo atual prioriza o comércio, e um pequeno percentual de empresas se especializam em reparos no Brasil. Para os móveis de madeira processada, principalmente com materiais mais novos, que são menos resistentes, o custo de conserto são mais elevados que uma nova compra.
Outra opção é utilizar o produto ou partes deste em outra função como no exemplo da figura 6, onde portas de móveis tornaram-se objetos de decoração.
Figura 6 – Portas de móveis como objetos de decoração
Fonte: http://www.coletivoverde.com.br, 2015
• Pode-se valorizar as condições do material empregado: Usualmente para móveis, isto significa incinerar as peças para obtenção de energia. As peças usadas em fornos a lenha podem substituir o uso de gás GLP que é retirado do petróleo, em padarias, lavanderias ou outros mercados, mas não podemos negligenciar a poluição do ar gerada por esta ação,que pode ser amenizada por filtros em chaminés. Ainda mais perigosa é a utilização de madeira processada para este fim, pois os compostos químicos aglutinantes também incinerados podem potencializar esta poluição.
• Pode-se optar por não recuperar nada do produto: Sendo esta a pior opção de descarte no desenvolvimento sustentável. Neste caso, o móvel vai para o lixo (figura 7). Ou muitas vezes jogados em rios e córregos, causando mais impactos (Figura 8).
Figura 7 – Móvel de madeira processada no lixo Figura 8: Móvel jogado no Rio Tijipió
Sendo a madeira um material natural e bio-compatível, o impacto é menor que o descarte de polímeros por exemplo. Entretanto, geralmente este descarte é feito em locais e de maneiras inadequadas que impossibilitam a bio-degradação do material. O problema ainda aumenta quando se trata das madeiras processadas, que passam por processos químicos em sua composição e podem contaminar ainda mais o meio ambiente.
Observa-se que a utilização de materiais de baixa qualidade dificulta a reciclagem dos produtos. Até mesmo o baixo custo de móveis comercializados com materiais de baixa resistência, torna muitas vezes a reciclagem inviável economicamente. Cabe ao designer projetar de uma forma que até mesmo a fase de descarte seja valorizada, o que pode ser simples no caso dos mobiliários em madeira, quando se tem informações sobre o processo de fabricação, transporte, uso e descarte.
2.5 PRODUÇÃO LOCAL DE MOBILIÁRIO EM MADEIRA
Sendo o objetivo deste trabalho, o desenvolvimento de móveis a partir de refugos gerados na fase de produção de empresas caruaruenses de fabricação de móveis, além do conhecimento do ciclo de vida do produto, é valido que se conheça mais profundamente a produção na cidade.
Segundo estudos realizados em 2012, a maioria das empresas trabalha na informalidade, sendo que apenas 27% das empresas são cadastradas no CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica). Quase metade das empresas tem apenas 2 trabalhadores, um funcionário e o proprietário, o que demonstra o caráter artesanal da produção (MENEZES, 2012).
Quanto às matérias-primas, 28,8% das empresas utilizam madeira maciça, seja nativa ou reflorestada, enquanto os outros 71,2% utilizam madeiras processadas(idem, 2012). Neste trabalho serão utilizados apenas refugos de madeira maciça.
Os resíduos de produção são o pó fino ou grosso, e pedaços de madeira. De acordo com Menezes (2012), 67% das empresas jogam ao menos uma parte de seus resíduos no lixo. Os pedaços de madeira antes são cortados e armazenados em sacos, conforme a figura 9.
Figura 9 – Sacas de lenha: refugos de produção
Fonte: MENEZES, 2012
Nem todos os refugos de produção podem ser aproveitados, pois muitas vezes são pequenos demais para serem trabalhados nas máquinas com segurança, entretanto, existem muitos pedaços que antes de armazenados possuem potencial para aproveitamento, até por que são materiais de pré-utilização, como os demonstrados na figura 10, por exemplo.
Figura 10 – Pedaços de resíduos diversos
Fonte: MENEZES, 2012
O estudo comprovou que existe um desperdício de 16% de madeiras de reflorestamento, ou seja, este volume é descartado da produção por não se adequarem aos tamanhos de peças encomendadas. Como a maior parte da produção é por encomenda, as empresas não fabricam produtos para venda tradicional, e acabam descartando estes pedaços. Para a madeira-de-lei, o desperdício é ainda maior, chegando a 25% do volume de compra (MENEZES, 2012).
Com planejamento e design, uma boa parte destes resíduos pode ser utilizados de forma a entrarem no ciclo de vida de outros produtos reduzindo a necessidade da extração de outros recursos.
Diante destes dados, do conhecimento do ciclo de vida dos mobiliários de madeira, e de como pode-se criar uma relação simbólica e de durabilidade para o mobiliário, conhecer técnicas de produção dos móveis, para melhor adequar este produto ao desenvolvimento de produtos sustentáveis se torna necessário, visando é claro a minimização dos recursos e os processos de baixo impacto, assunto abordado no capítulo a seguir.
3 TÉCNICAS DE ENCAIXES PARA PRODUÇÃO DE MOBILIÁRIO
As técnicas de encaixes existem a centenas de anos, e essas técnicas, surgem como munição na produção de mobiliário para propor, projetos de design para a sustentabilidade. Inúmeros benefícios que podem ser obtidos com o mobiliário, apenas pela facilidade de desmontagem. Como descreve Manzini:
Design for Disassembly (DFD) quer dizer conceber e projetar produtos facilitando a sua montagem e desmontagem. Significa, portanto, tornar ágeis e econômicos o desmembramento das partes componentes e a separação dos materiais. (MANZINI , 2008, p. 243)
O simples fato de pode separar facilmente os componentes de um produtos, facilita conseqüentemente, a manutenção, a reparação de partes danificadas e substituição do peças, e a refabricação do produtos.
Ainda segundo Manzini, 2008 (p,243) as razões sustentáveis para adotar essa estratégia são, a extensão da vida útil dos produtos (a manutenção, a reparação, a atualização, e a refabricação). E a extensão da vida útil dos materiais (a reciclagem, a compostagem e a incineração).
3.1 SISTEMAS DE FIXAÇÃO DA MADEIRA
Os encaixes de madeira podem ser fixados de diversas maneiras. Abaixo, serão agrupados da seguinte maneira: Com cola; Com pregos ou parafusos; E apenas com uso de madeira.
3.1.1 Colagem
As técnicas de encaixes com cola são basicamente utilizadas para junções irreversíveis, ou seja, a colagem não permitirá separação de peças sem danos à estrutura do objeto, tonando-se menos ecoeficiente sob ponto de vista da manutenção e desmontagem. Estas técnicas utilizam a cola PVA (Poliacetato de vinila em solução aquosa), comumente conhecida por cola branca. Essa cola tem alta capacidade de adesão entre as partes, normalmente é necessária uma pressão unindo as peças a serem coladas, para isso usa-se ferramentas como grampo ou torno. Após a secagem, a cola apresenta alta resistência ao deslocamento.
Outras colas vem sendo desenvolvidas para o mercado da marcenaria, como por exemplo colas de cianoacrilato, que têm colagem instantânea, outro exemplo são colas a base de resina sintética que possuem resistência estrutural.